top of page

The Fall of the Stars: Capítulo 4 - Entre Anomalias e Segredos

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 10 de mar.
  • 76 min de leitura

Volume 11 : A Prisão Dourada


Parte 1

O ar fedia a poeira estelar e pergaminho morto. O cenário ao redor de Dante não apenas desafiava a física; ele a rasgava em pedaços.

A Biblioteca Infinita estava longe de ser um mero repositório de livros. Era um labirinto gótico que sufocava quem ousasse respirar ali dentro. Estantes de mogno escuro curvavam-se como costelas de um leviatã, subindo em espirais vertiginosas que se perdiam em um abismo sem teto. Cortinas de veludo carmesim pendiam do vácuo, inflando e desinflando em um ritmo lento, como se a própria sala possuísse pulmões. Flutuando naquele ar denso, pesados castiçais de prata queimavam. Suas chamas, de um azul espectral e gélido, esticavam as sombras pelo salão, transformando-as em garras retorcidas.

No centro daquele pesadelo arquitetônico, Dante mantinha-se de pé. O queixo erguido e a postura rígida exalavam um desafio quase suicida. A poucos metros dele, banhada em uma luz pálida e doentia, flutuava a entidade: o Astreus da Memória. O cérebro de Dante latejava cada vez que tentava focar nas feições dela; era como tentar enxergar o fundo de um lago turvo.

O jogo posto à mesa era brutalmente simples, mas as apostas eram a sua própria realidade. Três perguntas. Uma delas seria respondida com uma mentira.

Dante cruzou os braços. Um sorriso enviesado de escárnio puxou o canto de seus lábios — a expressão clássica de quem acha que já descobriu o fundo falso na cartola do mágico.

— Primeira pergunta — ele disparou, a voz rasgando o silêncio infinito. — Por que eu fui escolhido?

A Memória não respondeu de imediato. Um som agudo e cristalino, como o roçar de taças de cristal finíssimas, reverberou pelo espaço. Ela estava rindo.

— Isso vai ser fácil demais — Dante bufou. A fachada de deboche começou a rachar, vazando irritação pura. Ele descruzou os braços, gesticulando com agressividade para o nada. — E, obviamente, você vai mentir ou falar em forma de enigmas só para tentar me confundir, como todo Astreus. Mas guarda o teatro. Aquela profecia maldita era sobre mim, não era? Eu peguei a arma do apocalipse. Não sei qual é o jogo doentio do mestre do Tabuleiro, mas está na cara que eu sou a marionete do Astreus do Destino desde que caí neste mundo!

Ele deu um passo pesado à frente, a raiva o cegando para o peso esmagador do ambiente.

— E falando nisso, "destino" é o cacete! O roteiro está tão óbvio que chega a dar tédio. Os pesadelos bizarros com Morpheus antes mesmo de eu chegar. A Anna sendo possuída logo pela princesa revolucionária. O portal me dividindo ao meio, só para uma versão minha se juntar ao grupo que buscaria a arma... Chamar isso de destino é piada. Onde está a droga do meu livre-arbítrio?

O tilintar cristalino cessou de súbito. A Memória de Astreus parou de rir.

Com um único, fluido e letárgico movimento do dedo indicador da entidade, a própria gravidade do salão obedeceu. Uma força colossal esmagou os ombros de Dante, arremessando-o violentamente para baixo. Ele bateu com força contra uma poltrona de couro escuro que sequer existia um segundo antes. O impacto tirou seu fôlego. Quando abriu a boca para rosnar um xingamento, a entidade ergueu o mesmo dedo pálido, encostando-o nos próprios lábios borrados.

Um sinal universal. Shh.

A garganta de Dante travou. Suas cordas vocais simplesmente esqueceram como vibrar.

— Que garoto mais ansioso... — a voz feminina e aveludada da Memória sussurrou. O som não vinha do ar, mas vibrava diretamente dentro do crânio de Dante. — Como eu ia dizendo antes da sua pequena birra teatral: ninguém o escolheu.

Ela ergueu a mão. Uma lufada de vento com cheiro de mofo rasgou o ar quando um tomo grosso de capa de couro voou de uma estante inalcançável. O livro parou no ar, abrindo-se entre os dois. As páginas giraram em um frenesi ensurdecedor, emitindo um feixe de luz ofuscante que engoliu a biblioteca inteira.

Quando a luz baixou, o mogno e o veludo haviam desaparecido. Eles estavam de pé em um eco do passado, translúcidos como fantasmas, assistindo a um teatro de memórias intocáveis.

Dante viu a si mesmo. Estava lá, decidindo, por livre e espontânea vontade, fundir-se com Anna. Preso em sua mudez, ele balançou a cabeça em desespero. Isso é loucura, pensou, com os olhos arregalados. Uma decisão tão velha não pode ter causado tudo isso.

O cenário derreteu, turvando-se como tinta derramada na água. A nova cena os jogou nas entranhas das masmorras do Rei. Lá estava Kiara — a verdadeira Kiara do passado —, caída sobre pedras imundas, sendo acorrentada pelas correntes negras que prendiam Killian. Seu corpo tremia pelo frio do local, pelas feridas abertas e não tratadas e pela torrente de culpa, dor e terror.

A voz da entidade narrou a tragédia que se desdobrava:

— Anna desejou, do fundo de sua alma, salvá-la. Essa vontade, crua e desesperada, reverberou pelo Éter. A Autoridade dela foi ativada, quebrando a espinha dorsal da lógica. Anna rasgou uma fenda na realidade, criando uma possibilidade onde Kiara pôde continuar lutando.

Dante debateu-se na poltrona fantasma. Quando?!, ele gritou em sua mente, com os punhos cerrados. Isso não faz o menor sentido! A Anna nem estava lá nessa época!

A Memória leu a negação estampada no rosto dele.

— Aconteceu há incontáveis ciclos, Dante. Muito antes de você respirar neste mundo. Sei que sua mente primata grita que a linearidade não bate, mas você esquece onde está pisando. Antes de você e Anna despencarem aqui, Morpheus não conhecia o "tempo". Era uma métrica morta. Vocês trouxeram o vírus da cronologia para cá, mas o tecido desta dimensão ainda cicatriza sobre as próprias regras. Viagens ao passado não são milagres aqui; são a natureza do meu jardim. E o futuro, Dante... o futuro pode afetar o passado tanto quanto o passado pode afetar o futuro.

As páginas do livro brilharam novamente. Agora, o cenário mostrava o quarto de Dante no mundo real. Ele suava frio na cama, contorcendo-se em um pesadelo.

— Seus sonhos com Morpheus e com a Cidade Meia-Noite nunca foram premonições orquestradas pelo Destino. Aquelas memórias sequer eram suas. Era apenas o seu cérebro mortal fritando enquanto as memórias de Kiara choviam no seu subconsciente. Elas vazaram para você porque Anna, sua outra metade, uniu-se a Kiara. Essa fusão estilhaçou o relógio. Como você e Anna são essencialmente o mesmo ser, a agonia de Kiara infectou você através dela, ecoando direto no seu passado.

O mundo girou mais uma vez, aterrissando no epicentro do caos: o livro de Schrödinger.

— Anna só encontrou aquele livro específico e foi possuída por Kiara por um único motivo. — A entidade pairou mais perto, a luz de seu rosto sem feições iluminando o suor frio na testa de Dante. — A Anna do futuro, já fundida com a princesa revolucionária, usou sua força divina para ajudar a própria Kiara a escapar das masmorras do Rei. Ela a enviou para o seu mundo, selando a alma de Kiara nas páginas daquele livro. O exato mesmo livro que a Anna do passado leria, sendo possuída e dando o pontapé inicial em toda a tragédia. Um Ouroboros perfeito. Um ciclo inquebrável.

O tomo flutuante fechou-se com o estrondo de um trovão. O choque varreu a ilusão. Dante foi atirado de volta à poltrona opressora da Biblioteca Infinita. Sua voz voltou em um engasgo, mas seus pulmões se recusavam a puxar o ar.

— A verdade nua e crua, Dante, é que a engrenagem-mestre de todo esse inferno só girou porque você, no começo de tudo, decidiu se fundir com Anna — a entidade cravou as palavras como pregos. — Foi essa sua escolha que permitiu que Kiara tivesse um receptáculo forte o bastante para rasgar o portal que o puxou para cá. Não há um titereiro nas sombras. Não há o "Destino" brincando com dados. Graças ao seu sagrado livre-arbítrio, o arquiteto do apocalipse é você. Você não foi escolhido, Dante. Você se escolheu.

O peso daquelas palavras desabou sobre ele como chumbo. A arrogância do caçador experiente, que achava ter encurralado os deuses, esfarelou-se. Ele não era a vítima trágica de uma profecia celestial; ele era o paciente zero da própria desgraça. Ele próprio havia empurrado a primeira peça do dominó.

— Não... — ele balbuciou. Seus olhos bicolores ardiam, marejados e arregalados. Seu cérebro girava freneticamente, tentando costurar uma saída, qualquer desculpa que tirasse aquele peso de suas costas. — Mas... e os dois Dantes?! Por que o portal me partiu ao meio?! E o meu encontro com Eliza...?!

A Memória inclinou a cabeça para o lado. A luz pálida ondulou com um tom de curiosidade sinistra.

— Essa torrente de pânico seria a sua segunda pergunta no nosso jogo?

Dante travou. O gosto amargo de bile subiu à sua garganta. Ele cerrou os punhos com tanta violência que sentiu as unhas rasgarem a pele das palmas. A dor o ancorou de volta à realidade. Não. Ele não podia desperdiçar uma cartada com um dano colateral do portal. Lentamente, ele balançou a cabeça, recuando.

A entidade riu novamente, deliciando-se com o pavor do garoto.

— Tem sorte de eu apreciar o seu desespero. Considere isso uma esmola da sua cunhada: entenda que, no meu domínio, memórias não são apenas arquivos mortos na cabeça de alguém. Elas possuem massa, densidade, gravidade. Quando você cruzou o portal carregando dois pacotes mentais em conflito absoluto — as memórias cruas do seu "eu" e as lembranças do pós-fusão com Anna —, a física deste mundo reagiu. Sua alma não aguentou a pressão magnética de duas linhas de memória e ego tentando ocupar o mesmo espaço. Você foi rasgado fisicamente. Mas... se quiser saber o porquê específico de ter trombado com Eliza, terá que gastar uma pergunta da mesa.

Dante forçou o oxigênio para dentro dos pulmões. Ele precisava reconstruir sua mente triturada. O tabuleiro ainda estava montado, e ele não ia sair dali sem mapear as minas terrestres. O raciocínio lógico tentou assumir o controle. A primeira pergunta havia sido abstrata demais, baseada em chutes. Agora, ele precisava de terreno firme. Uma pergunta cuja resposta ele já desconfiasse, para testar se a entidade estava queimando sua mentira agora.

— Segunda pergunta — ele exigiu. O tom agora era frio, raspado de todo o sarcasmo infantil de minutos atrás. — O que o Niklaus e a Horizon realmente querem de mim?

Ele já suspeitava da resposta desde o embate no Titanic, desde os monólogos do próprio Niklaus na Torre Dates. Mas precisava da confirmação. Precisava enxergar as peças do inimigo.

— Recrutamento — a Memória respondeu com a naturalidade de quem lê a bula de um veneno. — Niklaus olhou para você e enxergou a arma perfeita. Uma ogiva viva, inexplorada, forjada pela energia de um Astreus. Uma engrenagem impecável para a máquina de guerra da Horizon.

O livro flutuante abriu-se brevemente, projetando uma imagem rápida do passado: o topo da Torre Dates. Lá estava Niklaus, os olhos faiscando com ambição bélica enquanto assistia a Dante lutar desesperadamente por sua vida, medindo seu potencial de destruição.

Era exatamente o que eu imaginava, Dante pensou, com a mente acelerando. Pelo tom de revelação absoluta da primeira resposta, e por essa bater exatamente com o que ele presenciou, a lógica se alinhou: a entidade disse a verdade duas vezes.

Isso significava uma coisa: a terceira e última resposta seria a mentira.

Dante estreitou os olhos. Mesmo sendo falsa, ele precisava extrair valor daquela pergunta. Toda boa mentira precisava ser enraizada em uma meia-verdade para funcionar.

— Última pergunta — ele disse, mantendo a voz inabalável. — Qual é o verdadeiro objetivo do Rei dos Sonhos?

O raciocínio era afiado. O Rei dos Sonhos era o ser enigmático que havia implantado o ódio contra os pesadelos, o arquiteto do Jogo das Coroas. Tanta engenharia sociopolítica não poderia vir de simples raiva ou tédio. Saber qual mentira a Memória inventaria para esconder o verdadeiro plano lhe daria um ponto de partida para deduzir a verdade.

A entidade parou. As chamas azuis dos castiçais tremeluziram freneticamente, quase apagando, antes de voltarem a queimar com força.

— Por amor — a Memória declarou, a voz assumindo uma textura melancólica e solene. — O Rei criou este inferno infindável por amor a uma mulher inalcançável.

Dante piscou, encarando o poço de luz do rosto dela. Por um segundo inteiro, seu cérebro deu tilt.

— O quê?! — o choque escapou de seus lábios.

Mas a paralisia durou pouco. O intelecto predatório do caçador reacendeu, cortando a névoa emocional da sala. Em uma fração de segundo, as peças se conectaram.

Mentira.

As memórias vieram como relâmpagos. Daemon. Love. Velvet. Os rostos distorcidos de todas as almas corrompidas, as vilanias mais grotescas que ele presenciou, todas justificadas pela mesma desculpa doentia e obsessiva: o "amor".

A entidade não estava apenas mentindo; ela estava jogando com a biografia dele. Como Astreus da Memória, ela vasculhou a mente de Dante, viu seus traumas com vilões movidos por falsos amores e lhe entregou exatamente a narrativa que seu instinto estava condicionado a aceitar como vilania. Ela achou que ele engoliria a isca pela repetição de padrão.

Mas ela errou. Ao tentar usar o passado de Dante contra ele, ela entregou o jogo.

Um sorriso microscópico se formou no rosto de Dante. Ele havia vencido a roleta-russa. Ele sabia que ela mentira sobre o Rei.

Antes que ele pudesse saborear a vitória, um zumbido estridente encheu seus ouvidos. A luz do salão pareceu quebrar como um espelho atingido por uma pedra. A visão de Dante derreteu em um borrão cinzento, a Biblioteca e a Memória escorrendo como água suja pelo ralo. O frio do abismo deu lugar à dureza fria e familiar de pedras sob seu corpo.

Com um puxão violento de ar, Dante abriu os olhos, acordando caído no chão, de volta à realidade.

Parte 2

O choque de realidade o atingiu uma fração de segundo antes da dor física.

Dante rolou para o lado com um engasgo áspero, cuspindo um coágulo de sangue escuro. Seu corpo arrastou-se violentamente contra o piso de mármore da Mansão Sterling, enquanto o som de cacos de espelho sendo triturados sob seu peso ecoava pelo salão destruído.

Acima dele, os poucos tubos de neon que haviam sobrevivido à onda de choque de Eliza piscavam em uma agonia epiléptica, emitindo um zumbido elétrico e moribundo na luta contra o apagão. O ar era uma sopa grotesca que grudava na garganta: o cheiro acobreado e quente de sangue fresco e cadáveres de vampiro misturava-se à doçura enjoativa da cobertura do bolo esmagado. Por baixo de tudo isso, arranhando as narinas, estava o odor áspero de pólvora deflagrada e o cheiro denso de ozônio — a assinatura química inconfundível de um pulso massivo de Éter puro que havia fritado a atmosfera.

Dante cravou os dedos da mão livre no próprio couro cabeludo. Uma pontada lancinante, como se agulhas incandescentes estivessem costurando seu córtex de dentro para fora, o fez rosnar por entre os dentes travados.

A represa havia estourado. O "Dante Real" estava de volta.

O mosaico fraturado dos infinitos loops temporais de Morpheus não apenas voltou à sua mente; ele colidiu violentamente, sobrepondo-se em um flash cegante de memórias.

