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The Fall of the Stars: Capítulo 5 - O Xeque-Mate

Foto do escritor: AngelDark
AngelDark
11 de fev.
64 min de leitura

Atualizado: 24 de fev.

Volume 10 : Laços de Sangue


Parte 1

A primeira coisa que retornou aos sentidos de Ludmilla não foi a memória, mas o calor.

Era um calor úmido, pesado e densamente perfumado, que aderia à pele como uma segunda camada de suor doce. O vento cortante de Gehenna fora substituído por uma melodia distante e hipnótica: o dedilhar arrastado de um shamisen cujas cordas pareciam vibrar dentro dos ossos, ditando o ritmo da pulsação de Ludmilla.

Ela abriu os olhos. Sua visão, treinada para dissecar ameaças em milissegundos, falhou em encontrar alvos. Em vez disso, encontrou um teto de madeira laqueada em vermelho-sangue, onde lanternas de papel e hologramas de néon dançavam em uma valsa psicodélica.

Ela tentou se sentar num solavanco, o instinto de batalha gritando em seus ouvidos. Esperava o impacto das costelas estilhaçadas, o gosto metálico de sangue, o espasmo do pulmão perfurado. Não sentiu nada. Seu corpo estava leve, quase etéreo. Ela estava deitada sobre um futon de veludo carmesim, macio o suficiente para engolir uma pessoa.

— Onde... — A voz de Ludmilla saiu como o atrito de lixa sobre madeira, seca pelo desuso.

Ao lado, Eliza ocupava o futon adjacente. A Pesadelo dormia profundamente, o braço jogado sobre os olhos com um desleixo exausto. A perna de Eliza, que Ludmilla vira ser moída pela pata da Besta da Gula, estava envolta em bandagens de seda branca saturadas com um gel azul luminescente. O cheiro era de magia esterilizada e mentol. Estruturalmente, a perna parecia nova.

Ludmilla tateou a cintura por reflexo. Vazio. Suas lâminas, seu coldre, suas adagas de Éter — tudo confiscado. Ela fora despida de sua armadura de inverno e vestida com um yukata de seda preta, bordado com fios de ouro que desenhavam correntes quebradas ao longo de suas costas.

— Eliza! Acorde! — Ludmilla sacudiu o ombro da garota com uma urgência cortante.

— Hum... maninha? — Eliza resmungou, abrindo um olho remelento e turvo. — Só mais cinco minutos... o café está gelado...

— Eu não sou sua irmã e não temos cinco minutos!

Eliza sentou-se num salto, a sonolência sendo varrida pelo reconhecimento instintivo de perigo. Seus olhos arregalados absorveram as paredes de papel de arroz — shoji — iluminadas por tons de violeta e fúcsia, e o cheiro enjoativo de ópio misturado a incenso de cerejeira sintética.

— Esse lugar... — Eliza inspirou o ar denso, e um calafrio percorreu sua espinha. — Estamos em Eros. O Distrito da Luxúria.

Ludmilla levantou-se, testando o equilíbrio sobre o tatame aquecido. Eros era o coração financeiro e depravado de Gehenna, o domínio de Lilith. Um refúgio de prazer que servia como escudo para a cidade de Akumatsu, protegendo as famílias das cortesãs e associados da brutalidade direta dos outros Lordes. Lilith raramente saía de seu palácio, mas sua influência era uma teia invisível que envolvia tudo.

— Em outras palavras: território inimigo — concluiu Ludmilla, a mandíbula trincada. — Alguém nos arrancou da neve. Alguém com recursos para curar ferimentos fatais em horas.

— Por que nos resgataram? — Eliza sussurrou, a confusão nublando sua agressividade habitual. — E como sabiam exatamente onde estávamos?

— Duvido que tenha sido pela bondade do coração — retorquiu a Caçadora.

Sshhhhk.

A porta deslizante correu suavemente. Antes de a visitante entrar, uma nuvem de fumaça branca e aromática rolou para dentro do quarto, espalhando-se pelo chão como um tapete de boas-vindas tóxico.

— Vejo que a "Bela Adormecida" e o seu "Príncipe" finalmente despertaram do coma de gelo.

A figura que atravessou a névoa parecia uma pintura da era Edo vandalizada por um futuro cyberpunk. Era uma mulher alta, cuja mera presença parecia drenar o oxigênio do recinto. Vestia um quimono cerimonial de Oiran, camadas e mais camadas de seda pesada em tons de escarlate e ouro, propositalmente caídas nos ombros para revelar uma pele de porcelana tatuada com códigos de barras néon.

Seu cabelo era uma escultura que desafiava a gravidade, adornada com dezenas de grampos de ouro e pequenos ossos polidos que chocalhavam suavemente. Em uma das mãos, ela empunhava um kiseru — um cachimbo longo e fino de metal dourado.

Asmodea Lilith. A Lorde da Luxúria.

Ela era, objetivamente, a criatura mais bela que Ludmilla já contemplara. Mas era uma beleza perturbadora, projetada para ferir. Uma cicatriz brutal, grossa e queloide, rasgava o lado direito de seu rosto, nascendo abaixo do olho e descendo pela bochecha, deformando a simetria perfeita.

Ludmilla entrou em posição de combate instantaneamente, as mãos espalmadas, o Éter em seu sangue pronto para magnetizar qualquer fragmento de metal na sala.

— Quem é você?! — rosnou Ludmilla. — Onde estão nossas armas?

Asmodea soltou uma baforada de fumaça em forma de coração que flutuou preguiçosamente até o rosto da Caçadora. Ela não se abalou com a agressividade; para ela, Ludmilla era apenas um animalzinho acuado e interessante.

— Acalme-se, principezinho de porcelana — a voz de Asmodea era um sussurro de veludo, pingando um tédio sensual. — Vocês estão no Distrito das Luzes Vermelhas. Meu santuário.

Ela caminhou para o centro do quarto, o som de suas sandálias de madeira — geta — ecoando ritmicamente: toc, toc, toc.

— Quanto às suas armas... — Ela apontou o bocal do cachimbo para um canto sombrio. — Foram derretidas e vendidas no mercado negro para pagar o gel de cura que salvou essa perna patética da sua amiga. A medicina de ponta custa caro, queridas. Nada nesta vida é de graça... embora eu não tenha conseguido remover esse chakram que sua amiga usa no dedo. Ele parece... teimoso.

— Lilith... — Eliza murmurou, o pânico dando lugar a um respeito ancestral. — A Prostituta de Ferro.

Asmodea sorriu. O lado intacto de seu rosto era celestial; o lado da cicatriz era um lembrete de que ela já havia sobrevivido ao próprio inferno.

— Prefiro "Empresária do Prazer", mas aceito o título. Ele tem... peso histórico.

— Por que nos salvou? — Ludmilla não baixou a guarda. — Você é uma Lorde Pecado. Nós viemos para derrubar sua espécie. Deveríamos estar mortas.

Asmodea riu, um som baixo e gutural. Ela caminhou até Ludmilla, invadindo seu espaço pessoal com um rastro de perfume de ópio e perigo. Com o bocal frio do cachimbo, ela tocou o queixo de Ludmilla, forçando-a a olhar para cima.

— Se eu as quisesse mortas, criança... teria deixado que a neve da Ira fizesse o serviço. Seria um enterro poético, silencioso e, acima de tudo, econômico. E eu detesto desperdício.

Ela se afastou, o quimono pesado farfalhando enquanto se dirigia à varanda. Com um gesto dramático, abriu as persianas.

A luz de néon fúcsia e violeta inundou o aposento. Lá fora, Eros pulsava: arranha-céus em forma de pagodes cibernéticos que arranhavam o céu nublado pela poluição, hologramas de gueixas gigantes dançando entre fluxos de dados e rios de luz correndo pelas ruas como sangue digital.

— Eu as trouxe aqui porque o jogo mudou — declarou Asmodea, observando seu império de vícios. — A Rainha Negra retornou. E ela não está jogando xadrez; ela está virando a mesa e tacando fogo no tabuleiro.

Ela virou o rosto, os olhos brilhando com uma inteligência cruel.

— Eu sabia que esse dia chegaria. Sabia que, quando ela voltasse, eu deixaria de ser útil. Mas não pretendo ficar de braços cruzados assistindo-a incendiar o mundo quando ainda há tanto prazer que eu não experimentei.

Asmodea estendeu a mão enluvada, a fumaça do cachimbo envolvendo seus dedos como serpentes obedientes.

— O jantar será servido em dez minutos. Não se atrasem. A curiosidade é um tempero que arrefece rápido.

Ela deslizou para fora do quarto, deixando para trás o eco de suas palavras e um mistério que queimava mais que o gel de cura nas feridas de Eliza.

Parte 2

A sala de jantar privada de Asmodea rejeitava a banalidade de cadeiras ou a modéstia de mobílias comuns. Era um vácuo de luxo silencioso.

Almofadas de seda carmesim flutuavam a um palmo do chão, orbitando uma mesa baixa de madeira negra laqueada, polida com tamanho esmero que o reflexo do teto parecia um abismo sem fim. Sobre essa superfície espelhada, repousava um banquete que insultava a lógica e seduzia os sentidos. Sashimis de peixes abissais do Mar de Óleo, fatiados em lâminas translúcidas, ainda pulsavam com uma bioluminescência azul-néon, morrendo lentamente no prato. Ao lado, frutas lapidadas como joias rubras sangravam néctar, e o vinho, escuro e denso, aguardava em taças de cristal com bordas banhadas a ouro.

Ludmilla sentou-se na almofada flutuante com a rigidez de uma sentinela. Suas costas não tocavam o encosto invisível; as mãos, fechadas sobre os joelhos, eram nós brancos de tensão. Ela olhava para a comida como se cada prato escondesse uma lâmina.

Eliza, em contraste, era a imagem da necessidade primal. Seus hashis de marfim dançavam com destreza, capturando um pedaço de carne azulada que tremeluzia. A fome de um Pesadelo não conhecia etiqueta, apenas saciedade.

— Comam — a voz de Asmodea era veludo arrastado sobre cascalho. Ela serviu-se de saquê morno, o vapor dançando ao sair da pequena cumbuca de cerâmica. — Não há veneno. Matar minhas convidadas de estômago cheio seria um desperdício de iguarias que custaram o fôlego final de três mergulhadores.

Ela ergueu as mãos e bateu palmas, um som seco e definitivo.

Do teto mergulhado em sombras, o ar se agitou. Centenas de origamis coloridos — garças, borboletas e aranhas de papel — desceram em espirais vertiginosas. Eles não caíam; voavam. Pousaram com a leveza de flocos de neve nos ombros nus e nas mangas largas do quimono da Lorde.

— Meus shikigamis veem o que olhos mortais ignoram — murmurou ela, inclinando a cabeça para um pássaro de papel escarlate que pousara em seu dedo. O origami vibrou, e um som de papel amassado, semelhante a sussurros frenéticos, ecoou. — A queda brutal da Ira. A submissão patética da Gula... e o retorno da Rainha Negra.

Com um movimento fluido do pulso, ela dispensou os mensageiros. Os papéis se desfizeram no ar, transformando-se em volutas de fumaça colorida que logo se dissiparam.

— Kiara está convocando o Circo da Meia-Noite. Ela está limpando o tabuleiro para o Ato Final.

Ludmilla finalmente desviou o olhar do prato intocado, encarando a anfitriã.

— E você está com medo — constatou a humana. Não era uma pergunta. — Você sabe que ela está vindo. Você é a próxima peça a ser derrubada.

Asmodea riu. O som foi árido, desprovido de alegria, como folhas secas sendo pisadas no outono. Ela pousou seu kiseru — o longo cachimbo metálico — na mesa com um clique agudo.

— Medo? Talvez. O medo é o pai da sobrevivência. — Asmodea recostou-se, permitindo que a almofada se ajustasse ao seu corpo lânguido. Seus olhos, contornados por maquiagem pesada, perderam-se na fumaça roxa do incenso que serpenteava pela sala. — Mas o que sinto, acima de tudo, é a obsolescência.

Ela girou a taça de saquê, observando o líquido límpido.

— Vocês são jovens. Crianças do verão. Vocês não viram Gehenna antes Dela. Antes do Circo.

A Lorde da Luxúria começou a falar, e o ambiente pareceu escurecer, as paredes absorvendo sua voz rouca e hipnótica.

— Antigamente, este reino era um matadouro sem teto. Sem ninguém para contestar os Sonhos, éramos gado. Os Cavaleiros do Éden desciam das nuvens, imaculados e terríveis. Violavam nossas mulheres, trucidavam nossos homens e levavam as crianças para "experimentos de purificação". E nós? Nós apenas baixávamos a cabeça. Éramos tribos bárbaras disputando restos no lixo dos deuses.

— A Rainha Isobel? — Eliza perguntou, a boca cheia, parando por um instante.

Asmodea soltou um escárnio curto, que fez a cicatriz oculta sob a maquiagem se repuxar.

— Isobel tentava, a pobre alma. Ela amava seu povo, mas amor sem dentes é apenas piedade. Ela passava os dias de joelhos, implorando aos Sonhos por migalhas de misericórdia. — Asmodea fez uma careta de nojo. — Grupos de resistência existiam, claro. A Tromluí é um exemplo. Mas eram tolos românticos. Atacavam com raiva cega e eram esmagados como insetos em um para-brisa.

Ela tragou o cachimbo novamente, soltando a fumaça lentamente pelo nariz.

— Foi então que Kiara surgiu.

Havia um brilho nos olhos de Asmodea. Não de afeto, mas de um respeito antigo e relutante.

— Ela era... uma anomalia. Força bruta, intelecto afiado, educação refinada. Mas Kiara tinha algo que nenhum outro líder possuía: autoconsciência. Ela sabia que não podia mudar o mundo sozinha. Ela conhecia suas próprias falhas.

