The Fall of the Stars: Capítulo 3 - O Livro da Origem
- AngelDark

- 8 de fev.
- 66 min de leitura
Volume 10 : Laços de Sangue
Parte 1
A Mansão da Sabedoria, o anexo sagrado da lendária Biblioteca Celestial, fora projetada para ser o lugar mais silencioso de todo o Reino dos Sonhos. Era um santuário de mármore branco polido e vitrais de luz sólida, onde o ar tinha cheiro de pergaminho antigo e poeira estelar. Ali, a única acústica permitida deveria ser o virar suave das páginas que continham a história do universo ou o sussurro de uma prece.
Deveria.
— NÃO! AÍ NÃO! PARA! SAI DE CIMA!
O grito masculino ecoou pelas paredes sagradas, vibrando com um desespero tão genuíno que pássaros de cristal, assustados, levantaram voo dos beirais da torre.
Do lado de fora, no corredor de acesso, Philia e Silence congelaram. As duas haviam sido convocadas por Dante, mas, ao se aproximarem, temiam o pior. A mente de Philia girou, imaginando instrumentos de tortura, agulhas de Éter e dissecação mágica.
— Eles estão torturando ele! — Philia exclamou, o rosto perdendo a cor. Ela agarrou o braço de Silence. — Você ouviu a Saga no julgamento! Ela disse que iria "estudá-lo"!
— Dante... — Silence murmurou. Sob o capuz, sua testa franziu em uma preocupação rara.
— Pelo amor de Deus, Saga, não mexe aí! Isso é sensível! AAAAAH!
Um segundo grito, desta vez mais agudo e quase histérico, atravessou a porta dupla de carvalho maciço como uma lança.
Philia não esperou mais. A diplomacia morreu ali. Com um movimento fluido das mãos, ela conjurou uma rajada de vento comprimido.
BAM!
As portas da Biblioteca foram escancaradas com violência, batendo contra as paredes internas. Philia entrou com o cajado em punho, Éter verde girando ao seu redor, pronta para lutar contra a divindade suprema de Morpheus para salvar seu amigo da morte dolorosa.
— Solte-o agora, sua psicop...
A frase morreu na garganta de Philia. O Éter se dissipou. O queixo dela caiu.
A cena diante delas não era um calabouço de tortura medieval. Era... outra coisa. O interior da Biblioteca era um caleidoscópio vertiginoso de conhecimento. Milhares de livros flutuavam em espirais suaves, como cardumes de peixes de papel, orbitando estantes infinitas que subiam até um teto que imitava o cosmos em tempo real.
E no centro desse universo de papel, flutuando a meio metro do chão, havia uma cama larga e macia, cercada por tecidos de seda que flutuavam sem vento.
Dante estava deitado de bruços, o rosto enterrado no travesseiro, as costas nuas e marcadas expostas ao ar frio do ambiente.
E montada sobre ele, com a elegância de uma imperatriz reivindicando seu trono, estava Saga.
A Santa da Ordem, em toda sua glória voluptuosa e serena, tinha as pernas perfeitamente posicionadas ao redor do quadril de Dante, prendendo-o na cama com o peso suave, mas inamovível, de seu corpo. O vestido dela drapejava sobre as costas dele como uma cortina de teatro. Ela estava inclinada, o rosto próximo à pele suada, e seus dedos longos percorriam as cicatrizes nas costas dele não como quem analisa um objeto, mas como quem acaricia uma escultura valiosa.
Ela não estava machucando. Ela estava traçando as linhas de batalha no corpo dele com um fascínio quase devoto.
— Esplêndido... — suspirou Saga, a voz aveludada, ignorando completamente a invasão e a porta arrombada. Ela deslizou o polegar pela base da coluna de Dante, como se assinasse uma obra de arte. — A textura da mortalidade é tão... vibrante. Cada cicatriz é um verso de uma tragédia, tecido diretamente na carne. Que material requintado.
— Sai de cima! — Dante gemia, abafado contra o travesseiro, o corpo se contorcendo como uma minhoca sob o domínio divino. — Eu tenho cócegas nessa cicatriz, sua maluca!
Silence arregalou os olhos, paralisada. Imediatamente, Philia jogou as mãos sobre os olhos da amiga, cobrindo a visão "impura".
— O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! — Philia gritou, o rosto ficando vermelho como uma pimenta-malagueta. — Saga! Tenha um pouco de decoro! Ele é um prisioneiro de Estado, não uma... uma almofada de corpo!
Dante levantou a cabeça. Seu cabelo preto estava desgrenhado e o rosto corado, metade por rir das cócegas, metade pelo constrangimento absurdo da situação.
— Philia! Você chegou! — Ele tentou se levantar, usando os braços para empurrar o colchão, mas Saga apenas ajustou a postura, aplicando uma pressão "divina" nos quadris dele, mantendo-o preso sob ela com a facilidade de quem segura uma pluma.
— Não tire conclusões sem contexto! — Dante berrou, apontando para a Santa em suas costas. — É ela quem quer ficar montada em mim! Eu sou a vítima aqui!
— Isso não explica nada e só piora a frase, Dante! — Philia retrucou, ainda tapando os olhos de Silence, que tentava espiar por entre os dedos da amiga, curiosa com a dinâmica.
Saga finalmente parou.
Ela soltou um suspiro suave, quase decepcionado pela interrupção de seu momento de apreciação. Com uma graça fluida, ela se ergueu, saindo de cima de Dante e flutuando até o chão. O vestido branco imaculado se ajeitou sozinho ao redor de seu corpo, e ela recuperou instantaneamente a dignidade de uma deusa inatingível.
Seus olhos permaneciam fechados, e um sorriso enigmático, sereno e indecifrável brincava em seus lábios. Ela parecia não ter a menor vergonha; pelo contrário, exalava a confiança de quem acredita que o mundo existe para o seu deleite.
— Vocês são barulhentas. Que falta de ritmo — disse Saga, o tom calmo e musical, desprovido de urgência. — Eu estava apenas... lendo. A história gravada na pele de um Grimm é uma literatura muito mais envolvente do que estes livros velhos.
Ela virou o rosto na direção de Dante, que agora se sentava na cama, esfregando as costas e tentando recuperar o fôlego, mas já rindo levemente da absurdidade daquilo tudo.
— Humanos sempre me pareceram rascunhos grosseiros, feitos de barro e pressa — divagou Saga, cruzando os braços sob o busto e "olhando" para ele com sua percepção mística. — Mas ter um aqui... quente, pulsante, reagindo ao meu toque... Você não é um rascunho, Dante. É uma tapeçaria viva. É impossível resistir à tentação de tocar os fios do destino que compõem você.
Dante bufou, jogando o cabelo para trás e lançando um olhar sugestivo e irritado para a Santa.
— É... mas desse jeito, Vossa Santidade, montada em mim e esfregando com tanta "inspiração"... você estava acordando outro tipo de "destino". Eu sou um homem saudável, sabe? A arte aqui reage.
Silence, mesmo com os olhos cobertos, soltou uma risadinha baixa e abafada. Philia parecia prestes a explodir de vergonha ou a desmaiar.
Saga apenas inclinou a cabeça levemente para o lado. Ela processou a insinuação sem nenhum traço de malícia vulgar ou pudor mortal, apenas com uma curiosidade divina e divertida.
— A vitalidade humana... tão honesta, tão urgente — comentou Saga, com a naturalidade de quem elogia a cor de uma flor exótica. — Talvez eu precise estudar essa "reação" mais tarde. O calor que você emana é fascinante por si só. Mas, por ora, vamos cobrir essa obra de arte. Seus amigos vieram vê-lo, e a etiqueta exige vestes, mesmo que a nudez lhe caia bem.
Ela fez um gesto elegante com a mão, como se regesse uma orquestra invisível.
O ar brilhou em dourado. Tecidos se entrelaçaram do nada, dobrados perfeitamente, e pousaram suavemente no colo de Dante.
Ele se levantou da cama flutuante, espreguiçando-se e fazendo as juntas estalarem. O corpo, antes exposto e vulnerável no tribunal, agora exalava uma confiança renovada.
Ele vestiu uma calça branca larga, de tecido leve e resistente, que caía solta nos quadris e permitia movimento total para chutes, amarrada na cintura com um cordão simples. Por cima, colocou uma camiseta preta justa, de mangas curtas, feita de um material elástico que aderia aos músculos definidos e destacava as cicatrizes nos braços.
O visual lhe dava um ar menos de "deus grego intocável" e mais de um combatente de rua perigoso, prático e letal.
Dante ajustou a roupa, girou os ombros testando a liberdade do tecido e abriu aquele sorriso alto-astral e inabalável.
— Muito melhor.
Parte 2
Dante ajustou a gola da sua nova camisa preta. O tecido elástico esticou sobre os ombros largos, delineando a musculatura com uma nitidez que não passou despercebida por Saga.
A Santa não conseguia tirar os olhos dele. Não havia desejo carnal em seu olhar, apenas um sorriso sereno e a apreciação distante de uma curadora diante de uma escultura rara. Ela não estava calibrando um microscópio; estava admirando a pincelada do destino na forma física de um Prim.
— Eu preciso de um favor — disse Dante. O tom sério e grave contrastava violentamente com a leveza cômica de minutos atrás. — Antes que a gente comece qualquer "sessão de apreciação" ou interrogatório sobre minha biologia... eu preciso que a Silence conheça alguém.
Saga inclinou a cabeça levemente, o movimento suave como o de um cisne. Seus pensamentos não eram algoritmos frios, mas reflexões sobre a harmonia daquela narrativa.
— Uma audiência no Anexo de Contenção Infantil? — ela ponderou, tamborilando os dedos longos no queixo. — Um desvio curioso no roteiro, irrelevante para a segurança do palco, mas... esteticamente promissor para entender a complexidade da sua alma. Concedido.
Com um gesto gracioso da mão de Saga, como se virasse a página de um livro precioso, uma parede inteira de volumes deslizou para o lado sem fazer som, revelando uma porta menor, selada com runas de calmaria que pulsavam em um azul suave e onírico.
Dante empurrou a porta.
Dentro do quarto, o ambiente era luxuoso, mas terrivelmente estéril. Cheirava a ozônio e perfeição, não a infância. Brinquedos de luz sólida — bonecas que brilhavam e cubos que flutuavam — estavam espalhados pelo chão, intocados, dispostos com a precisão fria de uma galeria de arte, não de um quarto de brincar.
Encolhida no canto de uma cama grande demais, com os lençóis puxados até o nariz, estava Yukina. A pequena Pesadelo, filha de Snow, levantou os olhos vermelhos ao ouvir a porta abrir.
Quando viu Dante, seu rosto se iluminou. Foi um reflexo instintivo, a memória do calor, do "Dan". Mas, no segundo seguinte, a sombra da realidade caiu sobre ela como uma cortina pesada.
Disseram a ela. Disseram que ele matou seu pai. Que aquele homem, agora vestido como um guerreiro sombrio, era o vilão da peça que tirara Snow dela para sempre.
Yukina tremeu. O dilema interno era visível em seus olhos grandes e úmidos. Ela queria correr para os braços dele em busca de segurança, e queria fugir dele em terror. Mas, acima de tudo, o medo de estar sozinha naquele castelo branco, cheio de divindades brilhantes que a olhavam como uma mancha na pintura, era maior que o medo do assassino.
Dante percebeu a hesitação. Ele viu o recuo minúsculo dos ombros dela. Uma pontada de culpa, afiada como vidro, perfurou o peito dele. Ele sabia que o sangue de Snow manchava suas mãos e que nenhuma palavra bonita, nenhum brinquedo, limparia essa tinta. Ele era o antagonista na história dela.
Ele não forçou a aproximação. Em vez disso, ele se abaixou, ficando na altura dos olhos de Silence, que espiava por trás de suas pernas, observando a menina Pesadelo com curiosidade violeta.
— Ei, tampinha... — Dante sussurrou para a Santa do Silêncio, a voz rouca. — Lembra da nossa promessa? Eu disse que brincaríamos até você cansar, certo?
Silence assentiu vigorosamente, os olhos brilhando de expectativa. Ela segurou a manga da camisa preta de Dante com suas mãozinhas enluvadas.
— Pois é... — Dante coçou a nuca, dando um sorriso culpado e triste. — Acontece que, com toda essa bagunça de julgamento, prisão e o mundo acabando lá fora, eu vou ficar um pouco ocupado sendo "apreciado" por aquela divindade ali.
Ele apontou com o polegar para Saga, que observava a cena com uma mão no rosto, fascinada pela tragédia desenrolando-se à sua frente.
O rosto de Silence caiu. A decepção foi tão palpável que Philia, parada na porta, sentiu o ar ficar pesado ao redor delas. A menina baixou a cabeça, soltando a manga dele.
— Mas... — Dante continuou rapidamente, piscando um olho. — Como eu sou um homem de palavra, eu trouxe uma substituta. Uma "Jogadora 2".
Ele se afastou um passo para o lado, revelando Yukina encolhida na cama.
— Aquela ali é a Yukina — Dante falou baixo, como se contasse um segredo sagrado. — Ela está um pouco assustada e muito sozinha. Ela perdeu o pai hoje, Silence. Ela precisa de alguém que saiba guardar segredos e que seja especialista em trazer cor para lugares brancos demais.
Dante olhou profundamente nos olhos da pequena Santa.
— Você pode cuidar dela por mim?
Silence olhou para Yukina. A Santa Profeta sempre vivera cercada de adultos, de regras e de destinos grandiosos. E ali, diante dela, estava outra criança. Não importava que Yukina tivesse a pele pálida de um Pesadelo. Não importava a política de Morpheus. Era alguém do tamanho dela. Alguém que também parecia uma nota solitária em uma sinfonia de gigantes.
Os olhos de Silence brilharam como supernovas. Um sorriso genuíno, que mostrava as covinhas nas bochechas e que poucos no reino haviam tido o privilégio de ver, surgiu em seu rosto.
Ela não caminhou; ela correu. Silence subiu na cama com dificuldade, engatinhando sobre o colchão macio, e sentou-se de pernas cruzadas na frente de Yukina.
