The Fall of the Stars: Capítulo 4 - O Inverno da Ira & A Cauda do Diabo
- AngelDark

- 10 de fev.
- 66 min de leitura
Atualizado: 11 de fev.
Volume 10 : Laços de Sangue
Parte 1
A prisão de Yuki não tinha grades de ferro enferrujado ou lasers mortais. O horror ali era feito de seda, brocado de ouro e uma hospitalidade aterrorizante.
Ela estava sentada na borda de uma cama com dossel, macia demais, que parecia ter sido vomitada por um conto de fadas distorcido. O quarto, situado em uma ala isolada do Castelo Real da Cidade Meia-Noite, era um insulto de luxo. Bandejas de prata com frutas que nunca apodreciam, vestidos de tecidos que custariam o PIB de um país pequeno e uma vista deslumbrante... bloqueada por uma parede de energia sólida que zumbia suavemente na varanda.
— "Filha"...
Yuki sussurrou a palavra para o quarto vazio. O som saiu com gosto de bile. Um arrepio de repulsa, frio e oleoso, percorreu sua espinha.
Não era medo de morrer. Era o nojo instintivo de quem percebe que está sendo colecionada. Ela só vira o Rei dos Sonhos uma vez, logo após ser capturada. Ele não a interrogou. Não a torturou. Ele apenas a olhou com uma ternura possessiva, como quem encontra uma boneca antiga perdida no sótão, e disse aquela única palavra.
"Isso vai ser um problema...", pensou ela, abraçando os próprios joelhos contra o peito. "Ele me confundiu com alguém importante. Talvez com alguma reencarnação, ou sei lá. Mas quando perceber que sou apenas eu... uma humana comum e sem graça..."
Ela olhou para os pulsos.
Algemas delicadas, esculpidas em um metal branco que imitava marfim, prendiam suas mãos. Eram bonitas, adornadas como joias, mas pesadas como chumbo. E o pior: funcionavam como isolantes perfeitos. Bloqueavam completamente seu fluxo de elétrons. Sem elas, Yuki era uma tempestade ambulante; com elas, era apenas uma garota colegial vestida com roupas estranhas.
Yuki fechou os olhos, respirando fundo. O pensamento intrusivo, o fantasma que sempre a assombrava, sussurrou em seu ouvido:
"Se fosse a minha irmã, ela já teria seduzido o guarda, explodido a parede e feito um discurso heroico."
Sua irmã era incrível. Carismática. A protagonista da própria vida. Yuki? Yuki era a NPC. A personagem de fundo que aparece na cena do café da manhã e some. Ninguém viria montar uma operação de resgate complexa por ela. Na cabeça de Yuki, ela não valia o esforço logístico.
— Eu tenho que fazer isso sozinha — murmurou ela. A voz saiu baixa, não heroica, mas carregada de uma teimosia ranzinza. — Não vou ficar aqui esperando algum príncipe encantado ou um velho pervertido decidirem meu destino.
Ela analisou as algemas sob a luz do lustre de cristal. O metal era imune à força bruta, e não havia fechadura visível. Mas havia uma falha de design: uma folga milimétrica no pulso esquerdo, onde o "marfim" era um pouco mais largo.
— Odeio esse tipo de coisa... — ela reclamou, franzindo a testa com irritação genuína. — Mas odeio ainda mais a ideia de dever algo a alguém.
Yuki respirou fundo três vezes. Não houve hesitação dramática, apenas uma aceitação estoica e fria da dor necessária.
No três, ela prendeu o polegar esquerdo contra a palma da mão e puxou com violência, contra a anatomia natural.
CRACK.
O som do osso desencaixando foi seco, abafado e nauseante no silêncio do quarto.
Yuki não gritou. Ela apenas trincou os dentes e mordeu o lábio inferior com força suficiente para sentir o gosto metálico de sangue. Seus olhos encheram-se de lágrimas involuntárias, mas sua expressão permaneceu inalterada, quase entediada, como se a dor fosse apenas um inconveniente administrativo.
— Tsk.
Com a articulação deslocada, a mão ficou antinaturalmente estreita. O suor frio brotou em sua testa instantaneamente. Tremendo levemente, ela começou a deslizar a mão através do aro de marfim.
A pele rasgou. O metal raspou no osso exposto da articulação. Foi uma agonia lenta e atritosa.
Clinc.
A algema esquerda caiu sobre o edredom macio. Livre.
Yuki não perdeu tempo comemorando ou massageando o pulso. Com um movimento rápido, brutal e prático, ela agarrou o polegar deslocado com a mão direita e puxou.
CLACK.
O osso voltou para o lugar. Ela soltou um gemido sibilado, sacudindo a mão no ar para dissipar a dor latejante que irradiava até o ombro.
— Odeio isso. Odeio muito isso.
Ela limpou o suor da testa. Seus olhos, antes opacos e tímidos, ganharam um brilho perigoso. A "NPC" havia saído do script.
— Agora... — Ela olhou para a porta trancada. — Vamos ver o quão "seguro" é esse castelo de brinquedo.
Sem o inibidor em uma das mãos, o circuito interno estava fechado. Pequenas fagulhas azuis começaram a dançar entre seus dedos, estalando como chicotes microscópicos. O cheiro de ozônio queimado começou a competir com o perfume das flores.
Yuki caminhou até a porta e tocou a fechadura eletrônica — um mecanismo rúnico complexo, movido a cristal de Éter.
— Eu não sei magia... — ela sussurrou, encostando a testa na madeira fria da porta, concentrada. — Mas eu sei que tudo, no fim das contas, é conduzido por ondas. E se tem uma coisa que me irrita, é gente que tranca os outros como se fossem bonecas de coleção.
Seus dedos vibraram. Ela não tentou abrir a fechadura; ela a sobrecarregou.
ZZZTT!
Uma descarga eletromagnética precisa, cirúrgica, fritou o núcleo da runa. A magia colapsou sob a física bruta. A porta destravou com um clique suave e derrotado.
Yuki abriu uma fresta. O corredor estava vazio, mas sua audição captou o som rítmico e pesado de passos metálicos — Guardas de Cristal — dobrando a esquina distante.
Ela não correu. Yuki sabia que não era a heroína de ação. Ela deslizou para fora, colada às paredes, movendo-se com um silêncio absoluto. Sua postura era defensiva, encolhida, os olhos varrendo cada sombra, cada reflexo no chão de mármore polido.
O corredor era um labirinto de branco e ouro, iluminado por lustres flutuantes que imitavam estrelas. Tudo era perfeito demais. Simétrico demais. Limpo demais.
"Esse lugar me dá nos nervos", pensou Yuki, franzindo o nariz em desgosto. "Parece o tipo de cenário que um vilão com TOC construiria. Eca. É estéril como um hospital."
Fugindo de uma patrulha de autômatos que marchava em perfeita sincronia, ela encontrou uma porta de serviço entreaberta. Yuki se esgueirou para dentro, encontrando uma escadaria estreita de pedra bruta que descia em espiral.
À medida que ela descia, a atmosfera mudou drasticamente.
O mármore branco imaculado deu lugar a tijolos de pedra negra, úmida e antiga. O cheiro enjoativo de flores e limpeza foi substituído por um odor de terra molhada, mofo e... algo metálico. Cobre. Sangue seco.
Yuki parou no final da escada. O "hospital de luxo" havia ficado para trás.
A iluminação ali embaixo não vinha de lustres estelares, mas de tochas espaçadas que queimavam com um fogo-fátuo verde e doentio. As sombras eram longas e pareciam se mexer sozinhas. A mudança drástica a fez hesitar por um segundo.
— Onde eu vim parar? — ela sussurrou, a voz ecoando levemente.
Então, ela sentiu. Um zumbido familiar na base do crânio. Uma atração magnética que ela reconheceria em qualquer dimensão.
— Droga... — Um sorriso nervoso, mas determinado, tocou seus lábios. — Tô sentindo minha lança. Ela está em algum lugar aqui embaixo.
Yuki ergueu a mão livre. Ela estalou os dedos, criando uma esfera estável de eletricidade estática entre o polegar e o indicador. A luz azulada iluminou seu rosto pálido, revelando não o medo da garota capturada, mas a teimosia da sobrevivente.
— Vamos ver o que o "Papai" esconde no porão... — ela murmurou, avançando para a escuridão com sua lanterna improvisada. — Tenho a sensação de que a decoração aqui embaixo combina muito mais com a alma dele.
Parte 2
A escadaria em espiral não terminou em um corredor; ela morreu em uma garganta de pedra.
O ar ali embaixo era uma entidade física. Pesado, oleoso e impregnado com o odor ferroso de sangue seco misturado à ferrugem de séculos. Era o cheiro da estagnação, de coisas deixadas para apodrecer no escuro.
Yuki cobriu o nariz com a manga da blusa escolar, franzindo o rosto. A pequena esfera de eletricidade entre seus dedos tremeluziu, reagindo à densidade opressiva do éter naquele lugar. Não havia mais o mármore branco ou o ouro insultuoso dos andares superiores. As paredes eram de rocha bruta, não lapidada, úmidas e escorrendo um lodo escuro que parecia chorar.
Ela caminhou com cautela, o coração batendo um ritmo frenético contra as costelas. A cada passo, a escuridão parecia se fechar atrás dela.
No final do corredor, a arquitetura mudou. Ela encontrou uma cela.
Diferente de tudo no castelo, não havia barreiras de luz sólida, runas de contenção ou tecnologia elegante. A prisão ali era brutalmente analógica.
Grossas correntes de ferro negro, cada elo da espessura de um braço humano, brotavam da parede de pedra como raízes metálicas. Elas terminavam em ganchos e pinças cruéis que não apenas prendiam, mas perfuravam a carne de dois prisioneiros, mantendo-os suspensos a meio metro do chão frio.
Yuki engoliu em seco, paralisada. A cena era medieval.
Os corpos estavam imóveis, cobertos por camadas geológicas de poeira cinza e teias de aranha espessas. O sangue ao redor das perfurações dos ganchos não era líquido; o tempo o transformara em um pó de ferrugem vermelha que cobria o chão abaixo deles como areia em uma ampulheta quebrada.
"Estão mortos", concluiu Yuki, sentindo um misto de horror e alívio. "Devem ser troféus antigos do Rei. Que tipo de doente mantém cadáveres acorrentados no porão como decoração?"
Ela tentou passar pela cela na ponta dos pés, os olhos desviando das figuras macabras, focada na atração magnética de sua lança que pulsava na sala seguinte. Mas, ao desviar de uma poça de lodo negro, a sola de borracha de seu sapato raspou em uma pedra solta.
Scrrreeech.
O som ecoou no silêncio sepulcral como um tiro de canhão.
Yuki congelou. O eco morreu, mas o silêncio que voltou parecia diferente. Carregado.
— Zahahaha...
A risada começou baixa, rouca, tectônica. Era o som de pedras sendo moídas em um terremoto profundo.
Um dos "cadáveres" — um homem corpulento, uma montanha de músculos atrofiados sob uma barba desgrenhada e cabelos que tocavam a cintura — moveu a cabeça.
A poeira caiu de seus ombros em uma cascata cinza, revelando a pele morena e cicatrizada. Ele abriu um olho. Não havia o brilho místico e polido dos Sonhos. Não havia a fenda vertical e predatória dos Pesadelos. Era um olho escuro. Humano. Brilhando com uma vitalidade insana e uma fome que não deveria existir naquele corpo torturado.
— Olha só... — A voz dele era um trovão contido, arranhando uma garganta que não falava há décadas. — Visita nova! E cheira a... ozônio?
Yuki recuou instintivamente. A fagulha em seus dedos estalou, transformando-se em pequenos arcos voltaicos defensivos.
— Quem é você? — ela perguntou. Sua voz tremeu, mas ela manteve a postura.
Ela analisou a criatura. Ele irradiava perigo. Mesmo preso, mesmo imóvel, ele tinha a gravidade de um desastre natural.
— Você é um Sonho? Um Pesadelo? — Yuki listou as únicas categorias que conhecia naquele mundo louco. — Se for um Pesadelo, eu aviso que não tenho medo de fritar o que restou de você.
O homem piscou, processando a ameaça. E então, jogou a cabeça para trás.
— ZAHAHAHAHAHA!
A gargalhada explodiu, fazendo as correntes de ferro chacoalharem violentamente. O som reverberou nas paredes de pedra, quase ensurdecedor, uma celebração de caos no meio do túmulo.
— "Sonho ou Pesadelo"... — ele repetiu, limpando uma lágrima de poeira do canto do olho. — Essa é a segunda vez que uma garota me pergunta isso. A ignorância de vocês é encantadora!
Ele fixou o olhar nela novamente. Um sorriso largo, cheio de dentes quebrados e amarelados, mas estranhamente carismático, rasgou seu rosto sujo.
— Não, querida. Eu não sou nenhum desses deuses de plástico ou monstros de armário que brincam de casinha lá em cima. Eu sou carne e osso. Eu sou ambição e pecado.
Ele estufou o peito perfurado pelos ganchos, ignorando a dor, exibindo as cicatrizes como medalhas.
— Eu sou Humano. Killian Landry.
O mundo de Yuki parou por um segundo.
— Humano? — ela sussurrou, o choque derrubando sua guarda.
Ela achava que era uma anomalia. Mas aquele homem... a camada de poeira sobre ele dizia que ele estava ali há séculos.
Killian observou a confusão dela com interesse predatório.
— Você é uma fugitiva, "Garota da Tempestade" — constatou ele, olhando para o pulso inchado e sem algemas dela. — Gostei do olhar. Tem fome nos seus olhos. Fome de vida. Medo de morrer.
Ele se inclinou para a frente o máximo que as correntes permitiam. O metal gemeu sob a tensão.
— Vamos fazer um acordo. Você quebra esses brinquedos de ferro que me prendem... e eu tiro você daqui. Eu posso te dar tudo o que você quiser. Ouro, poder, a cabeça do Rei em uma bandeja... é só me soltar.
A proposta pairou no ar, pesada e tentadora. Yuki olhou para as correntes, depois para os olhos famintos de Killian. Havia algo nele... uma força gravitacional. Ele parecia um buraco negro de desejo e violência contida.