Asmodea apontou com a piteira do cachimbo para as janelas panorâmicas, onde hologramas de prazer e vício iluminavam a noite eterna do distrito.

— Por isso ela criou o Circo da Meia-Noite. Não como um exército, mas como um organismo vivo, onde cada órgão supre a falha do outro.

Ela começou a contar nos dedos longos, cujas unhas eram garras perfeitamente laqueadas.

— Ivy, a Inveja. Não era apenas uma fofoqueira venenosa. Ela controlava a narrativa. Sussurrava nos ouvidos certos, manipulava a verdade, tornava Kiara uma lenda antes mesmo de ela sacar a espada. Ela era a Voz. — Asmodea ergueu outro dedo. — Mamon, a Avareza. — Os anéis de ouro tilintaram. — Ele era o Capital. Revoluções custam caro: logística, suborno, suprimentos. Ele transformou anarquia em economia de guerra. Ele era o Bolso. — E Aslan, o Orgulho...

Ludmilla estremeceu, a memória da destruição em seu distrito ainda fresca.

— Ele era a Ciência — continuou Asmodea. — Para matar deuses, precisávamos entender a biologia deles. Ele nos deu venenos, armas biológicas, estratégia fria. Ele era o Cérebro. E então... — Asmodea fez um gesto cortante no ar. — Preguiça, Gula e Ira. O Escudo, a Espada e a Lança. A força cinética imparável.

— E você? — A pergunta de Eliza saiu baixa, mas cortou o silêncio. Ela finalmente largou os hashis, limpando o canto da boca. — Onde a "Prostituta de Ferro" se encaixava nessa utopia de monstros?

Asmodea parou. Lentamente, ela virou o rosto para Eliza. Pela primeira vez, a máscara de cinismo e volúpia escorregou, revelando uma exaustão profunda, milenar.

— Eu era a Misericórdia, criança.

O silêncio na sala tornou-se pesado, quase litúrgico.

— Guerras geram órfãos. Revoluções queimam lares. Kiara sabia que, para salvar o mundo, teria que quebrá-lo primeiro. Mas ela não queria que os inocentes queimassem na mesma pira que os culpados.

Asmodea abriu os braços, abrangendo não só a sala, mas todo o Distrito da Luxúria lá fora.

— Eros não foi construído apenas para o prazer da carne. Foi projetado como um abrigo. Um santuário. Para onde fugiam as viúvas, os aleijados, os refugiados que o fogo de Kiara desabrigava. Eu cuidava daqueles que sobravam. Eu era a garantia de que, quando a poeira baixasse, haveria alguém vivo para habitar o novo mundo. Eu era a consciência dela.

Ela suspirou, um som trêmulo que desmentia sua postura régia.

— Mas agora... — O aço voltou à sua voz. — Kiara perdeu a âncora. O coração dela congelou. A Rainha que retorna do exílio não traz misericórdia. Ela não se importa com danos colaterais. Ela vai incinerar Gehenna e o Éden, e não vai olhar para trás para contar os corpos.

— E é por isso que o medo te consome — concluiu Ludmilla, unindo os pontos com lógica fria. — Se ela não tem mais misericórdia... ela não precisa mais da encarnação da Misericórdia. Você é obsoleta.

— Exato. Serei descartada. Ou devorada.

Asmodea inclinou-se sobre a mesa. A atmosfera mudou instantaneamente. A melancolia se dissipou, dando lugar à predadora. Seus olhos brilharam na penumbra.

— A menos que eu tenha uma moeda de troca.

Ela olhou brevemente para Ludmilla.

— Você, humana... é uma variável interessante. Um erro no sistema. Mas você... — Seus olhos deslizaram e cravaram-se em Eliza com uma intensidade faminta.

— Eu? — Eliza engoliu em seco, recuando instintivamente na almofada. — Eu sou só um Pesadelo desgarrado da Tromluí. Ninguém importante.

— Não minta para mim, garotinha — Asmodea sibilou, a fumaça escapando por entre seus dentes perfeitos. — Meus shikigamis ouvem o bater de asas de uma mosca a quilômetros de distância. Eu ouvi o que Ela sussurrou quando seus olhos cruzaram com os seus no Vale da Ira.

Asmodea inclinou a cabeça, saboreando a palavra que viria a seguir.

— "Stella".

No instante em que o nome foi pronunciado, a temperatura da sala despencou. O ar tornou-se gélido, vibrante. Eliza soltou um arquejo, levando as mãos às têmporas.

— O que... — A voz dela falhou. Uma pontada aguda, como um prego em brasa sendo martelado em seu lobo frontal, a cegou momentaneamente.

— Stella foi a única coisa que Kiara amou mais do que sua ambição — revelou Asmodea, implacável, sua voz ecoando distante. — A única por quem ela chorou. E você, pequena criatura... você tem o cheiro dela. A assinatura de alma dela.

Eliza tentou levantar-se, mas suas pernas eram água. O mundo girou, as lanternas vermelhas da sala se fundindo em riscos de luz vertiginosos.

— Para... — Eliza gemeu, fechando os olhos com força, tentando expulsar a dor.

Mas a escuridão trouxe imagens.

Não era mais a sala de jantar de Asmodea. Era um salão vasto, de mármore frio e dourado opressor. Eliza — ou a consciência que habitava aquele corpo na memória — estava encolhida no chão, abraçando os joelhos. A solidão era física, um peso esmagador sobre o peito.

Então, a porta se abriu. A luz invadiu a penumbra. Não era um monstro. Era uma garota. Cabelos que pareciam feitos de luz solar e olhos que continham galáxias. Kiara. Mas não a Rainha Gélida. Era uma Kiara jovem, vibrante, com bandagens sujas de sangue seco nas mãos e fuligem no rosto. Ela segurava uma flor, roubada dos jardins proibidos, estendendo-a como o maior tesouro do mundo.

Ela sorriu. E o sorriso aqueceu o frio do mármore.

— Por que uma linda flor chora no escuro? — A voz de Kiara na memória era doce, cheia de um calor humano que Eliza nunca conhecera. — Uma flor que não vê a luz do sol murcha, Stella.

A visão oscilou violentamente. Sombras. Um circo iluminado pelo luar. Sussurros invadiram sua mente, palavras desconexas carregadas de urgência: "O Livro", "Outro Mundo", "Esperança", "Humanos".

— AAAAAAH!

O grito de Eliza rasgou a realidade. Ela desabou de joelhos no tatame, as mãos agarrando os cabelos, como se tentasse fisicamente manter seu crânio intacto.

Ludmilla saltou sobre a mesa num movimento único, chutando taças e pratos, aterrissando ao lado da companheira.

— Eliza! — Ela segurou os ombros da garota, sacudindo-a. — O que está acontecendo?! Respire!

Eliza ergueu o rosto. Seus olhos estavam inundados de lágrimas, um pânico genuíno e infantil distorcendo suas feições.

— Dói... por que dói tanto lembrar...? — Ela soluçou, tremendo violentamente nos braços da humana.

Do outro lado da mesa, imperturbável pelo caos, Asmodea recostou-se nas almofadas. Ela levou o cachimbo aos lábios mais uma vez, observando a cena com um fascínio científico. Um sorriso curvou seus lábios, satisfeito e perigoso.

— Até para mim seria difícil acreditar sem ver com meus próprios olhos — murmurou a Lorde da Luxúria, a fumaça desenhando formas sinuosas no ar. — Mas é realmente possível que você esteja aí dentro... Stella.

Parte 3

A fumaça doce e o néon vibrante de Eros ficaram para trás, engolidos pela escuridão fria e aristocrática da Capital. Ali, no pátio interno do Castelo Real da Cidade Meia-Noite, o ar não cheirava a prazer, mas a ozônio estático e adrenalina rançosa.

— Vamos, velhote! Se demorarmos mais um segundo, a troca da guarda vai nos pegar no flagra! — sussurrou Yuki, espremendo-se por uma janela de ventilação estreita.

Ela aterrissou na grama azulada do jardim real com a graça silenciosa de um felino, o corpo absorvendo o impacto sem um som. Em sua mão, a lança branca Schneesturm já estava pronta, uma extensão de seu próprio braço.

Logo atrás dela, com a sutileza de um deslizamento de terra, veio Killian Landry.

O humano antigo não lembrava em nada o prisioneiro esquelético e empoeirado de horas atrás. Ele invadira o arsenal real como uma tempestade em uma loja de porcelana e saíra de lá parecendo um deus da guerra improvisado. Vestia um traje de pirata negro, o couro rangendo a cada movimento. Na cintura, três espadas de épocas distintas colidiam: um sabre europeu, uma katana curva e uma cimitarra bruta. Nas costas, um machado de guerra com um cabo maior que a própria Yuki; e, em cada dedo da mão esquerda, anéis mágicos roubados brilhavam com luzes caóticas.

CLANG.

Ele aterrissou com um baque sísmico. O som de metal contra pedra fez Yuki estremecer e silenciou instantaneamente os pássaros noturnos nas árvores próximas.

— Zahahahaha! — A risada de Killian foi um trovão rouco. — Infelizmente, garota, saídas silenciosas não fazem o meu tipo. Passei anos demais apodrecendo aqui; minha despedida exige uma festa barulhenta.

Com um movimento lento e teatral, ele puxou o machado das costas.

— Vamos lá, parceiro.

Killian canalizou seu Éter. A lâmina do machado respondeu imediatamente, pulsando em um vermelho violento e expandindo-se, o metal gemendo como se estivesse vivo, reconhecendo a sede de sangue de seu portador.

Yuki, uma caçadora experiente, sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Ela conhecia sua lança como conhecia sua própria respiração, mas aquele machado... aquilo era uma calamidade forjada em ferro.

— Recomendo que corra, pirralha de vinte mil e dezoito.

Antes que Yuki pudesse protestar, Killian desferiu um golpe horizontal. Não foi apenas um corte; foi uma demolição. A onda de choque rasgou o ar, perfurando parede após parede, criando um túnel de escombros e poeira através da estrutura do castelo. O abalo percorreu o chão, fazendo as fundações tremerem.

— O caminho está aberto! — ele gargalhou, entrando no buraco fumegante sem a menor cerimônia.

Eles correram. Yuki liderava, ágil e moderna, saltando sobre escombros; Killian seguia, um tanque de guerra imparável. Mas, à medida que avançavam, a adrenalina de Yuki começou a esfriar, substituída por uma estranheza gélida. O caminho estava... livre.

"Espera... Por quê? Com todo aquele barulho, devíamos estar cercados."

— Garota... — A voz de Killian perdeu o tom de zombaria pela primeira vez. Ele continuava correndo, mas seus olhos varriam os corredores. — Tem uma coisa seriamente estranha aqui. Se este é o castelo do Rei, por que as paredes parecem mortas? Não sinto energias. A cidade lá fora... parece vazia.

Yuki estava tão focada na fuga que não havia notado. "Por que um Rei viveria em um mausoléu?"

Eles cruzaram os Jardins dos Lamentos. Diziam as lendas que as flores dali cantavam quando alguém se aproximava, mas as pétalas permaneceram mudas, como se prendessem a respiração. Atravessaram a Ponte dos Suspiros sem ver a sombra de um único Guarda de Cristal. Os corredores externos, que pela lógica militar deveriam ser um ninho de sentinelas de elite e autômatos assassinos, eram um vácuo.

— Isso está fácil demais... — Yuki murmurou, derrapando e parando na esquina do último corredor de pedra antes do pátio principal. O silêncio pressionava seus tímpanos, mais pesado que qualquer grito de guerra. — Droga... esse pressentimento é horrível.

Killian franziu a testa. A ganância infantil em seus olhos desapareceu, substituída pelo instinto afiado de um guerreiro que sobreviveu a eras de conflito. Ele parou de brincar com os anéis e firmou a mão no cabo de uma das espadas.

— Se não tem guardas, garota... é porque algo maior dispensou a necessidade deles.

Eles dobraram a esquina final.

Diante deles, o Portão do Eclipse — uma estrutura colossal de ferro negro e prata — estava escancarado. A ponte levadiça estava baixada, uma língua de pedra estendida convidativamente para a cidade escura lá embaixo. A liberdade estava a dez metros.

Mas eles não correram. Seus pés travaram no chão de pedra como se tivessem criado raízes.

Não havia um exército bloqueando a saída. Não havia monstros de dentes afiados ou muralhas de fogo. Havia apenas um homem.

Ele estava parado no centro exato do caminho, de costas para eles, observando a lua cheia. A luz lunar banhava o pátio em um azul espectral, recortando sua silhueta contra o calçamento.

Ele não usava a armadura dourada dos generais. Não empunhava armas divinas que cegavam os olhos. Vestia apenas túnicas cerimoniais leves, em preto e branco, tecidos que flutuavam suavemente na brisa noturna, dando-lhe uma aparência quase monástica, inofensiva. Seus cabelos eram negros como azeviche, curtos e levemente despenteados, contrastando violentamente com a pele pálida da nuca exposta.

— Aí está ele... — Um sorriso selvagem rasgou o rosto de Killian. O medo parecia não ter lugar em seu vocabulário.

Novamente, o Éter vermelho inundou o machado. O ar crepitou.

— Há quanto tempo, meu caro Rei! Já fazia eras que não me visitava em minha jaula fria. Por isso vim pessoalmente te ver... e te entregar o presente que prometi!

Killian não hesitou. Ele girou o corpo, usando a força centrífuga e o peso da arma colossal para desferir o mesmo corte que derrubara as muralhas minutos antes. A lâmina vermelha gritou ao cortar o ar, descendo em um arco de destruição pura, mirando o centro das costas do monarca.

O impacto deveria ter partido o chão ao meio. Mas o som que se ouviu não foi de destruição. Foi um suspiro.

A energia vermelha, ao tocar a aura do homem, simplesmente se desfez. Como fumaça contra um furacão, como uma gota de chuva contra o oceano. O ataque foi anulado pela mera presença dele.

