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The Fall of the Stars : Capítulo 5 - R.C.

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 27 de out. de 2025
  • 67 min de leitura

Volume 7: Contra-Ataque


Parte 1

28 de agosto de 20018, 05:30 da Manhã - Ilha Flutuante Apocalypse (Dormitório dos  Corvos)

Dante acordou com uma sensação proibida: algo macio e quente pressionado contra suas costas, como se o destino tivesse decidido jogá-lo direto em um trope de romcom de anime. Seus instintos, forjados em um fogo de incontáveis emboscadas matinais e ataques-surpresa de Yuki — aquelas clássicas cenas de "acordar com o perigo" que todo protagonista de shonen conhece —, gritaram antes que sua mente consciente pudesse processar. Ameaça detectada! Inimigo nas sombras! Ele rolou para longe, afastando-se para se proteger, o coração disparando em modo de combate total, pronto para invocar uma aura de Ether ou algo assim. Mas assim que se afastou, sentiu algo atrás de si também. Estava encurralado, preso em um sanduíche de perigos fofos!

Ele se virou num susto, os olhos se arregalando como os de um herói descobrindo um plot twist no capítulo 50. A figura de Shiranui Tenma, dormindo pacificamente em sua cama, o encarou com olhos fechados, o peito subindo e descendo em um ritmo calmo que contrastava com o pânico de Dante. Sua mente ficou em branco, piscando como um erro de renderização. Que sequência de eventos poderia ter levado àquela situação? Foi um filler episode? Ou isso é fanservice para o público?

TOC, TOC, TOC.

A batida na porta de seu quarto soou como uma sentença de morte, ecoando como o sino do julgamento em um mangá de fantasia. Não! Não agora! Se for Yuki, isso vira um ecchi de comédia, e eu sou o protagonista azarado! Sem pensar duas vezes, ele saltou pela janela, o vento matinal bagunçando seus cabelos enquanto gritava internamente: Hoje eu escapo do loop de dor! Viva a rota alternativa!

Ele aterrissou no chão com a graça de um gato — ou pelo menos era o que imaginava, posando dramaticamente com uma mão no chão e a outra estendida como se invocasse um feitiço. Mas o impacto veio logo em seguida: colidiu com outra figura que passava, os dois rolando pelo gramado úmido de orvalho, uma bola de braços e pernas emaranhados, como uma cena de luta cômica em um anime de slice of life.

— Ai! Que ideia é essa, seu idiota?! — gritou uma voz furiosa e familiar, acompanhada de faíscas azuis crepitando no ar.

Dante se levantou, piscando confuso, esfregando a cabeça. — Yuki? O que você está fazendo aqui fora? 

— Fui com a Kurokawa comprar pão fresco, já que a Beatrice, o Kintoki e o Luck saíram em missão hoje de madrugada — explicou ela, limpando a grama da roupa com movimentos irritados, os cabelos ainda eriçados de eletricidade estática. — E você? Saltando pela janela? Espera aí... — Seus olhos se estreitaram, subindo para a janela do quarto de Dante.

O cérebro de Dante começou a conectar os pontos, como um detetive em um arco de mistério. Se Yuki estava ali fora, comprando pão com Kurokawa — que agora aparecia no portão com sacolas cheirando a fermento fresco e croissants quentes —, então quem estava batendo em sua porta? Ele olhou para cima, para a janela aberta do quarto. Olhando para baixo, confusas, estavam Mirai, Shiranui... e Anna, que acenava com uma expressão de "o que você tá fazendo aí embaixo?". Ele percebeu na hora: a batida fora de Anna, provavelmente só para acordá-lo ou algo inocente.

Ao seu lado, um som crepitante começou, como o zumbido de uma máquina sobrecarregada. Yuki, que havia seguido seu olhar e visto a cena completa — duas garotas (e agora Anna se juntando) saindo do quarto de Dante pela manhã, com expressões sonolentas e cabelos bagunçados —, chegou à conclusão mais óbvia e errada. Sua aura começou a estalar com eletricidade, faíscas azuis dançando nos dedos como um efeito especial de baixo orçamento.

Dante só pôde olhar para o céu, derrotado, erguendo os braços em uma pose dramática. — Por acaso isso é um evento canônico no meu destino? — murmurou, imaginando uma tela de "To Be Continued" piscando sabendo que só isso poderia o salvar.

A descarga elétrica, combinada com um chute de força total que o mandou voando de novo pelo gramado, foi a única resposta. Yuki gritou algo sobre "pervertido incurável" enquanto Kurokawa ignorava a cena. 

Algum tempo depois, todos estavam na cozinha, o coração pulsante da mansão, onde o cheiro de ovos fritando, pão torrado e café fresco preenchia o ar como uma sinfonia matinal. Dessa vez, Dante e Kurokawa estavam encarregados do café da manhã, uma dupla improvável que transformava a rotina em um espetáculo. Dante virava os ovos na frigideira com floreios exagerados, como se fosse um chef de anime, girando a espátula como uma espada. Kurokawa, ao seu lado, cortava frutas com precisão, rindo das palhaçadas dele, o som de sua risada leve contrastando com a bagunça ao redor.

Enquanto Dante dava um tapinha gentil na cabeça de Kurokawa, elogiando seu corte perfeito de maçãs, Vivian sussurrou para Charlotte, inclinando-se sobre o balcão com olhos brilhantes de fofoca. — Você está vendo isso, não é? Ele trata a Kurokawa como se fosse uma criança. Tipo, zero tensão romântica. É fofo, mas... estranho.

Kai, esperando impacientemente por sua comida, apontou com o garfo como uma arma, o estômago roncando alto o suficiente para ser ouvido por todos. — Tenho certeza que minhas panquecas teriam ficado mais gostosas se eu tivesse cozinhado. Esses ovos aí parecem moles demais!

Dante fingiu não ouvir, mas piscou para Kurokawa, que riu e passou mais frutas para ele. Anna, no entanto, confirmou com um aceno, mastigando um pedaço de pão. — É verdade. Ele nunca fica vermelho ou imagina coisas com ela. É tipo... uma zona segura. "Principalmente para minha mente"

Nem o próprio Dante sabia explicar o motivo. Perto de Kurokawa, seu coração continuava no ritmo padrão, como se ela fosse o "power-down" em um jogo de RPG.

— Por acaso você não acha ela bonita, Dante? — perguntava Vivian, descaradamente, enquanto as outras garotas fingiam não estar interessadas.

Até Kurokawa se virou para ouvir a resposta.

— Ela é bonita, mas é mais fofa que bonita. Sabe, tipo um filhote de cachorro — Dante falava de forma honesta, sem saber como se expressar melhor.

— Eu vou tentar levar isso como um elogio — Kurokawa comentou, continuando a colocar a comida na mesa.

— Ela é muito fofa mesmo. Afinal, se ele tivesse falado isso para mim, eu teria explodido a cabeça dele contra o chão agora — dizia Yuki, sorrindo enquanto visualizava a cena.

— Yuki, estou seriamente começando a achar que você quer me ver morto — Dante comentou, com o rosto pálido de medo.

Lamentarsi quando fa qualcosa senza motivo. — Ludmilla falou, descendo as escadas e se juntando ao grupo.

Charlotte então soltou um suspiro de alívio quase inaudível. Quando percebeu que alguns olhares se viraram para ela — Vivian erguendo uma sobrancelha com um sorriso malicioso —, ficou com vergonha, as bochechas corando, e mudou de assunto rapidamente. — Falando em garotas, e a Kirino? 

— Não sei — disse Anna, servindo-se de mais ovos, o garfo tilintando no prato. — Quando acordei, ela já não estava lá. Imagino que o grupo dela a tenha buscado no meio da noite para alguma missão. Ela é... imprevisível.

Foi então que Charlotte, com um tom de empolgação misturada a incredulidade, explicou a verdade para Anna e para os outros que ainda não sabiam. — Anna, a Kirino... ela é a segunda no ranking dos dez melhores. 

O silêncio na cozinha foi total, quebrado apenas pelo chiado da frigideira esfriando. Pratos pararam no ar, bocas abertas. Kai foi o primeiro a quebrá-lo, com uma gargalhada explosiva que fez o suco na mesa tremer. 

— HAHAHAHA! Então você, o grande Número 10, é mais fraco que uma criancinha fofa?hahaha!  Aposto que ela te derruba com um olhar! — Kai ria apontando para dante. 

A resposta de Dante foi colocar apenas um ovo frito, visivelmente menor e mais murcho, no prato de Kai. A discussão que se seguiu foi previsível: Kai erguendo o garfo como uma lança, gritando, enquanto Dante respondia jogando frutas no ar.

Mirai, que se juntou a eles com um bocejo preguiçoso, olhou para Shiranui, que comia em silêncio. — O que você estava fazendo no quarto dele, afinal? — perguntou, piscando inocentemente enquanto roubava um pedaço de bacon do prato de Dante.

— Podia perguntar o mesmo para você — retrucou Dante,parando de lutar contra kai por alguns minutos.

— Ouvi boatos de que alguns grupos estavam caçando Dante — disse Shiranui, com sua calma habitual, cortando o ovo. — Fui para garantir que ele estaria bem. 

— Agradeço, mas não precisava se preocupar. Eu ficaria bem — disse Dante, com a mesma arrogância de sempre sorrindo. 

— Você não deveria subestimar os inimigos assim — interveio Charlotte, balançando a cabeça enquanto passava manteiga no pão. — Não dá para saber o que eles realmente fariam. Esses grupos fora de controle são imprevisíveis.

Dante ignorou, começando a comer com apetite voraz. — Falando em caça, o que você queria comigo mais cedo, Anna? 

— Só queria ver se você tinha visto a Kirino sair. Mas acho que não — respondeu Anna, rolando os olhos, mas com um sorriso escondido enquanto pegava mais frutas.

— Bem, eu comecei a planejar uma estratégia para derrubar o líder dos Juízes — disse Charlotte, retomando o assunto da semana com entusiasmo renovado, gesticulando como uma general em uma reunião de guerra. — Primeiro, temos que conseguir o apoio do público, fazendo-o ver os erros que os juízes estão cometendo e comprometendo a imagem pública dos líderes. Como é possível mudar todo o corpo estudantil através de voto, se fizermos isso poderemos levar o problema até o presidente do conselho e, assim, apresentar uma alternativa mais viável. Para mostrar nosso valor, desafiamos O líder dos Juízes para um duelo, para mostrar como seríamos muito mais úteis para o colégio.  

— Você só tem esta semana para provar seu valor, novata! — desdenhou Kai, mastigando ruidosamente.

— Também não acho que seja possível em tão pouco tempo — concordou Mio, cruzando os braços enquanto bebia suco.

Dante, de boca cheia, também concordou com um aceno vigoroso. — Não vai dar certo. Isso é como tentar fazer um speedrun em um RPG, sem usar itens!

Charlotte sabia, mas parecia a única forma, seus ombros caindo ligeiramente. Asuna tentou animá-la, tocando seu braço gentilmente. 

— Mas pensem, não tem como conseguir algo assim sem um plano de longa visão...— Asuna falava bem baixinho. 

— Será mesmo? — Dante murmurava, um brilho travesso nos olhos.

Ele se levantou e caminhou em direção às escadas, pegando sua mochila com um movimento dramático. Shiranui, sua sombra silenciosa, o seguiu automaticamente.

— Onde você está indo agora? — perguntou Anna, erguendo uma sobrancelha enquanto todos paravam de comer para olhar.

— Adoraria ajudar na busca pela sua amante para convidá-la para mais uma noite de carícias — ele provocou, piscando para Anna e fazendo-a corar furiosamente, jogando um pedaço de pão nele, que ele pegou com uma mordida. — Mas hoje é o dia prometido!

— E que dia seria esse? — Kai perguntou sem rodeios. — Está planejando lutar com alguém?

— Não, finalmente chegou o dia! O dia em que eu e o Shimura trocaremos volumes de mangá! — Ele ergueu sua mochila como se fosse um tesouro sagrado, cheia de edições de colecionadores. 

A decepção coletiva na sala foi palpável: 

— Tsk. Puta perda de tempo! — Kai falou revirando os olhos.

— Posso ir também? — perguntou Mirai, com um sorriso doce e inocente, inclinando a cabeça.

— O que você está fazendo?! — sibilou Yuki, puxando-a para um canto da cozinha, os olhos faiscando. — A ideia era vigiá-lo das sombras.

— Mas nada impede de vigiá-lo de perto — retrucou Mirai, piscando com falsa inocência. — Além disso, uma garota acompanhando um garoto... pode ser divertido, né? Tipo um date disfarçado! 

Ao ouvir aquilo Yuki ficou tão vermelha que não conseguiu continuar, gaguejando algo sobre "Mais isso e….".

Mirai se virou para Dante, batendo palmas. — Posso?

Dante suspirou, olhando para Shiranui, que o encarava sem mudar de expressão, alheia a qualquer subtexto, como uma guarda-costas estóica. 

— Tanto faz. Já vou ter que lidar com ela me seguindo o dia todo mesmo. 

Parte 2 

28 de agosto de 2018, 04:30 da Manhã - Ilha Flutuante Apocalypse (Dormitório de Elite de Emilia)

Enquanto a manhã no alojamento do Circle of Ravens nascia em uma cacofonia de gritos, colisões e o cheiro acre de ovos queimados, em um dos dormitórios de elite de Babylon, o amanhecer chegava como um sussurro, suave e etéreo, como se o próprio tempo se curvassem à presença de sua ocupante. A luz do sol, filtrada por cortinas de seda pesada, deslizava pelo quarto imaculado, pintando as paredes de tons dourados e pálidos que pareciam dançar em reverência. Não havia despertadores, nem o caos de vozes ou risadas desajeitadas. Apenas o silêncio, pontuado pela batida suave e ritmada que ecoou na porta de carvalho exatamente às quatro e meia.