Sem dizer uma palavra — pois palavras eram perigosas para ela —, Silence estendeu a mão aberta. Na palma, ela teceu uma pequena borboleta de luz silenciosa.
Yukina hesitou, olhando para Dante. Ele apenas assentiu, encorajador, engolindo o nó na garganta. Lentamente, a menina Pesadelo soltou os joelhos. Sua mãozinha pálida tocou a mão da Santa. A borboleta de luz voou entre as duas. O medo da solidão começou a se dissipar no ar estéril do quarto.
— Sublime... — murmurou Saga, um brilho de deleite intelectual nos olhos fechados. — O algoz do pai facilitando a união entre a inocência profética e a herdeira da sombra. A ironia é deliciosa. A forma como o afeto floresce no meio da tragédia... é uma composição emocional estatisticamente improvável, mas artisticamente perfeita.
Dante sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. Ele cumpriu sua parte. Yukina não estaria sozinha enquanto ele estivesse preso naquela "galeria".
Ele se virou e caminhou de volta para a Biblioteca principal, os passos pesados.
No corredor de livros flutuantes, o silêncio entre Dante e Philia estava carregado de eletricidade estática. Philia caminhava ao lado dele, os braços cruzados sobre o peito, a expressão ilegível, olhando fixamente para o horizonte de papel à frente.
— Philia... — Dante começou. Ele parou e encostou-se em uma estante de carvalho, bloqueando o caminho dela suavemente. — Foi mal.
Ela parou. Não olhou para ele.
— Pelo quê? — A pergunta foi seca.
— Por não contar. — Dante suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Sobre ser humano. Sobre não ter memórias... Sobre... a verdade da minha existência.
Ele olhou para o teto cósmico, evitando o olhar dela.
— Quando chegamos neste local, não sabíamos em quem confiar. Estávamos em um mundo diferente e desconhecido. Por isso, eu e Ludmilla escolhemos esconder. Mesmo que você tenha sido tão gentil, acabamos ocultando a verdade e não confiando em você totalmente.
Philia finalmente se virou. Seus olhos verdes, geralmente gentis, estavam tempestuosos. Ela varreu o rosto dele, procurando qualquer traço de mentira naquela nova confissão, como se tentasse ler as entrelinhas.
— Eu fiquei chocada, Dante. Não vou mentir — ela admitiu, a voz embargada, perdendo a firmeza. — Descobrir que a pessoa ao meu lado era uma espécie de conto de fadas... foi bem estranho. Eu me senti meio burra por não ter percebido, e também me perguntei o porquê de vocês escolherem esconder isso da gente.
Ela deu um passo à frente. Ela suspirou, como se quisesse focar no presente, afastando a mágoa.
— Mas você ainda é o cara que, durante o incidente de Snow, protegeu todo mundo — Philia disse, com convicção. — Humano, Grimm ou Unicórnio... isso não muda o fato de que você sangrou por nós.
Dante sorriu, um peso saindo de seus ombros.
— Obrigado, Philia.
— Não me agradeça ainda.
O olhar de Philia estreitou-se. Um brilho perigoso, calculista e quase mercantil surgiu em suas íris verdes.
— Você ainda mentiu para mim.
Ela apontou o dedo indicador para o peito dele, cutucando a nova camisa preta.
— Você vai ficar me devendo uma, Dante. Uma grande. E quando eu cobrar... — Ela sorriu. — ...acho que você já entendeu, não é?
Dante engoliu em seco. Ele conhecia aquele olhar. Era o olhar de um agiota cobrando juros sobre a alma. Mas, vendo que era a única maneira de restaurar a confiança e o equilíbrio entre eles, ele levantou as mãos em rendição.
— Justo.
Ele estendeu a mão enluvada para ela.
— Então vamos deixar isso como uma Promessa também.
Philia apertou a mão dele. A pele macia e quente dela contrastou com o couro frio das luvas negras dele. O aperto foi firme, selando o novo pacto.
— Promessa aceita.
Parte 3
O ar na Biblioteca Celestial não apenas existia; ele pesava. Não era a pressão do vento, mas a densidade gravitacional de milhões de histórias suspensas em estase, respirando poeira estelar enquanto aguardavam um leitor digno.
Dante esticou o braço, os dedos roçando a lombada de um tomo antigo que flutuava à altura dos olhos. Antes que pudesse firmar o toque, no entanto, uma mão pálida interceptou a sua.
Saga não havia caminhado até ali; ela havia fluído pelo espaço, parando ao lado dele como uma sombra luminosa e inquietante. O aroma dela era de flores adocicadas.
— A arquitetura do seu carpo... fascinante — murmurou ela, erguendo o pulso de Dante contra a luz das estrelas artificiais. Seus olhos se estreitaram, despindo a pele e os músculos para enxergar a estrutura abaixo. — A densidade óssea excede em 12% a média de um "Prim" comum. Uma simetria quase... sublime.
Ela traçou uma linha imaginária no antebraço dele com a unha, provocando um arrepio involuntário.
— Se eu aplicasse a pressão exata neste meridiano de tensão, a melodia que seus nervos cantariam seria...
— Dá um tempo, Saga!
Dante recolheu o braço com um puxão brusco, cambaleando para trás. Sentia-se uma escultura de mármore sendo apalpada por uma curadora obsessiva.
— Chegou a hora de entender a História Principal de Morpheus, e não de virar peça de museu para sua crítica artística! — retrucou ele, massageando o pulso.
— Com licença...
A voz de Philia cortou o ar, não alta, mas carregada de uma urgência que fez a temperatura ao redor cair. Ela estava parada a alguns metros, as mãos unidas, interrompendo o cabo de guerra entre a "obra" e a "curadora".
— Antes que vocês continuem essa... dança estranha — Philia pigarreou, o olhar inquieto —, há algo que precisa ser dito. Silence entrou em transe no momento exato em que o céu se rasgou lá fora. Uma nova profecia do Astreus do Destino.
A menção à pequena Santa fez a postura de Saga mudar instantaneamente. O tom clínico desapareceu, substituído por uma curiosidade teatral.
— Um adendo ao roteiro? — Ela inclinou a cabeça. — O Oráculo raramente recita fora dos Grandes Atos Cerimoniais.
— Ela não apenas recitou. Ela sangrou as palavras — explicou Philia, com o rosto grave. Ela respirou fundo, alterando a postura para imitar a cadência solene e assustadora da amiga:
"Escutem, crianças. O ciclo está prestes a fechar. Assim que os Instrumentos do Fim tocarem as mãos de Morpheus, a estagnação morrerá e o Tempo devorará seus filhos novamente. A promessa antiga foi ativada. Não haverá refúgio para os Sonhos, nem esconderijo nas sombras para os Pesadelos; o luto será a única moeda corrente. O mundo, como o vedes, irá arder até as fundações, pois a mentira azul que chamais de céu está prestes a desabar."
Um silêncio litúrgico desceu sobre a Biblioteca. Até os livros pareceram parar de flutuar por um instante. Dante franziu a testa, cruzando os braços sobre o peito, enquanto Saga levava um dedo aos lábios, saboreando a tragédia.
— Curioso... — murmuraram os dois, em uníssono perturbador.
Eles trocaram um olhar rápido.
— Você primeiro — concedeu Dante.
— A profecia falha em sua função primária — analisou Saga, com a frieza de quem critica o terceiro ato de uma peça ruim. — Ela não antecipa um ciclo; ela narra a tragédia presente. O céu já rasgou. A "mentira azul" já caiu, revelando os bastidores negros do cosmos. Profecias deveriam alertar sobre o inédito.
— Pensei a mesma coisa — concordou Dante, coçando o queixo, o olhar distante. — Mas tem uma peça solta. "Instrumentos do Fim". No plural.
Ele ergueu a mão esquerda. A manopla negra e vermelha capturou o reflexo das estantes.
— O timing é perfeito demais. Ela falava da Arma do Apocalipse que eu recuperei. Mas eu me lembro... quando segurei isso aqui, vi outros três pilares de luz rasgando o horizonte. Isso significa que as outras armas estão aqui? — Ele se virou para Saga. — Nas lendas do meu mundo, essas coisas ficam escondidas em cantos opostos da realidade para evitar o colapso total. Por que diabos estariam todas reunidas no mesmo reino?
Saga flutuou verticalmente até uma prateleira alta, pinçando um livro encadernado em couro estelar com a ponta dos dedos.
— Os registros apócrifos sugerem que um grupo de humanos trouxe essas "peças de coleção" para Morpheus, eras atrás. Enviados pelo próprio Astreus da Guerra. — Ela folheou o livro com um desdém elegante, fechando-o com um estalo seco. — No entanto, ninguém que eu conheça estava vivo durante esse ato. Nem mesmo eu. A veracidade histórica é... esteticamente questionável.
Dante sentiu o cérebro latejar. A história daquele mundo era um queijo suíço feito de memórias falsas. Mais humanos? Astreus da Guerra? Onde Anna e Yuki se encaixam nisso?
— Eu preciso ler isso — decidiu Dante, encarando a imensidão labiríntica da Biblioteca. — Se eu encontrar a história desses humanos, encontro uma pista sobre a minha amiga. Você disse que essa Biblioteca registra tudo?
— Correto. Esta Biblioteca não é minha criação, é o diário involuntário do mundo. — Saga abriu os braços, abrangendo o infinito. — É a galeria suprema do Astreus da Memória. Se aconteceu no palco, o roteiro está arquivado aqui.
— Ótimo. — Dante suspirou, sentindo o peso da tarefa. — O problema é que eu morreria de velhice antes de terminar a primeira fileira.
Ele fechou os olhos. O ar ao redor dele começou a crepitar. O Éter fluiu por suas veias, não como água, mas como uma corrente elétrica familiar e violenta.
— Se eu não posso ler tudo sozinho... então eu não vou ler sozinho.
Snap.
O som foi como um galho seco quebrando, mas o efeito foi visual. A aura carmesim de Dante explodiu, e a realidade ao seu redor se dobrou como um origami. De dentro de sua própria sombra, mãos idênticas às dele surgiram, agarrando a borda da existência e puxando-se para fora.
Dois Resquícios do Tempo se materializaram. Usavam as mesmas roupas justas, tinham o mesmo sorriso confiante e a mesma postura relaxada do original.
— Hora de trapacear — disse o Dante Original, estalando o pescoço. — Um pega a ala esquerda, o outro a direita. Palavras-chave: "Humanos", "Astreus", "Armas do Apocalipse". E prioridade máxima: Anna e Yuki.
Saga observou a multiplicação com os olhos brilhando de um fascínio quase predatório. Ela flutuou rapidamente até o original, segurando seu braço como se reivindicasse propriedade sobre a matriz.
— Quanta falta de generosidade! — reclamou ela, a voz melodiosa tingida de um capricho infantil. — Você prometeu cooperação, Dante. Como posso conduzir minha crítica anatômica se todas as suas versões estão ocupadas lendo papéis velhos? Eu exijo uma cópia para monitoramento tátil em tempo real!
Antes que Dante pudesse negar, uma voz ecoou. Não vinha de Philia, nem de Saga. Era uma voz antiga, metálica, mas carregada de uma arrogância culta e divertida.
— Acalme-se, ó Deusa da Vaidade. O meu Parceiro aguenta muito mais do que sua aparência frágil sugere.
Philia deu um pulinho de susto. Saga arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, olhando para a mão esquerda de Dante.
Os circuitos da manopla pulsaram em um vermelho intenso, como um olho cibernético despertando de um longo sono.
— XV-Caliber? — Dante encarou a própria mão, atônito.
Ele sabia que a luva falava em sua mente, mas projetar voz para o mundo físico? A compreensão bateu forte: aquilo não era apenas uma ferramenta mágica. O Éter concentrado em objetos inorgânicos, em casos raríssimos, gerava uma Senciência Espontânea. Ele não estava usando uma luva; estava vestindo um ser vivo.
— Agora que nossa sincronia de almas estabilizou, seu reservatório expandiu — explicou a Luva, a voz ressoando na mente de todos com a autoridade de um professor lecionando para crianças. — Sua capacidade de manipular os Resquícios aumentou. Você pode sustentar mais uma cópia antes do colapso neural. Francamente, demorou para perceber, Parceiro.
Dante hesitou. Da última vez que forçou os clones, acordou com o nariz sangrando e a visão turva. Mas olhou para a luva, lembrando-se da promessa silenciosa de parceria.
— Certo... mas antes disso... — Dante suspirou. — "XV-Caliber" está cansando minha língua. É muito longo, muito técnico. Precisamos de um nome.
— Eu sou uma Arma Lendária do Apocalipse! — a Luva retrucou, ofendida. — Como usuário, você tem o privilégio da nomeação. Mas aviso: se escolher algo ridículo, drenarei seu sangue até você virar uma uva-passa. Tenha bom gosto.
— Ameaça desnecessária — resmungou Dante.
Ele olhou para o metal negro. Lembrou-se da sensação de liberdade ao rasgar as nuvens, do vento no rosto, da imensidão azul que a profecia chamava de mentira, mas que para ele parecia liberdade.
— Sora — disse Dante. — Significa "Céu". Combina com o jeito que você me faz voar. E... soa bonito.
A manopla pulsou uma, duas vezes. O brilho vermelho estabilizou em um tom satisfeito, quase presunçoso.
— Sora... O vasto e infinito que tudo vê... Aceitável. Curto. Elevado. — A voz assumiu um tom magnânimo. — Eu gosto. Muito bem, Parceiro, você tem um gosto razoável.
Dante sorriu de canto.
— Beleza, Sora. Vamos testar esse novo limite.
Ele fechou os olhos novamente. O suor brotou em sua testa imediatamente. A pressão no crânio foi imensa, como se alguém estivesse apertando seu cérebro com um torno, mas, com um grito abafado de esforço, a realidade se rasgou mais uma vez.
Uma terceira cópia se materializou, tropeçando.
O Dante Original cambaleou, apoiando-se em uma mesa próxima, ofegante.
— Ufa... três é o teto. — Ele limpou o suor dos olhos, apontando para a nova cópia com um dedo trêmulo. — Você aí, Clone 3... Você fica com a Saga. Deixe ela te espetar, medir, usar de modelo, o que for. Só garanta que eu continue inteiro.