— Não.
A resposta de Yuki foi seca, imediata e cortante.
Killian parou de sorrir por um segundo. Ele inclinou a cabeça, curioso.
— Não?
— Você é suspeito demais. — Yuki cruzou os braços, a expressão de repulsa voltando ao rosto. — Um humano preso no calabouço de segurança máxima do Rei? Vivo depois do próprio sangue ter virado pó no chão? Você é perigoso. E eu não sou burra.
Ela deu um passo calculado para trás, em direção à saída.
— Eu vou sair daqui sozinha.
Houve um segundo de silêncio absoluto. A tensão no ar poderia cortar vidro. E então, Killian Landry riu de novo. Mais alto. Mais forte.
— ZAHAHAHAHA!
— Esperta! — gritou ele, batendo os pés acorrentados no chão com aprovação genuína. — Ninguém nunca aceita de primeira! É isso aí, garota! Desconfie de tudo! A ganância cega os fracos, mas a cautela preserva os fortes!
Yuki piscou, confusa. Ela esperava raiva, ameaças ou súplicas. Mas ele estava... se divertindo? Ele falava como se a recusa dela fosse a melhor piada que ouvira em anos.
Killian relaxou nas correntes, balançando levemente.
— Eu não entendo bem como esse mundo de vocês funciona hoje em dia, garota. Mas, antigamente, tinha alguém que adorava vir aqui embaixo ficar conversando comigo. Por causa dela, acabei me interessando um pouco por essa coisa de "guerra" como passatempo.
Ele olhou para ela com a curiosidade de quem assiste a uma rinha de galos.
— Me diga: o que você é? Sonho? Pesadelo? E qual lado está ganhando o jogo lá em cima?
Yuki suspirou, a luz elétrica em sua mão estabilizando. Ela olhou nos olhos daquele prisioneiro eterno, sentindo uma estranha, e terrível, conexão.
— Sinto muito em estragar sua diversão... mas eu também sou humana.
O sorriso de Killian travou. Pela primeira vez desde que abrira os olhos, a máscara de diversão maníaca caiu. O prisioneiro olhou para a garota, realmente olhou, despindo a aura dela com o olhar.
Aquele não era o olhar de quem achou uma piada engraçada. Era o olhar de um homem solitário que, pela primeira vez em séculos, encontrou um reflexo no espelho.
Parte 3
Yuki deu as costas para a cela, decidida. A conversa com aquele prisioneiro maluco já tinha durado tempo demais, e cada segundo gasto ali era um convite para os guardas de cristal a encontrarem.
Ela começou a vasculhar as paredes de pedra opostas, tateando o musgo úmido em busca de qualquer indicação de uma sala de guarda ou depósito. O zumbido magnético em sua nuca estava ficando mais forte. Sua lança estava perto.
— Ei!
A voz de Killian ecoou pelo corredor, perdendo o tom zombeteiro e ganhando uma urgência rouca.
— Não me ignore, garota! Eu não converso com um humano há... nem sei quanto tempo. Minha garganta está enferrujada, mas minha curiosidade não.
Yuki continuou andando, ignorando-o.
— Estou ocupada tentando não morrer. Conversa fiada não abre portas.
— Como você veio parar aqui? — Killian insistiu, a voz arranhando as pedras. — A barreira entre os mundos foi quebrada? Os Portões do Jardim caíram sob o peso do nosso exército?
Yuki parou. Ela bufou, irritada, mas a pergunta era específica demais para ser ignorada. Ela respondeu sem se virar:
— Eu não sei de portão nenhum. Um dia eu estava no quarto de um amigo... o Dante... tentando acordar ele de um pesadelo idiota. No outro, eu estava aqui, sendo vestida de boneca por um Rei maluco com complexo de pai.
— E a Guerra? — Killian perguntou, a voz baixando um tom, carregada de uma gravidade antiga e solene. — Como está a Guerra Divina? A Humanidade contra os Deuses?
Yuki franziu a testa e olhou para trás por cima do ombro, iluminando o rosto sujo do prisioneiro com sua lanterna elétrica.
— Do que você está falando?
— A Guerra Celestial. A Grande Rebelião. — Os olhos de Killian brilhavam na escuridão, febris. — Nós estávamos perdendo terreno quando eu fui... retirado do tabuleiro. Mas se você está aqui, livre e armada com essa insolência, significa que ainda estamos lutando, certo?
Yuki olhou para ele como se ele tivesse acabado de perguntar se os dinossauros ainda governavam a Terra.
— De que museu você fugiu? — Ela soltou uma risada incrédula e nervosa. — A "Guerra Celestial"? Isso é lenda antiga. Coisa de livro de história empoeirado. Aconteceu há eras, velhote. Ninguém luta contra deuses hoje em dia; a gente mal consegue pagar as contas e sobreviver aos monstros que aparecem no noticiário.
O rosto de Killian caiu. A vitalidade insana vacilou, como uma vela soprada por um vento frio.
— Eras...? — ele sussurrou, a palavra pesando toneladas em sua boca. — Em que ano nós estamos?
Yuki deu de ombros, impaciente.
— Calendário Unificado? 20.018.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Killian Landry, o homem que ria da própria desgraça e desafiava reis, parecia ter levado um soco físico no estômago. Ele recostou a cabeça na parede fria, o olhar perdido no teto de pedra.
— Vinte mil... — Ele engoliu em seco. — Vocês sobreviveram. Aquelas baratas teimosas... a humanidade sobreviveu por tanto tempo...
Um sorriso lento, orgulhoso e infinitamente triste, curvou os lábios rachados dele.
— Eu deveria ter acreditado mais na Kiara quando ela disse que o tempo não existia em Morpheus.
Yuki sentiu um arrepio na espinha ao ouvir o nome novamente.
— Kiara... — ela repetiu. — Acho que ouvi sussurros sobre esse nome pelos corredores... E sobre o tempo... quando cheguei aqui, os dias pareciam durar semanas. Eu nunca sentia sono. Mas recentemente... o sol começou a se pôr de verdade. O tempo voltou a correr.
Ela balançou a cabeça, focando no presente.
— Olha, papo furado sobre história não vai me tirar daqui. Eu preciso achar minhas coisas.
Killian a observou por um momento, avaliando-a. Havia algo na tenacidade daquela garota, naquela humanidade teimosa e pragmática que sobrevivera por vinte mil anos, que o agradava profundamente.
— Atrás da minha parede — disse ele, apontando com o queixo barbudo para o fundo de sua própria cela.
Yuki estreitou os olhos, desconfiada.
— O quê?
— O arsenal privado do castelo — explicou Killian. — Fica logo atrás dessa parede de pedra falsa. É protegido por magia de ocultação de alto nível, mas a chave física é estúpida, feita para a conveniência do Rei. Puxe a terceira tocha da esquerda no corredor.
Yuki hesitou, a mão pairando no ar.
— Por que está me ajudando? Achei que você fosse um vilão.
— Eu sou um homem de ambição, garota. Zahahhaah. — Killian sorriu, mostrando os dentes amarelos. — E ver uma humana de 20.018 chutar a bunda desses Sonhos arrogantes... isso alimenta minha alma mais do que qualquer comida. Vá.
Yuki ainda estava desconfiada. "Deve ser uma armadilha", pensou ela. Mas a atração magnética de sua lança pulsava, gritando, exatamente naquela direção. Era um farol.
Ela caminhou até a tocha indicada. Respirou fundo, preparou uma descarga elétrica caso algo saltasse nela, e puxou.
Click. Rrrrrumble.
Uma parte da parede de pedra, adjacente à cela de Killian, deslizou para o lado com um som de pedra moída, revelando uma câmara escura e fria.
Yuki entrou. Não era um depósito de vassouras. Era um cofre.
Havia espadas de cristal que brilhavam com luz própria, escudos de energia sólida e cajados que zumbiam com magia pura. Mas os olhos de Yuki ignoraram tudo isso. No centro da sala, jogada sobre uma mesa de pedra negra como se fosse um troféu incompreendido, estava ela.
— Schneesturm.
A lança era uma obra de arte letal. Branca como a neve virgem, com detalhes em ouro que percorriam a haste como veias divinas. Não parecia feita de metal, mas de algum material cerâmico avançado, indestrutível e antigo.
Assim que os dedos de Yuki tocaram a arma, uma descarga estática azul estalou violentamente, iluminando a sala como um relâmpago engarrafado.
A lança vibrou, cantando ao reconhecer o toque de sua dona. A sensação de impotência, de ser uma boneca, desapareceu instantaneamente. Com aquela arma em mãos, Yuki não era uma prisioneira; ela era um desastre natural esperando para acontecer.
Ela girou a lança com uma destreza assustadora, sentindo o peso familiar, e saiu do arsenal, a ponta da arma deixando um rastro de faíscas no chão.
Killian estava esperando, o pescoço esticado o máximo que as correntes permitiam para ver o que ela trazia. Quando seus olhos pousaram na lança branca e dourada, a postura relaxada dele desapareceu. Seus olhos humanos se arregalaram, e o sorriso brincalhão morreu na hora.
— Isso... — Killian sussurrou, a voz carregada de um respeito temeroso que ele não mostrara nem pelo Rei. — Isso não é uma arma comum. É uma das Armas do Apocalipse.
Ele olhou para Yuki com novos olhos. Não como uma garota perdida, mas como uma portadora do Fim.
— Onde você conseguiu isso, garota de 20.018?
— Ganhei de presente — respondeu Yuki, seca, sem querer entrar em detalhes sobre como a lança foi parar com ela. — Agora eu vou embora.
— Espere! — Killian gritou. A voz dele tremeu de antecipação e de uma ideia insana.
Ele olhou para a lança, depois para as correntes de ferro negro que o prendiam há séculos, correntes forjadas por deuses para segurar titãs. Aquela arma... aquela lança branca... ela tinha o poder conceitual de perfurar e destruir o nome das coisas.
— Vamos fazer um novo acordo — disse Killian, a voz rouca e mortalmente séria. — Esqueça o ouro. Esqueça o poder.
Ele olhou nos olhos dela, intenso.
— Com essa lança... você pode cortar até mesmo essas correntes divinas. Nada desse mundo podia fazer isso, nem a magia do Rei. Mas essa lança... ela pode. Ela foi feita para quebrar o inquebrável.
Yuki parou. Ela segurou a lança com força, os nós dos dedos brancos.
— E por que eu faria isso? Você mesmo disse que é perigoso.
— Qual é... que tal uma ajuda a essa relíquia velha esquecida pelo tempo? — pediu Killian, mudando o tom para algo mais persuasivo. — Como eu disse, antigamente uma garota chamada Kiara vinha me fazer visitas e me contou muitas coisas sobre a estrutura desse mundo. Se realmente quiser voltar para a Terra, você sabe que vai precisar de um guia. Você não sabe onde está a saída. Eu sei.
Ele viu a hesitação nela. Viu que, por baixo da casca grossa, ela era honrada demais para simplesmente virar as costas depois de receber a dica do arsenal.
— Me solte, garota da tempestade. E em troca... — Os olhos de Killian escureceram com uma promessa de violência absoluta. — ...eu não vou apenas te tirar daqui. Eu vou subir lá em cima e matar o Rei dos Sonhos para você.
Yuki travou. Matar o Rei? Aquele ser que parecia uma galáxia viva? Ela olhou para o homem sujo, acorrentado e louco à sua frente. Ele não parecia estar blefando. Ele falava de deicídio como quem fala de cortar lenha para o inverno.
Ela não queria vingança. Ela só queria ir para casa. Mas Killian estava certo em uma coisa: ela odiava dever favores. E aquele homem, por mais assustador que fosse, tinha lhe dado a chave para sua sobrevivência.
Ela apertou o cabo de Schneesturm. A eletricidade crepitou, ansiosa. Soltar um monstro antigo para se salvar de um deus louco? Parecia exatamente o tipo de má decisão que sua irmã tomaria em uma terça-feira.
— Se você tentar me matar depois disso... — Yuki avisou, apontando a lâmina branca para o peito dele, a ponta brilhando com mil volts de ameaça. — Eu juro que te frito até você virar carvão de churrasco.
Killian sorriu. O sorriso do diabo que acabou de ver a porta do inferno se abrir.
— Trato feito.
Parte 4
O Distrito da Ira não queimava; ele congelava.
Contrariando todas as lendas humanas sobre o inferno ser um lago de fogo eterno, o território da Lorde Satan era um deserto de inverno nuclear. O vento não soprava; ele cortava, uivando como um coro de almas condenadas, arremessando lâminas de óleo congelado contra a roupa de inverno do Príncipe.
A caçadora humana avançava com dificuldade, mas sem hesitação. A neve negra chegava aos seus joelhos, uma lama tóxica e semissólida. No entanto, para o "Caçador Perfeito", aquele clima alienígena era apenas mais uma variável a ser superada. Ela ajustou a respiração, aquecendo o ar nos pulmões antes de expirá-lo em nuvens brancas de vapor.
— Mantenha o ritmo, Eliza — ordenou Ludmilla, sua voz saindo abafada pelas camadas de cachecol, mas mantendo a autoridade de um general. — Se pararmos sem abrigo adequado, a hipotermia vai nos levar em menos de quatro minutos. Falando nisso... o azimute está correto? Eu esperava que o domínio de uma entidade chamada "Satan" fosse, no mínimo, tropical.
Eliza, a Pesadelo, vinha logo atrás. Ela parecia menos afetada fisicamente pelo frio, mas estava infinitamente mais irritada. Ela chutou um bloco de gelo negro com um desprezo familiar, estilhaçando-o.
— Bem-vinda a Helheim, o coração gelado de Gehenna — zombou Eliza, puxando o capuz para cobrir as orelhas pontudas. — Você achou que a Ira era uma fogueira passional? Que bonitinho, Ludmilla.
Eliza apontou para o horizonte cinzento, morto e opressivo.
— A Lorde Satan é uma cretina rancorosa. A Ira dela não é aquele fogo que explode e passa. É o ódio que dura séculos. É o rancor que esfria o sangue até ele parar. O Éter dela funciona como um dreno térmico; ele suga o calor de tudo ao redor. Chamamos isso de "Inverno Nuclear". Se você cair aqui e não levantar em dez segundos... você vira uma estátua de gelo negro para sempre.