— Senhorita Emilia. São quatro e meia — anunciou a voz de Albert, seu mordomo, um homem de meia-idade cuja presença era tão discreta quanto o tique-taque de um relógio suíço, eficiente e impecável.

Emilia Bellasartes abriu os olhos com a graça de uma pintura ganhando vida. Não havia sobressalto, nem a preguiça que se agarra ao sono comum. Seus olhos, de um azul cristalino que parecia capturar o céu em sua profundidade, encontraram o teto com uma clareza instantânea, como se o próprio despertar fosse um ato de precisão. Ela se sentou na cama, os lençóis de algodão egípcio caindo em dobras perfeitas ao seu redor, como se obedecessem a uma ordem silenciosa. Seus cabelos loiros, brilhando como fios de ouro líquido sob a luz suave, caíam em cascata sobre os ombros, cada mecha posicionada como se tivesse sido esculpida por um mestre artesão.

O quarto era um santuário de ordem e elegância, um reflexo da mente que o habitava. Livros nas prateleiras, alinhados com precisão milimétrica, pareciam sentinelas de conhecimento; objetos de decoração — uma estatueta de mármore, um vaso de cristal com uma única orquídea branca — estavam posicionados com uma simetria que desafiava o caos do mundo exterior. As paredes, pintadas em um tom de marfim, exalavam uma aura de serenidade quase sagrada, como se o próprio espaço reconhecesse a presença de sua dona. Emilia era a personificação da perfeição, uma santa ou anjo caminhando entre mortais, mas sob aquela fachada de nobreza e graça, havia uma dualidade que pulsava como um segredo guardado.

Com movimentos fluidos, ela se levantou, o robe de seda branca roçando sua pele como uma carícia. Sua rotina matinal era uma sinfonia orquestrada, cada nota executada com precisão. Uma hora era reservada para atividades físicas, mas não os exercícios comuns dos outros alunos. Emilia vestiu uma roupa especial, tecida com magia de runas que a tornava pesada como toneladas, transformando cada passo em uma prova de força e determinação. Na esteira, ela corria com uma leveza que contradizia o peso esmagador da vestimenta, o suor brilhando em sua pele como orvalho em uma pétala. Agachamentos e flexões, realizados com a graça de uma bailarina, eram um espetáculo de disciplina, cada movimento um testemunho de sua busca incansável pela perfeição. Enquanto corria, fones de ouvido delicados transmitiam podcasts educativos ou audiolivros de filosofia e estratégia, sua mente absorvendo conhecimento com a mesma voracidade com que seu corpo desafiava os limites. Era o ápice da eficiência, uma dança de produtividade que transformava o ordinário em extraordinário.

Após o treino, Emilia dirigiu-se ao banheiro, um espaço tão luxuoso quanto o resto de seu domínio. A água fria do chuveiro cascateava sobre sua pele impecável, cada gota parecendo reverenciar a obra de arte que era seu corpo. Não havia defeitos visíveis — suas proporções eram perfeitas, como se esculpidas por um escultor divino, e seus cabelos, mesmo molhados, mantinham um brilho que parecia desafiar a lógica. Ela emergia do banho como uma deusa saindo do mar, a toalha envolvendo-a com a mesma elegância que a luz do sol abraçava o quarto.

Ao sair, seu uniforme escolar, já passado e pendurado com precisão militar, a aguardava. Cada dobra era perfeita, cada botão reluzente, como se o próprio tecido reconhecesse a importância de quem o vestiria. Emilia se vestiu com movimentos lentos e deliberados, cada gesto uma afirmação de controle. A camisa branca abraçava sua silhueta com uma precisão que parecia desafiar a costura humana, e a saia plissada caía em linhas impecáveis, como se desenhada para ela e somente ela. Era uma rotina orquestrada, uma dança de precisão silenciosa que refletia sua essência: ordem em um mundo de caos.

Às cinco e trinta, ela desceu para o desjejum, os passos ecoando suavemente no corredor de mármore. A mesa estava posta com uma louça de porcelana fina, talheres de prata reluzindo sob a luz de um candelabro delicado. Albert, sempre à espreita, serviu o chá — uma mistura exclusiva de Ceilão com um toque de bergamota, o aroma enchendo o ar com uma fragrância que era ao mesmo tempo reconfortante e aristocrática.

— O chá está dois graus mais quente que o ideal, Albert — disse Emilia, após o primeiro gole, a voz suave, mas carregada de uma autoridade inquestionável, os olhos fixos na xícara como se avaliassem o próprio mundo.

— Minhas mais sinceras desculpas, senhorita. Não voltará a acontecer — respondeu Albert, inclinando a cabeça com uma deferência que beirava o sagrado, já se movendo para corrigir o erro com a precisão de um relógio.

Ele então entregou um tablet, a tela brilhando com dados organizados. — O relatório das atividades noturnas do campus, como solicitado. Houve um aumento de 32% nos duelos não sancionados após o toque de recolher e múltiplos relatos de distúrbios vindos do alojamento não oficial ocupado pelo grupo Circle of Ravens.

Emilia soltou um suspiro quase inaudível, um som de puro desdém que parecia condensar todo o seu julgamento. Seus olhos, brilhando com uma intensidade que misturava frieza e fervor, percorreram o relatório com uma atenção que não deixava espaço para erros. Para ela, o Jogo das Coroas era uma ferramenta necessária, um crisol para forjar a elite, mas também uma fonte de vulgaridade que manchava a nobreza da academia. Aqueles desajustados barulhentos — os Corvos, com seus gritos e caos — eram uma afronta à ordem que ela jurara proteger. Como a oitava mais forte, e como futura guardiã de um legado que pesava sobre seus ombros, era seu dever podar esses ramos indisciplinados, arrancar as ervas daninhas que ameaçavam o jardim perfeito de Babylon.

Ela terminou seu café da manhã — um suflê de ovos perfeitamente aerado, tão leve que parecia flutuar no prato, acompanhado de frutas frescas cortadas em simetria divina, cada pedaço uma obra de arte — e se levantou, o movimento tão fluido que parecia desafiar a gravidade. Antes de sair, seu olhar pousou sobre a rapieira longa e elegante que descansava em um suporte perto da porta, sua lâmina reluzindo com um brilho quase sobrenatural. A arma parecia zumbir em sua presença, como se reconhecesse a guerreira que a empunharia. Emilia não era apenas uma nobre; era a Santa da Guerra, uma figura de pureza e poder cuja mera existência parecia dobrar o mundo ao seu redor.

Sua jornada para a aula era a antítese da corrida caótica dos outros alunos. Enquanto caminhava pelos pátios de Babylon, os paralelepípedos polidos refletindo a luz da manhã, os outros abriam caminho instintivamente, como se uma força invisível os compelisse. Conversas diminuíram para sussurros, risadas se calavam, e olhares se dividiam entre admiração e temor. Emília não corria; o mundo ao seu redor simplesmente se ajustava ao seu ritmo, como ondas se abrindo para uma embarcação majestosa. Ela não esbarrava em ninguém; as pessoas se desviavam de seu caminho, os olhos baixos, como se temessem macular sua presença com um toque descuidado.

Enquanto Emilia Bellasartes caminhava em direção aos portões principais da academia. Dois Juízes do Crepúsculo, com posturas retas como estátuas e uniformes tão imaculados quanto o dela, aguardavam-na na entrada, suas silhuetas recortadas contra o arco de pedra polida do portão. Ao vê-la se aproximar, eles executaram uma reverência elegante e precisa, um movimento sincronizado que parecia ensaiado por anos, sem um pingo de hesitação ou imperfeição.

— Bom dia, Senhorita Bellasartes — saudaram em uníssono, as vozes ressoando com um respeito que beirava a veneração.

Emília respondeu com um leve aceno de cabeça, um gesto tão sutil que poderia passar despercebido, mas que carregava a autoridade de uma rainha. Nos olhos deles, ela via a mesma expressão que encontrava em quase todos: uma admiração que transcendia o comum, uma adoração que a elevava a algo mais que humano. Eles lhe entregaram uma pilha de relatórios e petições, o trabalho burocrático que consumia suas manhãs, organizados com uma precisão que espelhava sua própria mente.

— Obrigado. Bom, agora e hora de prosseguirmos. — disse ela, a voz calma, mas carregada de uma autoridade que não admitia questionamentos.

Enquanto seus companheiros a seguiam, em uma caminhada silenciosa a seu lado, Emilia começou a analisar os papéis, seus olhos percorrendo as linhas com uma velocidade impressionante, como se cada palavra fosse absorvida instantaneamente. Seus passos, firmes e ritmados, ecoavam nos paralelepípedos do pátio, cada movimento uma afirmação de controle. Ela se dirigia à ala dos clubes,  onde um certo clube precisava de sua atenção, uma tarefa que, para ela, era mais um passo na missão de manter a ordem em Babylon. Mas, no caminho, uma cena de vulgaridade abjeta capturou sua atenção, como uma mancha escura em um quadro perfeito.

Na entrada da sala do clube de culinária, um grupo de vândalos — alunos de porte avantajado, com uniformes desalinhados e sorrisos cheios de desrespeito — havia encurralado os membros do clube. Louças quebradas e vasos de plantas estilhaçados cobriam o chão, o ar carregado com o cheiro de cerâmica despedaçada e terra úmida. Os cozinheiros, alguns à beira das lágrimas, seguravam bandejas e utensílios como se fossem escudos frágeis, seus rostos pálidos de medo. O líder dos vândalos, um brutamontes com ombros largos e um sorriso cruel que parecia esculpido em desprezo, erguia a voz, cada palavra um golpe.

— ...e esse foi só o aquecimento — rosnava ele, inclinando-se sobre um dos cozinheiros, que recuava tremendo. — Ou vocês aceitam nosso "gentil" pedido para um Jogo das Coroas, ou nós vamos entrar aí e fazer um lanche. E Talvez a gente aproveite e re-decore o lugar no processo, que tal?

Os cozinheiros, acuados, pareciam prestes a ceder, o medo superando a razão, os olhos buscando desesperadamente uma saída. Para Emilia, aquela cena era a personificação da doença que se espalhava por Babylon: a força bruta esmagando a delicadeza, o caos zombando da ordem. 

— Alan — disse ela, sem tirar os olhos da cena, a voz tão fria e afiada quanto a lâmina que carregava. — Segure isto por um instante.

Com um movimento tão natural quanto respirar, ela entregou a pilha de papéis ao membro dos juízes que a acompanhava, que os aceitou com uma inclinação silenciosa. Emilia deu um passo à frente, sua mão deslizando até o cabo da rapieira que pendia em sua cintura. A lâmina saiu da bainha com um sussurro metálico, o aço brilhando como se capturasse a luz da manhã e a transformasse em algo vivo. No instante em que a arma encontrou o ar, uma aura de um verde pálido e luminoso a envolveu, movendo-se e zumbido como uma brisa que ganhava forma, uma extensão de sua própria vontade.

Aerio.

A palavra foi um sussurro, mas carregava o peso de um comando divino, como se o próprio vento obedecesse à sua voz. Sua aura se agitou, o ar ao seu redor vibrando com uma energia que parecia dobrar a realidade. Em menos de um piscar de olhos, ela se moveu — não correu, nem saltou, mas fluiu, um borrão esmeralda que atravessou o espaço como uma folha carregada por uma tempestade. Em um instante, ela estava entre os agressores e suas vítimas, de costas para os cozinheiros, a rapieira apontada para o chão, mas sua presença tão imponente que parecia preencher o pátio inteiro.

— Este duelo — declarou ela, a voz fria como o vento que corta as montanhas. — foi negado.

O grupo de vândalos recuou, alarmado, os olhos arregalados ao reconhecerem a figura diante deles. Sussurros frenéticos ecoaram entre eles, carregados de pavor e reverência.

— É a Santa Emilia! — murmurou um, a voz tremendo.

— A Juíza do Vendaval! — exclamou outro, já dando um passo para trás.

Mas o líder, com a arrogância de quem confia na força bruta, não se intimidou. — Já estou farto de obedecer tantas regras! — gritou ele, a voz rouca de desafio. — Caçadores deveriam ser livres!

Ele avançou, seu punho envolto por uma camada espessa de terra e rocha, transformando-se na manopla de um golem gigantesco. O ataque era puro poder bruto, um martelo de pedra destinado a esmagar tudo em seu caminho, o chão tremendo sob o peso de sua investida. Os cozinheiros gritaram, alguns cobrindo os olhos, enquanto o ar se enchia do som de terra rachando.

Emilia nem piscou. Seus olhos, brilhando com uma clareza que parecia enxergar além do momento, fixaram-se no adversário. Ela moveu sua rapieira em uma única estocada, tão rápida que o movimento era quase invisível, a ponta da lâmina envolta em um vortex de vento esmeralda. A arma encontrou o centro do punho de pedra com precisão cirúrgica. Não houve explosão, apenas um som agudo, como o estalar de uma corda esticada sendo liberada. A força concentrada de seu ataque desfez a manopla de terra em uma nuvem de poeira, e a energia do vento lançou o vândalo para trás, como se tivesse sido atingido por um trem invisível.

Antes que ele se chocasse contra o prédio ao fundo, uma corrente de ar o envolveu, levantando-o no céu com a graça de uma folha capturada por uma brisa. Então, com um gesto de sua mão livre, Emilia o trouxe de volta ao chão com força, o impacto ecoando pelo pátio enquanto ele caía, gemendo, o orgulho tão quebrado quanto sua armadura de pedra.

— “Caçadores deveriam ser livres”? — repetiu ela, o desdém em sua voz tão afiado quanto a lâmina em sua mão. — Típica frase daqueles que não têm disciplina.

