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The Fall of the Stars : Capítulo 3 - A chegada do Inverno e o Circo Meia-Noite.

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 11 de nov. de 2025
  • 76 min de leitura

Atualizado: 15 de nov. de 2025

Volume 9: O Mais Fraco

Entrelinhas 

Um silêncio absoluto, espesso como o próprio veludo que forrava as paredes. O ar estava frio, com o cheiro de poeira de livros antigos e algo metálico, como ozônio.

A Mulher novamente estava em sua cadeira. As luzes da sala de veludo estavam apagadas.

O único som era o ranger quase imperceptível da madeira de sua poltrona, balançando lentamente, ritmicamente, na escuridão total. Um movimento preguiçoso, quase zombeteiro.

Lentamente, um único facho de luz se acendeu, vindo de cima, e foi em direção a ela, como se a sala de livros agora fosse o palco de um show e ela fosse a apresentadora.

O facho de luz era nítido, cortando a poeira flutuante. Ele não a atingiu de uma vez. Primeiro, iluminou apenas suas mãos pálidas, descansando sobre um livro de capa escura em seu colo. Depois, o facho subiu, hesitante.

Antes de ser iluminada por completo, ela falava para a escuridão, sua voz ressoando com o vento:

A voz parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo — um sussurro amplificado que parecia um vento passando por entre prateleiras intermináveis.

— A história continua a se desenrolar. Os segredos, aos poucos, começam a vir à tona. O vermelho se espalha pelo mundo azul... e o Circo abre suas portas.

A luz se intensificou, banhando-a. O círculo de luz se alargou, subindo por seus braços, seu peito, até finalmente encontrar seu rosto. Mas ela ainda mantinha a cabeça baixa, o queixo caído.

— A pobres sejam as crianças correndo por Morpheus... — ela continuou, seu tom agora mais suave. Ela ergueu a cabeça lentamente, e o facho de luz pareceu recuar por um instante, antes de se firmar em seu rosto. — O jardim tem seus portões fechados, temendo o que vem de fora. Mas, às vezes, a maior ameaça de um jardim... já reside nele.

Ela então se iluminou por completo. A luz agora era dura, teatral. E ali estava o paradoxo: Seus olhos estavam visivelmente tristes, mas o mesmo sorriso largo e zombeteiro continuava em seu rosto. As lágrimas acumuladas em seus cílios brilhavam, mas não caiam. O sorriso era uma máscara de porcelana pintada, tão largo que parecia doloroso.

— O relógio continua a badalar, mesmo em um mundo sem tempo — ela disse, olhando diretamente para o "público" invisível. Ela olhou diretamente para a escuridão de onde a observamos. 

— ...como um trem em linha reta, indo até seu destino final. Mas se esse destino conterá Sonhos ou Pesadelos, disso nem eu mesma sei.

Ela se ajeitou na poltrona, dando um tapinha elegante no braço vazio do assento ao lado dela, como se convidasse alguém a se sentar.

— Por isso, sente-se comigo. Vejamos juntos aonde essa história planeja nos levar.

Assim, ela abriu o livro de capa de couro em seu colo. O som do couro velho rangendo foi alto no silêncio. Ela não usou as mãos; a capa se abriu sozinha com um 'thud' suave.

As folhas começaram a passar rapidamente, sozinhas, cada vez mais rápido, um borrão de palavras não lidas. Um vento forte surgiu de dentro do livro, soprando os cabelos dela para trás, mas seu sorriso não vacilou. 

De repente, a luz do palco se apagou. Um 'clique' súbito. O som das páginas parou. O vento cessou. Tudo na sala se escureceu.

Apenas a página aberta do livro continuou visível, brilhando com uma luz própria no reino da escuridão. 

Parte 1

Na roda gigante, o som do "Mar das Nuvens" era um sussurro distante, misturado com uma música suave de pianos e violinos que parecia vir da própria cidade de Wonder. A gôndola de metal branco e dourado balançou suavemente, o rangido quase silencioso. Dante e Ludmilla alcançavam a parte mais alta do céu. 

Ludmilla respirou fundo o ar limpo, antes de começar a falar. — Certo. Acho que já estou preparada. Pode contar.

Dante, que estava olhando para a cidade brilhante, hesitou. Ele apertou as mãos nos joelhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele parecia se preparar para falar, mas vacilava. Seu coração batia mais rápido.

Ludmilla olhou para ele com um olhar inesperadamente gentil. — Eu sei que deve ser difícil. Mas quanto mais demorar, mais difícil vai ser. Se quer mesmo confessar, tem que fazer isso antes que perca a coragem que te trouxe aqui.

