The Fall of the Stars: Capítulo 5 - Gato de Schrodinger
- AngelDark

- 12 de mar.
- 69 min de leitura
Volume 11 : A Prisão Dourada
Parte 1
O asfalto frio, sujo e úmido de Morpheus definitivamente não era o colchão ortopédico ideal para quem acabara de sobreviver a uma briga de rua contra uma abominação movida a Éter.
Kiara puxou o ar em um engasgo agudo, o peito subindo em desespero, e abriu os olhos. A visão embaçada demorou alguns segundos agonizantes para focar no céu noturno e fraturado da cidade. Ela piscou lentamente, sentindo a poeira e o sangue seco repuxarem a pele do próprio rosto como uma máscara de argila rachada.
Merda. Eu apaguei. Ela sentou-se num solavanco impulsivo, e o mundo girou violentamente, ameaçando virá-la do avesso. Uma dor aguda e nauseante disparou do topo de sua cabeça, descendo como um raio até a base da nuca. Kiara levou a mão trêmula ao crânio, sentindo um calombo quente e úmido escondido sob os fios de cabelo escuros.
— Fratura craniana leve... hemorragia interna moderada... — ela murmurou para a rua vazia. O tom era clínico, listando os próprios ferimentos com a mesma naturalidade fútil de quem lê uma lista de compras de supermercado.
Quando tentou apoiar a mão esquerda no chão para pegar impulso e se levantar, o braço não respondeu. Pior: uma fisgada infernal subiu pelo pescoço. O ombro esquerdo pendia em um ângulo bizarro, completamente solto do soquete articular.
Kiara soltou um suspiro longo, profundamente irritada com a própria fragilidade humana. Não havia tempo para drama. Ela arrastou-se pelo asfalto molhado até o pneu traseiro de um carro capotado próximo à calçada. Alinhou a lateral do ombro deslocado contra a borracha dura do pneu, mordeu a manga da própria blusa com força suficiente para quase rasgar o tecido e forçou o corpo inteiro contra a roda, usando o próprio peso como alavanca.
CRACK!
O som do osso e da cartilagem voltando violentamente para a cavidade foi repulsivo. Kiara sufocou um grito estrangulado contra o tecido da blusa. Lágrimas grossas de dor pura e involuntária saltaram aos olhos, embaçando sua visão novamente. Ela arfou, o suor frio misturando-se à garoa fina que caía.
— Prontinho. Nova em folha — ela mentiu descaradamente para si mesma, girando o braço dolorido em círculos lentos. A junta estalava a cada movimento. — Cadê uma bebida forte quando se precisa de uma...?
Apoiando-se na lataria amassada do carro, ela finalmente ficou de pé e olhou ao redor. A neblina continuava espessa, mas a qualidade do silêncio estava diferente. Mais pesada.
Dante não havia voltado. O que significava que o "Zumbi linguarudo" provavelmente havia feito alguma besteira homérica lá dentro e precisava de resgate, ou já estava morto no corredor.
— Bom... zumbis não morrem. Ele deve estar bem. — A Presidente do Conselho estalou o pescoço, ignorando o gosto de ferro na boca. Era hora de limpar a bagunça.
Com passos arrastados, ela caminhou até um sedã preto e robusto, abandonado perto da calçada com as portas trancadas. Com uma cotovelada curta e precisa do braço bom, ela estilhaçou o vidro do motorista, enfiou a mão por dentro, destrancou as portas e puxou a alavanca do porta-malas, que se abriu com um estalo metálico.
Voltando até o meio da rua, Kiara agarrou as pernas de Maysa, que continuava desmaiada e afundada na própria poça de sangue. A gigante de terno pesava como um trator agrícola, e os músculos rasgados de Kiara protestaram, queimando a cada milímetro arrastado pelo asfalto. Ofegante, ela chegou à traseira do sedã. Com muito esforço, gemidos de dor e alguns empurrões e chutes bem pouco educados, Kiara dobrou a assassina colossal e a enfiou dentro do porta-malas.
— Metade desse peso absurdo deve ser por causa dessas melancias no seu decote... — ela resmungou, vermelha de esforço, tentando não simplesmente largar a gigante no asfalto de novo. — Entra logo, sua brutamontes... isso... dobra o joelho. Aí. Perfeito.
Ela bateu a tampa do porta-malas com um baque surdo, trancando a monstra lá dentro. Sem perder o ritmo, limpando a sujeira das mãos na calça rasgada, Kiara marchou em direção às portas escancaradas da delegacia.
O clima lá dentro estava mudando rápido. O efeito paralisante do apagão de Éter de Eliza começava a dissipar-se. Pelos corredores escuros, iluminados apenas pelas luzes vermelhas de emergência, Kiara podia ouvir os gemidos grogues dos policiais plantonistas acordando caídos sobre suas mesas, esfregando as testas confusas.
Será que quanto mais Éter a pessoa possuía no mundo real, mais rápido ela recobrava a consciência aqui?, Kiara murmurou em pensamento, observando os NPCs do sistema tentarem processar a própria existência enquanto ela continuava seu caminho.
Andando na ponta dos pés, agachada atrás do balcão da recepção e ignorando completamente a lei e a ordem, ela seguiu o rastro inconfundível do furacão Dante: vidro estilhaçado, sangue fresco, estojos quentes de balas de calibre militar e uma escada de incêndio manchada de vermelho nos fundos do prédio.
Quando ela finalmente escalou até o telhado e botou a cabeça para fora da mureta, a cena a fez erguer as duas sobrancelhas. O chão estava obliterado. A chaminé de ventilação havia virado pó de tijolo. O cheiro de ozônio cru e carne queimada era insuportável, grudando no fundo do nariz.
Ludmilla estava jogada de bruços em uma poça, o terno executivo fumegando bizarramente. O corpo inteiro da assassina de elite estava travado em espasmos elétricos ridículos, espumando levemente pelo canto da boca, completamente paralisada.
A parcos metros de distância, Dante estava esparramado de costas. Os braços largados em cruz, babando sangue pela bochecha; o paletó italiano parecia ter passado pelas engrenagens de um moedor de carne industrial. Ele estava apagado, a expressão do rosto travada em um misto bizarro de confusão profunda e coma induzido por falência múltipla de órgãos.
— Sinceramente... — Kiara cruzou os braços, encostando-se na mureta. Ela olhou de Ludmilla para Dante, balançando a cabeça com decepção e adotando um tom quase maternal de bronca. — Eu não posso te deixar sozinho por cinco malditos minutos que você já começa a dormir com outra garota no telhado?
Ela falava sozinha para aliviar o peso opressor do clima frio, antes de suspirar e voltar a se mover.
O resgate foi tudo, menos glamouroso e heroico. Kiara desceu primeiro com Ludmilla, agarrando a assassina pelo colarinho ainda fumegante e simplesmente a arrastando pelos calcanhares escada abaixo. O som da cabeça de Ludmilla batendo levemente em cada degrau de ferro ecoava pelo beco.
Chegando ao sedã, ela abriu o porta-malas novamente. Maysa ocupava folgados oitenta por cento do espaço. Kiara deu de ombros. Ela empurrou Ludmilla lá para dentro de qualquer jeito, dobrando as pernas da assassina e encaixando o rosto paralisado dela, cirurgicamente, de encontro aos peitos da gigante desmaiada.
— Viagem econômica. Tá apertado, mas pelo menos você vai ter uma boa almofada pra viagem, então... sem reclamações no fundo — Kiara decretou, e bateu a tampa com força.
Depois, foi a vez de resgatar o fardo mais pesado. Kiara carregou Dante com extrema dificuldade. O braço do garoto estava jogado por cima dos ombros já doloridos e recolocados dela. O Caçador estava febril, a cabeça pendendo frouxa, murmurando frases soltas e sem sentido sobre "guarda-chuvas idiotas", "forjas" e algo sobre um tal de "Gabriel" enquanto ela o arrastava pelo beco.
Ela abriu a porta do carona do sedã e, sem qualquer cerimônia romântica, literalmente despejou Dante no banco de couro. A cabeça dele bateu com um som oco no vidro da janela.
— É como as revistas de fofoca dizem... antes do casamento o homem faz de tudo. Depois, parece até que a gente tem que sair arrastando eles bêbados por aí — Kiara resmungou.
Ela inclinou-se sobre o corpo flácido dele, puxou o cinto de segurança e afivelou o garoto apagado com um puxão brusco e utilitário.
— Ai, ai, ai... se eu parar de falar, eu apago. Se eu continuar me fazendo rir, eu sinto dor nas costelas. A coisa vai ficar complicada assim.
Ela bateu a porta do carona e deu a volta, jogando-se no banco do motorista com um suspiro longo, pesado e trêmulo. O corpo inteiro dela era um mapa topográfico de hematomas roxos, cortes profundos e dor latejante. A cidade inteira estava sendo caçada por vampiros anômalos que saíram do controle de Irene, sua irmãzinha era uma bomba-relógio de poder mágico desconhecido, e o colapso apocalíptico da "Matrix de Anna" parecia iminente a cada piscar de luzes.
Ela ergueu o olhar cansado e focou no espelho retrovisor interno. A garota refletida ali no vidro sujo estava coberta de fuligem negra, com o supercílio cortado escorrendo sangue fresco e as roupas de grife em farrapos. Mas o que realmente chamou a atenção de Kiara — o detalhe que a fez estreitar os olhos em pura e genuína desaprovação moral — não foi o sangue.
A franja do seu cabelo preto estava grudada na testa, completamente e inaceitavelmente fora do lugar.
Ignorando as fraturas cranianas, as costelas trincadas e a urgência astronômica do fim do mundo, Kiara passou os próximos dez segundos arrumando meticulosamente as mechas de cabelo. Ela alinhou a franja com os dedos ensanguentados, usou a manga menos rasgada da blusa para limpar o borrão de sangue na bochecha e conferiu o ângulo do rosto. Deu um sorriso de lado para o próprio reflexo no espelho, aprovando silenciosamente o resultado estético.
— Muito melhor. Let's go!
Com uma calma assustadora e mecânica, Kiara abaixou-se, arrancou a tampa de plástico da ignição e fez uma ligação direta rápida nos fios debaixo do volante. O motor potente do sedã roubado roncou suavemente. Ela engatou a marcha e acelerou noite adentro, os pneus cantando no asfalto molhado. O carro sumiu na neblina cinzenta de Morpheus, levando um Caçador em coma no banco da frente e duas assassinas de elite "enlatadas" no porta-malas, acelerando direto para o olho do furacão e para o encontro com a verdade de Eliza.
Parte 2
O asfalto úmido deslizava silenciosamente sob os pneus do sedã roubado. A neblina lá fora era espessa e opressora, engolindo os postes apagados de Morpheus. Dentro do carro, no entanto, o clima era uma bolha morna de exaustão extrema e caos contido.
Kiara mantinha uma das mãos no volante, o braço recém-recolocado no soquete latejando no ritmo do motor V6. No banco do carona, Dante puxou o ar num solavanco violento, como se tivesse levado um choque no peito. Os olhos bicolores se arregalaram. As mãos dele voaram para o próprio abdômen, apalpando o terno arruinado em puro pânico tátil.
— Onde eu tô?! O que tá acontecendo?! Quem tá tentando roubar meu fígado?! — ele gritou, hiperventilando e olhando alucinado para os lados.
Kiara nem piscou. Com uma calma cirúrgica, ela virou o volante suavemente para desviar de uma lixeira de metal caída no meio da rua.
— Relaxa, Zumbi. Ninguém tá tentando roubar o seu fígado. Ainda.
Dante virou o pescoço tão rápido que quase ouviu as vértebras estalarem.
— Como assim, ainda?! Que tipo de garantia tranquilizadora de merda é essa?!
— Mudando de assunto — Kiara o cortou, a voz plácida como um lago congelado. — Logo, logo a gente tá chegando. Só precisamos cruzar a avenida principal.
Dante ofegou, recostando a cabeça pesada no banco de couro macio. O cérebro dele estava fritando. A lembrança do beco escuro, da Railgun eletromagnética queimando suas mãos e das assassinas invadiu sua mente de uma só vez. Ele olhou instintivamente para o banco de trás. Vazio.
— Cadê os dois demônios de terno?
— No porta-malas — Kiara respondeu casualmente, ligando a seta para virar à direita. — Achei que enlatar as duas lá dentro seria muito melhor do que deixá-las livres por aí e acabar caindo numa armadilha mais tarde. A viagem vai ser um pouco desconfortável pras costas delas, mas o amortecedor desse carro é ótimo.
Dante engoliu em seco, esfregando o rosto sujo de sangue e chuva. A mente dele estava muito além do asfalto de Morpheus.
— Kiara... eu tive um sonho horrível. Na verdade, não foi um sonho. Foi uma memória pura. Uma memória muito bizarra de uma vida passada onde eu... onde eu fazia parte da Horizon. Eu forjava armas lá. Eu conhecia o pessoal...
— As pessoas estão começando a acordar — Kiara falou por cima dele, olhando pelo espelho retrovisor para os NPCs cambaleando nas calçadas. — O efeito do Éter da Stella tá passando rápido. Logo vai ficar muito difícil se mover pela cidade sem chamar a atenção da polícia da Irene...
— ...E o pior não foi nem forjar a droga da arma — Dante continuou, desabafando no automático, o tom carregado pelo peso de uma crise existencial profunda. — O pior é que eu tava conversando. Conversando com uma garota idêntica à Kali! Só que ela era humana, e eu tava agindo super fofo com ela. Parecia até romance! Kiara, tudo na minha vida pode ser uma mentira. Eu não sei mais quem eu sou ou em quem acreditar...
Kiara esticou o braço bom e abriu o porta-luvas, tateando lá dentro sem tirar os olhos da rua.
— Falando em NPC... olha só o que eu achei aqui perdido. — Ela ergueu um pequeno pacote prateado quadrado entre o indicador e o dedo médio. — Uma camisinha. Considerando que esse sedã é um modelo familiar clássico, o dono com certeza tá pulando a cerca e escondendo as evidências da esposa. Que feio. Falta de caráter.
Dante parou de falar no meio da frase. Ele virou o rosto lentamente para ela, a indignação subindo pelo pescoço até deixar as orelhas vermelhas.
— Você sequer tá me ouvindo?! Eu tô tendo uma catarse existencial aqui! O pilar da minha sanidade tá rachando!
Kiara jogou o pacotinho de volta no porta-luvas e bateu a portinha.