Ela se virou para os demais vândalos, que já tropeçavam uns nos outros em uma tentativa desesperada de fugir. Erguendo sua rapieira para o céu, ela fez sua aura girar, o vento ao seu redor ganhando vida como um ser senciente. Um tornado em miniatura formou-se ao redor da lâmina, um vórtex de luz esmeralda que parecia pulsar com a força de uma tempestade contida. O redemoinho puxou os vândalos em sua direção, seus gritos abafados pelo rugido do vento. Correntes de ar visíveis, como cordas vivas, serpenteavam pelo ar, prendendo braços e pernas com uma precisão que era ao mesmo tempo bela e aterrorizante. O tornado se dissipou em um instante, e os vândalos caíram no chão, imobilizados, derrotados, seus rostos uma mistura de choque e humilhação.

Dois movimentos. Era tudo o que havia sido preciso.

Com a mesma elegância com que desembainhou sua arma, Emilia guardou a rapieira, o aço deslizando para a bainha com um clique suave que ecoou como um ponto final. Não havia um único fio de cabelo fora do lugar, nem uma gota de suor em sua testa imaculada. Sua presença, mesmo após o combate, permanecia intocada, como se o caos ao seu redor não ousasse desafiá-la. Ela se aproximou de seus secretários, os outros dois membros dos juízes, que a aguardavam com a pilha de papéis nas mãos, os olhos brilhando com uma admiração silenciosa. Emilia pegou os relatórios de volta, seus dedos roçando o papel com a delicadeza de quem toca uma relíquia, e continuou seu caminho sem dirigir um único olhar aos cozinheiros, que agora a encaravam com olhos marejados, a adoração estampada em seus rostos como se tivessem visto um milagre.

— Muito Obrigado Lady emillia. — Dizia O líder dos cozinheiros, enquanto os demais repetiam atrás dele em uníssono. 

Parte 3

A praça central de Babylon era um raro oásis de calma em meio à tempestade incessante do Jogo das Coroas. Sob a sombra frondosa de uma árvore, cujas folhas sussurravam com a brisa morna da manhã, Dante Scarlune e Shimura Tendo estavam sentados lado a lado em um banco de pedra, completamente imersos em seus mundos de papel e tinta. O sol filtrava-se pelos galhos, lançando manchas de luz que dançavam sobre as páginas dos mangás abertos. Ao redor, o burburinho distante de alunos correndo para treinos ou discutindo estratégias parecia apenas um eco, incapaz de romper a bolha de tranquilidade que os dois haviam criado.

— De fato, Dante-dono, a reviravolta no arco do festival foi sublime — dizia Tendo, ajustando os óculos com um ar sério que misturava a formalidade de um samurai com a paixão ardente de um otaku devoto. Ele segurava seu mangá como se fosse um tomo sagrado, os olhos brilhando enquanto apontava para uma página. — A forma como Kaelan superou o traidor com aquela técnica nova... foi arte pura! Contudo, anseio pelo próximo capítulo. A espera é uma tortura para a alma, como aguardar o desfecho de um duelo épico!

— Exatamente, Tendo-kun! — concordou Dante, virando uma página com um entusiasmo que fazia o banco tremer, seu sorriso largo como o de um aventureiro descobrindo um tesouro. — Serio to procurando o novo volume em todo canto, até nas lojas obscuras do mercado negro de Babylon! O autor fez esse final de proposito… ele usou o cliffhanger maldito que te faz ficar louco para ver oque vai rolar a seguir.  — Ele bateu o punho na palma da mão.

A conversa foi interrompida por uma presença súbita, tão leve quanto uma brisa, mas impossível de ignorar. Mirai Bianchi havia se aproximado por trás, silenciosa como uma sombra, e inclinou-se sobre o ombro de Dante para espiar o mangá com olhos curiosos. O perfume suave de lavanda que a acompanhava misturou-se ao aroma de grama recém-cortada, criando uma aura que parecia pausar o tempo. — Oh, sobre o que estão falando com tanto fervor? — perguntou ela, a voz melodiosa carregada de um tom brincalhão, os cabelos pretos com mechas brancas caindo em cachos perfeitos sobre o ombro de Dante.

Tendo deu um pulo, afastando-se como se tivesse levado um choque elétrico, o rosto corando em um tom de vermelho que rivalizava com as capas dos mangás. Ele olhou para a ilustração na página que Dante segurava — uma cena de garotas-guerreiras em armaduras reveladoras, posando com espadas flamejantes em um estilo clássico de fanservice. Para Tendo, era como se Mirai os tivesse pego em flagrante cometendo um crime contra a decência. Ele imaginava que ela os acharia esquisitos, estranhos, dois otakus perdidos em um mundo que não entendia sua paixão. Seus óculos quase escorregaram do nariz enquanto ele gaguejava, tentando esconder o mangá contra o peito. 

— N-não é o que parece, Bianchi-san! É... é…

Dante, no entanto, não demonstrou a menor sombra de vergonha. Ele ergueu o mangá com orgulho, e sorriu para Mirai com confiança. — É sobre a jornada de Kaelan a guerreira da lua para salvar o Reino de Zolan — explicou, apontando para as páginas com entusiasmo. — A arte é meio pesada no fanservice, mas as coreografias das lutas são geniais! Cada golpe é desenhado com uma precisão que faz você sentir o impacto! Quer ver? Aqui, olha essa cena onde ele enfrenta o dragão de mil lâminas! — Ele virou o mangá para ela, narrando a trama com a empolgação de quem apresenta um épico da literatura.

Mirai, em vez de julgar, inclinou-se mais perto, os olhos brilhando com genuína curiosidade enquanto acompanhava as páginas. 

— Entendo... então é tipo um conto de fantasia com batalhas épicas? Parece bem interessante. — disse ela, sorrindo, sua voz tão natural que desarmava qualquer tensão. Ela apontou para uma personagem de armadura reluzente. — Essa aqui é a vilã ou a aliada? Eu gostei da armadura dela.

Tendo observava a cena, boquiaberto, o coração ainda acelerado, mas agora por admiração. As pessoas ao redor de Dante-dono eram sempre inacreditaveis, aceitando suas paixões com uma naturalidade que ele, com sua timidez e inseguranças, ainda lutava para alcançar. Ele ajustou os óculos, tentando se recompor, e murmurou: 

— Bianchi-san... você realmente entende o espírito do mangá!

Mirai se endireitou, o sorriso curioso dando lugar a uma expressão pensativa, como se uma sombra de preocupação cruzasse seu rosto. Ela cruzou os braços, hesitando por um instante antes de falar. 

— Dante, eu entendo que você goste disso, mas... está mesmo tudo bem? Quero dizer, com tudo o que está acontecendo no Jogo das Coroas, você não deveria estar em um treino intensivo para ficar mais forte? Não é... uma perda de tempo? — Sua voz era suave, mas carregada de uma preocupação genuína, os olhos buscando os dele como se tentasse entender o que o movia.

A pergunta pairou no ar, pesada como uma nuvem antes da tempestade. Tendo sentiu um aperto no peito, a dúvida ecoando em sua própria mente. Era a mesma questão que o assombrava às vezes, quando se pegava lendo mangás em vez de treinar suas habilidades. Ele olhou para Dante, esperando uma resposta, os óculos refletindo a luz do sol.

Dante, no entanto, apenas sorriu, um sorriso calmo e profundo que parecia iluminar a praça. Ele fechou o mangá com cuidado, como se encerrasse um capítulo sagrado, e seu olhar se perdeu no horizonte por um instante, onde o céu azul se misturava com as nuvens brancas. 

— É óbvio que está tudo bem, Mirai — disse ele, a voz suave, mas carregada com o peso de quem já havia enfrentado mais do que revelava. — É exatamente por isso que eu preciso fazer isso.

Ele se recostou no banco, o mangá descansando em seu colo, e continuou, as palavras fluindo como uma confissão. — Nós estamos vivos, sabe? E estar vivo significa perder tempo de vez em quando. Os mortos... eles são afastados de tudo que amavam. Não podem ler mais um capítulo, não podem comer aquele prato favorito, não podem rir de uma piada idiota com um amigo num dia ensolarado como este. — Ele riu baixo, apontando para a árvore acima, onde uma brisa fazia as folhas dançarem. — Nós, caçadores, vivemos correndo atrás da morte, com ela sempre ao nosso lado, como uma sombra que nunca dorme. Por isso, às vezes, é tão importante parar. Parar o treinamento, os planos, as lutas. E só... aproveitar as pequenas coisas que fazem a vida valer a pena. Porque se morrermos amanhã, essa é a única forma de não nos arrependermos quando a hora chegar.

Um silêncio profundo se seguiu, a praça parecendo prender a respiração. Mirai o encarava, os olhos brilhando com uma nova compreensão, as mãos apertando levemente a alça de sua bolsa como se tentasse segurar as palavras de Dante. — Eu... eu nunca vi por esse ponto de vista — murmurou ela, a voz tremendo de emoção. — É realmente incrível, Dante. Você faz isso parecer tão... importante.

— Eu também não — admitiu Tendo, a voz baixa, quase um sussurro, enquanto ajustava os óculos para esconder a umidade nos olhos. — Achava que isso era só bobagem, sabe? Claro, me ajudava a focar meu poder, a visualizar estratégias... mas às vezes eu pensava se podia mesmo ficar perdendo tempo com essas coisas. Mas quando estou com o Dante-dono, minhas preocupações somem. É como se ele transformasse cada momento em algo... épico.

Dante sorriu para os dois, os olhos brilhando com uma mistura de travessura e sabedoria. Aquele momento de paz, com o som das folhas e o calor do sol, era tão valioso quanto qualquer vitória no Jogo das Coroas.

— Agora eu entendo — disse Tendo, com uma epifania, o rosto iluminado como se tivesse descoberto o sentido da vida. — Entendo por que tantas garotas gostam de você, Dante-dono. Você tem essa... aura que faz tudo parecer mais leve!

Dante piscou, confuso, inclinando a cabeça. — O que você quer dizer com isso? — perguntou, genuinamente perdido. 

Tendo começou a suar frio, percebendo que havia falado demais. 

— Hã? Você... você não percebeu? — gaguejou, os óculos escorregando novamente. — Quero dizer, as garotas... elas estão sempre por aí, tipo, te seguindo, sorrindo, e...

Mirai não conseguiu segurar uma risada cristalina, o som ecoando pela praça como sinos delicados. Ela cobriu a boca, os olhos brilhando de diversão com a completa falta de noção de Dante. — Ele é realmente um protagonista de comédia romântica, não é? — brincou, dando um tapinha leve no ombro de Tendo, que corou ainda mais.

A cena foi interrompida por um grupo de alunos que passou correndo pela praça, o pânico estampado em seus rostos como se fugissem de um monstro. Ao verem Dante, seus olhos se encheram de esperança, como se ele fosse a última luz em um túnel escuro. Um deles, um garoto de cabelos despenteados e uniforme amassado, tropeçou ao se aproximar, quase caindo aos pés de Dante. — Dante Scarlune! Por favor, nos ajude! — implorou, sem fôlego, as mãos tremendo. — O nosso grupo está em apuros! Estão nos forçando a participar de um Jogo das Coroas na arena oeste! Eles são fortes demais!

Em um instante, a atmosfera mudou. A calma da praça deu lugar à urgência, o ar vibrando com a promessa de ação. Dante, Tendo, Mirai e até Shiranui que estava no topo da árvore assistindo tudo, se levantaram, os mangás esquecidos no banco, a diversão e a filosofia deixadas para trás. O rosto de Dante endureceu.

— Onde está acontecendo? — perguntou, a voz firme, como se o próprio destino o chamasse.

— Perto do pavilhão oeste! — respondeu o garoto, apontando para o horizonte, onde uma nuvem de poeira começava a se erguer. — Eles estão cercando nosso líder agora!

Dante assentiu, já começando a correr. 

Parte 4

Na ala dos clubes de Babylon, onde o ar vibrava com a energia caótica de alunos correndo entre salas e o eco de risadas e discussões, Emilia Bellasartes vagava com a graça de uma rainha, suas responsabilidades como Juíza do Crepúsculo e membro do Comitê de Disciplina pesando sobre seus ombros como uma capa invisível. Seus dois assistentes, Alan e Caroline, caminhavam logo atrás, suas posturas retas como estacas de um jardim perfeito, os uniformes impecáveis refletindo a luz dos vitrais coloridos que adornavam o corredor. Suas expressões eram máscaras de devoção profissional, os olhos fixos em Emilia com uma mistura de reverência e prontidão, como se estivessem preparados para obedecer a qualquer comando com a precisão de máquinas. O som dos sapatos de Emilia, cada passo um clique rítmico contra o chão de mármore polido, parecia impor ordem ao caos ao seu redor, silenciando sussurros e atraindo olhares de alunos que se afastavam instintivamente de seu caminho.

O destino deles era o clube de jogos, uma sala escondida no final do corredor, onde a desordem reinava suprema. Ao abrir a porta, Emilia foi imediatamente atacada por uma cacofonia de sentidos: o ar pesado com o cheiro gorduroso de salgadinhos e refrigerante derramado, o zumbido incessante de consoles e o brilho azulado das telas refletindo nos rostos dos alunos esparramados em pufes coloridos. Botões eram esmagados com fervor, acompanhados por gritos de vitória e gemidos de derrota, enquanto uma música eletrônica estridente vazava de alto-falantes mal posicionados. Era um santuário para a preguiça, um templo de caos que desafiava tudo o que Emilia representava. Seus olhos, de um azul cristalino que parecia cortar através da desordem, varreram a sala com um desdém tão palpável que o ar parecia esfriar em sua presença.