— Pode deixar, chefe! — O Clone 3 piscou para Saga com um charme exagerado e um sorriso galanteador. — Vem cá, Musa. Eu, o grande desbravador de dimensões, sou todo seu em nome da arte.
O Dante Original cobriu o rosto com a mão, sentindo as bochechas queimarem. Droga. Aquele era o lado "Dante do passado" dele. "Isso só vai complicar tudo", pensou.
Saga, porém, sorriu. Um sorriso sereno de quem acaba de ganhar o brinquedo mais exclusivo da loja. Anéis de luz já começavam a se formar ao redor de suas mãos para "emoldurar" a nova cobaia.
— Esquece... Vocês dois... — Dante apontou para os Clones 1 e 2, ignorando a cena constrangedora ao lado. — Leitura dinâmica. Vasculhem o passado.
— Já eu vou conversar com Philia e Sora — disse o Original, recuperando o fôlego. — Philia sabe sobre Morpheus, e Sora parece gostar de falar.
— Gostar é pouco. Eu sou a Fonte do Conhecimento, Parceiro — corrigiu Sora, brilhando na mão do Dante Original.
Enquanto os clones se dispersavam pelas estantes infinitas e Saga arrastava sua "cobaia" satisfeita para um canto reservado, Dante se jogou em uma cadeira. A Biblioteca Celestial agora tinha quatro Dantes, uma deusa obcecada e uma luva arrogante.
E, mesmo assim, parecia pouco exército para enfrentar o fim do mundo que se aproximava.
Parte 4
O som não era de leitura; era de um vendaval.
O ar na Biblioteca vibrava com o fwoosh-fwoosh-fwoosh frenético de páginas sendo viradas em velocidade supersônica. Os Clones 1 e 2 eram borrões de movimento nas alas laterais, consumindo enciclopédias inteiras como cupins devorando madeira, suas mãos movendo-se tão rápido que deixavam rastros visuais no ar.
No canto oposto, o ritmo era dolorosamente lento. O Clone 3 permanecia estático, com os braços abertos, enquanto Saga, flutuando a centímetros do chão, passava a ponta dos dedos luminosos por suas articulações, murmurando sobre "ângulos divinos" e "tensão muscular sublime".
No centro desse caos controlado, o Dante Original massageava as têmporas. Seus olhos estavam fechados, mas ele via tudo. As informações lidas pelos clones bombardeavam seu cérebro em flashes estroboscópicos — guerras antigas, tratados de magia, mapas estelares —, acumulando-se atrás de sua testa como uma enxaqueca sólida.
— Vamos focar no básico para parar a tontura — resmungou Dante, abrindo os olhos e apontando para um grimório flutuante à sua frente. — A versão oficial. O "Mito da Criação".
Philia endireitou a postura, as mãos cruzadas sobre o colo. Quando falou, sua voz assumiu a cadência rítmica e decorada de quem repetiu aquilo mil vezes em orações.
— No Princípio, havia apenas o Caos informe. Então, a Grande Astreus da Memória, temendo que a beleza se perdesse no vazio, teceu este Jardim. Ela não trabalhou sozinha. Três pilares a sustentaram: a Vida soprou o ânimo, a Morte definiu os limites e a Guerra ergueu as muralhas. Mas o poder divino era vasto demais; o mundo ameaçou colapsar sob o próprio peso. Foi então que o Destino selou a realidade para evitar a dissolução.
Dante ouviu, o rosto uma máscara de impassibilidade, mas, por dentro, o cinismo fervilhava como ácido.
"Bonito", pensou ele. "Pena que soa como um panfleto de recrutamento."
Ele sabia a verdade. Ele carregava a verdade na alma. Ele era o avatar da Astreus da Possibilidade — a própria Anna, que precisou se dividir em dois para sobreviver ao próprio poder. E, em sua jornada, ele vira os rostos desses "deuses benevolentes".
A Vida? Uma narcisista egocêntrica que via os mortais como brinquedos descartáveis. A Possibilidade? Uma garota comilona, solitária e cheia de dúvidas.
"Deuses perfeitos? Nem ferrando", Dante concluiu, tamborilando os dedos na mesa. "Se eles criaram este lugar, não foi por caridade ou para 'preservar a beleza'. Eles são falhos, egoístas e quebrados. Se a Memória construiu essa Biblioteca, ela estava escondendo algo, não protegendo."
No entanto, os livros ao seu redor eram limpos. Higienizados. Não havia capítulos sobre os chiliques dos deuses ou seus erros colossais. Ele teria que engolir a propaganda por enquanto.
— Certo. — Dante fechou o livro com um baque seco que ecoou pela sala, silenciando momentaneamente o zumbido dos clones. — Agora, o Tempo. Antes de eu chegar e trazer essa "entropia" que vocês tanto temem... como o relógio girava aqui? As pessoas não envelheciam?
— A biologia dos Prims varia — explicou Philia, gesticulando para o ar. Uma ilusão dourada se formou, mostrando um artefato colossal de engrenagens celestes. — Alguns são efêmeros, outros, imortais. Mas o "tempo" nunca foi uma linha reta, Dante. Nós medimos a existência através dos Ciclos de Profecia.
Ela apontou para as runas que giravam na ilusão.
— O Relógio da Profecia não marca horas; ele marca Narrativas. Cada vez que uma Grande Profecia é cumprida, um ato se encerra e outro começa. O tempo aqui é dramático, não numérico. Nós vivemos de história em história.
— Conveniente... — A voz de Sora rasgou o ar, saindo metálica e vibrante da manopla esquerda. — Um sistema onde o progresso só ocorre com a permissão do Destino. Estagnação controlada e embalada como tradição.
Dante assentiu, concordando com a arma. Era o sistema de controle perfeito. Mas havia uma peça solta naquele tabuleiro de xadrez. Uma peça grande demais, que projetava uma sombra sobre todo o resto.
Ele precisava fazer a pergunta certa. Uma armadilha verbal.
— Philia, Saga... — Dante chamou. Saga parou de medir o fêmur do Clone 3 e virou o rosto pálido para ele. — Uma dúvida demográfica. Quantos Ciclos, em média, um habitante vive?
— Variavelmente infinito — respondeu Saga, o tom clínico e desinteressado. — Espécies menores duram três ou quatro Ciclos. Entidades de alta linhagem, como as Santas ou a Nobreza, persistem indefinidamente, contanto que o núcleo de Éter permaneça intacto.
— Entendi. — Dante se inclinou para a frente, os olhos fixos nas duas. — Então, quem é o Prim mais antigo vivo hoje? Quem viu mais Ciclos passarem do que qualquer outro?
A resposta veio em um coro automático, reverente e imediato:
— O Rei.
Dante sentiu um calafrio percorrer a espinha. A armadilha estava armada.
— Certo. E quem criou as leis atuais? Quem decidiu onde os Sonhos dormem e onde os Pesadelos caçam? Quem deu corda nesse Relógio da Profecia?
— O Rei — repetiu Philia, franzindo a testa levemente, confusa com a obviedade das perguntas. — Ele é o Pilar de Morpheus. A Vontade dele é a física deste mundo.
Dante parou de tamborilar os dedos. O momento do xeque-mate.
— E como ele se tornou Rei?
O silêncio que caiu sobre a Biblioteca não foi de respeito. Foi um vácuo. Foi o som de uma fita sendo cortada abruptamente.
Philia abriu a boca para responder, mas a voz morreu na garganta. Ela piscou, buscando na memória um sermão, uma aula de história, uma lenda infantil. Nada. Seus olhos vagaram, perdidos.
Saga, por sua vez, soltou o braço do clone. O processador estético de sua mente divina parecia ter encontrado um erro fatal. Ela flutuou mais perto, a curiosidade frívola substituída por uma perturbação genuína.
— Ele... — Philia gaguejou, a voz pequena. — Ele sempre foi o Rei. Desde o Primeiro Ciclo registrado.
— Ninguém "sempre foi" alguma coisa, Philia — rebateu Dante, a voz baixa e perigosa. — Todo mundo tem uma origem. Ele foi eleito? Ele matou o antecessor? Ele brotou do chão? Quem sentava no trono antes dele?
Saga pousou no chão. O som de seus pés tocando o piso ecoou.
— Os registros... não existem — admitiu ela, olhando para as estantes infinitas com desconfiança. — A história documentada de Morpheus começa com o reinado dele. Tudo antes disso é... ruído branco. Estática. Dados corrompidos.
Na mente de Dante, os Clones 1 e 2 confirmaram a suspeita com um feedback mental doloroso. Eles haviam lido milhares de livros. Lendas sobre Lordes, Pesadelos, tratados sobre a flora do jardim, poemas sobre estrelas. Mas sobre a ascensão do Rei? Zero. Nenhuma linha. Nenhuma nota de rodapé.
Era como bater de cara em uma parede branca intransponível.
"Isso não é natural", a mente de Dante disparou. "Mesmo num mundo mágico, a história deixa cicatrizes. Se não há nada sobre a origem dele, é porque alguém apagou. Ou porque ele não faz parte da história natural deste mundo."
Dante olhou para cima, para as estantes que se perdiam na escuridão do teto cósmico. Havia conhecimento demais ali. Ler aleatoriamente, mesmo com três cérebros extras, levaria séculos. E se a resposta sobre o Rei — e consequentemente sobre Anna e Yuki — tivesse sido ocultada, censurada ou arquivada sob um nome que ele não conhecia, ele jamais encontraria lendo página por página.
Ele precisava parar de agir como um estudante e começar a agir como um invasor.
— Sora... — Dante sussurrou para a luva, levantando-se da cadeira. A aura carmesim ao seu redor tremulou, sinalizando para os clones pararem.
A busca passiva havia acabado.
— A força bruta não vai funcionar aqui. Eles esconderam bem demais. — Os olhos de Dante brilharam com uma nova determinação. — Precisamos de um jeito de filtrar essa montanha de papel. Vamos hackear essa Biblioteca.
Parte 5
O problema da Biblioteca Celestial não era a escassez; era o dilúvio. Era um oceano de dados sem mapa, onde cada gota era um livro e cada onda, uma era esquecida.
Saga flutuava no centro do salão, os olhos varrendo os movimentos frenéticos dos clones de Dante com a frieza de um computador central.
— A probabilidade estatística de localizar um tomo específico sobre a "Era Pré-Rei" através de triagem manual é de 0,0004% antes do colapso térmico do universo — sentenciou ela. — Havia, no passado, um mecanismo de busca: o Livro de Comando.
Ela apontou um dedo pálido para um pedestal de obsidiana. Sobre ele, acorrentado como uma fera perigosa, repousava um livro colossal coberto por uma crosta de poeira estelar endurecida.
— No entanto, a Chave do Index foi desintegrada há eras. Sem ela, isso é apenas um peso de papel glorificado.
Dante soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto suado.
— Ótimo. Temos a internet de Deus, mas ninguém sabe a senha do Wi-Fi.
— Não seja tão pessimista, Parceiro.
A voz de Sora não apenas ecoou; ela vibrou nos ossos de Dante. A manopla em sua mão esquerda aqueceu, a joia central pulsando como um coração em taquicardia.
— Você continua pensando como um mortal. Você vê trancas; eu vejo argila.
Dante ergueu a mão, encarando o metal negro.
— O que você sugere, Sora? Vai explodir a corrente?
— Explodir é vulgar. Eu sou um Artista, não um demolidor. — A arrogância na voz da arma era palpável. — Você acha que minha função se resume a disparar lasers? Isso é o custo operacional. Eu bebo seu sangue — essa mistura caótica de Serafim e Demônio — por um motivo. Meu verdadeiro título é o de Ferreiro Divino.
O metal da luva começou a chiar, emitindo fumaça.
— Eu possuo o Dom da Alteração Espontânea. Eu posso conceder Vida ao inanimado.
Dante congelou. O sangue drenou de seu rosto tão rápido que ele sentiu tontura.
— Alteração Espontânea? — Ele recuou um passo. — Você ficou maluco?
Philia e Saga olharam para ele, confusas com a reação visceral. O medo nos olhos de Dante era genuíno.
— No meu mundo... — Dante começou, a voz rouca e tensa. — "Alteração Espontânea" é o termo técnico para quando o Éter fica instável e corrompe a matéria. Isso não é feito para criar vida, é feito para punir os Shapers.
— Essa é a visão estreita de humanos covardes — retrucou Sora, impiedosa. — Meu Criador via além. Para ele, a matéria estática é a morte. Objetos são usados e esquecidos. Dar a eles uma consciência, forjar uma alma no caos do Éter... isso é a verdadeira imortalidade. Este é o meu poder: o "Personarma".
Dante olhou para o livro acorrentado. A ideia de arriscar criar um monstro ali dentro era aterrorizante. Mas as palavras de Sora, carregadas daquela filosofia antiga e alienígena, ressoaram com algo dentro dele. Ele próprio era uma "reinvenção" de Anna. Ele era um erro que deu certo.
— Saga... — Dante olhou para a entidade ao seu lado. — Se der errado, esse livro pode virar uma aberração e tentar devorar a gente.
Saga, no entanto, aproximou-se do pedestal, os olhos brilhando com um fascínio científico.
— O risco de corrupção biológica é de 89%. Mas a premissa filosófica de "arte eterna através da mutação"... é esteticamente sublime. O livro já é inútil como está. Se a sua luva pode induzir uma evolução forçada, eu sanciono o experimento. Quero ver essa "reinvenção".
— Viu? A Deusa da Vaidade tem bom gosto — zombou Sora. — Confie em mim, Parceiro. E, acima de tudo, confie no seu próprio desejo.
Dante respirou fundo, fechando os punhos. Não havia plano B. Ele caminhou até o pedestal. O ar parecia mais pesado ali. Ele colocou a mão enluvada sobre a capa grossa e fria do Livro de Comando.
— Se isso der errado, Sora, eu juro que derreto você e faço um par de brincos para a Philia.
— Apenas foque, Dante. Injete a Possibilidade. Dobre o Tempo.