— Na verdade, Dante, às vezes eu só olho de canto de olho, vejo a sua boca se mexendo sem parar, e o som vira uma espécie de ruído branco muito relaxante pra mim. Eu não escuto quase nada do que você fala.
Dante abriu a boca, ofendido até o fundo da alma.
— Você realmente não tem um pingo de delicadeza no corpo, não é? A empatia passou longe da sua criação.
— Ah, mil perdões, majestade. — Kiara suspirou de forma excessivamente dramática, olhando para a rua escura. — Eu juro que espero que um dia, só por um diazinho, eu possa ser a garotinha frágil e acolhida da relação. Seria uma experiência estética inovadora.
— Se a gente estivesse numa "relação" de verdade, a minha dita parceira teria o mínimo de consideração básica de parar a droga do carro pra comprar algo pra eu comer — Dante rebateu, cruzando os braços e fazendo bico como uma criança mimada. — Eu quebrei cinco costelas, atirei um laser, descobri que sou um ferreiro milenar amnésico que flertava com psicopatas e quase morri afogado na chuva. Em outras palavras: eu tô morrendo de fome.
Kiara lançou um olhar mortal e cortante para ele.
— Você só pode tá brincando com a minha cara. Dante, o céu rasgou, a minha irmã virou uma ogiva atômica ambulante e tem vampiros mutantes soltos. Nós estamos com pressa!
— Eu sei muito bem da situação tática! — Dante retrucou, empinando o nariz sujo. — Mas, diferente de você, eu escuto tudo o que você fala e presto atenção nas minhas necessidades!
Kiara freou o carro bruscamente num semáforo que nem estava funcionando. Ela virou o rosto para ele. Dante virou o rosto para ela. Os dois se encararam no escuro do carro, iluminados apenas pelo painel. O silêncio durou exatos quatro segundos tensos. O clima de fim de mundo colidiu frontalmente com a teimosia infantil e o estômago roncando de dois guerreiros exaustos que se recusavam a dar o braço a torcer.
Com um movimento violento, Kiara girou o volante com força, cantou pneu no asfalto molhado e fez um retorno proibido de cento e oitenta graus no meio da avenida vazia. Dante cravou as mãos no painel para não bater a cabeça de novo.
— Onde diabos você tá indo?! O laboratório da Arquiteta é pro outro lado!
— Tem um drive-thru a três quarteirões daqui. Vou ver se tá aberto — Kiara falou, acelerando o sedã com a mandíbula travada.
— Ah, agora eu não quero mais! Pode voltar! Vai me jogar na cara depois! — Dante resmungou, o orgulho ferido falando mais alto.
— O problema é absolutamente seu. Eu não tô indo comprar pra você. Eu tô indo comprar um hambúrguer pra mim. Eu bati muito na Maysa e queimei muitas calorias. Preciso de carboidrato.
Dante soltou um som de puro escárnio.
— Quanta audácia. Onde já se viu? Uma esposa tradicional deveria tratar a fome do marido machucado com muito mais prioridade.
— É mesmo? Que bom saber desse seu lado retrógrado... e falando nisso, quando é que a gente pode sentar num cartório pra assinar logo os termos desse divórcio? — Kiara retrucou com um sorriso recheado de sarcasmo venenoso.
Ela cortou o carro bruscamente para a faixa da direita e invadiu a entrada de um drive-thru cujo letreiro de néon piscava pela metade na neblina. Pararam ao lado do poste com o interfone gasto e o cardápio luminoso. Kiara abaixou o vidro. O cheiro nostálgico, gorduroso e inegavelmente reconfortante de batatas fritas invadiu a cabine do carro, contrastando de forma grotesca com o cheiro de ozônio e sangue fresco das roupas deles.
Ela apertou o botão do interfone. Silêncio. Apertou de novo, segurando por três segundos. Um chiado estourou no alto-falante. Uma voz masculina e arrastada, cheia de confusão, pânico e letargia, ecoou metálica:
— Ahn...? O que... onde eu tô? O que aconteceu com as luzes...?!
O atendente juvenil havia acabado de acordar do coma induzido pelo Éter no chão da cozinha. Kiara não hesitou. Limpou a garganta, ajeitou a postura e adotou um tom de voz incrivelmente polido, profissional e gentil.
— Boa noite, moço. Fique calmo, foi só um terremoto elétrico na cidade, mas já passou. Tá tudo normal e seguro lá fora agora. Queria saber se vocês já conseguem servir a gente ou se tá todo mundo desmaiado aí na chapa?
— Ah... com ele você consegue ser educada, né? — Dante alfinetou do banco do carona.
— Silêncio — Kiara o cortou de imediato, sem perder o sorriso simpático para o interfone.
Um silêncio constrangedor pairou. Barulhos de bandejas e panelas caindo no chão puderam ser ouvidos ao fundo pelo alto-falante.
— Terremoto...? Ahn... um minuto, senhora. Deixa eu ver se a fritadeira principal ligou.
Eles ficaram esperando no carro. O motor roncava baixinho. Um minuto virou cinco. Dante batucava os dedos no joelho sujo de fuligem, a ansiedade vencendo o orgulho.
— Eu vou querer um pacote de batata frita grande — Dante anunciou do nada, subitamente rendendo-se à gula absoluta.
— Eu vou pedir o combo especial duplo — Kiara analisou o cardápio luminoso com olhos de caçadora faminta. — Vem dois hambúrgueres artesanais pela metade do preço. Dá pra gente dividir.
— Boa. Mas não esquece a torta de frango — Dante apontou freneticamente para a foto brilhante no totem. — Ah! E pede o bonequinho do lanche especial infantil! O Batman LEGO do novo filme.
Kiara virou o pescoço milimetricamente devagar. Ela o encarou com um olhar de exaustão milenar, pesada o suficiente para afundar o carro no asfalto. Parecia uma mãe solteira prestes a ter um colapso nervoso no corredor de brinquedos de um supermercado lotado.
— Dante. Nós estamos no apocalipse. Você tem vinte anos de idade nas costas e a alma fraturada de um guerreiro ferreiro de sei lá quantos séculos atrás. Você vai brincar com esse ninja de plástico por exatos dez minutos, e o boneco vai virar fumaça e sumir no exato momento em que a gente cruzar o portal de volta pro mundo real.
Dante cruzou os braços e ergueu o queixo, irredutível e com a postura de um rei ofendido.
— Eu. Quero. O boneco.
Kiara apertou a ponte do nariz com os dois dedos, soltando o suspiro mais longo, sofrido e dramático de toda a sua vida.
— Tá bom. Tá bom, inferno. Mas eu já vou avisando: se você derrubar esse boneco debaixo do banco do carro, eu não vou parar a droga da missão de resgate do mundo pra procurar ele no escuro.
— YES! — Dante comemorou baixinho, cerrando o punho em vitória.
O interfone chiou de novo.
— Pronto, senhora. Me desculpe a demora. A gerente desmaiou no estoque e ainda não acordou. O que a senhora vai querer? Tá podendo pedir, sim.
Kiara fez o pedido astronômico com uma naturalidade assustadora, fez questão de incluir o LEGO do Batman, e avançou o carro roubado até a segunda janela. Pagaram com umas notas de dinheiro amassadas que Kiara achara no fundo do porta-luvas, logo ao lado da camisinha.
Quando o sedã finalmente voltou para a avenida principal, Dante já estava com as bochechas cheias de batatas fritas, balançando o Batman de plástico vermelho na mão boa como se fosse um troféu de guerra. Kiara dirigia com uma mão no volante, devorando metade do primeiro hambúrguer com a outra. O silêncio no carro agora não era de teimosia infantil; era de pura, calórica e sagrada paz gastronômica.
— Vou te falar uma coisa — Kiara falou de boca cheia, acelerando pela neblina e limpando um pingo de maionese do queixo. — Ainda bem que aquele garoto nos deu um desconto pela demora da chapa. O combo saiu quase de graça.
Dante engoliu um punhado de batata frita, limpando o canto da boca ensanguentada com as costas da mão.
— Você tem que admirar a determinação biológica assustadora que a Anna programou nas pessoas desse mundo. A cidade inteira toma um choque mágico de colapso, eles desmaiam no chão sujo da cozinha do fast-food, acordam do mais absoluto nada, e a primeira reação do funcionário não é fugir de pânico... é checar se a fritadeira tá funcionando pra não perder o cliente no drive-thru. O capitalismo de Morpheus é simplesmente implacável, supera até o instinto de sobrevivência.
Kiara riu de verdade, dando mais uma mordida generosa no lanche, sentindo a tensão excruciante da batalha dissipar aos poucos no conforto do carboidrato.
— Concordo. Os NPCs da loirinha são ótimos funcionários do mês.
Nutridos pelo absurdo da normalidade e por um lanche promocional de madrugada, o casal improvável acelerou através do fim do mundo programado, a caminho do laboratório da Arquiteta, com duas assassinas presas no porta-malas e uma leve, improvável e gordurosa esperança acesa no painel do carro.
Parte 3
O motor irregular do sedã roubado engasgou em um protesto metálico, tossiu uma nuvem doente de fumaça cinzenta e finalmente morreu quando Kiara girou a chave na ignição.
Eles haviam chegado à zona oeste. Diante do para-brisa trincado, banhada pela garoa fina, erguia-se a estrutura aberrante que as câmeras de segurança haviam mostrado: um cubo colossal de tijolos maciços, completamente liso, sem portas ou janelas. Era ali que o antigo laboratório de biologia da cidade deveria existir.
Dentro do carro, a bolha de alívio temporário proporcionada pelo fast-food evaporou no exato instante em que o aquecedor foi desligado. A magia efêmera da gordura e do sal perdeu a guerra para a biologia humana. A adrenalina que os mantinha operacionais, lutando contra assassinas e fuzis, despencou de uma vez só. A conta dos danos físicos finalmente chegou, cobrando juros astronômicos.
Dante empurrou a porta do carona com o ombro são. Assim que a sola da bota dele tocou o asfalto úmido e ele depositou o próprio peso, a panturrilha recém-enfaixada gritou. Ele soltou um chiado rasgado, cravando os dedos no teto do carro para não desabar de joelhos. Cada músculo do seu corpo parecia ter sido drenado e preenchido com chumbo derretido. As costelas fraturadas raspavam umas nas outras a cada respiração, uma agonia que o forçava a puxar ar em haustos curtos.
Do lado do motorista, Kiara não estava em uma situação muito melhor. Ela abriu a porta com a mão boa, chutou o asfalto e usou a própria porta de ferro como muleta para se erguer. O ombro esquerdo — que ela mesma havia forçado de volta para o soquete horas antes — latejava em uma agonia surda, irradiando pontadas elétricas de dor até a base da nuca. O rosto dela estava cinzento sob a crosta de fuligem e sangue seco.
— Ai... a minha coluna inteira... — Dante resmungou, arrastando a perna inútil enquanto dava a volta no carro. Ele encostou as costas no capô frio, fechando os olhos e jogando a cabeça para trás, deixando a chuva lavar o sangue de sua bochecha. — Eu odeio isso. Eu odeio ser um humano comum. Eu quero a minha regeneração e a minha resistência absurda de volta pra ontem.
Kiara encostou-se ao lado dele, arfando baixinho, as duas mãos apoiadas nos próprios joelhos para não demonstrar o cansaço ou desmaiar.
— Você é muito fresco, Zumbi — ela ofegou. A voz estava fraca e trêmula, mas a marra afiada de sempre continuava intacta. — Você só pode ter a honra de começar a reclamar de dor crônica quando for literalmente usado como saco de pancadas por um caminhão de duas toneladas de músculos vestido de terno e movido a Éter.
— A Maysa nem é tão pesada assim. Não seja rude com o peso de quem tá inconsciente no nosso porta-malas só porque você tá sentindo dor no ego — Dante rebateu com um sorriso cansado, abrindo os olhos bicolores para a neblina. — Vamos. A gente precisa achar a sua irmã antes que eu decida que o asfalto é uma cama confortável e desmaie de vez.
Os dois se desgrudaram da lataria do sedã com um esforço monumental e começaram a caminhar — ou melhor, a se arrastar em uma marcha fúnebre e descoordenada — em direção à estranha anomalia arquitetônica. O silêncio do terreno baldio era ainda mais denso, opressivo e artificial do que no resto da cidade morta. O ar cheirava pesadamente a eletricidade estática e poeira de cimento antiga, resquícios químicos do pulso colossal que Eliza havia liberado ali.
No chão sujo, a poucos metros da parede cega de tijolos, eles viram a silhueta da garota de cabelos magenta, encolhida no asfalto em posição fetal.
O que Dante e Kiara — completamente esgotados, machucados e desprovidos de seus radares e instintos sobrenaturais de Éter — não podiam notar era que o silêncio do terreno baldio não estava vazio. A exatos vinte metros dali, perfeitamente fundida na escuridão absoluta entre duas caçambas de lixo enferrujadas, uma figura observava a cena inteira.
Yuki não respirava. Ela não piscava.
A vampira modificada por Irene estava agachada em uma postura predatória irretocável, os dedos pálidos, venosos e terminados em garras, cravados no concreto úmido. Os olhos carmesim, vazios de qualquer resquício da garota doce e assustada que um dia habitou aquele corpo, brilhavam na penumbra como dois LEDs mortais e gélidos.
Ela havia seguido o rastro de sangue fresco de Dante desde a carnificina na Mansão Sterling, cortando caminho pela neblina na velocidade silenciosa de um espectro. Diferente de Maysa ou Ludmilla, Yuki não possuía ego humano para ferir, protocolos táticos para seguir ou qualquer necessidade de diálogo e intimidação. Ela não sentia dor nas juntas, exaustão muscular ou hesitação moral. Ela era a execução cirúrgica destilada em sua forma mais pura — uma abominação morta-viva envenenada por um motor de Éter, com o único propósito de erradicar as anomalias biológicas que caminhavam mancando até o centro de seu abatedouro.
Imóvel e calculista, a vampira assistiu Kiara e Dante se abaixarem lentamente perto do corpo inconsciente de Eliza. As veias escuras e necrosadas no pescoço de Yuki latejaram com uma energia profana. O Éter negro e denso começou a se acumular em seus tendões mortos, preparando a musculatura pálida como uma mola de aço industrial tensionada até o limite absoluto.
A caçada paciente havia chegado ao fim. O abate, rápido e sem misericórdia, estava prestes a começar.