Sua chegada silenciou o lugar instantaneamente, como se ela tivesse pressionado um botão de pausa no próprio tempo. A música dos jogos parou abruptamente, os controles caíram das mãos, e as risadas morreram em gargantas apertadas. Todos os olhos se voltaram para a figura elegante e imponente na porta, sua silhueta recortada contra a luz do corredor como uma pintura renascentista. Emilia permanecia imóvel, a rapieira em sua cintura brilhando com um fulgor sutil, como se respondesse à sua aura. Alan e Caroline flanqueavam-na, suas expressões impassíveis, mas os olhos alertas, prontos para agir ao menor sinal.

— Em nome do Comitê de Disciplina e com a autoridade dos Juízes do Crepúsculo, este clube está oficialmente dissolvido — anunciou Emilia, a voz calma, mas carregada com o peso de um decreto real, cada palavra ressoando como o badalar de um sino. — Este espaço será requisitado para a criação de uma nova ala de treinamento, destinada a fortalecer os alunos para a Grande Expedição.

Os membros do clube ficaram incrédulos, os rostos congelados em uma mistura de choque e indignação. Controles escorregaram de mãos trêmulas, e salgadinhos caíram de sacos abertos, espalhando migalhas pelo chão já sujo. O líder do clube, um garoto do terceiro ano com cabelos despenteados e uma camiseta amassada sob o uniforme desleixado, levantou-se de um pulo, o rosto vermelho de frustração. — Com que direito? — exclamou, apontando um controle na direção dela, como se fosse uma arma. — Nós nunca fizemos nada de errado! Estamos apenas aproveitando nossos jogos, nosso tempo livre!

Emilia deu um passo para dentro da sala, seus sapatos caros reluzindo em contraste com o chão pegajoso coberto de migalhas. Seus olhos, frios e penetrantes, fixaram-se no líder, e o desdém em sua expressão era tão afiado quanto a lâmina em sua cintura. — E esse é justamente o problema — retrucou, a voz tão serena quanto uma lâmina deslizando pela bainha. — Desde que as regras de falta foram estabelecidas, clubes como este surgiram como ervas daninhas. Alguns são úteis, forjando habilidades e disciplina. Outros... — Seu olhar varreu a sala, demorando-se nos pufes rasgados, nos consoles empoeirados e nos rostos atônitos dos alunos. — Outros são apenas desculpas para desperdiçar tempo, para fugir das responsabilidades que definem um verdadeiro caçador, sem acabar recebendo uma falta. Em uma corrida de um ano para provar sua dignidade na Grande Expedição, não progredir é o mesmo que regredir

O líder do clube balançou a cabeça, o desespero crescendo em seus olhos. — Não tem problema perder um pouco de tempo! — argumentou, a voz tremendo, mas carregada de convicção. — Nem tudo precisa ser sobre lutar ou treinar! Às vezes, a gente só quer... relaxar, sabe? Se divertir!

— Tem sim — cortou Emilia, a voz afiada como o vento que precede uma tempestade. — Clubes como este não apenas estagnam seus frequentadores, mas são um deboche aos alunos empenhados, que são forçados a testemunhar outros relaxando enquanto eles derramam suor e sangue. Essa pequena bagunça, esse pequeno caos, é uma das raízes da desordem que corrompe Babylon. E eu estou aqui para podar os galhos podres deste jardim.

Os alunos pareciam prontos para protestar, alguns levantando-se com punhos cerrados, outros murmurando entre si, a raiva misturada com medo. Emilia ergueu uma mão, o gesto tão simples quanto poderoso, silenciando a sala como se o próprio ar obedecesse. — Vocês não têm escolha — disse, os olhos brilhando com uma determinação que parecia dobrar a realidade. — Mas... — Ela fez uma pausa, o olhar fixando-se no líder com uma intensidade que o fez recuar um passo. — Darei uma chance à sua honra. Um Jogo da Coroa. Eu contra você. Escolha qualquer jogo desta sala. Se você ganhar, desisto de minha reivindicação.

A esperança brilhou nos olhos do líder, como uma faísca em um campo seco. Ele escolheu um jogo de luta complexo, um título onde era o campeão invicto do clube, conhecido por combos devastadores e estratégias imbatíveis. Ele sentou-se diante da tela, o controle firme nas mãos, um sorriso confiante curvando seus lábios. — Você vai se arrepender, Senhorita Bellasartes — disse, ajustando a postura como um duelista. — Aqui, eu sou o rei.

Emilia sentou-se à sua frente, pegando o controle com a mesma delicadeza que usava para empunhar sua rapieira. Seus movimentos eram precisos, quase cerimoniosos, como se até aquele ato trivial fosse parte de sua dança de perfeição. A tela acendeu, os personagens na arena digital encarando um ao outro, e a batalha começou.

Foi uma aniquilação.

Na primeira partida, Emília o derrotou com um combo perfeito, uma sequência de golpes tão fluida que parecia coreografada, deixando o líder boquiaberto enquanto a tela anunciava sua derrota em letras vermelhas. Na segunda, ela venceu usando apenas contra-ataques, prevendo cada movimento dele com uma precisão que beirava o sobrenatural, como se lesse sua mente antes mesmo que ele soubesse o que faria. Na terceira, ela o humilhou, escolhendo o personagem mais fraco do jogo — uma garota de suporte sem habilidades ofensivas — e ainda assim dominando a partida com uma estratégia que transformava fraqueza em vitória. A expressão do líder passou da confiança à confusão, e então ao puro desespero, seus dedos escorregando no controle enquanto ele tentava, em vão, acompanhar a lógica fria e implacável de Emília. 

— Sem sentido — disse ela, levantando-se enquanto a tela exibia sua vitória esmagadora, o placar brilhando como um veredicto final. Sua voz era calma, mas carregada de um desdém que cortava mais fundo que qualquer golpe.

Ela começou a sair, os passos ecoando no silêncio opressivo da sala. Um dos membros, um garoto de olhos arregalados e punhos cerrados, cego pela fúria, deu um passo à frente, o corpo tenso como se pretendesse atacá-la pelas costas. — PARE! — gritou o líder, a voz rouca de derrota e resignação. O garoto congelou, confuso. — Mas, por quê?! Ela destruiu tudo!

— Derrota é Derrota — respondeu o líder, os ombros caídos, o olhar fixo no chão. — E pior, se você a tivesse atacado agora, ela acabaria com você em um único movimento…

Emília se virou, uma sobrancelha levemente arqueada, o rosto uma máscara de perfeição intocada. — Está vendo? Você também é capaz de analisar as coisas se tentar — disse, a voz suave, mas com um toque de condescendência que parecia ao mesmo tempo um elogio e uma repreensão. — É uma pena que desperdice esse talento em distrações tão triviais.

Seu pé desceu com força sobre um console de videogame jogado no chão, o plástico se quebrando com um estalo seco que ecoou como um trovão na sala silenciosa. Migalhas voaram, e o som pareceu selar o destino do clube. — Vocês têm até o final do dia para esvaziar a sala e levar tudo para casa — declarou, o tom final como o fechar de um livro. — Amanhã, a reconstrução começa.

Ela saiu, o vestido do uniforme balançando com a graça de uma brisa, deixando para trás um rastro de corações partidos, rostos irritados e suspiros frustrados. O pequeno refúgio dos alunos, aquele santuário de risadas e escapismo, havia sido esmagado sob o peso de sua ordem implacável. Alan e Caroline a seguiram, seus passos sincronizados com os dela, como guardiões de um templo ambulante. A sala ficou em silêncio, exceto pelo zumbido baixo de um console que ainda não havia sido desligado, como o último suspiro de um sonho perdido.

No corredor, enquanto Emilia retomava a leitura de seus relatórios, os dedos folheando as páginas com uma precisão quase mecânica, um garoto veio correndo em sua direção, o rosto pálido de pânico, o uniforme desalinhado como se tivesse corrido por toda Babylon. — Senhorita Bellasartes! Preciso de ajuda! Por favor! — implorou, a voz tremendo, os olhos arregalados de desespero.

Parte 5

28 de agosto de 2018, 11:30 da Manhã - Ilha Flutuante Apocalypse (Pátios Centrais de Babylon)

O sol da manhã banhava os pátios de Babylon em uma luz dourada, os raios dançando sobre os paralelepípedos polidos e as fontes que brilhavam suavemente refletindo a luz, criando uma ilusão de serenidade em meio ao frenesi do Jogo das Coroas. Alunos corriam entre os corredores, suas vozes misturando-se em um mosaico de risadas, gritos e estratégias sussurradas, enquanto o aroma de flores silvestres e pão fresco pairava no ar. Mas a mente de Anna estava em outro lugar, distante daquele burburinho. Caminhando ao lado de Ludmilla e Beatrice, seus olhos varriam a multidão de rostos com uma intensidade quase febril, como se buscasse uma peça perdida em um quebra-cabeça. A imagem de Kirino — seus cabelos brancos como neve, os olhos vermelhos brilhando com uma inocência desconcertante, dormindo pacificamente ao seu lado na noite anterior — permanecia gravada em sua memória. O choque da revelação de sua verdadeira identidade, a segunda mais poderosa de toda a academia, era uma ferida aberta, pulsando com perguntas que Anna ainda não sabia como responder.

De repente, o clima no pátio mudou, nuvens escuras de chuva começaram a cobrir o sol. As conversas animadas, cheias de risadas e provocações, diminuíram para cochichos tensos, os olhares dos alunos voltando-se para um ponto central. O ar parecia mais frio, a brisa carregando um peso que fez Anna estremecer. Instintivamente, a multidão se abriu, formando um corredor vazio no meio da praça, como se obedecesse a um comando silencioso. A temperatura caiu alguns graus, e o som das fontes pareceu abafar, como se até a água reconhecesse a chegada de algo maior.

Por esse corredor, cinco figuras caminhavam, suas presenças tão imponentes que pareciam dobrar a realidade ao seu redor.

— São eles... — murmurou Ludmilla, a mão instintivamente deslizando para o cabo da espada, os dedos tensos como se antecipassem um ataque.

— Os Phantoms — completou Beatrice, com os olhos afiados como lâminas, analisando cada detalhe com a precisão de um falcão.

Anna sentiu um arrepio percorrer sua espinha, o coração acelerando enquanto seus olhos se fixavam nas figuras. Ela conhecia os boatos, sussurrados nos dormitórios e corredores como lendas urbanas. Os Phantoms eram um grupo que operava nas sombras, realizando missões de caçador com uma eficiência sobrenatural. Diziam que saíam apenas à noite, completando tarefas de qualquer nível de dificuldade com uma velocidade tão assombrosa que retornavam antes do raiar do dia, como fantasmas que assombravam o mundo enquanto ele dormia. 

Naquele momento em que seus olhos se direcionaram a eles Anna percebeu que eles eram as cinco sombras que ela havia vislumbrado naquela noite, movendo-se com uma precisão que parecia desafiar o tempo.

Na frente, liderando com uma vibração relaxada que contradizia a tensão quase palpável ao seu redor, estava Oshino. Seus cabelos brancos brilhavam sob o sol como prata líquida, os pequenos óculos redondos e pretos refletindo a luz com um brilho enigmático. Piercings discretos reluziam em seus ouvidos, e sua postura, torta, exalava uma confiança que fazia os outros alunos recuarem instintivamente. Ao seu lado, Sakura caminhava com uma elegância letal, sua beleza estonteante destacada por um terno masculino impecável, os cabelos azuis presos em um rabo de cavalo que balançava como uma chama líquida. Atrás deles, Mikoto seguia com um ar descontraído, fones de ouvido pendurados no pescoço, o cabo de um martelo gigante visível sobre seu ombro. E, um pouco afastado, Fujimoto, um idoso com óculos laranja brilhantes, um cigarro nos lábios e uma katana longa demais para seu corpo franzino em seu ombro. Cada um deles carregava uma maleta de prata idêntica, o metal polido brilhando sob o sol como um farol de mistério.

E no centro do grupo, a peça que não parecia se encaixar, estava Kirino. Uma boneca de porcelana viva, sua pele pálida quase translúcida sob a luz, os cabelos brancos caindo em ondas suaves, e os olhos vermelhos brilhando com uma pureza que desarmava qualquer suspeita. Ela caminhava com uma leveza infantil, como se o peso da reputação dos Phantoms não a tocasse, a maleta em sua mão parecendo mais um acessório de brincadeira do que uma ferramenta de caçador.

Anna estava tão absorta, os olhos fixos em Kirino, que não percebeu quando aqueles olhos vermelhos encontraram os seus. O rosto de Kirino se iluminou com um sorriso puro e radiante, como se o sol tivesse decidido brilhar só para ela. Quebrando a formação intimidadora do grupo, ela correu na direção de Anna, os cabelos esvoaçantes como asas de um anjo, a maleta balançando em sua mão com uma despreocupação quase cômica.

Anna congelou, o corpo preso em um instante de paralisia. Seu cérebro gritava em alerta, flashes de boatos e imagens das sombras dos Phantoms dançando em sua mente, mas seu corpo recusava-se a se mover. Antes que pudesse processar, os braços de Kirino a envolveram em um abraço apertado, o calor de sua presença contrastando com a frieza do ar ao redor. O perfume suave de jasmim que emanava de Kirino envolveu Anna, e por um momento, o mundo pareceu desacelerar, como se aquele abraço fosse uma pausa no caos de Babylon.

O resto dos Phantoms parou, suas silhuetas imponentes recortadas contra o pátio agora silencioso. Oshino e Mikoto se aproximaram, seus passos tão fluidos que pareciam deslizar pelo chão. — Então esta é a garota de quem você falou — disse Oshino, a voz calma como uma brisa noturna, os óculos refletindo a luz enquanto ele avaliava Anna com um sorriso enigmático. — Cuidou bem da nossa Kirino, pelo visto — acrescentou Mikoto, o tom descontraído, mas com um peso que sugeria que ele via mais do que deixava transparecer. Seus fones de ouvido balançavam levemente.