— Droga... — ele sibilou. A voz saiu rouca, arranhando a garganta. Ele sentiu um filete espesso e quente escorrer da narina esquerda até o queixo e o limpou com as costas da mão suja de fuligem. — Eu saio do mundo real para o mundo dos sonhos... e agora acordo na porra da Matrix.

Apoiando as mãos trêmulas no piso frio, ele tentou se erguer, mas os músculos do seu abdômen gritaram em protesto. Dante olhou para o próprio ombro, onde o tecido rasgado revelava carne viva, e sentiu o sangue quente pingando do corte profundo em sua testa, manchando irremediavelmente o que restava de sua camisa branca. A carne não estava se unindo. O sangramento não parava.

Fechando os olhos bicolores, Dante puxou o ar e mergulhou a mente em direção ao próprio núcleo. Ele tentou agarrar a centelha de sua aura, esperando aquele calor familiar e elétrico do Éter inundar suas veias e ativar a regeneração celular.

Nada.

Um vazio absoluto, gélido e oco respondeu ao seu chamado. Ele já suspeitava disso, testando mais para confirmar uma teoria macabra do que por esperança. Aquele mundo desconhecia o Éter. As pessoas aqui podiam até extraí-lo para experimentos bizarros, mas o uso natural estava bloqueado. Suas capacidades haviam sido brutalmente extirpadas.

Dante soltou uma risada rascante e sem humor algum, usando um pilar estilhaçado como muleta para finalmente ficar de pé.

— É sério isso? — ele resmungou para o teto em ruínas. Curvou-se com um gemido contido para pegar sua machadinha tática caída no chão, sentindo o peso morto e mundano do aço na mão. — Primeiro, quando eu chego em Morpheus, deixam o tempo irrelevante. Agora, me tiram o Éter. Malditos... parem de tentar me nerfar.

A vulnerabilidade o envolveu como um vento antártico contra a espinha. Ele não era mais o predador capaz de dobrar o tempo. Não empunhava armas sobrenaturais. Não tinha mais força titânica. Ele havia sido rebaixado à fragilidade de um ser humano comum.

— Tudo bem... — ele suspirou, estalando o pescoço dolorido. — Eu penso na minha mortalidade depois.

Infelizmente para quem quer que estivesse orquestrando aquele teatro, arrancar seus poderes não significava torná-lo inútil. O cérebro de Dante engatou a quinta marcha, triturando ativamente a enxaqueca brutal para começar a trabalhar. As peças do quebra-cabeça estavam espalhadas pelo salão ensanguentado, e o Caçador começou a montá-las.

— Eu não tenho dúvida... antes de chegar aqui... antes desses loops começarem...

Flashes estouraram atrás de seus olhos. O Tribunal. A Biblioteca Celeste. O acordo tenso com a Memória. A marca queimando em seu braço esquerdo. A guerra na Cidade de Cristal. A batalha esmagadora contra Kiara e, por fim, o pedido desesperado de Anna para salvá-la.

Depois disso, o que ele lembrava daquele novo mundo? A origem bizarra dos vampiros. A cidade de Morpheus. A facção dos Caçadores. As engrenagens giraram mais rápido.

— Nesse mundo, a Nero morreu para um vampiro... por isso eu me juntei aos Caçadores...

A mente dele voou para a facção marginal. Para a mulher misteriosa que os havia reunido. Aquela que financiava o arsenal pesado e sussurrava coordenadas através de comunicadores criptografados, cujo rosto nenhum deles jamais vira. O codinome dela era Anna.

A melhor amiga de Eliza neste mundo? Anna. A ancestral da cidade, cujo nome assombrava os registros de fundação e os quadros a óleo nas mansões antigas? Anna Lighthart.

As engrenagens travaram com um clique ensurdecedor dentro de sua cabeça. Dante abriu os olhos na penumbra, o brilho bicolor agora afiado como uma lâmina recém-amolada.

— Bom, loirinha... então você construiu uma Matrix desta vez? — ele sussurrou para o nada, um sorriso predatório desenhando-se lentamente em seus lábios. O intelecto dissecava a espinha dorsal daquele mistério.

Eles eram duas partes do mesmo ser, mas mais do que isso: conheciam as cicatrizes um do outro melhor do que ninguém. Desde a fusão, passaram mais tempo juntos do que com qualquer outra pessoa. Para alguém normal, estar preso em um mundo falso criado pela própria parceira soaria como a traição suprema, digna de um vilão de anime.

Mas a mente de Dante não era normal. A única coisa que fervia em sua cabeça ao considerar a verdade era uma indignação:

É sério isso? Eu sou completamente nerfado, perco tudo, e ela ganha o poder de criar uma dimensão inteira? A justiça foi para o caralho mesmo. Bem que dizem que o vilão perde todos os status quando vem para o lado dos heróis.

— Tá certo. Eu não faço ideia de qual é a pira dela desta vez — Dante falou sozinho, girando a machadinha na mão por puro hábito. — Mas, sendo um Astreus, é a melhor aposta que eu tenho. É melhor eu ir atrás dela e arrastar todo mundo de volta para o mundo real antes que mais alguém recupere a memória e tente resolver as coisas com ela no soco.

Se Anna era a Arquiteta daquele pesadelo, ela segurava as chaves do aquário. Mas havia um problema logístico imediato: ele não fazia ideia de onde a residência da Arquiteta ficava naquela ilusão urbana. No entanto, sabia perfeitamente quem andava colada nela.

Eliza.

Se as duas eram inseparáveis em todas as realidades e loops, Eliza era o seu mapa. Ela teria o endereço, as pistas, os códigos. Ele precisava encontrá-la, e rápido.

— Além disso... — Dante olhou ao redor, avaliando o estrago elétrico nas paredes. — Preciso descobrir o que diabos foi aquele pulso de Éter e quem mais teve o cérebro frito por ele.

O Caçador ajeitou os ombros. Uma pontada aguda avisou que havia costelas fraturadas ali, mas ele trancou a dor em uma caixa estanque no fundo da mente. O terno estava em frangalhos, seu rosto era uma máscara de sangue e fuligem, e a perna direita repuxava a cada passo. Mesmo assim, a aura de letalidade ao seu redor não havia sumido; apenas mudara de tom.

Ele olhou para a própria manga rasgada, sacudindo a poeira da lapela arruinada.

— Falando nisso... essa roupa até que não ficou nada mal. Vou comprar uma igual quando voltar para casa.

Com um sorriso letal de quem finalmente entendeu as regras do jogo, Dante ergueu a perna e chutou o que restava da porta dupla de carvalho, deixando a Mansão Sterling e seus cadáveres para trás.

Parte 3

A neblina espessa e gelada de Morpheus rastejava pelo asfalto rachado como fumaça de gelo seco. Sem as luzes dos postes e com a simulação climática em colapso total, a metrópole havia se transformado em uma cidade-fantasma pintada em tons de cinza e breu.

Dante mancava pelas ruas silenciosas, a machadinha guardada na maleta de ferro pesando em seu ombro e a perna direita repuxando a cada passo. O destino era a Mansão Lighthart. Mas, antes mesmo de virar a esquina da propriedade, ele estancou. Seus músculos travaram.

Saindo pelos imensos portões de ferro batido, caminhando com a postura inabalável de uma rainha inspecionando seus domínios, estava Kiara.

O cérebro de Dante, já operando em sobrecarga, sofreu um curto-circuito instantâneo.

Vê-la ali, de pé na neblina, ativou duas roletas-russas de memórias simultâneas, colidindo em sua mente. De um lado, o mundo real: o céu rasgado, o Tribunal, e Kiara o esmurrando como um berserker ensandecido, afundando seu rosto no chão até abrir crateras. Do outro lado, o arquivo maciço dos loops de Morpheus jogou na cara dele as lembranças dos incontáveis ciclos em que eles acabaram juntos. Casados. Vivendo um romance pacato, tomando café da manhã na mesma mesa e dividindo a mesma cama.

Dante engoliu em seco. O suor frio misturou-se ao sangue seco em sua testa. Ele não fazia a menor ideia de qual versão dela estava ali.

— Oi, Kiara... — ele tentou soar casual, ajeitando a alça da maleta. — Vejo que ficou bem depois daquela explosão.

Kiara parou. Os olhos afiados dela o escanearam de cima a baixo com a precisão de um laser. Com passos lentos e predatórios, ela diminuiu a distância entre eles até invadir completamente o espaço pessoal de Dante.

É verdade, essa delinquente adorava fazer isso..., Dante pensou, prendendo a respiração e preparando-se para qualquer ataque.

— Vejo que você também ficou bem... — Kiara murmurou. A voz saiu baixa, perigosa e carregada de uma sedução quase venenosa. Ela parou a um palmo do rosto dele. — Mas que estranho, forasteiro. Por que será que você está tão coberto de sangue?

Ela ergueu a mão pálida e tocou a lapela arruinada do terno dele. Os dedos finos deslizaram perigosamente perto da jugular de Dante.

— Você diz que foi a explosão, mas... — Ela puxou levemente o tecido rasgado. — Olhe só para isso. Uma explosão não faz esses estragos. Isso aqui é marca de garra. Ferimentos de batalha. Andou brigando com quem, Dante?

Ele congelou. A proximidade, o perfume dela e o tom interrogativo o deixaram em pane. Ele não sabia se ela estava flertando, se estava prestes a arrancar sua cabeça fora, ou se era apenas a Presidente do Conselho de Morpheus dando uma bronca. Ele abriu a boca, o rosto esquentando, tentando fabricar uma desculpa esfarrapada.

E então, Kiara não aguentou.

Ela caiu na gargalhada. Uma risada alta, cristalina e carregada de puro escárnio. A máscara de femme fatale misteriosa despencou, revelando a personalidade brilhante, astuta e absurdamente sádica que ele conhecia tão bem.

— Olha só para a sua cara! — Kiara riu, enxugando uma lágrima imaginária no canto do olho. — Infelizmente, a brincadeira acabou, zumbi. Pode relaxar. Eu já lembro de tudo.

Dante arregalou os olhos bicolores. A vergonha foi carbonizada por uma indignação flamejante.

— Sua... sua sádica do inferno! — ele gritou, apontando o dedo na cara dela, a marra voltando com força total. — Não fique brincando com o frágil coração de um homem ferido! Eu quase tive um infarto!

— Ah, supera, chorão. Foi divertido. — Kiara piscou, cruzando os braços. A expressão dela, no entanto, adotou rapidamente uma seriedade tática. — Mas, falando sério agora: nós temos um problema gigantesco nas mãos. E o nome dele é Anna.

Então ela vai agir como se nada daquilo tivesse acontecido?, Dante pensou. Acho que é melhor assim para mim também.

Dante abaixou a mão, a feição endurecendo. — Você também acha que foi a loirinha que montou essa Matrix?

— Achar? Eu tenho certeza. E sinto que sei o porquê... — O olhar de Kiara escureceu, pesando com uma culpa atípica para ela. — Ela fez tudo isso para salvar as pessoas da Bomba Dimensional.

Dante travou. O ar gelado sumiu de seus pulmões. Aquela combinação de palavras era um fantasma adormecido, e a simples menção ao artefato o assustou genuinamente.

— Como isso é possível? — ele murmurou, a mandíbula tensa.

Kiara suspirou, esfregando as têmporas. — Eu sei muito bem o que você está pensando, Dante. Eu também pensei exatamente a mesma coisa.

— Como você sabe o que eu estou pensando? — Dante recuou meio passo, os olhos semicerrados de desconfiança.

— Porque, durante o tempo em que eu estive fundida com a Anna, partes das memórias dela e das suas vazaram para mim.

— Ô, com licença! — Dante gesticulou, ofendido, jogando os braços para o alto. — A minha cabeça não é um diário público em praça aberta para todo mundo ficar folheando sem permissão, tá legal?! Cadê o respeito à privacidade?!

Kiara revirou os olhos, imune ao drama.

— O problema da Bomba Dimensional... fui eu, Dante. Eu admito. Tecnicamente, fui eu quem a criou.

Dante piscou. O silêncio que se seguiu foi absoluto.

— Quando eu dei as Coroas do Jogo para o Lorde da Gula comer... eu achei que estava neutralizando a ameaça. Achei que iria desarmá-las. — Kiara engoliu em seco, encarando as próprias mãos na neblina. — Mas, em vez disso, eu acidentalmente fabriquei a Bomba Dimensional perfeita. Não fui eu quem a ativou, claro, mas a culpa pela existência dela é minha. A Anna deve ter sentido o peso disso. E para me proteger... para proteger todo mundo... ela nos puxou para dentro da própria psique e trancou a porta. Ela construiu esta nova Morpheus.

Dante a observou em silêncio. A garota estava sendo mais direta e vulnerável do que ele julgava possível. A teoria fazia sentido, mas seu instinto de caçador apitava.

Dizer que ela nos arrastou para a psique dela ou para uma "black box" parece conveniente demais, mas sinto que está errado, ele refletiu. Pelas minhas memórias, existe um lado de fora desta cidade. Este lugar é grande e detalhado demais para ser só uma ilusão. Os "erros" estão apenas dentro da cidade. Será que ela nos teleportou para outro mundo? Como ela controlou a mente e a história de todos? Ainda faltam peças.

— Eu preciso encontrar a Anna — Kiara determinou, erguendo o queixo. A chama implacável voltava a arder em seus olhos. — Ela já se arrastou demais para dentro dos meus problemas. Eu vou ajudar aquela idiota.

Dante soltou um riso anasalado, apoiando a mão livre na cintura. — É... eu não esperava esse nível de responsabilidade emocional vindo de uma delinquente como você. Mas, sendo assim, acho que podemos trabalhar juntos por enquanto.

— Hum, errado. Não é que vamos trabalhar juntos. É que você ganhou permissão para me seguir. — Kiara virou as costas e começou a andar.

— Ei! — Dante esbravejou, apressando o passo atrás dela.

— A Stella deve saber onde a Anna está se escondendo. Mas eu não faço ideia de para onde a minha irmã correu. Vamos até a delegacia de polícia e usar as câmeras de segurança manuais para rastrear o caminho dela.

Stella? É assim que ela chama a Eliza aqui? Dante optou por não interromper para não atrasar o raciocínio.

— É um bom plano. Melhor do que ficar chutando e perdendo tempo — Dante concordou, dando uma passada mais larga para alcançá-la.

No segundo passo, a perna direita dele cedeu.

Ele soltou um chiado de dor, apoiando-se no próprio joelho antes de cair. Kiara parou e olhou para baixo. A calça do terno italiano de Dante estava encharcada de sangue abaixo do joelho. Havia um caco de vidro espesso incrustado profundamente na panturrilha dele — um souvenir da mesa de bebidas esmagada na Mansão Sterling.

— Senta aí no meio-fio. Agora — Kiara ordenou. O tom não aceitava barganhas.

— Não é nada, eu tô...

— Senta! — ela apontou para o concreto úmido.

— Que droga... precisa falar assim? Parece até que está dando ordem para um cachorro — Dante resmungou, mas obedeceu, sentando-se com a perna esticada.

Kiara agachou-se na frente dele. Sem a menor cerimônia, ela agarrou a ponta do caco de vidro e, em um único puxão brutal, arrancou a lâmina da carne.

— AAAAAARGH! SUA LOUCA! — Dante berrou, agarrando a própria coxa enquanto o sangue minava com força. A dor, sem o Éter para anestesiar, era uma explosão branca em seu cérebro. — Você não conhece a palavra "delicadeza"?!

Kiara rasgou um pedaço limpo da própria manga da camisa e começou a amarrar firmemente ao redor da ferida dele.

— Você está sem Éter, zumbi. Acostume-se. Tratamentos agora são feitos à mão. Pare de ser um chorão.

— E você pare de ser tão bruta, sua ogra! — ele chiou, os olhos marejados de dor.

Kiara terminou o nó do curativo tático e ergueu o rosto. Os dois estavam a poucos centímetros de distância de novo. Aquele sorriso sádico e insuportavelmente charmoso voltou aos lábios dela.