Ludmilla estremeceu, não apenas pelo frio, mas pela implicação tática.
— Entendido. Ambiente hostil de nível extremo. — Ela ergueu os olhos, protegendo-os com a mão enluvada. — E aquele óleo negro... aquela "hemorragia" saindo da ferida no céu. Devo considerar isso uma anomalia recente?
— Bom... — Eliza murmurou, desviando o olhar para a fenda pulsante acima delas. — Antes do idiota do Dante trazer o Tempo... ou pegar aquela Maldita Arma do Apocalipse... o céu não sangrava desse jeito. Digamos que o "Teto do Mundo" está vazando.
A tempestade piorou. A visibilidade caiu para zero. Sorte, ou instinto de sobrevivência, levou-as a encontrar uma caverna rasa, protegida do vento direto por uma formação rochosa que lembrava uma garra gigante de dragão saindo da terra.
Ludmilla entrou em "Modo Príncipe" imediatamente.
Mesmo sendo a forasteira em um reino de monstros, sua eficiência era inabalável. Com movimentos precisos e econômicos, ela limpou o chão de pedra, varrendo o gelo tóxico. De sua mochila dimensional, ela sacou cristais de aquecimento — tecnologia roubada de Éden — e montou um perímetro de runas no chão.
— Sente-se ali, Eliza — Ludmilla apontou para o fundo da caverna, onde o calor se concentraria, agindo como um mordomo de elite cuidando de sua protegida real. — Vou selar a abertura com uma barreira física para conservar a energia das runas. Não gaste seu Éter. Eu cuido da vigília.
Eliza observou a humana trabalhar.
Ludmilla era... irritantemente perfeita. A postura galante, a competência mecânica, a forma como ela colocava a segurança de uma Pesadelo antes da própria, mesmo estando em território inimigo. Havia algo naquela nobreza fabricada que dava uma agulhada na autoconfiança de Eliza.
— Você não cansa? — Eliza perguntou, sentando-se e esfregando as mãos perto do fogo mágico que começava a crepitar.
— Cansar? — Ludmilla parou, limpando a neve do ombro. Ela parecia confusa com o conceito. — A fadiga física é irrelevante quando a missão exige foco absoluto. Eu preciso garantir que você esteja em condições de...
— Não, não "a missão" — Eliza cortou, revirando os olhos com impaciência. — Eu tô falando dessa pose.
Ludmilla piscou.
— Pose?
— É. — Eliza gesticulou para a postura rígida da outra. — "Eu sou forte", "Eu protejo todo mundo", "Nada me abala". Você age como um Príncipe Encantado de contos de fada ruins, sabia? É exaustivo só de olhar.
Ludmilla travou. O rosto dela, geralmente pálido e composto como mármore, ganhou um tom rosado que contrastava violentamente com a neve lá fora.
— E-Eu... Eu apenas ajo como... deveria — ela gaguejou, desviando o olhar para a fogueira, subitamente desajeitada, as mãos mexendo nervosamente no cinto de utilidades. — A eficiência e o cavalheirismo são pilares cruciais para manter a moral do esquadrão elevada! É protocolo básico!
Eliza sorriu. Não foi um sorriso amigável; foi um sorriso felino, predatório e cheio de diversão. Ela percebeu a rachadura na armadura do Príncipe.
— É mesmo? "Protocolo"? — Eliza se inclinou para a frente, apoiando o queixo na mão, os olhos brilhando com uma malícia inquisitiva. — Então me diz, ó Nobre Cavaleira... esse "cavalheirismo" todo é um showzinho para impressionar o Dante?
O nome caiu entre elas como uma granada de fragmentação sem pino.
Ludmilla deixou o cantil de água escorregar de seus dedos. Clang.
— O que... o que o Dante tem a ver com isso?!
A mente de Ludmilla foi invadida por flashbacks não autorizados. O treinamento secreto que ela fizera para "aumentar o carisma". As tentativas falhas de sedução. A vez que ele a deixou nervosa apenas existindo.
— Ele é meu rival! — Ludmilla defendeu-se, a voz subindo uma oitava. — Ele me fez perder a compostura uma vez e... por isso tentei dar o troco! Ma non abbiamo niente di speciale! (Mas não temos nada de especial!)
— Eu não entendi essa última parte, mas o seu pânico foi tradução suficiente. — A voz de Eliza ficou mais acusatória, o tom de brincadeira dando lugar a um ciúme afiado.
A Pesadelo se levantou, invadindo o espaço pessoal de Ludmilla.
— Sabe, só um "não" teria sido mais convincente. Qual é a de vocês, afinal? Vocês dormem juntos? Ele é seu namorado secreto? Ou você só fica zumbindo em volta dele como um mosquito apaixonado?
Ludmilla sentiu o rosto queimar. Não era calor; era um incêndio florestal. A pergunta direta, vulgar e sem filtro a pegou completamente desprevenida. A fachada de Príncipe desmoronou, revelando a garota inexperiente por baixo.
— M-Ma che diavolo stai dicendo?! (Mas que diabos você está dizendo?!) — Ludmilla explodiu em italiano, a língua nativa de sua vergonha emergindo involuntariamente.
Ela girou nos calcanhares, dando as costas para Eliza e puxando o cachecol para cobrir o rosto inteiro, tentando esconder a vermelhidão que coloria até as pontas de suas orelhas.
— "Dormir juntos"?! É óbvio que não temos esse tipo de relação! Somos apenas... aliados! Colegas de trabalho!
Eliza riu. Uma risada seca, de quem acabou de descobrir o ponto fraco do chefe final da fase.
— Ah, entendi. — Eliza recostou-se na parede da caverna, cruzando os braços, satisfeita e levemente aliviada. — Então você é só uma "amiga" dele, né? Que fofa. A friendzone é um lugar frio, Ludmilla, cuidado pra não congelar.
Ludmilla, ainda de costas, cerrou os punhos enluvados, tremendo de vergonha e indignação.
— Não me chame de fofa! — Ela se virou, o rosto ainda vermelho, apontando um dedo acusador para a Pesadelo. — E mesmo que eu tenha "só" essa relação... é bem mais profundo do que qualquer coisa que vocês tenham! Eu tenho a confiança dele!
— Confiança? Uau, que romântico. Ele deve sonhar como você protege as costas dele.
A discussão aumentava, os ânimos esquentando a pequena caverna mais do que as runas mágicas jamais conseguiriam. Lá fora, a tempestade negra uivava, indiferente ao drama adolescente que se desenrolava no fim do mundo.
Parte 5
A fogueira mágica crepitava, lançando sombras longas e dançantes nas paredes úmidas da caverna. O calor das runas lutava bravamente contra o zero absoluto do lado de fora, criando uma bolha de sobrevivência no meio do inferno de gelo.
Mas o frio real não vinha do vento uivante de Satan; vinha do silêncio tenso e pesado entre as duas garotas.
Ludmilla estava sentada com a postura rígida de quem espera um ataque de artilharia, cutucando a brasa com um graveto. Ela precisava retomar o controle da narrativa. Aquela Pesadelo insolente estava avançando rápido demais, invadindo territórios que Ludmilla considerava... seguros.
— Escute, Eliza. — Ludmilla começou, a voz recuperando a frieza analítica, embora as pontas de suas orelhas ainda estivessem traídas por um tom rosado. — Você não conhece o Dante. Não a variável real. Eu passei meses vivendo com ele no dormitório, treinando, comendo, observando. Eu sei como ele opera.
Eliza, que estava deitada de lado apoiando a cabeça na mão, abriu um olho preguiçoso, iluminado pelas chamas.
— Lá vem o sermão do Príncipe. Prossiga, Sua Alteza.
— Não se sinta especial só porque ele te estendeu a mão — disparou Ludmilla. Foi cruel, mas necessário, segundo sua lógica de proteção. — Dante tem esse... defeito de fabricação. Um complexo de herói patológico. Ele salva garotas, se envolve em problemas que não são dele, sorri e faz promessas que nem entende o peso.
Ludmilla olhou fixamente para o fogo, as memórias de Velvet, de Charlotte, e de quantas outras poderiam existir, queimando em sua mente.
— Havia muitas orbitando ele. Você seria só mais uma na fila de espera. Uma estatística na coluna de "Donzelas Salvas". Se você acha que vai ter exclusividade só por gratidão... você vai se machucar. E eu não vou estar lá para juntar os pedaços.
A caverna ficou em silêncio por um segundo longo. Ludmilla esperava ver Eliza murchar, ficar insegura ou triste.
Em vez disso, ouviu um som de desprezo.
— Tsk.
Eliza sentou-se abruptamente. A preguiça sumiu. Seus olhos brilharam com uma irritação feroz e uma confiança assustadora.
— "Mais uma na fila"? "Estatística"? — Ela riu, uma risada seca e perigosa que fez as sombras tremerem. — Você é burra ou se faz de cega, Príncipe de Plástico?
— O quê?! — Ludmilla engasgou, a ofensa quebrando sua postura.
— Eu não sou "só mais uma". E eu não estou aqui "me perguntando" se gosto dele ou não, como uma adolescente indecisa escrevendo em um diário com caneta rosa. — Eliza apontou um dedo acusador para o peito de Ludmilla. — Eu já decidi. A eleição acabou. Eu ganhei.
A aura de Eliza mudou. O ar ao redor dela ficou pesado. Não era apenas rebeldia adolescente; era determinação pura, obsessiva e inabalável.
— Se tem outras na fila, o problema é delas. Elas que lutem. Eu não vou entrar na fila, Ludmilla; eu vou furar a fila. Eu vou chutar a porta. Eu vou enchê-lo com tanto amor, vou ser tão indispensável, tão presente e tão irritantemente perfeita para ele, que ele não vai ter escolha a não ser olhar só para mim.
Eliza sorriu. Não era um sorriso doce. Era um sorriso predatório, de quem já visualizou a vitória e está apenas esperando o tempo alcançar a realidade.
— Eu vou ser a única opção viável no menu. Vou sufocar as outras opções até que sobre só eu. Isso é guerra, querida. E no amor e na guerra, não existe fila.
Ludmilla ficou boquiaberta. O graveto caiu de sua mão. A lógica dela travou. Ela esperava hesitação, não um trem de carga desgovernado. Aquela garota não tinha vergonha? Não tinha decoro?
— V-Você é insana! — gaguejou Ludmilla, recuando. — Isso não é amor, é cerco militar! É obsessão!
— Chame do que quiser. — Eliza deu de ombros, voltando a se recostar na parede de pedra, relaxada como um gato que acabou de comer o canário. — Pelo menos eu sou honesta com o que eu quero. Diferente de certas pessoas...
Eliza virou o rosto para Ludmilla, os olhos semicerrados em malícia pura.
— Mas ei... já que você é tão sensata, tão lógica e apenas uma "boa companheira de equipe"... — A voz de Eliza pingava veneno doce. — ...então você pode me ajudar. Como um bom Príncipe ajudando uma dama. Me conte tudo. Do que ele gosta? Qual a comida favorita? Ele prefere cabelo curto ou longo? Onde ele sente cócegas? O que faz ele rir de verdade?
Ludmilla sentiu um aperto no peito. Uma pontada aguda, física e quente.
A imagem invadiu sua mente: Eliza usando aquelas informações. Eliza fazendo a comida favorita dele. Eliza rindo com ele, ocupando o lugar ao lado dele na fogueira...
— P-Por que eu faria isso?! — Ludmilla explodiu, levantando-se num salto.
— Ué? — Eliza piscou, inocente como uma raposa. — Você disse que não tem interesse. Que é só "parceria tática". Então qual o problema? Se você não quer ele, deixe o caminho livre para quem tem coragem de pegar. Não seja o cachorro do hortelão, Ludmilla. Não come e não deixa comer?
— Stai zitta! (Cale a boca!) — Ludmilla gritou.
O rosto dela estava, mais uma vez, competindo com a cor do cabelo de Eliza. A mente de Ludmilla estava em caos absoluto.
Eu não gosto dele... gosto? Não, ele é um idiota. Imprudente. Irritante. Ele nunca segue o plano. Mas aquele sorriso estúpido... e como ele confia em mim...
A percepção bateu nela como um tapa de realidade. Ela não estava apenas seguindo-o por dever ou profecia. Ela estava seguindo-o porque não conseguia mais imaginar um caminho onde ele não estivesse caminhando ao seu lado.
Ver Eliza ali, tão decidida, tão sem vergonha de expor o coração... fez Ludmilla sentir algo pior que raiva: inveja. E pânico. Se ela não dissesse nada, se continuasse com a máscara de Príncipe, Eliza realmente o roubaria.
— Não... — Ludmilla murmurou, tremendo, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Não o quê? — Eliza provocou, inclinando a cabeça. — Vai me dizer que o "Príncipe de Gelo" tem sentimentos impuros?
— BASTA! (Chega!)
Ludmilla fechou os olhos e gritou, a voz ecoando pela caverna gelada e abafando o uivo do vento lá fora:
— Esquece! Eu não vou te ajudar! E eu não sou "só amiga" dele!
Eliza parou. O sorriso presunçoso sumiu, substituído por uma surpresa genuína.
Ludmilla abriu os olhos. Eles estavam úmidos de vergonha, mas ardiam com um azul elétrico, uma determinação que finalmente rivalizava com a de Eliza. O Príncipe havia caído; a garota havia surgido.
— Eu... — Ludmilla engoliu em seco, o orgulho lutando contra o coração. — Eu também gosto dele, sua Pesadelo estúpida!
O silêncio voltou. Apenas o crepitar do fogo ousava fazer barulho. Ludmilla cobriu a boca com as duas mãos, percebendo o que tinha acabado de gritar para o universo. Eu disse. Eu disse em voz alta.
Eliza encarou a humana por um longo segundo, processando a informação. E então, soltou uma risada nasalada.
— Finalmente. — Eliza sentou-se, cruzando as pernas e limpando uma lágrima de riso. — Achei que ia ter que arrancar isso de você com tortura medieval.
— Você... você me provocou de propósito! — Ludmilla acusou, apontando um dedo trêmulo.