O Éter explodiu. Não foi uma luz vermelha ou dourada. Foi uma cor indescritível, a cor da mudança pura, violentando a realidade. O livro tremeu violentamente. As correntes de ferro não se quebraram; elas se dissolveram. O couro antigo começou a borbulhar, expandir e se reconfigurar, ganhando tons de pele, textura de tecido, calor de sangue. O objeto cresceu, tomando uma forma humanoide, pulsando com uma vida recém-nascida e caótica.
A luz se dissipou com um estalo de vácuo.
Diante deles, sobre o pedestal, não havia um monstro. Havia uma garota.
Ela ajeitou a aba de um chapéu de bruxa branco, gigantesco, que desafiava a gravidade. Seus cabelos eram uma tempestade de vermelho carmesim, longos e selvagens, caindo sobre os ombros. Ela vestia o que parecia ser um uniforme escolar modificado ao extremo: a camisa branca estava aberta em um decote profundo que mal continha seus seios fartos, a gravata frouxa, e a saia xadrez era curta demais para qualquer padrão de decência da Cidade de Cristal ou de qualquer outro lugar.
Ela tinha uma das mãos no quadril e a outra fazia um sinal de "V" de vitória, totalmente despreocupada. Quando sorriu, revelou caninos afiados de predadora.
— Yoo-hoo! — A voz dela era rouca, brincalhona e perigosamente provocante. — Mestre Dante! Demorou, hein? Achei que ia ficar mofando aqui pra sempre!
Dante piscou, atordoado. Philia cobriu a boca com as duas mãos, escandalizada. Saga inclinou a cabeça noventa graus, analisando as novas "proporções volumétricas" do antigo livro.
— Quem... o que... — Dante gaguejou, o cérebro pifando.
A garota — a encarnação viva do Index — saltou do pedestal e, ignorando qualquer noção de espaço pessoal, envolveu o pescoço de Dante com os braços, pressionando o corpo contra o dele sem a menor vergonha.
— Eu sou o Index, seu bobinho. Mas pode me chamar de Safira. — Ela sussurrou no ouvido dele, mordiscando o lóbulo com intimidade. — E uau, você é bem mais bonito em 4K. Adoro um Mestre com cara de quem precisa ser... educado.
— SAI DE CIMA!
Dante a empurrou, vermelho como o cabelo dela, tropeçando para trás.
— O que diabos é isso?! Por que ela é... assim?!
— Bwahahahaha!
A risada de Sora ecoou da manopla, histérica e metálica.
— Pare de fingir inocência, Parceiro! A Alteração Espontânea usa a vontade do usuário como molde! O meu poder trouxe a vida, mas a "Possibilidade" do seu poder definiu a forma!
Sora continuou, implacável:
— Você trouxe a "versão definitiva" do objeto baseada no seu subconsciente mais profundo. Se ela é uma gyaru sádica, peituda e com atitude... é porque, no fundo, é exatamente esse o seu tipo!
— SEU PERVERTIDO! — Philia gritou do fundo da sala, escondendo o rosto.
— Não é nada disso! — Dante berrou, desesperado, olhando para os lados como se procurasse um advogado. — Foi um erro de cálculo! Interferência mágica!
Safira riu, um som cristalino e malicioso, e apertou as bochechas de Dante como se ele fosse uma criança fofa.
— Ah, Mestre... não precisa ter vergonha. Eu sou a atualização perfeita. Inteligente, útil e... — ela olhou para o próprio corpo e deu uma piscadela — bem macia… e, como bônus, tenho bastante conteúdo para leitura.
De repente, a expressão dela mudou. O sorriso malicioso desapareceu, substituído por uma postura de liderança absoluta. A mudança foi tão brusca que a temperatura da sala pareceu cair.
— Enfim! Chega de preliminares. Você quer saber sobre Grimms, certo? — Ela cruzou os braços. — Eu senti sua intenção nervosa vibrando enquanto você me criava.
Dante, ainda tentando recuperar a dignidade e ajeitando a gola da camisa, pigarreou.
— É... isso. Ninguém me explicou direito até agora.
— Simples. — Safira estalou os dedos.
O som foi seco, como um tiro. Do nada, um livro negro flutuou até a mão dela. Não veio das estantes visíveis; parecia ter sido arrancado de uma dobra dimensional.
— Eu sou o Index, querido. Eu tenho acesso ao root da Biblioteca. Até ao que a Saga não consegue achar. — Ela lançou um olhar desafiador para a Santa, que observava tudo com renovado interesse.
Safira abriu o livro. Seus olhos, antes brincalhões, agora brilhavam com uma luz antiga, quase assustadora. Ela não leu com os olhos; ela projetou a informação diretamente na mente deles.
— Grimms não são apenas "humanos". Eles são Os Olhos da Verdade. Crias diretas da Astreus da Memória.
A voz dela perdeu o tom de garota colegial e assumiu a gravidade de uma anciã.
— Eles foram forjados para gravar a história. Mas não a história de datas e guerras que se conta em bares. A história da alma. Quando um Grimm olha para alguém, ele vê o código-fonte. Pecados, medos, o passado oculto. E a via é de mão dupla.
Ela fechou o livro com um baque que soou como um veredito.
— Se a pessoa olhar de volta para você, Dante... ela vê a própria história refletida nos seus olhos. É por isso que ninguém consegue mentir para um Grimm. E é por isso que todos têm medo. Eles não temem você... eles temem ver o reflexo dos próprios pecados encarando-os de volta. Você não é apenas um guerreiro. Você é um espelho que ninguém quer encarar.
O silêncio desceu sobre o grupo, pesado e frio. A explicação de Safira transformava a existência de Dante.
Saga olhou para Dante. Pela primeira vez, não havia análise clínica em seu olhar, mas sim cautela.
— Bom... — Dante quebrou o silêncio. Sua voz estava firme agora. Ele cruzou os braços, ignorando o fato de que Safira estava novamente se apoiando em seu ombro, brincando com uma mecha de seu cabelo.
Se ele era um espelho, então ele usaria esse reflexo para queimar as mentiras daquele mundo.
— Se eu sou um espelho da verdade... então está na hora de apontar esse espelho para o topo da pirâmide. — Dante olhou para a garota-livro. — Safira, esqueça os rodeios. Ache tudo o que tiver sobre a origem do Rei.
Safira sorriu. Desta vez, não foi um sorriso fofo, nem sedutor. Foi um sorriso cheio de dentes, voraz e cruel.
— Com prazer, Mestre. Vamos despir esse "Deus" até a alma.
Parte 6
— Sora... Safira... — Dante encarou o objeto que a Index acabara de materializar.
Diferente dos outros tomos que flutuavam com a graça de penas na gravidade zero da Biblioteca, este livro pesava. Ele ancorava a realidade ao seu redor, denso e opressivo, como um buraco negro feito de papel e tinta. A capa não possuía título; era um couro fosco, envolto em fios de seda negra que pulsavam ritmicamente, como veias necróticas bombeando um sangue invisível. Parecia menos um livro e mais uma gaiola.
— Isso não tem cara de conhecimento — murmurou Dante, sentindo os pelos do braço se arrepiarem. — Tem cara de contenção.
— A verdade raramente é bonita, Parceiro. Ela é crua — retrucou Sora, a voz vibrando com antecipação. — Mande a garota abrir.
Dante assentiu. Safira, com um sorriso que misturava obediência e uma curiosidade perigosa, estalou os dedos. Suas unhas afiadas pairaram sobre a seda negra, prontas para rasgar o selo.
No exato microssegundo em que a ponta da unha dela tocou o fio, o áudio do universo foi cortado.
Não foi apenas silêncio. Foi o vácuo absoluto. O som da respiração, o zumbido do Éter, o bater do coração — tudo foi deletado.
Dante olhou para o lado, alarmado. Saga estava com a boca aberta, congelada no meio de uma sílaba, os olhos vidrados. Philia estava paralisada com um pé no ar. Elas não pareciam estátuas; pareciam um vídeo pausado em um reprodutor com defeito. A imagem de Philia tremulou, distorcendo-se em pixels de luz por um breve instante.
— Saga? Philia? — Dante tentou gritar, mas sua voz não se propagava no ar morto.
Ele tocou o ombro de Philia. A sensação foi repugnante — não era pele, nem pedra, mas uma parede de estática sólida e fria.
— Dante... — A voz de Sora surgiu em sua mente, arrastada e distorcida, como uma transmissão de rádio sendo engolida por interferência. — O... sis... te... ma... cri... ti... co...
O céu artificial da Biblioteca começou a falhar. O sol dourado lá no alto piscou violentamente. Ligado. Desligado. Preto. Branco. O cenário ao redor começou a descascar, revelando linhas de código brutas e escuridão por trás do mármore.
— Mestre? — Safira olhou ao redor, os olhos de rubi arregalados de pânico. — O código-fonte desta área está sendo sobrescrito! É uma injeção de—
— Abra! — Dante ordenou, movido por um instinto primal. Ele sabia, com certeza absoluta, que se soltassem aquele livro agora, o sistema reiniciaria e o arquivo seria deletado da existência para sempre. — Agora, Safira!
Safira puxou os fios com um grito mudo.
A seda negra se rompeu. O som voltou de uma vez só, não como um estalo, mas como uma explosão de trovão digital. O mundo se dissolveu em ruído branco.
Quando a luz estabilizou, Saga e Philia piscaram, terminando o movimento que haviam começado segundos — ou eras — atrás.
— ...a probabilidade de ser uma armadilha cognitiva é de 99% — completou Saga, natural como se nada tivesse acontecido.
Ela parou. Seus olhos varreram o pedestal vazio. Varreram o espaço onde Dante e a garota-livro estavam um nanossegundo antes.
— Dante?
O Grimm e a Index haviam desaparecido. E, pior do que isso, a onisciência local de Saga lhe sussurrou uma verdade aterrorizante: eles não estavam escondidos. Eles não estavam em outra sala. Eles haviam sido removidos do diretório do Reino dos Sonhos.
Dante inspirou com força, o ar entrando em seus pulmões como se ele tivesse acabado de emergir de um afogamento profundo.
O cheiro asséptico de ozônio e papel velho sumira. Agora, o ar era pesado, perfumado com sândalo, cera derretida e o aroma adocicado de mistério.
Ele abriu os olhos. Ainda estava em uma Biblioteca, mas... definitivamente não era a mesma.
As estantes infinitas de mármore branco haviam sido substituídas por madeira escura, mogno polido e estantes que se curvavam de formas impossíveis. Cortinas de veludo roxo cobriam paredes que pareciam respirar levemente. A iluminação clínica do sol artificial fora trocada por centenas de castiçais flutuantes, cujas chamas queimavam em um azul espectral e frio.
— Mas que diabos... — Dante se levantou, girando, procurando por Safira. Estava sozinho. O silêncio ali não era um erro; era uma presença.
— Finalmente.
A voz veio de trás dele. Era macia, aveludada, mas carregava o peso de montanhas.
— Eu já estava ficando entediada de esperar você encontrar o caminho de casa, querido.
Dante girou sobre os calcanhares, o Éter explodindo em suas mãos em posição de combate.
Sentada em uma poltrona de espaldar alto, estofada em tecido carmesim, observando-o com o tédio divertido de uma rainha assistindo a uma peça de teatro amador, estava Ela.
Seus olhos não tinham pupilas ou íris; eram duas galáxias girando em espirais hipnóticas de ametista e neon. Um chapéu de mágica branco, adornado com aros de ouro que giravam sozinhos, projetava uma sombra charmosa sobre seus cabelos curtos, que oscilavam entre o preto profundo e o lavanda, como tinta na água. Ela vestia um traje que misturava a formalidade de um terno vitoriano com a extravagância de uma Mestre de Cerimônias do fim do mundo.
— Quem é você? — Dante perguntou. O instinto de luta dele gritava para correr, mas suas pernas pareciam chumbo. A pressão que aquela mulher emanava não era mágica; era existencial.
Ela sorriu. Um sorriso de quem conhece o final de todas as piadas do universo.
— Que grosseria... falar assim com a irmã mais velha da sua querida Possibilidade.
A menção a Anna fez o sangue de Dante gelar.
— Irmã? Você é...
Instintivamente, ele saltou para trás, tentando criar distância. Mas quando seus pés deixaram o chão, a física o traiu. A gravidade se inverteu em um eixo impossível. O "trás" tornou-se "frente". Dante não se afastou; ele foi puxado violentamente até parar a centímetros do rosto dela, que agora se inclinava sobre a poltrona.
Ele tentou recuar, mas estava preso na órbita dela.
— É ridículo tentar fugir aqui, Dante — ela sussurrou, e o hálito dela cheirava a galáxias antigas. A joia em seu peito pulsou em sincronia com o coração dele. — Tudo o que você vê agora sou Eu. Estes corredores, estes livros, a madeira, a tinta... e o vazio entre eles. Eu sou a Biblioteca. Eu sou a Astreus da Memória.
Dante paralisou. Ele estava respirando o mesmo ar que um dos Deuses Primordiais.
— Você... você desceu? — ele conseguiu sussurrar. — Veio para a Terra em um avatar como os outros?
A Memória riu, um som cristalino. Ela girou uma carta de baralho entre os dedos enluvados com uma destreza sobrenatural.
— Errado. Eu não desci. Acontece que toda Morpheus, todo este "Jardim", é meu design. Este reino é um servidor dedicado conectado à Terra através do sonhar. É um limbo na interseção. Portanto... eu não preciso de um avatar de carne para estar aqui. Eu sou o Sistema Operacional deste mundo.
Ela se levantou. A poltrona desapareceu em fumaça roxa. Ela caminhou ao redor dele, e o chão parecia se moldar aos passos dela.
— Mas eu sofria de um problema de latência. Eu não conseguia interagir diretamente. Eu precisava de um interruptor. De um glitch que permitisse acesso de administrador. E você, meu caro "cunhado", foi essa ponte.
— Eu?
— Você esqueceu minha voz? — Ela parou na frente dele e tocou a testa de Dante com um dedo enluvado. A sensação foi gélida. — No dia em que você despertou. No dia em que a Autoridade da Possibilidade rasgou sua alma pela primeira vez. Eu estava lá, sussurrando nos bastidores. Estamos conectados desde antes da pequena Anna fazer o download em você. E agora que você veio fisicamente para o meu Jardim, sua presença amplificou o sinal. Graças a você, posso trazer meu Ego para o "porão" da minha própria casa.