Killian, o homem que zombava de tudo e que rira na cara da morte no calabouço, deu um passo para trás. Suas mãos, antes firmes como rocha, tremeram, fazendo as três espadas em sua cintura tilintarem.

Yuki sentiu o ar ser sugado de seus pulmões. A pressão atmosférica no pátio mudou instantaneamente, tornando-se densa, irrespirável.

O homem se virou lentamente. O rosto do Rei era jovem, de uma beleza melancólica e atemporal. Mas seus olhos... eles eram vermelhos. Não o vermelho vivo e quente do sangue ou do fogo. Era um carmesim profundo, líquido e antigo. As pupilas eram fendas verticais, janelas para um abismo onde a esperança entrava para morrer.

O Rei dos Sonhos.

Ele olhou para Yuki e Killian. Não havia raiva em sua expressão. Não havia ódio. Havia apenas um tédio infinito, cósmico, e uma arrogância tão natural que parecia ser a única lei daquele universo. Ele olhava para eles como um homem olharia para duas baratas barulhentas interrompendo uma leitura.

— Então... — A voz do Rei era suave, macia como veludo negro, deslizando pelos ouvidos deles. — Está tentando influenciar minha filha assim como fez com a outra, Killian?

Yuki apertou o cabo de Schneesturm até os nós dos dedos ficarem brancos. A eletricidade estalou em sua pele, uma reação automática de pânico, mas suas pernas não obedeciam. Ela estava diante do ápice daquele mundo, e a gravidade dele a esmagava.

— Killian... — Yuki sussurrou pelo canto da boca, sem ousar piscar. — Você disse que podia matá-lo... É bom ter um plano.

Killian engoliu o tremor. Ele ergueu o queixo, forçando uma gargalhada que soou quase insana diante daquela entidade.

— Zahahahaha! Eu tenho o melhor plano de todos, garota!

Ele apontou o machado trêmulo para o Rei.

— Não morrer. E vencer esse maldito. Qualquer outro detalhe é desnecessário!

Parte 4

— Já passou da hora de morrer, Lysander!

O grito de Killian não foi um aviso; foi a detonação de uma ogiva. Ele não correu — ele explodiu em movimento. A pedra sob suas botas virou pó em uma cratera instantânea. A armadura de couro roubada gemeu, protestando contra a expansão súbita de músculos densos como cabos de aço. Em suas mãos, o Machado do Deus Morto despertou de seu sono secular. A lâmina, banhada em eras de maldições e sangue coagulado, uivou com uma fome carmesim, distorcendo o ar ao seu redor como uma miragem de calor no asfalto.

— Zahahahaha! Garota! Me dê cobertura! — ele berrou, já no ar, a capa negra esvoaçando enquanto descia como um meteoro vingativo.

Yuki não precisou de um segundo pedido. Seus instintos, afiados no fio da navalha da sobrevivência, assumiram o controle. Seus olhos varreram o pátio e encontraram a cabeça de uma gárgula de pedra caída perto de uma pilastra. Munição.

Com um chute preciso, ela lançou a rocha pesada para o alto. Enquanto o objeto subia, ela girou Schneesturm com as duas mãos, plantando os pés no chão como uma batedora de beisebol diante do arremesso que definiria o campeonato.

— Carga Máxima: Polaridade Induzida!

Sua mão esquerda livre tocou a pedra no ar por uma fração de segundo. ZAAAAAP!

Uma torrente de eletricidade azul-branca, pura e concentrada, foi injetada no granito. A rocha não apenas brilhou; ela vibrou, superaquecida e magneticamente carregada, zumbindo como uma colmeia enfurecida.

Railgun Improvisada! BANG!

O cabo da lança conectou. Não houve o som de um impacto de pedra; houve um estrondo sônico que estilhaçou as poucas vidraças intactas do pátio. O projétil foi disparado a velocidades hipersônicas, transformando-se em um feixe de luz e trovão que rasgou a escuridão, ultrapassando Killian em sua descida e mirando o centro do peito do Rei.

Foi um ataque em pinça perfeito: a aniquilação balística de Yuki pela frente e a força cataclísmica de Killian vindo de cima.

O Rei dos Sonhos não se moveu. Ele não levantou as mãos para bloquear. Ele sequer piscou. A brisa da noite mal perturbava a franja de seus cabelos negros.

A pedra eletrizada atingiu seu peito. Deveria ter havido uma explosão de carne, sangue e ossos. Deveria ter havido o som úmido de costelas virando estilhaços. Em vez disso, houve apenas... o som de poeira caindo.

O projétil sônico, carregado com força suficiente para derrubar um encouraçado, simplesmente se desfez em areia fina a um milímetro da túnica imaculada do monarca. A energia cinética, a eletricidade, a massa bruta — tudo se dispersou no ar como fumaça de cigarro soprada por um deus entediado.

Um milissegundo depois, o machado colossal de Killian desceu, mirando o pescoço de Lysander em um arco perfeito.

SWISH.

A lâmina letal passou direto. Não cortou carne, não encontrou osso, não houve o menor feedback tátil. Foi como golpear a neblina da manhã ou a imagem de um holograma. O Rei permaneceu sólido, respirando, mas a arma amaldiçoada atravessou o espaço onde seu pescoço estava sem causar um único arranhão. O machado cravou-se no chão de pedra com um estrondo frustrante, abrindo uma fenda profunda que fez o pátio tremer.

— O QUÊ?! — Killian rosnou, a confusão lutando contra a fúria em seus olhos.

Com um grunhido animal, ele puxou o machado com força bruta e girou o corpo, sacando simultaneamente a espada serrilhada de sua cintura, cuja lâmina pingava um veneno esverdeado. Ele mirou a cintura do Rei.

Nada. Apenas o ar sendo cortado.

Killian entrou em frenesi. Ele se tornou um turbilhão de lâminas, aço e fúria, seus movimentos tão rápidos que deixavam rastros de imagem residual.

— Tempestade de Mil Cortes!

Ele atacou de todos os ângulos. Corte vertical descendo como guilhotina. Horizontal mirando as costelas. Estocada direta no coração. Diagonal ascendente.

O Rei apenas suspirou, um som brando de fadiga crônica, enquanto as armas letais passavam através de seu corpo, ou desviavam milimetricamente de sua pele, ou simplesmente paravam no ar, trêmulas, a centímetros de seus olhos, desafiando toda a física conhecida.

Yuki, observando de longe, sentiu o estômago despencar. A própria lógica da batalha havia sido rasgada.

— O que é ele?! — ela gritou, faíscas elétricas dançando erraticamente em seus dedos trêmulos. — Ele é intangível? É ilusão de ótica? Dobra espacial?!

Killian recuou num salto, ofegante, o suor escorrendo pela barba desgrenhada e pingando nas pedras. Ele fincou o machado no granito e apoiou-se no cabo, o peito subindo e descendo como um fole de forja. Um sorriso maníaco e beirando o pânico repuxou seu rosto.

— Zahahahaha! — A risada era alta, mas soava incrivelmente oca. — Admito que até eu não faço ideia, garota! É como tentar cortar o reflexo da lua em um lago!

— Como você não sabe?! — Yuki retrucou, o pânico estrangulando sua voz. — Você disse que o conhecia! Foi ele quem te trancou naquele buraco!

Killian cuspiu sangue e limpou um corte que ele mesmo fizera na palma da mão, ao apertar a espada com força excessiva.

— Eu conheço o Lysander desde que ele era um pirralho catarrento brincando de divindade! — rosnou o guerreiro, os olhos cravados no Rei. — Ele sempre teve esse olhar morto... esse jeito de olhar para o mundo como se fosse um tabuleiro de xadrez onde joga sozinho. Mas eu nunca lutei contra ele, garota.

O sorriso insano de Killian vacilou, substituído por uma sombra escura que envelheceu seu rosto em séculos.

— Quando eu caí neste mundo... quando os desgraçados do meu mundo me baniram e me jogaram aqui como lixo espacial... eu já cheguei acorrentado. Eu caí derrotado, sangrando e sem memórias. Lysander não me venceu em combate. Ele só precisou trancar a porcaria da porta.

O Rei, que até então mantinha os olhos voltados para o céu noturno, ignorando a violência ao seu redor como quem ignora o zumbido de uma mosca, lentamente desceu o olhar. Seus olhos carmesins, com pupilas fendidas, focaram em Killian.

Um sorriso triste, banhado em uma misericórdia tão arrogante que causava náusea, curvou os lábios pálidos do monarca.

— Ah, sim... — A voz de Lysander flutuou até eles, suave, melódica, dolorosamente incompatível com o cenário de destruição. — Eu me lembro perfeitamente, Killian. Um pacote ruidoso de carne e pecado, embrulhado em correntes que nem mesmo eu forjei.

O Rei deu um passo à frente. O som de seu calçado macio tocando a pedra foi inaudível, mas ecoou como um trovão de aviso na mente de Killian. O guerreiro tensionou cada músculo, mas, pela primeira vez na noite, não avançou.

— Eu sempre tive curiosidade... — continuou o Rei, inclinando a cabeça levemente para o lado, com a expressão de quem examina um espécime fascinante e defeituoso sob uma lupa. — Que tipo de atrocidade inominável você cometeu em seu mundo natal para que seus pares o descartassem de forma tão absoluta?

A pergunta não foi um insulto. Foi dita com uma compaixão genuína, um tom quase paternal, o que a tornou infinitamente mais venenosa do que qualquer xingamento.

— Você deve ter sido um monstro verdadeiramente deplorável, Killian. É uma pena.

— CALA A BOCA!

A piedade do Rei foi o fósforo no barril de pólvora. A última linha de sanidade estratégica de Killian estalou como um galho seco. Um ódio puro, cego e sufocante inundou seu rosto.

— NÃO ME OLHE COM ESSA PIEDADE DE MERDA, SEU MALDITO!

Ele avançou. Esqueceu a técnica, a postura, a experiência de mil batalhas. Foi apenas força bruta e instinto assassino. Com um rugido bestial, ele ergueu o machado na mão direita e a katana na esquerda para um ataque em "X" que visava decapitar e bifurcar o Rei simultaneamente.

Lysander não suspirou. Sua expressão endureceu uma fração de milímetro, a compaixão evaporando de seus olhos.

— Barulhento.

O Rei ergueu a mão direita e moveu apenas o dedo indicador. Um gesto sutil, de cima para baixo. Como um maestro encerrando abruptamente o clímax de uma sinfonia.

CRAAAAACK!

Não houve explosão mágica. Não houve rajada de vento ou onda de Éter visível.

A cabeça de Killian foi violentamente, brutalmente chicoteada para baixo, como se a gravidade de um buraco negro tivesse subitamente focado exclusivamente em seu pescoço.

Foi menos que instantâneo. O rosto do guerreiro colossal colidiu com o chão de pedra com uma força tão dantesca que pulverizou o granito em uma teia de aranha de três metros de diâmetro. O som de sua mandíbula estilhaçando foi um estalo repulsivo de osso moído.

— Gaaagh!

A montanha de músculos despencou. Killian ficou preso ali, de joelhos, em uma posição de submissão forçada e grotesca. Seu rosto estava esmagado contra o chão estilhaçado, o corpo inteiro tremendo. Os cabos de aço de suas costas se contorciam em espasmos desesperados enquanto ele usava cada grama de sua força colossal para tentar erguer a cabeça, mas era inútil. Ele não conseguia se mover um único milímetro. A força o esmagava com a indiferença de uma montanha caindo sobre uma formiga.

Yuki recuou, as pernas falhando, os olhos dilatados de puro horror cósmico.

— Gravidade?! — ela gritou, a voz falhando enquanto sua mente moderna lutava para catalogar o pesadelo. — Primeiro intangibilidade, agora telecinese?! Quantos malditos poderes esse cara tem?!

O Rei virou o rosto com uma lentidão calculada na direção de Yuki. A frieza glacial desapareceu, substituída mais uma vez por aquela ternura tóxica e sufocante.

— Você está equivocada, minha filha.

Ele ergueu a mão esquerda graciosamente até a altura do rosto. A luz azulada da lua bateu em algo que, até aquele momento, a velocidade e a escuridão haviam mantido invisível aos olhos humanos. Um brilho fugaz. Fino como navalha. Quase espectral.

— Meu poder nunca mudou. Desde o amanhecer deste mundo... — Lysander moveu os dedos elegantemente, dedilhando o espaço vazio como se tocasse a melodia mais triste em uma harpa invisível. — ...eu estou apenas controlando fios.

Com o coração esmurrando as costelas, Yuki forçou a visão, canalizando todo o seu Éter para as retinas. O reflexo da eletricidade residual de sua lança agiu como um pó revelador. E então, a verdadeira face do pesadelo se descortinou.

Ela engasgou, a lança caindo de suas mãos entorpecidas.

O pátio inteiro. As muralhas do castelo. O céu noturno. O espaço milimétrico entre os átomos do ar. Tudo, absolutamente tudo, estava enredado em uma teia infinita, claustrofóbica e tridimensional de fios de seda translúcidos. Eram mais finos que a seda de uma aranha, mas a aura que emanavam revelava uma resistência que faria o diamante parecer vidro frágil.

O Rei nunca foi intangível; ele estava usando uma parede microscópica de fios em constante movimento para desviar as lâminas milissegundos antes que tocassem sua pele, dispersando a força bruta e os ataques de Yuki através da teia para o solo. Ele não usava gravidade ou telecinese; um único fio solitário, invisível e inquebrável, estava enrolado perfeitamente ao redor da garganta de Killian. E o Rei o estava puxando para baixo, apenas com o peso de seu dedo, quebrando um titã com a mesma facilidade com que comandava uma marionete de madeira.

Lysander não era um guerreiro, nem um mago. Ele era o Marionetista Absoluto de um mundo onde tudo — cada pedra, cada lufada de vento, cada batida de coração — estava inevitavelmente pendurado em suas cordas.