Parte 4
O asfalto gelado de Morpheus servia de cama improvisada para a garota de cabelos magenta. Kiara e Dante caíram de joelhos ao lado de Eliza; a respiração de ambos saía em haustos ásperos e pesados de pura exaustão.
Ignorando o repuxar doloroso do próprio ombro, Kiara levou os dedos sujos de fuligem e trêmulos ao pescoço da irmã mais nova. O silêncio no terreno baldio durou dois segundos torturantes antes que a Caçadora finalmente soltasse o ar que prendia nos pulmões.
— Ela tá bem — Kiara suspirou. A postura defensiva e rígida dela derreteu uma fração de milímetro. Com um gesto incomumente suave, ela afastou uma mecha úmida do rosto da irmã. — O pulso tá forte. A respiração tá normal. Ela só desmaiou. Deve ter fritado o próprio sistema nervoso de tanto estresse por causa daquela explosão absurda de Éter.
Dante desabou de vez. Ele sentou-se no chão sujo, cruzando as pernas e apoiando os cotovelos nos joelhos, o peso do próprio corpo parecendo insuportável. Ele olhou para o rosto sereno de Eliza, que dormia pacificamente no epicentro do apocalipse.
— Que inveja absurda... — ele murmurou, a voz arrastada, os olhos bicolores pesando. — Tudo o que eu mais quero agora é simplesmente capotar nesse asfalto imundo e dormir por uns três dias seguidos. Sem interrupções. Sem deuses. Sem vampiros.
Kiara começou a cutucar a bochecha de Eliza com o dedo indicador, tentando despertá-la. Sem desviar o olhar da irmã, ela respondeu com uma naturalidade sombria e assustadora:
— Faça isso. Mas eu já aviso: no exato momento em que você fechar os olhos e roncar, eu pego a sua machadinha e arranco o seu fígado pra vender no mercado negro.
Dante arregalou os olhos. O cansaço foi sumariamente carbonizado pela pura indignação instintiva.
— Seu demônio! Eu sabia que você queria meu fígado desde o começo! — ele berrou, apontando o dedo trêmulo para ela.
O grito histérico de Dante ecoou pelo terreno baldio. E, inicialmente, cumpriu o seu papel. Eliza franziu a testa, soltou um gemido baixo e arrastado, e suas pálpebras começaram a tremer. Mas o som não acordou apenas a garota adormecida; ele serviu como o gatilho final e definitivo para a predadora espreitando nas sombras.
De trás das caçambas de lixo enferrujadas, a escuridão explodiu.
Yuki avançou. Não houve som de corrida ou passos esmagando o chão; houve apenas o som violento do ar sendo rasgado. O Éter negro e denso da cobaia de Irene pulsava ao redor de seu corpo pálido, transformando a vampira em um míssil biológico letal. As garras escuras miravam com precisão cirúrgica a garganta de Dante e a nuca exposta de Kiara. A investida inumana era perfeita, calculada milimetricamente para decapitar os dois intrusos antes que o cérebro deles pudesse registrar a imagem.
Os instintos primitivos de Caçador gritaram. Dante e Kiara sentiram a pressão assassina esmagando suas espinhas como blocos de gelo. Ambos tentaram se mover. Tentaram erguer os braços, puxar as armas ou saltar para trás. Mas a biologia humana os traiu. Moídos por fraturas, cortes e perda de sangue, os músculos deles simplesmente se recusaram a responder a tempo. A morte estava a centímetros de distância. O clímax sangrento da caçada silenciosa de Irene seria ali.
Até que os olhos de Eliza se abriram.
A garota, ainda com as costas coladas no asfalto, não gritou. Ela não demonstrou pânico. Ela apenas ergueu o olhar e focou na aberração de Éter escuro que mergulhava sobre sua irmã e o forasteiro. Em um milésimo de segundo, as leis da física e o roteiro daquela batalha foram sumariamente rasgados e jogados no lixo.
A cor escorreu dos longos cabelos magenta de Eliza instantaneamente, deixando os fios de um branco-marfim ofuscante que flutuava no ar sem vento. Suas íris explodiram em uma luz azul fria e cegante. Não houve feitiço murmurado. Não houve conjuração de magias ou chamas. Houve apenas a Vontade Absoluta.
A gravidade no ambiente, num raio exato de dez metros, tornou-se esmagadora. Ela não apenas aumentou; ela se multiplicou por mil, dobrando o próprio espaço. A investida supersônica de Yuki foi cancelada como a de um inseto batendo contra um para-brisa invisível e inquebrável. A vampira modificada foi esmagada contra o chão com uma violência absurda e aterradora.
BOOM!
O asfalto sob o corpo de Yuki cedeu de uma vez, afundando em uma cratera simétrica de meio metro de profundidade. O Éter negro e letal da criação máxima de Irene simplesmente evaporou, sufocado e anulado pela pressão colossal, apagando-se como uma vela miserável diante de um furacão.
O temido "clímax" do abate durou exatamente um segundo. O monstro indestrutível havia sido obliterado no tempo de um piscar de olhos.
Eliza piscou. A luz cegante em seus olhos morreu de súbito. O cabelo branco e antigravitacional despencou sem vida sobre seus ombros, voltando rapidamente ao tom magenta original. A gravidade do terreno baldio voltou ao normal, mas as consequências de canalizar um poder divino cobram pedágios biológicos impiedosos em receptáculos mortais. Eliza soltou um grito agonizante, agarrando a própria cabeça com as duas mãos e contorcendo-se no asfalto. Uma enxaqueca excruciante, como se seu cérebro estivesse sendo esmagado de dentro para fora pelas paredes do crânio, quase a fez perder a consciência novamente.
Dante e Kiara estavam petrificados. O ar ao redor deles ainda zumbia com o gosto metálico da energia alienígena que acabara de dissipar-se. Ambos olharam lentamente, quase com medo de respirar, para a cratera no asfalto.
Yuki estava lá dentro, jogada de bruços como uma boneca de porcelana quebrada. Ela não movia um único músculo; todos os seus poderes distorcidos e instintos assassinos haviam sido apagados do mundo.
— Mas que porra... — Dante murmurou, o queixo caído, esquecendo completamente da própria dor nas costelas.
Kiara engoliu em seco. A garganta dela estalou no silêncio. Com extrema cautela, ela se arrastou de joelhos até a beira da cratera e esticou o braço, levando dois dedos até o pescoço pálido da garota caída. Os olhos de Kiara se arregalaram em puro terror. Ela puxou a mão para trás como se tivesse tocado em chumbo derretido.
— Dante... — a voz de Kiara saiu trêmula, pequena, carregada de um choque que ia além do combate. — Ela tem pulso. O coração dela tá batendo. Ela tá respirando como uma pessoa normal.
O Caçador travou. O intelecto metódico dele deu um curto-circuito lógico irreparável.
— O quê? Kiara, os vampiros da Irene são cadáveres reanimados. Eles não têm pulso. Eles não têm biologia funcional!
Os dois se viraram lentamente, os rostos brancos como papel, e fixaram o olhar aterrado em Eliza, que ainda ofegava e gemia de dor no chão. O pavor e o respeito profano se misturaram na mente do garoto. Eliza não havia apenas esmagado a vampira com força física bruta. Aquela onda de luz e vontade reescreveu a biologia corrompida do monstro. Ela havia, de alguma forma absurda, impossível e incalculável, cancelado a morte celular da cobaia e devolvido a humanidade à garota.
Isso não era manipulação de Éter. Isso era Bruxaria pura. Manipulação direta do código-fonte da própria realidade. O que diabos estava habitando o corpo da irmã caçula de Kiara?
Mas, antes que qualquer um dos dois pudesse articular a pergunta em voz alta, ou sequer processar o frio que congelava suas espinhas... um som mecânico e impossível cortou o silêncio do terreno baldio.
Clack. Creeeeak.
Dante e Kiara giraram os pescoços simultaneamente em direção ao barulho. Atrás deles, na parede frontal do misterioso laboratório de biologia — a mesma construção geométrica maciça de tijolos que até dez segundos atrás era um bloco cego, sem qualquer abertura, porta ou janela —, uma velha maçaneta de latão oxidado havia girado sozinha.
A estrutura sólida dos tijolos simplesmente havia se moldado, derretendo como cera para abrir passagem. Uma pesada porta de madeira antiga estava agora escancarada, revelando o breu de um corredor escuro que vomitava um cheiro denso de formol, produtos químicos e papel velho para a rua úmida.
O convite silencioso para o coração do mistério da Arquiteta Anna Lighthart estava feito.
Parte 5
A pesada porta de madeira antiga rangeu ao girar nas dobradiças, rasgando a parede de tijolos e exalando um ar denso, carregado de estática. O cheiro que vazou lá de dentro era um soco no estômago: uma mistura química e estéril de formol com o odor acre de ozônio superaquecido.
Antes que Dante ou Kiara pudessem dar um passo para tentar processar como a arquitetura da cidade havia derretido para formar aquela passagem, uma silhueta cortou o breu do corredor e parou no batente.
— Vocês não têm muito tempo. Entrem logo.
A voz era feminina, preguiçosa e arrastada, mas carregava uma urgência afiada como um bisturi. A figura deu um passo à frente, revelando-se sob a luz fraca e enevoada da rua. Era uma garota. Os cabelos loiros e caoticamente bagunçados escapavam de um moletom excessivamente largo. O capuz, jogado para trás, exibia duas orelhas de gato felpudas e costuradas no tecido. Porém, o detalhe que cospia na cara da biologia convencional balançava de forma lenta e quase hipnótica atrás dela: uma cauda felina real, de carne e osso.
Kiara estreitou o olho são. O reconhecimento foi um choque instantâneo no sistema. A tensão petrificada em seus ombros cedeu uma fração milimétrica.
— Cat... — a Nak Muay murmurou.
O cérebro machucado de Dante também conectou as pontas espalhadas daquela bizarrice. As memórias do dia em que foi sugado para Morpheus colidiram em sua mente. Ele se lembrou do laboratório caótico no mundo real. Aquela era a pesquisadora maluca. A mente genial e completamente desequilibrada que havia servido como braço direito de Anna e projetado o portal dimensional: Cat Schrödinger.
Sem esperar por um convite formal, Dante e Kiara se moveram por puro instinto de sobrevivência. Eles agarraram Eliza pelos braços, erguendo a garota ainda trêmula e grogue do chão, e os três cruzaram o batente de latão. Deixaram a rua fria e o corpo humano e paralisado de Yuki para trás, jogado no asfalto úmido. No exato milissegundo em que pisaram do lado de dentro, as leis da física da cidade de Morpheus simplesmente colapsaram sob os sapatos deles.
O espaço além da porta não era um corredor, e muito menos uma sala de laboratório convencional. O chão e as paredes ondulavam suavemente a cada passo, como a superfície de um lago escuro perturbado por uma gota. Não havia teto. Acima deles, estendia-se uma vastidão escura cortada por grades de código bruto, linhas de Éter puro brilhando em neon cirúrgico e texturas não renderizadas que pareciam blocos geométricos de argila flutuando no vazio.
Era a sensação vertiginosa de caminhar pelos bastidores da própria realidade; o esqueleto invisível de um universo onde o cenário era apenas um emaranhado de andaimes e uma tela em branco.
— Bem-vindos à Porta dos Fundos — Cat anunciou, jogando-se com a leveza irreal de um felino em uma cadeira giratória acolchoada, que parecia ser o único objeto sólido e orgânico naquele abismo digital. — O único ponto cego em toda a malha dimensional. O espaço morto que fica completamente fora do roteiro de vigilância da Arquiteta.
Kiara não se deixou impressionar pelo espetáculo sci-fi. A postura da guerreira veterana assumiu a liderança agressiva de imediato, a mente tática bloqueando a dor de suas próprias fraturas. Ela mancou até o centro da sala anômala, varrendo as paredes ondulantes com puro desdém analítico.
— Isso aqui não é uma Dimensão de Bolso verdadeira — Kiara cravou, a voz ecoando de forma metálica e distorcida no vazio absoluto. — É um rascunho. Uma cópia barata e malfeita da estrutura de espaço-tempo. Você encontrou a lixeira do código-fonte da Anna... e decidiu fazer um ninho no meio do lixo.
Dante, que havia se escorado precariamente em um pilar que parecia feito de pixels falhos, soltou uma risada rouca e anasalada. O sarcasmo natural puxou os cantos de seus lábios rachados, manchando os dentes de vermelho.
— Entendi... — ele murmurou, ignorando a dor aguda que repuxava as costelas enquanto olhava para o espaço não renderizado. — Então essa é a famosa Caixa de Gato.
Cat parou de girar na cadeira abruptamente. As pupilas verticais da pesquisadora se dilataram, consumindo quase toda a íris e brilhando com um interesse acadêmico bizarro. Ela soltou uma risada excêntrica, apontando um dedo pálido para o Caçador:
— Oh? Como você sabe sobre a mecânica dis...
BAM!
A mão boa de Kiara colidiu com violência brutal contra a superfície de uma mesa metálica que flutuava no centro do espaço. O estrondo estalou como um chicote no ar rarefeito, obliterando a curiosidade científica de Cat no mesmo instante.
— Foco! — Kiara rosnou, o olhar faiscando com a autoridade letal de uma rainha que não tinha paciência para palestras teóricas. — Chega de piadas. Nós vamos ter uma conversa muito séria. Agora.
Dante suspirou, desencostando do pilar digital e estalando o pescoço sujo de fuligem e sangue seco.
— Justo... — ele concordou, mancando arrastado de volta na direção da porta de latão que os trouxe. — Enquanto vocês abrem os arquivos confidenciais da conspiração, eu vou dar um pulinho ali fora pra buscar o nosso "carregamento" no porta-malas.
No centro exato da sala ondulante, esquecida no meio da hostilidade, Eliza estava sentada no chão irreal, os joelhos puxados com força contra o peito. As mãos da garota tremiam incontrolavelmente enquanto ela apertava a própria cabeça, os nós dos dedos brancos. A mente dela era um campo de batalha varrido por bombas atômicas. As memórias rasgadas do ciclo atual, os apagões da cidade falsa, a luz branca assustadora que havia emanado de suas próprias mãos, os ecos de vidas repetidas em Morpheus... tudo estava retornando como uma avalanche, colidindo em seu cérebro e dilacerando suas sinapses como estilhaços de vidro.