— Claro que fiz. — Eliza sorriu, mas agora havia um brilho de respeito ali, o reconhecimento de uma oponente digna. — Eu não luto contra sombras ou covardes, Ludmilla. Se você quer ele, vai ter que brigar por ele. Eu não queria vencer por W.O.
Eliza estendeu a mão sobre a fogueira, a palma aberta, iluminada pelas chamas laranjas. Não era um gesto de amizade; era um pacto de guerra.
— Então é oficial. A partir de agora, não somos mais guia e turista. Somos rivais. E eu te aviso, "Príncipe": eu jogo sujo.
Ludmilla olhou para a mão dela. Ela ajeitou o colarinho, respirou fundo para recuperar os fragmentos de sua dignidade (embora seu rosto ainda estivesse pegando fogo) e ergueu o queixo, aceitando o desafio.
— Bene. (Bem.) — Ludmilla respondeu, a voz trêmula mas firme, ignorando a mão estendida e apenas sustentando o olhar. — Então é melhor você se preparar, Eliza. Porque eu conheço ele há mais tempo. Eu cobri as costas dele quando você não estava lá. E eu não vou entregar o meu parceiro para uma garota que acabou de chegar na história.
— É o que vamos ver.
As duas se encararam sobre as chamas mágicas. Lá fora, o inverno de Satan congelava o mundo até a alma. Mas ali dentro, na pequena caverna, a Guerra Fria tinha acabado de esquentar.
Parte 6
O amanhecer em Gehenna não trouxe o sol; trouxe a cacofonia do metal gritando ao se partir.
Horas se arrastaram desde a trégua tensa na caverna. A fogueira mágica já era memória distante, e a marcha silenciosa pelo deserto de gelo negro fora engolida por um rugido tectônico que fazia o próprio chão vibrar. Não era o vento uivando nos picos de obsidiana. Era a percussão rítmica e brutal de um massacre em escala industrial.
Ao coroarem a crista de uma duna congelada, Ludmilla e Eliza estancaram.
O vale abaixo se abria como um coliseu natural, um anfiteatro de guerra cruel. A Vanguarda dos Sonhos, com suas armaduras douradas e disciplina rígida, estava sendo desmantelada com uma eficiência terrível. A ordem deles colidia inutilmente contra a selvageria da Legião de Gelo — abominações esculpidas em ódio permafrost e óleo viscoso.
Era um cenário de pesadelo tático: o frio absoluto tornava o ouro dos Sonhos quebradiço como vidro, estilhaçando escudos ao primeiro impacto, enquanto o óleo transformava o terreno em uma pista de patinação mortal, anulando qualquer tentativa de firmar base para um contra-ataque.
— O flanco direito já era. Estão sendo triturados. — A voz de Ludmilla cortou o ar gélido, seus olhos varrendo o caos não com medo, mas com a frieza de um computador processando dados de falha. — A formação defensiva colapsou. Se não interviermos nos próximos trinta segundos, não sobrará uma garganta viva para nos dar informações.
Ao lado dela, o ar crepitou com estática colorida. Eliza estalou os dedos, e um som úmido ecoou quando uma substância rosa-neon, viscosa como chiclete mas densa como cimento, começou a escorrer de suas unhas, solidificando-se em formas pontiagudas flutuantes.
— Informações? Que tédio. — Um sorriso predador curvou os lábios da Pesadelo. — Eu só quero bater em alguma coisa até meu sangue esquentar. — Ela lançou um olhar de soslaio, desafiador. — Tente me acompanhar, Príncipe.
— Não fique no meu caminho, Rebelde.
Ludmilla fechou os olhos. O mundo exterior silenciou. Ela não puxou uma arma. Ela se tornou a arma.
O ar gelado invadiu seus pulmões, queimando como ácido, mas ela o converteu em combustível. Sua mente mergulhou para dentro, focando no nível molecular. O Éter de Ludmilla não se projetou para fora; ele implodiu, agarrando cada partícula microscópica de ferro presente em sua hemoglobina.
"Aceleração metabólica via magnetismo ferroso. Nível: Sobrecarga."
Ela magnetizou o próprio sangue. Forçou-o a correr em uma torrente violenta, bombeando oxigênio para as fibras musculares em uma velocidade que rasgaria um humano comum ao meio.
A transformação foi visível e grotesca. Sua pele corou em um tom carmesim vibrante. Veias saltaram em seu pescoço e têmporas, pulsando como cabos de aço sob tensão máxima. O calor gerado pelo atrito interno foi tão intenso que jatos de vapor branco começaram a sibilar de seus poros, criando uma aura de fumaça ao redor dela e derretendo a neve em um círculo perfeito sob suas botas.
Ela abriu os olhos. A íris azul, antes calma, agora vibrava com a intensidade de um reator.
Ludmilla flexionou os joelhos, rachando a obsidiana sob seus pés, e disparou.
Ela se lançou no vazio. Enquanto caía em direção ao exército inimigo, o tempo pareceu desacelerar. Ela estava desarmada, mas, para uma manipuladora de metal, um campo de batalha não é um lugar de carência; é um buffet ilimitado.
— Campo Vetorial: Convergência.
Ludmilla estendeu os braços como uma maestrina regendo uma sinfonia de destruição.
No chão, entre os cadáveres, a mágica aconteceu. Dezenas de espadas caídas, pontas de lanças quebradas e fragmentos de armaduras douradas dos Sonhos mortos começaram a vibrar. Com um som agudo de ressonância, o metal obedeceu.
Com um gesto brusco de pulsos, fechando as mãos em garras, ela arrancou o lixo da guerra do chão.
O metal não apenas flutuou; ele orbitou. Fragmentos afiados formaram um anel de alta velocidade ao redor do corpo em queda de Ludmilla, transformando-a no olho de um furacão de lâminas.
Quando ela atingiu a primeira linha da Legião de Gelo, não houve impacto seco. Houve obliteração.
O enxame de vespas metálicas girou tão rápido que o ar assobiou. As lâminas, guiadas pela mente tática de Ludmilla, não batiam a esmo; elas buscavam as juntas, os pescoços e os núcleos dos monstros. Golens de granizo e óleo foram triturados em uma chuva de gelo moído antes mesmo que pudessem erguer suas clavas, desintegrados pela tempestade de aço que acabara de aterrissar.
Enquanto Ludmilla abria um caminho de destruição com a eficiência cinza de uma máquina industrial, Eliza trouxe o caos em tecnicolor.
Ela levou a mão à cintura num borrão.
— Lyra, hora do show!
O chakram prateado não apenas girou; ele gritou com uma frequência aguda ao ser inundado por Éter. O metal se expandiu num flash, tornando-se um disco de um metro com bordas de navalha giratória. Eliza não o segurou; ela saltou sobre ele.
O disco estremeceu e disparou a meio metro do chão, levantando um rastro de neve negra e óleo congelado como uma lancha cortando a água.
— Yoooo-hoo! A cavalaria mais bonita chegou! — Sua voz ecoou, brincalhona, sobre os gritos de guerra.
Ela surfava a velocidades vertiginosas, ziguezagueando por entre as pernas dos gigantes de gelo, usando a inércia para fazer curvas impossíveis que desafiavam a gravidade.
Um batalhão de Pesadelos de Elite, reconhecendo a assinatura de energia caótica, cessou o massacre da Vanguarda Dourada.
— Aquela aura... É a Eliza da Tromluí? — O comandante de pele azulada rugiu, apontando uma garra acusadora. — Seus merdas traidores se aliaram aos Sonhos?! Fogo!
O céu escureceu. Centenas de lanças de gelo negro foram arremessadas, uma chuva mortal convergindo para um único ponto rosa em movimento.
Eliza não desviou. Ela parou o chakram abruptamente, derrapando no gelo e ficando de frente para a tempestade de projéteis. Um sorriso largo e perigoso iluminou seu rosto. Ela estalou os dedos de ambas as mãos.
— Técnica de Municiadora: Lágrima de Stella — Modo Barreira de Ricochete!
Das palmas de suas mãos, uma onda massiva de esmalte rosa viscoso explodiu para a frente. Não formou uma parede rígida; formou uma bolha colossal e trêmula à sua frente. Eliza manipulou a estrutura molecular da substância em tempo real, alterando a propriedade de "adesivo" para "borracha de ultra-densidade".
THWOCK-THWOCK-THWOCK!
As lanças de gelo atingiram a barreira. Em vez de perfurar, a superfície rosa se deformou elasticamente para dentro, absorvendo a energia cinética de centenas de impactos como um elástico gigante sendo esticado ao limite.
Por uma fração de segundo, tudo parou. A bolha estava distendida ao máximo, vibrando com energia contida.
— Devolvendo o presente! — Eliza riu.
A barreira estalou de volta à sua forma original com um som de trovão abafado. As lanças foram catapultadas na direção oposta com o dobro da velocidade. O exército inimigo não teve tempo de reagir; foram transformados em peneiras por sua própria munição.
Eliza desfez a barreira em uma chuva de brilho rosa e pousou suavemente no centro da cratera de corpos. Um monstro de gelo sobrevivente tentou flanqueá-la. Sem olhar, ela girou Lyra em torno do dedo indicador; o chakram fez um arco perfeito, decapitando a criatura antes de voltar para sua mão.
— Traidora? Que falta de imaginação. — Ela sacudiu o sangue negro da lâmina de Lyra. — Eu não sou Sonho. Eu não sou Pesadelo. Eu sou da Tromluí! Minha lealdade é com quem eu amo e quem protege minha família! E se vocês estão no caminho... — Seus olhos se estreitaram. — ...são meus inimigos!
Enquanto Eliza pintava o campo de batalha com cores vibrantes, Ludmilla operava em uma frequência diferente. O vapor que saía de seu corpo superaquecido criava um rastro de neblina onde quer que ela passasse.
Seus olhos táticos localizaram os destroços de um portão de ferro maciço enterrado na neve. "Recurso identificado", pensou ela.
Ela estendeu as mãos avermelhadas. As grossas correntes do portão estremeceram e irromperam do chão como serpentes metálicas despertadas de um sono profundo. Infundidas com seu Éter magnético, elas não obedeciam à gravidade, mas sim à vontade da Humana.
Com um movimento de chicote dos braços, ela disparou duas correntes para o alto. As pontas morderam o topo de um pilar de obsidiana a trinta metros de altura.
— Subir.
As correntes se retraíram violentamente, puxando Ludmilla para o ar. Ela voou sobre as cabeças do exército inimigo, uma valquíria envolta em fumaça. No ápice do salto, ela soltou as amarras e começou a cair em rotação.
— Estilo Imperial de Ferro: Guilhotina Aérea Dançante!
Enquanto ela girava no ar, as longas correntes orbitavam ao seu redor, transformando-a em uma broca humana de metal pesado. Ela desceu sobre o grupo mais denso da Legião de Gelo. O impacto foi devastador. As correntes chicoteavam com força suficiente para partir rocha, cortando através das armaduras de gelo permafrost como se fossem papel de seda, triturando monstros em uma tempestade de elos de ferro.
Ela aterrissou agachada, o impacto final criando uma onda de choque que afastou os destroços. Ela se levantou lentamente e encostou suas costas nas de Eliza.
O vapor saía da boca de Ludmilla em arquejos pesados; sua pele estava perigosamente vermelha.
— 42... derrubados — ela sibilou, controlando a respiração.
Eliza, sem um fio de cabelo fora do lugar, sorriu presunçosamente.
— 45. Você está lenta hoje, Príncipe. O calor está fritando seu cérebro?
Ludmilla abriu a boca para retrucar, mas as palavras morreram em sua garganta.
A contagem parou ali. O vento uivante cessou. O clangor do metal e os gritos da batalha evaporaram em um silêncio sepulcral instantâneo.
Até os golens sem mente da Legião de Gelo pararam seus ataques, recuando e se curvando em uma reverência trêmula e instintiva.
A temperatura, que já era mortal, despencou abruptamente para um nível que a física não conseguia explicar. Poças de óleo derramado no chão congelaram instantaneamente com estalos secos. O vapor ao redor de Ludmilla cristalizou-se no ar, caindo como pó de diamante.
Do meio da tempestade branca que se formava, passos ecoaram. Não eram passos comuns. Eram o som do peso do mundo se aproximando.
CRUNCH. CRUNCH. CRUNCH.
Uma presença colossal emergiu da neblina. Ela tinha três metros de altura, uma torre de poder ancestral. Não havia um centímetro de carne visível, apenas uma armadura completa, inegavelmente feminina e absolutamente aterrorizante. Era esculpida em gelo permafrost azul-profundo e obsidiana negra, tão antiga que parecia ter sido arrancada da própria fundação geológica de Gehenna.
O design não era defensivo; era pura agressão. Cada ângulo era uma lâmina, cada curva terminava em um espinho cruel. A armadura parecia viva, pulsando com uma malevolência fria.
O nome não precisou ser dito, pois o próprio ar parecia sussurrá-lo com medo: Satan Bellum, a Lorde da Ira.
Ela não proferiu uma única sílaba. O silêncio que emanava dela não era ausência de som; era um vácuo predatório, mais pesado que qualquer rugido de guerra.
Com um movimento fluido que desafiava a massa e a inércia, o braço da Lorde se moveu. O som de gelo se partindo ecoou como um trovão quando ela ergueu sua arma: uma Zweihänder colossal, não forjada, mas extraída do coração de uma geleira eterna. Era um monólito de gelo azul-profundo, lapidado em uma lâmina de três metros de comprimento.
A ponta da lâmina desceu lentamente, nivelando-se na direção das duas intrusas. Não foi um ataque. Foi uma sentença.
No instante em que a atenção da Lorde se focou nelas, a realidade gritou.
CRAAAAACK!
O som veio da frente de Eliza. A barreira de "borracha de alta densidade" que ela mantinha ativa por precaução não suportou a mera pressão da intenção assassina de Bellum. O esmalte rosa, antes flexível, vitrificou instantaneamente sob o estresse espiritual e explodiu em uma nuvem de poeira rosa cintilante.
Ao lado, o som foi mais sutil, mas mais aterrorizante: o chiado de decadência acelerada. As correntes de ferro que orbitavam Ludmilla, brilhantes e letais segundos antes, perderam o brilho. O metal escureceu, ficando laranja e marrom em questão de milissegundos.