— E agora... — O Rei inclinou a cabeça e, com um leve movimento do pulso, puxou o fio de seu indicador um pouco mais para trás.

O som que Killian fez não foi humano. Foi um grunhido úmido de agonia pura, borbulhante e abafado pelo chão de pedra. O fio cortou as camadas de couro de sua roupa e penetrou profundamente na carne de sua nuca, e uma poça de sangue escuro começou a se espalhar rapidamente sob seu rosto estilhaçado.

— ...vamos ver se você aprende a curvar a cabeça na presença da realeza.

Parte 5

Killian não estava apenas derrotado; ele estava sendo compactado contra a realidade.

O guerreiro antigo grunhia, um som animal e úmido, enquanto o granito frio esmagava sua mandíbula estilhaçada. O sangue, escapando por entre seus dentes quebrados, formava uma poça viscosa e negra ao redor de seu rosto — um espelho escuro refletindo o céu sem estrelas que ele não conseguia ver.

Mas o Rei dos Sonhos já havia perdido o interesse.

Para Lysande, o humano lendário e a garota da tempestade haviam deixado de ser ameaças no exato milissegundo em que ele assim decidiu; agora, haviam regredido à insignificância de mobília quebrada. Poeira inconveniente no chão imaculado de seu pátio.

Com um movimento de pulso casual, leve como quem espanta uma mosca, o Rei afrouxou a tensão do fio invisível que dobrava a gravidade ao redor do pescoço de Killian. Apenas o suficiente para que a traqueia não colapsasse, permitindo que o guerreiro engasgasse com o próprio sangue, mas mantendo-o preso, humilhado, incapaz de encher os pulmões completamente.

A misericórdia de Lysander não era bondade; era uma forma prolongada e refinada de desprezo.

Ele deu as costas para os dois. Seu manto preto e branco farfalhou suavemente, movendo-se como as asas de um corvo fúnebre, enquanto ele deslizava até a borda do pátio elevado. Ali, o parapeito se abria para o abismo do horizonte.

Seus olhos vermelhos ignoraram o distrito da Meia-Noite logo abaixo. Eles varreram o vazio, perfurando a escuridão, e se fixaram em algo muito, muito mais distante.

Lá, no limite da visão, brilhando como uma joia falsa e arrogante cravada na noite eterna, estava a Cidade de Cristal. A capital de Morpheus. O berço dos Sonhos.

Um silêncio pesado desceu sobre o castelo. Não era a ausência de som; era a presença de uma pressão atmosférica esmagadora.

Yuki, com as pernas travadas pelo medo e os músculos gritando para fugir, sentiu antes de ouvir. Não foi um barulho. Foi uma violação sensorial.

Uma vibração profunda, um infrassom tectônico, percorreu sua medula óssea, fazendo seus dentes doerem e o ar em seus pulmões vibrar. O espaço ao redor deles estremeceu, distorcendo a luz das estrelas como se uma nota grave de um órgão gigantesco tivesse sido tocada no núcleo do planeta — invisível, inaudível, mas fisicamente aterrorizante.

Zzzzt.

— O que... o que é isso? — Yuki sussurrou, os olhos arregalados, o pânico fazendo sua voz tremer enquanto ela procurava rachaduras nas paredes do castelo. — Um terremoto?

Killian, com o rosto colado ao chão e o sangue borbulhando nos lábios, parou de lutar. Seu instinto de guerra, afiado por milênios de conflito, gritou algo muito pior do que um desastre natural. Algo colossal, algo irrevogável, acabara de ser posto em movimento.

Mas eles não viam nada. Para os olhos mortais de Yuki e Killian, a noite continuava escura e silenciosa.

Apenas o Rei via.

Nos olhos de Lysande, a realidade se desdobrava em camadas de espectro que mentes inferiores jamais compreenderiam. Onde Yuki via escuridão, Lysander via a arquitetura do universo. Ele via as Linhas de Força. Ele via a geometria sagrada que sustentava a barreira do mundo como uma tapeçaria complexa.

E, naquele horizonte distante, sobre a Cidade de Cristal, ele viu as primeiras falhas.

Não eram rachaduras na terra ou no céu. Eram rasgos no próprio tecido da causalidade. Fios dourados do destino, que deveriam estar esticados e perfeitos, agora vibravam violentamente e se partiam, estalando como cordas de violino sob uma tensão impossível.

Um sorriso lento, carregado de uma melancolia antiga e uma satisfação terrível, curvou os lábios pálidos do monarca.

— É realmente magnífico... — A voz dele foi um suspiro de admiração genuína, levada pelo vento noturno, contrastando com o horror do que ele testemunhava. — Então... finalmente começou.

Lysander ergueu uma mão pálida e elegante em direção à cidade distante. Ele fechou os dedos no ar vazio, pinçando o horizonte como se pudesse segurar a capital inteira entre o polegar e o indicador. Seus dedos dançaram levemente, manipulando cordas que só ele sentia, testando a tensão do mundo.

— Como esperado... — Lysander murmurou.

A temperatura no pátio despencou dez graus instantaneamente. O frio não vinha do vento; emanava da própria sombra do Rei.

— Tudo se move conforme a coreografia exige. O grande palco foi montado. Os fios do destino estão sendo puxados com força total…

Ele baixou a mão lentamente, girando-a para olhar as linhas de sua própria palma aberta, fascinado pela inevitabilidade do que viria a seguir.

— Inclusive os meus.

Parte 6

KRA-KOOOOM!

O impacto não foi metálico; foi tectônico.

O vergalhão de aço, que Dante infundira com Éter até brilhar como o núcleo de um sol moribundo, colidiu contra as garras nuas de Maysa. Onde deveria haver carne rasgada, houve apenas uma explosão de pressão atmosférica e faíscas que cegaram o quarteirão.

Dante não foi apenas bloqueado; ele foi convertido em um arado humano.

— Gghh!

As solas de suas botas rasgaram o asfalto, cavando duas trincheiras fumegantes enquanto ele era arrastado para trás por dez metros. A força física daquela mulher era uma violação das leis da massa. Não era como aparar um golpe; era como tentar segurar a queda livre de um arranha-céu usando um taco de beisebol feito de manteiga.

— Opa, opa! — Dante gritou, os dentes trincados, forçando os braços trêmulos para desviar a força dela para o lado, tentando desesperadamente recuperar o centro de gravidade.

Foi aí que sua nova biologia o traiu. Sua cauda negra, agindo por um instinto primitivo de autopreservação que ignorava o comando cerebral, sentiu o desequilíbrio e chicoteou violentamente para a direita como um contrapeso vivo.

O movimento foi brusco demais. A inércia jogou o torso de Dante para o lado errado. Seus pés se trançaram no ar. A postura de combate desmoronou em uma pirueta ridícula, e ele começou a cair de cara no concreto.

— Maldito rabo traíra! — Dante xingou, o pânico subindo pela garganta.

Mas no combate de alto nível, o erro é apenas combustível. Dante não lutou contra a queda; ele se entregou a ela. Ele usou o torque gerado pelo "tropeço" da cauda para girar o corpo no ar em um parafuso horizontal, transformando a falha catastrófica em uma esquiva acrobática improvisada.

E isso salvou a vida dele.

SHIIIIING!

O som não foi de vento; foi o som do vácuo sendo rasgado. Três lâminas de ar comprimido, invisíveis exceto pela distorção da luz que causavam, foram disparadas pelo simples movimento de "unhada" de Maysa. Elas passaram exatamente onde o pescoço de Dante estava um milissegundo antes, cortando silenciosamente alguns fios de seu cabelo que ainda flutuavam no ar.

O ataque seguiu seu curso. Atrás de Dante, a carcaça de um prédio de escritórios de cinco andares recebeu o impacto. Não houve explosão. Houve apenas um silêncio absoluto, seguido por um som grave de deslizamento geológico.

GRUUUM.

A fachada de concreto e as vigas de aço estrutural ganharam três cortes diagonais perfeitos, limpos e espelhados. A parte superior do prédio começou a deslizar lentamente para o lado, caindo em câmera lenta como fatias de pão, antes de desabar em uma nuvem de poeira colossal que engoliu a rua.

Maysa não parou para admirar sua obra. Ela avançou através da nuvem de concreto pulverizado como um tubarão rasgando a água turva. Ao redor de seu corpo, uma aura aterrorizante se acendeu: chamas azuis pálidas, frias e letais, dançavam sobre sua pele.

— Isso é o ápice da sua evolução? — A voz de Maysa cortou o ar gélido, destilando um desprezo aristocrático que feria mais que suas garras. Ela parou no meio da rua destruída, limpando uma partícula de poeira imaginária do ombro. — Sua coordenação motora é patética. Se é só isso que tem a oferecer... é deplorável.

Ela não entrou em uma base de luta complexa. Apenas recuou a perna direita alguns centímetros. O ar ao redor do pé dela começou a uivar, sugado para um ponto de vácuo que se formava na ponta de sua bota. Então, ela desferiu um chute direto.

Foi um movimento simples, frontal, sem firulas técnicas. Mas a física ao redor dela gritou em protesto. Antes mesmo que o pé dela percorresse metade do caminho, a pressão atmosférica colapsou.

KRA-KRA-KRA-SHHH!

As janelas dos prédios comerciais em um raio de trinta metros explodiram para fora simultaneamente, uma chuva de vidro e metal anunciando a chegada do golpe.

"Merda", Dante pensou, o tempo dilatando em sua mente enquanto a morte se apresentava em forma de bota de salto alto. "Bloquear isso é suicídio. Meus braços virariam pasta vermelha... então vamos do jeito mais divertido."

— Relaxa, tia! — Um sorriso rebelde e suicida rasgou o rosto de Dante. — O show está só no aquecimento!

BOOM!

Uma aura carmesim densa explodiu de Dante, vaporizando instantaneamente o gelo azul no chão ao seu redor. Mas ele não aplicou o poder em seus músculos para defesa. Seus olhos focaram apenas no vergalhão de aço incandescente em suas mãos.

"Aceleração Temporal."

A realidade da arma mudou. O peso de toneladas de metal desapareceu. Para o resto do mundo, ainda era uma viga pesada; para Dante, naquela fração de segundo, era uma pluma de luz sem inércia.

Ele girou o pulso. O vergalhão tornou-se um borrão laranja, um escudo cinético giratório que interceptou a trajetória do chute. Dante não tentou parar o golpe; ele o guiou. A ponta do vergalhão tocou a lateral da bota de Maysa milímetros antes do impacto no peito dele. O desvio foi cirúrgico, um redirecionamento de vetor perfeito.

A força titânica do chute passou raspando pelo ombro de Dante. A onda de choque resultante atingiu o ar atrás dele.

CABUM!

Uma mureta de concreto reforçado de um estacionamento atrás de Dante foi instantaneamente atomizada, transformando-se em uma nuvem de pó fino que subiu dez metros no ar.

A guarda de Maysa estava aberta. Era a fração de segundo de que ele precisava.

Dante largou o vergalhão no ar (que, devido à manipulação temporal, continuou girando lentamente no lugar, suspenso em gravidade zero) e mergulhou em direção ao chão. Ele plantou as mãos no asfalto quente. Sua cauda negra, aprendendo rápido, agiu instintivamente: chicoteou para baixo e cravou a ponta no concreto como uma terceira perna, criando um ponto de pivô perfeito.

Usando a cauda como alavanca, ele converteu a energia da queda em um movimento ascendente violento. Suas duas botas atingiram o esterno de Maysa com a força de um aríete hidráulico.

BANG!

O som seco de impacto ressoou pelo quarteirão. Maysa não voou; ela foi arrastada. Suas botas rasgaram o asfalto por quinze metros, desenhando duas longas trilhas de fogo azul-gelo que sibilavam furiosamente no concreto derretido.

Ela parou, imóvel como uma estátua de gelo. Lentamente, baixou o queixo. Havia uma mancha de fuligem em forma de sola de bota em suas roupas impecáveis, bem na altura do peito. Com um gesto de puro nojo, ela sacudiu a poeira com a ponta dos dedos, como se tivesse sido tocada por lixo.

Então, ela ergueu o rosto. A máscara de frieza aristocrática havia rachado. As fendas verticais de seus olhos reptilianos dilataram-se subitamente, pulsando em um azul elétrico.

— Ora... — A voz dela era uma mistura de elegância e fome, um predador descobrindo que a presa tinha dentes. — Talvez você não seja entulho total, afinal.

Num piscar de olhos, Maysa sumiu. Não houve rastro de fumaça ou magia. Foi pura, bruta e aterrorizante explosão muscular. O asfalto onde ela estava simplesmente cedeu, criando uma cratera de três metros de diâmetro.

ZUM!

Uma sombra cobriu Dante. Ele olhou para cima. Lá estava ela, suspensa no ápice do salto, bloqueando o sol. Maysa entrelaçou os dedos das duas mãos, transformando os braços em um martelo de guerra humano. Ela começou a descer, e a pressão do ar gerada pela queda comprimiu o espaço ao redor de Dante, rachando o chão antes mesmo de o golpe conectar.

Era um ataque feito para afundar um tanque de guerra no subsolo. Dante sorriu.

Deveria haver medo. Deveria haver o pânico instintivo de um humano enfrentando um monstro. Mas, naquele milissegundo em que a morte despencava do céu, Dante sentiu algo estranho: silêncio. O ruído estático que sempre atormentou sua mente — o caos de ter duas almas, a luz e a sombra gritando em seus ouvidos — desapareceu. O mundo desacelerou.

Ele não estava pensando em salvar Morpheus. Não estava pensando em heroísmo.

"Isso vai doer pra cacete se me acertar", pensou ele, a adrenalina inundando seu sistema como uma droga elétrica. "E eu estou adorando cada segundo."

Sua mente e seu corpo, antes em conflito, sincronizaram em uma frequência perfeita de violência.

— Sora! Eletromagnetismo!