O choque da verdade absoluta estava triturando a sanidade da colegial comum que ela pensava ser até vinte minutos atrás. Eliza ergueu o rosto cadavérico. Os olhos magenta, escancarados em um pânico profundo, silencioso e exausto, vagaram pelo cenário. Ela olhou para o forasteiro ensanguentado indo até a porta, para a irmã mais velha espancada agindo como uma general de guerra, e para a garota-gato excêntrica flutuando no meio do nada cósmico.
— O que... o que diabos tá acontecendo? — Eliza sussurrou. A voz rachou, falhando em um choro contido e infantil. O terror do desconhecido era uma entidade palpável na sala. — Que lugar é esse?
Dante parou com a mão na maçaneta de latão da saída. Ele olhou por cima do ombro arruinado. O olhar cruzou rapidamente com o de Kiara e, em seguida, pousou na garota apavorada encolhida no chão. O tom cínico evaporou completamente de sua voz. Não havia espaço para marra ali, apenas uma calma direta, pesada e irrevogavelmente sombria.
— Respira fundo e senta aí, princesa — Dante disse, a expressão carregada com o mesmo peso esmagador da verdade que o havia triturado algumas horas antes na Mansão Sterling. — A mentira da cidade pacata acabou. Tem muita coisa que todo mundo aqui precisa entender.
Parte 6
O som úmido e grotesco de corpos pesados sendo arrastados quebrou o silêncio irreal da Porta dos Fundos.
Dante cruzou o batente de latão pela última vez, ofegante e mancando, puxando Yuki pelos calcanhares. Ele largou o corpo paralisado da vampira ao lado das figuras desmaiadas de Ludmilla e Maysa. As três formavam agora uma bizarra e letal pilha de prisioneiras no canto da sala não renderizada. Ele limpou o suor e o sangue da testa com as costas da mão, virou-se e fechou a pesada porta de madeira que dava para a rua enevoada. O clique metálico da trava soou profundo, como o selamento definitivo de um cofre de banco. Estavam, finalmente, fora do radar da Arquiteta.
Quando Dante se virou de volta para a sala ondulante, Cat Schrödinger já estava fazendo as honras da casa. A garota-gato deslizou pelo chão de código bruto em sua cadeira giratória, empurrando uma bandeja de acrílico flutuante. Ela entregou um copo de suco de caixinha para Kiara e outro para Eliza, que o segurou com as duas mãos trêmulas, o olhar ainda perdido no vácuo.
Para Dante, a pesquisadora atirou um copo térmico de metal. O Caçador o pegou no ar por puro reflexo, sentindo o calor irradiar para as palmas machucadas. Cheirava a café preto, amargo e absurdamente denso.
— Valeu — Dante murmurou. Ele deu um gole generoso que desceu rasgando a garganta, o calor espantando o frio da chuva e acordando o resto de seus neurônios. Ele puxou um caixote de metal digitalizado que flutuava ali perto e sentou-se de frente para as três garotas. — Muito bem. As ameaças imediatas estão apagadas e enlatadas no canto. Agora, vamos pra parte complicada.
Cat sorriu. Os dentes caninos pareceram um pouco mais afiados que o normal sob a luz neon da sala. Ela fez um sinal de paz e amor com os dedos no ar.
— Hora do despejo de informação! — ela cantarolou, a cauda de sombras balançando animada atrás do encosto da cadeira.
Kiara deu uma tossidinha seca e ríspida, cravando o olho são na pesquisadora com a força de um furador de gelo.
— Se vocês puderem levar isso a sério por cinco malditos minutos, eu agradeço.
A postura de Kiara endureceu. Ignorando o ombro recém-colocado no lugar, a líder estratégica assumiu o controle do caos. Ela olhou de Dante para Cat.
— Eu estive prestando atenção nas regras desse mundo falso desde que as minhas memórias começaram a voltar. A física dele, o nome dos estados, a cultura, a lógica estrutural... e percebi uma coisa bizarra. Esse lugar não é puramente artificial como a gente imaginava. Não é uma Matrix feita só de código de computador, e não é uma simples Dimensão de Bolso ilusória.
Eliza, que ouvia tudo em silêncio absoluto no centro da sala, franziu a testa. A confusão e a negação fervilharam, quebrando seu estado de choque.
— Mas isso é impossível — a garota interveio, a voz rouca e desesperada. — Eu vi os erros, Kiara. Eu notei as falhas na cara de todo mundo há dias! O prédio de tijolos sem porta lá fora... A empregada com o rosto idêntico ao da Anna... Como isso aqui pode ser matéria real se é cheio de glitches?
Dante abaixou o copo de café e apontou para Eliza.
— Porque essas falhas de renderização estão confinadas somente à cidade de Morpheus, Liz.
Eliza olhou para ele, os olhos magenta arregalados. Dante inclinou-se para a frente, o cérebro dissecando a teoria em tempo real como um detetive montando uma cena de crime.
— Fora das fronteiras dessa cidade de neblina, o mundo inteiro existe perfeitamente. A matéria é real. Se você pegar um carro agora e dirigir mil quilômetros em linha reta, você vai encontrar montanhas e oceanos de verdade, com vento e gravidade. — Ele parou um segundo, assoprando a fumaça do café antes de voltar a tomar. — A minha teoria é que a cidade de Morpheus é a única coisa "roteirizada" com pressa aqui dentro. E esses glitches que você viu... ou foram plantados pela bola de pelo ali — ele apontou o queixo para Cat — tentando hackear o sistema pra acordar a gente por dentro... ou foi você, Eliza. O seu subconsciente rejeitando a ilusão debaixo do seu nariz e distorcendo o cenário ao seu redor.
Cat estalou os dedos no ar, o som ecoando pelo vazio.
— Bingo! — A garota-gato sorriu largamente, dando um giro de 360 graus na cadeira. — O mundo lá fora é matéria tangível, sim. Neste exato momento, nós estamos pisando em um verdadeiro universo alternativo. Um universo físico, criado do absoluto zero pelo novo poder divino da Anna.
O silêncio caiu pesado. O peso cósmico daquela afirmação esmagou o ar da sala. Criar um universo inteiro do nada não era apenas poder; era desafiar a própria fundação da sanidade. Mas Dante franziu a testa. O intelecto metódico do Caçador bateu de frente com a magnitude daquela teoria.
— Espera aí... um universo inteiro? Achei que fosse só um planeta fechado. Se for um universo completo... isso não faz o menor sentido geográfico — ele rebateu, balançando a cabeça de forma incisiva.
Cat tombou a cabeça para o lado, as orelhas felinas tremendo de curiosidade:
— E por que a certeza absoluta, senhor detetive?
— Bom, além de ser impossível conceber a Anna, mesmo com Autoridade, tendo tanto poder bruto assim do nada... tem outra prova bem mais clara e empírica — Dante explicou. A voz dele baixou para um tom sombrio enquanto olhava fixamente para as próprias mãos calejadas e sujas de sangue. — Minutos atrás, quando eu tava prestes a ser fatiado pela Ludmilla, eu consegui acessar uma memória antiga selada na minha cabeça. E eu transformei a massa bruta dessa memória em Éter puro pra forjar a XV Caliber.
Kiara arregalou os olhos. A alquimia de converter pensamentos em massa física, como se fossem carvão em uma fornalha, era algo que a guerreira nunca sequer havia considerado possível na biologia.
— A grande questão é... — Dante ergueu o rosto e encarou Cat diretamente — ...de acordo com a entidade andrógina com quem eu bati um papo muito hostil na Biblioteca Infinita... converter memórias em poder físico é uma regra restrita que só funciona dentro do jardim dela. No reino geográfico do Astreus da Memória. A nossa Morpheus original e verdadeira do lado de fora. Se nós fomos jogados em um universo novo e expandido que a Anna criou, a física e as leis da Memória não deveriam funcionar aqui. Eu deveria ter morrido no telhado.
Cat Schrödinger parou de sorrir. Um brilho de respeito frio, cirúrgico e acadêmico cruzou as pupilas verticais da pesquisadora. A garota de moletom suspirou, puxando as pernas e cruzando-as em cima do assento da cadeira.
— O seu raciocínio está perfeitamente correto e impecável, Dante. As leis do Astreus da Memória funcionam ativamente aqui porque, fisicamente e geograficamente, nós ainda estamos dentro do jardim dela. Nós ainda estamos na Morpheus do mundo real.
Kiara piscou, a dor latejante no ombro subitamente esquecida diante daquele nó cego na lógica espacial.
— Como assim?! Você acabou de dizer que a Anna criou um universo inteiro feito de matéria!
— E ela criou — Cat afirmou. A voz preguiçosa desapareceu, assumindo a precisão cortante de um físico quântico detalhando a mecânica de um buraco negro. — A Anna usou todo o poder cósmico e a Autoridade que absorveu para forjar um universo alternativo perfeito, completo com leis da física, gravidade, estrelas e matéria tangível. Mas ela não nos arremessou para fora da nossa dimensão de origem.
Cat inclinou-se lentamente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, revelando o terror absoluto de se enfrentar o poder de um verdadeiro Arquiteto:
— Ela comprimiu esse universo. Ela dobrou a malha do espaço-tempo milhões de vezes e trancou essa realidade absurda inteira dentro das páginas de um livro físico. Neste exato momento geográfico, enquanto nós respiramos, sangramos e conversamos nesta sala... a verdadeira Anna Lighthart está do lado de fora, no mundo real, de pé nas ruínas fumegantes da verdadeira Morpheus, segurando o livro onde nós estamos presos.
O café quente esfriou instantaneamente no estômago de Dante. Ele e Kiara ficaram em choque absoluto. Os cérebros de ambos congelaram, paralisados pela escala apocalíptica e microscópica do que acabavam de ouvir. Um universo inteiro. Centenas de milhares de anos-luz de realidade. Tudo esmagado, dobrado e confinado nas entrelinhas de um maldito livro nas mãos de uma colegial loira.
No chão frio da sala ondulante, a respiração de Eliza falhou completamente. A palavra "livro" ecoou na mente machucada da garota como o badalar de um sino fúnebre. Uma onda elétrica de reconhecimento desceu por sua espinha. Os glitches, as memórias rasgadas, o pânico instintivo... e as folhas de giz de cera espalhadas pelo carpete da biblioteca, poucos minutos antes da detonação da Railgun.
Eliza largou o suco de caixinha no chão, o líquido espirrando no vazio não renderizado. As mãos dela voaram desesperadas para o interior da própria jaqueta. Os dedos tremiam incontrolavelmente enquanto ela tateava os bolsos fundos.
— O que foi, Stella? — Kiara perguntou de imediato, a voz assumindo uma postura protetora e cheia de urgência.
Eliza puxou um amasso grosso de folhas de papel pardo. Ela as abriu violentamente no chão digital, alisando as bordas amassadas com as palmas das mãos suadas e trêmulas. Os olhos de Dante, Kiara e Cat focaram nos desenhos bizarros e infantis. O traço trêmulo e colorido de giz de cera detalhava profecias assustadoras, monstros e céus em chamas. Mas o último desenho prendeu a atenção de todos na sala como uma âncora de chumbo jogada no oceano.
Afundada no canto inferior da folha parda, iluminada pelo clarão alaranjado de uma imensa Árvore Dourada ardendo em chamas, havia a figura de uma garota de cabelos amarelos brilhantes. O traço simplório era inconfundível: Anna Lighthart. A garota desenhada estava chorando desesperadamente, o rosto manchado de rabiscos azuis imitando lágrimas, enquanto abraçava um gigantesco livro de capa de couro contra o próprio peito. Ela o protegia com a própria vida enquanto o mundo ao redor dela derretia em um caos de rabiscos vermelhos e pretos.
Eliza apontou para o papel, a ponta do dedo tremendo a milímetros do desenho.
— A Silence... — Eliza murmurou. A voz saiu estrangulada, o pânico tomando conta de suas cordas vocais. — Ela desenhou isso. Ela me mostrou na biblioteca. É a Anna, não é? É exatamente o que vocês acabaram de falar.
Dante arregalou os olhos bicolores, a xícara de café tremendo levemente em sua mão. A prova física e irrefutável da teoria louca de Cat estava ali, desenhada com giz de cera por uma criança traumatizada. A confirmação visual absoluta de que o universo deles era, literalmente, de papel.
Cat Schrödinger olhou para o desenho amador. Ela acenou devagar com a cabeça, um brilho de compreensão irônica e um tanto melancólica passando por seu rosto felino.
— Faz todo o sentido do mundo a Silence ter conseguido acessar e desenhar essa informação do mundo exterior, mesmo com a mente selada pela Matrix da Anna — Cat explicou, a voz suave, ecoando pelos escombros digitais da sala. — Afinal... a pequena Silence é a cria direta do Astreus do Destino. É claro que os olhos dela seriam os únicos capazes de enxergar as mãos segurando o nosso roteiro.
Parte 7
A fumaça do café amargo subia em espirais finas no ar frio e ondulante da sala não renderizada. Dante abaixou o copo metálico lentamente, os olhos bicolores cravados na figura de moletom largo que girava de forma displicente na cadeira.
O cérebro do Caçador — forjado nas trincheiras de Astreus e treinado para dissecar mentiras e ler o tabuleiro inimigo — já havia apitado. Cat Schrödinger estava distribuindo as respostas em migalhas calculadas, guiando-os como ratos de laboratório em um labirinto, deliciando-se visivelmente com as epifanias alheias.
Dante quebrou o silêncio. A voz perdeu instantaneamente qualquer traço de camaradagem irônica. O tom agora era direto, cirúrgico e letal.
— Corta o teatro, gatinha — Dante exigiu. A postura relaxada evaporou, os músculos das costas tensionando enquanto ele se inclinava para frente no caixote. — Você tem as respostas mastigadas desde o começo, mas tá brincando de esconde-esconde com a verdade. Se a pequena Silence consegue enxergar fora da caixa porque é uma cria direta do Astreus do Destino... como você se explica?
Cat parou de girar abruptamente. A cauda de sombras atrás dela chicoteou no ar com um chiado elétrico, paralisando em seguida.
— Quem é você de verdade, Cat? — Dante insistiu, a pergunta ecoando dura pelo vazio digital da Porta dos Fundos. — Como você entrou na porra de um universo comprimido, forjado por um Arquiteto quase onipotente, sem ter a sua biologia e a sua memória fritadas e reescritas pelo roteiro da Anna?
A pesquisadora recuou instintivamente, os ombros magros encolhendo-se dentro do moletom largo. A postura arrogante e excêntrica vacilou, acuada não apenas pelo olhar predatório do forasteiro, mas pelo olho semicerrado de Kiara, que agora também a encarava, exigindo respostas definitivas de sua própria parceira de conspiração.