— É muito curioso você dizer isso agora... — Kiara sussurrou. A voz caiu para um tom de malícia absoluta enquanto ela se inclinava, os lábios roçando quase na orelha dele. — Porque eu lembro muito bem que você gostava bastante desse meu lado bruto naqueles uns vinte loops em que fomos casados...

O rosto de Dante assumiu a coloração de um tomate maduro em meio milissegundo. Seu cérebro deu tela azul.

— N-Não sei do que você está falando! — ele gaguejou, atropelando as palavras. — Apagão! Amnésia seletiva! Não tenho ideia do que você está inventando!

Kiara sorriu ainda mais. A voz dela virou um sussurro arrastado e dramático, imitando perfeitamente o timbre grave dele:

— "Ah, Kiara... sem você, a minha vida não é tão divertida..."

Dante saltou do meio-fio como se tivesse sentado em uma mina terrestre. Ignorando a perna rasgada, ele apontou a maleta na direção dela, completamente histérico.

— SUA MALDITA! Nunca mais repita essa frase em toda a sua existência! Esqueça isso imediatamente! Esqueça e sucumba! Morra com essa memória!

Kiara levantou-se, rindo tão gostoso que a neblina parecia recuar ao redor deles. — Por que a vergonha? Foi uma declaração de amor bem fofinha, marido.

— Eu juro que, se você não parar, eu vou me jogar na frente de um caminhão em movimento! — Dante gritava, mancando de costas enquanto ela o seguia com as mãos para trás, divertindo-se horrores.

— "Ai, Kiara... eu achava que não era digno de ter alguém ao meu lado... mas com você eu me sinto tão bem." — Ela continuava disparando o arsenal de palavras fofas que ele preferia enterrar no núcleo da Terra.

— Para, por favor! Eu estou pedindo, Mestra Kiara! — Ele choramingava, não conseguindo manter a pose no meio de tamanho constrangimento. — Sua maldita, se continuar, eu juro que vou contra-atacar!

— Faça o seu melhor. "Kiara, me prometa que nunca vai sair do meu lado, mesmo que um dia as estrelas caiam do céu." — Ela era impiedosa. Não havia misericórdia para com o inimigo.

— Pode ficar aí debochando! Mas, no fim, você aceitou e ficou comigo, não foi?! — Dante tentou revidar, arrumando o cabelo em uma tentativa falha de resgatar o carisma, o rosto ainda completamente vermelho. — Parece que meu charme é realmente muito grande. Acho que, no fim, até você acabaria se apaixonando.

— Claro. Você é bonito — ela rebateu de imediato, sem um pingo de vergonha ou hesitação.

Dante arregalou os olhos em pânico. Ela conseguia atacar e não sofria dano dos ataques dele. Aquele monstro era invencível até mesmo em batalhas românticas?!

— Vo... vo... você não tem vergonha de admitir isso?! — Dante estava ainda mais surtado.

— Eu não. Eu sou uma mulher que gosta do que é belo. Óbvio que vou gostar de garotos bonitos. Também me interesso por garotas bonitas, então não é tão estranho minha outra versão ter gostado de você.

— Mas tão superficial assim...? Tipo... e o romance? E a paixão profunda? — Dante resmungava, caminhando ao lado dela e escondendo o rosto com a mão.

— Virou menininha emocionada agora?! — Ela virou o rosto para ele, arqueando uma sobrancelha.

— Maldita... você realmente tem zero delicadeza.

— Antigamente eu tinha mais modos nobres. Tinha orgulho do meu vocabulário. Mas a Anna entrou na minha cabeça, mudou umas coisas, e essas novas memórias misturaram tudo.

— O problema não é como você fala, é o que você fala!

— Mas qual é o grande problema? Está dizendo que eu não posso simplesmente ter me interessado por você porque te achei bonito? Me diz: quando você vê uma mulher gata, o seu coração não bate mais rápido? Você não pensa em querer saber mais sobre ela?

— Tá... mas isso é só atração visual.

— O motivo inicial não importa, ainda é interesse. É totalmente possível se apaixonar por uma pessoa sem ser pela aparência, mas dizer que o oposto é impossível é loucura. Para começo de conversa, eu sei que sou linda e tenho certeza absoluta de que parte do motivo para o "outro você" ter se apaixonado foi a minha aparência também.

— ...Acho que pode ser.

— E você é bonito, engraçado e não é o pior tipo de pessoa para se ter do lado. Aposto que deve até ser popular com as garotas lá no seu mundo.

— Bom...

— Acha mesmo que isso não tem relação com a sua cara?

— Você pode até ter razão... mas não é normal ficarem me chamando de bonito na minha cara assim. Eu me sinto estranho.

— Vou te ensinar uma coisa, garoto... — Kiara sorriu, olhando para a frente. — Receber elogios é bom. É verdade que as pessoas têm dificuldade em elogiar as outras, mas não existe ninguém no mundo que não goste de ouvir um. Se o mundo tem tanta dificuldade, eu vou elogiar todos em dobro para compensar a diferença.

Dante a observou caminhar. Ele começava a vê-la de forma totalmente diferente. Talvez fosse pela influência de Anna, ou pelo peso de liderar um grupo inteiro, mas o carisma que Kiara transbordava agora era magnético. Mais do que isso: havia uma leveza nela que não existia na Kiara forjada na guerra e na dor.

Talvez... esse mundo falso tenha sido até que bom para ela, ele pensou.

Com esse pensamento, um clique silencioso aconteceu na mente de Dante. Mesmo que o "eu" dele deste mundo fosse mais frio, era um fato inegável: nesses loops criados por Anna, a vida dele sempre acabava feliz. Ele havia perdido Nero na vida real, mas aqui, as pessoas que morriam num loop muitas vezes sobreviviam no próximo. Todos sempre alcançavam um final feliz, de um jeito ou de outro.

Ele olhou para a rua sombria, questionando a si mesmo. Seria realmente tão ruim viver naquela Matrix? Para o povo de Morpheus, que nasceu e cresceu triturado pelas engrenagens da guerra, viver ali dentro, mesmo com os erros do sistema... não seria o equivalente a férias em um paraíso?

— Não... talvez, até para mim, esse lugar... — Dante murmurou, a voz quase inaudível.

— O que foi? Disse alguma coisa? — Kiara perguntou, virando o rosto de perfil.

— Não... relaxa. Só estava pensando alto.

— Pensando em como vai se declarar para mim desta vez?

— É sério, se continuar, eu me jogo de cabeça de um prédio.

Kiara riu alto. A dinâmica caótica, porém estranhamente harmônica dos dois, continuava a empurrá-los pela neblina. Mas, antes que Dante pudesse continuar seu surto de vergonha, algo macio roçou em sua canela.

Miau.

Ambos congelaram e olharam para baixo.

Saindo do nevoeiro, como se fosse moldado pela própria escuridão condensada do asfalto, um gato negro parou aos pés de Dante. Seus olhos amarelos brilhavam intensamente, cortando a penumbra. Na boca miúda, o felino carregava um envelope de papel encerado escuro.

O gato largou a carta no chão, esfregou a cabeça na bota suja de sangue de Dante e, sem fazer som, recuou para as sombras até desaparecer no ar.

Dante agachou-se e pegou o envelope. Não havia remetente. Ele o virou. Escrita nas costas do papel, com uma caligrafia apressada e rasgada, havia uma mensagem que cravou-se na mente dele com a urgência do fim do mundo. Eram apenas duas palavras:

"SALVEM ELIZA."

A provocação no rosto de Kiara morreu instantaneamente. Dante amassou o bilhete no punho, a expressão endurecendo como aço. A comédia romântica havia acabado ali.

A corrida contra o relógio do Arquiteto havia começado.

Parte 4

O caos que engolia Morpheus morria na soleira da porta da Diretora Irene. O escritório permanecia intocável, uma bolha de perfeição estéril pairando acima da cidade fraturada. O apagão não havia cruzado aquele limite; geradores independentes banhavam as paredes impecáveis com o brilho carmesim e implacável das luzes de emergência. O silêncio ali dentro não era pacífico; era denso, pesado. Cirúrgico.

Na tela de vidro temperado do monitor tático, uma fina linha verde sofreu um espasmo violento. O pico subiu em desespero e, em seguida, despencou, achatando-se em uma reta estática e definitiva. O biossensor emitiu um bipe longo, letal e contínuo.

Satan estava morta.

Sentada em sua cadeira de couro de espaldar alto, com as pernas elegantemente cruzadas, Irene não piscou. Não houve um sobressalto. Não houve um milissegundo sequer de luto ou choque pela perda de seu cão de guarda mais brutal. Em vez disso, os lábios pintados de vermelho-sangue curvaram-se lentamente, desenhando um sorriso indulgente, calculista e profundamente profano.

— O sistema imunológico da cidade está, finalmente, sendo testado — Irene murmurou para o vazio, a voz aveludada dissecando a perda como quem analisa uma simples oscilação em um gráfico. — Excelente. A dor, a pressão e o caos... esses são os únicos catalisadores reais da evolução.

Ela se levantou com a graça de uma monarca e caminhou a passos mudos até a parede de trás. Com um toque polido em um painel biométrico oculto, pesadas travas de aço reforçado giraram. A câmara hermética cedeu com um estalo industrial, abrindo-se e cuspindo um chiado violento de ar pressurizado.

Uma nuvem densa e gélida de fumaça branca escorreu para o tapete do escritório.

— Chegou a hora de testarmos a verdadeira obra-prima. — Os olhos vermelhos de Irene brilharam na penumbra, refletindo a névoa. — Afinal... se eu preciso forjar o ápice da evolução, um poder singular, absoluto e capaz de subjugar os próprios deuses, precisamos começar caçando as pequenas anomalias que ousam invadir o meu tabuleiro.

De dentro do frio congelante, um pé pálido e descalço pisou no chão do escritório.

Não restava um único traço da garota doce, sorridente e um pouco tímida que costumava chorar pelos cantos da escola. Yuki estava ali fisicamente, mas a sua alma havia sido drenada e substituída por uma aberração. A pele ostentava a palidez de mármore calcificado, contrastando com as veias escurecidas e necrosadas que mapeavam seu pescoço e braços como raízes podres.

Mas o verdadeiro terror — o triunfo absoluto que fazia Irene sorrir — não era a imortalidade grotesca de um vampiro. Era a energia que distorcia o ar ao redor da garota.

Diferente dos sanguessugas genéricos, que não passavam de cadáveres enlouquecidos movidos pelo instinto faminto, Yuki pulsava. Uma aura espessa, letal e violenta de Éter escuro vazava de seus poros, crepitando no ar. Irene havia alcançado o impossível da alquimia macabra: fundiu a maldição implacável da não-vida com a capacidade de manipular a magia primordial. Era uma vampira alimentada por um motor de Éter.

Yuki não disse uma palavra. Não havia humanidade ali para expressar confusão ou raiva. Seus olhos carmesins eram dois poços mortos, destituídos de qualquer traço de empatia, hesitação ou alma.

Irene ergueu a mão, apontando dois dedos graciosos em direção à saída.

— Cace.

Yuki não correu; ela simplesmente desapareceu. Não houve o som orgânico de músculos se contraindo ou de passos batendo no piso. Houve apenas o estrondo surdo do ar sendo violentamente deslocado enquanto um borrão escuro estilhaçava a barreira do som de dentro da sala restrita.

Minutos depois, no outro extremo da metrópole afogada em neblina, o borrão rasgou o espaço e materializou-se no centro do salão destruído da Mansão Sterling.

Yuki endireitou o corpo lentamente. O silêncio dela era absoluto. A cabeça moveu-se em minúsculos e mecânicos espasmos, mapeando o ambiente em frações de segundo. Ela não olhou para os corpos de seus semelhantes fritos pelo pulso de Eliza; os mortos não importavam. Pés descalços esmagaram os cacos de espelho manchados de sangue e glacê, subindo a escadaria principal como um fantasma até parar na porta arrebentada do antigo escritório de Mamon.

Lá dentro, o corpo sem cabeça de Satan decorava o tapete.

Yuki inclinou o pescoço em um ângulo incômodo, irreal. A garota-vampira inspirou profundamente. Seus pulmões mortos inflaram, puxando o ar viciado da sala, e as narinas pálidas dilataram-se.

O ambiente cheirava a pólvora, ozônio e morte.

Mas, por baixo desse caos olfativo e químico, oculto nas frestas do ar, havia um rastro. Fresco e vibrante. O cheiro rústico e metálico de sangue espesso e vivo. O sangue que havia pingado do rosto cortado de Dante. O sangue que escorreu aos montes da panturrilha dele quando o vidro rasgou sua carne.

Era um néctar infinitamente mais rico e denso do que o fluido aguado dos NPCs da cidade. O cheiro inconfundível de um Caçador do mundo exterior.

Os olhos vermelhos de Yuki travaram na direção da rua. Não havia ódio em sua postura. Não havia sede de vingança por Satan, nem sadismo. Havia apenas o terror gélido e impessoal de uma força da natureza cumprindo sua diretriz. Ela era a inevatibilidade da morte, caçando puramente por faro e instinto predatório.

Com a precisão inabalável de um míssil guiado travando nas coordenadas do alvo, a vampira flexionou os joelhos e saltou pela janela estilhaçada do segundo andar. O corpo pálido despencou na neblina espessa de Morpheus em completo silêncio, rasgando a cidade morta exatamente no encalço de Dante.

Parte 5

A neblina engolia os quarteirões silenciosos de Morpheus, rastejando pelo asfalto como um organismo vivo. O silêncio da cidade morta era opressor, rasgado apenas pelo eco úmido das botas de Dante e Kiara. O Caçador mancava ritmicamente, a respiração pesada condensando-se no ar gelado enquanto forçava o corpo a ignorar a dor lacerante que irradiava da panturrilha recém-enfaixada.

Dante ainda rolava o bilhete amassado entre os dedos sujos de sangue.

— Você reconheceu a bola de pelo sombria, não reconheceu? — ele perguntou, a voz baixa, sem desviar os olhos da névoa à frente. — A sua expressão mudou na hora que ele apareceu.

— É a habilidade da Cat — Kiara respondeu. Os olhos dela varriam as sombras com a frieza de um soldado em patrulha. — Cat Schrödinger. Ela me ajudou a encontrar uma forma de possuir um corpo e voltar até Morpheus. Aquele gato é a assinatura do poder dela.

O cérebro de Dante freou bruscamente.

Ele estancou no meio da rua cruzada pela neblina. Os olhos bicolores se arregalaram enquanto uma epifania violenta e silenciosa detonava em sua mente.

— Espera aí... — Dante ergueu o bilhete, encarando o papel como se ele fosse a chave do universo. — Aquele gato não era um animal físico. Ele se desmaterializou nas sombras. Ele era um constructo de Éter puro.

Kiara parou e virou-se para ele. No mesmo instante, as engrenagens táticas na cabeça dela travaram na mesma frequência que as dele.

— Se a sua companheira consegue invocar e manter um familiar ativo dentro desta Matrix... — O sorriso predatório de Dante voltou, cortando o cansaço e a dor. A aura do Caçador reacendeu, fria e letal. — Isso significa que o Éter não foi apagado deste mundo. Ele só está bloqueado para nós. É uma trava de software... e a Schrödinger sabe a senha. Nós podemos recuperar os nossos poderes, Kiara.

A chama da esperança — perigosa e afiada — acendeu nos olhos dela. Se recuperassem a Autoridade e o Éter, as regras do jogo mudariam. Eles poderiam estilhaçar aquele aquário por dentro.

— Precisamos encontrar a Cat e arrancar dela como burlar o bloqueio da Anna — Kiara determinou, com os punhos cerrados. — Mas as prioridades não mudam. O bilhete foi claro. Nós achamos a Eliza primeiro.

Dante assentiu, enfiando o papel no bolso do paletó arruinado. A caçada tinha um alvo agora.

— A delegacia é logo ali.

O prédio do departamento de polícia de Morpheus erguia-se nas sombras, vitimado pelo mesmo apagão que calara a metrópole. Dante não tinha tempo nem paciência para delicadezas. Ele enrolou o paletó no cotovelo saudável, recuou um passo e desferiu um golpe seco e brutal contra a porta de vidro temperado. A barreira estilhaçou-se em uma chuva de diamantes falsos, permitindo que ele destrancasse a maçaneta por dentro.