— Pode deixar sua retaguarda comigo, parceiro! — A voz de Sora ecoou cristalina em sua mente. — Lute à vontade e eu cuido do resto!

A viga de metal incandescente, que flutuava inerte a alguns metros de distância, ganhou vida.

ZAAAP!

Como se o braço de Dante tivesse se tornado o polo de um eletroímã colossal, o vergalhão foi puxado violentamente de volta. Não veio suave; veio girando como uma hélice mortal, rasgando o ar. Dante não apenas agarrou a arma; ele usou o momentum do retorno magnético para amplificar seu próprio giro. Ele pegou o metal no ar, sentindo o calor através da luva, e instantaneamente injetou todo o seu Éter restante.

— Cai dentro!

O metal uivou, revestido por uma aura vermelha espessa e instável. Dante girou o corpo num arco ascendente perfeito, encontrando a descida de Maysa.

KABOOOOOOOOOM!

O mundo perdeu a cor por um instante. Vermelho e azul colidiram no centro da praça. A colisão não gerou apenas som; gerou uma esfera de aniquilação. Uma cúpula de energia bicolor expandiu-se a partir do ponto de impacto, varrendo tudo. Os postes de luz de ferro dobraram como juncos ao vento. O chão sob os dois lutadores foi pulverizado, transformando concreto em areia fina enquanto as duas forças da natureza disputavam quem cederia primeiro.

Longe dali, protegido atrás de uma parede de concreto, Teth observava, o olho bom arregalado. Ao lado dele, Safira flutuava, folheando um grimório dourado enquanto dançava no ar. Luz verde emanava de suas mãos em ritmos pulsantes, tricotando os ossos quebrados e a pele rasgada do Cavaleiro com uma velocidade sobrenatural.

— O que... o que é isso? — Teth murmurou, vendo Dante trocar golpes com o monstro em uma velocidade que seus olhos mal conseguiam acompanhar.

Ele se lembrava de Dante lutando contra Snow. Naquela vez, o garoto lutava como um animal encurralado, movido por desespero, ódio e uma recusa teimosa em morrer. Era feio. Era doloroso de assistir. Mas agora... Dante estava rindo. Não era a risada maníaca de Killian ou a crueldade de um vilão. Era um sorriso de canto, focado, cheio de dentes e vida. Ele se movia com uma fluidez que misturava a brutalidade de briga de rua com a elegância de um dançarino de break. Ele levava um soco de raspão, cuspia sangue e devolvia dois chutes giratórios, usando a própria cauda para se equilibrar em ângulos impossíveis.

— Ele está... se divertindo? — Teth perguntou, incrédulo. — Mas isso está totalmente diferente de antes... ele é realmente o Dante?

— Ele parou de ser tímido, floquinho! — Safira riu, dando uma pirueta e tocando o nariz de Teth como se ele fosse uma criança. — Como eu não o vi antes, não sei muito bem. Mas pelos registros na biblioteca, parece que antes ele estava dividido entre Luz e Sombra. Agora que está em equilíbrio, ele consegue ser ele de verdade. Sem medo, sem culpa.

Safira fechou o livro com um estalo seco e fez uma pose final no ar.

— A violência é algo "errado"? A violência é uma "ferramenta"? Isso é o que as pessoas que tentam definir tudo em bem e mal dizem. Mas na realidade, a violência é só uma forma de expressão também. E ele agora está em uma performance honesta! Você deveria tentar se soltar um pouco, Teth. O aço que não dobra, quebra... e é tão sem graça.

Teth olhou para as próprias mãos, ainda tremendo. A rigidez moral que sempre o guiara parecia frágil diante daquela verdade crua. "Não definir como bem ou mal? Mas como eu faço isso, quando eu inteiro sou uma divisão... isso é impossível para mim."

No centro da praça, a batalha deixou de ser um confronto físico e tornou-se um desastre natural localizado.

Maysa, sentindo a adrenalina de finalmente encontrar um saco de pancadas que não quebrava no primeiro golpe, deixou sua máscara cair. Um sorriso selvagem rasgou seu rosto. As chamas azuis em seus braços rugiram com tal intensidade térmica que o oxigênio ao redor foi consumido. O concreto sob suas botas não derreteu; ele vitrificou instantaneamente, transformando o chão em obsidiana lisa e espelhada.

— Dança das Garras: Guilhotina de Vácuo!

Ela desapareceu em um borrão azul. Não foi um ataque, foi um bombardeio. Maysa desferiu uma sequência de doze golpes. Cada movimento de seus dedos criava lâminas de ar comprimido que assobiavam como jatos de caça, retalhando o cenário.

— Aguente se for capaz! — Maysa sibilava entre risadas, cada palavra pontuada por um corte que rasgava a realidade.

Dante estava sendo mastigado. Ele recuava, patinando no vidro recém-formado no chão. O vergalhão em suas mãos, antes uma arma formidável, agora era pouco mais que uma massa torcida de metal gotejante, brilhando em um laranja triste, incapaz de suportar mais impactos.

SHIIING!

Um poste de luz ao lado de Dante foi cortado ao meio na diagonal. A parte superior deslizou lentamente, caindo com um estrondo metálico.

— Ok, ok! Você é durona, a mensagem foi recebida! — Dante gritou, suando frio, enquanto desviava a cabeça milímetros de uma garra que teria lobotomizado seu cérebro.

Ele precisava ser mais rápido que a própria biologia. Dante parou de recuar por um décimo de segundo. Ele respirou fundo, e o ar entrou em seus pulmões com o cheiro de ozônio e cobre.

— Liberar Arquivo: Segundo Modo — Deus da Velocidade.

ZZZZZTT!

O som não veio de fora; foi um curto-circuito interno, audível apenas para ele. Dante usou sua eletricidade não para atacar, mas para sequestrar seu próprio sistema nervoso. Ele enviou uma descarga controlada de alta voltagem pela espinha, queimando os limitadores de segurança do cérebro.

O mundo ao redor de Dante sofreu uma falha na matriz. As cores desapareceram. O azul vibrante das chamas de Maysa, o vermelho do sangue, o cinza da poeira... tudo foi drenado, substituído por um mundo estático em tons de cinza monocromático. O som da batalha foi sugado por um vácuo, substituído por um zumbido elétrico constante.

No "overclock", o tempo não parou, mas se arrastou em um melado espesso. Ele viu Maysa. Ela estava no meio de um movimento letal, o braço direito estendido, as garras visando sua jugular. No mundo real, aquilo era um borrão supersônico. Na percepção acelerada de Dante, ele podia contar as gotas de suor congeladas no ar ao redor do punho dela. Ele viu a contração microscópica dos músculos no antebraço dela antes mesmo de o golpe chegar.

Estímulo. Resposta.

Seu corpo reagiu antes que ele pudesse formular o pensamento "desvie". Dante soltou o vergalhão derretido. A barra de metal ficou suspensa no ar, caindo em câmera superlenta. Ele flexionou os joelhos. O movimento foi fluido, líquido, sem o tremor da dúvida. Ele girou o tronco sob a guarda de Maysa, passando por baixo do braço mortal dela com a facilidade de quem passeia no parque.

Para Maysa, Dante simplesmente desapareceu.

O mundo monocromático de Dante piscou. Ele precisava de mais do que velocidade; ele precisava de multiplicidade.

— Resquício Temporal: Trindade!

O ar ao redor de Maysa "glitchou". Não foram ilusões de ótica que surgiram; foram três instantes diferentes do tempo colidindo no presente. Três Dantes, sólidos e envoltos em eletricidade estática carmesim, materializaram-se em um triângulo de cerco perfeito ao redor dela.

O ataque foi uma sinfonia de violência coordenada por uma única mente.

O Dante nº 1 agiu primeiro. Ele mergulhou baixo, girando em uma rasteira brutal que conectou com a parte de trás dos joelhos de Maysa. A base inabalável da aristocrata finalmente cedeu, e ela começou a cair para trás. Antes que a gravidade pudesse agir, o Dante nº 2 usou as costas curvadas do primeiro como um trampolim. Ele saltou, o punho direito brilhando como uma estrela anã vermelha. O uppercut de plasma conectou-se solidamente ao queixo de Maysa, lançando a cabeça dela para trás com um estalo nauseante e suspendendo-a no ar.

Ela estava atordoada. Exposta. Flutuando indefesa. O cenário perfeito. O Dante original, movendo-se mais rápido que o próprio som que produzia, materializou-se nas costas dela.

A viga de metal retorcida, que ele havia soltado segundos antes, ainda estava caindo em câmera lenta. Dante a arrancou do ar. Em um microssegundo, ele despejou todo o restante de sua energia térmica no metal. A viga não ficou apenas vermelha; ela transcendeu ao branco-cegante, vibrando com a instabilidade do plasma contido.

Dante firmou os pés no chão, ajustou a postura e segurou a viga incandescente como o taco de golfe mais mortal da história. Ele puxou para trás para o swing perfeito.

— Dando a tacada inicial... FORE!

KA-THOOOOOM!

O impacto da viga branca nas costas de Maysa não foi apenas físico; foi uma detonação térmica direcionada. A energia cinética combinada dos três Dantes convergiu naquele único ponto. Maysa deixou de ser uma lutadora e tornou-se um projétil balístico.

Ela foi disparada para a frente, envolta em um cone de ondas de choque. O primeiro muro de concreto reforçado do prédio em ruínas à frente explodiu como se fosse feito de isopor. Ela atravessou o segundo muro sem desacelerar. O terceiro muro cedeu com um estrondo final antes de a estrutura inteira do edifício gemer e desabar sobre ela, soterrando-a sob toneladas de escombros e uma nuvem de poeira que subiu aos céus.

Dante aterrissou do movimento do swing, as botas derrapando no asfalto.

ZZZzzzt... pfff.

O modo "Deus da Velocidade" desligou com um chiado audível. O rebote foi instantâneo. Jatos de vapor superaquecido sibilaram de seus poros, criando uma neblina pessoal ao seu redor. Suas pernas tremiam, a exaustão batendo como uma marreta, mas sua cauda negra balançava de um lado para o outro, involuntariamente excitada como a de um cachorro que acabou de pegar o carro que perseguia.

O sorriso arrogante, no entanto, permanecia intacto no meio do vapor.

— Ufa... — Ele passou as costas da mão enluvada na testa, limpando uma mistura de suor e fuligem. Olhou para a montanha de destroços onde sua oponente estava enterrada. — Acho que isso conta como um primeiro encontro de sucesso, né? Houve faíscas, houve calor intenso, houve um impacto físico inesquecível... Me liga.

— O QUE DIABOS É ISSO?!

O grito veio da entrada da praça. Laeticia e Oliver estavam parados ali, paralisados. Eles haviam corrido atrás de Maysa, preocupados que a "arma biológica" que estavam escoltando tivesse se metido em confusão com saqueadores. O que encontraram foi um campo de batalha devastado, prédios fatiados, crateras de plasma ainda brilhando e... Dante. Com uma cauda de demônio, uma aura carmesim pulsante e um sorriso de quem acabou de sair vitorioso de uma briga de bar.

— Dante?! — Laeticia gritou, os olhos quase saindo das órbitas, a mão cobrindo a boca. — E... aquela coisa que voou pela parede era a Maysa?!

Oliver ajeitou os óculos, que estavam tortos no nariz, tentando processar a cena.

— Eu sabia que ele era forte... mas por que parece que ele evoluiu ainda mais? — Oliver engoliu em seco, o olhar analítico varrendo a destruição.

Dante olhou para eles e acenou com a viga, que agora terminava de derreter em sua mão como cera quente.

— Nada de baixar a guarda, mestre — a voz de Sora avisou em sua cabeça, cortante e séria. — Esta luta ainda não acabou.

Parte 7

A poeira da explosão anterior ainda girava em redemoinhos quentes, dançando como espectros de calor sobre o vidro derretido, quando a voz de Sora cortou a mente de Dante. Não era o tom analítico e sarcástico de sempre; era grave, urgente, como o alarme de colisão iminente em um submarino.

— Parceiro... você viu aquilo?

— É... eu vi — Dante respondeu, o peito subindo e descendo em espasmos dolorosos. Ele passou as costas da mão na testa, limpando o suor que escorria por seus olhos e ardia como sal em ferida aberta.

— Curioso. Quando analisei os dados biométricos dela antes, notei semelhanças com a sua assinatura de Éter. Achei que fosse apenas convergência evolutiva, mas... acessei seus registros de memória genética. — Sora projetou uma imagem na retina de Dante, destacando um detalhe que passara despercebido no caos da luta. — Na região pélvica, sob a pele pálida, há uma marca bioluminescente pulsando. Três espirais interconectadas.

— Um Triskele — a voz de Safira materializou-se ao lado dele, suave, mas carregada de significado. Ela flutuava na forma de uma pequena fada de luz verde. — É a mesma marca de nascença que o Mestre tem, não é verdade?

Dante sentiu um calafrio percorrer sua espinha, uma sensação gélida que ignorava completamente o calor infernal das ruínas de Gehenna.

— Scarlunes? — A palavra saiu como um suspiro de incredulidade. Ele não esperava encontrar alguém de sua linhagem ali, no fim do mundo. Mas era mais que isso. A conexão que ele sentia, aquela atração gravitacional estranha, era diferente. Quase como o que sentia ao olhar para Kai. — O que diabos uma Scarlune está fazendo no reino de Morpheus?

CRAAAAASH!

A pilha de escombros à frente não apenas caiu; ela foi atomizada.

Não foi o movimento de alguém tentando sair; foi uma erupção vulcânica controlada. Uma coluna de pressão espiritual varreu a poeira, e Maysa emergiu do centro da destruição como uma deusa saindo do mar revolto.

Ela não parecia ferida. Pelo contrário, ela parecia... transcendente.