Cat suspirou. Foi um som rasgado e metálico que parecia misturar exaustão milenar e uma genialidade insana. Ela puxou as pernas para cima da cadeira, abraçando os próprios joelhos.
— Eu não fui pega pela ilusão de reescrita da Anna, não porque eu seja uma entidade divina, ou alguém absurdamente especial... — Cat começou, a voz perdendo a preguiça e assumindo uma precisão acadêmica arrepiante. — Eu escapei do roteiro porque eu sou e, ao mesmo tempo, não sou alguém.
Eliza piscou, a confusão nublando o terror em seus olhos magenta.
— O quê?
— O estado quântico de sobreposição — Cat explicou, os olhos verticais brilhando intensamente na penumbra. Um sorriso melancólico repuxou seus lábios. — Muito prazer. Eu sou o Gato de Schrödinger.
A mente de Dante deu um estalo. As peças do folclore científico e dos arquivos obscuros do Tribunal colidiram.
— Há muito tempo, em Elysium... — Dante começou, a voz baixa, testando a teoria em voz alta. — Houve uma cientista renomada chamada Schrödinger. Ela queria provar que era possível dois estados existirem simultaneamente na mesma malha da realidade. Mas o projeto prático foi classificado como hediondo por ativistas e apoiadores dos animais, então a pesquisa foi embargada...
— Incrível, não acha a hipocrisia humana maravilhosa? — Cat o cortou, soltando uma risada ríspida e sem alegria. — Eles não me deixaram colocar um maldito gato dentro de uma caixa com veneno... mas não pensaram duas vezes antes de me colocar, a própria cientista, dentro de uma caixa entupida de radiação para testar a anomalia.
— Espera — Dante franziu a testa, a incredulidade tomando conta. — Mas aquela pesquisadora morreu. Eu tenho certeza disso. Eu li os relatórios. O óbito dela constava no mesmo material onde a pesquisa foi brutalmente refutada, já que o próprio experimento dela provou justamente o oposto: um ser pode estar e não estar em um estado, sendo possível descobrir a verdade apenas ao ser observado.
Cat jogou a cabeça para trás e riu. Uma gargalhada oca que fez as paredes digitais da sala tremerem levemente.
— Morta e ainda refutada nos anais da academia! Que crime irreparável contra uma cientista.
Kiara, que ouvia tudo absorvendo a loucura com a frieza de uma tática, deu um passo à frente. O olho bom dela analisou a garota de moletom de cima a baixo.
— Cat... você é mesmo uma pessoa?
Eliza e Dante olharam para a Presidente do Conselho, confusos com a pergunta abrupta.
— Às vezes, quando eu te encontro nos esconderijos, você é um homem adulto — Kiara continuou, as memórias fragmentadas finalmente se alinhando com a lógica absurda. — Às vezes, você aparece como uma criança. Em outras, como uma mulher. A sua forma nunca é a mesma.
— Até que a caixa seja aberta e se confirme a observação, quem é que sabe? — Cat gesticulou no ar, os dedos pálidos desenhando linhas invisíveis de código que brilharam e apagaram em segundos. — Eu ajudei a Kiara a criar o portal lá atrás. Eu sempre estive nos arredores, à margem. Mas eu nunca me deixei focar demais na narrativa central de Morpheus. Eu nunca fui uma personagem principal, nunca fui um pilar emocional do roteiro da Arquiteta para ser detectada... mas também nunca sumi completamente do mapa a ponto de ser deletada pelo sistema. Em outras palavras: muito prazer, eu sou a incerteza absoluta da física.
Dante esfregou as têmporas doloridas. A mecânica quântica e o absurdo existencial daquela conversa estavam ameaçando rachar seu crânio fraturado.
— Sinceramente... não tem café o suficiente no meu copo, e nem no mundo inteiro, para eu aguentar essa conversa agora — ele resmungou.
— Então vamos evitar falar sobre as minúcias termodinâmicas. Esse detalhe biológico não importa agora. — Cat sorriu, as presas aparecendo, satisfeita por ter vencido o debate intelectual.
O silêncio reinou por alguns segundos. A genialidade tática de Cat era, de fato, monstruosa. Ela havia desviado o foco perfeitamente. Mas a intuição fria e focada de Dante encontrou a rachadura no meio de toda aquela cortina de fumaça quântica. Ele abaixou a cabeça, encarando as borras escuras no fundo do copo térmico. Em seguida, ergueu o olhar bicolor, agora afiado e letal como uma lâmina recém-amolada.
— Tá bom, fantasma quântico. Eu compro a sua física bizarra. Mas algo ainda não bate na equação.
Cat estremeceu quase imperceptivelmente ao ver que o forasteiro não morderia a isca e continuaria a cavar.
— Chega, detetive. Temos outras coisas mais urgentes para tratar! — ela tentou desviar, balançando a mão.
— A Kiara veio para Morpheus porque ela queria, desesperadamente, salvar o próprio mundo e a mãe dela — Dante falou, a voz subindo de volume, impassível e cortante. Ele apontou para si mesmo. — Eu caí nesse inferno... por causa da bagunça que a Anna fez, mas também para procurar e salvar a Yuki. Todo mundo aqui tem um elo, um dever ou uma âncora.
Dante esticou o braço, apontando o dedo indicador diretamente para o centro do peito de Cat, prendendo a cientista contra a parede invisível da lógica.
— Mas você não tem um passado conectado a este mundo de papel. Você não nasceu em Morpheus. Você é de Elysium. Então, me responde uma coisa muito simples, Schrödinger... Qual é o seu verdadeiro motivo para estar aqui?
A sala pareceu esfriar dez graus. Cat Schrödinger, desta vez, não recuou. Ela não tentou encolher os ombros ou mudar de assunto. Lentamente, ela descruzou as pernas. Olhou profundamente para Dante, depois para Kiara e, por fim, seus olhos verticais pousaram na frágil e aterrorizada Eliza. As orelhas felinas no capuz do moletom inclinaram-se levemente para a frente, captando cada respiração tensa no ambiente.
Os lábios da pesquisadora se curvaram lenta e deliberadamente. Não era o sorriso maníaco de uma cientista louca brilhante. Não era a expressão acolhedora de uma aliada que acabara de salvar suas vidas. Era um sorriso absurdamente enigmático, sombrio e predatório, carregado de segredos milenares e de uma agenda oculta que pairava, densa e perigosa, muito além do apocalipse da pequena cidade de Morpheus.
Parte 8
O sorriso enigmático de Cat Schrödinger durou exatos três segundos antes de Dante chutar a perna de metal da mesa flutuante com a bota suja de sangue. O estrondo metálico reverberou violentamente pela sala não renderizada, cortando o clima de mistério.
— Guarda esse sorriso presunçoso de vilã de anime pra quem tem paciência — Dante rosnou. A enxaqueca latejava no compasso exato do seu coração. — Nós estamos exaustos, machucados e sem tempo pra enigmas. Fala logo a verdade nua e crua, gata. O que você quer aqui?
Cat suspirou, o teatro místico quebrando-se enquanto as orelhas felinas no capuz baixavam levemente.
— Tudo bem... — Ela apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos finos. — Eu disse para a Kiara lá no começo, no mundo exterior, que o meu objetivo era apenas estudar Morpheus.
Kiara a encarou, o olho são queimando com uma intensidade quase destrutiva. — Então você estava mentindo.
Cat ergueu as mãos na frente do rosto e começou a balançá-las defensivamente, como um gato acuado tentando arranhar o ar.
— Calma aí, chefinha! Eu não menti! Mas isso era só a ponta microscópica do iceberg. A minha verdadeira obsessão... o trabalho de toda a minha vida acadêmica e marginal... são as Crias de Astreus.
Kiara franziu a testa, trocando um olhar rápido e pesado com Dante. Desde que haviam cruzado o portal para aquele mundo, aquele termo se repetira mais vezes do que eles podiam contar. Em Morpheus, as Crias de Astreus eram tratadas quase como divindades menores, sacerdotes inumanos, pessoas abençoadas ou amaldiçoadas pelo toque de um Deus-Conceito. No mundo real, Caçadores e Shapers conheciam o termo, mas o tratavam como uma lenda obscura, um título folclórico ou uma teoria sem provas empíricas.
— O que tem elas? — Kiara perguntou, o tom desdenhoso. — São só pessoas com superpoderes que conseguem quebrar as limitações físicas do Éter comum.
— "Pessoas"? — Cat soltou uma risada ríspida, genuinamente ofendida com a simplificação. — Que visão estupidamente rudimentar. As Crias de Astreus não são descendentes biológicos no sentido de reprodução, como a mentalidade humana limitada de vocês imagina. Elas não têm um DNA mágico ou uma mutação genética.
Até porque os Astreus só invadiram a Terra e o Tribunal há vinte anos, e esse termo é usado em Elysium há séculos, Dante pensou, encostado no caixote, preferindo não interromper o ritmo febril da explicação.
— Elas são extensões conceituais puras dos dezessete Deuses-Conceito que regem as leis do universo — Cat continuou, os olhos verticais brilhando. — Elas carregam a impressão digital de Deus cravada a ferro na própria alma.
— Para de ser filosófica só pra enfeitar a fita. Esses deuses não são intocáveis — Dante retrucou, a indignação do Caçador falando mais alto.
A pesquisadora bufou e levantou-se num pulo. Andando de um lado para o outro na sala ondulante, a cauda de sombras chicoteava o ar rarefeito.
— Bom... serei estritamente científica e menos abstrata, então.
Ela ergueu a mão e, com o dedo indicador iluminado por uma centelha de código azul, começou a desenhar no próprio ar. Uma lousa digital holográfica materializou-se no vazio. Dante, Kiara e Eliza se inclinaram inconscientemente para ver melhor.
— O Éter das Crias de Astreus é fundamentalmente especial. Diferente do Éter sujo e filtrado dos seres vivos comuns, ele está conectado diretamente ao código-fonte da Criação. Digamos que o nosso Éter normal seja uma sopa rala composta por vários Éteres genéricos.
Ela desenhou a silhueta de um humano no ar. Dentro dele, faixas coloridas se misturavam de forma caótica, e em cada faixa ela escreveu, com rapidez alucinante, o nome de um Astreus: Vida, Morte, Guerra, Caça. Ao lado, desenhou outra silhueta. Acima dela, escreveu o título: CRIA. As faixas dentro deste corpo também existiam, mas uma delas era maciça, brilhante e quase engolia as outras. Ela rotulou a faixa maior como Destino.
— Quando um ser recebe o olhar de um Astreus, a partícula de Éter correspondente àquele conceito dentro do indivíduo se expande parasiticamente, tornando-se pura e esmagando as outras misturas — Cat parou de desenhar e virou-se para encará-los, a luz holográfica refletindo em seus olhos. — E a regra de ouro da física divina é essa: quanto mais puro for o Éter de uma Cria, mais a forma física dela rejeita a biologia base humana. Elas perdem a forma original, perdem a mente mortal fragmentada e se transformam em puros fenômenos da natureza. Vocês acham que aberrações monstruosas como a Caçada Selvagem ou a Névoa Phantom são eventos climáticos com mágica no meio? Errado! São Crias de Astreus que atingiram seu estado mais puro e inumano, vagando irracionalmente pelo mundo!
Dante sentiu um calafrio rasgar a espinha. Ele lutava contra Avatares e peões de Astreus há anos, mas aquela teoria abria as portas para um campo de horror existencial totalmente novo e inexplorado.
— Tá legal, entendi a aula de biologia amaldiçoada — Dante cruzou os braços, forçando a voz a manter a marra racional. — Mas o que diabos isso tem a ver com esse lugar específico? Por que Morpheus?
Cat parou de andar. A lousa holográfica sumiu em uma chuva de pixels.
— Tudo começou com as Pedras da Lua Azul — ela disse em um sussurro dramático. — Na minha pesquisa clandestina no mundo exterior, eu encontrei amostras minerais dessas pedras. A pureza de Éter cristalizado dentro delas era uma anomalia matemática sem precedentes. Eu quase enlouqueci tentando rastrear a origem geográfica de onde aquele minério brotava. Até que, varrendo arquivos mortos do mundo, eu encontrei um livro antigo.
— Um livro? — Eliza sussurrou. A voz fraca e assombrada quebrou o silêncio da sala. — Por que parece que a porra da nossa vida sempre volta para as páginas de um maldito livro?
— Esse livro específico era uma das edições raras dos Contos de Grimm, cópias espalhadas pelo submundo — Cat confirmou, cravando o olhar predatório na garota de cabelos magenta. — Era um conto proibido e censurado pelos Caçadores sobre algo chamado A Princesa Branca.
A mente de Dante trabalhou em overdrive. É verdade... se eu não me engano, os Grimm originais eram crias da memoria obrigados a registrar histórias reais disfarçadas de contos de fadas.
— Então, lá no mundo de Hortus Parvus, é realmente comum existirem textos Grimm rodando no mercado negro... — Kiara murmurou para Dante, as sobrancelhas franzidas.
— Analisando o folclore do conto a fundo, dissecando as entrelinhas, eu acabei mapeando as coordenadas para Morpheus, um suposto reino dos sonhos ainda intocado pelos radares dos Caçadores — Cat disse, a excitação acadêmica fazendo sua cauda tremer. — Eu decidi que precisava entrar e estudar essa dimensão a qualquer custo financeiro e moral. Sabem por quê?
Cat abriu os braços, o moletom esvoaçando enquanto ela englobava a imensidão digital e invisível ao redor deles.
— Porque eu criei a Teoria do Ecossistema Divino. Eu teorizei que todo esse reino insano de Morpheus... o tão sagrado Jardim da Memória... não é apenas uma dimensão onírica estática de pedras e casas. Eu acredito, com todas as minhas forças, que este mundo inteiro em que nós estamos pisando é uma gigantesca Cria viva. Um organismo em escala planetária, nascido da fusão grotesca do poder de cinco Astreus diferentes!
O choque atingiu o grupo com a força cinética de uma marretada no crânio. Dante arregalou os olhos bicolores, o copo de metal de repente parecendo pesado demais. Kiara engasgou violentamente com o suco de caixinha, tossiu e deu um passo largo para trás. Até mesmo Eliza, que mal conseguia acompanhar a terminologia mágica, sentiu o estômago despencar.