Naquele momento, Beatrice e Ludmilla, que haviam congelado ao lado de Anna, trocaram olhares alarmados. Os dois homens, que há poucos segundos estavam a vários metros de distância, agora estavam parados bem na frente delas, tão próximos que podiam sentir o leve calor de suas presenças. Não houve som, nem borrão de movimento, nem o menor sinal de deslocamento. Em um instante estavam lá. A velocidade deles era aterrorizante, uma demonstração de poder que fez Ludmilla apertar o cabo de sua espada com mais força e Beatrice semicerrar os olhos, analisando cada detalhe como se tentasse desvendar um enigma.

— Não precisam se preocupar — disse Oshino, erguendo as mãos em um gesto pacífico, o sorriso nunca deixando seu rosto. — Não estamos aqui para lutar. Eu só queria agradecer pessoalmente a você, Anna, por tomar conta da nossa Kirino. Ela pode ser... um pouco intensa às vezes. — Ele riu baixo, um som que era ao mesmo tempo amigável e enigmático, como se escondesse segredos que Anna nunca poderia imaginar.

— Quero ficar com a Anna! — exclamou Kirino, ainda abraçada a ela, o rosto enterrado em seu ombro, a voz vibrante de uma alegria infantil que contrastava com a aura intimidante do grupo.

— Dessa vez não vai dar, pequena — disse Mikoto, inclinando-se para puxá-la gentilmente pela gola da camisa, como um irmão mais velho lidando com uma criança teimosa. — Temos uma missão. — Seu tom era firme, e ele deu uma piscadela para Anna, como se dissesse que entendia o efeito que Kirino tinha nas pessoas.

Kirino fez uma careta desanimada, os olhos vermelhos brilhando com uma tristeza exagerada que parecia mais uma performance de anime. — É verdade... — murmurou, com relutância. — Mas quando eu chegar, vou atrás de você pra brincar, tá? Prometo! — Ela ergueu o dedo mindinho, como se selasse um pacto sagrado, pulando levemente enquanto segurava a maleta de prata.

Os Phantoms se despediram com acenos casuais, como se fossem apenas mais um grupo de alunos, e começaram a se afastar, suas figuras desaparecendo na multidão que rapidamente se fechou atrás deles, como água preenchendo um vazio. Anna permaneceu imóvel, o coração acelerado, a sensação do abraço de Kirino ainda quente em seus braços. Ela não havia conseguido dizer uma única palavra, sua mente girando em um turbilhão de emoções.

— Esperem! — A voz de Beatrice cortou o ar, firme e direta, fazendo o grupo pausar. — Por que estão indo em uma missão durante o dia? — perguntou, os olhos semicerrados em concentração, como se estivesse montando um quebra-cabeça em sua mente. — Pelo que sabemos, vocês só agem à noite.

Oshino se virou, o sorriso relaxado nunca deixando seu rosto, mas com um brilho nos olhos que sugeria que ele sabia mais do que dizia. — Nós também não queríamos — respondeu, a voz leve, mas com um tom que encerrava qualquer tentativa de insistência. — Foi um pedido direto do Diretor.

— Que missão? — insistiu Beatrice, cruzando os braços, sua postura desafiadora, mas cautelosa.

— Desculpe, mas recebemos ordens expressas para não contar a ninguém — disse Oshino, a educação em sua voz mascarando uma finalidade inquestionável. Ele ajustou os óculos, um gesto quase teatral, antes de se virar novamente, liderando o grupo para fora do pátio.

E com isso, os cinco fantasmas continuaram seu caminho, suas maletas de prata brilhando como faróis enquanto desapareciam na multidão, deixando para trás apenas o eco de sua presença e o murmúrio dos alunos que voltavam a falar, agora com vozes mais baixas, como se temessem invocar aquelas sombras novamente. Beatrice ficou olhando para o local onde eles sumiram, os olhos semicerrados em profunda concentração, os dedos tamborilando no braço como se tentasse decifrar um código. — Ser o alvo de um pedido pessoal do Diretor... — murmurou, mais para si mesma do que para as outras. — Talvez os Phantoms realmente sejam apenas o  grupo mais forte do colégio…

Parte 6

28 de agosto de 2018, 12:00 da Manhã - Ilha Flutuante Apocalypse (Bosque Denso nos Limites de Babylon)

Guiados pelos alunos desesperados, que corriam à frente com rostos pálidos e vozes entrecortadas por fôlego curto, Dante, Tendo, Mirai e Shiranui penetraram no bosque denso nos limites do campus. O ar ali era mais pesado, carregado com o cheiro úmido de terra e folhas apodrecidas, o sol filtrado pelas copas espessas das árvores criando padrões de luz e sombra que dançavam no chão como fantasmas inquietos. Os troncos antigos, cobertos de musgo verde-escuro, pareciam sentinelas silenciosas, e o som distante de pássaros era o único indício de vida além do grupo. Mas, ao emergirem em uma clareira irregular, a cena que os aguardava era uma declaração de guerra aberta, o ar vibrando com tensão como uma corda esticada ao limite.

Um grupo de estudantes estava amarrado, de joelhos no chão úmido, as cordas cortando a pele e os rostos marcados por hematomas frescos e lágrimas secas. Cercando-os, dezenas de outros ostentavam os brasões dos Remanescentes e dos Rule Breakers, suas expressões uma mistura de arrogância e sede de sangue, armas de paintball reluzindo sob a luz filtrada. O cheiro de terra remexida misturava-se ao de suor e medo, e o silêncio era quebrado apenas por sussurros ameaçadores e o clique de gatilhos sendo engatilhados.

O instinto de Dante foi imediato, um fogo interno acendendo como uma faísca em pólvora seca. Ele se preparou para atacar, o Ether crepitando ao seu redor em faíscas vermelhas que iluminavam o bosque como chamas vivas, o ar estalando com o cheiro de ozônio.

— Eu não faria isso se fosse você — veio uma voz fria, ecoando das sombras das árvores como um sussurro de vento cortante.

Juiz Santos emergiu de trás de um tronco grosso, um sorriso satisfeito curvando seus lábios, os olhos brilhando com a malícia de quem segura todas as cartas. Ao mesmo tempo, Mavros, o líder dos Rule Breakers, arrastou outra figura para a luz da clareira, as mãos apertando os braços dela com força brutal. O sangue de Dante gelou nas veias, o coração martelando como um tambor de guerra ao reconhecer Layla Azael, amarrada e com a ponta de uma arma de Ether pressionada contra sua têmpora, o brilho da energia pulsante refletindo em seus olhos aterrorizados.

— Foi tudo um plano para te pegar, Scarlune — disse Mavros, saboreando cada palavra como um veneno doce, o sorriso se alargando enquanto ele apertava ainda mais o braço de Layla, fazendo-a estremecer. — Deixamos alguns deles fugirem para buscar ajuda. Sabíamos que você, o herói nobre, viria correndo.

A armadilha era perfeita, uma teia tecida com precisão maligna. Dante analisou a cena em uma fração de segundo, os olhos faiscando com uma inteligência afiada, calculando ângulos, velocidades, distâncias. Seus músculos tensos, o Ether pulsando em suas veias como sangue fervente. Se ele atacasse os captores dos estudantes, a arma apontada para cabeça de Layla dispararia, a energia letal atravessando seu crânio em um instante. 

Se ele fosse rápido o suficiente para salvá-la. — Os outros atiradores posicionados em um semicírculo calculado — atirariam no grupo de estudantes amarrados no chão. Ele não tinha como salvar todos. Estava em xeque, o ar carregado com o peso de uma escolha impossível, o silêncio do bosque parecendo prender a respiração.

— Falem logo o que vocês querem — disse Dante, a voz perigosamente calma, um tom baixo que ecoava como o rosnado de uma fera acuada, os olhos estreitos fixos em Mavros e Santos.

— Apenas justiça — respondeu Santos, com uma falsa solenidade que mascarava sua satisfação, os braços cruzados sobre o peito como se fosse um juiz em um tribunal corrompido. — Um Jogo das Coroas de verdade, Scarlune. Se você vencer, todos nós seremos expulsos. Você poderá finalmente comemorar a vitória do bem sobre o mal, como o herói que finge ser.

— Qual é o truque? — perguntou Dante, o Ether ao seu redor crepitando com mais intensidade, faíscas vermelhas dançando como chamas ansiosas.

— Sem truques — riu Mavros, o som ecoando pelo bosque como o grasnar de um corvo, os olhos brilhando com malícia. — Mas, sejamos justos. Você é o décimo no ranking dos mais fortes. Para que nós, meros mortais, tenhamos uma batalha justa, seremos todos nós... contra você. — Ele gesticulou para o exército ao seu redor, as armas erguidas em uníssono, o som de gatilhos sendo engatilhados preenchendo o ar como um coro de morte.

— Isso é injusto! — protestou Tendo, os punhos cerrados, a voz tremendo de indignação enquanto dava um passo à frente, os óculos escorregando no nariz suado.

— "Injusto?!" — gritou um dos Remanescentes, emergindo das sombras com uma risada amarga, o rosto contorcido de raiva. — Talvez ainda seja injusto para nós! Além de ser o décimo do Top 10, ainda é um maldito Scarlune, que sobreviveu aos eventos do Titanic e do Labirinto, onde um avatar de Astreus apareceu! A única forma de lutar contra um monstro desses é assim! Ou vai negar porque está com medo? — O grupo murmurou em aprovação, as vozes uma onda de ódio que ecoava entre as árvores.

A revelação pairou no ar, pesada e chocante, como uma lâmina suspensa sobre uma corda esticada. Dante não demonstrou surpresa, seu rosto uma máscara de calmaria gélida, os olhos brilhando com uma intensidade que fazia o ar vibrar. 

— Eu aceito — disse, a voz firme, ecoando como o primeiro trovão de uma tempestade iminente.

— Ótimo! — disse Mavros, o prazer sádico em sua expressão distorcendo seu rosto, os olhos faiscando como brasas. — Seus amigos não podem participar. Se eles se envolverem, você perde e é expulso automaticamente.

— Eu sei disso. Eu aceito — repetiu Dante, o Ether agora pulsando em ondas vermelhas que iluminavam a clareira, o chão tremendo levemente sob seus pés.

As regras foram explicadas com detalhes meticulosos, cada palavra carregada de veneno. Ali, naquele bosque denso, eles realizariam um grande jogo de paintball, as armas distribuídas com um som metálico que ecoava como o bater de tambores de guerra. Em uma luta normal, a vantagem seria de Dante. Mas com armas de tinta, eles nivelaram o campo, transformando o confronto em um jogo de estratégia e precisão onde os números poderiam prevalecer.

— Mas ainda tem mais regras — disse Santos, com um sorriso malicioso que curvava seus lábios como uma lâmina enferrujada. — Matar é uma derrota automática. Se qualquer um, de qualquer lado, morrer, o responsável perderá. O perdedor entrega todas as suas coroas e sua posição no ranking e é expulso. Claro... a expulsão é individual. Não tenho como garantir que todos os meus homens seguirão as regras à risca. — Seus olhos brilharam com a ameaça velada, o ar carregado com a possibilidade de traição, balas reais misturadas à tinta como veneno em um cálice.

— Para vencer, todos os membros do time inimigo devem ser atingidos ou ficarem incapazes de continuar — concluiu Mavros, o tom final como o fechar de uma porta de ferro.

Dante assentiu, o rosto uma máscara de determinação sombria. — Eu aceito. Mas eu também tenho uma regra.

Todos o encararam, o ar congelando em expectativa, o vento parando como se o bosque prendesse a respiração.

— Para ser justo, e para compensar os números, não faz diferença quem atirou — disse Dante, a voz baixa, mas carregada de uma astúcia que fez Santos e Mavros trocarem olhares nervosos. — Se a tinta atingir um alvo, ele está eliminado. Fogo amigo conta.

Mavros e Santos se entreolharam, o cálculo rápido em seus olhos, percebendo como aquela regra transformava sua superioridade numérica em uma potencial fraqueza, o caos do fogo cruzado virando contra eles em um campo lotado. — Aceito — disse Mavros, a contragosto, o sorriso forçado como uma máscara rachada. — Mas temos uma última regra.

Ele estalou os dedos, o som ecoando como um tiro de largada. Seus homens começaram a desamarrar os reféns, incluindo Layla, com movimentos rápidos e brutais, entregando-lhes armas de paintball que reluziam sob a luz filtrada. — Todos aqui presentes têm que ser seus inimigos — anunciou Mavros, o tom carregado de malícia. — Todos têm que atirar em você, Dante. Ou serão expulsos por se recusarem a participar do jogo.

— Isso é uma armadilha! — gritou Tendo, os punhos cerrados, a voz ecoando pelo bosque como um alerta.

— Eles são completamente inocentes, eu garanto. Nós simplesmente os desafiamos antes e os vencemos. A condição da derrota era que eles fossem forçados a obedecer às regras do próximo jogo que acontecesse na frente deles.— Dizia Santos com um sorriso falso no rosto.

A mentira era tão descarada que chegava a ser uma obra de arte, o ar carregado com o peso da traição. Dante olhou para os rostos dos "ex-reféns", vendo o medo genuíno, a hesitação forçada, a traição que os consumia. Seus olhos encontraram os de Layla por um instante, e nela viu não medo, mas uma determinação silenciosa.

Ele estava completamente encurralado, sozinho contra um exército, forçado a lutar contra as mesmas pessoas que veio salvar. O bosque parecia fechar-se ao seu redor, as árvores como testemunhas mudas de uma injustiça inescapável. Um sorriso lento e perigoso se espalhou pelo rosto de Dante, os olhos brilhando com uma chama que misturava fúria e astúcia.

— Eu aceito.

O juiz Santos, um homem “neutro” posicionado à margem, deu o sinal com um aceno solene, o som de um apito ecoando como o início de uma sinfonia mortal.