Suas roupas de alta costura estavam reduzidas a trapos elegantes, revelando uma pele alva e imaculada, um corpo esculpido na perfeição absoluta. Em seu rosto, não havia sinais de cansaço, dor ou raiva. Havia êxtase. Ela olhou para Dante com um brilho nos olhos que misturava a fome de um tubarão branco sentindo sangue na água com a alegria pura e insana de uma criança que acabou de ganhar o brinquedo que sempre desejou.

— Finalmente achei... — Ela suspirou, a voz rouca de prazer genuíno. Ela passou a língua sobre o lábio superior, onde um filete de sangue azulado escorria de um corte superficial. O gosto parecia viciá-la. — Resistência física absurda. Adaptação tática em tempo real. Potencial destrutivo latente. Finalmente...

Ela apontou uma garra trêmula de excitação para ele. O ar ao redor do dedo dela distorceu com a pressão.

— Encontrei! O Candidato Alfa!

Dante piscou. A tensão mortal do combate foi momentaneamente descarrilada pela terminologia absurda.

— Alfa? — Ele fez uma careta de desgosto genuíno, colocando a mão no peito como se tivesse sido ofendido moralmente. — Ei, ei, me respeita! Eu não sou um desses "Alfas" de podcast que ficam uivando pra lua e vendendo curso de como ser macho! Eu sou um Sigma, está ouvindo?! Eu tenho meu mindset!

Ao fundo, Teth franziu a testa, confuso e segurando o braço ferido.

— O que é um... Sigma? É algum tipo de classificação de poder humana superior baseada na letra grega?

— Eu não acho que você deva levar o que ele fala tão a sério, sabe... — Oliver ajeitou os óculos, suando frio atrás de uma mureta de concreto, tentando calcular as chances de sobrevivência (que estavam caindo rápido).

Maysa ignorou a piada. Para ela, Dante não era mais um inimigo; ele era o Santo Graal biológico.

— Sua genética possui o poder latente de que preciso. — Ela começou a caminhar em direção a ele. A cada passo, o chão tremia levemente, como se o próprio planeta estivesse recuando com medo. — Mas a sobrevivência física não é o bastante. Para gerar o Espécime Perfeito, preciso saber se sua alma aguenta a pressão do abismo.

Ela parou no centro da cratera. O ar ao redor dela começou a girar, sugado por um vácuo negro que se formava em suas costas.

— Considere isto o Ritual de Cortejo. Tente não morrer, meu querido.

Maysa fechou os olhos.

WOOOOOOOOOOOM.

Uma coluna de fogo azul-pálido explodiu, conectando o chão ao céu. O som foi de um órgão de igreja sendo tocado no fundo do oceano, grave e onipresente. Dentro do pilar de chamas frias, a silhueta dela mudou, distorcendo-se, crescendo, evoluindo.

Os cabelos negros perderam a cor, tornando-se brancos como a neve, flutuando como fumaça espectral ao redor de seu rosto. Da cabeça, a pele se rompeu sem sangue, e dois chifres negros, curvos e elegantes como os de um íbex demoníaco, rasgaram a carne para formar uma coroa natural de soberania. Nas costas, o fogo solidificou-se em matéria: uma única asa negra, membranosa e vasta como a de um dragão antigo, abriu-se com um estalo de couro esticado.

E a cauda... longa, farpada, sibilando no ar como uma serpente independente, pronta para o bote.

A beleza voluptuosa ainda estava lá, mas agora era sagrada e profana ao mesmo tempo. Uma divindade pagã antiga, esquecida e faminta por adoração... e por sacrifício.

Maysa estendeu a mão direita para o lado. O Éter azul no ar condensou-se, gritando enquanto era forçado a tomar forma sólida. Uma arma materializou-se. Não era uma espada ou lança comum. Era um Guandao colossal — uma alabarda oriental gigantesca, feita de energia sólida e osso negro polido, com uma lâmina curva que brilhava com runas de decaimento.

Ela girou a arma com uma facilidade insultante, fazendo-a zumbir no ar. Mas quando a base da lâmina tocou o chão...

BOOM.

O asfalto afundou meio metro em um círculo perfeito. A arma tinha densidade real. O simples peso daquilo era uma arma de cerco.

— Nível de Ameaça: Cataclísmico — alertou Sora, a voz tremendo pela primeira vez. — Ela parou de brincar, parceiro. A densidade de Éter aumentou em 400%. O próximo golpe não é para testar; é para finalizar.

Dante olhou para a divindade à sua frente. Ela estava girando o Guandao lentamente ao redor do corpo, uma dança hipnótica e mortal. "Venha", dizia a postura dela. "Prove que você merece existir ao meu lado."

Dante suspirou. O sorriso debochado sumiu. O olhar preguiçoso de "protagonista de comédia" desapareceu, substituído por um foco absoluto e frio.

— É... parece que o modo velocidade não vai tankar isso. A física daquilo ali é quebrada. — Ele soltou todo o ar dos pulmões. — Sora. Liberar Arquivo: Quarto Modo — Overdrive Celestial.

— Tem certeza? — A luva hesitou, as linhas de luz piscando em vermelho crítico. — O consumo de sangue vai ser gigantesco. E se você desmaiar agora...

— Faz logo!

ZUUUUUUUM!

A aura de Dante mudou de cor violentamente. O carmesim de sangue e violência foi purificado, tornando-se um branco-dourado digital, puro e intenso como o núcleo de uma estrela.

A transformação foi instantânea. Seus cabelos pretos clarearam, tornando-se brancos e espetados, desafiando a gravidade. As roupas pretas rasgadas foram substituídas por uma projeção de luz sólida: um sobretudo branco futurista, longo e cheio de linhas de dados correndo pelo tecido como circuitos vivos. Nas costas, "asas" angelicais e cibernéticas apareceram, zumbindo com energia estática. Sobre a cabeça, uma auréola de dados binários girava lentamente, e em seus ouvidos, headphones holográficos materializaram-se, pulsando com o ritmo de uma música silenciosa que só ele ouvia.

Era o contraste absoluto. O Anjo Digital do Futuro contra o Demônio Pagão do Passado.

Maysa sorriu, revelando dentes afiados. Ela ergueu o Guandao com as duas mãos. O Éter fluiu para a lâmina, fazendo-a cantar a música da morte.

No céu, a lua cheia, que assistia a tudo pálida, reagiu à densidade de poder conflitante. Ela sangrou. O disco lunar tornou-se vermelho-carmesim, banhando as ruínas em uma luz de pesadelo.

Todos os instintos de Dante gritaram uma única mensagem em letras garrafais: MORTE. Se aquela lâmina tocar em você, não haverá regeneração. Não haverá segunda chance. Haverá deletamento.

— Safira! — Dante gritou.

A garota-Index desfez sua forma humana instantaneamente, transformando-se no grimório negro que voou para a mão esquerda de Dante, flutuando aberta, as páginas virando sozinhas em um borrão frenético.

— Pelo que vi, você consegue usar todos os feitiços registrados lá na biblioteca, né... — Ele murmurou mais para si mesmo do que para o grimório, os olhos fixos na morte que se aproximava.

Maysa atacou. Não foi um movimento. Foi um evento de extinção. Ela desceu a lâmina.

— Divisor de Horizontes!

Um rasgo de energia azul, fino como um fio de cabelo e alto como um prédio de vinte andares, foi disparado. O som desapareceu. O chão se abriu em um cânion instantâneo, sem resistência. O ar se partiu. O ataque não cortava apenas a matéria; ele dividia a realidade em duas, avançando para deletar Dante da existência.

Dante não recuou. Ele saltou em linha reta. E voou. Para a frente.

— ELE ESTÁ LOUCO?! — gritou Teth, tentando se levantar, horrorizado.

Dante voou direto para a lâmina de energia que vinha em sua direção. Um suicídio frontal.

Mas, milímetros antes do impacto, sua cauda negra agiu. Dante a cravou no chão com força total, usando-a como uma âncora de emergência e um pivô. A inércia foi brutal. Seu corpo foi chicoteado para o lado em um ângulo de 90 graus fisicamente impossível, seus ossos estalando com a força G.

O corte passou raspando. Ele não apenas desviou; ele usou a borda da onda de choque de energia de Maysa como uma rampa, deslizando sobre o ataque dela, surfando na destruição em direção a ela.

Maysa arregalou os olhos. Ela estava no meio do movimento de follow-through, vulnerável por uma fração de segundo. Mas ela tinha asas. Ela preparou os músculos das costas para voar e recuar.

— Ah, não vai não! — Dante gritou, já no ar, a metros do rosto dela. — Safira! Use a Barreira do Éden!

O grimório na mão esquerda brilhou com runas douradas. Safira acessou o código-fonte das muralhas da Cidade dos Sonhos. Uma parede invisível, sólida como a fronteira do fim do mundo, materializou-se centímetros atrás de Maysa.

Ela bateu as asas para recuar, mas chocou-se contra a barreira. THUD.

O impacto a atordoou por um microssegundo precioso. Ela estava presa entre sua própria inércia e a parede mágica.

Teth viu aquilo sem acreditar. Uma técnica que até ele conhecia e usara para proteger a cidade de Isolde, um movimento puramente defensivo, agora estava sendo distorcido para controle de campo agressivo.

Dante estava na cara dela. Olho no olho.

Ele apontou a mão direita, os dedos em forma de arma. A luva Sora começou a drenar cada gota de Éter do corpo de Dante — das asas, da auréola, do sangue — e concentrar tudo na ponta do dedo indicador. O ar gritou com a compressão. Uma esfera de energia vermelha e branca, do tamanho de uma bola de gude, formou-se ali. Pequena. Instável. Pesada como uma estrela de nêutrons.

Maysa olhou para a ponta do dedo dele. Ela sorriu, reconhecendo a derrota momentânea no xadrez da batalha.

— Xeque-mate.

— Queime... — Dante sussurrou, o headphone holográfico piscando no ritmo do disparo, os olhos brilhando com fúria fria. — ESTRELA RUBRA: TENKA!

BANG.

Não foi um raio. Foi uma detonação de plasma à queima-roupa.

A esfera explodiu no peito de Maysa, imprensando-a contra a barreira de Safira atrás dela até a estrutura mágica rachar, ceder e explodir.

O Deus Digital e o Demônio Pagão desapareceram em um clarão que varreu as sombras de Gehenna, jogando tudo para longe e deixando apenas uma cratera fumegante como testemunha do "cortejo".

Parte 8

Dante abriu os olhos, mas imediatamente desejou não ter feito isso.

A dor de cabeça não era uma simples pulsação; era uma equipe de demolição industrial operando com britadeiras dentro do seu lobo frontal. Ele tentou se mexer, mas sentiu seus membros pesarem como se tivessem sido substituídos por chumbo derretido.

— Mestre... seus níveis de Éter estão, tipo, super na seca! — A voz de Safira soou perigosamente perto do seu ouvido.

Dante forçou o foco. A visão turva se ajustou e revelou a Index em sua forma humana de "gyaru", flutuando literalmente em cima dele. Seus peitos fartos pressionavam contra o rosto dele com uma gravidade quase ofensiva enquanto ela checava suas pupilas com um sorriso malicioso e clínico.

— Eu até podia te dar um trato e te curar, sabe? — Ela piscou, passando a língua nos lábios pintados de gloss brilhante. — Mas se a gente fizer essa troca de fluidos agora, seu Éter vai cair do estado crítico para o estado de óbito. E defunto não tem graça.

— Eu sabia... você também usa meu Éter para fazer as coisas, não é... — Dante resmungou, a voz pastosa e rouca, tentando (sem muito sucesso) desviar o olhar do decote que ocupava 90% do seu campo de visão. — Droga... então para de ficar flutuando assim, você está gastando o resto da minha bateria de propósito!

— Você reclama, mas eu sei que seus olhinhos não estão desviando. — Safira riu, cutucando a bochecha dele.

— Tsk... me sinto uma bateria de carro alimentando três amplificadores no máximo. Desse jeito vou ser drenado até secar um dia.

Ele olhou para a mão esquerda. A manopla Sora pulsava com uma luz fraca e intermitente, ainda bebendo seu sangue em pequenos goles.

"Desse jeito você também não ajuda, sabia!", Dante reclamou mentalmente.

— A segunda tentativa de transformação foi perfeita, parceiro — a voz de Sora sussurrou em sua mente, soando exausta, mas orgulhosa. — Mas eu acabei esgotando a reserva de sangue que tinha estocado. Como essa transformação ainda é instável, sugiro criarmos um limite de tempo rígido por enquanto. Ou você morre de anemia no meio do combo.

Passos apressados esmagaram o cascalho vitrificado.

— Dante!

Teth, Laeticia e Oliver surgiram na borda da cratera, olhando para a destruição com queixos caídos. A praça onde a luta ocorrera não existia mais; era um vale de vidro derretido, poeira e silêncio.

— Inacreditável... — Teth murmurou, o olho bom fixo em Dante (e ignorando educadamente, com o rosto levemente corado, a posição comprometedora de Safira). — De onde você tirou esse poder? Aquela forma... aquela velocidade... era divino.

— Ei... — Dante levantou uma mão trêmula, fazendo sinal de silêncio. — Sem perguntas difíceis agora. Minha cabeça vai explodir se eu tiver que formular uma frase complexa. Só... calem a boca um pouquinho e apreciem o fato de estarmos vivos.

Um som de pedras rolando veio do outro lado da cratera.

Dante gelou.

Maysa estava se levantando. Suas roupas de alta costura estavam reduzidas a trapos chamuscados que mal cobriam sua pele pálida. Mas a carne por baixo... estava se movendo. As queimaduras de plasma borbulhavam, silvavam e se fechavam diante dos olhos deles. Ossos estalavam, realinhando-se com uma precisão grotesca. A regeneração era visível, rápida e aterrorizante.

"Fudeu", pensou Dante, o suor frio brotando na testa latejante. "Eu estou zerado. Tanque vazio. Se ela vier pra cima agora, eu viro patê."