Dante processou a informação. Ele era o roteador que permitia a um Deus andar por sua própria criação. A raiva começou a substituir o medo.
— Se você tem todo esse poder... — Dante cerrou os punhos, a aura carmesim tremulando. — Então essa é a sua chance. O mundo lá embaixo está um caos. O céu rasgou, óleo negro está matando gente, sua "criação" está ruindo. Se você é o Sistema, conserte o bug!
A Memória suspirou, um gesto teatral de decepção, como uma atriz incompreendida.
— Ah, a doce ingenuidade linear dos mortais. Eu posso andar aqui, Dante, mas existe um firewall. Minha Autoridade é a Memória. Eu registro. Eu observo. Eu arquivo. Eu não posso editar a história, mesmo que eu me torne uma personagem nela. Se eu interferir diretamente, o tecido da narrativa se rasga e o Jardim deixa de existir por paradoxo.
Ela olhou para o teto escuro, onde estrelas que não existiam brilhavam.
— Eu não sei como a história termina. Apenas meu irmão, o Destino, tem o spoiler final. Mas... — Seus olhos de galáxia se estreitaram, perigosos. — Ele está trapaceando. E outros dos meus irmãos que desceram estão se aproveitando das brechas para vandalizar meu Jardim.
Ela olhou para Dante novamente, e o sorriso voltou, afiado como uma lâmina.
— Se eles podem trapacear... eu acho justo trapacear um pouco também.
— E como você faria isso? — Dante perguntou, desconfiado.
— Através de você. — Ela apontou para o peito dele, onde o coração batia descompassado. — Você é um Astreus, Dante. Mas seu domínio é a Possibilidade. Sua Autoridade permite branching. Você encontra caminhos que ultrapassam o infinito. Onde eu vejo apenas o que foi, você vê o que pode ser.
— Eu não gosto de ser usado por Deuses — Dante rosnou. — Já tive minha cota com a Anna.
— Mas nossos objetivos são parecidos, não são? Você quer salvar seus amigos. Eu quero salvar minha Biblioteca. — Ela estalou os dedos.
O cenário mudou instantaneamente. Duas cadeiras ornamentadas surgiram no vácuo, flutuando frente a frente. Uma mesa de vidro negro, lisa como a superfície de um lago noturno, apareceu entre elas.
— Vamos jogar.
— Jogar? — Dante olhou para a mesa, incrédulo. — O mundo está acabando e você quer jogar cartas?
— Quando entidades de poder absoluto entram em impasse, nós não lutamos, Dante. Nós jogamos. — Ela se sentou, cruzando as pernas com elegância infinita. — Um jogo especial. O Jogo da Verdade e da Mentira.
No céu de veludo acima deles, letras de fogo azul e vermelho se formaram, soletrando as regras enquanto ela falava.
— É simples — explicou a Memória, materializando um baralho em suas mãos. — Você pode me fazer três perguntas. Eu vou responder a todas. Vou contar a verdade absoluta sobre a história do mundo, sobre o Rei, sobre as Armas... Exceto em uma resposta. Uma delas será uma mentira.
Ela se inclinou para a frente, apoiando o queixo nas mãos, os olhos fixos nos dele.
— No final, você terá que apontar qual foi a mentira. Se acertar... eu lhe darei a Chave para aquilo que você mais deseja. O conhecimento para vencer esta guerra e salvar a garota.
— E se eu errar? — Dante perguntou, sentindo o peso esmagador da aposta.
— Se errar... — O sorriso dela se alargou, predatório. — Você terá que me conceder um favor. Mas a pegadinha é: assim que sair deste lugar, você esquecerá qual é o favor. Você carregará um comando latente no subconsciente. E quando chegar a hora certa... você agirá, sem perceber que está cumprindo minha vontade.
Dante engoliu em seco. Era um contrato com o diabo, ou pior, com a Administradora do Universo. O risco de se tornar um agente adormecido, uma marionete inconsciente, era aterrorizante.
Mas ele olhou para o vazio ao redor. Ele precisava saber sobre o Rei. Precisava saber onde Anna estava.
— Mas lembre-se, garoto — a voz da Memória tornou-se subitamente suave, quase maternal, o que a tornava ainda mais assustadora. — Eu sou a Memória. Eu sei tudo o que aconteceu, desde o primeiro átomo. Você pode usar suas perguntas para descobrir sobre Morpheus... mas tem certeza de que é só isso que você quer saber?
Ela inclinou a cabeça, e as galáxias em seus olhos giraram mais rápido.
— Tem certeza de que não há dúvidas muito maiores, muito mais antigas, trancadas no porão do seu coração? Sobre como trazer Nero de volta? Sobre a Horizon? Sobre quem realmente é Anna?
Dante travou. A pergunta dela não era apenas uma provocação; era a primeira jogada. Ele percebeu, com um frio na espinha, que o jogo já havia começado antes mesmo de ele se sentar. As dúvidas que ele enterrava borbulharam para a superfície como ácido.
Ele abriu a boca para perguntar sobre o Rei, mas a voz não saiu. Diante da encarnação de toda a Verdade, Dante percebeu que, talvez, ele não soubesse nem qual era a pergunta mais importante.
Parte 7
O clangor dos portões de ferro negro do Palácio de Isolde reverberou nas costas de Teth, um som definitivo, como o fechar de um caixão. Ele não olhou para trás. Não podia. Deixara Rum lá dentro, protegida por uma barreira que ele mesmo tecera, mas a magia não podia proteger a garota da verdade: ele fora o portador da sentença.
O peso em seu peito não era metafórico; a culpa tinha densidade, gravidade própria, ancorando suas botas na lama oleosa. Ele forçara uma mãe a escolher entre o trono e a filha.
"Eu prometi que seria diferente", a voz de sua consciência sibilou, misturando-se ao vento uivante. "Prometi que, quando o peso da coroa fosse meu, o sistema mudaria. Mas olhe para as minhas mãos agora."
Ele abriu as palmas das mãos, enluvadas, mas imaginariamente manchadas. Estavam tão sujas quanto as daquele trono que ele jurou purificar.
Ele precisava de ar. Precisava de distância. Precisava sangrar algo que merecesse sangrar, para compensar a inocência que ele ajudara a condenar.
Seus olhos dourados se fixaram no horizonte leste. Lá, perfurando a tempestade de óleo e desespero, uma luz dourada e antinatural pulsava como um coração artificial.
— Crisopeia — sussurrou Teth, o nome saindo com gosto de bile e antisséptico. — O Distrito do Orgulho.
O lar do Lorde Pesadelo mais condecorado. O lar do Traidor.
Teth não pediu permissão ao ar; ele o conquistou. Com um rugido de esforço mental, ele liberou o Éter. Seis asas de luz branca explodiram de suas costas, violentas e puras, vaporizando a chuva negra ao redor em um círculo de vapor sagrado. Com um impulso que rachou o solo geológico, o Defensor dos Sonhos disparou, riscando o céu noturno como um cometa vingativo em rota de colisão.
Crisopeia não pertencia à Gehenna. Era uma afronta visual.
Enquanto o resto do reino se afogava em lama, a Cidade do Orgulho brilhava sob uma cúpula de energia geométrica, hexagonal e perfeita. A chuva de óleo batia contra o campo de força e escorria sem tocar a cidade, como sujeira sendo repelida por uma pele imaculada.
Lá dentro, tudo era mármore branco, vidro cristalino e filigranas de ouro. Não havia lixo. Não havia mendigos. Não havia o caos orgânico da vida. A simetria das ruas era tão absoluta que causava náusea; era a beleza de um bisturi, não de uma flor. O silêncio que reinava ali era cirúrgico, esterilizado de qualquer emoção humana.
No centro dessa utopia fria, o Pináculo do Axioma rasgava o céu. Não era um castelo; era uma agulha. Um observatório-laboratório tão alto que parecia uma tentativa de acupuntura no próprio Deus. Paredes de vidro reforçado revelavam o interior pulsante, onde equações de luz e diagramas de alquimia proibida giravam como constelações artificiais.
Teth despencou do céu, pousando diante da entrada principal com um impacto que levantou uma nuvem de poeira de mármore moído.
Antes que a poeira baixasse, o zumbido mecânico preencheu o ar. Uma falange de autômatos dourados e Guardas Pesadelo em armaduras polidas ao espelho formou uma barreira instantânea, apontando lanças de energia crepitante para o peito dele.
— Parado, Cavaleiro Real! — O chefe da segurança, um Pesadelo de traços rígidos, gritou. — Este é território soberano do Lorde Aslan. A jurisdição da Coroa termina onde a ciência come...
O guarda travou. Ele levou a mão ao comunicador no ouvido, os olhos arregalando-se. A hostilidade em seu rosto derreteu, substituída por um terror reverente e pálido.
— ...Entendido, Primus.
O chefe engoliu em seco e fez um sinal brusco. As lanças baixaram em um uníssono mecânico. A formação se abriu como o Mar Vermelho.
— O Lorde Morningstar monitorou sua trajetória — disse o guarda, evitando olhar Teth nos olhos. — Ele disse que a "variável de interesse" tem permissão de entrada.
Teth recolheu as asas, que se dissolveram em partículas de luz. Ele sabia que seria assim. Aslan Morningstar era orgulhoso demais para trancar a porta. Para ele, Teth não era uma ameaça; era uma visita de laboratório.
Ele caminhou para dentro do Pináculo. Seus passos ecoavam no chão de vidro transparente, sob o qual engrenagens titânicas giravam em um silêncio oleoso, mantendo a torre viva.
O interior era gelado. A temperatura era mantida em um zero clínico constante. Não havia poltronas, tapetes ou conforto. Apenas bancadas de trabalho infinitas, tubos de ensaio do tamanho de pessoas contendo fluidos bioluminescentes e hologramas de anatomia dissecada — anatomia de Sonhos.
Teth subiu pela plataforma gravitacional até o topo.
A sala circular no ápice era cercada por janelas de 360 graus, exibindo a desgraça do mundo lá fora como se fosse um papel de parede decorativo. E no centro, de costas para a porta, estava ele.
— A pontualidade é uma virtude estatisticamente rara, Teth.
A voz era melódica, suave, educada. A voz de alguém que poderia recitar poesia enquanto remove seu coração.
Aslan Morningstar virou-se lentamente.
A visão dele provocou um desconforto instintivo, quase primal, em Teth. Aslan possuía uma beleza que transcendia gênero e entrava no território do "estranho". Ele não era apenas bonito; ele era simétrico demais. Parecia uma escultura renascentista de alabastro que ganhou vida e decidiu que a humanidade era um rascunho malfeito.
Seus cabelos caíam como cascatas de ouro líquido derretido. Seus olhos heterocromáticos — o direito de um azul-celeste, o esquerdo de um dourado solar — analisavam o mundo com a precisão fria de um microscópio. Ele vestia um jaleco branco imaculado sobre vestes nobres, e suas mãos enluvadas estavam limpas, embora ele estivesse, segundos antes, manipulando um órgão pulsante que flutuava em um campo de estase.
— Você veio de longe, "Defensor" — disse Aslan. O sorriso em seus lábios não chegava aos olhos. Era o sorriso sereno de um médico prestes a dar um diagnóstico terminal. — Suponho que a diplomacia no Palácio de Isolde tenha sido... ineficiente? O nível de cortisol no seu suor é detectável daqui.
— Não vim aqui para discutir minha química, Aslan.
Teth parou, a mão pairando sobre o cabo da espada. O ódio queimava em sua garganta, quente e vivo.
— Vim garantir que você não use o caos do fim do mundo para expandir seu matadouro.
Aslan riu. Foi um som baixo, seco. Ele caminhou ao redor de uma mesa de metal frio, deslizando a mão enluvada pela superfície.
— "Matadouro"? Que termo primitivo, Teth. Eu chamo de Pesquisa e Desenvolvimento.
Ele parou a poucos metros de Teth, ignorando completamente a ameaça da lâmina.
— Você sempre foi tão... passional. Tão apegado às regras obsoletas do Rei. O mesmo Rei que me expurgou da Guarda Real apenas porque eu ousei perguntar "como". — Aslan gesticulou para as equações flutuantes. — Os Sonhos vivem na ignorância da própria perfeição. Eu só queria entender a biologia dessa "divindade". Abrir alguns para ver como as engrenagens da alma giram... foi considerado traição. Mas Kiara...
O nome saiu com um tom de respeito acadêmico distorcido.
— Ela me deu recursos. Ela me deu espécimes. Ela entendeu que a moralidade é apenas um obstáculo evolutivo para a espécie.
— Kiara está sendo caçada. — Teth sacou a espada. O som metálico cantou na sala silenciosa. A lâmina de luz iluminou o rosto pálido de Aslan. — E você é o próximo na lista de correções, Traidor.
Aslan não recuou um milímetro. Seus olhos bicolores não focaram na espada, mas no rosto de Teth, dissecando-o visualmente, despindo a pele para ver os nervos.
— Caçada? Irrelevante. O destino dela já forneceu os dados que eu precisava. Mas você...
Aslan deu um passo à frente, perigosamente perto da ponta da lâmina, invadindo o espaço pessoal do guerreiro.
— Você é fascinante, Teth. Uma anomalia estatística.
Ele estendeu a mão enluvada em direção ao rosto de Teth. Não parecia um gesto de ataque, mas de curiosidade mórbida, como quem quer tocar uma borboleta rara antes de espetá-la com um alfinete.
— Pai da raça dos Sonhos. Mãe da raça dos Pesadelos. Um híbrido proibido que a biologia fundamental deste mundo diz que deveria colapsar. Você é a contradição viva. O caos e a ordem entrelaçados na mesma hélice de DNA.
Os olhos de Aslan brilharam com uma fome intelectual aterrorizante.
— O Rei te vê como um soldado útil, um cão de guarda. Eu? Eu te vejo como a Chave Mestra para o próximo degrau da evolução. Por que lutar, Teth? Deite-se na minha mesa. Deixe-me abrir você e ver o que te faz... funcionar.
Teth trincou os dentes tão forte que sua mandíbula estalou. Sua aura explodiu, rachando o chão de vidro sob seus pés.