Um mundo que não era um lugar. Um mundo que era um monstro vivo. Uma anomalia colossal, uma quimera planetária feita da força fundida de cinco deuses do universo.
— É exatamente por isso que, na atmosfera densa desse mundo fechado, é infinitamente mais fácil a alma humana se conectar com o Éter absoluto e se corromper para se tornar uma Cria... — Cat continuou, implacável e alucinada, atropelando o choque deles com o despejo brutal das conclusões de sua vida.
— Droga... pera... calma aí um pouco! — Dante protestou, balançando a mão ensanguentada no ar. Ele sentiu o café quente derramar na própria pele, queimando os nós dos dedos feridos. Mancando para perto da mesa, puxou ar pesadamente e pegou outro copo térmico pelo reflexo de querer ocupar as mãos.
Agora tudo faz sentido..., a mente de Dante conectou os pontos em silêncio. Lá na Biblioteca Infinita, a Memória me disse que aquele lugar rasgava as leis do espaço porque era geograficamente próximo do "reino" deles. É por isso que ela conseguia falar comigo em formato físico sem precisar possuir um Avatar e descer pra Terra. A gente tá, literalmente, andando no sangue deles.
Assim que ele se encostou no pilar com o novo copo na mão, Dante olhou para Kiara, que limpava a boca com a manga rasgada da camisa, e depois para Eliza, que respirou fundo e apenas balançou a cabeça trêmula, dando o sinal mudo para que a garota-gato continuasse o pesadelo.
— Para confirmar a teoria absurdamente grandiosa de que este lugar existia, eu comecei a rastrear movimentos anômalos no mundo exterior que apontassem para cá — Cat disse, a voz baixando para um tom confessional. — E eu descobri algo bizarro rolando em Hortus Parvus. Houve uma série de sequestros cruéis e perfeitamente orquestrados lá. Pessoas normais sumindo sem deixar rastros ou corpos, mas... deixando bilhetes assinados com o nome do Circo Meia-Noite.
Kiara estalou a língua no céu da boca, virando o rosto em negativa severa.
— Isso é mentira da inteligência policial. Não faz sentido. Depois que eu fui presa pelo sistema, a facção se separou e parou de agir como um grupo unificado. E, quando eu liderava ativamente os mercenários, eu nunca — jamais — assinei uma única ordem de sequestro de civis.
— Pois é... — Cat concordou, batendo a palma da mão na mesa de metal com um estrondo seco. — Essa exata divergência era uma das grandes dúvidas que explodiam a minha cabeça! Afinal, o texto original do conto da Princesa Branca mencionava o Circo Meia-Noite, mas não fazia o menor sentido histórico a facção retratada na história estar fazendo trabalho sujo de sequestrador barato.
Ela virou-se lentamente. O olhar felino e impiedoso cruzou a sala ondulante e cravou-se no fundo da alma de Eliza, que se encolheu ainda mais no chão, abraçando os próprios joelhos com força.
— Mas aí... eu esbarrei em você, Kiara. E eu fui a fundo. Eu juntei as suas memórias fragmentadas com os rascunhos apócrifos da lenda da Princesa Branca, e a última peça do quebra-cabeça finalmente clicou. Eu descobri a verdade final e nojenta.
A sala não renderizada mergulhou em um silêncio absolutamente asfixiante.
— Os sequestros falsos do Circo Meia-Noite eram apenas uma isca — Cat sussurrou, a revelação final soando pesada como a lâmina de uma guilhotina. — Uma armadilha cênica e meticulosa, do tamanho de um país inteiro, feita e executada com um único propósito megalomaníaco: chamar a atenção, atrair a curiosidade e capturar um único alvo específico que deveria reconhecer a assinatura e morder o anzol no mundo real... a Stella. Você, Eliza.
O cérebro de Dante entrou em colapso termonuclear. As peças faltantes sobre o passado nebuloso de Eliza e a liderança de Kiara finalmente se encaixaram de forma trágica. Kiara levou a mão ilesa à boca, o olho arregalado cravado na irmã mais nova. Stella. Eliza. A Princesa Branca. Os falsos sequestros. O Tribunal. As atrocidades de Morpheus.
Tudo... cada tragédia que arruinara a vida das duas no mundo exterior não passara de uma macabra teia de aranha, tecida com paciência infinita e orçamentos divinos, exclusivamente para enjaular aquela colegial de cabelos magenta.
— O único maldito covarde e onipotente capaz de orquestrar algo assim na Terra... — Kiara fechou o punho são com tanta força que as unhas cortaram a palma da mão, sangue pingando no chão de pixels. — É a droga do Rei.
— Exatamente. O Rei de Morpheus, em sua busca doentia e obsessiva por sua "filha" no reino mortal, fabricou essa onda de terrorismo e sequestros falsos — Cat confirmou, sepultando qualquer dúvida.
Dante recostou a cabeça no pilar digital, os olhos bicolores se perdendo no teto escuro e inexistente da Porta dos Fundos. O Rei dos Sonhos..., o Caçador pensou, a raiva fria substituindo o choque. A peça principal do tabuleiro. Aquele ser enigmático e insano que eu tentei investigar nos arquivos da biblioteca celeste.
Dante engoliu em seco, apertando o copo de café. Será que, depois de todo esse inferno, nós finalmente vamos descobrir o rosto e o plano real desse desgraçado?
Parte 9
O eco do surto coletivo ainda vibrava pelas paredes invisíveis e oscilantes da Porta dos Fundos. Dante continuava com as mãos cravadas nos próprios cabelos bicolores, mas as engrenagens táticas de sua mente não paravam de girar, triturando as novas informações.
Ele ergueu o rosto devagar. Os olhos bicolores desceram até o corpo inerte de Yuki, jogado no canto da sala, e depois subiram, cravando-se na figura de Cat Schrödinger.
— Espera aí... — Dante levantou-se abruptamente, a voz áspera cortando o silêncio denso. A epifania o atingiu como um soco físico. — Vocês estão me dizendo que os mercenários do Rei sequestraram a Yuki porque acharam que ela era a Eliza?!
Cat Schrödinger estalou os dedos no ar e apontou para o Caçador com as duas mãos, como uma professora orgulhosa do aluno que finalmente resolveu a equação no quadro-negro.
— Essa foi exatamente a parte mais fascinante da minha pesquisa, Caçador. Logo de cara, os meus radares quânticos detectaram a anomalia bizarra do sequestro dela no mundo exterior. E a Kiara me confirmou a logística depois.
Kiara cruzou os braços com força, a expressão escurecendo ao ser puxada de volta para os erros de seu passado recente.
— Foi culpa minha. E do Dante, indiretamente — Kiara explicou, a voz carregada de uma amargura tática. — A conexão mental profunda que nós formamos por causa da Anna acabou criando uma fenda. Uma área de vulnerabilidade psíquica onde era muito mais fácil para as garras de Morpheus rasgarem o tecido da realidade e intervirem no mundo humano. Eles usaram a nossa brecha pra puxar a Yuki pra dentro do pesadelo.
— No começo, eu achei que os monstros tinham sentido a minha presença habitando o corpo da Anna e vieram me buscar — Kiara continuou, o olho são focado no chão de pixels. — Mas, quando eu finalmente cheguei no campo de batalha de Gehenna, os lacaios do Rei ainda agiam e falavam como se a "Princesa" continuasse desaparecida.
— E foi aí que a matemática não fechou — Cat assumiu a palavra, a cauda felina chicoteando de um lado para o outro atrás da cadeira giratória. — Nessa hora eu percebi que a Yuki foi puxada no lugar da Stella por um erro de cálculo astronômico deles. Mas teve um detalhe bizarro: desde que a Yuki foi levada... nenhum novo portal foi aberto para caçar a verdadeira Stella no mundo real. E, além disso, a Yuki foi mantida sob vigilância constante e absoluta do próprio Rei na Cidade Meia-Noite. Por quê?
Dante arregalou os olhos levemente. O cheiro de pólvora e sangue das lembranças do campo de batalha voltou à sua mente.
É verdade..., ele pensou, pasmo. Eu até fiquei pensando nisso na hora. Achei que teria que invadir as masmorras, salvar a Yuki, ajudá-la a fugir... mas no meio daquela porradaria insana contra a Kiara, a Yuki apareceu no campo completamente ilesa, com poderes, e até se juntou à batalha do nosso lado.
Todos os olhares na sala convergiram simultaneamente para a garota de cabelos escuros e pele pálida, desacordada no chão metálico. O monstro indestrutível que Eliza havia "desfeito" com um único piscar de olhos. Por que o Rei dos Pesadelos, a entidade mais cruel do universo, pouparia uma humana comum sequestrada por engano? E mais do que isso: por que a transformaria em uma arma?
Cat Schrödinger sorriu, um brilho investigativo e afiado rasgando o olhar felino.
— Eu só tive a resposta definitiva para esse mistério absurdo quando a Anna nos engoliu e eu aportei neste Universo de Papel. Porque este mundo falso, por mais perfeito que pareça... tem regras de roteiro estrutural que eu consigo ler e entender perfeitamente.
A pesquisadora ergueu três dedos, listando as leis fundamentais da Matrix de Anna:
— Regra número um: Aqueles que vieram de Hortus Parvus — que não são nem Sonhos nem Pesadelos conceituais — foram classificados pelo roteiro da Anna como Forasteiros. Pessoas que nasceram fora da cidade. É o seu caso, Dante. O caso da Ludmilla e da Maysa.
Ela abaixou um dedo.
— Regra número dois: Aqueles que chegaram a Morpheus há muito tempo, mas que ainda assim mantêm sua biologia original e não são criaturas da noite puras... como a Diretora Irene e o Katsuragi... também foram programados como Forasteiros.
Faz sentido, Dante deduziu em silêncio. Foi exatamente assim que nós, Caçadores, descobrimos que a Irene estava por trás da criação dos vampiros originais. Os ataques anômalos só começaram depois que ela chegou na cidade. Ela era a peça estrangeira no tabuleiro.
— E a regra número três — Cat abaixou o último dedo. — Aqueles que efetivamente nasceram e foram forjados em Morpheus, os Sonhos e Pesadelos originais, são classificados como Residentes. Sem exceção.
Eliza, ainda sentada no chão abraçando os próprios joelhos, piscou devagar. A dor excruciante em sua cabeça começava a ceder, dando lugar a uma confusão profunda e nauseante.
— Mas isso não faz sentido nenhum, Cat — Eliza interveio, a voz trêmula ecoando na sala. — Nesse mundo falso que a Anna criou... a Yuki era minha colega de classe. Ela ia pra escola comigo. Ela era programada como uma residente normal de Morpheus. Eu vi as fotos de infância dela pregadas no armário do colégio!
Cat abriu um sorriso largo, predatório e sombrio.
— Ah, é? Então me responde só uma coisa simples, Stella... Quem eram os pais da Yuki?
O silêncio esmagou a sala com o peso de uma âncora de chumbo. Eliza abriu a boca para responder o óbvio, mas a voz morreu na garganta. Nenhuma palavra saiu. Nenhuma imagem veio. Kiara franziu a testa violentamente, vasculhando as próprias memórias implantadas do roteiro falso. Dante cruzou os braços, forçando a mente a lembrar de qualquer detalhe nas fichas da escola.
Nada. Ninguém conseguia lembrar. O roteiro perfeitamente construído da escola, a vizinhança amigável, o passado nostálgico... Yuki estava presente em tudo isso, interagia com eles, ria com eles. Mas não havia uma única menção a uma árvore genealógica. A uma mãe que a buscava, a um pai que assinava as provas, a uma casa para onde ela voltava à noite. Ela era um fantasma biológico solto dentro da ilusão.
— Exatamente. Esse foi o erro primordial no código de Morpheus, o "bug" original que gerou todos os outros e fez a Stella notar que algo estava visceralmente errado — Cat sussurrou, deliciando-se com o horror impresso no rosto deles.
Cat deslizou da cadeira e começou a caminhar em volta do corpo inerte de Yuki, gesticulando no ar, regendo as mentes deles para pensarem em conjunto.
— A Yuki possui algo dentro da própria alma... uma essência tão absurdamente profunda, densa e idêntica à de Morpheus que o próprio Rei dos Pesadelos se confundiu lá fora e achou que ela fosse a Stella reencarnada. E, pior do que isso: a Autoridade da Anna, ao construir este mundo de papel, escaneou a alma da Yuki e a reconheceu cegamente como uma Residente natural do Jardim da Memória. O sistema a aceitou como "nativa". Mas, como ela é tecnicamente humana, a Anna não conseguiu programar quem deveriam ser os pais biológicos dela no roteiro. O código simplesmente não compilou.
Cat parou atrás de Eliza, olhando para baixo com um fascínio mórbido.
— E alguém nesta sala, mesmo com as memórias seladas, prestou tanta, mas tanta atenção na Yuki, que a ausência de uma família causou um atrito insuportável no subconsciente. Foi esse afeto e essa observação constante que rasgou as falhas no mundo, fazendo a Stella sentir dentro das próprias veias que este lugar era falso... ao contrário do Dante, da Kiara e de todos os demais figurantes.
Dante estalou a língua no céu da boca, a impaciência crônica e a dor nas costelas superando o suspense.
— Tá bom, Agatha Christie do apocalipse, já chega de drama e pausa para efeito. Desembucha logo. O que a Yuki realmente...
Antes que o Caçador pudesse terminar a frase agressiva, uma voz baixíssima, arrastada e carregada com o peso esmagador de uma memória milenar cortou o ar rarefeito da sala ondulante.
— Falando nisso... — Eliza murmurou.
Os olhos da garota estavam fixos e vazios, cravados no próprio reflexo distorcido no chão de pixels metálicos. Dante, Kiara e Cat pararam de respirar. Todos olharam para ela de imediato. A garota apertava o tecido do próprio peito com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos como giz.
— Há pouco tempo... quando a gravidade daquele monstro tentou me esmagar lá fora... eu relembrei de algo — Eliza continuou.
A voz dela não soava mais como a da adolescente assustada que havia sido até aquele momento. Assumiu uma textura melancólica, letárgica e profana, como se não fosse apenas a colegial falando, mas algo muito mais antigo e doloroso usando suas cordas vocais.
— Uma memória do "Antes". De quando eu estava no mundo dos humanos de Hortus Parvus, tentando me esconder de tudo. Em um local chamado... Gaia.