Maysa caminhou até ele. A expressão dela era ilegível, uma máscara de mármore com olhos reptilianos que queimavam como lasers. Dante tentou levantar a guarda, mas seus braços tremeram e caíram. Ele fechou os olhos, esperando o golpe final que separaria sua cabeça do pescoço.

Mas o golpe não veio.

Em vez disso, ele sentiu algo macio. E quente. E estranhamente confortável.

Ele abriu um olho, desconfiado.

Maysa havia se sentado no chão, cruzado as pernas elegantemente e puxado a cabeça dele para o colo dela. Dante estava recebendo um travesseiro de colo da mulher que tentara aniquilá-lo com uma alabarda gigante há trinta segundos.

— Mas que diabos...?! — Dante tentou se levantar, alarmado.

A mão de Maysa pousou em sua testa, firme como uma morsa hidráulica, empurrando-o de volta contra suas coxas macias.

— Silêncio — Maysa ordenou, a voz suave, mas absoluta.

Ela olhava para ele não como um inimigo, mas como uma colecionadora olha para uma obra de arte rara que acabou de arrematar em um leilão.

— Você me venceu... — Ela sussurrou, extasiada, os dedos traçando o contorno do rosto dele. — Você passou.

— Passei? — Dante piscou, confuso, olhando para os outros, que pareciam igualmente perdidos na surrealidade da cena. — Passei no quê? No teste de resistência a traumatismo craniano? Na prova de vida do INSS?

— No Teste de Cortejo. — Maysa acariciou o cabelo dele, traçando o contorno de sua orelha com uma possessividade que fez Dante engolir em seco. — Finalmente encontrei. Alguém capaz de dominar minha escuridão. Alguém com o Domínio necessário.

Ela se inclinou, o rosto a centímetros do dele, os lábios roçando os dele com uma promessa perigosa.

— Por isso, decidi. Você me venceu, então eu pertenço a você. A partir de agora, você é Meu Marido.

O silêncio na cratera durou três segundos inteiros. O vento soprou, levando poeira.

— Não.

A resposta de Dante foi seca, imediata e sem um pingo de hesitação.

O sorriso de Maysa vacilou. Oliver ajeitou os óculos, nervoso. Teth deu um passo instintivo para trás, sentindo a mudança na pressão do ar.

— Não? — Maysa repetiu. A temperatura ao redor dela caiu dez graus, e seus olhos se estreitaram perigosamente. — Você entende a situação, querido? Se você rejeitar minha devoção... se você negar sua posse sobre mim... eu serei obrigada, pela honra do meu sangue, a matar você e procurar outro dono.

— E quem disse que eu sou o fraco aqui? — Dante retrucou, tentando parecer durão, mas a frase terminou em um gemido agudo quando Maysa apertou seu ombro com força sobre-humana. — Ai, ai, ai! Isso dói, desculpa! Solta!

— Sinceramente... — Oliver sussurrou para Laeticia, cobrindo a boca. — Se me perguntassem agora, eu diria que ele é a definição de "submisso" nessa posição.

— Cala a boca, quatro-olhos! — Dante gritou, ainda preso no colo dela como um gato rebelde. — O ponto é: eu ganhei a luta. Eu te enterrei no chão. Eu ditei o ritmo. Então eu dito as regras. E a regra é: "Não".

Teth, ainda tentando processar a lógica alienígena daquela interação, interveio.

— Espere... por que você o escolheu? — Teth olhou para Maysa, analítico. — E, sendo sincero... eu observei a luta com meu olho. Você não usou tudo, usou? Aquela alabarda... você poderia ter destruído o quarteirão inteiro no primeiro golpe.

Maysa riu suavemente, um som que fez os pelos da nuca de Oliver se arrepiarem.

— Claro que me contive. Se eu usasse força total, poderia danificar o Material Genético precioso do meu Mestre. O objetivo era testar a virilidade, não castrar.

Ela olhou para Dante com um orgulho maternal distorcido.

— E meu Marido aqui... também foi gentil comigo. Ele se segurou para não me quebrar permanentemente.

Todos olharam para Dante, incrédulos.

— Você se segurou?! — Laeticia gritou, lembrando da explosão nuclear que acabara de presenciar.

— Tem coisas que a gente não usa em uma luta a menos que a intenção seja matar de verdade... — Dante resmungou, desviando o olhar, as bochechas corando com o "elogio" estranho. — E eu não queria matar ninguém hoje.

— Maravilhoso. — Maysa suspirou, apertando as bochechas dele como se ele fosse uma criança fofa. — Essa misericórdia cruel... Várias daquelas técnicas seriam letais se você não tivesse desviado no último segundo para proteger sua futura esposa. É esse controle que me excita.

— Eu simplesmente já não sei mais se eles estão falando sério ou se isso é algum tipo de fetiche avançado — Oliver murmurou, limpando as lentes dos óculos freneticamente.

Teth olhou para as próprias mãos. Ele se lembrava de como Vav, sua outra metade, assumira o controle e causara destruição cega. Dante, no entanto, aceitara seu lado sombrio e, com isso, ganhara precisão e controle. "Se eu aceitar você...", Teth pensou, sentindo a marca negra em seu peito pulsar. "Será que eu também... conseguiria proteger alguém em vez de apenas destruir?"

— Mas por que ele, hein? — A voz de Sora ecoou da manopla, gotejando curiosidade maliciosa. — Meu parceiro é forte e tem uma pegada boa, admito. Mas existem outros. Monstros muito piores. Até eu posso sentir as assinaturas de poder nesse mundo. O que ele tem de tão gostoso para você?

— Potencial — respondeu Maysa, descendo a mão pelo peito de Dante até o abdômen definido, seus dedos traçando os músculos. — Força bruta é vulgar. Qualquer idiota com esteroides mágicos tem força. Mas a capacidade de evolução dele... a adaptabilidade genética em tempo real... é deliciosa. Eu quero essa base. Eu vou treiná-lo, servi-lo e moldá-lo até o ápice.

Os olhos dela brilharam com uma luxúria fanática, quase religiosa.

— E então, vamos copular. Nossos filhos serão as armas perfeitas que eu usarei para caçar aquilo que não posso matar sozinha. Uma linhagem de monstros belíssimos.

— Não. — Dante repetiu, firme.

— De novo?! — Safira flutuou até o rosto dele, balançando os seios na frente dele com indignação genuína. — Mestre, qual é o seu problema?! Tu é gay ou o quê? Olha pra ela! Ela é o ápice da estética gótica gostosa! Curvas perigosas, força letal, rica, e ela está literalmente pedindo pra você ser o dono dela! Aproveita, pô! É o sonho de consumo de qualquer otaku!

— Se houver alguma característica fenotípica que lhe desagrade, querido — Maysa ofereceu, prestativa, abrindo os braços. — Posso mudar tudo. Cor dos olhos, altura, proporções... Eu sou moldável para o seu prazer.

Dante suspirou. Um suspiro profundo, cansado, que vinha da alma, de um lugar onde a comédia não alcançava.

— Não é sobre o corpo, Maysa. É sobre a cabeça.

Ele olhou para o céu cinzento e opressor de Gehenna.

— Eu não sirvo para relacionamentos. Eu sou um desastre ambulante. Tem outras pessoas perto de mim que... sentem coisas. E eu sei, eu sinto. Mas assim como eu não entendo meus próprios sentimentos, não entendo os deles. Só sei que eu os magoaria se aceitasse. Eu sou instável. Eu quebro as coisas.

— E filhos? — Ele riu, uma risada seca e sem humor. — Nem ferrando. Eu não tive uma infância... legal. Eu não sei o que é uma família funcional. Eu seria um péssimo pai, e a última coisa que eu quero é colocar uma criança no mundo pra ela passar pelo inferno que eu passei ou ter um pai ausente e quebrado.

Sora zumbiu na mente dele, com um tom de escárnio carinhoso.

— Ui, que profundo, parceiro. Isso soou como uma página do diário de um adolescente emo virgem em 2007. "Ninguém me entende, sou trevas e solidão." Quer que eu toque Welcome to the Black Parade pra você chorar no meu ombro?

— Cala a boca, maldita, isso é sério, sabia! — Dante corou, a irritação quebrando o momento melancólico. — O ponto é: eu não vou ter relacionamento. Ponto final.

Maysa inclinou a cabeça, processando a recusa emocional com a frieza de um computador biológico.

— Compreendo. A bagagem psicológica impede o vínculo afetivo romântico. Trauma de infância. Bloqueio emocional. — Ela assentiu, como quem resolve uma equação. — Solução simples: removemos o romance. Faremos apenas o intercurso sexual intensivo e diário para fins reprodutivos. Eu crio a prole, educo os guerreiros, e você segue sua vida de lobo solitário. Eficiente.

— NÃO! — Dante gritou, tentando se levantar, mas sendo segurado pelas coxas de aço dela como se fosse uma boneca de pano. — Você é surda?! Se eu não quero ter filhos em um relacionamento, eu muito menos vou fazer filhos e largar no mundo! Isso contradiz tudo o que eu acabei de falar sobre não querer ser um pai merda!

— Você é confuso, querido. — Maysa franziu a testa, achando a resistência moral dele adorável. — E contraditório. Isso é um charme exótico, mas atrapalha a logística da procriação.

— É um traço chamado "ter bom senso"! — Dante berrou, o rosto vermelho. — Quantos "nãos" eu preciso dizer pra você entender que...

ZUMMM.

O som cortou a discussão como uma guilhotina.

Não veio de nenhum deles. Veio do céu.

Uma vibração estática, alta e penetrante, fez todos taparem os ouvidos instintivamente. O céu de óleo sobre Gehenna tremeluziu. As nuvens pesadas se afastaram como cortinas de teatro sendo puxadas por mãos invisíveis.

Uma projeção gigantesca, holográfica e nítida, começou a se formar, cobrindo todo o horizonte de ponta a ponta.

Dante parou de lutar contra o abraço de Maysa. Teth ergueu o olhar, o medo substituindo a curiosidade. O mundo inteiro parou para assistir.

A transmissão havia começado.

Parte 9

O zumbido estático que feriu os ouvidos de Dante e dos outros em Gehenna não era um mero defeito de transmissão; era o som agônico do mundo prendendo a respiração.

A quilômetros dali, muito além da fronteira, a Cidade de Cristal — o coração imaculado e pulsante de Morpheus — ardia.

Não era o incêndio desordenado de uma guerra comum. Era uma demolição cirúrgica. Do lado de fora do Grande Tribunal, o céu perfeito do Éden estava rasgado por colunas de fumaça negra que subiam como dedos acusadores. Os Lordes Pecados, a guarda pretoriana da nova Rainha, haviam sido soltos da coleira.

A Gula não apenas destruía os portões de entrada; ela os mastigava, engolindo a realidade e deixando buracos de nada no espaço. A Preguiça não atacava fisicamente; ela era um vírus, desmantelando as defesas lógicas e os autômatos de segurança com falhas de sistema em cascata, fazendo a tecnologia dormir. E a Ira... a Ira era um martelo de Deus, quebrando as linhas de frente dos Guardas de Cristal como se fossem vidro barato.

A "Paz Eterna" dos Sonhos havia sido violada.

Mas, dentro do coliseu de mármore branco do Grande Tribunal, reinava um silêncio profano. Onde horas antes uma multidão sedenta gritava por justiça contra Dante, agora havia apenas o vácuo, poeira suspensa e o eco de passos solitários acompanhados por uma melodia assobiada.

Fiu-fiu... Fiu...

Kiara caminhava pelo corredor central. O som de seus saltos agulha estalando no piso polido marcava o ritmo de uma canção de ninar antiga e macabra, amplificada pela acústica perfeita da arena vazia.

Ela não olhou para as arquibancadas desertas. Seus olhos, contendo constelações geométricas em vez de pupilas, estavam fixos em um único ponto: o centro da arena. Lá, o mecanismo hidráulico ainda expunha a Cadeira da Verdade. O assento rúnico onde Ludmilla fora interrogada. O único lugar em todo o reino onde a mentira era metafisicamente impossível, onde o próprio universo queimava a língua do enganador.

Kiara subiu os degraus do palanque. Ela não se sentou como uma ré; ela se acomodou como se estivesse assumindo seu lugar de direito no topo da cadeia alimentar. Cruzou as pernas elegantemente, alisou o vestido vermelho vitoriano para que o tecido caísse como uma cascata de sangue fresco sobre o mármore branco e apoiou o queixo na mão enluvada, entediada com a própria onipotência.

VUUUM.

As runas da cadeira brilharam em um azul intenso e acusador. A magia ancestral sondou a alma dela, buscando falsidades, vibrando com a promessa de punição. Mas a luz estabilizou. A cadeira não encontrou engano. Aceitou sua presença com um zumbido submisso. Tudo o que ela diria a partir de agora não seria apenas discurso; seria Lei Universal.

— Está pronto, minha Rainha.

A voz de Ivy, a Inveja, surgiu das sombras atrás do trono. A Lorde manipuladora estava ajoelhada diante de um complexo arranjo de cristais de comunicação e espelhos de prata liquefeita. Com eficiência aterrorizante, ela havia sequestrado o sistema de transmissão de emergência do Tribunal, conectando-o a cada superfície reflexiva de Morpheus.

— Ligue — ordenou Kiara. A voz não tinha emoção; tinha gravidade.

O céu mudou.

Em Gehenna, em Éden, nos desertos de silício e nos oceanos de dados, as nuvens se contorceram e se abriram. A própria atmosfera tornou-se uma tela colossal.

O rosto de Kiara, ampliado para proporções divinas, olhou para baixo. Ela encarava cada habitante do mundo simultaneamente. Dante e Teth nas ruínas fumegantes, Saga, Philia e Yukina na floresta distorcida do Delírio, Asmodea e Ludmilla no bordel flutuante, a Rainha Isobel em seu palácio de gelo, o Rei Lysander no pátio do castelo... todos, sem exceção, sentiram o peso daquele olhar.

— Povo de Morpheus.