O interior fedia a café velho, poeira e ozônio. O breu era absoluto, sinal de que os oficiais plantonistas haviam sido fritos e apagados pelo mesmo pulso de Éter de Eliza.

— Sala de servidores — Kiara apontou para o corredor escuro, assumindo a dianteira. — Vamos religar os geradores de emergência isolados só para a rede de câmeras locais. Nós vamos rastrear cada passo da minha irmã.

A quilômetros dali, o ar fedia a um matadouro revirado.

No mezanino do salão principal da Mansão Sterling, o silêncio fúnebre foi quebrado por um engasgo agudo e rasgado.

Vav puxou o ar com violência, os olhos arregalando-se na penumbra. O pulso de Éter de Eliza havia varrido a mansão, resetando o sistema nervoso de todos os presentes por longos minutos. A garota de cabelos pretos apoiou-se no parapeito de vidro, o crânio latejando como se tivesse sido chutado por um cavalo.

Ao lado dela, Teth já estava de pé. O garoto-prodígio esfregava as têmporas com força, a sua habitual máscara de porcelana e raciocínio estoico completamente trincada pela confusão e pela náusea.

Vav piscou, tentando focar o olhar no andar de baixo. O salão estava atapetado de corpos.

— O que... que diabos aconteceu? — ela sussurrou, a voz trêmula escorregando para o pânico. Mas o instinto de defesa adolescente logo converteu o medo em raiva. — O desgraçado daquele forasteiro! Ele fez alguma coisa! Eu vou descer lá e...

— Não! — A voz de Teth cortou o ar, mais áspera e imperativa do que o normal. Ele cravou os dedos no braço da irmã, segurando-a no lugar. — Esqueça o forasteiro. O apagão foi generalizado. Não sabemos se ele está vivo, se a mansão ainda está cercada ou o que nos atingiu. A nossa única prioridade é a Tia Rum. Ela ainda está trancada naquele escritório.

O lembrete da única âncora de segurança que tinham foi como um balde de gelo na raiva cega de Vav. Ela engoliu em seco e assentiu, pálida.

Os gêmeos desceram a escadaria principal com passos curtos e milimetricamente calculados, o terror prendendo a respiração de ambos a cada corpo desviado. A sola dos sapatos deles grudava na enorme poça de sangue e bolo esmagado com um som úmido e nauseante. A coragem de "brincar de detetive" evaporava a cada segundo, substituída pelo terror primitivo de ratos percebendo que estão presos em uma gaiola com predadores.

Eles alcançaram as portas duplas do antigo escritório de Mamon e as empurraram.

O cheiro espesso de pólvora, sangue e fezes os atingiu com a força de um soco no estômago.

Vav sufocou um grito, cravando as duas mãos sobre a boca. Teth paralisou no batente, as pernas recusando-se a dar um passo a mais.

No canto da sala, pintando o carvalho nobre das paredes com sangue e massa cinzenta, estava o corpo decapitado de Satan. No centro do cômodo, amarradas em cadeiras de mogno e ainda desacordadas pelo pulso, estavam a Detetive Rum e Ivy Sterling.

— Tia Rum! — Vav quebrou a paralisia e correu, caindo de joelhos ao lado da cadeira da policial. As mãos dela tremiam tão violentamente que os nós da corda grossa pareciam de ferro. — Teth, me ajuda aqui! Pega alguma coisa para cortar isso!

Teth engoliu a bile que subia à garganta. Forçando os olhos a se desviarem da carnificina de Satan, ele correu até a mesa de Mamon, encontrou um estilete de abrir cartas na gaveta e começou a serrar as amarras que prendiam a policial e a herdeira.

A primeira a despertar, no entanto, não foi a veterana calejada. Foi Ivy.

A garota de vestido esmeralda arruinado puxou o ar em um guincho agudo e histérico. Os olhos dela se escancararam, brancos e dilatados pelo puro pânico. Mesmo com as cordas já frouxas, ela começou a se debater loucamente na cadeira, como um animal na armadilha.

— NÃO! ME SOLTA! O ASSASSINO! OS VAMPIROS! — Ivy berrava, chutando o ar. As lágrimas abriam valas na maquiagem borrada. A sanidade da garota rica estava completamente em frangalhos, destruída pelo horror absoluto do que presenciara.

— Calada! — Vav sibilou. O pânico a fez agarrar a herdeira pelos ombros e sacudi-la com força brutal. — O que aconteceu aqui, Ivy?! O que aquele forasteiro fez?! Quem matou a Satan?!

Ivy engasgou nos próprios soluços, os olhos vagando pelo escritório até pararem nos gêmeos. Era o olhar de quem havia encarado o fundo de um abismo e visto o abismo sorrir de volta.

— Foi ele! O de terno! — ela chorava, a voz rasgando a garganta. — Mas a culpa não é dele! A culpa é delas! — Ivy soltou uma das mãos e apontou um dedo trêmulo para a figura desmaiada de Rum. — A polícia... a Diretora Irene... elas estão os fabricando! Elas estão fazendo experimentos na escola!

Teth recuou um passo trôpego. O estilete escorregou de seus dedos suados, caindo abafado no tapete ensanguentado.

— Fabricando... o quê? — o prodígio sussurrou.

— OS VAMPIROS! — Ivy gritou, um choro patético e desesperado ecoando pela sala morta. — Zumbis! Monstros! Elas mataram a Yuki e a transformaram num deles! Eu vi! Ela estava morta e andando, inteirinha cheia daquelas coisas pretas! A cidade inteira é um abatedouro, e elas estão mentindo para a gente o tempo todo! Elas iam me matar se eu contasse!

O silêncio que engoliu o escritório após o grito de Ivy era mais denso que a própria neblina lá fora.

Vav soltou lentamente os ombros da herdeira. Os olhos trêmulos da garota desceram para a sua Tia Rum, amarrada e inconsciente. A policial ranzinza que sempre as mandava dormir cedo. A mulher que representava a lei, o conforto e a segurança na caótica cidade de Morpheus.

Ela não era uma protetora. Ela era a carcereira do matadouro.

O estômago de Vav despencou. Toda a sua revolta adolescente, as investigações amadoras contra a "hipocrisia" da escola, as invasões de sistema... de repente, tudo aquilo soava como uma piada infantil e cosmicamente humilhante. Ela e Teth achavam que estavam desvendando segredos de um colégio de elite. Achavam que eram os detetives no controle da narrativa.

A realidade, fria e esmagadora, soterrou-os ali mesmo: eles não passavam de gado solto no pasto, cegos e contentes, apenas esperando a hora do abate.

Teth encostou as costas na parede, escorregando até o chão enquanto a respiração saía em jorros curtos e sibilantes. A racionalidade cirúrgica e brilhante do prodígio foi sumariamente esmagada pelo peso do terror existencial. O mundo deles não era apenas falso nas aparências morais; o mundo era uma gigantesca e metódica máquina de moer carne.

E eles estavam trancados do lado de dentro.

Parte 6

A confissão histérica de Ivy Sterling ficou pendurada no ar viciado do escritório como uma sentença de morte executada em câmera lenta.

Vav cambaleou para trás. O coração dela batia contra as costelas com a violência de um prisioneiro esmurrando as grades da cela. As palavras da patricinha — experimentos, vampiros, mortos andando — martelavam no crânio da garota até a náusea física subir rasgando pela garganta.

— Então... — Vav gaguejou. A voz embargou, afogada pelas lágrimas quentes que começaram a derreter a maquiagem preta de seus olhos. Ela olhou para o corpo inconsciente de Rum, amarrado à cadeira de mogno. — Se isso for verdade... se vocês estão fabricando vampiros... foi isso que fizeram com a Let?! Vocês mataram a minha melhor amiga para transformá-la numa aberração?!

Teth não chorou. Em vez disso, a pele de porcelana do garoto-prodígio atingiu um tom de palidez cadavérica, quase translúcida. Suas mãos tremiam incontrolavelmente. O intelecto brilhante e analítico dele corria em desespero para tentar encaixar a tia — a policial linha-dura que cobrava horários e checava os deveres de casa — na figura de um Dr. Frankenstein sádico a serviço da escola. A matemática não fechava.

O gemido rouco e dolorido de Rum cortou o surto dos gêmeos.

A detetive veterana começou a emergir do apagão de Éter. Ela piscou pesadamente, o olho bom focando primeiro no teto esculpido antes de descer e encontrar o rosto banhado em lágrimas da sobrinha, e o olhar arregalado e acusatório do sobrinho.

O resto de cor sumiu do rosto de Rum. O cenário a atingiu com a força de um soco no estômago. A corda ainda mordia seus pulsos; Ivy soluçava encolhida no canto; Satan continuava decapitada no carpete. O forasteiro havia escapado, e o necrotério de segredos da cidade estava escancarado na cara das duas únicas pessoas no mundo que ela havia destruído a própria alma para proteger.

— Teth... Vav... — Rum sussurrou. A voz arranhou a garganta seca de pólvora. O instinto tático policial acendeu de imediato, tentando sufocar o pânico. — Me soltem. Me desamarrem agora. Nós precisamos sair desta mansão e dar o fora da cidade imediatamente. A Irene... o cerco...

— NÃO! — Vav gritou. O som saiu esganiçado, rasgado pelo choro, e ela desferiu um tapa violento na mesa de Mamon. — Ninguém vai a lugar nenhum! Você não vai dar mais nenhuma ordem para a gente!

Rum arregalou o olho, forçando os pulsos contra as amarras até a pele arder. — Vocês não estão entendendo! O perigo que está lá fora...

— O que nós não estamos entendendo é como a policial mais íntegra de Morpheus virou a gerente de um abatedouro de monstros! — Teth interveio. A voz dele era baixa, letal e tremia com uma fúria gélida. Ele chutou o estilete para longe, recusando-se a soltá-la. — A patricinha abriu o bico, tia. Nós sabemos dos experimentos na escola. Nós sabemos que vocês acobertaram o que fizeram com a Yuki.

Rum engoliu em seco, o peito subindo e descendo freneticamente. — Isso não é assunto para vocês! Me soltem, isso é uma ordem!

— Ordem é o caralho! — Vav cuspiu as palavras. A garota avançou e agarrou as lapelas da camisa amassada da tia com as duas mãos. — Eu quero uma explicação! Eu quero saber se foi a senhora que empurrou a Laeticia para o laboratório daquela Diretora maluca! Fala a verdade, ou eu juro por Deus que deixo você amarrada aqui para apodrecer com a sua parceira sem cabeça!

Rum fechou os olhos. O rosto duro e calejado da policial contorceu-se em uma agonia muito mais profunda que a dor física. Ela puxou o ar, tentando manter a barreira emocional erguida, mas o choro de Vav a quebrava por dentro.

— Eu não encostei um dedo na Laeticia — Rum sussurrou, a voz trêmula. — Eu não sabia que ela seria um alvo. Eu juro para vocês. Aquele ataque foi fora da curva...

Teth não recuou um milímetro. A postura rígida o tornava uma estátua implacável no meio do desastre.

— Então você sabia dos outros alvos. Você escolhia quem ia para o laboratório da Irene. Por quê? — Ele deu um passo à frente, os olhos bicolores perfurando a alma da detetive. — Já que você não quer contar a verdade, eu mesmo vou atrás da Irene. Eu vou arrombar a porta daquele laboratório.

Rum abriu o olho. O pânico absoluto, cego e irracional distorceu as feições da mulher.

— NÃO! Para! Teth, você não vai chegar perto daquela mulher! — Rum berrou, a voz estrangulando-se contra as cordas no próprio peito.

O desespero a engoliu por completo. Ela não tinha mais blefes. Não tinha autoridade. A máscara de policial inabalável caiu por terra, revelando apenas uma mulher exausta, aterrorizada e esmagada pelo peso de seus próprios pecados.

— Então comece a se explicar! — Teth exigiu, apontando o dedo na cara dela, com o lábio superior tremendo. — Como a detetive da cidade se vendeu desse jeito?! Foi dinheiro? Poder? O que a Irene te deu para você fechar os olhos para o assassinato de crianças?!

O silêncio que se seguiu pareceu drenar todo o oxigênio da sala.

Lágrimas grossas transbordaram do olho de Rum, traçando caminhos silenciosos pela pele suja de fuligem. A detetive abaixou a cabeça. Quando finalmente falou, sua voz não carregava o rosnado de autoridade de sempre, mas o sussurro quebrado de alguém que perdeu a própria alma.

— Eu não queria ficar sozinha... — Rum murmurou, as palavras saindo arrastadas pelos soluços entalados.

Vav soltou a gola da camisa da tia devagar. As mãos da garota caíram ao lado do corpo, a raiva fervente dando lugar a uma confusão profunda e gelada. — O quê...?

— Eu estava perdendo todos eles... — Rum soluçou, o controle emocional evaporando de vez. — A minha mãe... o meu pai... os meus irmãos... o Dumpt... a Laeticia... Eu estava enterrando todo mundo que eu amava nesta cidade maldita! Eu não aguentava mais ir a funerais! Eu não aguentava mais o silêncio doentio da nossa casa!

— Mas você ainda tinha a gente! — Vav interveio. A voz quebrou em um choro infantil, e ela caiu de joelhos perto da cadeira. — Você sempre teve a gente, tia! A gente nunca te abandonou!

Rum ergueu o rosto molhado. O olhar que ela lançou para a sobrinha carregava uma dor tão abissal, tão antiga e putrefata, que fez o sangue nas veias de Vav congelar instantaneamente.

— E o que eu deveria ter feito quando vocês morreram?! — Rum gritou. A voz falhou, rasgada por uma histeria reprimida há anos. — O que eu faria para não ficar sozinha?!

O escritório mergulhou em um vácuo absoluto. O som do próprio coração de Teth parecia ensurdecedor.

O garoto franziu a testa. O intelecto genial tropeçou na gramática, tentando processar a frase mal conjugada, buscando a metáfora por trás da histeria do luto.

— "Quando vocês morreram"? — Teth repetiu, devagar, a voz vazia. — Do que você está falando, tia? Nós estamos bem aqui.

Rum balançou a cabeça freneticamente, as lágrimas espirrando para o colo manchado de sangue. Ela apertou os olhos com força, recusando-se a encarar os sobrinhos enquanto a maior atrocidade de sua vida finalmente rastejava para a luz.

— Não... vocês não estão — Rum sussurrou, a confissão doentia envenenando o ar. — Vocês morreram, Teth. Há dois anos. Num acidente de carro na saída leste da cidade. A caminhonete esmagou vocês dois contra o poste. Os paramédicos não conseguiram reanimá-los...

A respiração de Vav falhou. O ar simplesmente se recusou a entrar em seus pulmões. Ela caiu sentada sobre os calcanhares no tapete sujo de sangue. — O que você... O que você está dizendo...? — gaguejou, o horror absoluto deformando seu rosto.

— Eu segurei os corpos de vocês no necrotério! — Rum berrou, a dor da memória dilacerando o presente. — Eu fiz um pacto com o Diabo! A Irene apareceu lá na mesma noite. Ela me disse que o laboratório dela podia consertar o que a morte quebrou. Ela disse que podia trazer vocês de volta para mim... se eu trouxesse corpos frescos e ignorasse o que acontecia na escola. Eu vendi a minha alma e a desta cidade para ter vocês dois vivos, inteiros e respirando na minha casa!

Teth recuou, cambaleando. As pernas de porcelana do capitão do time finalmente cederam. Ele bateu as costas contra a estante de livros de Mamon e escorregou até bater no chão de madeira.

Seu coração estava sendo esmagado por uma prensa invisível. A traição era absoluta, cósmica. A tia que os cobria no frio, que os protegia do mundo ruim lá fora, não era a guardiã deles. Era a carcereira de dois cadáveres ressuscitados.

Eles eram monstros. Eram exatamente a mesma coisa que rosnava na neblina lá fora.