E o bosque explodiu em um frenesi de cores e movimentos. Dante mergulhou para trás de uma árvore, o corpo movendo-se com a fluidez de um predador, enquanto os primeiros projéteis de tinta zuniam pelo ar onde sua cabeça estivera segundos antes, estourando contra a casca em explosões vibrantes de vermelho e azul. O ar encheu-se do cheiro de tinta fresca e terra remexida, o som de disparos ecoando como trovões em miniatura. Ele rolava pelo chão úmido, folhas colando em sua roupa, usando cada tronco e raiz como escudo momentâneo contra a chuva incessante de projéteis que cortavam o ar, deixando trilhas coloridas no solo.

Do lado de fora da zona de combate, Tendo, Mirai e Shiranui observavam, impotentes, os corações batendo em uníssono com o caos. — Isso é covardia... — rosnou Tendo, os punhos cerrados tão forte que as unhas cortavam a palma. — A disparidade de números é absurda, mas mesmo assim...

— Ele é incrível — murmurou Mirai, os olhos calculistas seguindo cada movimento de Dante, o borrão de sua forma dançando entre as árvores. — Os movimentos dele são precisos. Ele não desperdiça um único passo.

Shiranui permanecia em silêncio, os braços cruzados, mas a intensidade em seu olhar revelava uma fúria contida, o corpo tenso como uma corda prestes a arrebentar. Ela observava cada bala de tinta que passava perto, cada esquiva por um triz, os músculos de seu pescoço pulsando com o desejo de intervir.

Dante sentiu o ritmo da barragem aumentar, a chuva de tinta se tornando uma tempestade furiosa, projéteis voando de todos os lados como uma nevasca colorida. Esquivar-se não era mais suficiente; o ar zunia com o som de disparos, o chão salpicado de manchas que pareciam sangue abstrato. Ele precisava revidar.

Liberar Arquivo: Segundo Modo - Deus da Velocidade.

Uma aura crepitante de raios vermelhos envolveu seu corpo, o ar estalando com o cheiro de ozônio e eletricidade, como se o próprio céu tivesse descido para envolvê-lo. O mundo desacelerou para Dante, os projéteis de tinta transformando-se em gotas preguiçosas suspensas no ar, cada movimento inimigo previsível como uma dança lenta. Ele explodiu em movimento, um borrão vermelho cortando o bosque, ziguezagueando entre árvores com uma velocidade que fazia o vento uivar. Sua arma de paintball disparava com precisão cirúrgica 

Thwack, thwack, thwack — cada tiro uma eliminação, manchas de tinta florescendo em peitos e braços como flores mortais.

— No total são sessenta inimigos — calculou Mirai, impressionada, os olhos arregalados agora contando os caídos. — E ele conseguiu cuidar de doze nesse curto espaço de tempo. Ele está virando o jogo...

Foi então que o líder dos Rule Breakers, Mavros, sorriu, um sorriso sádico que distorcia seu rosto como uma máscara de carnaval quebrada. Em sua mente, as palavras da carta de R.C. ecoavam como um mantra: Ele é poderoso, mas previsível em seu heroísmo. Use sua força contra ele. 

— Acha mesmo? — Murmurou Mavros em resposta a Miraí, a voz carregada de veneno. Ele bateu o pé no chão com força, o impacto reverberando como um terremoto em miniatura.

A terra tremeu, o chão rachando em veias de poeira e raízes expostas. Por todo o bosque, feitiços de ocultação se desfizeram em um brilho etéreo, mãos e corpos inteiros emergindo do solo como mortos-vivos ressuscitando de tumbas antigas, cada um segurando uma arma de paintball que reluzia com malícia. O exército dobrou de tamanho, as figuras sujas de terra erguendo-se com grunhidos, os olhos brilhando com fome de vitória.

— Na realidade, somos cento e vinte — disse Mavros, com um prazer sádico que fazia sua voz vibrar, o sorriso se alargando como uma ferida aberta.

E o segundo truque foi revelado, o ar agora carregado com o cheiro de terra remexida e suor fresco. Alguns dos inimigos recém-chegados não carregavam armas de tinta; o som de thwack foi substituído pelo crack agudo de disparos de verdade, balas de chumbo cortando o ar como lâminas invisíveis.

— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?! — gritou Dante, sentindo uma bala raspar seu braço enfaixado.

— Agora é tarde, Scarlune! Você não tem mais como vencer! — gargalhou Mavros, a risada ecoando pelo bosque como o uivo de uma hiena.

O campo de batalha começou a se deformar, magos inimigos invocando feitiços de terra e água que erguiam paredes de lama viscosa e poças traiçoeiras que sugavam os pés como mãos do abismo. A situação de Dante era péssima, o ar carregado com o zumbido de balas e tinta, o chão transformando-se em um pântano de caos onde cada passo era uma luta.

Shiranui deu um passo à frente, sua intenção assassina vazando como uma aura palpável, o ar ao seu redor tremendo. Mavros apenas apontou para ela, o dedo como uma acusação. 

— Lembre-se da regra, grandona. Se você interferir, ele é considerado derrotado. E será expulso.

— Foi tudo planejado? — perguntou Mirai, a voz gélida como o aço de uma lâmina, os olhos estreitados em fúria.

— Cada detalhe — confirmou Santos, o Juiz corrupto, o riso em sua voz uma nota dissonante no ar tenso. — O plano é perfeito e só pode terminar com a nossa vitória. Ele não pode usar seus poderes no máximo para nos matar, pois seria expulso. O Ether dele é vasto, mas desviando de cento e vinte oponentes e atirando, logo ele chegará ao seu limite.

Mavros com o rosto iluminado por um brilho maníaco pensava, enquanto observava. — “E não e so isso seus idiotas, quando ele for atirar em um dos "reféns", ele vai hesitar. Ele vai perceber que atingi-los significa expulsá-los. E nesse momento de hesitação... nós o pegaremos.”

— Vocês não têm medo de serem expulsos? — perguntou, tendo a voz tremendo de indignação.

— Por que teríamos? — disse Santos, com desdém, o sorriso se retorcendo como uma serpente. — Quando vencermos e obtivemos as Coroas de Dante e sua autoridade de um dos dez melhores, será muito fácil trazer um aluno de volta da expulsão. Essa é uma das várias brechas que o Comitê de Disciplina deixou para nós.

Eles riam, os arquitetos da armadilha perfeita, esperando o momento em que a presa finalmente cairia, exausta e sem esperança. E, cercado por tinta, balas, lama e o som da risada de seus inimigos, Dante continuava a dançar sua dança mortal, cada esquiva uma coreografia de sobrevivência.

A risada de Mavros e Santos ecoava pelo bosque, um som que reverberava entre as árvores como o rugido de uma tempestade se aproximando. A vitória era magistral, inevitável, seus olhos fixos em Dante enquanto ele se aproximava da linha de "reféns", o corpo suado e o Ether pulsando em veias expostas. Era o momento do xeque-mate. O momento em que o herói hesita em sacrificar os inocentes, o momento em que sua nobreza se tornaria sua ruína. Mavros já conseguia visualizar a cena, a vitória em suas mãos, o ar carregado com o cheiro de tinta e sangue.

Foi então que Dante parou, o corpo tenso como uma corda de arco esticada ao limite. Ele ergueu sua arma de paintball, não com hesitação, mas com uma calma gélida que fez o ar parecer congelar. E, sem piscar, começou a atirar nos reféns.

Thwack. Thwack. Thwack.

Três deles caíram, eliminados, as manchas de tinta florescendo em suas roupas, o impacto ecoando como tiros em um campo de batalha. A confusão se espalhou entre as fileiras inimigas como uma onda, rostos se contorcendo em choque, murmúrios crescendo em um rugido de incredulidade. Mavros parou de rir, o sorriso congelado em seu rosto como uma máscara rachada. O que estava acontecendo? Aquela não era a narrativa que eles haviam escrito.

Dante baixou a arma por um instante, o cano ainda fumegando com o resíduo de tinta, um sorriso lento, que não continha nada de heroico e tudo de diabólico, espalhando-se por seu rosto. Ele olhou para seus inimigos estupefatos e perguntou, a voz cortando o ar tenso como uma lâmina.

— Quando foi que eu me apresentei como um herói para vocês?

O pânico começou a borbulhar entre os caçadores, vozes se elevando em um caos de ordens contraditórias, mãos tremendo sobre as armas. Aquele não era o Scarlune que eles esperavam — o nobre, o previsível. Aquele era um predador, uma besta selvagem que havia virado a mesa com uma frieza que gelava o sangue.

— Acalmem-se! — gritou Santos, tentando retomar o controle, o rosto pálido como o de um homem vendo seu império ruir. — Mesmo que ele atire nos inocentes, não muda nada! Ele é diferente do previsto, mas ainda é apenas um contra cento e vinte! É impossível!

Dante, saltando para trás de uma rocha para desviar de uma saraivada de tiros que explodia a casca ao seu redor em fragmentos de madeira, riu. Sua risada era alta e cheia de uma confiança aterrorizante, ecoando pelo bosque como o uivo. — É verdade! — gritou ele de volta, o Ether crepitando em raios vermelhos que iluminavam as sombras. — Um não deve ser o suficiente!

Ele disparou, eliminando mais dois inimigos que tentavam flanqueá-lo, as manchas de tinta espalhando-se como sangue em uma tela. — Mas... e se formos dois?

Em um borrão de movimento que fazia o ar uivar, ele apareceu na frente de Layla Azael, o corpo posicionado como um escudo vivo. Os dois se encararam por uma fração de segundo, os olhos de Dante encontrando os dela em uma conexão silenciosa. E então, o inferno começou, uma dança mortal de traição e precisão.

Eles começaram a trocar tiros, as balas de tinta voando entre eles em um balé coreografado de perigo, passando a milímetros de seus corpos em uma sinfonia de esquivas e contra-ataques. O ar zunia com os projéteis, o chão salpicado de cores vibrantes que pareciam mapear o caos. — O que está acontecendo?! — berrou Mavros, sem entender a cena, o rosto contorcido em confusão enquanto via seus homens caírem um a um.

— Não está vendo?! Eu estou tentando atingir o Dante, é óbvio! — gritou Layla de volta, um sorriso zombeteiro em seus lábios, os olhos brilhando com uma malícia calculada.

Ela falava, mas suas ações contavam outra história, uma narrativa de traição tecida com precisão. Seus tiros não visavam Dante, mas suas balas. As balas de tinta dela colidiam com as dele no ar, e a física fazia o resto. 

Layla não fazia elas colidirem por completo mais sim passar de raspão, o'que criava um ricochete imprevisível, um novo projétil que desviava em um ângulo impossível e encontrava um alvo surpreso. os corpos salpicados de tinta como vítimas de um pintor enlouquecido.

Observando aquilo, Shimura Tendo relembrou o segundo teste de Ryonosuke, lembrando-se das habilidades excepcionais de tiro de Layla.

A verdade caiu sobre Mavros como uma bigorna, o rosto empalidecendo enquanto ele compreendia a profundidade da armadilha. A armadilha não era deles. Layla não era uma refém. Ela era a isca, uma peça plantada no tabuleiro para virar o jogo contra eles. Eles haviam mordido, cegos pela própria arrogância.

Enquanto Layla criava o caos com seu balé de ricochetes, cada colisão ecoando como um trovão em miniatura, Dante avançava. Seu corpo se movia com uma fluidez inacreditável, deslizando pela lama como uma sombra viva, usando as árvores como plataformas de lançamento para saltos que desafiavam a gravidade. Cada movimento era um cálculo preciso, cada disparo uma eliminação, o Ether vermelho pulsando como veias de fogo. A caça havia se tornado o caçador. A presa encurralada era agora o lobo no meio do rebanho, os inimigos caindo como dominós em uma cadeia de caos.

O exército de cento e vinte começou a desmoronar, a confiança se transformando em pânico, vozes gritando ordens contraditórias enquanto corpos caíam, o chão uma tapeçaria de tinta e lama. 

O sorriso satisfeito havia desaparecido do rosto de Mavros e Santos. Em seu lugar, havia apenas o choque e a fúria de quem percebe que a armadilha que eles tão cuidadosamente montaram não era para o inimigo.

Era para eles.

— Já podem parar de brincar.

A voz de Dante cortou o caos da batalha como uma lâmina afiada, ecoando pelo bosque com uma autoridade que fez o ar vibrar. Mais da metade dos inimigos já havia sido derrubada pela dança mortal dele e de Layla, o chão salpicado de manchas coloridas que pareciam o sangue de uma guerra pintada. Com um clique em um pequeno controle em sua mão, um holograma fantasmagórico se materializou no centro do bosque, flutuando como uma aparição etérea, projetando imagens que iluminavam as árvores com um brilho azulado.

A cena gravada mostrava a cena que acabara de ocorrer : 

“— Vocês não têm medo de serem expulsos? — perguntou, tendo a voz tremendo de indignação.”

“— Por que teríamos? — disse Santos, com desdém, o sorriso se retorcendo como uma serpente. — Quando vencermos e obtivemos as Coroas de Dante e sua autoridade de um dos dez melhores, será muito fácil trazer um aluno de volta da expulsão. Essa é uma das várias brechas que o Comitê de Disciplina deixou para nós.”

— Tudo o que está acontecendo aqui — anunciou Dante, para que todos ouvissem, a voz ecoando como um julgamento, — está sendo transmitido ao vivo para cada tela em Babylon. 

O pânico foi instantâneo, uma onda de caos que se espalhou como fogo em palha seca. Gritos de negação, olhares desesperados para os céus como se pudessem desligar a transmissão, e em meio à hesitação, Dante e Layla eliminaram mais uma dúzia de inimigos com uma facilidade brutal, tiros precisos cortando o ar como flechas inevitáveis.

— Como... Como você fez isso?! — gaguejou Mavros, o rosto pálido, os olhos arregalados em descrença.