O nome caiu na Porta dos Fundos como uma ogiva nuclear. Dante e Kiara reagiram fisicamente, e de forma simultânea. A guerreira tensionou os ombros, adotando uma postura instintiva de defesa, e o Caçador arregalou os olhos, o rosto perdendo a pouca cor que lhe restava.
Gaia. O simples nome bastava. Um dos reinos mais selvagens e brutais de Hortus Parvus. Mas, acima de tudo, era categoricamente e historicamente o pior local possível do universo para qualquer ser sobrenatural — especialmente uma Princesa foragida — cair. Era o epicentro da inquisição, do preconceito e da caça implacável.
— Stella... — Kiara deu um passo hesitante à frente. A voz estrita de comandante falhou, e o instinto protetor de irmã mais velha tomou conta, amolecendo suas feições. — O que você lembrou? O que aconteceu lá?
Eliza travou os músculos. Ela ergueu o rosto devagar, em câmera lenta. Uma lágrima solitária, pesada e absolutamente silenciosa escorreu pela bochecha pálida da garota. A gota caiu, quebrando no piso digital da sala com um baque que pareceu ecoar pelo espaço. O olhar magenta dela cruzou o de Kiara e o de Dante. Estava carregado com um terror absoluto e uma dor excruciante que transcendia o próprio tempo, uma ferida que não havia cicatrizado mesmo após reencarnações.
— Eu estava correndo... eu estava fugindo deles na chuva... — Eliza sussurrou, as palavras rasgando a própria garganta, como se estivesse revivendo a exaustão física da memória. — E eu me lembro... eu lembro que eu não estava sozinha, Kiara.
Ela respirou fundo, puxando ar para os pulmões trementes, e soltou a revelação final que mudaria o eixo de toda a existência deles:
— Eu estava carregando um bebê.
Parte 10
A palavra "bebê" despencou na sala não renderizada com o peso de uma bigorna de chumbo.
O silêncio absoluto que se seguiu foi quebrado apenas pelo zumbido elétrico e digital da Porta dos Fundos. O cérebro de Dante — treinado nas trincheiras de Astreus para encontrar furos lógicos e rotas de fuga — engatou a quinta marcha. Ele se recusava a aceitar o peso monstruoso daquela implicação. A matemática emocional era brutal demais. Se Eliza carregava um bebê, e Yuki possuía a essência profunda de Morpheus cravada na alma... não. Ele tinha uma carta na manga: uma memória sólida do mundo real.
— Espera aí, Eliza — Dante ergueu a mão ensanguentada. A voz soou quase desesperada enquanto ele apontava para a garota encolhida no chão irreal. — Pensa bem. Responde com precisão: quantos bebês você estava carregando na sua fuga em Gaia?
Eliza piscou lentamente. Os olhos magenta estavam vazios, revivendo o pesadelo em loop dentro da própria cabeça.
— Apenas uma... — ela sussurrou, a voz frágil como vidro. — Uma menina...
Dante soltou um suspiro forçado e audível. Um sorriso tenso e aliviado repuxou o canto de seus lábios rachados.
— Então a teoria da gata maluca está furada. Viu? Pode não ser a Yuki. Acontece que a Yuki, no mundo real, é órfã, sim... mas ela tem uma irmã gêmea! A Miraí! — Dante virou-se para Cat, vitorioso, o raciocínio tático brilhando. — Isso quebra a sua lógica, Schrödinger. Se a Yuki fosse a filha perdida dela e o Rei a sequestrou por causa disso, a Miraí também deveria estar enjaulada aqui em Morpheus. Onde é que ela está?
Cat Schrödinger apenas cruzou os braços dentro do moletom. O olhar vertical e impiedoso da pesquisadora esmagou a negação do Caçador no mesmo segundo.
— O Circo Meia-Noite sequestrou a Yuki porque os radares deles apontaram que ela era a Stella. Ninguém... nem o Rei, nem as sombras, nem as facções... sabia que a Princesa Branca tinha uma filha, Dante. Muito menos que eram gêmeas — Cat inclinou a cabeça, a voz fria e clínica dissecando a esperança dele. — E pensem no cenário geopolítico. A Eliza estava fugindo em Gaia, um dos piores reinos de Hortus Parvus, caçada por algo ou alguém implacável. O fato de ela ter conseguido salvar apenas uma das meninas e estar carregando só uma consigo no momento da fuga não quebra a minha teoria. Pelo contrário: só torna a tragédia muito mais crível.
Dante recuou meio passo, engolindo em seco. A lâmina da lógica de Cat era brutal e irrefutável. Kiara, no entanto, balançou a cabeça vigorosamente, a mente de comandante recusando-se a aceitar tudo de forma tão fácil e passiva.
— Ainda não explica a falha na Matrix da Anna — a Presidente argumentou, apontando para a irmã mais nova. — Mesmo que a Yuki seja a filha biológica perdida dela... por que diabos só a Eliza teria se libertado do controle mental? Eu e o Dante somos literalmente conectados à alma da Anna, estivemos fundidos a ela, e não sentimos nada de errado até agora! A Maysa é um Avatar. A Silence é uma Cria. Nenhuma delas quebrou a ilusão visual como a Eliza fez!
— Vocês estão subestimando violentamente a força irracional dos sentimentos de uma mãe — Cat rebateu, o tom quase repreensivo, cortando o ar. — E, além disso, vocês não prestaram atenção: não foi uma quebra brutal do sistema. A Eliza sentiu que algo estava errado no fundo do código-fonte da alma dela ao conviver com a própria filha sem saber. E, por causa desse atrito, o subconsciente dela pediu que as coisas ficassem erradas. Ela usou a vontade dela para distorcer a cidade de papel, fazendo com que os furos na renderização aparecessem, forçando a própria mente mortal a perceber a mentira ao redor.
Cat começou a girar a cadeira de um lado para o outro em movimentos curtos e ansiosos.
— A Eliza não "quebrou" as regras da Arquiteta. É só que a Anna não pode cancelar totalmente o poder de outra entidade de nível Astreus ou de uma Cria Pura dentro do próprio domínio. É por isso que a pequena Silence ainda consegue fazer desenhos proféticos no chão do orfanato. É por isso que a Maysa consegue usar Éter inconscientemente para blindar os músculos, e a Ludmilla continua caçando com reflexos sobre-humanos. Os poderes delas ficam ativos nos bastidores do código. Exceto pelos poderes de vocês dois, Dante e Kiara... porque a Autoridade de vocês pertence intrinsecamente à Anna. Ela simplesmente desligou o interruptor de vocês na fonte principal.
O queixo de Dante caiu. As peças colossais daquele sistema de magia divino estavam se encaixando de forma geométrica e aterrorizante.
— Espera... — ele ofegou, o olho bicolor arregalado. — Então o poder da Eliza não é só Bruxaria? Aquele negócio de fazer pedidos e distorcer a realidade sem gasto equivalente... eu achei que fosse a categoria Anômala.
— A sua lógica estava certa, mas também estava incompleta — Cat apontou para ele. — É Bruxaria, sim. Mas somente Bruxaria humana não funcionaria neste Universo de Papel. A concentração de Éter na atmosfera de Morpheus é intencionalmente baixa para manter os NPCs dóceis. Somente seres capazes de gerar uma quantidade colossal de Éter interno e puro, como Avatares Absolutos ou Crias de Astreus, conseguem distorcer a física comprimida daqui.
Dante deu um passo para trás, a cabeça girando.
— Você está me dizendo... que a Eliza... a colegial assustada ali no chão... é uma Cria ou Avatar que, ainda por cima, usa Bruxaria anômala?!
Cat deu de ombros, sorrindo cinicamente.
— Por que o choque? Você não é um Caçador fundido a um Avatar de Astreus, que ainda por cima carrega uma das armas do apocalipse no bolso? Não importa que as chances matemáticas disso acontecer sejam quase nulas, Dante. Enquanto existir 0,1% de chance, a gravidade do universo dá um jeito de fazer acontecer.
Enquanto a discussão técnica e mágica explodia em metralhadoras de argumentos entre Dante, Kiara e Cat... no chão da sala, Eliza estava afundando no abismo. Ela não estava ouvindo mais nada. O despejo de informações, as vozes de Dante e Cat... tudo se tornou um ruído branco e abafado, como se ela estivesse presa quilômetros debaixo d'água.
Eliza cravou as unhas no próprio couro cabeludo. O choque estático invadiu violentamente sua mente. Flashbacks curtos, ríspidos e fragmentados rasgavam seu córtex: ela correndo em um beco chuvoso; um bebê chorando enrolado em seus braços; sangue quente nas mãos; o rosto pálido de Yuki sorrindo na escola; as risadas falsas no intervalo; o corpo de Yuki esmagado no asfalto do lado de fora, instantes atrás, neutralizado de forma irreversível por sua própria mão.
A palavra "Filha" ecoou em sua mente, repetindo-se como as badaladas de um sino fúnebre. Filha. Filha. Filha.
A respiração de Eliza tornou-se curta, errática e hiperventilada. O pânico cru, o peso de séculos de mentiras e a dor do abandono a sufocaram de uma vez só. A sala ondulante começou a girar fora de eixo. As linhas de código brilhante da Porta dos Fundos começaram a se fragmentar e falhar em pura estática na visão periférica da garota. O próprio espaço reagia ao seu surto.
Ela precisava de ar. De gravidade real.
Ignorando a dor de cabeça excruciante e a tontura que ameaçava desmaiá-la, Eliza levantou-se num solavanco desesperado, tropeçando nos próprios pés e caindo para a frente. Correu cegamente, tropeçando no piso digital em direção à pesada porta de latão. Escancarou-a com um empurrão violento e atirou-se de volta para a rua enevoada do terreno baldio de Morpheus.
— ELIZA! — Kiara gritou, o pânico cortando sua voz enquanto corria atrás da irmã, seguida de perto pelo mancar apressado de Dante.
Do lado de fora, a neblina gelada da madrugada abraçava as carcaças de carros e a cratera da batalha recente. Eliza caiu de joelhos no meio do asfalto sujo. Arfava, tossindo violentamente enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto, sua percepção da realidade estilhaçando em tempo real. O céu noturno, negro e sem estrelas, acima dela parecia uma enorme tela de vidro trincada, falhando em glitches de cores neon distorcidas. As vozes distantes de dezenas de loops temporais anteriores gritavam simultaneamente em seus ouvidos.
Dante e Kiara a alcançaram. Os dois deslizaram no asfalto molhado, caindo de joelhos, um de cada lado dela. Kiara agarrou a mão esquerda da irmã com firmeza, e Dante segurou a direita.
— Liz, olha para mim! Foca na minha voz! — Kiara implorou, a voz embargada e desesperada, apertando os dedos frios da irmã mais nova. — Respira! Está tudo bem. A gente está aqui. Eu estou aqui com você!
— Foca no asfalto, Eliza. Sente o chão. Foca na gravidade real! — Dante pediu, a voz grave e protetora, usando o próprio peso e calor para tentar ancorar a garota, que ameaçava explodir as leis da física daquele cenário novamente.
Eliza puxou o ar trêmulo e rasgado. A presença física, o peso e o calor das mãos sujas de Kiara e Dante forçaram o cérebro divino e em pânico a ancorar na realidade presente. Lentamente, as fraturas no céu falso cicatrizaram. A tela trincada estabilizou. As vozes calaram.
Ela piscou pesadamente, as lágrimas caindo e manchando as poças no asfalto. E então, o olhar dela se ergueu, focando diretamente no batente escuro da porta de latão de onde haviam acabado de sair.
Cat Schrödinger estava lá.
A pesquisadora estava encostada no batente de madeira de forma displicente, a cauda de sombras balançando suavemente no ar frio enquanto observava o colapso emocional de Eliza com um distanciamento quase clínico e alienígena. A tristeza sufocante nos olhos de Eliza evaporou no mesmo milésimo de segundo. Foi substituída por uma lucidez repentina, fria e cortante como um bisturi.
— Ela está mentindo... — Eliza sussurrou. A voz saiu trêmula, mas carregava o peso de uma certeza absoluta.
Dante e Kiara paralisaram. Os dois olharam de Eliza para a garota-gato encostada na porta.
— O quê? — Dante perguntou, as sobrancelhas unidas, soltando a mão dela devagar.
— A Cat... ela está escondendo alguma coisa de nós — Eliza apontou o dedo trêmulo diretamente para a pesquisadora. — Ela está escondendo o que realmente aconteceu no mundo real... logo depois que a Bomba Dimensional explodiu.
Cat Schrödinger não vacilou. A postura relaxada no batente da porta sequer mudou. Ao invés de se defender, negar ou justificar a acusação com ciência, os lábios da garota-gato se curvaram lentamente, abrindo-se no sorriso mais largo, enigmático e perturbador que Dante já vira desde que pisara naquele inferno. Ela não negou a mentira. Ela apenas sorriu, como quem assiste o ponteiro dos segundos do relógio bater no zero absoluto.
O som metálico e solitário de um salto de bota estalando no asfalto ecoou pela neblina espessa. Não veio da rua atrás deles; veio das sombras profundas do próprio terreno baldio. O ar da cidade de Morpheus pareceu congelar em resposta. A pressão atmosférica despencou de uma só vez, esmagando os pulmões deles e tornando a simples ação de respirar uma tarefa quase impossível.
— É claro que ela não vai dizer.
A voz feminina — doce, implacável e dotada de uma Autoridade tão brutal que curvava as leis da própria física ao seu redor — ecoou de todos os lados do terreno ao mesmo tempo, como se a própria cidade estivesse falando. Da neblina, a poucos metros da porta de latão e de Cat, uma silhueta dourada começou a se materializar, dissipando a garoa.
Os longos cabelos loiros brilhavam na escuridão com a intensidade radioativa de um sol enjaulado. Os olhos incrivelmente azuis cravavam-se no grupo caído no asfalto com a frieza impassível de uma deusa julgando meros insetos mortais.
A dona absoluta do universo de papel. A Arquiteta divina do apocalipse de Morpheus.
Anna Lighthart deu um passo à frente. Os saltos de suas botas tocaram o asfalto, emergindo completamente das sombras. O rosto dela estava impecavelmente inexpressivo enquanto olhava de cima para as próprias criações rebeldes.
— Não importa o que a Schrödinger diga, Dante... — Anna falou. O olhar azul e esmagador desceu para focar no Caçador de cabelos bicolores e na Nak Muay ferida, varrendo as falsas lembranças de parceria. — Não deem ouvidos a essa mentirosa.