— Mentira... — Vav sussurrou. Ela agarrou os próprios cabelos bicolores em um tique nervoso, balançando a cabeça em uma negação histérica. — Isso é mentira! Como a gente nunca percebeu?! Nós sangramos, nós comemos, nós dormimos! Como a gente seria a mesma coisa que aqueles zumbis lá fora sem saber?!

Rum chorou mais alto, o peso da vergonha dobrando seu pescoço.

— Eu alimentava vocês. Eu misturava o sangue das transfusões do laboratório na comida de vocês... no molho da macarronada, nos sucos... desde aquele dia. A Irene implantou bloqueadores mentais. Ela monitorava vocês na escola para garantir que pudessem ter as vidinhas normais de adolescentes! Para que vocês não sentissem a sede de sangue e perdessem a sanidade como os outros ratos de laboratório!

A fúria de Vav obliterou o choque. A garota saltou como um animal ferido e encurralado, agarrando a cadeira de Rum e sacudindo a tia com uma violência desesperada.

— COMO VOCÊ PÔDE?! — Vav berrou a plenos pulmões. As lágrimas manchavam o rosto, o nojo distorcendo cada traço de sua expressão. — Como você pôde fazer isso com a gente?! Você preferiu nos transformar em cadáveres parasitas do que nos deixar descansar?! E a Let?! Você deixou a escola matar a nossa melhor amiga para manter a porra do seu acordo doente funcionando?!

Rum não tentou se defender. Ela apenas chorou, aceitando passivamente a fúria e o ódio visceral que acabara de desenterrar. O luto retroativo dos adolescentes — chorando a própria morte e a quebra irreparável da confiança familiar — estilhaçou os três no meio do apagão.

Teth, encolhido no chão, esfregou o rosto pálido com as duas mãos trêmulas. O olhar do garoto-prodígio estava vazio, opaco e destroçado. Mas, através da dor paralisante que derretia sua mente, uma única fagulha analítica insistia em queimar: o mistério final da equação.

— O que a Irene queria com isso tudo? — Teth perguntou. A voz saiu morta, oca e sussurrada. O choque havia anestesiado qualquer traço de emoção nela. — Por que criar uma fábrica de ressuscitados em uma escola? O que ela ganha com isso?

Rum puxou o ar trêmulo, tentando controlar os soluços dolorosos para responder ao sobrinho morto-vivo.

— Eu não sei... Eu nunca entendi o quadro todo, Teth. Eu não faço a menor ideia. Ela me deixava fora da logística principal e dos objetivos. Mas...

A detetive engoliu em seco, o olhar vagando apavorado em direção ao teto carmesim do escritório manchado de sangue.

— Sempre que eu a questionava... ou sempre que uma cobaia explodia e dava errado, ela não parecia se importar com a carnificina. Ela só ficava murmurando a mesma ladainha. Ela ficava repetindo algo sobre estar testando a resistência da carne para "criar algo capaz de se igualar e matar um deus". Para mim... para mim, sempre pareceu que a Irene fosse apenas uma cientista eugênica completamente maluca e sádica.

O olhar de Rum desceu de volta para Teth e Vav, agora carregado de um pavor profano e reverente pela arquiteta daquele inferno.

— Mas o problema... é que os experimentos absurdos e sobrenaturais da Irene... sempre davam certo.

Parte 7

A sala de servidores da delegacia era um bunker claustrofóbico, afogado em sombras e iluminado apenas pelo brilho azulado e artificial de uma dúzia de monitores táticos. O zumbido elétrico dos geradores de emergência era o único som constante, enquanto Dante e Kiara operavam a mesa de controle com a pressa e a respiração curta de quem tenta desarmar uma bomba nuclear.

Na tela central, a gravação de segurança da rua da Mansão Lighthart rodava em silêncio.

Eles assistiram à Eliza saindo pela porta da frente, tropeçando em puro pânico. E então, o mundo dentro do monitor distorceu. Uma onda invisível vazou da garota, varrendo o gramado com violência centrífuga, estourando os faróis dos carros estacionados e arremessando a figura esbelta de Anna contra o muro de pedra. Um milissegundo depois, a lente da câmera não aguentou a pressão. O vídeo explodiu em uma tempestade de estática branca, e a tela morreu.

Dante piscou, inclinando-se tanto para frente que seu rosto quase tocou o vidro do monitor. Ele apoiou o peso do corpo nos braços sobre a mesa, ignorando a fisgada na panturrilha.

— Espera aí... — ele murmurou, a voz áspera carregada de uma incredulidade genuína. — O que diabos foi isso? Você está me dizendo que aquela ogiva nuclear de bolso que fritou o cérebro da cidade inteira saiu dela? Da sua irmã?

Kiara cruzou os braços com força. A testa dela estava franzida em uma máscara de choque analítico.

— Tem alguma coisa muito errada. Como a Stella tem tanto Éter assim acumulado? Talvez tenha sido... não sei, um pico de estresse absurdo que...

— Kiara, aquela onda de choque atravessou a metrópole inteira — Dante a cortou, apontando o dedo com força para a tela preta. — Ela desligou a Matrix inteira da Anna, matou os vampiros que estavam mastigando o meu terno na mansão e ainda nos apagou. Isso é denso e pesado demais para uma pessoa normal. Tem algo monumentalmente errado aqui.

Sem esperar resposta, Dante começou a golpear o teclado freneticamente, puxando as imagens do circuito de trânsito dos quarteirões seguintes. Os monitores ao redor piscaram em sequência, iluminando o rosto suado dos dois. A tela da direita focou na Biblioteca Central.

— Ali! — Kiara bateu com a unha no vidro. — A Anna está indo atrás dela? Será que a Stella descobriu a verdade e a Anna foi tentar conter os danos antes de o sistema quebrar?

— Se a Eliza tivesse descoberto a verdade sobre a cidade, ela teria lutado. Ou pelo menos xingado a Anna. Mas olha para a linguagem corporal dela... — Dante estreitou os olhos enquanto a imagem granulada mostrava Eliza correndo desenfreadamente para a rua principal. — Ela está fugindo como se o próprio Diabo estivesse no calcanhar dela.

A câmera da esquina seguinte capturou a continuação do caos. Dezenas de clones de Anna materializaram-se do nada, bloqueando o asfalto. A retaliação foi imediata: outra onda massiva de Éter explodiu de Eliza, obliterando os clones e transformando a imagem em um chiado violento.

— Mas que porra está rolando...? — Dante sussurrou. A marra habitual do Caçador evaporou, substituída por um choque tático puro.

Eles rastrearam o último ponto de acesso: a câmera da zona oeste, apontada para o terreno baldio.

— Olha ela ali. — Kiara curvou-se sobre o teclado. — Ela parou na frente do antigo laboratório. Ou, pelo menos, onde o laboratório deveria estar. Por que o prédio não tem portas nem janelas na gravação?

— É um dos glitches desse mundo... uma falha de renderização da cidade... — Dante respondeu no automático, com o cérebro tentando engolir todas as variáveis de uma vez. — Olha. A verdadeira Anna apareceu.

Eles prenderam a respiração e assistiram à Arquiteta e a Eliza se confrontarem no asfalto molhado. A câmera não captava áudio, mas a linguagem corporal de ambas gritava desespero. Braços balançando, posturas defensivas. E então, o clímax: a explosão final de Éter. O clarão branco foi tão violento que rachou a lente da câmera na vida real antes de apagar a transmissão.

Mas os reflexos paranoicos de Caçador gritaram no ouvido de Dante.

— Volta. Volta a fita, Kiara. Cinco segundos antes da explosão. E dá zoom nela.

Kiara obedeceu sem questionar. Ela rebobinou a imagem quadro a quadro e ampliou o foco no rosto de Eliza no exato milissegundo antes da detonação.

O silêncio na sala de servidores tornou-se espesso e mortal.

Na tela congelada e granulada, o cabelo magenta característico de Eliza havia sumido. Os fios flutuavam em um tom de branco platinado ofuscante. Seus olhos brilhavam com uma luz azul tão radioativa e intensa que parecia perfurar os pixels do monitor. A realidade ao redor da garota não estava apenas sendo empurrada pelo Éter; o asfalto, o ar e a própria geometria da rua estavam sofrendo distorções severas, dobrando-se como papel amassado sob a pressão da gravidade.

— O cabelo ficou branco... Instinto Superior? É sério isso? — Dante murmurou, mas a tentativa de humor saiu trincada, um escudo fino que se quebrou no mesmo instante. O olhar dele estava cravado na tela. — Não resta dúvida. Isso não é o poder oculto da Eliza. A escala está grande demais. É destrutivo, primitivo e denso demais para um humano.

Kiara levou a mão aos lábios, os dentes mordiscando a ponta do dedo em pura ansiedade.

— Nos loops passados... — ela começou, a voz baixa, enquanto as memórias emuladas cruzavam perigosamente com as originais. — A Stella sempre reclamava de Morpheus. Ela dizia que as coisas estavam estranhas. Ela notava furos, glitches na ilusão que nem eu, que já fui fundida com a Arquiteta, conseguia notar de primeira.

— Então ela já vinha escapando da lavagem cerebral da Anna há tempos. Mas como? — Dante girou o pescoço, encarando a garota de cabelos rosados.

— Talvez... com o poder de um Astreus — Kiara teorizou. A mente de líder de facção assumiu o controle, os olhos brilhando com frieza calculista. — É a única coisa que eu consigo imaginar. Só a força bruta de um Astreus bate de frente com o poder absurdo de outro Astreus para conseguir quebrar as regras de uma dimensão fechada.

Dante balançou a cabeça de imediato, refutando a ideia com um gesto de mão.

— Não bate. Não faz sentido, Kiara. Até onde eu vi, eu e a Maysa fomos apagados por essa Matrix sem nem percebermos a transição. A escala de controle do que a Anna fez aqui ultrapassa muito a força de um Avatar normal lutando contra o sistema. E não esqueça: você também foi atingida por essa lavagem cerebral. Você também perdeu as memórias e só as recuperou agora.

— ...Então... talvez a Autoridade da Stella seja o motivo de ela não ser afetada! E se ela for o Avatar da Memória? Isso explicaria por que os pedaços das lembranças dela começaram a voltar sozinhos.

— Impossível — Dante negou peremptoriamente, com tom definitivo. — Eu conversei com a verdadeira Memória na Biblioteca Infinita. A entidade não desceu para o mundo real. Ela não possuiu um corpo e nem parecia ter o menor interesse em ter um. Além disso, se fosse uma fusão com um Astreus, a personalidade da sua irmã teria mudado de forma agressiva. É uma fusão, Kiara. Ela seria uma entidade híbrida. E não é isso que a gente está vendo. A Eliza continua agindo como a Eliza. Assustada, histérica, mas humana.

Kiara franziu a testa, o raciocínio dela acompanhando a lógica impecável dele.

— Tem outro ponto. Se ela fosse um Avatar capaz de superar a Anna, as memórias teriam voltado de uma vez só, como um estalo, e não em fragmentos descontrolados vazando aos poucos.

— Exato. — Dante encostou o quadril na mesa, cruzando os braços e sentindo a dor nas costelas repuxar. — Pensa, Kiara. Tem mais algum comportamento bizarro, fora da curva, que você lembra dela fazendo no mundo real, ou mesmo aqui dentro?

Kiara fechou os olhos, escavando o passado.

— Teve uma vez... que a Stella fez uma chave aparecer na palma da mão dela. Do absoluto nada. E, em outros momentos, coisas pequenas. Ela nunca perdia o horário de algo importante, quase prevendo o relógio. Ela sempre fazia chutes impossíveis sobre o clima que aconteciam na hora. Coisas bobas, que o meu "eu" antigo sempre achou que fosse só... mágica de adolescente supersticiosa ou muita sorte.

Dante paralisou. A respiração dele engatou. Ele inclinou o rosto para frente, a pele empalidecendo na luz azul.

— Espera aí. Que tipo de "mágica"? Coisas brotando do ar? Como se ela estivesse fazendo desejos para o universo e o universo estivesse dizendo "sim" sem cobrar o preço?

— É... bem parecido com isso. Pedidos absurdos que se realizam.

A expressão de Dante ficou macabra. Seus olhos bicolores perderam qualquer traço de luz ou marra. Ele olhou no fundo da alma de Kiara.

— Kiara... você absorveu as memórias da Anna. Logo, você tem as minhas memórias. Você sabe muito bem que a nossa "magia" não é tirar coelho de cartola. O Éter é algo próximo da física quântica. Requer leis, trocas equivalentes, densidade, conversão de matéria e fórmulas estruturais rígidas.

Kiara engoliu em seco. A resposta flutuou em sua mente, desenterrada dos arquivos obscuros do intelecto acadêmico de Anna que ela havia parasitado.

— É... eu sei disso. — A voz dela caiu para um tom de malícia tensa.

— Então você sabe muito bem que coisas bizarras como "magia de desejos" e objetos brotando do nada, sem gasto de energia, não são classificados como manipulação de Éter padrão.

— Não são — Kiara confirmou. O sangue esfriou em suas veias enquanto o conhecimento técnico e sombrio escapava de seus lábios: — Magias impossíveis assim, que cospem na cara da troca equivalente e da física primordial... nos anais mais antigos, elas são chamadas de "Mágica", e não Magia, ou simplesmente Bruxaria. E, apesar de o nome parecer estar na mesma prateleira... elas pertencem estritamente à categoria Anômala.

Os dois ficaram se encarando no breu da sala de servidores. O silêncio era tão espesso que sufocava. A dinâmica ácida de "cão e gato" entre eles havia sido pulverizada pelo peso esmagador daquela dedução.

— Não tem como ser isso — Kiara balançou a cabeça rápido demais, soltando uma risada nervosa e seca que morreu na garganta. — Não pode ser. Bruxaria de verdade? Aquele tipo de conto de fadas sombrio e irracional?

— É verdade — Dante coçou a nuca, rindo sem o menor traço de humor. Um som oco e vazio. — Não é possível. Ou, pelo menos, não deveria ser. Se fosse, seria um poder latente imensurável. Uma mutação bruxa de nível mitológico e ridículo... e tem pouquíssimos tipos de Bruxaria nos registros do mundo que poderiam, teoricamente, arranhar um Astreus. Seria específico demais.

Ele abaixou a mão. O sorriso morreu completamente. O garoto irreverente desapareceu, e o Caçador que travava guerras nas trincheiras contra deuses assumiu o controle.

— Mas, jogando a brincadeira óbvia no lixo agora... — Dante cravou o olhar nela. — Eu também diria que tudo isso é impossível e riria da sua cara se eu mesmo não tivesse me fundido a um maldito Astreus. Se essas entidades absolutas e irracionais realmente existem e ditam as regras deste mundo, Kiara... será mesmo que nós ainda temos a arrogância de bater o pé e dizer o que pode ou não existir no universo?

Kiara abriu a boca para rebater, mas nenhuma palavra saiu. O argumento era uma lâmina afiada demais.

As regras da normalidade haviam sido cremadas há anos. A irmãzinha dela não era apenas uma colegial assustada presa no fogo cruzado de facções; ela era uma anomalia fundamental do universo em estado de erupção.

— De qualquer jeito... — Kiara apertou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos. A liderança feroz e protetora voltou a incendiar seus olhos. — Precisamos ir atrás dela agora. Se ela está liberando uma energia monstruosa que não entende, a minha irmã está num perigo inimaginável. Muito maior do que a gente pensava. Anna é o menor dos problemas dela agora.

— Concordo... — Dante assentiu. Ele pegou a maleta de ferro sobre a mesa com um puxão ríspido.

Ainda sinto que tem algo que eu não estou vendo..., Dante pensou, enquanto o instinto primitivo coçava na base do crânio. Tem um detalhe minúsculo e óbvio que eu estou deixando passar em toda essa equação maldita. E sinto que, quando eu finalmente entender, vai ser tarde demais.

Ele não se atreveu a colocar aquela paranoia em palavras na frente da irmã de Eliza. O terror já era grande o suficiente.

Os dois giraram nos calcanhares e saíram correndo da sala de servidores, cruzando a recepção destruída e voltando para a rua congelante.