— Porque todo este plano... foi armado por mim, é óbvio — respondeu Dante, o Ether vermelho pulsando em ondas que faziam as folhas tremerem. — A carta? A provocação tão bem feita para atrair todos os ratos para fora de suas tocas? Fui eu. — Ele abriu um sorriso, cheio de dentes afiados, os olhos brilhando com uma ferocidade que fazia o ar crepitar. — Podem me chamar de R.C. O Rei Corvo.

O mundo de Santos e Mavros desabou, o choque estampado em seus rostos como uma sentença de morte. Eles não eram os mestres da conspiração. Eram as marionetes, dançando em cordas tecidas por mãos que nunca viram.

— Desde quando você!... — O Rosto de Mavros se retorcia de Raiva. 

— No momento em que me atacaram, eu já tinha visualizado essa cena, esse meu contra-ataque, então, obrigado por terem se movido tão bem... meus peõezinhos idiotas.

Naquele momento, tanto Shiranui quanto Mirai relembravam a cena de Dante no café da manhã, reagindo à frase de Asuna: “Mas pensem, não tem como conseguir algo assim sem um plano de longa visão...”.

— Naquela época, ele já tinha pensado nisso tudo — comentava Mirai. 

Dante se lançou para a frente, o corpo um borrão de velocidade e fúria, aparecendo diante de Mavros em um instante. Nos olhos de Dante, uma chama bestial e faminta brilhou, o Ether vermelho envolvendo-o como um manto de sangue. Ele ergueu a arma, o cano apontado como um veredicto. Thwack. Mavros estava fora, o corpo caindo no chão com uma mancha de tinta no peito, o sorriso sádico agora uma máscara de derrota.

— Impossível... tudo armado por ele... — murmurou Santos, incrédulo, o rosto uma sombra de sua arrogância anterior.

De repente, Emília e seus dois assistentes, que tinham sido chamados por um dos reféns que foi solto e mandado em busca de Dante, apareceram, tendo assistido a tudo pelo tablet de Alan.

— Senhorita Emília, vou parar com essa bobagem! — disse Alan, pronto para intervir, os punhos cerrados em fúria.

— Não — impediu-lhe Emília, a voz firme como o aço de sua rapieira, o olhar fixo na clareira. — Agora, isto é um jogo oficial. Ambos os lados aceitaram as regras. Não podemos mais interferir. — Seus olhos, de um azul profundo.

Ao lado de Layla, Dante continuou a limpeza com uma perfeição inacreditável, cada disparo uma extensão de sua vontade, até que o bosque ficou em silêncio, o ar carregado com o cheiro de tinta e suor. Apenas um inimigo restava: a própria Layla, de pé no centro da clareira, o sorriso calmo contrastando com o caos ao seu redor.

— Ainda não acabou, Scarlune! — gritou Santos, desesperado, o rosto contorcido em uma última tentativa de virada. — Você não pode vencer se não atirar nela! Você não teria coragem de expulsar sua cúmplice!

Dante caminhou lentamente até Layla, o chão tremendo levemente sob seus passos, o Ether vermelho ainda pulsando como veias expostas. Eles se encararam, os olhos de Dante encontrando os dela em uma conexão silenciosa. Ele levou a arma até o peito dela, o cano posicionado exatamente sobre seu coração, o ar entre eles carregado com a tensão de um último ato.

— Agora, vamos terminar com isso — disse ele, a voz baixa.

Layla sorriu, a memória da carta de R.C. clara em sua mente: Preciso da sua ajuda. Confia em mim? — Se fosse para te ajudar, Dante, eu receberia até um tiro de verdade — murmurou ela, os olhos brilhando com uma lealdade feroz.

THWACK.

O som do disparo ecoou pelo bosque como um trovão final. Todos ficaram sem acreditar, o ar paralisado em um instante de choque absoluto. Dante havia atirado, a mancha de tinta florescendo no peito de Layla como uma flor de sangue falso.

Emilia observava a cena, uma compreensão fria e implacável em seus olhos. “Ele é exatamente o que Aleister quer criar neste circo” — pensou ela — “Um diamante bruto que se lapida e refina colidindo com outros.” 

Os olhos de Dante eram os de uma besta selvagem que acabara de se alimentar, o Ether vermelho diminuindo, mas deixando um brilho residual que fazia o ar tremer.

— Você não pode nos julgar como vilões depois de fazer algo assim! — gritou Mavros, já se levantando, o corpo salpicado de tinta, o rosto uma máscara de derrota e raiva. — Layla, por quê?!

Ela apenas riu, o som ecoando como um sino desafiador, limpando a tinta de sua roupa com um gesto despreocupado.

— Não faz diferença — disse Dante, caminhando em direção a eles com passos lentos e deliberados — Vocês que me ensinaram então como foram esquecer ? Com minha autoridade de décimo lugar, tudo que tenho que fazer é trazer os Inocentes de volta da expulsão não é ?.

Foi o estopim, o último fio da teia se rompendo.

Em um piscar de olhos, Emília o atacou, sua rapieira sibilando no ar como o vento de uma tempestade, a lâmina envolta em uma aura verde esmeralda que cortava o ar com um som agudo. Dante bloqueou o golpe com o cano de sua arma de paintball imbuído em ether, o impacto gerando uma onda de choque que fez as árvores tremerem e folhas caíram como chuva, o chão rachando em veias de terra exposta.

— Já sabia! — disse Emília, a voz cheia de uma fúria justa que ecoava como um julgamento divino. — Você é mais um mal que quebra a ordem! Mais uma erva daninha que precisa ser podada!

— Por que vocês ficam com esse papo de bem ou mal, afinal? E ainda dizem que eu que tenho chuunibyou — Dante dizia, fazendo força para empurrar Emília para trás 

— Mas você realmente tem — Layla dizia, olhando para ele com cara de julgamento. 

— De que lado você tá, Layla? — Respondia com os olhos arregalados.

— Usar mal contra mal para obter um resultado bom... você apenas mostra a todos que não há problema em usar brechas nas regras para benefício próprio! — acusou ela, girando a rapieira em um arco fluido, a aura verde chicoteando como ventos furiosos, forçando Dante a recuar com esquivas precisas.

— Se você não quisesse que as brechas fossem usadas, deveria tê-las retirado desde o início! — retrucou Dante, contra-atacando com um chute envolto em Ether vermelho, o ar estalando como um trovão, colidindo com a lâmina de Emília.

— Achar que pode fazer o que quiser sem sofrer consequências, esse é o problema de vocês, caçadores amantes de liberdade. — Emília falava, retirando a lâmina para trás, usando o vento para ir à direita de Dante e acertando uma estocada em seu flanco que o jogava contra uma árvore.

— Ela está conseguindo pressionar o Dante com facilidade — comentava Shiranui, observando ao lado de Miraí.

Dante, então, já se levantava, jogando uma pedra em alta velocidade que ela cortava com facilidade.

— Não sei por que, mas não sinto que consiga me dar bem com você, ô brisinha. — Dante falava, saindo dos escombros.

— Não me chame assim! — Emilia gritava, ficando corada com o apelido — Cof... quer dizer, bom, pela primeira vez acho que tenho que concordar com algo que você diz, também não acho que iremos conseguir nos entender.

A batalha de egos e índoles era inevitável. A aura de Dante, vermelha e faminta como a de uma besta, colidiu com a de Emília, verde e elegante como a de uma cavaleira. O ar crepitava com um frenesi violento de poder, o bosque tremendo como se o próprio mundo protestasse contra o confronto.

Mas, de repente, o clima esfriou, uma pressão avassaladora, descendo sobre o bosque como uma névoa sufocante. O ar pareceu congelar, as auras se dissipando em um instante, os corpos de Dante e Emília paralisando ao sentir o novo convidado.

Um homem se aproximou, seus passos fazendo barulho ao pisar no chão coberto de folhas. Sua presença era uma montanha, o ar ao seu redor pesado com uma autoridade que fazia o vento parar.

— Já chega.

Era Blade Scarlune, o Presidente do Conselho Estudantil, sua silhueta imponente recortada contra a luz filtrada das árvores.

— Toda esta confusão... acaba agora.

Parte 7

28 de agosto de 20018, 15:00 da Tarde - Ilha Flutuante Apocalypse (Sala do Conselho Estudantil de Babylon)

Horas se passaram desde o confronto no bosque, o tempo estendendo-se como uma sombra longa sobre a academia. O bosque, antes um campo de batalha ensanguentado por tinta e traição, agora era apenas um palco silencioso para as consequências, as árvores marcadas por impactos e o chão salpicado de cores que pareciam cicatrizes de uma guerra esquecida. Blade, o Presidente do Conselho Estudantil, cuja presença parecia carregar o peso da própria Babylon, levou Dante e Emilia para a sala do conselho, o ar carregado com uma tensão que fazia o silêncio ecoar como um sussurro de julgamento. Com eles, foram convocados os "líderes" de cada lado da disputa: Charlotte, representando a causa dos Corvos com uma determinação que brilhava em seus olhos como uma chama recém-acendida, e Azuki, a enigmática líder dos Juízes do Crepúsculo, cuja figura imponente e olhos que pareciam sondar almas ocultava segredos profundos. Elijah, chefe do Comitê de Disciplina e irmão de Emilia, também estava presente, seu rosto uma máscara de fúria contida, as veias pulsando no pescoço como cordas esticadas ao limite.

A sala do conselho era o pináculo do poder em Babylon, um santuário de autoridade onde decisões moldavam o destino da academia. Uma longa mesa de obsidiana polida dominava o centro, refletindo a luz que entrava pelas janelas panorâmicas como um espelho negro, oferecendo uma visão vasta e implacável de toda a Babylon — os pátios fervilhantes de alunos, as torres elevadas como sentinelas antigas, o horizonte distante onde o céu se fundia com o vazio da ilha flutuante. As paredes, adornadas com tapeçarias antigas que contavam histórias de caçadores lendários, pareciam observar os presentes, e o ar, perfumado com o leve aroma de incenso de sândalo, era pesado, opressivo, como se carregasse o peso de gerações de julgamentos. Cada cadeira, entalhada em madeira escura com brasões da academia, rangia levemente ao ser ocupada, ecoando como um aviso de que ali, palavras podiam ser armas mais afiadas que espadas.

Azuki, com sua imponência inquestionável, sentou-se ao lado de Elijah, formando uma frente unida de autoridade estabelecida, seus olhares cruzados como uma barreira impenetrável. Charlotte, do outro lado, posicionou-se com uma postura firme, mas suas mãos tremiam levemente sob a mesa, o peso da responsabilidade pressionando seu peito como uma armadura demasiado pesada.

— O que você tinha na cabeça? — sussurrou Charlotte para Dante, o rosto vermelho de vergonha e estresse, os olhos faiscando com uma mistura de frustração e preocupação, como se o plano dele tivesse abalado as fundações de sua visão de justiça.

— Só quis agilizar as coisas — respondeu ele, com um encolher de ombros casual, mas os olhos brilhando com uma astúcia que traía a profundidade de seu cálculo. — Agora a batalha é com você. Confio que vai dar um jeito. — Sua voz era baixa, mas carregada de uma confiança que parecia um bálsamo, mesmo em meio à tensão.

— Quando voltarmos, vamos ter muito o que discutir sobre isso — retrucou ela, entre dentes, o tom afiado como uma lâmina, mas com um subtexto de lealdade que os unia apesar do caos.

A reunião começou, o ar carregado com a eletricidade de egos colidindo e ideais em guerra. Charlotte, apresentou os problemas com uma eloquência que ecoava como um discurso de revolução. Ela expôs as provas da corrupção dos Juízes — relatórios falsificados, alianças ocultas que favoreciam os fortes em detrimento dos fracos, brechas exploradas para extorsão — e a negligência do Comitê de Disciplina, que permitia o caos se espalhar como uma praga. Seus gestos eram precisos, as mãos apontando para documentos projetados em um holograma flutuante no centro da mesa, a voz firme, mas tremendo levemente com a paixão de quem lutava por um ideal maior que si mesma. Cada palavra era um golpe contra o sistema, revelando como as regras atuais fomentavam a injustiça, transformando Babylon em um campo de batalha onde os vulneráveis eram pisoteados.

Do outro lado, Elijah rebatia com uma veemência que fazia a mesa vibrar, usando o caos causado por Dante como a prova definitiva de que as regras precisavam ser mais rígidas, não mais flexíveis. — Esse anarquista — disse ele, apontando para Dante com um dedo acusador, os olhos queimando com fúria contida — expôs as brechas apenas para explorá-las! Se permitirmos mudanças, abrimos as portas para mais desordem, mais violência! O Comitê existe para manter a ordem, não para ceder a caprichos de rebeldes! — Sua voz ecoava pela sala, cada argumento uma defesa apaixonada do status quo, mas carregada com o peso de sua própria lealdade à família e à academia, o rosto corado como se cada palavra fosse um escudo contra o colapso que via se aproximando.

No fundo da sala, Dante observava a troca de farpas com um tédio evidente, recostado na cadeira como se estivesse assistindo a um debate banal. Vendo Elijah apontar para ele durante um argumento particularmente acalorado, ele simplesmente sorriu, um sorriso preguiçoso que não alcançava os olhos, e fez um sinal de "duplo V" com os dedos, um gesto de paz irônico que só inflamou mais a fúria de Elijah. Do outro lado da mesa, Emilia o fuzilou com um olhar de puro desprezo, os olhos azuis brilhando com uma frieza que parecia congelar o ar entre eles, como se visse nele o caos encarnado que ameaçava sua visão de perfeição.

— Peço desculpas pelas ações do meu irmão — disse Blade de repente, a voz calma cortando a discussão como uma lâmina afiada, o silêncio caindo sobre a sala como uma cortina pesada.