O coração de Dante errou uma batida, congelando no peito. Kiara parou de respirar, a mão instintivamente voando para o cabo vazio onde estaria sua arma. O choque de estarem finalmente, após tanto sangue e dor, frente a frente com a verdadeira Arquiteta — sem disfarces, sem hologramas, sem loops de amnésia piedosa — selou o fim brutal da investigação deles.
O confronto com o divino havia começado.
Entrelinhas :
A Princesa Branca
Existe um lugar escondido no limiar da consciência, ali onde as pálpebras pesam e a razão se desfaz. É o Reino de Morpheus, a pátria dos Prims — um lugar onde os sonhos valsam pelo ar como bruma iluminada, e os pesadelos rastejam nas frestas escuras. No coração desse domínio, rasgando o céu noturno, erguia-se um castelo forjado em cristal e luar líquido. Suas torres eram tão ofuscantes que feriam a vista, mas suas paredes exalavam um frio capaz de congelar a pulsação de uma estrela.
E era ali, no núcleo dessa frieza reluzente, que vivia a Princesa Stella, a Branca.
Stella não apenas habitava o castelo; ela parecia feita dele. Sua pele tinha a palidez da neve intocada pelo vento, e seus cabelos eram fios de prata pura que cintilavam em resposta ao céu. Tinha olhos mansos e um riso que soava como sinos de vidro ao vento. Seu coração era uma raridade até mesmo para os Prims: uma pérola de bondade absoluta, intocada, como a primeira gota de orvalho da alvorada.
Contudo, o Rei dos Sonhos, seu pai, amava-a com uma intensidade que sufocava. Ele andava pelos vastos salões com passos pesados, os olhos sempre voltados para o horizonte além das fronteiras.
— O mundo exterior é uma poça de lama e sangue, minha pequena — dizia ele, apertando os ombros frágeis da filha com mãos trêmulas. — É um lugar forjado em espinhos que rasgam a carne e sombras que devoram a luz.
Movido por esse pavor, o Rei construiu ao redor de Stella uma prisão deslumbrante. Confinou-a numa ala do castelo onde as janelas eram seladas com ouro. Lá, o vento não tinha permissão para uivar, e os pássaros não podiam bater asas.
Seus súditos, do lado de fora dos muros translúcidos, a veneravam. Chamavam-na de A Princesa Branca, um título que suspiravam como uma prece. Amavam-na, sim, mas com a devoção distante de quem admira uma estrela incandescente, sabendo que tocá-la é impossível. Durante o dia, Stella passeava por seus jardins artificiais, sorrindo para flores de quartzo que tilintavam canções monótonas. Mas, quando a noite engolia o castelo e o silêncio absoluto a abraçava, o sorriso desmoronava.
Apoiada no parapeito gelado, ela chorava. As lágrimas escorriam silenciosas, caindo nos lagos de vidro como chuva invisível.
— Por que o mundo é tão vasto, e eu sou tão só? — sussurrava ela para o vazio. O vazio não respondia.
Até que, num crepúsculo de cores doentes, a monotonia foi quebrada. Uma névoa espessa e anômala rastejou das Terras Obscuras. Com ela, veio o Circo da Meia-Noite. Ergueu-se silenciosamente na base da colina do castelo: uma monstruosa lona de listras rubras e negras que, vista de cima, lembrava o sorriso escancarado de um lobo faminto.
A atmosfera de Morpheus mudou. O ar cheirava a açúcar queimado e pólvora. Os espetáculos atraíam multidões hipnotizadas. Eram assustadoramente sublimes: palhaços de rostos cadavéricos e olhos afundados em sombras, malabaristas cujas facas cortavam não o ar, mas a própria luz, e uma melodia dissonante de realejo que fazia os corações baterem fora de compasso. Os sussurros sobre o Circo subiram pelas paredes de cristal, infiltrando-se pelos vãos até alcançarem a Princesa.
Os olhos de prata de Stella ganharam um brilho febril. Ela correu até o grande salão.
— Pai! Pai, eu lhe imploro, deixe-me ver o circo! Apenas uma vez! — O vestido de luar farfalhou enquanto ela juntava as mãos.
A resposta do Rei fez o chão de cristal tremer.
— Nunca! — trovejou ele, a coroa de luz pulsando em fúria. — Aquela tenda é tecida com as tripas do medo e do pesadelo! Você não sabe o que pede, criança tola!
Como punição por sua ousadia, o Rei a arrastou para a torre mais alta e estreita do castelo. Bateu a porta pesada, girou a chave e a deixou na penumbra, onde o céu era apenas uma fresta distante. Naquela noite, enquanto Stella sufocava soluços contra um travesseiro de seda, um som macio arranhou a janela. Tlec. Tlec.
Uma figura esguia como uma aranha subia pela parede lisa de cristal, desafiando a gravidade. A janela se abriu sem ruído, e a criatura deslizou para dentro do quarto. Era uma Arlequina. Vestia um traje colado de losangos pretos e brancos, e seu rosto estava escondido sob uma maquiagem pálida que formava um sorriso permanentemente rasgado — e nada feliz.
— Princesas de luz não deveriam vazar água salgada, pequena — ronronou a Arlequina. Sua voz era uma cacofonia perturbadora, como dezenas de sinos rachados tilintando juntos. Ela se inclinou, movendo-se com uma graça predatória. — Venha comigo. Venha ver as cores sob a lona. Apenas uma espiadinha da torre de marfim... O grande Rei nunca saberá.
Stella, cuja gaiola de ouro a impedira de aprender o que era o perigo, viu naquela criatura bizarra apenas uma mão estendida. Uma amiga. Com o peito trovejando de adrenalina, a Princesa assentiu. Ela seguiu a Arlequina pela noite fria, esgueirando-se pelas sombras até o ventre da tenda listrada.
O interior do Circo era um delírio. Havia corredores de espelhos que não refletiam o presente, mas versões distorcidas da alma; luzes bruxuleantes que dançavam como espectros enforcados. Mas o que capturou Stella foi uma tenda menor, escondida nos fundos. Lá dentro, repousavam relíquias proibidas do Mundo dos Homens. Stella tocou, fascinada, um relógio de bolso — maravilhosamente inútil para imortais, pois contava os segundos morrendo. Passou os dedos de porcelana pela frieza metálica de um dedal e inalou o aroma de poeira e promessas antigas que emanava das páginas de um livro de couro.
A Arlequina surgiu atrás dela, os olhos brilhando como brasas através da máscara de tinta.
— Preste atenção, pequena — sussurrou a criatura, os lábios roçando a orelha de Stella. — No mundo de onde essas quinquilharias vieram, há maravilhas indescritíveis. Coisas que cantam, coisas que sangram. Se você fosse para lá, eles não a trancariam. Eles a adorariam, Princesa Branca. Cairiam de joelhos.
Foi um movimento sutil. Como quem assopra um dente-de-leão, a Arlequina plantou a semente da ruína.
— Eu quero ver... — murmurou Stella, os olhos vidrados nos objetos mortais. — Eu quero ver esse mundo.
O sorriso torto da Arlequina se alargou, repuxando a pele pintada. Com gestos ágeis, a criatura de losangos ensinou à Princesa as sílabas ásperas de um feitiço rasga-mundos, uma trilha proibida entre as realidades. Contudo, reteve em sua língua bífida o segredo mais letal da magia: a luz do sol humano queima a divindade. Se um raio tocar um Prim, o éter evapora, a imortalidade apodrece, e ele se torna nada além de carne e osso. Finito. Frágil. Mortal.
Cega pela ilusão da liberdade, Stella desenhou a porta no ar e atravessou o véu.
A transição foi violenta. O ar gélido e puro de Morpheus deu lugar ao cheiro denso de terra úmida e clorofila. Stella abriu os olhos e viu-se engolida por uma floresta vibrante. E então, o sol a tocou. A luz dourada infiltrou-se em sua pele de neve. Stella riu alto, rodopiando entre as árvores imensas, sentindo um calor inédito abraçar seus ossos. Ela não percebeu a magia prateada evaporando de seus poros, escorrendo invisível para a terra como areia em uma ampulheta quebrada.
— É maravilhoso! — gritou ela, inebriada, correndo em direção à fumaça escura que subia de uma cidade de pedra no horizonte.
Mas a inocência não é um escudo no mundo dos homens; é um alvo.
A primeira lição humana foi a Ganância. Nas ruelas sujas da cidade, um homem de dentes amarelos e sorriso untuoso barrou seu caminho. Os olhos dele brilharam ao ver o manto de Stella, tecido com os próprios raios da lua.
— Vejo que está perdida, donzela. Dê-me este manto inútil e eu lhe darei o que realmente importa aqui: pão quente — mentiu ele.
Stella, cujo coração desconhecia a anatomia de uma mentira, desfez o fecho no pescoço. Entregou a maravilha cósmica e ficou apenas com as roupas de baixo, finas e rasgadas. Ela sorriu ao mastigar o pão duro, feliz por ter feito uma troca tão "justa".
A segunda lição foi a Exploração. No dia seguinte, uma criança esquelética chorava em uma sarjeta. Movida por uma empatia dolorosa, Stella vasculhou o fundo de sua alma. Com muito esforço — um esforço que fez seus músculos agora mortais gritarem de dor —, ela forçou uma centelha de magia a emergir. Em suas mãos, brotou uma flor de cristal puro, brilhante e quente. Do outro lado da rua, um padeiro assistiu à cena. Ele agarrou Stella pelo braço fino.
— Faça mais dessas. Crie essas pedras preciosas para mim e você nunca mais dormirá na rua. Terá um lar.
A promessa de um lar soou como música. Mas o "lar" era o chão de pedra coberto de farinha no porão da padaria. E o sustento eram as sobras roídas pelos ratos. Dia após dia, noite após noite, o padeiro a forçava a trabalhar. Stella sangrava sua própria essência vital para moldar pássaros de luz sólida e caixinhas de música feitas de poeira estelar, enquanto o homem ria no andar de cima, empilhando ouro.
A terceira lição foi a Crueldade. Um dia, a fonte secou. A magia de Stella, privada de Morpheus e crestada pelo sol, esgotou-se. Quando ela tentou criar uma rosa, a flor desmanchou-se em cinzas cinzentas. Os pássaros de luz de dias anteriores piscaram e apagaram. Ao ver seu lucro virar fumaça, o rosto do padeiro contorceu-se em fúria. Ele a arrastou pelos cabelos até a porta e a chutou para o meio da neve.
— Fora daqui, aberração! — rugiu ele.
A comoção atraiu a multidão que antes comprava seus milagres. Ao vê-la caída, sem brilho, suja de lama e fuligem, o encantamento virou ódio.
— Impostora! Bruxa! — gritavam.
A primeira pedra atingiu o ombro de Stella. A segunda rasgou-lhe a testa. O sangue, vermelho e mortal, cegou seus olhos. Apavorada, a Princesa Branca correu, o corpo miúdo esbarrando nas paredes frias, enquanto os ecos das risadas a perseguiam.
A última lição foi o Desespero. O inverno humano era impiedoso. Num beco esquecido pelos deuses, Stella encolheu-se sob farrapos imundos. O mundo pelo qual ela havia trocado sua eternidade revelou sua verdadeira face: não era um lugar de maravilhas, mas um moedor de carne, frio e cinza. Ela abraçou os próprios joelhos, tremendo convulsivamente. Seu coração, outrora o prisma mais puro do universo, escureceu. A dor da traição, o peso esmagador da solidão e a crueldade gratuita injetaram um veneno escuro em suas veias. Ela havia entregado ao mundo sua luz, sua mágica, sua empatia. E o mundo retribuiu com pedradas e gelo.
O frio tomou conta de seus membros. Numa exalação longa e silenciosa, a Princesa Stella fechou os olhos. E não tornou a abri-los.
Muito além dali, nos domínios celestiais de Morpheus, um grito de dor absoluta estilhaçava as janelas do castelo. O Rei dos Sonhos caía de joelhos no salão do trono, os ecos de suas buscas infrutíferas morrendo no ar. Foi então que as grandes portas de carvalho e cristal se abriram. A Arlequina caminhou lentamente até o centro do salão. Seus guizos tocavam uma marcha fúnebre.
— O senhor está procurando no lugar errado, Majestade — disse ela. O sorriso pintado parecia mais largo do que nunca, a voz pingando um veneno doce e letal. — Fui eu. Eu abri a porta. Eu a levei aos homens. E aquele mundo nojento a mastigou e cuspiu os ossos.
O Rei levantou o rosto, os olhos cegos pelas lágrimas.
— Por quê? — a voz dele não passava de um fio rasgado.
A Arlequina parou de sorrir. Os olhos sob a máscara arderam com o ódio de séculos.
— Por minha mãe. Pelo meu povo. Por todos os Pesadelos que o senhor baniu para a miséria e para a escuridão absoluta para proteger o seu mundinho perfeito de luz! Esta foi a minha justiça.
Com um rugido que fez o chão ceder, o Rei avançou. Ele não a matou. Arrastou a Arlequina para as entranhas da terra, atirando-a na masmorra mais profunda de Morpheus, um abismo onde o silêncio não existe e as paredes gritam o tempo todo. Em sua fúria ensandecida, o Rei derramou sua dor sobre as Terras Obscuras, transformando a vida dos Pesadelos num inferno de tormentas ininterruptas.
Contudo, na sua arrogância de luz, o Rei esquecera de uma regra fundamental do universo: a morte não é um ponto final para um Prim. É uma metamorfose.
No beco gelado do mundo dos homens, sob um monte de neve suja, os dedos rígidos da garota morta se moveram. O corpo maculado e quebrado de Stella reagiu ao ódio que havia apodrecido seu coração. Ela não renasceu como a melodia suave de um sonho. Quando ela se ergueu da neve, as sombras ao redor curvaram-se em reverência. Seus cabelos de prata agora eram negros como o abismo; seus olhos gentis tornaram-se vácuos vazios e sem luz. O coração, antes puro, agora batia com um ritmo pesado — um tambor de guerra anunciando o fim da esperança.
A Princesa Branca havia morrido. E, do seu cadáver, o mais terrível dos Pesadelos abriu os olhos.
Por isso, crianças, quando dobrarem os joelhos à noite, tenham muito cuidado com o que pedem aos céus. O mundo lá fora pode exibir cores deslumbrantes, mas seus espinhos são longos e eles sempre encontram a carne. E saibam que aquele que caminha cegamente em busca de maravilhas... muito frequentemente encontra apenas a Escuridão sorrindo de volta.



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