O asfalto estava escorregadio, e o silêncio da cidade morta os engoliu de imediato. Eles começaram a correr — ou, no caso de Dante, mancar apressadamente em uma marcha dolorosa — na direção da zona oeste, guiados pela última localização que as câmeras mostraram: o terreno baldio da Arquiteta.

Mas, ao dobrarem a primeira esquina principal, os reflexos de Dante gritaram.

A neblina espessa à frente rodopiou violentamente e se abriu com a precisão de uma cortina de teatro.

Alguém se aproximava a passos curtos, mecânicos e absolutamente silenciosos pela escuridão do asfalto, bloqueando a única rota direta para o laboratório.

Parte 8

A neblina cortou-se ao meio com a precisão de um bisturi.

Dante e Kiara estancaram na esquina. A temperatura do ar despencou, carregando a atmosfera com uma tensão militar e o cheiro metálico, frio e inconfundível de duas presenças que o Caçador conhecia dolorosamente bem.

A quinze metros de distância, caminhando em uma sincronia fantasmagórica sob a luz doente dos postes mortos, estavam Ludmilla e Maysa.

Os ternos pretos e impecáveis das duas pareciam absorver a pouca luz da rua, fundindo-as à escuridão. O silêncio sepulcral da metrópole era interrompido apenas por dois sons rítmicos e aterradores: o baque surdo da marreta colossal de aço maciço de Maysa batendo contra a própria palma da mão, e o chiado suave da lâmina curva e finíssima de Ludmilla cortando o ar enquanto caminhava.

A postura delas não era a de uma equipe de resgate checando um parceiro. Era a postura de abate.

— Olá, Dante — Ludmilla falou. A voz feminina soou macia, educada e letal, flutuando pela neblina sem uma única gota de calor humano. — Parece que você se esqueceu de mandar o seu relatório de hora em hora.

Dante apertou o cabo da machadinha de ferro dentro do paletó, engolindo em seco. A dor nas costelas fraturadas pareceu triplicar, banhada pela adrenalina suja do puro instinto de sobrevivência. O garoto forçou um sorriso torto e marrento no rosto ensanguentado.

— Ei, meninas. Pois é, acabei perdendo a noção do tempo. Tive uns contratempos barulhentos com a Detetive Rum e a Satan no meio da festa...

Maysa, a gigante estoica, apoiou o cabo longo da marreta no ombro. A expressão dela parecia esculpida em mármore cinzento.

— O que você descobriu sobre a Diretora Irene? — a voz grave de Maysa exigiu. — E o que diabos causou aquela explosão de luz? O centro de comando perdeu o sinal de quase todas as armadilhas na zona sul.

Dante começou a dar passos curtos e circulares, manobrando o próprio peso para esconder a perna machucada. O cérebro dele girava a mil por hora, fabricando uma mentira tática que mantivesse o disfarce intacto.

— É uma longa história, chefia. Uma anomalia cruzou a linha de frente lá na mansão. Tive que improvisar. A missão só ficou... mais complicada que o planejado.

Kiara franziu a testa. O instinto de guerreira dela apitava loucamente. Ela cruzou os braços, mantendo a guarda alta e os pés firmes no asfalto molhado.

— Dante, o que diabos está rolando aqui? — Kiara sussurrou de canto de boca. — Por que as suas colegas de trabalho estão olhando para a gente como se fôssemos gado marcado para o matadouro?

Dante não virou o rosto para ela. Ele manteve os olhos bicolores cravados nas lâminas e nos olhares vazios das assassinas.

— Ei, Ludmilla... vocês não vão mesmo levar aquela regra ao pé da letra, vão?

Ludmilla inclinou a cabeça levemente, os cabelos curtos e escuros caindo como uma cortina sobre um dos olhos. O sorriso que se formou nos lábios dela era puramente burocrático e assustador.

— Que regra, Dante? Ah, você se refere ao Protocolo 4? O protocolo que exige que, se um operador perder o contato na zona inimiga sem enviar relatório visual, devemos considerar o parceiro como um infectado pelos vampiros, um desertor, ou uma anomalia comprometida?

Dante soltou uma risada rascante pelo nariz, mas os nós de seus dedos estavam brancos ao redor do cabo da machadinha.

— Sério mesmo? É só que a minha missão... vocês sabem, a poeira não baixou, não deu tempo de...

Naquele exato milissegundo, as engrenagens na cabeça de Kiara travaram. O sangue dela esfriou. Dante não estava lidando com colegas de firma; ele estava lidando com máquinas de execução de um esquadrão fanático, amarradas a regras absolutas que ele acabara de quebrar.

Ludmilla ergueu a ponta da lâmina fina à altura dos olhos.

— Eu poderia até tentar acreditar na sua desculpa esfarrapada, Dante. Mas olha só a situação. Você não só deixou de mandar a sua posição, como também abandonou os alvos de investigação... e pior: você acaba de deixar informações internas e sensíveis vazarem na frente de uma suspeita civil não autorizada.

A lâmina escura da assassina apontou diretamente para o centro do rosto de Kiara.

— Teremos que levar você, e a Presidente do Conselho, para as masmorras de interrogatório do QG. Agora mesmo — Ludmilla decretou, o tom polido selando o destino da dupla em correntes e tortura inquisitória.

Dante soltou uma gargalhada alta, seca e genuinamente irritada. Ele passou a mão livre nos cabelos empastados de suor e sangue.

— Até parece que vocês dariam outra escolha mesmo se eu não tivesse aberto a boca! Desde o primeiro dia na porra dessa facção... quando você decide alguma coisa, Ludmilla, você não muda de ideia nem que os céus caiam!

— Que bom que você sabe disso — Ludmilla respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção humana, dando o primeiro passo macio e predatório em direção a eles.

Maysa desceu a marreta do ombro. O impacto da cabeça de aço contra o asfalto molhado soou como um tiro e trincou o chão. A gigante começou a marchar em direção a Kiara.

O cérebro tático de Dante fechou o cerco. Droga. Eles estavam sem Éter. Sem magia. Sem regeneração. Se fossem capturados agora, o jogo acabaria. Perderiam dias preciosos sangrando em uma masmorra escondida, enquanto a verdadeira Arquiteta brincava de deusa com a mente de Eliza lá fora.

A única escolha lógica, tática e completamente insana era lutar e escapar.

— SEPARA! — Dante berrou a plenos pulmões.

Sem pensar duas vezes, Kiara obedeceu ao comando de batalha. A garota saltou para a esquerda em um arco atlético e desesperado, escapando por um triz do primeiro balanço monstruoso da marreta de Maysa. A arma estilhaçou o poste de luz de concreto onde Kiara estava parada um milésimo de segundo antes, chovendo faíscas sobre as duas. A gigante e a garota entraram imediatamente em uma dança brutal de combate corpo a corpo na neblina.

Dante não ficou para assistir. Ele forçou a perna rasgada, engolindo os nervos gritando de dor, deu as costas para Ludmilla e disparou como um dardo de volta para as portas estilhaçadas da delegacia que acabara de invadir.

Ele ouviu o zumbido fino e agudo do aço rasgando o ar a centímetros de sua nuca.

Ludmilla não estava ali para capturar; ela estava ali para fatiar. Dante jogou o peso do corpo para o lado, derrapou no asfalto molhado e correu pela própria vida.

— Maldita! Achei que tinha vindo me prender, não me matar! — ele gritou por cima do ombro.

— Se eu não for com intenção de matar, eu sei que não vou conseguir te capturar! — a voz de Ludmilla respondeu, perigosamente perto e inabalável.

— Frase maldita! — Dante rosnou.

O Caçador mergulhou de cabeça para dentro da recepção escura da delegacia, o ombro arruinado colidindo contra o chão coberto de cacos de vidro da porta. Ignorando as novas lacerações, ele rolou e jogou-se para a segurança precária debaixo da pesada bancada blindada dos plantonistas.

A primeira regra de combate contra Ludmilla era a ditadura da distância. A assassina não lutava com espadas longas; o estilo de infiltração dela exigia contato letal a menos de um metro. No momento em que ela entrasse em sua guarda, Dante estaria fatiado em seis pedaços rindo do próprio sangue antes que pudesse piscar.

Ele tateou freneticamente sob a bancada da recepção no escuro. As mãos dele procuravam qualquer traço do arsenal confiscado da polícia. Dedos sujos esbarraram no metal frio de algemas vazias, no plástico rígido de cassetetes caídos, até que agarraram algo metálico, longo e ridiculamente pesado preso sob a mesa.

Dante puxou a arma para a fraca luz da lua que vazava pelas janelas arrebentadas.

Ele praguejou mentalmente, a frustração quase o fazendo rir.

Das dezenas de espingardas táticas de calibre doze ou submetralhadoras de combate a curta distância que a polícia de Morpheus deveria ter ali... ele havia puxado a porra de um fuzil de precisão modificado. Um rifle sniper de ferrolho manual com uma luneta de alta magnificação.

Teoricamente, seria a arma de fogo divina e perfeita para um assassinato limpo e absoluto. Um tiro perfurante no crânio a duzentos metros de distância.

A prática ali, no entanto, era uma piada cósmica de muito mau gosto.

A recepção de uma delegacia civil — entupida de corredores apertados, portas duplas de madeira, colunas de concreto e janelas gradeadas — limitava as linhas de visão a dez, talvez vinte metros no máximo. Usar uma sniper pesada e lenta dentro de cubículos apertados contra uma assassina especialista em combate corpo a corpo era a definição literária de suicídio com estilo. Ele mal teria tempo de levantar o cano da arma antes que Ludmilla decepasse suas duas mãos.

Um passo aveludado e macio esmagou um caco de vidro na entrada da delegacia.

— Se escondendo num espaço apertado e sem rota de fuga limpa, Dante? — A voz mansa de Ludmilla ecoou suavemente pelo corredor principal. A sombra delgada dela, segurando a lâmina, projetou-se na parede manchada perto da recepção. — Eu achei que os atiradores preferissem o alto da colina e a visão panorâmica. Tsc, tsc. Que decepcionante.

Com as costas grudadas no assoalho, Dante destravou a segurança do fuzil pesado. O clique metálico ressoou absurdamente alto no escuro, entregando sua posição. A respiração dele estava presa na garganta; a enxaqueca latejava no ritmo do próprio coração.

Eu vou ter que usar a maldita arquitetura desse lugar a meu favor, Dante pensou, cravando os dentes para sufocar o chiado de dor nas costelas. Portas como gargalos. Corredores cegos. Tiro cego através de parede de drywall. É tudo ou nada.

Lá fora, o som de concreto sendo esmagado pela marreta de Maysa misturava-se ao eco sombrio da neblina.

A guerra fria de inteligência espacial e sobrevivência tática dentro dos escombros do departamento de polícia estava prestes a banhar o chão com o sangue do perdedor.

Parte 9

Do lado de fora da delegacia, a neblina espessa não apenas se dissipou; ela foi violentamente rasgada por uma onda de pressão.

Maysa estava parada no centro da rua, os olhos escuros e predatórios cravados em Kiara. A gigante de terno preto analisou a garota por um segundo antes de soltar um suspiro longo, pesado e genuinamente entediado. Com um movimento displicente de pulso que zombava da gravidade, Maysa arremessou sua marreta colossal.

A arma de aço maciço girou no ar com um assobio cortante e colidiu contra a lataria de um carro capotado. O veículo afundou no asfalto com um guincho agoniante de metal retorcido, dobrando-se ao meio sob o peso absurdo.

— Você é ágil demais para a marreta... — Maysa murmurou. A voz arrastada e apática contrastava com o som perturbador de seus nós dos dedos estalando, um por um.

De repente, a musculatura sob o terno preto pareceu ferver. As costuras dos ombros e das costas estouraram em uníssono, cuspindo farrapos de tecido negro. O ar ao redor da assassina começou a tremeluzir como o asfalto em um dia de calor extremo — puro Éter bruto vazando de seus poros, distorcendo a luz ao seu redor.

— Vamos fazer isso com as próprias mãos.

Kiara não recuou um único milímetro. Em vez disso, ela expirou lentamente, esvaziando os pulmões para focar a mente. Ergueu os punhos na altura dos supercílios, colou os cotovelos nas costelas para blindar o tronco e afundou o queixo. Seus pés iniciaram uma leve dança rítmica no chão: a base impenetrável de uma Nak Muay veterana.

Maysa não caminhou para a frente. O asfalto sob seus sapatos sociais explodiu em uma teia de aranha de rachaduras, e ela simplesmente desapareceu.

A velocidade da gigante era uma aberração biomecânica. Em um piscar de olhos, ela cruzou os dez metros em um salto rasante, como um míssil de carne e osso. Ela não mirou o rosto de Kiara; Maysa projetou o ombro e disparou um gancho de direita focado no espaço vazio atrás do pescoço da garota. A intenção não era nocautear; era decapitar.

Tentar bloquear aquilo seria suicídio. Lendo o balanço dos ombros da gigante uma fração de segundo antes do impacto, Kiara pivotou o calcanhar esquerdo e inclinou o tronco para trás em um arco quase impossível.

O punho de Maysa passou rasgando a milímetros do nariz de Kiara. O vácuo gerado pelo soco foi tão violento que cortou a pele da bochecha da garota, espirrando uma gota de sangue no ar. O golpe colossal encontrou o muro de concreto logo atrás.

Um estrondo ensurdecedor engoliu a rua. O impacto abriu uma cratera, enviando uma chuva densa de poeira e estilhaços de cimento para todos os lados.

Era a brecha perfeita. O braço de Maysa estava estendido, enterrado no muro.

Sem perder o equilíbrio, Kiara usou o efeito elástico do próprio tronco para voltar como uma mola. Ela mergulhou por baixo da guarda aberta da gigante, usando a nuvem de poeira como cortina. O quadril girou. Crack! Um chute baixo em formato de chicote — a canela dura como um taco de beisebol — afundou exatamente no nervo da perna de apoio de Maysa.

A perna da gigante cedeu um palmo, forçando seu centro de gravidade para baixo.

Aproveitando o desequilíbrio, Kiara apoiou a ponta da bota no joelho dobrado da assassina, usando-o como degrau. No ar, ela disparou um jab duplo veloz, não para machucar, mas varrendo os olhos de Maysa para cegá-la. Antes que a gigante pudesse piscar, Kiara usou o impulso da subida para rotacionar o corpo inteiro. Toda a energia cinética acumulada desceu em um cotovelo giratório, cravando-se como um machado de açougueiro direto no maxilar exposto.

BAM!

O impacto seco soou como um tiro. A força foi tanta que Kiara aterrissou agachada, derrapando a bota para trás para frear o próprio ímpeto. O cérebro de qualquer humano teria chacoalhado contra o crânio, resultando em coma imediato.

O silêncio reinou por dois batimentos cardíacos enquanto a poeira baixava.

Lentamente, cuspindo nas leis da física, Maysa girou o pescoço de volta. Houve um estalo úmido e grotesco em sua coluna cervical. O cotovelo perfeito de Kiara mal havia deslocado o maxilar da monstra.

Sob os faróis dos carros abandonados, Ela não estava machucada; o Éter tremeluzente agora pulsava com violência. Ela estava se alimentando do próprio dano.

Maysa olhou para baixo, limpou um filete de sangue do canto da boca e abriu um sorriso predatório de orelha a orelha.

— Fraquinho.

Kiara observou a monstruosidade biológica pulsar. O natural seria recuar; o lógico seria entrar em pânico. Mas, sentindo o gosto férreo de sangue na boca e a adrenalina incendiando suas veias, os lábios da garota se curvaram.

— Acho que você vai ser uma boa parceira de treino.

O inferno começou. Maysa deixou de ser uma lutadora e tornou-se um maquinário de destruição desgovernado.

Uma tempestade de ganchos e diretos rasgava o oxigênio com assobios agudos. Kiara não tentou parar a força bruta de frente — seus ossos virariam farinha. Em vez disso, ela apostou na precisão cirúrgica. Usando as palmas das mãos e os antebraços, realizava parries milimétricos, desviando a trajetória dos punhos colossais para os lados, deixando que os golpes afundassem na lataria dos carros e estilhaçassem a rua.