— Meu ferro... — Ludmilla engasgou.
As correntes desintegraram-se em flocos de ferrugem podre, caindo como areia morta na neve. O poder de Satan Bellum não apenas congelava a água; ele congelava o tempo de vida dos objetos, levando-os à ruína instantânea.
— Ok... — A voz de Eliza saiu estrangulada, uma oitava acima do normal. Seu chakram, Lyra, reagindo ao medo instintivo de sua dona, encolheu de seu modo de batalha, voltando a ser um pequeno disco trêmulo em sua mão. — Essa é a Rainha do Gelo... O chefe final do andar. A gente tá ferrada.
Ludmilla tentou dar um passo à frente, mas suas botas pareciam chumbadas no chão. O suor frio que brotou em sua testa nem teve tempo de escorrer; congelou instantaneamente, formando pequenas pérolas de gelo na pele. Ela, a estrategista que sempre tinha um plano B, encarou o abismo.
— Mantenha a formação... — Ludmilla sussurrou, a voz saindo como fumaça branca, seus olhos fixos na ponta daquela espada impossível. — Esqueça a pontuação, Rebelde. Vamos precisar de mais do que rivalidade para sobreviver a Ela.
Parte 7
O campo de batalha deixou de ser um tabuleiro de xadrez tático; tornou-se um abatedouro sob temperatura zero.
Satan Bellum, a Lorde da Ira, não corria. Ela não gritava. Ela avançava com a inevitabilidade geológica de uma era glacial. Cada passo daquela bota colossal de obsidiana e gelo fazia o chão estalar como ossos quebrados, enviando vibrações sísmicas que subiam pelas pernas das duas guerreiras. A pressão atmosférica ao redor dela era tão densa que respirar parecia tentar inalar vidro moído.
Satan ergueu a Zweihänder de gelo acima da cabeça. A sombra da lâmina cobriu as duas como um eclipse.
— Dispersar! — O grito de Ludmilla rasgou o ar.
Ela não apenas gritou; ela usou uma explosão curta de repulsão magnética no chakram que agora estava na cintura de Eliza, arremessando a companheira para a esquerda enquanto se jogava violentamente para a direita.
Um milissegundo depois, o mundo acabou naquele ponto.
CRAAAAASH!
A espada desceu. Não foi um corte; foi um evento cataclísmico. O impacto pulverizou a rocha basáltica, transformando o solo sólido em estilhaços de gelo e pedra que voaram em todas as direções como granadas de fragmentação. A onda de choque levantou uma parede de neve de dez metros de altura.
Ludmilla rolou pelo ar, usando o magnetismo nas solas das botas para se "agarrar" a um pedaço de escombro voando e recuperar o equilíbrio. Ela aterrissou derrapando, criando faíscas no chão. O frio estava devorando seus reflexos. O Doping de Ferro mantinha seu núcleo aquecido, mas suas extremidades começavam a falhar.
Seus olhos táticos varreram a nuvem de poeira, focando na silhueta monstruosa que se erguia ilesa.
"Tá certo... talvez eu tenha subestimado um pouco os tais Lordes Pesadelo", Ludmilla analisava a oponente que mal havia começado a se mover, mas já tinha as colocado em desvantagem. "Que rank será que eles seriam classificados na Terra...? Acho que só tem um jeito de descobrir."
— Vamos ver do que é capaz, Milady. — Ludmilla murmurou, o cérebro trabalhando a mil por hora enquanto desviava de um pilar de gelo que caiu ao seu lado. — Minhas armas convencionais vão quebrar no impacto. Precisamos tirar a mobilidade dela.
— Imobilizar aquela montanha?! — A voz de Eliza veio de cima. Ela surfava em seu chakram, desviando agilmente dos destroços da explosão. — Você bateu a cabeça, Príncipe?! Aquilo é uma força da natureza!
— Esqueça a força, use a física! — Ludmilla gritou, os olhos brilhando com uma ideia perigosa. — Use a viscosidade! Eu crio a abertura, você cria a armadilha!
Ludmilla fincou os pés no chão. Ela não buscou espadas ou lanças inteiras. O campo de batalha estava "seco" de armas úteis, mas estava cheio de algo mais insidioso.
Ela estendeu os dedos como garras, tremendo pelo esforço.
— Micro-Ferrocinese: Tempestade de Tétano.
O ar ao redor do vale ficou vermelho. Ludmilla não estava puxando metal sólido. Ela estava arrancando as partículas microscópicas de ferro do sangue seco dos milhares de soldados mortos e a ferrugem acumulada nas armas antigas enterradas no gelo.
Uma névoa carmesim, densa e cintilante, ergueu-se do chão como um enxame de gafanhotos metálicos. Era uma nuvem de lixa viva.
— Vá! — Ludmilla fechou o punho com violência.
O tornado de pó de ferro e sangue seco disparou, não contra o peito da gigante, mas direto para o elmo. A nuvem envolveu a cabeça de Satan Bellum, cegando os visores da armadura. Mas o verdadeiro ataque era sonoro e mecânico.
KREEEEEEEEEET!
Um som horrível de metal moendo contra gelo ecoou. As partículas de ferro, guiadas com precisão cirúrgica, invadiram as juntas do pescoço e das ombreiras da armadura. O atrito gerado foi imenso.
Satan Bellum parou no meio de um segundo golpe. A cabeça dela travou, levemente inclinada para o lado, enquanto a "areia" de ferro emperrava as articulações de sua armadura impenetrável. Pela primeira vez, a fluidez da Ira foi interrompida.
— AGORA, ELIZA!
O grito de Ludmilla rompeu o barulho do metal rangendo.
Eliza não hesitou. Ela saltou da plataforma de seu chakram em pleno ar, girando o corpo para gerar força centrífuga. Ela levou o polegar à boca e o mordeu, usando a dor aguda para focar todo o seu Éter em um único ponto.
— Técnica de Municiadora: Lágrima de Stella — Protocolo Super Cola: Endurecimento Instantâneo!
Eliza estendeu as mãos para baixo enquanto caía. Dez jatos de um líquido rosa-neon dispararam de seus dedos como teias de aranha pressurizadas. Eles não miraram o corpo de Satan, mas o chão ao redor das botas colossais da gigante.
O impacto foi úmido, mas a reação foi química. O líquido expandiu violentamente, cobrindo os pés de obsidiana e subindo pelas canelas da armadura. Em meio segundo, o rosa brilhante escureceu e solidificou. Não era gelo; era uma resina epóxi de densidade absurda, fundindo a Lorde da Ira à própria crosta do solo.
Satan tentou dar um passo. O chão gemeu, rachaduras de tensão apareceram na rocha, mas a cola segurou. A montanha parou.
— Te peguei! — Eliza gritou, aterrissando com uma cambalhota e deslizando na neve. Ela já estava preparando o próximo movimento. — É como pisar em cimento de secagem atômica!
— Não pare! — A voz de Ludmilla estava rouca, desesperada. — Só pare quando ela não puder mais se mexer!
Ludmilla bateu as palmas das mãos uma na outra. O som foi como um trovão metálico. A atmosfera mudou. Todo o ferro em um raio de cem metros — as espadas quebradas, os escudos dos Sonhos, os restos dos golens e até os minérios brutos no subsolo — começou a vibrar.
Com um rugido de esforço, Ludmilla ergueu os braços. Toneladas de sucata foram arrancadas da gravidade, subindo aos céus em um vórtice escuro.
— Compactação Magnética.
No ar, acima da cabeça da Lorde imobilizada, o lixo de guerra se fundiu. O metal gritou enquanto era espremido, dobrado e forjado a frio pela vontade de Ludmilla. A massa caótica tomou forma. Uma lança. Não, um pilar. Um obelisco de dez toneladas de ferro bruto, maciço e pontiagudo, pairando como o dedo de um deus vingativo.
— Execução Imperial: Queda de Dâmocles!
Ludmilla baixou os braços num movimento de guilhotina. A lança gigante despencou. A gravidade foi multiplicada por dez através do magnetismo. O ar se partiu ao redor da ponta descendente.
— Ainda não acabou! — Eliza apontou Lyra para a ponta da lança que caía. — Synergy Combo: Carga Explosiva de Contato!
Um raio rosa atingiu a ponta do ferro segundos antes do impacto, cobrindo o metal com uma camada instável de esmalte volátil.
A lança atingiu o elmo de Satan Bellum.
KABOOOOOOOOOOOOOOOM!
O som não foi ouvido; foi sentido nos ossos. Uma esfera de luz rosa e faíscas de metal engoliu o vale. A força do impacto cavou uma cratera instantânea, pulverizando a rocha e levantando uma cortina de cogumelo feita de fumaça, neve vaporizada e estilhaços.
A onda de choque derrubou Eliza e quase arrancou Ludmilla do chão.
Ludmilla caiu de joelhos, o vapor saindo de seu corpo agora misturado com a fumaça da explosão. Sua pele vermelha empalidecia rapidamente; o esforço de manipular tanta massa quase drenara sua reserva de Éter.
Eliza se levantou, limpando o sangue do nariz, mas com um sorriso trêmulo.
— Pegamos ela? — A voz da Pesadelo oscilou entre a esperança e o medo. — Nada sobrevive a isso...
O silêncio voltou ao vale. A poeira começou a baixar lentamente, revelando a silhueta no centro da cratera.
O sorriso de Eliza desapareceu.
Lá estava Satan Bellum. A "super cola" indestrutível de Eliza estava estilhaçada no chão como vidro barato. E acima dela...
A lança de dez toneladas de ferro maciço estava parada no ar. A ponta da arma, que deveria ter perfurado o crânio da Lorde, estava a centímetros do elmo. Segurada por apenas uma mão.
Satan nem sequer olhou para cima. Seu braço estava estendido casualmente, os dedos blindados envolvendo a ponta da lança gigantesca como se ela tivesse pegado uma bola de tênis lançada por uma criança. A explosão de Eliza apenas chamuscara a pintura de sua luva.
— Impossibile... — Ludmilla sussurrou, a palavra italiana escapando em meio ao terror genuíno. Seus olhos de estrategista não conseguiam processar a imagem. — Não há fluxo de Éter... Não há magia defensiva... É pura força física?
Satan fechou a mão.
CRUNCH.
O som foi seco e final. O ferro maciço, compactado sob pressões extremas, foi esmagado como papel alumínio. A lança de dez toneladas se deformou, o metal gritando enquanto a Lorde da Ira destruía a estrutura molecular da arma com um aperto de mão.
Ela soltou os restos retorcidos do metal, que caíram com um baque pesado aos seus pés. Pela primeira vez, a viseira escura do elmo se virou diretamente para Ludmilla.
O vazio azul na fenda do elmo de Satan Bellum não apenas brilhou; ele entrou em ignição. Pela primeira vez, a armadura emitiu um som. Não era uma voz, nem um rugido. Era um zumbido grave, vibrante e ascendente, como o núcleo de um reator nuclear prestes a derreter. O ar ao redor dela começou a distorcer pelo calor da fúria fria.
Ela estava irritada.
Satan moveu a Zweihänder. Não foi um corte técnico. Não houve elegância. Foi um simples balançar lateral, uma "limpeza" do cenário, como alguém afastando moscas.
Mas com a força física de uma divindade e uma lâmina daquele tamanho, o movimento gerou um fenômeno atmosférico.
Onda de Choque: Deslocamento de Vácuo.
A pressão do vento não as atingiu como uma parede; atingiu-as como um trem de carga invisível.
— Eliza, não tente desviar, bloqueie! — Ludmilla gritou, o sangue escorrendo do nariz. Ela tentou erguer uma parede de metal reforçado instantaneamente.
Inútil. No momento em que a onda de choque tocou o metal, a temperatura despencou tanto que a estrutura atômica do ferro colapsou. O escudo não dobrou; ele se desfez em poeira cintilante.
A força cinética atingiu Ludmilla no peito. O som de costelas partindo foi nauseante, audível até sob o rugido do vento. Ela foi arremessada como uma boneca de pano contra um pilar de gelo a trinta metros de distância.
Eliza tentou reagir no ar.
— Como eu deveria bloquear isso?! — Ela disparou uma rede de esmalte elástico para frear o impacto.
Mas a força era tanta que a "borracha" esticou até o limite molecular e estourou com o som de um chicote. Eliza ricocheteou no chão rochoso uma, duas, três vezes, cada impacto arrancando pedaços de sua aura protetora e rasgando sua pele, até que ela parou, derrapando inerte na neve negra.
— Minha... perna... — Eliza gemeu, a voz fraca. Ela tentou se levantar, mas o joelho esquerdo estava dobrado em um ângulo antinatural. A dor era branca e aguda, cegando seus sentidos.
THUD. THUD. THUD.
Satan Bellum começou a caminhar. Não havia pressa em seus passos. A morte não precisa correr. A cada passada da bota colossal, uma onda de geada se espalhava pelo chão em círculos perfeitos, congelando instantaneamente o sangue quente que Eliza e Ludmilla haviam derramado. O mundo estava ficando cinza e azul.
Lutar contra Satan dentro de seu domínio de gelo era como lutar contra um DPS enquanto o próprio ambiente servia como seu debuffer. As habilidades congelavam, a falta de ar impedia de fazer movimentos complexos, e ainda tornava o ato de pensar uma batalha física brutal. Ludmilla logo percebeu seu erro.
Ludmilla tossiu, uma nuvem vermelha manchando o gelo. Sua visão estava turva, o braço esquerdo pendurado inutilmente ao lado do corpo, o ombro deslocado. Mesmo assim, ela cravou os dedos da mão boa no chão e se arrastou. Centímetro por centímetro. Uma lagarta quebrada se movendo por pura teimosia.
Ela se colocou entre a gigante e a Pesadelo caída.
— Vá... — Ludmilla estava ofegante. Seus olhos mal conseguiam focar. — Dá o fora... Eliza. Eu ganho... dois segundos.
— Cala a boca... — A voz de Eliza veio de trás, trêmula mas furiosa. — Príncipe idiota...
Eliza tentou erguer a mão para conjurar Lyra. O chakram apareceu, voando até sua mão, rachado e sem brilho, e se desfez em partículas de luz rosa. Seu Éter estava esgotado.