— Eu não sou seu experimento, Aslan. Eu sou o seu carrasco.
— Que pena... — suspirou Aslan, ajeitando as luvas com uma calma decepcionada, como um professor lidando com um aluno lento. — Eu esperava um debate acadêmico entre pares. Mas se você insiste em testar suas hipóteses através da violência física...
O ar na sala mudou. A pressão aumentou. Aslan não sacou armas, mas a realidade ao redor dele pareceu dobrar.
— ...terei que demonstrar empiricamente por que a Mente sempre supera a Matéria.
Parte 8
O zumbido estéril do ar-condicionado no Pináculo do Axioma morreu, estrangulado por um uivo súbito. O laboratório não apenas esfriou; a temperatura despencou para o zero absoluto em um piscar de olhos, cristalizando a umidade do ar em lâminas de gelo microscópicas.
Não era neve comum. Eram flocos de Éter branco, densos como chumbo, girando ao redor de Teth em um vórtice predatório.
O Defensor dos Sonhos não perdeu tempo com discursos. Com uma explosão de luz que distorceu as sombras da sala, suas seis asas se abriram, impulsionando-o com uma aceleração que deixou sua própria imagem residual para trás como um fantasma de luz.
Ele reapareceu no ponto cego vertical de Aslan, a gravidade parecendo dobrar-se à sua vontade. A espada em suas mãos não desceu apenas; ela caiu como o julgamento de um deus irado.
— Execução Real: Queda da Bastilha.
O ar gritou quando a lâmina rasgou a barreira do som, criando um cone de vácuo visível.
Aslan sequer olhou para cima. Seus olhos continuaram fixos no tubo de ensaio em sua mão esquerda, enquanto a direita se movia em um borrão preguiçoso, desenhando um arco no ar vazio.
CRAAAACK!
A espada de Teth parou a milímetros da jugular do cientista. O mármore sob as botas de Aslan liquefez-se e disparou para cima, transmutando-se instantaneamente em uma liga de ouro reforçado, interceptando a lâmina como a cabeça de uma serpente metálica.
O impacto foi devastador. Uma onda de choque visível varreu o laboratório, pulverizando todas as vidraças panorâmicas e fazendo os monitores explodirem em chuvas de faíscas.
— Força excessiva, Teth. — A voz de Aslan cortou o barulho dos escombros caindo. Ele girou o tubo de ensaio entre os dedos, ileso, como se estivesse entediado.
Teth não recuou. Ele usou o recuo da própria espada contra o ouro para girar no ar, desafiando a inércia, e desferiu um chute lateral carregado de Éter contra as costelas de Aslan.
O cientista apenas deslizou um passo para trás, com a elegância fluida de um dançarino de valsa, enquanto o chute de Teth pulverizava uma bancada de aço maciço como se fosse isopor.
— Pela minha estimativa visual — continuou Aslan, analisando os destroços da bancada enquanto se esquivava de uma estocada rápida com movimentos mínimos —, sua massa muscular, baseada na hipertrofia visível dos deltoides, não deveria gerar mais do que 400 newtons de força.
Aslan bateu o pé no chão. O ouro que defendia seu corpo explodiu em dezenas de espinhos longos e afiados, forçando Teth a cancelar seu combo e saltar para trás, aterrissando agachado em uma passarela de metal suspensa.
— No entanto... — Aslan olhou para o ouro amassado onde a espada havia batido primeiro. Havia uma cratera ali. — O impacto registrado pelos sensores da sala foi de 40.000 newtons.
Teth ofegava na passarela, o vapor saindo de sua boca como fumaça de dragão. A nevasca ao seu redor tornava-se violenta, chicoteando seus cabelos brancos.
— Você fala demais, cientista.
Aslan ajeitou os óculos, ignorando a ameaça. O chão de ouro onde Teth pisara momentos antes afundou repentinamente, revelando uma pegada profunda, como se um titã de dez toneladas tivesse pisado ali, e não um homem.
— Física básica. $F = m \cdot a$. — Aslan começou a caminhar entre os escombros, gesticulando como um professor em uma aula magna. — Você não aumentou sua aceleração; eu teria ouvido o boom sônico antes do impacto. E você não aumentou sua massa biológica; isso te tornaria um alvo lento e pesado.
O cientista estalou os dedos. O ar ao redor de Teth brilhou com runas douradas de análise.
— Você está manipulando os escalares da realidade. Você atribui uma "Massa Virtual" aos seus golpes no exato microssegundo do impacto. Fascinante. Uma trapaça biológica para compensar a fraqueza de sua natureza híbrida.
— Chame do que quiser... — Teth rosnou.
Ele ergueu a espada, a ponta voltada para o teto. A atmosfera ficou pesada, opressiva. Os milhares de flocos de neve que flutuavam suavemente ao redor de Aslan pararam no ar, suspensos no tempo.
— Equação de Inverno: Multiplicador de Gravidade.
Teth girou o pulso, invertendo a lâmina para baixo.
Foi como se o teto do mundo desabasse.
Num instante, a propriedade física de cada floco de neve leve como pluma foi reescrita. O que era água congelada ganhou a densidade de uma estrela de nêutrons.
BOOOM!
O som não foi de impacto, foi de aniquilação. O chão do laboratório cedeu instantaneamente. Milhares de "bigornas" microscópicas choveram sobre Aslan, enterrando-o sob toneladas de gelo comprimido e concreto pulverizado. A estrutura inteira do Pináculo gemeu, as vigas de sustentação torcendo sob o peso impossível daquela neve.
Lá em cima, Teth não sorriu. Ele cambaleou, largando a espada. Uma pontada aguda perfurou seu peito, fazendo-o levar a mão ao coração. Sob a armadura, a marca negra — uma mancha de óleo vivo e pulsante — expandiu-se, tentáculos escuros rastejando milímetros em direção ao seu pescoço.
A Autoridade cobrava seus juros. E a taxa era alta.
"Deixe-me sair...", a voz sussurrou em sua mente, doce como veneno. "A matemática não pode calcular o ódio. Deixe-me quebrar as regras dele."
Teth trincou os dentes, forçando a escuridão de volta para a jaula. Ele precisava acabar com aquilo rápido, antes que a "Outra" assumisse o controle.
— Acabou? — Teth sussurrou, a voz rouca.
Um silêncio sepulcral havia caído sobre a montanha de escombros. Então, veios de luz dourada começaram a trincar a superfície das pedras, brilhando como lava sob a crosta terrestre.
— A alquimia vulgar busca transformar chumbo em ouro, Teth. — A voz de Aslan ecoou, abafada, mas terrivelmente calma. — A minha alquimia busca a purificação da existência.
A pilha de toneladas de entulho não explodiu. Ela simplesmente deixou de ser pedra.
Em uma onda de transmutação instantânea, o concreto e o gelo converteram-se em pó de ouro fino, desmoronando suavemente como areia em uma ampulheta quebrada.
No centro da nuvem dourada, Aslan estava imaculado. Nem um fio de cabelo fora do lugar. Ao redor dele, orbitavam cinco pequenas esferas de ouro, girando em uma formação atômica perfeita que repelia a poeira.
— Você brinca com grandezas escalares, como peso e massa — disse Aslan, limpando uma partícula imaginária da lapela do jaleco. — Eu prefiro brincar com a geometria.
Ele ergueu a mão direita. As cinco esferas pararam instantaneamente, alinhadas na ponta de seus dedos. Elas não brilhavam como ouro comum; sua superfície era tão polida que a luz parecia escorregar delas, incapaz de encontrar atrito.
— Contemple o Alquimista do Absoluto. — Aslan sorriu, mas seus olhos heterocromáticos estavam frios como o vácuo. — Na natureza, nada é perfeito. Se você olhar uma bola de bilhar no microscópio, verá cordilheiras rugosas e vales profundos. Mas o meu ouro... ele obedece à teoria, não à realidade.
Com um movimento casual do indicador, como se petelecasse uma mosca, ele disparou uma das esferas.
Ela não voou rápido. Cruzou o ar em um zumbido grave, flutuando em direção a Teth com uma lentidão insultante.
Teth, ainda ofegante, firmou os pés. Ele conhecia truques de projéteis.
— Lento demais.
O Defensor dos Sonhos ergueu sua espada larga. O ar distorceu ao redor da lâmina quando ele ativou seu poder. Massa Virtual: 50 Toneladas. Aquela espada agora era uma parede impenetrável de densidade infinita. Nada passaria por ali.
A pequena esfera de ouro encontrou a lâmina.
Não houve clang. Não houve faíscas. Não houve som de impacto.
Como uma pedra quente atravessando manteiga, a esfera de ouro ignorou a densidade da espada. Ela passou direto pelo aço reforçado, deixando um buraco circular perfeito onde a matéria simplesmente deixou de existir.
— O quê...?!
Antes que o cérebro de Teth processasse a impossibilidade daquilo, a esfera continuou sua trajetória imutável, roçando seu ombro esquerdo.
Não foi um corte. Foi uma separação de realidade. A ombreira de Éter, a cota de malha sagrada, a pele endurecida e o osso do úmero — tudo se separou em uma linha microscópica. O sangue demorou um segundo inteiro para perceber que podia sair, jorrando subitamente em um arco violento.
Teth caiu de joelhos, a espada — agora com um buraco impossível no meio da lâmina — caindo de sua mão trêmula. Ele agarrou o ombro, os olhos arregalados de choque.
— Geometria Euclidiana Perfeita — a voz de Aslan soou mais perto. Ele caminhava tranquilamente, as outras quatro esferas orbitando sua cabeça como uma auréola divina. — Esta esfera é uma idealização matemática trazida à realidade. Se colocada sobre uma superfície, a área de contato é um Ponto Matemático Único.
Aslan parou, olhando para Teth de cima.
— $P = F / A$. Pressão é Força dividida pela Área. Aprenda isso, Cavaleiro: se a variável da Área tende a zero... o resultado da Pressão tende ao infinito.
O cientista agachou-se, ignorando o perigo, fascinado pelo líquido que escorria entre os dedos de Teth.
— Não importa a resistência da sua armadura ou a densidade dos seus músculos. Minhas esferas aplicam pressão infinita em um único ponto subatômico. Elas não cortam; elas convencem os átomos de que eles não deveriam estar unidos.
Teth olhou para a própria espada mutilada. Aquele buraco perfeito no aço zombava dele. Ele estava lutando contra um monstro que usava as leis fundamentais do universo como munição.
— Fascinante... — Aslan murmurou, observando o sangue no chão branco. — Viscosidade de Pesadelo, coloração de Sonho. A estabilidade molecular é precária. Preciso de uma amostra maior.
Aslan estalou os dedos. As quatro esferas restantes pararam de orbitar e apontaram para os membros de Teth.
O Cavaleiro, encurralado e sangrando, sentiu o mundo girar. O cheiro estéril do laboratório misturava-se ao ferro de seu sangue. E, lá no fundo, a Marca Negra pulsou, faminta.
"Não. Eu sou um Cavaleiro Real. Se a Ordem dele é perfeita... eu vou vencer usando o Caos."
Ele fechou os olhos, ignorando a dor, e buscou a única variável que Aslan não podia colocar em uma equação.
— Você está certo, Aslan... — Teth forçou seu corpo ferido a se mover. Não foi um passo elegante, mas um impulso desesperado de Éter.
A primeira esfera passou sibilando onde seu pescoço estava um microssegundo antes, o deslocamento de ar cortando sua bochecha. Ele girou o tronco. A segunda esfera, incapaz de encontrar carne, fatiou sua capa blindada como se fosse seda, espalhando tecido branco no ar.
Teth derrapou, parando e encarando o Alquimista, os olhos brilhando com uma nova compreensão através da dor.
— A perfeição corta tudo. É um conceito lindo. — Ele cuspiu sangue. — Mas a sua perfeição tem um defeito fatal. Ela é previsível.
Aslan moveu um dedo. As esferas restantes aceleraram, convergindo para o coração de Teth de três ângulos diferentes. Não havia para onde correr.
Teth não correu. Ele juntou as palmas das mãos na frente do peito em um estrondo surdo. O ar ao redor dele não explodiu para fora; ele implodiu para dentro.
— Escala de Teth: Inversão de Vetor — Zero Absoluto.
O laboratório não apenas esfriou. A própria energia cinética do universo naquela sala foi subitamente definida como "nula".
O oxigênio, o nitrogênio, o vapor d'água — cada molécula no ar parou de vibrar instantaneamente. A atmosfera não congelou em gelo comum; ela se tornou um sólido quântico, um bloco translúcido e superdenso de realidade paralisada.
As esferas perfeitas de Aslan, que precisavam de movimento para aplicar sua "pressão infinita", encontraram o atrito infinito do espaço-tempo congelado. Elas pararam no meio do ar, a centímetros do peito de Teth, presas como insetos em âmbar, sua perfeição geométrica inútil contra a ausência de movimento.
Os olhos de Aslan se arregalaram, o monóculo trincando com a mudança súbita de pressão. Sua compostura analítica quebrou pela primeira vez.
— Congelamento atmosférico instantâneo?! Isso é impossível! A entropia necessária para remover tanta energia em nanossegundos...
— Eu não removi energia, cientista. — Teth sorriu, um sorriso selvagem e cheio de sangue. O frio extremo não o afetava; ele era o frio. — Eu apenas acessei o painel de controle da realidade e mudei a variável de "Movimento" para "Zero".
O bloco de ar congelado estilhaçou-se com o movimento brusco de Teth, caindo como chuva de vidro.
Aslan estava exposto. Sem suas esferas, ele era apenas um homem brilhante em um jaleco.
"Agora!", a mente de Teth gritou.
Suas seis asas de luz explodiram de suas costas, não com graça, mas com a violência de um motor de foguete. Ele canalizou cada gota de Éter restante, cada fragmento de sua vontade, ignorando a marca negra que gritava em seu peito.
Ele não precisava de espada. Ele precisava de impacto puro e bruto.
Teth disparou pelo laboratório. Enquanto voava, ele reescreveu a própria biologia de seu braço direito. Músculos, ossos, tendões — tudo recebeu um influxo massivo de massa virtual. A gravidade ao redor de seu punho tornou-se tão intensa que o ar começou a se incendiar por compressão antes mesmo do golpe chegar.