Dante então respirou fundo também. Ele se virou e, olhando para ela nos olhos, começou a falar. — Ludmilla... eu...

Novamente, ele travou. Ele engoliu em seco, as palavras presas na garganta. O sorriso confiante que ele exibia mais cedo havia desaparecido, substituído por pura ansiedade.

Ludmilla olhou para ele, seu tom gentil sumindo, substituído por uma impaciência familiar, e falou bem baixinho: — ...Vigliacco... (Covarde.)

— Ei! — Dante protestou, corando. Ele se endireitou, ofendido. — Eu entendi isso! Eu 'tô precisando juntar toda minha coragem pra falar, dá pra não fazer piada disso?!

Ludmilla bufou, como se estivesse cansada. — Mas até quando vai ficar arrastando isso? Se vai falar, fale de uma vez. De qualquer forma, eu já tenho uma ideia do que seja.

Dante ficou pálido e depois vermelho de vergonha. — Vo-você... você sabe?!

Ela se aproximou, inclinando-se para frente na gôndola, olhando mais perto dos olhos dele. Dante, sem graça, olhou para o lado.

A roda gigante parou suavemente, com eles lá no topo, para alguém entrar na parte de baixo. O silêncio repentino, quebrado apenas pela música orquestral distante, tornou a cabine pequena e claustrofóbica.

— Dante... — ela falou, sua voz séria. — Você... perdeu os seus poderes, não é?

Um silêncio. O rosto de Dante passou da vergonha para o puro horror.

E então, Dante tapou os ouvidos com as duas mãos e começou a gritar, chorando com desgosto: — NÃO FALE ISSO NÃOOO!

O grito foi agudo e histérico, ecoando pateticamente pelo céu aberto, completamente fora de lugar naquela utopia pacífica.

— Eu já imaginava — Ludmilla disse, cruzando os braços, recostando-se calmamente, impassível diante do colapso dele, e terminou, murmurando: — Accidenti, alla fine sarai davvero inutile. (Droga, no final você será realmente inútil.)

— EU SEI QUE VOCÊ TÁ ME CHAMANDO DE INÚTIL, SABIA! — Dante gritou, parando de chorar. Ele limpou as lágrimas e o ranho do rosto com raiva. — Eu não tenho culpa!

Ele voltou e sentou na cadeira da gôndola, amuado, olhando o lado de fora. — Eu não imaginava que esse mundo não tinha o conceito do tempo.

— Não. — Ludmilla falou. Seu tom agora era calmo, analítico. — Você não entendeu.

Dante voltou a olhar para ela. Ludmilla agora olhava para o céu azul. Seus olhos varrendo o horizonte, calculando. — Se você prestar atenção, o mundo realmente tem algumas coisas estranhas, mas não é tão estranho quanto seria caso o tempo não existisse. Eles falam coisas no verbo passado. Além de que existe um sol azul em movimento. O que significa que eles têm "passado" e o dia pode ser contado.

Dante ficou confuso. — Verdade... Espera. Mas se isso é verdade, por que meus poderes não funcionam? E por que a Silence ficou confusa sobre a palavra "tempo"?

— Eu prestei atenção — Ludmilla continuou. — Desde que acordamos na praia, 'tô tentando contar os minutos. Teoricamente, estamos há umas 6 ou 7 horas nesse local. Nesse tempo, o sol já deveria ter se movido, se aproximando mais da tarde ou noite. No entanto, o sol não deu um único passo.

Ela o encarou. — Eu acho que, apesar de existir tempo nesse mundo, ele é irrelevante. Ele não deve ter uma importância tão grande quanto tem no nosso mundo. Como se a hierarquia dele fosse inferior ao próprio mundo. Por isso, apesar de existir, eles não o contam, o que gera a confusão de Silence sobre a palavra, já que não deve ser algo que as pessoas discutem ou falam.

Dante processou aquilo. — Espera. Então eu não perdi meus poderes? Eles só se tornaram irrelevantes. — Dante foi perdendo a calma e a tristeza que se transformaram em raiva. — EU TENHO CERTEZA QUE ISSO É AINDA PIOR!

Eles pararam e começaram a ficar um pouco mais sérios. A realidade da situação, o perigo, retornou.

— Ainda assim — Dante disse, mais baixo —, aquilo foi estranho. Eles agirem de forma muito estranha ao assassinato daquele homem. Mesmo que ele seja um criminoso.