— Se eu deixar você morrer aqui... como eu vou olhar na cara do Dante depois? — Eliza forçou um sorriso, embora lágrimas de dor escorressem pelo seu rosto sujo de fuligem.
A sombra cobriu as duas. Satan Bellum parou diante delas. Ela parecia um arranha-céu visto de baixo. A indiferença na postura da gigante era o golpe mais cruel de todos; ela não via guerreiras, via lixo para ser varrido.
Lentamente, com a solenidade de um carrasco, ela ergueu a espada de iceberg acima da cabeça. A lâmina capturou a pouca luz de Gehenna, brilhando com a promessa de dividir não apenas os corpos das duas, mas a própria montanha atrás delas.
Era o fim. A matemática era simples: técnica, criatividade e coragem valiam zero diante da força bruta de um desastre natural.
Ludmilla fechou os olhos. O rosto de Dante, Miriam e de seus pais vinham à sua mente.
Eliza, recusando-se a dar à gigante o prazer do medo, olhou diretamente para o visor escuro. Com a mão trêmula, ela ergueu o dedo do meio em um gesto final de desafio.
— Vai pro inferno, sua geladeira de merda.
A espada começou a descer. O ar gritou com a aceleração.
Mas então... o céu acima delas escureceu. Não foi uma nuvem. A pressão atmosférica mudou tão drasticamente que o chão tremeu antes mesmo do impacto.
Algo estava caindo. Algo pesado. Algo rápido.
KABOOOOOOOOOOOOOOOM!
Não foi uma explosão mágica. Foi algo mais visceral: o som de arquitetura geológica sendo assassinada. O arco de pedra natural que formava o teto do vale, a trezentos metros de altura, não apenas desabou; ele foi pulverizado de fora para dentro por uma força desconhecida.
A luz do amanhecer foi apagada. Uma chuva apocalíptica de granito, estilhaços de gelo e poeira densa despencou, um bombardeio orbital caindo diretamente sobre o exército da Ira.
Satan Bellum travou no meio do golpe. Seu instinto de predadora máxima detectou uma ameaça que superava a gravidade descendo pelo meio da tempestade de destroços. Ela ergueu o visor escuro para o alto.
E então, o som.
Um rugido que não pertencia a este plano de existência rasgou o ar, fazendo o zumbido anterior da armadura de Satan parecer um sussurro de criança. Era o som da fome primordial, de um buraco negro ganhando voz.
ROOOOOOOAAAAAAR!
Um meteoro feito de escuridão líquida rompeu a nuvem de poeira. Uma abominação quadrúpede gigantesca, tecida de sombras vivas e dentes de pesadelo, desceu mais rápido que a física permitiria. Ele não mirou no chão. Ele mirou na arma.
CRASH!
O impacto foi sísmico.
O Gévaudan, a lendária Besta da Gula, aterrissou com precisão brutal diretamente sobre a lâmina da Zweihänder de gelo. Garras do tamanho de foices cravaram no permafrost da espada com um guincho de furar tímpanos, interrompendo a execução instantaneamente.
A onda de choque do pouso varreu a Legião de Gelo como bonecos de papel.
Pela primeira vez, a Lorde da Ira recuou. Sua bota de obsidiana de três metros arrastou para trás, cavando trincheiras no chão enquanto seus braços tremiam, lutando para sustentar as toneladas de fúria bestial que agora pressionavam sua espada para baixo.
O caos rugia embaixo, mas acima da cabeça da besta rosnante, o tempo pareceu parar em uma calmaria sobrenatural.
Pousando. Não, descendo. Como uma pluma ignorando as leis da física, uma figura aterrissou suavemente no focinho da besta gigante. O impacto de seus pés não fez barulho algum.
Cabelos dourados como ouro flutuavam em uma gravidade própria, imunes à tempestade de vento e poeira. Um vestido vitoriano vermelho, tão escuro que parecia absorver a pouca luz do ambiente, caía perfeitamente ao redor dela, sem um único amassado.
E acima dela, flutuando com uma autoridade inegável que fez o próprio ar ficar pesado, a prova definitiva de poder: em seu braço, um contador de coroas tão alto que faria o da Ira precisar ser multiplicado por três só para tentar chegar perto.
Kiara Ashworth.
Com uma mão, ela segurava um delicado guarda-chuva de renda negra. Ela o inclinou casualmente para o lado, e uma rocha de duas toneladas que caía do céu desviou do tecido como se fosse um pingo de chuva inofensivo.
Ela olhou para baixo, primeiro para as formas quebradas de Ludmilla e Eliza, e depois para a gigante de gelo que lutava sob o peso de seu "animal de estimação".
Nos lábios de Kiara, havia um sorriso. Não era de alegria, nem de raiva. Era um sorriso calmo e absolutamente aterrorizante. O sorriso de alguém que acabou de entrar em uma sala cheia de monstros e sabe que é a coisa mais perigosa ali.
Parte 8
O silêncio que se seguiu à queda da Besta da Gula não era um vazio; era uma massa física, mais pesada que o impacto geológico que o precedera. A neve negra, agitada pela onda de choque, não assentava. Ela pairava no ar estagnado como cinzas vulcânicas sobre um necrotério, tecendo um manto fúnebre que sufocava o vale.
No epicentro da cratera, Satan Bellum — a Valquíria de Ferro, a força que segundos antes reduzia montanhas a pó — estava petrificada. A mão colossal da Lorde da Ira, que sustentava o peso da Zweihänder de gelo sob as patas da besta, começou a tremer. O metal de sua manopla rangeu, mas não era o peso do monstro que a vencia. Era o Reconhecimento. Algo que as crônicas de Gehenna juravam ser impossível para a Encarnação do Ódio sentir: um pavor reverencial.
O visor do elmo de Satan se ergueu. O som foi o de placas tectônicas se partindo nas profundezas da terra. A luz azul que emanava de suas fendas oculares, antes uma fornalha de fúria instável, estabilizou-se em um brilho límpido, quase devoto, fixo na pequena figura de vestido vitoriano que flutuava, impávida, acima da quimera.
— Você... — A voz de Satan surgiu como o gemido de uma geleira moribunda. Rouca. Ancestral. — ...a Estrela Negra.
Para Ludmilla, o misticismo daquele reencontro era ruído branco. Seus olhos, estreitados pela agonia, viam apenas uma variável matemática: uma janela de três segundos.
"O flanco dela... está exposto", calculou o Príncipe, a mente operando em um modo de sobrevivência frio, isolando a dor das costelas quebradas que punhalavam seus pulmões a cada suspiro. O gosto acobreado do sangue inundava sua boca, quente e metálico. "A gigante travou. O foco dela é a garota. Agora ou nunca."
Ludmilla fincou as botas na lama congelada. O medo era um luxo; a dor, um ruído de fundo. Seus músculos, rasgados e exaustos, protestaram com espasmos violentos quando ela forçou o corpo a uma última postura de ataque.
— AGORA! — O grito não foi um comando para Eliza, mas um chicote contra sua própria vontade.
Com um rugido que drenou o resto de sua alma, Ludmilla disparou. Ela manipulou o magnetismo reverso no próprio sangue, convertendo sua biologia em um canhão eletromagnético humano. Em sua mão direita, os restos da "Tempestade de Tétano" — limalha de ferro e estilhaços de guerra — condensaram-se em uma adaga vibrante. A frequência era tão alta que o ar ao redor da lâmina zumbia como um enxame de vespas, capaz de fatiar a realidade.
Ela era um raio de prata em direção ao pescoço de Satan. Suicida. Perfeita.
A dois metros do impacto, o mundo mudou de cor.
O ar tornou-se verde-doentio. Antes da visão processar o movimento, o olfato foi agredido: um odor pútrido de formol, carne necrosada e óleo de engrenagem. Um borrão de pelos cinzentos e metal oxidado cortou sua trajetória.
A Besta da Gula não se moveu como um animal. Foi um glitch na realidade. Um salto de velocidade biológica que desafiava a inércia.
ROAAAAR!
O som não vinha de cordas vocais, mas de válvulas de escape e pistões implantados na laringe. Balthazar Gulaen, o Lorde da Gula, interceptou o projétil humano com a negligência de quem espanta uma mosca.
BAM.
O dorso da pata de Balthazar, uma massa de titânio e tendões reforçados, colidiu com o peito de Ludmilla. Não houve resistência. Foi o impacto de um trem de carga contra um pardal de vidro.
A adaga de ferro se desintegrou. As costelas de Ludmilla, já fragilizadas, estilhaçaram-se com o som seco de galhos mortos sob botas de combate. Ela foi arremessada, cruzando o vale como uma boneca de pano desarticulada, até se chocar contra o paredão de rocha negra a trinta metros dali.
— LUDMILLA! — O grito de Eliza pareceu vir de outro mundo, abafado pelo uivo do vento tóxico.
Ludmilla desabou na neve, o corpo se recusando a processar tanta dor. Ela tossiu um coágulo espesso, a visão oscilando entre o cinza e o absoluto preto. O instinto de guerreira a fez tentar erguer o busto com os cotovelos trêmulos, mas quando seus olhos finalmente focaram no monstro à frente, a vontade de lutar simplesmente... evaporou.
A poeira assentou, revelando a abominação em sua totalidade. Balthazar era uma quimera de pesadelo: tubos de vidro neon bombeavam um Éter esverdeado diretamente em seus músculos hipertrofiados, fazendo-os pulsar com uma vida artificial e maligna. Chapas de metal estavam aparafusadas em sua espinha exposta.
Mas foram os olhos — injetados de uma loucura química — e as garras metálicas que fizeram o tempo parar para Ludmilla. O frio de Gehenna sumiu, substituído pelas chamas de uma memória que ela tentara enterrar em ferro e disciplina.
Ela não estava mais no campo de batalha. Estava de volta à mansão em chamas. Era a criança soluçando no fundo do armário, vendo, através da fresta, um "Lobo Mutante" idêntico àquele rasgar a garganta de seu pai e devorar sua mãe viva. O trauma, escondido sob a máscara do "Príncipe Perfeito", detonou como uma carga de demolição em seu peito.
— N-não... — O sussurro de Ludmilla foi um lamento infantil. Suas mãos, antes capazes de empunhar o destino, agora arranhavam a neve em um espasmo de puro terror. — O monstro... é o mesmo... ele está aqui...
Seu olhar subiu, buscando a mão que segurava a coleira da besta.
Lá estava Kiara. O vestido vitoriano imaculado contra o caos, as correntes de ferro descendo de suas mãos como rédeas de um corcel infernal. O rosto era o de Anna. A amiga do dormitório. A garota que sorria entre garfadas de torta, que contava piadas bobas para Dante.
— Anna...? — A voz de Ludmilla quebrou, uma acusação carregada de agonia.
Mas os olhos que desceram para encontrá-la não pertenciam a Anna. Eram globos de sangue com estrelas geométricas desenhadas nas íris. Eram os olhos de uma divindade que acabara de encontrar um inseto particularmente irritante.
Aquela "coisa" havia roubado sua amiga. Havia orquestrado sua queda. E agora, comandava o trauma encarnado que destruíra sua linhagem.
— Fique no chão, criança — disse Kiara.
A voz era melódica, mas carregava um "Peso de Autoridade" que fez as fibras musculares de Ludmilla travarem instantaneamente. Foi um comando ontológico.
— Os adultos estão conversando.
Kiara desviou o olhar, descartando Ludmilla como se fosse um destroço sem importância, e voltou-se para a gigante de gelo.
O vale mergulhou em uma tensão insuportável. Eliza, paralisada ao longe, viu a hierarquia do inferno se desenhar. "Acabou", pensou a Pesadelo. "Se a Ira e a Gula se unirem... Gehenna será apenas um túmulo."
Mas a violência esperada deu lugar ao sagrado.
Satan Bellum, a General que nunca recuara, soltou sua arma. A Zweihänder caiu, produzindo um estrondo que ecoou pelas montanhas. Com o ranger rítmico de sua armadura, a gigante dobrou um joelho. Depois o outro.
A montanha de gelo e obsidiana se curvou. O elmo de chifres demoníacos, que nunca se baixara diante de deuses ou reis, tocou o chão congelado em uma submissão religiosa.
— O trono estava frio sem você... — A voz da Ira agora era uma prece fanática. — Minha ira aguardava seu retorno, minha Rainha.
Kiara sorriu de canto. Ela fechou seu guarda-chuva negro com um clique seco e definitivo.
Ali, na neve negra, a verdade se revelou. A Gula era seu cão de guarda. A Ira era sua serva leal. A Inveja e a Avareza já haviam sido devoradas. A Preguiça lhe trouxe o Orgulho em uma bandeja.
Ludmilla, trêmula e quebrada, entendeu finalmente. Eles não estavam em uma guerra por território. Estavam em uma ante-sala.
Aquilo não era um campo de batalha; era a cerimônia de uma coroação.
Parte 9
O vento de Gehenna, antes uma tempestade de fúria, retornou como um lamento. Ele preencheu o vácuo deixado pela submissão da Ira, mas o frio que trazia não era meteorológico; era o zero absoluto do abandono.
Ludmilla jazia na neve negra como uma marionete cujas cordas foram cortadas por um mestre cruel. Seus olhos, antes afiados como lâminas, estavam vidrados, perdidos em um ponto cego entre o massacre presente e as cinzas da mansão de sua infância. O choque catatônico havia erguido uma muralha entre seu cérebro e o mundo; ela não sentia mais as costelas perfurando o pulmão, nem o gelo que começava a cristalizar em seus cílios. O "Príncipe" havia se refugiado em um lugar escuro onde lobos não podiam entrar.
Eliza, contudo, recusava-se a quebrar.
Com um rosnado de agonia, ela arrastou a perna esmagada. O osso triturado raspava contra o gelo, deixando um rastro de sangue escuro que fumegava ao contato com o ar polar. Cada centímetro era uma supernova de dor branca por trás de seus olhos, mas o ódio era um combustível mais eficiente que o Éter.