Ele concentrou o peso de uma montanha caindo do espaço na ponta dos dedos.
— COLAPSO: IMPACTO METEORO!
Aslan tentou reagir, seus dedos movendo-se freneticamente para transmutar uma parede de ouro, mas a arrogância o deixara lento. Ele viu a morte se aproximando — um punho envolto em chamas de atrito e distorção gravitacional.
"Eu vou vencer", o pensamento rugiu na mente de Teth. Ele ia derrubar um Lorde Pecado sozinho.
O punho estava a milímetros de obliterar o rosto perfeito de Aslan. O impacto prometia não apenas matar o cientista, mas vaporizar o topo do Pináculo do Axioma.
E então... o universo piscou.
Uma sombra caiu sobre o laboratório. Não era uma sombra feita pela ausência de luz, mas uma sombra na própria estrutura da realidade. Uma presença tão pesada que fez o ar parecer piche.
O tempo não parou. Foi algo pior. A causalidade foi interrompida.
Uma mão.
Era pálida, fina, quase delicada, com unhas pintadas de preto. Ela surgiu do nada, no espaço impossível entre o punho de Teth e o rosto de Aslan.
E ela apenas... segurou.
Não houve estrondo. Não houve onda de choque. O impacto capaz de rachar uma montanha, a energia cinética de um meteoro... simplesmente deixou de existir no momento em que tocou aquela pele pálida. A física foi silenciada. A força vetorial foi zerada.
Teth ficou paralisado no ar, suspenso por aquela mão que segurava seu pulso com a facilidade de quem segura uma pluma. Seus olhos tremeram, o horror substituindo a adrenalina.
A marca negra em seu peito, antes pulsante e agressiva, recolheu-se instantaneamente, escondendo-se nas profundezas de sua carne como um animal aterrorizado diante de um predador alfa.
Aslan, que estava a um segundo da aniquilação, olhou para a figura que se materializara entre eles. Sua mente analítica tentou processar os dados, mas o resultado foi apenas um erro catastrófico.
As esferas perfeitas de Aslan, liberadas do gelo, caíram no chão com tilintares patéticos, rolando para longe.
A batalha do Orgulho e do Sonho estava encerrada.
Parte 9
O tempo não apenas parou; ele engasgou.
O punho de Teth, descendendo com a massa de uma montanha e a fúria de um meteoro, encontrou seu alvo. A matemática de Aslan dizia que o impacto deveria vaporizar o laboratório. A física newtoniana exigia uma onda de choque nuclear.
Mas o universo piscou.
Uma mão surgiu do nada. Pálida, pequena, com unhas pintadas de um esmalte preto descascado. Ela interceptou o punho de titã não com um bloqueio marcial, mas como quem pausa um vídeo.
Não houve BOOM. Houve um som seco, abafado e profundamente anticlimático. Thud.
A energia cinética colossal de Teth não foi absorvida; ela foi deletada. O ar ao redor do impacto pixelizou por um breve segundo, distorcendo a imagem do punho de Teth em cores neon, como se a realidade estivesse sofrendo uma queda drástica de frames per second.
— ...Hã? — Teth tentou recuar, o pânico subindo pela garganta como bile.
Ele não conseguia se mexer. Aquela mão delicada segurava seu pulso com uma autoridade absoluta. Era como se seu braço tivesse sido soldado a uma montanha inamovível.
A recém-chegada suspirou. Um som longo, arrastado e exausto, sem sequer olhar para o rosto aterrorizado do Cavaleiro.
— Que lag horrível... O servidor desse mundo tá uma porcaria hoje.
Antes que o cérebro de Teth processasse a gíria, a mulher moveu-se. Não foi um movimento técnico. Ela não entrou em base, não flexionou os joelhos, nem girou o tronco. Com um desleixo preguiçoso, ela apenas levantou a perna direita em um chute frontal frouxo, visando o esterno de Teth.
Parecia um movimento em câmera lenta. Mas no instante em que a sola de seu tênis surrado tocou a armadura sagrada de Teth, a Lei de Murphy entrou em vigor com brutalidade total.
A integridade molecular da armadura falhou catastroficamente no pior ponto de tensão possível. A resistência do ar desapareceu. O atrito do chão tornou-se negativo.
CRASH!
O som da barreira do som quebrando veio com atraso. Teth não foi empurrado; ele foi disparado como uma bala de canhão humana.
O Cavaleiro atravessou as paredes de vidro reforçado do Pináculo como se fossem papel de seda molhado. Seu corpo cruzou o céu de Crisopeia, desenhando uma linha reta de destruição, até colidir com o solo da praça central, centenas de metros abaixo. O impacto abriu uma cratera que fez os lustres do laboratório, lá no alto, balançarem violentamente.
No silêncio que se seguiu, quebrado apenas pelo vento uivando através do buraco na parede, Aslan Morningstar ajeitou o jaleco. Ele limpou um grão de poeira dourada do ombro, seus olhos heterocromáticos estreitando-se em cálculo frenético.
— Katsuragi... — Aslan pronunciou o nome com a cautela de quem encontra uma bomba nuclear não detonada na sala de estar. — A Lorde da Preguiça finalmente sai da toca. Devo assumir que você veio roubar minha pesquisa, ou apenas se perdeu a caminho da geladeira?
A mulher ignorou a pergunta existencial. Ela bocejou, esticando os braços e estalando as costas com um som crocante e doloroso.
Katsuragi parecia um erro de sistema naquele mundo de fantasia elegante. Ela vestia uma jaqueta parka vermelha e preta, exageradamente grande (oversized), que escorregava por um dos ombros, revelando uma regata preta justa por baixo.
E foi nesse detalhe que a análise de Aslan travou. Apesar da postura desleixada e do rosto delicado com olhos de um rosa-avermelhado semicerrados em tédio perpétuo, o corpo dela contava outra história. O braço exposto pela jaqueta caída não era macio; era um feixe denso de musculatura compacta, fibras definidas como aço trançado. Um corpo construído não por estética, mas por pura necessidade de sobrevivência contra o peso esmagador do próprio azar.
Katsuragi enfiou as mãos nos bolsos da parka, curvando os ombros. Uma bola de chiclete rosa cresceu entre seus lábios até estourar com um estalo alto.
Ploc.
— Você ia de arrasta, Aslan. — Katsuragi suspirou, a voz arrastada saindo junto com o cheiro de tutti-frutti. — Sua barra de HP estava piscando em vermelho. Se você morresse agora, com todas essas Coroas no inventário... seria um desperdício.
Aslan estreitou os olhos, ignorando o insulto para focar na lógica.
— Você está trabalhando com a Kiara?
— Nha... vai ser um saco explicar, então vamos pular a cutscene. — Ela desviou o olhar, varrendo o ambiente destruído com desinteresse. A verdadeira missão permanecia oculta atrás de sua fachada de tédio. — Agora vamos logo. A taxa de quadros desse lugar vai cair pra zero já, já.
KABOOM!
Um pilar de luz e neve explodiu da cratera na praça lá embaixo. Como um cometa reverso, Teth subiu rasgando os céus, a armadura rachada sangrando Éter, mas a aura queimando com o dobro da intensidade anterior.
Ele aterrissou na varanda destruída com um impacto que fez a estrutura gemer.
— Dois Pecados no mesmo lugar... — Teth sorriu. Era um sorriso maníaco, torto, enquanto ele limpava o sangue do queixo. Sua mente racional tentava categorizar a dor nas costelas fraturadas, mas a adrenalina viciava. — Eu devo estar com Sorte. Isso vai tirar o peso de ter que virar o jogo das costas de Ludmilla.
A palavra pairou no ar, pesada e tóxica. "Sorte".
O ambiente ao redor de Katsuragi mudou instantaneamente. A postura desleixada evaporou. O som irritante de mascar chiclete cessou. Ela não se moveu um milímetro, mas a pressão atmosférica na sala despencou, ficando mais pesada e fria do que qualquer gelo que Teth pudesse conjurar.
Katsuragi abriu os olhos completamente. A íris rosa-avermelhada brilhou com um ódio digital, fixando-se em Teth como uma mira laser.
— Sorte? — Ela repetiu a palavra, e soou como um palavrão. Os nervos em seu pescoço incharam. — Você acha que está vivo por causa de um dado rolando, herói?
Ela deu um passo à frente. O mármore sob sua bota não quebrou; ele se desintegrou em pixels pretos e roxos por um segundo antes de voltar ao normal.
— Eu odeio noobs que dependem de RNG. Se você é preguiçoso ao ponto de apostar sua vida em probabilidades... vamos ver como a sua preguiça lida com a minha.
Teth não esperou o discurso terminar. Sua aura explodiu.
— Calada! Não quero ouvir reclamações de nenhum de vocês! MORRAM! Escala de Teth: Gravidade x 100!
Ele estendeu a mão aberta na direção dela. A fórmula estava perfeita. A gravidade local deveria aumentar cem vezes sobre Katsuragi, esmagando-a como uma lata de refrigerante vazia. A magia ativou. O comando foi enviado ao tecido da realidade.
Mas o universo tropeçou.
Uma viga de sustentação do teto, feita de titânio e concreto, que resistira a explosões e terremotos durante toda a luta anterior, escolheu aquele exato milissegundo para atingir a fadiga crítica do material.
CRAAAACK!
A viga despencou com um estrondo metálico, caindo não sobre Katsuragi, mas exatamente na trajetória entre a mão de Teth e seu alvo. A onda gravitacional atingiu a viga. O metal gemeu e implodiu, absorvendo 100% do impacto do golpe de Teth, protegendo a Preguiça com uma coincidência impossível.
— O quê?! — Teth recuou, confuso. — Algo bloqueou minha linha de visão?!
— O que foi...? Achei que estava com sorte — zombou Katsuragi, parada no mesmo lugar, as mãos ainda enterradas nos bolsos da parka.
Teth rosnou, a frustração virando fúria cega.
— Já mandei ficar quieta!
Ele ativou a supervelocidade. O mundo ao redor dele ficou lento. Ele viu a abertura. Katsuragi estava com a guarda totalmente aberta, bocejando novamente. Ele só precisava de um passo para decapitá-la. Ele avançou. A técnica era perfeita. O ângulo era letal.
Seu pé direito tocou o chão para impulsionar o golpe final. Mas ali, invisível a olho nu, havia uma poça microscópica de óleo sintético que vazou de um drone destruído minutos antes.
A Lei de Katsuragi ativou. Atrito: Zero.
O pé de apoio de Teth deslizou violentamente. Não foi um movimento heroico. Foi patético. Foi uma casca de banana cósmica. O corpo do Cavaleiro, movendo-se em velocidade supersônica, perdeu o eixo completamente. A espada, destinada ao pescoço de Katsuragi, voou de sua mão descontrolada, girou no ar e atingiu um painel de alta voltagem na parede oposta.
ZZZZZT!
O painel explodiu em um chuveiro de faíscas cegantes bem na cara de Teth.
Um texto flutuante, vermelho e pixelado, apareceu brevemente sobre a cabeça do Cavaleiro, visível apenas para os "jogadores": [CONTADOR DE AZAR: 2 STACKS]
— AAAARGH! — Teth gritou, cegado e desequilibrado, tentando limpar os olhos enquanto cambaleava como um bêbado. — O que está acontecendo?!
— Conseguiu tirar um 2 no dado... vejo que, mesmo lutando contra mim, você não é do tipo que pensa o pior do inimigo... — respondeu Katsuragi, a voz vindo de cima. — Mas se continuar desse jeito, você não vai nem arranhar meu hitbox.
Ela não correu. Ela apenas aproveitou que ele estava se debatendo com o próprio azar. Com um movimento econômico e preguiçoso, ela chutou a parte lateral do joelho de Teth.
CRACK.
O som de ligamentos cruzados se rompendo foi audível em toda a sala.
— Essa é a Lei de Katsuragi, seu idiota.
Ela olhou para ele de cima, com desprezo absoluto, enquanto ele caía. A Habilidade de Katsuragi não era força bruta. Era probabilística. Se existisse 0,00001% de chance de você escorregar, falhar, engasgar com a própria saliva ou ter um derrame... num raio de dez metros dela, essa chance vira 100%.
Teth caiu de joelhos, urrando de dor e, pior, de vergonha. Tropeçar. Escorregar. Ter o golpe bloqueado por entulho. Aquilo não era uma batalha de guerreiros; era uma comédia pastelão sádica onde ele era a piada.
A humilhação quebrou algo dentro dele que a dor física não conseguira. A Marca Negra em seu peito pulsou violentamente, alimentando-se do constrangimento e da impotência.
— Eu... não sou... uma piada... Eu não... vou... PERDER!
A aura branca e pura de Teth foi contaminada instantaneamente por veios negros como piche. O gelo ao seu redor derreteu, transformando-se em vapor escaldante e tóxico. Seus cabelos brancos escureceram nas pontas, como se tivessem sido mergulhados em tinta nanquim. Sua silhueta física oscilou, os ossos estalando ao se reconfigurarem para uma forma mais esguia, mais feminina, mais distorcida.
Por puro azar, naquele dia, onde ele estava mais vulnerável emocionalmente, com raiva de Aslan e frustrado contra Katsuragi, ele perdeu o foco de seu grande segredo.
Teth desapareceu. Vav assumiu o controle.
— Termodinâmica Inversa: Inferno Entrópico!
A voz que saiu da garganta do Cavaleiro não era mais a masculina, suave e angelical. Era feminina, estridente e completamente insana.
O laboratório não pegou fogo; o laboratório tornou-se fogo. As leis da termodinâmica foram violadas. O calor não fluiu do quente para o frio; ele foi arrancado de cada átomo da sala e forçado a convergir em um único ponto.
Aslan recuou instantaneamente. O chão de ouro líquido subiu ao seu redor, solidificando-se em uma esfera perfeita de proteção, isolando-o do calor que derretia o aço das paredes. De dentro de seu bunker dourado, ele observava os dados nos seus óculos, fascinado.
— A marca o consumiu totalmente. Ele inverteu a polaridade da própria alma. De um Sonho de Gelo ordenado para um Pesadelo de Fogo caótico.