A revelação surpreendeu a todos que não sabiam, o ar carregado com o peso de uma verdade oculta. Charlotte olhou de Dante para Blade, chocada, os olhos arregalados como se uma peça do quebra-cabeça tivesse se encaixado de forma inesperada, o coração acelerando com as implicações.

— Contudo — continuou Blade, como se não tivesse dito nada de mais, sua voz mantendo a serenidade de quem controla o fluxo do destino —, a Senhorita Williams tem razão. As regras precisam de mudanças. Mas não posso simplesmente dar a ela o poder de reescrevê-las, não depois de provar que não consegue controlar um de seus próprios homens. 

Seu olhar se fixou em Dante, que apenas deu de ombros, o gesto casual contrastando com a tensão da sala.

— Por isso, tenho um plano. Um jogo — disse Blade, a voz ganhando um tom de autoridade que fazia o ar vibrar, como se cada palavra fosse esculpida em pedra. — As duas facções competirão. O objetivo: a "purificação" da academia. Resolvam os problemas com os grupos que ainda causam desordem, eliminem as raízes da corrupção e restaurem a ordem. A primeira facção a terminar a limpeza vence. O prêmio: o direito de escolher quem será o novo líder dos Juízes do Crepúsculo. Os perdedores... terão seu time desmanchado e deverão trabalhar para a equipe vencedora, servindo como lembrete de que a unidade é forjada na vitória.

Todos concordaram, o ar carregado com a eletricidade de um pacto selado, uma solução brutal, mas justa, que redefiniria o equilíbrio de poder em Babylon. Enquanto se levantavam para sair, a mesa de obsidiana refletindo seus rostos tensos como um espelho distorcido, Blade disse: — Dante. Fique. Nós ainda temos que conversar.

O olhar dele era ameaçador, os olhos cinzentos brilhando com uma intensidade que fazia o ar parecer mais frio. Enquanto os outros saíam, Dante passou por Emilia, o corredor ecoando com os passos pesados. — E então, princesa. Vamos competir para ver quem faz uma limpeza melhor? — provocou, o tom leve, mas os olhos desafiadores.

— A resposta é óbvia — respondeu ela, a voz gélida como o vento que precede uma nevasca, os olhos azuis fixos nele com uma determinação que parecia congelar o ar. — E depois de terminar essa bobagem, vou me lembrar de vencer você em um jogo pessoal. Apenas desmanchar os Corvos não será o suficiente. Vou garantir sua expulsão.

Dante fez uma cara de assustado, mas os olhos brilhavam com diversão. — Por que as bonitas são sempre tão assustadoras? — murmurou, passando por ela com um aceno casual.

Emilia se foi, o som de seus passos ecoando como um aviso, deixando os dois irmãos sozinhos na sala silenciosa, o ar carregado com o peso de uma conversa pendente. Blade caminhou até uma prateleira de livros antigos, os dedos traçando as lombadas com uma precisão que refletia sua mente estratégica, e retirou um volume falso, o mecanismo clicando suavemente. De dentro, tirou uma carta, o monograma "R.C." gravado em cera vermelha como sangue seco.

— Quando li isto, pensei seriamente em expulsar você só por planejar algo tão problemático — disse Blade, a voz baixa.

— Mas não expulsou. Então eu venci — brincou Dante, o tom leve, mas os olhos atentos, como se testasse os limites de seu irmão.

— Você estava falando a verdade? — perguntou Blade, a voz séria agora, os olhos fixos em Dante com uma intensidade que parecia sondar a alma.

— Sim — respondeu Dante, o tom de repente focado, o ar entre eles carregado com a gravidade de um juramento. — Vou apoiar você como o novo Rei Escarlate quando a hora chegar.

Blade o encarou, o silêncio se estendendo como uma ponte entre passado e futuro. — Mas por quê? Por que todo esse empenho em tornar as regras do Jogo das Coroas mais justas? Qual é a sua verdadeira motivação?

Dante sorriu. Um sorriso genuíno, selvagem, os olhos brilhando com uma alegria caótica que parecia iluminar a sala escura. — Não é óbvio? — disse ele, a voz ecoando com uma paixão que fazia o ar vibrar. — Porque assim... fica mais divertido.

Ele se levantou e saiu da sala, os passos ecoando no corredor vazio, deixando Blade sozinho com seus pensamentos. O Presidente observou o reflexo de seu irmão se afastando na janela panorâmica, a visão da academia estendendo-se além como um reino à espera de mudança. As palavras de sua mãe, ecoaram em sua mente: 

“Dante tem a capacidade de transformar qualquer vontade em desejo... é essa determinação insana, ou loucura sem limites, que o torna tão especial.”

— Começo a entender... — sussurrou Blade para a sala vazia, o ar carregado com o peso de uma revelação. Ele começava a entender a força aterrorizante e cativante que era a vontade de seu irmão, uma chama que podia iluminar ou incinerar tudo ao seu redor. A sala, agora silenciosa, parecia guardar o segredo de um arco redefinido, onde alianças se formavam e o destino de Babylon pendia por um fio.

Parte 8

28 de agosto de 20018, 22:00 da Noite - Ilha Flutuante Apocalypse (Babylon)

A noite caiu sobre Babylon como um véu de veludo negro, as estrelas piscando friamente no céu infinito, enquanto a ilha flutuante pairava em silêncio sobre o vazio abaixo. Os guerreiros, exaustos pelas batalhas do dia, voltavam para seus castelos — refúgios que refletiam suas almas, divididos entre o caos e a ordem, mas unidos por fios invisíveis de segredos compartilhados.

A porta do alojamento dos Corvos se abriu com um estrondo, ecoando pelo corredor escuro como o rugido de uma besta acordando. Dante foi engolido pela anarquia familiar, o ar carregado com o cheiro de comida queimada e suor recente, as vozes sobrepondo-se em uma sinfonia desarmoniosa que parecia desafiar a própria noite. O som de Kai gritando sobre um videogame perdido — "Isso é hack! Como você ganhou de novo, seu trapaceiro?!" — misturava-se ao aroma exótico de algo que Ludmilla tentava cozinhar na cozinha improvisada, uma mistura de especiarias fortes e fumaça que invadia o nariz como uma invasão bem-vinda. No centro da sala, Mio e Leona mediam forças em uma queda de braço improvisada sobre a mesa rachada, os músculos tensos e os grunhidos ecoando como trovões distantes, enquanto o resto do grupo aplaudia ou zombava, o chão tremendo com a vibração de risadas e pés batendo.

Sem pular uma batida, Dante se jogou no meio da confusão, o corpo ainda dolorido das batalhas do dia, mas o espírito revigorado pelo calor do lar. Ele imediatamente começou a discutir com Kai, apontando para a tela do videogame com um dedo acusador — "Admita, você só ganhou porque usou um cheat code! Eu vi aquele glitch!" — enquanto desafiava Kintoki para uma competição de flexões no meio da sala, caindo no chão e começando a contar em voz alta, o suor já brotando enquanto ria de si mesmo. Depois, juntou-se a Luck para uma rodada de cartas onde as apostas eram as tarefas domésticas da semana, as cartas voando pela mesa em uma bagunça de blefes e gargalhadas, o barulho subindo como uma onda que engolia qualquer resquício de cansaço. Ele era um peixe de volta ao seu rio caótico e barulhento, onde o ruído era vida, e o desordenado era o único equilíbrio que conhecia.

Em contrapartida...

A porta da suíte de Emilia se abriu em silêncio, o clique da fechadura ecoando como um sussurro discreto no corredor vazio, o ar fresco da noite carregado com o leve aroma de lavanda e livros antigos que permeava o espaço como um abraço familiar e sereno. A ordem e a quietude a receberam como guardiães fiéis, o quarto um santuário de perfeição onde cada sombra parecia alinhada, cada objeto posicionado com uma precisão que desafiava o caos do mundo exterior. Alfred a aguardava com uma bandeja de prata reluzente, contendo um chá de camomila fumegante, o vapor subindo em espirais delicadas que dançavam à luz baixa de uma lâmpada de cristal. A noite dela seria uma sinfonia de disciplina: uma hora de treino de esgrima em seu dojo particular, os movimentos de sua rapieira cortando o ar em arcos precisos e mortais, cada estocada um eco de sua busca incansável pela excelência, o som da lâmina sibilando como o vento em uma montanha solitária; seguida por uma hora de revisão das aulas do dia, os olhos percorrendo páginas de tratados antigos com uma concentração que parecia dobrar o tempo; e, por fim, trinta minutos de prática de línguas antigas com seu mordomo, a pronúncia de cada palavra impecável, como se as sílabas fossem joias polidas em sua língua.

Dante subiu para seu quarto, um santuário da desordem onde o caos reinava como um rei benevolente, roupas jogadas sobre uma cadeira como troféus de batalhas diárias, mangás empilhados no chão em torres instáveis que pareciam desafiar a gravidade, a cama desfeita como um ninho de um pássaro selvagem. Ele se jogou nela de costas, o corpo todo esparramado sobre os lençóis amassados, o cansaço do dia finalmente pesando em seus ombros como uma armadura descartada. Com um suspiro satisfeito, retirou as roupas de forma relaxada, chutando as calças para um canto qualquer onde se juntaram ao monte de bagunça, ficando apenas de cueca, a pele marcada por arranhões recentes brilhando à luz fraca da lua que se infiltrava pela janela entreaberta.

Em contrapartida...

Emilia terminou seu banho, emergindo do banheiro envolto em vapor perfumado como uma deusa saindo de uma névoa sagrada, a pele imaculada reluzindo sob a luz suave das velas. Seu quarto, um espelho de sua mente disciplinada, era um paraíso de organização, cada livro na estante alinhado como soldados em formação, cada objeto refletindo a pureza de sua existência. Ela se aproximou do guarda-roupa com movimentos delicados, como se cada gesto fosse parte de um ritual antigo, e trocou suas roupas por um pijama de seda, belo e liso, que caía sobre seu corpo como água corrente, abraçando suas curvas perfeitas com uma elegância que parecia desafiar a noite.

Então, algo quebrou a rotina, um momento de vulnerabilidade que ecoava como um sussurro em um salão vazio.

Dante rolou para fora da cama, os pés tocando o chão frio com um baque surdo. Olhou para a porta, depois para as janelas, confirmando que estava sozinho, o quarto envolto em um silêncio que contrastava com o caos lá embaixo. Ele se ajoelhou e levantou uma tábua solta do assoalho debaixo de sua cama, o madeira rangendo como um segredo relutante. De dentro, puxou seu verdadeiro tesouro: uma série de mangás shoujo, com capas brilhantes adornadas por heróis românticos e heroínas de olhos sonhadores, histórias de amor proibido e conexões inesperadas. Ele saltou de volta para a cama, um sorriso genuíno e bobo se espalhando por seu rosto, como se o mundo inteiro tivesse desaparecido, e começou a ler, as páginas virando com uma delicadeza que contrastava com sua natureza selvagem.

Em contrapartida...

Emilia dispensou Alfred pela noite com um aceno elegante, sua voz suave ecoando no quarto vazio como o fechar de uma página. Ela também olhou ao redor, confirmando a solidão de seus aposentos, o ar carregado com o perfume sutil de lavanda que parecia guardar seus segredos. Caminhou até sua imponente estante de livros, cheia de clássicos da literatura e tratados de estratégia militar, os volumes encadernados em couro reluzindo à luz da vela. Puxou um volume pesado de A Arte da Guerra, o livro deslizando com um som seco, e revelou um compartimento secreto atrás dele, um nicho escondido como um cofre de tesouros proibidos. De lá, retirou uma coleção idêntica de mangás shoujo, as capas brilhantes refletindo a luz como joias ocultas. Pela primeira vez no dia, a máscara da Santa da Guerra caiu, um sorriso pequeno, vulnerável e verdadeiramente feliz surgindo em seus lábios, suavizando as linhas de sua expressão perfeita enquanto se sentava em sua poltrona de veludo para ler, o tecido abraçando seu corpo como um confidente silencioso.

Eles liam, mundos à parte, mas unidos por um segredo compartilhado que parecia tecer um fio invisível entre o caos e a ordem.

Em uma das páginas, a cena se desenrolava: a protagonista, uma garota enérgica, caótica e que vivia segundo suas próprias regras, encontrava-se pela primeira vez com o presidente do conselho estudantil, um homem estoico, frio e obcecado por regras e ordem. A ilustração capturava o momento de tensão, os olhos deles se encontrando em um olhar que misturava desafio e fascínio, como se o destino tivesse conspirado para uni-los em uma dança de opostos.

A imagem fez Dante parar, os dedos congelados na página, o quarto escuro ao seu redor parecendo se fechar como uma cortina. Ele franziu a testa, uma sensação estranha percorrendo seu corpo, com um arrepio frio. Espera... isso me lembra de... O pensamento pairou, incompleto, mas persistente, como uma melodia esquecida que volta em um sonho.

A mesma imagem fez o sorriso de Emilia vacilar, os olhos azuis fixos na página como se vissem além do papel, o quarto silencioso amplificando o bater acelerado de seu coração. Uma sensação estranha percorreu seu corpo, um calor sutil que subia por sua pele, misturando-se à frieza de sua rotina. Essa dinâmica... é irritantemente familiar. O pensamento a atingiu como uma brisa inesperada, perturbando a superfície calma de sua mente.

Ambos, em seus respectivos quartos, olharam para a página por mais um segundo, o silêncio ao redor carregado com o peso de uma revelação não verbalizada. 

Dante fechou o mangá com um baque suave, o som ecoando no quarto bagunçado como um ponto final em uma frase incompleta. Emilia marcou a página com delicadeza e colocou o livro suavemente de lado, o movimento preciso, mas hesitante, como se o peso da história a tocasse de forma inesperada.

E, ao mesmo tempo, em seus mundos separados, ambos tiveram o mesmo pensamento : 

“Quer saber? É melhor só ir dormir.”


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