Ela viu Kiara dar as costas. A mulher movia-se com uma leveza insultuosa, aproximando-se da Besta da Gula como se estivesse prestes a subir em uma carruagem de seda para um chá de domingo. Aquela indiferença — o fato de não serem sequer dignas de um golpe de misericórdia — queimou em Eliza mais do que qualquer ferida.
— EI!
O grito rasgou a garganta de Eliza, saindo como um estilhaço de vidro.
— Você acha que pode simplesmente... virar as costas?!
Kiara parou. Uma mão enluvada pousou com delicadeza sobre o pelo imundo e eriçado do monstro. Ela não se virou, mas a quietude de sua postura era uma resposta por si só.
— O que você espera ganhar com isso?! — Eliza berrou, as lágrimas de frustração congelando em trilhas de cristal em suas bochechas. — Você estraçalhou o equilíbrio! Humilhou os Lordes! Você trouxe o caos para a nossa casa! Acha que uma guerra vai consertar algo?!
Ela apontou um dedo trêmulo para o horizonte, onde o céu sangrava óleo sobre as ruínas.
— Sangue só gera sangue! Essa violência não muda o mundo, sua louca! Só muda a mão de quem está segurando o chicote!
As palavras ecoaram, pesadas. Meses atrás, Eliza teria rido desse discurso; ela era a personificação da força bruta. Mas a jornada ao lado de Dante, os sacrifícios e a dor real haviam lapidado nela uma sabedoria amarga. Ver alguém tão poderosa quanto Kiara ignorar o óbvio era uma heresia que ela não podia tolerar.
O silêncio que se seguiu foi denso como chumbo líquido.
Lentamente, Kiara virou o rosto por cima do ombro. O movimento foi de uma elegância etérea, ignorando a carniça ao redor. Quando seus olhos encontraram os de Eliza, a realidade trincou.
ZUMM.
Não foi um golpe físico. Foi uma invasão. Uma frequência de rádio sintonizada à força dentro do crânio de Eliza.
O vale de gelo desapareceu. A dor na perna sumiu no vácuo.
Eliza foi arremessada para um lugar claustrofóbico, iluminado por flashes estroboscópicos de luz neon e sombras de um circo esquecido. O cheiro acre de pólvora misturava-se ao perfume doce de rosas queimadas. Fragmentos de uma vida que não era sua — memórias costuradas no avesso de sua alma — inundaram sua mente: uma risada cristalina, uma promessa selada sob um luar azul, e a dor física de um buraco no peito onde algo vital fora arrancado.
"Eu prometo... ficar sempre ao seu lado...", uma voz sussurrou. Não era a voz de Eliza. Mas seu coração a reconheceu.
— Ah... — Eliza engasgou, voltando ao presente com um solavanco violento.
O coração batia contra as costelas como um pássaro em pânico. Ela pressionou a mão contra o peito, onde uma saudade fantasma agora ardia como brasa viva.
— O que... o que foi isso...? — gaguejou, atordoada.
Do outro lado, Kiara vacilou.
A máscara da Rainha Negra, aquela expressão de tédio divino, rachou. Por um microssegundo, a postura rígida de Kiara suavizou. Os ombros caíram. Ela olhou para Eliza não como uma peça de tabuleiro, mas como quem vê um fantasma querido através de um vidro à prova de balas.
As estrelas em suas íris brilharam com uma luz suave. Um sorriso surgiu em seus lábios — não a curva cruel da vitória, mas algo puro, genuíno e devastadoramente triste.
— Então aí estava você... — Kiara murmurou. A voz não era um comando; era um lamento antigo. — ...Stella.
O nome atingiu Eliza como um soco. Ela nunca ouvira aquele nome, mas seu corpo reagiu com uma vontade irracional de chorar.
O momento, porém, foi um soluço no sistema. Kiara piscou, e a humanidade desapareceu tão rápido quanto surgira. O gelo retornou aos olhos, enterrando a nostalgia sob camadas geológicas de ambição fria. Ela sacudiu a cabeça, dispersando o fantasma.
— Não importa, garota. Escute bem: não há nada que um vencedor tenha a dizer a um perdedor. Os fracos não têm o direito nem de reclamar da hora de sua morte.
Com um movimento fluido, ela montou no dorso de Balthazar. A besta rosnou, uma vibração que sacudiu os ossos de Eliza. Ao lado, Satan Bellum ergueu-se como uma torre de obsidiana, sua sombra cobrindo o vale como um eclipse.
— Vamos. O tempo urge e o Rei não cairá sozinho.
— Sim, Minha Rainha — respondeu a Ira, com o fervor de uma fanática.
Balthazar flexionou os tendões de aço. Com uma explosão de Éter que gerou uma nova onda de choque, a besta saltou. Não foi um pulo; foi um lançamento balístico. O monstro disparou em direção às nuvens de óleo, cruzando o céu em velocidade supersônica, seguido pela gigante de gelo cujas passadas faziam o mundo tremer.
Em segundos, eram apenas pontos negros no horizonte.
O silêncio que restou foi pior, pois estava vazio de esperança.
Eliza ficou parada, o nome "Stella" ainda vibrando em sua língua como um gosto estranho. Ao seu lado, um bipe eletrônico soou. No pulso inerte de Ludmilla, o mapa holográfico do Jogo das Coroas atualizou-se.
Os ícones da Ira, Gula, Inveja, Avareza e Preguiça mudaram de cor simultaneamente. Eles não eram mais facções. Agora, pulsavam em um roxo opressor sob um único título: KIARA ASHWORTH.
Ela não estava vencendo o jogo. Ela o havia encerrado. O tabuleiro agora era sua propriedade privada.
Eliza olhou ao redor. Sem armas. Sem comunicação. No meio do deserto de gelo de uma Lorde que levara todo o calor consigo ao partir. Ela se arrastou até Ludmilla, cujos lábios já estavam azuis.
— Ei... Príncipe... — Eliza sacudiu o ombro dela, o pânico subindo como uma maré negra. — Acorda. A gente tem que sair... Ludmilla!
A Caçadora não respondeu. Seus olhos refletiam o céu cinzento, sem vida. O trauma e a hemorragia interna haviam vencido. O sistema estava desligando.
— LUDMILLA! — O grito de Eliza foi engolido pelo vento.
Sozinha no fim do mundo, a Pesadelo abraçou sua rival, tentando compartilhar um calor que nenhuma das duas possuía. A neve negra começou a cobri-las, camada por camada, como se Gehenna estivesse tentando apagar, com uma delicadeza cruel, a prova de que elas um dia existiram.
Parte 10
A mesa de vidro negro não estava em uma sala; ela flutuava no útero do universo. Três cartas estavam viradas para baixo sobre a superfície polida.
— Escolha, Dante.
A voz da Astreus da Memória não tocou seus ouvidos; ela reverberou diretamente em seu córtex cerebral, fria e íntima como um pensamento invasor. Ela sorria do outro lado da mesa, apoiando o queixo nas mãos enluvadas. Seus olhos, duas galáxias em miniatura, giravam em um deleite sádico.
— Eu te dei três respostas a suas dúvidas. Duas são verdades absolutas, puras como cristal. Uma é uma mentira suja, fabricada.
Dante suava frio. Sua mão tremia sobre a carta do meio. A lógica gritava uma coisa, o instinto gritava outra, e a pressão atmosférica daquele lugar estava esmagando seu raciocínio lógico.
— É essa... — Dante empurrou a carta central com a ponta dos dedos trêmulos. — A mentira é sobre o Rei.
A Memória virou a carta lentamente. Ela sorriu. Um sorriso que rasgou o rosto dela de orelha a orelha, mostrando dentes feitos de luz estelar afiada.
— Bzzzt. Resposta errada, cunhadinho.
O chão sob a cadeira de Dante desapareceu. A gravidade inverteu.
— Você perdeu. O favor foi cobrado. O comando está implantado no seu kernel. E agora... — Ela acenou com um tchauzinho irônico enquanto ele caía no vazio. — Saia da minha Biblioteca. Você está sujando o tapete com essa sua... humanidade.
Presente - Gehenna, Ruínas de Crisopeia
BOOM!
Dante não acordou com o canto dos pássaros ou com um raio de sol gentil. Ele acordou com a sensação física de ter sido arremessado de um avião de carga sem paraquedas, aterrissando de cara em uma pilha de entulho radioativo.
— Ai... ai, ai, ai... — Dante gemeu, a voz abafada pela terra e cinzas.
Ele rolou, ficando de barriga para cima, e cuspiu um pedaço de concreto que tinha gosto de séculos.
— Mas que serviço de transporte horrível é esse? — reclamou ele, esfregando a lombar que estalava em protesto. — Eu dou zero estrelas no Uber Divino. Nem um copo de água, nem um filme durante o voo, e o pouso foi digno de um acidente aéreo.
Ele abriu os olhos, esperando ver o teto cósmico da Biblioteca ou o rosto irritado de Philia. Em vez disso, viu um céu cinzento, tóxico, chorando uma chuva negra e oleosa. Ao seu redor, não havia livros. Havia aniquilação.
Prédios de mármore branco e ouro, que pareciam ter sido magníficos minutos atrás, estavam retorcidos como metal derretido, formando uma cratera gigantesca que ainda fumegava com calor residual.
— Onde diabos eu tô? — Dante sentou-se, coçando a cabeça, que latejava como se ele tivesse bebido três garrafas de uísque barato falsificado na noite anterior. — Merda... Isso aqui parece o cenário de um filme pós-apocalíptico de baixo orçamento. Cadê a Saga? Cadê a Philia?
Ele tentou se levantar, mas sentiu um peso estranho e desconfortável. Algo estava puxando seu ponto de equilíbrio para trás. E algo estava se mexendo dentro da sua calça.
— Merda! Memória, sua maldita, se você me jogou em um ninho de cobras eu invado o céu pra te matar! — Dante gritou olhando para baixo, pronto para dar um tapa no intruso.
Não era uma cobra. Saindo da base de sua coluna, furando o tecido de sua calça, havia uma cauda. Longa. Ela terminava em uma ponta de seta afiada que chicoteava o ar sozinha, como um gato irritado. Dante encarou a cauda. A cauda encarou o nada.
— ...
Ele piscou.
— ...
Ele puxou a cauda.
— AI! — A dor foi real e aguda. Estava conectada ao seu sistema nervoso. — Mas que p#rra é essa?! Nãooooo, meu drip foi pro inferno, eu não quero isso!
— Ei, ei! Pare de puxar seu novo acessório no meio da apresentação, Mestre! Que falta de classe! — A voz veio do lado, estridente e cheia de energia, quase como se estivesse anunciando um show.
Safira, a Index, estava em sua forma de grimório flutuando ao lado, mas girava no ar com uma animação teatral, como se estivesse dançando.
— Se vai ter um rabo, pelo menos use ele para dar um show! Puxar é tão deselegante!
— Safira?! — Dante apontou para a própria bunda, histérico. — Explica isso! Eu virei um furro?! Isso é algum fetiche daquela Deusa maluca?
— Análise completa. — A voz de Sora cortou o ar, fria, metálica e irritantemente calma, vindo da manopla esquerda que piscava em alerta amarelo. — Parece que a instabilidade externa funcionou como catalisador. A sua estrutura genética híbrida de Scarlune, que mantinha os genes de Demônio e Serafim em anulação mútua, colapsou.
— Mas desde que você invadiu Morpheus as características demoníacas vieram ganhando prioridade, não é? — Sora completou, com um tom levemente presunçoso, como se estivesse explicando o óbvio para uma criança lenta.
Dante relembrou dos pequenos chifres escondidos sob seu cabelo.
— Eu tô virando um Demônio!? — Ele parecia mais depressivo com a própria afirmação do que irritado.
— Correção. — Sora interveio, projetando um holograma de dados simplificado. — Sua taxonomia permanece inalterada. Apenas a fenotipagem demoníaca assumiu o controle majoritário da sua biologia. Francamente, combina mais com sua natureza destrutiva.
— Meu drip já era... agora vão ficar olhando esquisito pra mim... que droga! — Dante não ligava nem um pouco para sua espécie, nem se estava virando um monstro; apenas não gostava de sua skin ter sido alterada sem seu consentimento. — Eu odeio todos vocês Astreus malditos!
— Mas, mudando de assunto! Por que o palco mudou tão de repente? — Safira, o grimório, deu uma pirueta no ar. — Esse cenário é super depressivo! Cadê a iluminação? Por que viemos parar nesse lugar sem graça?
— A Biblioteca da Memória reside na décima primeira dimensão. Tempo e espaço são meras sugestões variáveis lá. — Sora explicou, ignorando os murmúrios de Dante com indiferença profissional. — Quando ela executou a expulsão do Parceiro, houve uma recalculação espacial forçada.
— Ah! Entendi! Então foi uma saída dramática que nos jogou em Gehenna! — Safira exclamou, como se estivesse lendo um roteiro emocionante. — Julgando pelo script da Biblioteca Celeste e por esses destroços horríveis... Bem-vindo ao Distrito do Orgulho! Ou o que sobrou da festa!
— Gehenna?! — Dante arregalou os olhos. — Como eu vim parar no reino vizinho?!
— Explicação redundante para um cérebro limitado, mas vamos lá: Dimensões Superiores. — Sora suspirou digitalmente, com a paciência de quem ensina física quântica para uma porta. — Um único passo na Biblioteca equivale a centenas de quilômetros no plano físico. A Memória calculou a trajetória exata para descartá-lo aqui. Ela te chutou direto para o olho do furacão com precisão cirúrgica.
Dante massageou as têmporas. A dor de cabeça estava piorando, latejando atrás dos olhos.
— A Memória... o Jogo... — Ele fechou os olhos, tentando lembrar da conversa entre eles. — Eu perguntei sobre o Rei... ela me mostrou... o que ela me mostrou?
Ele forçou a mente. Viu vultos. Viu uma sombra no trono. Viu sangue dourado escorrendo. Mas as palavras exatas... a "Verdade" que ele deveria ter aprendido... estava borrada. Como um sonho que se desfaz cinco segundos depois de acordar.
— Eu não consigo lembrar direito — admitiu Dante, frustrado.