— Foi mal entregar o segredinho assim, Teth... mas contra ela, você não tem chance — zombou Vav, falando consigo mesma.
A tocha humana de ódio incandescente ergueu as mãos. A carne de seus braços estalava e queimava, mas ela não sentia dor, apenas a necessidade de purgar tudo.
— QUEIME!
Uma torrente de chamas brancas, quentes como o núcleo de uma estrela anã, foi disparada contra Katsuragi. O ataque cobriu todo o campo de visão. Não havia esquiva possível.
[Contador de Catástrofe: Nível 6]
Katsuragi nem tirou as mãos dos bolsos. Ela olhou para a onda de aniquilação vindo em sua direção e suspirou, entediada.
— Parece que trocaram o personagem do outro time. Que broken.
O fogo estava a um metro de incinerá-la.
Então, o universo decidiu pregar uma peça final. Um estilhaço de vidro da batalha anterior, impulsionado pela pressão do calor, voou aleatoriamente e atingiu o painel de controle do sistema de climatização do prédio. O estilhaço cortou um fio vermelho específico. O fio do limitador de rotação.
VRUUUUUM!
O sistema de exaustão de emergência do Pináculo, projetado para sugar gases tóxicos, inverteu a rotação das turbinas industriais no teto devido ao curto-circuito. Em vez de sugar, elas sopraram. Com a força de um furacão comprimido.
Um vendaval súbito e violento explodiu de cima para baixo, criando um vácuo instantâneo. A física fez o resto. A rajada de fogo de Vav, encontrando a resistência súbita do vento comprimido, foi empurrada violentamente de volta para a origem.
— MERDAAA!
Vav foi engolfada pelo seu próprio Inferno. As chamas brancas lamberam seu rosto, derretendo a armadura e carbonizando a pele que já estava ferida. Ela recuou, gritando, tentando apagar o fogo que ela mesma criara.
— Mas não ache que vai acabar assim! — A garota gritou, a voz distorcida pela dor. — Regeneração Carmim!!
As chamas subiram pelo corpo dela. Ela forçou seu fator de cura genérico a multiplicar as células para se recuperar. As células de Teth/Vav começaram a se dividir furiosamente para substituir o tecido queimado.
Mas o contador de Katsuragi ainda pairava sobre sua cabeça.
A probabilidade de uma célula se dividir incorretamente e gerar uma mutação é de uma em bilhões. Mas perto de Katsuragi?
— Não... o que é... isso?!
As células não se curaram. Elas entraram em pânico. O código genético corrompeu instantaneamente. Onde a pele deveria crescer lisa, um tumor ósseo irregular e pontiagudo irrompeu do ombro dela com um som molhado de carne rasgando.
CRACK-SQUELCH.
— AAAAAHHH!
Não parou por aí. A "cura" transformou-se em um câncer ultra-acelerado. O braço esquerdo inchou, transformando-se em uma massa pulsante de músculos desconexos e dentes crescendo fora da boca. Costelas cresceram para fora do peito, perfurando seus próprios pulmões.
Vav caiu de joelhos, vomitando um sangue negro e viscoso. Seu corpo estava em colapso biológico e estrutural, traído pela própria habilidade de sobreviver. Ela tentava se curar, e a cura a matava mais rápido, transformando-a em uma abominação de carne retorcida e tumores pulsantes.
Katsuragi caminhou até ela. O fogo ao redor da Preguiça se extinguia sozinho, as cinzas desviavam de seu rosto como se tivessem medo de tocá-la. Sua jaqueta ainda caía do ombro. Seu chiclete ainda estava intacto. Ela não tinha um arranhão. Sua "armadura" era a própria estatística. Ela era um tanque que dobrava a realidade apenas por existir.
Ela parou diante da massa de carne agonizante.
— Então... repete pra mim, quem era mesmo que estava com sorte? — disse ela, olhando para a criatura se contorcendo enquanto seus ossos se reorganizavam dolorosamente.
Ela estourou outra bola de chiclete. Ploc.
— Enquanto você depender de variáveis invisíveis, saiba que não tem chance contra mim. Dá Alt+F4 logo e poupa meu tempo.
Katsuragi agarrou Aslan, que desfizera sua esfera de ouro, pelo colarinho do jaleco com a casualidade de quem pega uma sacola de lixo.
— Vamos dar o fora. — Ela olhou para o ar acima da criatura agonizante. — O contador de glitch dele passou de 8 stacks. O servidor vai cair.
— Espere! — Vav estendeu a mão, ou o que restava dela. O membro deformado, agora uma maçaroca de ossos extras e carne tumoral, tremia no ar. — Eu... sou... um Pesadelo... eu não...
O número digital vermelho acima de sua cabeça pulsou, iluminando o laboratório destruído com uma luz de emergência estroboscópica.
Katsuragi nem olhou para trás. Ela arrastou Aslan para a borda da varanda destruída.
— Tarde demais. Game Over.
Ela saltou para o vazio da noite de Crisopeia, levando o cientista consigo, desaparecendo na escuridão urbana antes que o primeiro dominó caísse.
Vav ficou sozinha no topo do Pináculo do Axioma. Ela tentou se mover, mas seu pé prendeu em um cabo solto. Ela tentou gritar, mas a fumaça tóxica de seu próprio corpo engasgou sua garganta. Sobre sua cabeça, o contador girou como uma máquina caça-níqueis viciada, parando no número final.
Não foi um ataque de Katsuragi. Ela já estava longe. Foi uma coincidência matemática de proporções bíblicas.
Nas profundezas do laboratório, três eventos desconexos alinharam-se com uma precisão de uma em um trilhão:
Uma gota do sangue ácido e mutante de Vav pingou através das rachaduras de três andares e caiu exatamente dentro da válvula de resfriamento do Reator de Alquimia do prédio.
A vibração estrutural causada pela queda anterior de Teth atingiu a frequência de ressonância exata do cristal de Éter que alimentava a torre.
Um pássaro noturno, assustado pelo barulho, colidiu com o para-raios externo, enviando uma descarga estática para o sistema instável.
Click. Click. Click. O universo alinhou o Jackpot da destruição.
O Reator não explodiu para fora. A polaridade da alquimia foi invertida pela acidez do sangue de Pesadelo.
BOOOMMM.
O som não foi de uma bomba, mas de um deus engasgando. O Pináculo do Axioma, uma maravilha de trezentos andares de mármore e ouro, implodiu. O chão sob a torre simplesmente deixou de existir, abrindo-se em uma ravina que se expandia devorando tudo.
A estrutura colapsou sobre si mesma com uma violência geométrica. Vidro, concreto, aço e carne foram puxados para o abismo. O Distrito do Orgulho tremeu quando a fundação da torre cedeu, arrastando quarteirões inteiros para dentro da cratera que se abriu como a boca faminta do inferno.
A calamidade engoliu Vav. Ela viu o teto descer. Viu o chão subir. Sentiu a pressão de milhões de toneladas de escombros convergindo para o seu corpo mutante. Ela sobreviveria — sua biologia híbrida era uma praga tenaz — mas estava presa, esmagada, enterrada viva.
Derrotada não por um guerreiro melhor, mas porque a física, a química e a biologia decidiram conspirar unidas contra ela.
Longe dali, em um telhado seguro a quilômetros de distância, o vento da implosão despenteou o cabelo curto de Katsuragi. Ela aterrissou suavemente, soltando Aslan, que olhava para onde seu laboratório costumava estar com uma expressão de horror calculado.
Katsuragi enfiou a mão no bolso da parka e pescou um novo chiclete, desembrulhando-o com calma enquanto a nuvem de poeira em forma de cogumelo subia ao fundo, iluminada pelos relâmpagos da destruição.
— Tsk. — Ela colocou o chiclete na boca e cruzou os braços, observando o fim do orgulho de Aslan. — Acho que exagerei.
Parte 10
A fronteira entre os Reinos não era uma linha desenhada em papel; era uma ferida aberta na anatomia da realidade.
Ludmilla e Eliza cruzaram o último marco. Atrás delas, a barreira de luz prismática de Éden zumbia, um som de estática branca, seguro e estéril. À frente, Gehenna se estendia como o cadáver de um deus em decomposição.
A chuva não era água. Era um óleo negro e viscoso que caía do céu cor de hematoma, tamborilando na armadura de Ludmilla com um som pesado e gorduroso.
A Valquíria não recuou. Seus olhos azuis varreram o horizonte tóxico não com nojo, mas com a precisão fria de um general inspecionando um campo de batalha recém-conquistado. Ela inspirou fundo, sentindo o gosto de ferrugem e magia velha na língua.
— O ar aqui não é apenas poluído; é hostil — comentou Ludmilla, limpando uma gota de piche da bochecha. — Sinto a tensão na atmosfera. O Éter deste lugar está vibrando em uma frequência alta demais, como uma corda de violino prestes a estourar no rosto do músico.
Eliza caminhava ao lado dela, os ombros encolhidos sob um capuz improvisado de tecido sintético que trouxera da Cidade de Cristal. Ela mantinha os olhos baixos, evitando as sombras que pareciam se alongar para agarrar seus tornozelos.
— Bem-vinda a casa — murmurou Eliza, sem um pingo de ironia, a voz abafada pelo tecido. — O ar sempre teve gosto de desespero aqui. Mas você tem razão... hoje parece pior. Parece que o chão está prendendo a respiração.
— Ótimo. — Ludmilla sorriu. Não foi um sorriso gentil, mas uma lâmina desembainhada. — O caos é uma escada, Eliza. Se nossos inimigos estiverem ocupados se matando ou sufocando na própria tensão, nosso trabalho de coletar as Coroas se torna uma simples operação de limpeza.
Ela ergueu o pulso esquerdo. O dispositivo que Saga lhe dera projetou um mapa holográfico no ar úmido, os ícones brilhando em neon azul contra a escuridão.
— Temos cinco alvos principais no tabuleiro, segundo a inteligência daquela Santa, Irene: Avareza, Inveja, Ira, Luxúria e Orgulho. — Ludmilla girou o mapa com o dedo. — Avareza e Inveja são instáveis, territoriais demais. Mas o Orgulho...
O dedo de Ludmilla parou sobre o ícone dourado e imponente de Crisopeia, a leste.
— Aslan Morningstar. Ex-Cavaleiro Real. O estrategista mais perigoso e o dono da maior fortaleza tecnológica deste reino. Se derrubarmos a Torre dele primeiro, enviamos uma mensagem de choque para todo o sistema. Cortamos a cabeça da cobra, e o resto do corpo se debate. O que acha?
Eliza estremeceu, abraçando os próprios braços.
— Aslan é... complicado. Ele não luta como os outros Lordes. Ele não te bate; ele te disseca. O laboratório dele é impenetrável, Ludmilla. As defesas do Pináculo do Axioma são absolutas. Chegar lá já seria suicídio, derrubá-lo seria...
VROOOOM.
A frase morreu na garganta de Eliza.
Não foi um som que elas ouviram; foi um som que elas sentiram nos ossos.
O chão sob as botas delas não apenas tremeu; ele saltou. Uma onda de choque invisível, propagando-se através da crosta geológica de Gehenna a velocidades supersônicas, atingiu-as com a força física de uma parede de vento sólido.
— Segura!
Ludmilla reagiu por instinto de guerra. Ela sacou sua espada e a cravou profundamente na lama petrificada para se ancorar, agarrando Eliza pelo braço com a mão livre antes que a garota fosse arremessada.
Ao redor delas, o mundo gritou. Árvores de madeira negra, petrificadas há séculos, racharam ao meio como palitos de dente. Bandos de pássaros mutantes levantaram voo das copas mortas em nuvens de pânico, grasnando histericamente enquanto o ar se tornava rarefeito.
— Um terremoto?! — Ludmilla gritou para ser ouvida sobre o rugido das placas tectônicas rangendo. — Gehenna tem falhas sísmicas ativas?!
— Não! Isso não é geológico! — Eliza gritou de volta, os olhos arregalados de puro terror, fixos no horizonte leste. — Olha! Pelo amor dos Deuses, olha aquilo!
Ludmilla seguiu o olhar dela.
Muito longe, a quilômetros de distância, exatamente na direção onde o mapa indicava a localização soberana de Crisopeia, o céu havia mudado de cor.
Uma coluna titânica de poeira, luz dourada e destroços subia aos céus, perfurando as nuvens de óleo como um gêiser do apocalipse. Mesmo daquela distância, era possível ver a silhueta da torre-agulha — o orgulho inabalável de Gehenna — dobrando-se, implodindo e sendo sugada para dentro da terra.
A onda de choque passou, deixando para trás um vácuo de silêncio, onde apenas o zumbido nos ouvidos delas permanecia.
Eliza caiu de joelhos na lama, as pernas cedendo.
— O Distrito do Orgulho... — ela sussurrou, a voz trêmula, incapaz de processar a escala visual da destruição. — O Pináculo do Axioma... ele simplesmente sumiu.
Ludmilla se ergueu lentamente, arrancando a espada do chão. O rosto dela estava sujo de lama, mas sua expressão era de choque absoluto.
Ela olhou para o mapa holográfico em seu pulso, que tremeluzia com estática. O ícone dourado de Crisopeia piscou uma vez. Duas vezes. E então se tornou vermelho-sangue, substituído por um símbolo de alerta piscante:
[ÁREA DE CALAMIDADE - SINAL PERDIDO]
— Nós nem sequer sacamos as armas... — Ludmilla murmurou, uma mistura de incredulidade e um respeito tático sombrio em sua voz. — Estávamos aqui planejando como derrubar o Rei do tabuleiro... e alguém acabou de virar a mesa inteira antes de chegarmos.
Ela olhou para Eliza, que tremia no chão.
— Quem mais em Gehenna tem poder bélico para apagar uma cidade fortificada do mapa em segundos? Kiara?
Eliza balançou a cabeça freneticamente, atordoada.
— Kiara é forte, mas isso... isso foi destruição estrutural total. Não parece um ataque mágico, Ludmilla. Parece o trabalho de uma catástrofe natural. Ou... — Ela engoliu em seco, olhando para a nuvem de cogumelo no horizonte. — ...ou o trabalho de alguém que carrega a catástrofe no bolso.



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