Mesmo assim, a energia cinética vazava pela defesa. Cada raspão era uma onda de choque que reverberava pelos músculos de Kiara. O som de impacto abafado lembrava madeira úmida prestes a partir. Encurralada passo a passo contra a carcaça de um ônibus, ela precisava de espaço.

Kiara leu o ritmo da gigante: três diretos, uma pausa imperceptível, um cruzado. Naquela fração de segundo de respiro, Kiara fingiu um chute frontal, pivotou o pé de apoio e disparou um question mark kick traiçoeiro, mirando a têmpora de Maysa.

Foi o gatilho perfeito — a armadilha que a anomalia esperava.

Maysa não esquivou; ela avançou contra o chute. Com uma agilidade que desafiava sua massa, a assassina absorveu o impacto do osso direto na lateral do pescoço sem piscar e, simultaneamente, agarrou a perna estendida de Kiara em pleno ar.

O mundo de Kiara girou. Usando a perna capturada como alavanca, Maysa saltou, arrastando a garota junto. No ápice da subida, a gigante entrelaçou as próprias pernas ao redor do braço e do pescoço de Kiara em uma chave voadora grotescamente complexa — um estrangulamento triangular mesclado com uma guilhotina.

Gravidade, massa colossal e força centrífuga agiram juntas. Maysa torceu o eixo do corpo no ar, convertendo as duas em um meteoro em queda livre. Ela cravou Kiara de cabeça no asfalto. Era uma adaptação biomecânica brutal, desenhada para fraturar a coluna cervical e esmagar o crânio no mesmo instante.

CRACK!

O asfalto cedeu, afundando em uma cratera pálida. Kiara soltou um grito rasgado e estrangulado. O oxigênio abandonou seus pulmões em uma lufada violenta, e suas costelas protestaram com um estalo nauseante sob o peso esmagador da assassina.

Lentamente, Maysa desenrolou seus membros do corpo inerte da garota. Ela se levantou, batendo a poeira invisível dos ombros, e olhou para baixo com desprezo apático. Nenhuma estrutura óssea humana suportaria aquela transferência direta de energia. O combate havia terminado.

Mas Kiara era uma anomalia por si só. Em Morpheus, sem uma única gota de Éter para costurar seus ferimentos, ela dependia cem por cento da falha maravilhosa da biologia chamada adrenalina, que calava o pânico dos nervos. Mais do que isso: a chama que queimava no peito dela era a teimosia ancestral de uma rainha que preferia ter os joelhos amputados a curvar a cabeça diante de uma força bruta e oca.

O corpo estava quebrado, mas a vontade ordenou que ele se movesse.

Os dedos ensanguentados e trêmulos de Kiara se cravaram nas bordas das rachaduras do asfalto. Tossindo um fluxo grosso de sangue escuro, ela plantou a sola da bota no chão. A gravidade parecia esmagadora, mas ela empurrou contra o concreto e forçou o próprio corpo a se erguer.

O supercílio direito estava rasgado até o osso, uma cortina vermelha cobrindo metade de sua visão. O braço esquerdo pendia dormente, inútil ao lado do flanco. Cada respiração era uma agonia dilacerante.

Os olhos escuros de Maysa se arregalaram. A apatia finalmente estilhaçou-se, dando lugar a uma incredulidade crua.

— Por que você não fica no chão? — a voz da gigante falhou. — O seu corpo já quebrou.

Lutando para manter o pescoço erguido, Kiara cuspiu um coágulo no asfalto. Através da máscara de sangue, seus lábios se curvaram em um sorriso sádico que exalava uma arrogância imaculada. Lentamente, ela ergueu o punho direito, restaurando a guarda alta com um único braço.

— Talvez... — a voz de Kiara saiu rouca, borbulhando na garganta — seja porque você nem bate tão forte assim. Acho que dá até para aguentar um pouco mais.

O insulto foi a faísca em um barril de pólvora.

Maysa soltou um rugido gutural que fez a lataria dos carros vibrar. A técnica e a frieza foram incineradas pelo puro instinto assassino. Ela avançou como um trem descarrilado, puxando o punho direito para trás até os tendões do ombro estalarem. Era um golpe de obliteração, desenhado para atravessar o esterno de Kiara e arrancar seu coração.

Era exatamente o erro crasso que a mente tática da Nak Muay esperava.

Com o braço esquerdo pendendo inútil, Kiara não tinha o luxo de recuar. Ela mergulhou direto no olho do furacão: um bob and weave milimétrico. Ela deslizou o tronco para a esquerda e para baixo, invadindo a guarda da gigante de forma quase suicida. O soco de Maysa passou raspando pelo ouvido de Kiara, a pressão do ar estalando como um chicote.

O braço de Maysa estava estendido. O flanco, totalmente exposto. O tempo parou.

A retaliação de Kiara começou como uma avalanche. Primeiro, a fundação: ela girou o quadril e desferiu um Low Kick perfeitamente angulado na parte interna da coxa de Maysa. O som foi o de madeira rachando. O músculo da perna de apoio da gigante sofreu um espasmo violento, desestabilizando toda a sua base colossal.

Enquanto a assassina vacilava para a frente, Kiara usou o único braço bom. A mão direita disparou como uma víbora, enlaçando a nuca taurina de Maysa em um meio-Plum — a variação letal de uma mão do clinch tailandês.

Cravando a bota no asfalto, Kiara usou a força do abdômen para puxar a cabeça de Maysa para baixo com uma alavanca brutal, de encontro ao próprio joelho direito que subia como um bate-estaca hidráulico.

BAM!

Direto na costela flutuante, afundando até o fígado. Não importa quanta musculatura envolva um corpo; o fígado não tem proteção óssea. O impacto causou um blecaute instantâneo no sistema nervoso da gigante. Os olhos de Maysa quase saltaram das órbitas, a boca escancarada em um engasgo de pura agonia, os joelhos fraquejando.

Kiara não deu trégua. A exaustão rasgava seus pulmões, mas ela converteu a dor em violência. Sem soltar a nuca da inimiga, impulsionou o próprio corpo para o alto e desferiu um joelho voador curto.

CRACK! A cartilagem e o osso nasal de Maysa esfacelaram-se contra a patela de Kiara. Uma explosão de sangue escuro pintou a neblina.

A gigante cambaleou para trás. Kiara soltou o pescoço dela, usou o ímpeto da aterrissagem e transicionou para a postura fluida do Tigre Rei. Aproveitando o atordoamento, disparou a base da palma da mão — o Teishō — em um gancho ascendente devastador sob o queixo de Maysa.

Os dentes da gigante se chocaram com violência. No mesmo fluxo predatório, os dedos de Kiara se curvaram em uma "garra de tigre", rasgando a pele do peito da assassina em um arco brutal de cima para baixo. A dor aguda forçou Maysa, em um último reflexo turvo, a erguer os braços trêmulos para proteger o rosto arruinado.

A têmpora ficou completamente desprotegida. A sentença de morte estava assinada.

Kiara sugou a última gota de oxigênio de suas células em chamas. Ela soltou o peso do corpo, pivotou o pé de apoio em perfeitos 180 graus e arremessou o braço direito, girando o quadril para gerar um torque absurdo.

O cotovelo giratório (Sok Klab), afiado como a lâmina de uma guilhotina, cortou o ar com um assobio sibilante. A ponta do osso cravou-se com precisão micrométrica no "botão de desligar" da cabeça de Maysa.

O som do impacto foi oco. Definitivo.

O choque no nervo craniano causou um curto-circuito no sistema central da monstra. O Éter distorcido que emanava de Maysa piscou e evaporou no ar. Os olhos da assassina viraram para trás, revelando apenas o branco.

A gigante desabou para a frente, colidindo contra o asfalto com o baque surdo de uma árvore ancestral sendo derrubada. Seus ombros ainda tremeram em um espasmo residual inútil, mas as sinapses haviam sido cortadas. Imóvel. Inconsciente.

Na rua destruída, sob a luz fraca dos postes, Kiara permaneceu de pé.

A adrenalina começou a recuar, cobrando a conta com juros extorsivos. O corpo inteiro de Kiara tremia. Sangue pingava de seu rosto e dos nós dos dedos em carne viva para o chão. A exaustão a puxava, e cada osso de seu tronco parecia estar esmagado por um torno de ferro.

Mas ela havia vencido. A técnica e o puro ódio haviam derrubado a anomalia.

Ofegante, o peito subindo e descendo de forma errática, Kiara apoiou a única mão boa no joelho direito.

— Da próxima vez... — ela sussurrou para a montanha de músculos caída, a voz cortada por uma risada fraca que fez o sangue borbulhar em seus lábios — ...aprende a chutar, sua peituda burra.

Foi um milagre anatômico, mas o tempo não perdoava. Kiara não podia se dar ao luxo de desmaiar. Rangendo os dentes contra a dor torturante, forçou a coluna a se endireitar e ergueu o rosto banhado em sangue na direção da delegacia.

Do lado de dentro das paredes de concreto, ecos rápidos e ocos de disparos de fuzil começaram a rasgar o silêncio da escuridão. O combate dela havia terminado, mas o pesadelo tático de Dante estava apenas começando.

Parte 10 

A sombra de Ludmilla alongou-se como óleo negro derramado pela parede da recepção, projetada pela luz bruxuleante da rua. O som de seus passos era inexistente; não era apenas silêncio: era uma técnica de assassinato polida até corroer a própria realidade. Ela estava a menos de dez metros do balcão onde Dante se escondia.

Dante prendeu a respiração. O coração batia pesado contra as costelas fraturadas. Seus dedos apertaram a empunhadura do rifle sniper. A luneta ali era um peso morto inútil. Aquela distância não era para franco-atiradores; era um abraço íntimo com a morte.

Quando a ponta impecável do sapato social de Ludmilla cruzou a linha imaginária do balcão, Dante não cometeu o erro primário de tentar mirar nela. A velocidade da assassina tornaria qualquer rastreio impossível. Em vez disso, ele girou o cano pesado noventa graus para o alto e esmagou o gatilho duas vezes.

BAM! BAM!

O estrondo do calibre militar detonando no espaço confinado foi apocalíptico. A pressão do ar estalou os ouvidos de Dante. As balas rasgaram o teto, estilhaçando as duas únicas lâmpadas do gerador de emergência. Uma chuva torrencial de faíscas elétricas e vidro moído despencou sobre a recepção, e o ambiente foi engolido por um breu absoluto.

A escuridão era o manto do Caçador. Sem hesitar um milissegundo, aproveitando o choque visual, Dante usou a coronha de polímero do rifle como aríete. Ele estilhaçou o resto da janela lateral e atirou-se em um mergulho cego para o beco nos fundos da delegacia.

O ar gélido da madrugada o atingiu como um soco. Uma garoa fina e cortante havia começado a cair, misturando-se à neblina de Morpheus e transformando o beco em um túnel cinzento, escorregadio e claustrofóbico.

Dante não olhou para trás. Ele correu mancando pesadamente, o sangue escorrendo pela perna. Ele precisava de verticalidade; o chão era o domínio da lâmina dela. Encontrando a escada de incêndio enferrujada do prédio adjacente, içou o próprio peso com um grunhido, ignorando as costelas que rangiam de agonia a cada degrau escalado.

Ele alcançou o telhado plano. A chuva grudava seus cabelos bicolores no rosto pálido. O cenário era o pesadelo de qualquer atirador: visibilidade quase nula, vento cruzado e um alvo que se movia mais rápido que o som.

Um leve tilintar metálico ecoou do beco lá embaixo. Um aviso gélido: Ludmilla não estava apenas seguindo o rastro dele; ela o estava pastoreando.

Dante correu agachado até a beirada oposta. Jogou-se de bruços no asfalto molhado e desdobrou o bipé do rifle, apoiando-o na mureta. Pela luneta infravermelha, esquadrinhou a escuridão lá embaixo.

Nada. Nenhuma assinatura de calor. Ela era um vácuo absoluto.

Mas Dante conhecia a geometria da morte. No fim daquele corredor de tijolos, pendurado em um poste, havia um espelho de trânsito convexo.

A mente do Caçador trabalhou em overdrive. A matemática de balística pura substituiu o Éter que lhe faltava. Ele não podia ver Ludmilla, mas a lógica ditava que ela avançava rente à parede leste, no ponto cego do telhado.

Ele cravou a cruz da luneta diretamente no centro do espelho convexo a trinta metros de distância. Exalou lentamente. Puxada leve. Quebra.

BAM!

O dardo de fogo fendeu a chuva. A bala de tungstênio colidiu contra a borda de vidro e aço do espelho e, em um ricochete estupidamente improvável, desviou sua rota em exatos oitenta e cinco graus. O projétil disparou como um míssil teleguiado direto para o ponto cego da parede leste.

O som de aço superaquecido trincando contra metal frio ecoou pelo beco como um sino.

Pela luneta, Dante viu uma coroa de faíscas laranja iluminar a chuva por um microssegundo. O coração dele afundou. Ludmilla não havia sido atingida.

Mesmo sem Éter ativo, os instintos da assassina gritaram. Com um giro de pulso impossível, ela havia usado a lâmina como um escudo angular, desviando a bala ricocheteada a escassos centímetros do próprio olho.

— Tá de brincadeira comigo... — Dante sibilou, o pânico tático arranhando sua mente metódica.

Antes que ele pudesse ejetar a cápsula vazia, um estrondo surdo tremeu o telhado. A porta de acesso atrás dele explodiu em uma nuvem de farpas de madeira. Ludmilla não havia subido pela escada de incêndio; ela havia escalado pelo fosso do elevador com as mãos nuas.

A assassina irrompeu da fumaça. Não era uma corrida; era o deslizar de uma pantera-negra na chuva.

Dante abandonou o bipé e rolou freneticamente. O primeiro corte horizontal de Ludmilla rasgou o ar onde o pescoço de Dante estava, decepando a quina da mureta como se fosse manteiga quente.

Ele se ergueu de um salto desajeitado, segurando o rifle pelo meio do cano superaquecido, empunhando a arma como um bastão improvisado. Estava encurralado na beirada. Lutar corpo a corpo com uma sniper era assinar a própria sentença, mas morrer com um buraco nas costas era indigno.

Ludmilla não perdeu o ritmo. Com um giro fluido, desferiu uma estocada direta no esterno do Caçador. Dante girou o quadril em desespero, usando a coronha larga como escudo.

CLANG! A lâmina colidiu contra o polímero duro. O impacto fez os ossos dos antebraços de Dante vibrarem até os ombros.

Em um reflexo cru de sobrevivência, ele deixou a lâmina deslizar pela coronha e rotacionou o rifle inteiro em um eixo rápido, acertando a base de metal pesado diretamente nas costelas de Ludmilla, como um taco de beisebol.

A assassina apenas piscou. O baque surdo mal a fez vacilar. Com uma rotação absurda dos dedos, ela girou a lâmina no ar e contra-atacou instantaneamente com dois cortes rápidos demais para os olhos acompanharem.

Dante defendeu o primeiro com o ferrolho, mas o segundo foi perfeito. A ponta da lâmina rasgou seu antebraço esquerdo, espirrando sangue na chuva.

Dante rosnou. Pivotou o pé ensanguentado e, canalizando toda a força restante, lançou um Teep — um chute frontal rápido —, cravando a sola da bota no estômago de Ludmilla. A força explosiva a empurrou um metro para trás.

Um metro. A distância mínima letal. Era tudo o que ele precisava.

Em um movimento contínuo de pura maestria, Dante travou a coronha contra o ombro bom, deslizou o ferrolho ejetando a cápsula vazia, engatilhou a arma e cravou a mira no centro do peito de Ludmilla.

A distância era de três metros. O projétil viajaria a mais de oitocentos metros por segundo. Era impossível errar.

BAM!

O que aconteceu a seguir violou as leis da física e congelou o sangue de Dante nas veias.

Ludmilla não tentou desviar. Os olhos frios da assassina travaram na boca do cano. A mão dela tornou-se um borrão imperceptível. Um arco prateado puro rasgou a chuva e o estrondo sônico.

ZIIIING!

Um chiado metálico agudíssimo estourou o tímpano de Dante. Uma explosão de faíscas brancas cegou a neblina. A bala de grosso calibre colidiu contra o fio da espada de Ludmilla, perfeitamente alinhado.