A voz dela não veio do céu; ela ressoou dentro da caixa craniana de cada ser vivo, vibrando nos dentes e nos ossos.

— Vocês me conhecem como o Pesadelo. A Terrorista. O Monstro que queimou a Cidade das Rosas.

Kiara inclinou-se para a frente no Trono da Verdade. O sorriso de canto sumiu, substituído por uma seriedade régia e gélida que fez a temperatura do planeta cair.

— Eu sou Kiara Vi Ashworth Rebelion.

O uso do sobrenome duplo — o nome da linhagem real dos Pesadelos e o nome sagrado da linhagem dos Sonhos, unidos pelo "Vi" da nobreza suprema — causou um choque psíquico global. Foi como se a gravidade tivesse invertido por um segundo.

— Eu sou a filha bastarda da união proibida. O fruto do pecado que suas lideranças tentaram esconder sob o tapete da história por milênios. Minha mãe é Isobel Ashworth, a Rainha dos Pesadelos. E meu pai...

Ela olhou diretamente para a "câmera", seus olhos perfurando a alma de quem assistia, desafiando qualquer um a negar a verdade absoluta validada pela cadeira.

— ... é o Rei dos Sonhos, Lysander Vi Rebelion.

A revelação caiu como uma ogiva nuclear cultural. Sonhos que acreditavam na pureza imaculada de seu Rei sentiram suas crenças entrarem em colapso. Pesadelos que odiavam os Sonhos com fervor religioso sentiram o chão sumir sob seus pés. A guerra racial, a divisão de eras, o ódio doutrinado... tudo se baseava em uma mentira. A única herdeira legítima do mundo era uma híbrida.

Um gráfico holográfico surgiu ao lado do rosto gigante de Kiara no céu. Mostrava o placar do Jogo das Coroas. Era um massacre estatístico. Uma barra vermelha sólida ocupava 67% do gráfico.

— O Jogo acabou — declarou Kiara, com a finalidade de um juiz decretando sentença de morte. — Eu tenho a Maioria Absoluta. Eu tenho os Lordes. Eu tenho o controle do Sistema.

Ela ergueu a mão esquerda. O contador digital em seu braço brilhava com números que pareciam contagens regressivas.

— Este é o meu Ultimato.

A voz dela endureceu, fria como o zero absoluto do inverno eterno de Satan.

— Pai. Rei Lysander. Você deve vir até mim. Aqui, no centro do palco, na Cidade de Cristal. Venha terminar o que começou.

— E quanto a vocês, portadores de Coroas... — O olhar dela varreu o mundo, julgando a todos, de generais a camponeses. — Curvem-se. Entreguem seus fragmentos. Submetam-se à nova ordem.

Ela fechou o punho. O gráfico no céu pulsou em vermelho-alerta, emitindo um som de sirene abafada.

— Se não o fizerem... eu detonarei a energia contida nestas Coroas.

Um suspiro coletivo de horror varreu o mundo. Todos sabiam o que as Coroas eram: não apenas pontos, mas núcleos de mana concentrada, reatores nucleares mágicos instáveis.

— Uma reação em cadeia — explicou Kiara, com a calma aterrorizante de quem discute a previsão do tempo. — Uma explosão de ressonância que varrerá Sonhos e Pesadelos da existência. Não haverá vencedores. Não haverá sobreviventes. Eu resetarei o tabuleiro para o zero absoluto.

Ela recostou-se no Trono da Verdade, rainha das cinzas e do silêncio.

— Eu estarei esperando.

A transmissão não cortou. Mas o efeito das palavras dela foi físico. A habilidade passiva suprema — o Royal Board — emanou da transmissão como uma onda de choque invisível.

Em todos os cantos do mundo, Sonhos e Pesadelos sentiram a verdade daquela linhagem em seu próprio sangue. Eles sentiram, biologicamente, que ela, como filha de ambos os monarcas, era a única governante legítima. A resistência mental quebrou. Joelhos cederam.

Não foi uma escolha racional; foi submissão celular.

BIP. BIP. BIP.

O contador de Kiara no céu começou a subir freneticamente. Milhares, milhões de Coroas menores estavam sendo transferidas automaticamente para ela através do pacto de submissão global. O poder fluía para a Cidade de Cristal como rios desaguando no oceano.

E então, a mudança final aconteceu.

O céu azul e imaculado da Cidade de Cristal, protegido por éons pela Barreira Sagrada, estremeceu. A cor índigo da "ruptura" anterior foi substituída.

Verde.

Um verde tóxico, doentio e violento, a cor da radiação e do lixo de Gehenna, tomou o firmamento, sufocando o sol.

CRACK!

O som de vidro quebrando foi ouvido em todo o continente, tão alto que pássaros caíram mortos do céu. A Barreira do Éden, a cúpula inquebrável que separava o paraíso do inferno, estilhaçou-se em milhões de fragmentos cintilantes que choveram como diamantes.

Pela primeira vez na história, a chuva de Gehenna cruzou a fronteira.

Gotas pesadas, negras e oleosas começaram a cair sobre o mármore branco do Tribunal. Ploc. Ploc. Ploc. Elas manchavam a perfeição, corrompiam a pureza estéril. O óleo escorria pelas estátuas dos anjos, transformando-as em demônios chorosos de lágrimas pretas.

Kiara, sentada no trono, assistiu à chuva negra cair através do teto aberto do coliseu. Ela estendeu a mão enluvada, deixando uma gota de óleo espesso manchar o tecido branco imaculado de sua luva.

Ela sorriu. O mundo unificado, sujo, caótico e real que ela sonhara, finalmente havia chegado. Ela olhou para a câmera uma última vez.

— Façam seu próximo movimento... heróis.

Parte 10

A transmissão não foi apenas um sinal de vídeo; foi um vírus psíquico de escala global.

No Distrito da Luxúria, o caos vibrante da festa eterna foi silenciado como se alguém tivesse cortado a garganta da música com uma navalha cega. Os hologramas de dançarinas sensuais, que rebolavam em loops infinitos de prazer sintético, piscaram erraticamente e morreram, substituídos pelo rosto gigante, impassível e aterrorizante de Kiara no céu noturno.

Dentro dos aposentos privados de Asmodea, o tempo parou.

A taça de cristal escorregou dos dedos de Eliza. Crash. O som do vidro partindo foi um tiro no silêncio, e o vinho tinto manchou o tatame imaculado como uma poça de sangue arterial.

Eliza não viu o vinho. Ela não viu os cacos. Ela olhava para a tela holográfica, paralisada, as pupilas contraídas ao tamanho de cabeças de alfinete, tremendo como uma folha em tempestade. Aquele rosto... era o rosto que ela vira em seu flashback. Aquele nome que Asmodea pronunciara como um feitiço... Stella.

— Não... — A voz de Eliza era um gemido estrangulado. Ela levou as mãos às têmporas, seus dedos se enterrando nos cabelos magenta, puxando a raiz com força, como se tentasse fisicamente arrancar o cérebro para parar a dor.

A barreira de memória, que já estava trincada pela manipulação cirúrgica de Asmodea, estilhaçou-se completamente sob o peso da voz de Kiara. Não foi um fluxo suave de lembranças nostálgicas; foi a ruptura violenta de uma represa mental.

A dor da recordação foi insuportável, como se sua alma estivesse sendo reescrita à força, queimada por ferros em brasa.

— AAAAAAAGH!

Eliza tombou para a frente, gritando. Antes que seu rosto atingisse o chão, braços fortes a ampararam.

Ludmilla, esquecendo a rivalidade, a etiqueta e o jantar bizarro, segurou a Pesadelo. A "Príncipe" viu as lágrimas escorrendo pelo rosto contorcido de Eliza — não eram lágrimas de dor física, mas de uma saudade tão antiga e profunda que não pertencia a esta vida, nem a este mundo.

— Ela está lá... — Eliza soluçou, a voz quebrada, as unhas cravando no tecido do yukata de Ludmilla com força desesperada. — Ela está me esperando, Ludmilla... Eu quebrei a promessa... Eu a deixei sozinha na escuridão...

Ludmilla olhou para a tela, para a tirana que ameaçava explodir o mundo com um sorriso frio, e depois para a garota quebrada em seus braços. A hesitação sumiu dos olhos da humana.

— ... Eu vou te levar até ela — Ludmilla prometeu, a voz firme como aço temperado, abraçando Eliza contra o peito para conter os tremores violentos dela. — Se ela é o seu fantasma, Eliza, então vamos exorcizá-la juntas. Eu te dou minha palavra.

Ludmilla fechou os punhos com força, o tecido rangendo. Ela também tinha contas a acertar. Ela também tinha fantasmas esperando naquelas ruínas.

No Palácio de Isolde, a escuridão parecia ter ganhado peso físico, esmagando o ar.

A Rainha dos Pesadelos estava sozinha em seus aposentos reais. A transmissão iluminava o quarto escuro com a luz fantasmagórica e azulada do rosto gigante de sua filha.

Isobel assistiu à confissão. Ouviu o segredo — aquele segredo maldito que ela guardou a sete chaves por séculos, pelo qual sacrificara sua honra, seu povo e sua própria felicidade — ser gritado para os quatro ventos com orgulho desafiador.

A máscara de ferro da Monarca, que suportou guerras, fome e solidão, finalmente trincou.

Isobel caiu de joelhos no tapete persa. Não houve grito de raiva. Apenas o choro silencioso e convulsivo de uma mãe que percebeu, tarde demais, que todo o seu sacrifício foi em vão. Ela tentou proteger Kiara do destino cruel. Tentou esconder a verdade para que a menina não fosse caçada como uma aberração.

E agora, Kiara não apenas se revelava; ela havia se tornado a caçadora suprema.

— O que você fez, minha filha...? — Isobel soluçou, cobrindo o rosto com as mãos enluvadas, sentindo o peso da coroa esmagar sua alma. — Você escolheu o caminho do fogo... e agora não há volta.

Na fronteira da Cidade de Cristal, o cenário era bíblico.

A chuva negra de Gehenna manchava as torres brancas imaculadas como uma doença se espalhando. O pânico civil era absoluto. Nobres corriam, pisoteando uns aos outros em seus trajes finos, enquanto a utopia ruía sob o peso da verdade e do óleo tóxico.

Saga, no entanto, não corria. A Santa da Ordem caminhava contra o fluxo da multidão histérica, calma e precisa como o olho de um furacão em meio ao naufrágio.

Ao seu lado, Philia usava barreiras de vento para proteger os civis da chuva ácida, enquanto Silence segurava a mão da pequena Yukina, guiando-a através do caos com uma borboleta de luz que servia de farol na escuridão crescente.

— A evacuação via rotas aéreas é estatisticamente inviável — analisou Saga, olhando para o céu dominado por criaturas aladas de guerra dos Pesadelos que surgiam no horizonte como nuvens de gafanhotos. — O espaço aéreo está comprometido. E nada belo.

Ela apontou para a linha das árvores distantes, onde uma névoa roxa e densa pulsava com vida própria.

— A Floresta do Delírio. É a única cobertura tática viável.

— Mas, Saga! — Philia protestou, gritando sobre o barulho das sirenes de alarme. — A floresta não tem mais poder agora que a arma foi retirada! Sem o núcleo, ela é instável!

— Está tudo bem... Eu protegerei todos. — Saga tocou o comunicador em seu ouvido com frieza, seus olhos fechados visualizando o mapa tático. — Nem que eu tenha que me tornar a nova fonte de poder daquela floresta, querida.

Saga parou. Seus olhos fechados se voltaram para o horizonte em chamas. Ela ativou o canal de emergência global da Guarda Real, sua voz cortando a estática e o medo.

— Atenção a todas as Unidades Ativas. Código Vermelho. A Cidade de Cristal foi comprometida. A contenção falhou. A prioridade mudou de "Manutenção da Paz" para "Sobrevivência da Espécie". Protejam os civis a qualquer custo.

Muito longe dali, no Distrito da Harmonia, onde as águas costumavam ser cristalinas.

Dorothea, a Cavaleira Real, vestida com um pijama de corpo inteiro de coelhinho (que contrastava violentamente com a marreta de guerra enorme apoiada em seu ombro), via o dispositivo em seu pulso piscar em um vermelho frenético e alarmante.

Ela leu a mensagem. Viu o rosto de Kiara no holograma. Ouviu a declaração de guerra.

Ela suspirou, bocejou e caminhou até as cachoeiras da tranquilidade. Lá, sentado sob a queda d'água, um homem meditava.

Ele parecia cansado, mas seus olhos... seus olhos estavam limpos. A febre da infecção, causada pelo ataque de Dante dias atrás, havia sumido completamente. A aura dele estava calma, mas era a calma de um oceano recuando antes do tsunami que engoliria o continente.

— Alone — chamou Dorothea, a voz entediada.

— O que você quer, pirralha? — Ele abriu um olho. — Não está vendo que estou me concentrando?

— Você não ouviu a transmissão? — Dorothea jogou as roupas dele na margem. — A barreira caiu. Uma usurpadora tomou o Tribunal e está ameaçando explodir tudo. O mundo está acabando, blá-blá-blá.

Alone pegou a roupa no ar com uma mão, sem se levantar. Ele caminhou para fora da água. A cada passo, a pressão atmosférica ao redor dele aumentava, fazendo as pétalas da cerejeira caírem todas de uma vez, como se a própria natureza se curvasse em reverência.

Tsk... Eu não estou com tempo para desperdiçar com cascalho... — disse Alone, vestindo sua túnica com movimentos secos. — Mas dessa vez vou abrir uma exceção divina.

Ele olhou para a direção da Capital, onde o céu brilhava em um verde tóxico, e um brilho afiado, quase metálico, surgiu em seu olhar. Não era raiva. Era julgamento.

— Parece que, antes de acertar minhas contas com aquele maldito humano, terei que relembrar aos Pesadelos por que não se deve levantar o dedo contra Deus.

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