— É a penalidade do jogo, Mestre! — Safira desceu e parou ao lado dele, "olhando" para a marca pulsante no braço dele com curiosidade exagerada. — O "Favor" que ela implantou está bloqueando o acesso! É um Game Over temporário nas suas memórias até você ativar o gatilho! Você foi hackeado com estilo!
Dante olhou para as próprias mãos. Ele falhou. Perdeu o jogo, ganhou uma cauda ridícula, uma tatuagem amaldiçoada e foi jogado no meio do território inimigo sem seus aliados.
— Que dia de merda. — Dante chutou uma pedrinha, que voou longe com uma força desproporcional. — Eu devia ter ficado na cama.
Mas então, ele olhou ao redor. A destruição em Crisopeia era recente. O cheiro de ozônio, magia queimada e morte ainda estava fresco no ar. E, mais importante, o silêncio de sua mente o lembrava de quem não estava ali.
Ludmilla. Eliza. Philia. Saga. Ele as deixou para trás. Philia e Saga ficaram na Biblioteca. Ludmilla e Eliza... ele nem sabia onde estavam.
A culpa tentou subir pela garganta, mas Dante a esmagou com seu pragmatismo habitual.
"Se eu ficar choramingando aqui, não resolvo nada. A Memória me jogou aqui por um motivo. Se eu estou em Gehenna... então estou perto delas."
Ele se levantou, limpando a poeira radioativa da calça branca. A cauda negra se ergueu atrás dele, tensa e pronta, chicoteando o ar como um radar de perigo.
— Desculpa, Ludmilla, Eliza... e até você, Saga — murmurou Dante, olhando para o horizonte escuro e tempestuoso de Gehenna. — Eu sei que estou atrasado para a festa. Provavelmente perdi o buffet e a briga principal.
Ele cerrou os punhos, e a marca em seu braço pulsou violeta, reagindo à sua vontade. O ar ao redor dele ficou pesado.
— Mas eu não esqueci o objetivo principal. Foda-se o Rei, foda-se a Memória e seus joguinhos mentais.
Dante deu o primeiro passo em direção à saída da cratera. Seus olhos não tinham mais o brilho preguiçoso de sempre; agora, brilhavam com uma determinação perigosa.
— Já passou da hora de buscar a Anna e a Yuki.
— Sora, Safira... — Dante chamou, sem olhar para trás, a cauda dificultando seu caminhar, tendo que se equilibrar a todo momento. — Vamos. Temos um reino para virar de cabeça para baixo.
Parte 11
"O Jardim abriu. Os Invasores estão chegando. Corra, Dante."
A voz da Astreus da Memória não veio de fora; ela ecoou nas sinapses de Dante como uma enxaqueca ruim, daquelas que vêm depois de misturar vinho barato com leite vencido e girar em uma cadeira de escritório.
Dante parou no meio dos escombros fumegantes de Crisopeia, enfiando o dedo mindinho no ouvido e sacudindo a cabeça violentamente, como se tentasse tirar água depois da piscina.
— "Invasores"... "Jardim"... Bla, bla, bla. — Ele resmungou, chutando uma lata de refrigerante amassada que voou longe. — Essas divindades adoram falar por enigmas. Por que nunca dizem algo útil, tipo: "Vire à esquerda na padaria para achar a Anna"? Não, tem que ser sempre apocalíptico e vago.
— Calma, Mestre... tem que saber apreciar as preliminares. Se você quiser tudo de forma rápida, nunca vai ser popular com as garotas. — Safira surgiu flutuando ao lado dele, fazendo uma pose dramática no ar e folheando suas próprias páginas como um leque vitoriano.
— Relaxa, Safira, ele tá assim por causa da hipoglicemia. — Sora murmurou da manopla, a voz metálica carregada de tédio.
— É claro que estou com fome! Eu fui jogado de uma dimensão para outra e nem tomei café da manhã! — Dante reclamou, a cauda negra chicoteando atrás dele em irritação pura, fazendo-o tropeçar nos próprios pés enquanto tentava se acostumar com o novo centro de gravidade. — E essa cauda maldita não para quieta! É como ter um gato com TDAH preso na minha bunda!
— Foco, Parceiro. — A voz de Sora cortou a birra, fria e precisa como um radar. — Reclamações não preenchem a barriga... — De repente, a luva silenciou, os circuitos pulsando em alerta vermelho. — Estou sentindo algo. Logo à frente, tem uma assinatura de Éter... singular. Recomendo cautela extrema.
Dante suspirou, a postura desleixada voltando instantaneamente. Ele ajeitou a gola da camisa preta, cobrindo a marca pulsante no braço esquerdo.
— Vamos dar uma olhada. Se tiverem comida, eu negocio.
— E se eles não quiserem negociar? — Sora perguntou, retórica.
— Eu roubo, é óbvio! — Dante respondeu sem hesitar, um sorriso ladino surgindo.
— Esse é meu Mestre! — Safira vibrou, mais animada do que deveria com a perspectiva de crimes. — Roubar é só uma "transferência de patrimônio não solicitada"!
Eles se esgueiraram por trás de uma parede semidestruída de um antigo shopping center de luxo, agora reduzido a ruínas de mármore e vidro quebrado. O cenário era clássico de filme B: um grupo de cinco Pesadelos saqueadores, criaturas com pele de couro e armas improvisadas, cercava uma única figura no centro da praça de alimentação destruída.
— Pelo amor de Deus, esses caras não aprendem? Se eu roubar eles ainda por cima, vai ser humilhante demais. Não gosto de chutar cachorro morto. — Dante resmungou, lembrando do resultado patético de seu último encontro com sequestradores.
— Passa tudo, boneca! — rosnou o líder, um lagarto humanoide segurando uma barra de ferro retorcida. — Essa roupa esquisita deve valer uns trocados no mercado negro!
A "vítima" era uma mulher. Ela vestia trajes de couro preto, mal-ajustados, claramente roubados de algum cadáver recente, mas que contrastavam violentamente com sua beleza exótica e predatória. Ela estava parada, imóvel, de braços cruzados, analisando os bandidos não com medo, mas com o desdém absoluto de uma rainha olhando para baratas na sola de sua bota de salto alto.
— Tá p#rra... — Dante sussurrou, estreitando os olhos. — Agora que eu vi direito... aquela mulher nasceu com os atributos de beleza no máximo.
— Pois é. Ela tem comissão de frente que desafia a gravidade, mas o mais incrível é a proporção áurea. — Sora fez uma análise técnica fria, projetando linhas verdes sobre a figura da mulher. — Cintura, quadril, altura... geneticamente otimizada para atração visual máxima.
— Ha! Os meus "atributos" são ainda maiores e, usando esse monte de trapo, ela não conseguiria me vencer em um concurso de beleza! — Safira adicionou, estufando o peito com ciúmes.
— Vocês... vermes.
A voz da mulher era gélida, carregada de uma superioridade sombria que fez a temperatura cair mais alguns graus.
— Querem testar se são capazes de suportar meu... afeto?
O líder piscou, confuso com a escolha de palavras.
— Que papo é esse, sua maluca? A gente quer tua grana!
A mulher — Maysa — suspirou, fechando os olhos como se a mera presença deles ofendesse seus sentidos refinados.
— Infelizmente, até onde vejo... Inteligência: inexistente. Valor reprodutivo: zero. Apenas ouvir vocês respirarem é um desperdício da minha atenção divina.
Ela se moveu. Não foi um ataque de artes marciais. Foi um expurgo. Maysa apenas caminhou. Quando o primeiro bandido atacou com um porrete, ela segurou o pulso dele e torceu com a indiferença de quem quebra um galho seco para acender uma fogueira. Não houve estalo de osso; o braço foi arrancado. Com o mesmo movimento fluido, ela usou o membro decepado como arma para esmagar a traqueia do segundo atacante.
Em três segundos, quatro corpos estavam no chão, contorcidos em ângulos não-euclidianos. O líder, o único restante, tentou correr. Maysa apareceu na frente dele como um espectro da meia-noite, bloqueando a saída.
— Você não serve nem para ser meu tapete... Desapareça.
Ela tocou a testa dele com a ponta do dedo indicador. Uma chama azul, fria e silenciosa — um fogo-fátuo cruel — consumiu a cabeça do lagarto instantaneamente. O corpo caiu sem vida, a fumaça subindo em espirais elegantes.
Dante assobiou baixo atrás da parede.
— Ok... nota mental: não convidar essa moça para jantar. Ela parece ter critérios de seleção bem rígidos, e de preferência melhor ir pra bem longe. Pelo papo que ela falou, senti que essa bomba vai sobrar pra mim.
— Ei, Parceiro... tem outro detalhe estranho na "gostosa" ali. — Sora avisou, os circuitos da luva brilhando. — O Éter dela é denso demais. Não se enquadra nos parâmetros de Sonhos ou Pesadelos comuns. A assinatura energética... parece bastante com a sua.
Sora imaginou que aquilo seria a pedra final para fazer Dante intervir ou se envolver mais. Fugindo totalmente da previsão da Luva, aquele foi o gatilho para ele decidir que a atitude mais sensata a se tomar era a retirada tática.
— Já tenho problemas demais, vou passar esse boss pro próximo otário. — Dante começou a engatinhar para longe como um caranguejo furtivo.
— Argh...
De repente, um gemido rouco ecoou da cratera próxima. Um homem se arrastou para fora dos escombros. Sua armadura sagrada, antes branca e polida, estava reduzida a sucata retorcida. O cabelo branco estava manchado de fuligem e sangue seco, e ele se movia como se cada osso do corpo estivesse trincado (o que provavelmente era verdade).
Teth. O Defensor dos Sonhos, sobrevivente do desastre natural no laboratório de Aslan e da fúria da própria marca, finalmente emergira do soterramento. Ele estava cego de um olho pelo sangue coagulado, desorientado e respirando com a dificuldade de um afogado.
Maysa girou a cabeça lentamente. Seus olhos reptilianos focaram na nova variável com uma fome calculista. Ela farejou o ar.
— Hum... você é a fonte daquela energia caótica que estava lutando antes... — Ela murmurou, as pupilas dilatando ao sentir o resíduo de poder em Teth. — E conseguiu resistir àquele colapso físico e estrutural... provando ter uma resistência genética superior.
Um sorriso, o primeiro que ela dava, curvou seus lábios de forma sádica e aristocrática.
— Você tem potencial... Vejamos do que é capaz.
Teth ergueu a cabeça, a visão turva focando na mulher desconhecida cercada de cadáveres.
— Quem... é você? — ele grunhiu, tentando invocar sua espada, mas seu Éter falhou, esgotado pela luta anterior contra Aslan e Katsuragi.
— A Juíza — declarou Maysa, sua voz ecoando como um veredito final.
Ela desapareceu. A velocidade dela era insana. Ela reapareceu no ar, descendo sobre Teth com uma perna erguida como a lâmina de uma guilhotina, pronta para partir o crânio dele ao meio. Teth tentou erguer os braços para bloquear, mas sabia que era inútil. Ele estava sem energia. Ia morrer ali, nas ruínas do lugar que tentou salvar, como um fracasso.
"Patético...", pensou Teth. "Eu ainda não posso morrer aqui... não antes de mudar algo."
Ele fechou o olho bom, esperando o impacto e a escuridão.
CLANG!
O som de metal contra carne reforçada ecoou pela praça, alto como um sino de igreja. Mas a dor não veio.
Teth abriu o olho lentamente. Diante dele, de costas, havia uma figura. O homem vestia roupas pretas e brancas, o cabelo escuro com mechas vermelhas balançando com o vento do impacto. Ele segurava um vergalhão de aço enferrujado — arrancado de uma coluna próxima — que agora bloqueava o chute devastador de Maysa a centímetros do rosto de Teth.
O aço gemia e entortava sob a pressão absurda da perna dela, mas o homem não cedia um milímetro.
— Ei, ei, moça... — A voz do recém-chegado era arrastada, preguiçosa, como se ele estivesse reclamando da demora no caixa do supermercado e não parando um golpe capaz de rachar um tanque. — Eu sei que o cara ali tá meio acabado, parecendo lasanha requentada, mas bater em deficiente é contra as regras, sabia?
Maysa arregalou os olhos levemente, surpresa pela interrupção de um ser que ela não havia julgado digno de nota. Ela forçou a perna para baixo, aumentando a pressão. O homem grunhiu, os músculos das costas retesando sob a camisa preta justa.
— E você, Teth... — O homem virou o rosto levemente para trás, um sorriso cínico e cansado nos lábios. — Tira um cochilo, vai. Você tá parecendo um figurante de filme de zumbi. Deixa o protagonista trabalhar um pouco.
Algo se moveu atrás do homem. Uma cauda. Longa, negra, com uma ponta de seta afiada, balançando com irritação própria.
Teth piscou, limpando o sangue dos cílios. Ele reconhecia aquela voz. Mas a cauda... a marca roxa pulsando no braço que segurava o vergalhão...
— Você... — Teth sussurrou, a incredulidade superando a dor das costelas quebradas. — Dante?!
Dante empurrou Maysa para trás com um solavanco de força bruta, girando o vergalhão nos dedos com destreza e assumindo uma postura de combate relaxada.
— Em carne, osso e... — Ele olhou para a própria cauda, que fez um "joinha" involuntário e cômico no ar. — ...e acessórios extras não solicitados.
Ele piscou para Teth.
— Sentiu minha falta, Princesa?
Maysa aterrissou agachada a alguns metros, seus olhos alternando entre os dois homens. O cálculo genético em sua mente explodiu ao analisar Dante.
— ... — Ela lambeu os lábios, um gesto lento e deliberado. — Parece que, talvez... você finalmente tenha amadurecido, pequeno fruto.
Dante suspirou, estalando o pescoço. O sorriso brincalhão sumiu, substituído por um olhar sério e focado. A fome foi esquecida.
— Eu realmente não queria ter que lidar com você agora — murmurou Dante, a marca em seu braço brilhando mais forte.
— Vamos dar um show, Mestre! O palco é todo seu! — Safira vibrou, girando no ar.
— Se não quer lidar com ela, basta vencer. — Sora completou, armando os sistemas da manopla.
Nas ruínas de Crisopeia, sob a chuva de óleo e o olhar de um deus caído, o tabuleiro estava montado novamente. E o Coringa acabara de entrar em jogo.



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