O projétil foi cirurgicamente partido ao meio em pleno ar. As duas metades de chumbo derretido passaram assobiando a milímetros dos ombros da mulher.

Dante não teve tempo de processar o absurdo. A inércia do corte de Ludmilla não parou; ela emendou um giro acrobático. O calcanhar da assassina atingiu o centro do peito de Dante com a força de um coice de cavalo.

O ar abandonou os pulmões do Caçador. Ele foi ejetado do chão, voando de costas até colidir de forma catastrófica contra a chaminé de ventilação do prédio.

Crack. Crack. Duas costelas cederam sob o impacto esmagador.

Dante desabou de bruços. Tossiu um jato de sangue puro. A visão escureceu pelas bordas. O rifle escorregou de seus dedos dormentes, parando inutilmente longe demais. O limite biomecânico do corpo humano havia chegado.

Pela névoa e pela dor, ele viu Ludmilla caminhar devagar. A lâmina apontada para baixo, banhada pela chuva, pronta para a execução.

Dante rosnou, babando sangue. Arrancou forças do nada, tateando o asfalto até agarrar a alça do ferrolho do rifle caído e puxar o corpo em sua direção. Clique. Um único e solitário projétil restava no carregador.

A assassina parou. Exatos três passos de distância.

O desespero apertou sua garganta. Ele ia morrer ali. Fatiado por um erro de protocolo de uma falsa realidade. Sem Éter. Reduzido a carne frágil.

E então... do fundo do abismo escuro de sua mente fragmentada, a voz andrógina do Astreus ecoou por suas sinapses moribundas:

"Entenda que, no meu domínio, memórias não são apenas arquivos mortos. Elas possuem massa, densidade, gravidade... Memórias são poder."

Os olhos bicolores de Dante se arregalaram.

Massa. Densidade.

Em Morpheus, memórias eram matéria orgânica. Ele não tinha Éter. Mas tinha uma represa monumental de lembranças esmagadas, seladas sob pressão dentro de sua cabeça. Todo o trauma bruto de milhares de loops temporais. Toda a carga cognitiva que ameaçara partir sua alma ao meio.

Ludmilla, silenciosa como o túmulo que lhe daria, ergueu a lâmina brilhante acima da cabeça para o golpe de misericórdia.

Dante parou de tremer. Ele fechou os olhos.

Se memórias eram massa... ele iria usar todo aquele trauma acumulado como pólvora.

Parte 11

O som da chuva martelando o telhado pareceu silenciar. O tempo tornou-se espesso. Ludmilla descia a lâmina letal em direção ao pescoço dele com a força inabalável de uma guilhotina.

"Memórias são poder. Elas possuem massa, densidade, gravidade."

Dante não tinha Éter, mas tinha uma alma fraturada e superlotada. Encurralado na beira do abismo da própria morte, ele apertou os olhos bicolores. Ele não tentou puxar energia do ambiente estéril; ele mergulhou para dentro.

Ele forçou a própria consciência a despencar no poço escuro de sua mente, atravessando as falsas vidas felizes de Morpheus, ignorando as lembranças do Tribunal e da Cidade de Cristal, cavando freneticamente até atingir o estrato mais profundo, selado e obscuro de seu ser.

Ele bateu contra uma parede mental maciça e, com a força do puro e primitivo instinto de sobrevivência, estilhaçou-a.

O frio cortante da chuva desapareceu.

Uma lufada de ar quente, sufocante e opressor o atingiu no rosto. O cheiro não era mais de asfalto molhado e sangue metálico; era o aroma rústico, denso e fuliginoso de carvão em brasa, suor e ferro derretido.

Dante abriu os olhos dentro da lembrança. Ele não estava no controle do corpo; era apenas um passageiro fantasma, preso na primeira fila de sua própria mente.

O cenário era uma forja imensa e antiga, iluminada apenas pelas chamas alaranjadas e violentas da fornalha. Diante de uma bigorna pesada e gasta, um garoto martelava uma peça de aço incandescente com golpes rítmicos, musculares e de precisão assustadora.

Dante tentou reconhecer a si mesmo no reflexo turvo de um escudo próximo, mas o choque o paralisou. Aquele garoto não tinha as mechas vermelhas caóticas nem os olhos bicolores marcantes. Seus cabelos eram de um preto absoluto, caindo empastados de suor sobre o rosto, e os olhos eram de um marrom comum, profundo e focado. Os braços fortes, protegidos por um avental de couro rústico, eram um mapa de antigas cicatrizes de queimaduras de forja e lâminas.

Ele era fisicamente um completo estranho, mas, de uma forma aterrorizante e instintiva, Dante sabia: a alma pulsando ali dentro era inegavelmente a sua.

— Estas serão as minhas XV Caliber — o garoto de cabelos pretos murmurou. A voz soou rouca, cansada e exalava um orgulho genuíno enquanto ele erguia um par de luvas metálicas negras, recém-forjadas e perfeitamente articuladas. — Elas vão dar um upgrade absoluto nas armas do resto da Horizon. É o catalisador perfeito para criar armamentos ainda mais fortes.

A menção casual do nome "Horizon" fez o estômago do Dante-passageiro despencar em queda livre. Como assim, Horizon? Que merda está acontecendo aqui... diga-me que isso não é um futuro alternativo infernal!

O som de passos leves e arrastados interrompeu o chiado da fornalha.

Dante sentiu o coração do garoto no qual habitava acelerar sutilmente. Uma garota pisou na luz tremeluzente das chamas. Os cabelos brancos caíam desgrenhados sobre os ombros miúdos, e olheiras profundas e arroxeadas manchavam o rosto pálido.

Dante quase engasgou em sua própria mente. Era uma cópia exata, milimetricamente perfeita, de Kali. A mesma feição gélida, o mesmo olhar cortante de indiferença. No entanto... faltava a aura mítica. Faltavam os chifres imponentes e as escamas. Tudo o que a marcava como um membro do Clã dos Dragões havia sido apagado. A garota parada na frente da fornalha era, sem sombra de dúvida, puramente humana.

XV Caliber? — a garota cruzou os braços finos, a expressão morta de tédio. — É um nome bem idiota. Parecido demais com a Excalibur que você forjou para o Gabriel na semana passada. Você tem algum bloqueio criativo?

O garoto deu de ombros e sorriu de lado, limpando a fuligem da testa com as costas da mão. — Eu sou péssimo com nomes, o que eu posso fazer? Mas o nome não importa. O mínimo que eu exijo de mim mesmo é que as minhas criações sejam estilosas.

A garota revirou os olhos, mas um traço minúsculo, quase imperceptível, de afeto suavizou os cantos de seus lábios. Ela deu um passo à frente.

— Mas me diga uma coisa... [ESTÁTICA].

Uma dor excruciante, como uma broca industrial perfurando seu crânio de orelha a orelha, atingiu a mente de Dante no exato milissegundo em que ela pronunciou o nome do garoto. O áudio da lembrança corrompeu-se, censurado por um bloqueio massivo na alma que a consciência de Dante não tinha força ou permissão para quebrar.

O garoto sorriu abertamente, ignorando a estática torturante que apenas o "passageiro" ouvia. — Sim, a sua katana já foi consertada, Camilla.

Camilla..., Dante pensou, o choque o desnorteando ainda mais. Não é a Kali. Mas por que elas têm o mesmo rosto? E desde quando eu converso com ela desse jeito manso?

Camilla caminhou a passos lentos até a bancada de madeira escura onde sua arma deveria estar descansando. Em vez de encontrar a tradicional e mortal katana dentro de uma bainha de madeira lacada, seus olhos pousaram sobre um guarda-chuva escuro, de tecido grosso, com um cabo longo e elegantemente curvado.

Ela piscou devagar. Segurou o cabo e puxou. A lâmina afiada e letal da katana deslizou perfeitamente e em total silêncio de dentro da estrutura do guarda-chuva. Ela devolveu a lâmina à bainha disfarçada, virou-se para o ferreiro, e a irritação nublou seu rosto.

Sem aviso, Camilla encurtou a distância e desferiu um tapa estalado, mas sem nenhuma força letal, na nuca do garoto.

— O que diabos é isso? — ela exigiu. — Eu lhe pedi para consertar a bainha rachada, não para me transformar numa palhaça mágica de rua. Eu não pedi por um guarda-chuva.

O garoto esfregou a nuca dolorida, rindo baixinho. — Calma aí, estressadinha. É muito mais útil no campo de batalha do que parece. Fator surpresa contra o inimigo, ocultação perfeita de arma longa na cidade...

— Eu não preciso me esconder — Camilla rebateu secamente. Ela virou o rosto para as chamas, a voz endurecendo com uma melancolia afiada e dolorosa.

A expressão do ferreiro mudou instantaneamente. A marra brincalhona derreteu, substituída por uma preocupação densa, pesada e puramente genuína. Ele deu um passo à frente, ergueu a mão grossa e machucada, e segurou a mão fria de Camilla com firmeza. Ela tentou puxar de volta em um reflexo defensivo, mas ele não soltou.

— Você precisa, sim — o garoto disse. A voz baixou de tom, e o olhar marrom penetrou impiedosamente a armadura de gelo que ela vestia. — Se você planeja continuar saindo sozinha durante as madrugadas chuvosas... só para ficar parada olhando para o céu escuro... e se você pretende continuar visitando aquele cemitério toda vez que a chuva cai... você precisa de um guarda-chuva. Eu forjei isso para você. E eu nunca me perdoaria se você ficasse resfriada de novo.

Os olhos de Camilla tremeram. A armadura rachou. Ela desviou o olhar para o chão iluminado pelas brasas, a voz saindo como um sussurro frágil que não combinava com o rosto de Kali.

— Você... não precisa cuidar de mim.

O garoto apertou a mão dela. Um sorriso teimoso e acolhedor iluminou o rosto sujo de carvão.

— É óbvio que eu preciso.

A memória atingiu massa crítica. A represa estourou.

No telhado chuvoso de Morpheus, o relógio do universo destravou.

A lâmina de Ludmilla descia rasgando o ar, a milímetros de separar a cabeça de Dante do pescoço.

Mas a massa absurda, a densidade gravitacional daquela lembrança proibida, transbordou da alma diretamente para a carne. As mãos ensanguentadas de Dante começaram a brilhar. Uma luz furiosa, incandescente e tecida de Éter primordial estilhaçou a escuridão da neblina.

A memória havia sido convertida em matéria tátil.

Sobre as mãos machucadas do Caçador, polímero escuro e aço brilhante se materializaram do absoluto nada. As XV Caliber — as luvas negras forjadas na lembrança, pesadas e crepitantes com circuitos de energia — fecharam-se com um clique robótico e perfeito ao redor dos punhos dele.

O poder invadiu as veias de Dante como uma injeção direta de pura adrenalina divina. Seus olhos bicolores se arregalaram. Com a mão direita blindada pela luva cibernética, ele agarrou o cano do rifle sniper inútil caído ao seu lado.

A Autoridade latente das luvas foi ativada em uma fração de milésimo de segundo: Personoarma.

O rifle de precisão policial gritou. O metal da arma derreteu, torceu-se e reconfigurou-se na mão de Dante de forma violenta, rápida e bizarra. O cano longo abriu-se em duas hastes magnéticas paralelas. Bobinas de energia elétrica acenderam-se ao longo do chassi reformulado, zumbindo com a fúria estridente de uma tempestade enjaulada.

Em um piscar de olhos, a arma de fogo lenta e rústica havia sido transmutada em uma Railgun eletromagnética, personalizada e devastadora.

Dante ergueu o cano duplo faiscante diretamente na direção do peito de Ludmilla e esmagou o gatilho modificado.

O recuo da arma foi tão cataclismicamente absurdo que estilhaçou os tijolos da chaminé nas costas dele.

Não houve projétil de chumbo. Um feixe ofuscante de plasma cinético e eletricidade superconcentrada irrompeu do trilho magnético com um trovão que partiu a barreira do som ao meio. O tiro obliterou a chuva e atingiu em cheio o ombro esquerdo de Ludmilla, um milésimo de segundo antes que o cérebro sobre-humano da assassina pudesse sequer registrar o clarão.

O impacto a ejetou do chão com a força de um foguete balístico.

O choque cinético e elétrico da Railgun foi colossal — na casa dos milhões de volts. A energia fritou impiedosamente as sinapses da assassina. Os músculos da mulher travaram em espasmos incontroláveis, a lâmina fina escapando de seus dedos mortos e caindo inofensiva no asfalto molhado.

Ludmilla rolou pelo telhado como uma boneca de pano, fumegando, cheirando a ozônio e completamente paralisada. A respiração dela continuava, garantida apenas por um milagre de sua resiliência absurda, mas o corpo havia sido reduzido a um peso inerte e eletrocutado que não se moveria por horas.

Dante, ainda segurando o monstro eletromagnético, arfou violentamente. Seu coração parecia uma britadeira prestes a rasgar o próprio peito.

As XV Caliber em suas mãos piscaram duas vezes, como lâmpadas prestes a queimar, e então começaram a se dissolver no vento frio em partículas douradas de poeira cósmica. O Éter temporário, gerado como combustível pela massa da memória queimada, havia se esgotado completamente.

A arma de fogo derreteu de volta à sua forma inútil de sniper estragada.

A garoa fina caía sobre o rosto sujo, pálido e ferido do garoto. Ele estava vivo.

Mas a vitória era a última coisa flutuando em sua mente. O desgaste físico, celular e espiritual de converter memórias lacradas em Éter era mil vezes pior do que ter costelas fraturadas. Mas não era a dor que o paralisava e colava sua língua no céu da boca. Seu cérebro estava em pane total.

Ele deixou o rifle cair e olhou para as próprias mãos vazias, trêmulas e ensanguentadas.

— Que porra... foi essa? — Dante sussurrou para as nuvens negras, a confusão esmagando a dor.

Quem era aquele garoto da forja? Por que ele criava armas e agia como se o quartel-general da Horizon fosse a porra da sua própria casa? Quem era Gabriel?

De repente, um calafrio aterrorizante, mais frio que a chuva, subiu por sua espinha.

O Jogo das Verdades.

A conversa que ele teve com o Astreus da Memória na Biblioteca Infinita, antes de ser sugado para aquela Matrix de Anna. Ele lembrou perfeitamente da sua dedução genial: ele havia apostado que a entidade estava mentindo sobre o objetivo do Rei.

Isso significava, por eliminação lógica, que as outras duas respostas eram verdades absolutas.

A Memória disse a verdade sobre as lembranças serem uma fonte física de poder em Morpheus — o que Dante acabara de provar na prática e usar para não morrer.

E a outra resposta?

“Niklaus olhou para você e viu um potencial bélico sem precedentes... uma engrenagem perfeita para a máquina de guerra deles.”

O choque desceu sobre Dante. E se ele estivesse errado?

E se a Memória tivesse, de fato, mentido para ele sobre a Horizon, disfarçando a mentira com a face da verdade?

O que era a Facção Horizon, afinal? O que o diabólico Niklaus e a psicopata da Kali realmente queriam com ele no mundo real?

A resposta em que ele mais confiava, a fundação de todo o seu ódio e desconfiança desde que pisara naquele mundo, podia estar fundamentalmente, catastroficamente errada.

O Caçador fechou os olhos bicolores, a mente girando em um redemoinho nauseante. O dano físico não desapareceu magicamente só porque o Éter havia faiscado por dois segundos. Seu desgaste brutal, os ferimentos abertos, os ossos trincados e a queda vertiginosa da adrenalina cobraram o imposto final. Seu corpo atingiu o limite inegociável da biologia.

Rendido ao frio e às perguntas sem respostas, Dante perdeu completamente a consciência, desabando no asfalto escuro ao lado da assassina fumegante.

Posts recentes

Ver tudo
The Fall of the Stars: Capítulo 10 - O ENTSID

Volume 11 : A Prisão Dourada Entrelinhas Se concebermos o destino como o arquiteto silencioso da existência — a força invisível que amarra passado, presente e futuro em uma linha reta de obediência

 
 
 

Comentários


bottom of page