— Em um mundo onde o tempo é irrelevante, é normal que prisões sejam coisas idiotas — Ludmilla teorizou. — Afinal, prender uma pessoa nunca resultaria em nada, uma vez que ele não "sente" o tempo passar. Mas... — ela parou — ...isso ainda não explica o fato deles agirem com tanta indiferença.

— Também tem o lance dos Astreus — Dante continuou. — Como assim eles acreditam em apenas 5 deles? E por que ela disse que eu sou uma "Cria do Astreus da Memória"? Nada disso parece fazer muito sentido.

Ludmilla olhou para o braço enfaixado de Dante. — De acordo com o que você tinha dito... esse "braço" é a Autoridade da Possibilidade, não é?

Dante confirmou com a cabeça. — O que acha? Consegue usar ele para tentar fazer algo com esse mundo? Talvez achar uma saída dele?

— Não tenho certeza — Dante admitiu. — Eu não entendo bem como essa Autoridade funciona. Uma vez eu até usei isso em uma batalha, mas foi apenas porque eu realmente senti que não tinha outra alternativa. E eu não sei o que vai acontecer... enquanto eu não salvar a Anna da... sabe-se lá quem possuiu o corpo dela.

— Verdade — concordou Ludmilla. — Temos que achar tanto a Yuki quanto a Anna antes de pensar em sair daqui de qualquer forma.

— Pelo menos eu não 'tô totalmente sem poder — Dante disse. — Enquanto eu puder manipular o Éter...

De repente, ele parou de falar. Seu corpo enrijeceu, e sua cabeça virou bruscamente para a esquerda. Ele sentiu algo incomodando ele. Ele olhou para o lado de fora, para longe do parque.

— O que foi? — Ludmilla perguntou.

— Aquela parte... da cidade.

Ludmilla olhou. Ela se inclinou contra o acrílico da gôndola, seguindo o olhar dele. Ambos notaram, agora do alto da roda-gigante, uma parte da cidade que era meio escura, coberta por uma névoa densa, uma mancha escura no meio do branco e dourado, onde não dava para se ver muito bem.

— Estranho — Ludmilla falou. — Eu nem tinha reparado antes.

Ela ficou surpresa, já que estava prestando atenção ao redor. Ela se virou para Dante. — Como você notou?

— Eu não sei — Dante respondeu, seus olhos vermelhos fixos na escuridão. — Só... senti algo.

Ludmilla continuou observando pela janela, mas pensou: — "Será que isso... poderia ser algo relacionado à parte Astreus dele?"

— O melhor a se fazer agora — ela disse, decidida — seria se separar dos nossos "novos amigos" e começar a investigar. Precisamos achar a Anna e a Yuki. Continuar brincando aqui não vai ajudar.

Dante concordou. A roda gigante começava a descer.

— Você perdeu a chance, sabia? — Ludmilla disse, com um sorriso de canto.

— Hã?

— Essa seria a oportunidade perfeita para você se confessar.

Dante ficou com as orelhas vermelhas, olhando pela janela. — ...Vai ficar brincando comigo até nessas horas? — ele murmurou.

Parte 2

Ao descer da roda gigante, Dante e Ludmilla começaram a olhar em volta, discretamente, para ver se conseguiam sair do parque sem chamar a atenção de Silence e Philia.

Seus movimentos eram casuais, mas seus olhos, não. Dante se abaixou, fingindo amarrar um cadarço que já estava amarrado, usando o momento para escanear a multidão em busca de uma saída. Ludmilla pegou um panfleto colorido do parque, usando-o para esconder o rosto enquanto seus olhos rastreavam Silence e Philia, que estavam distraídas em uma barraca de doces.

Quando, de repente, alguém apareceu por trás deles. Uma mão pousou no ombro de Dante.

O toque foi leve, quase gentil, mas pesado como chumbo. Dante congelou, seu corpo inteiro enrijecendo instantaneamente. Ludmilla, vendo a reação dele, se virou em um movimento fluido.

— Achei vocês. Então, vocês são os recém-chegados.

Atrás deles, com seus cabelos brancos, auréola suave e um sorriso cordial e elegante, estava Teth. A multidão alegre e barulhenta do parque parecia se afastar dele, criando um círculo de silêncio que só Dante e Ludmilla podiam sentir. Ele chegou antes mesmo que eles pudessem ver ou sentir sua aproximação.

De repente, Silence e Philia se aproximavam correndo. A tensão se quebrou com a chegada delas, e a música alegre do parque pareceu voltar ao volume normal.

— Ah, vocês terminaram! — Silence foi até Dante, pronta para chamar ele para o próximo brinquedo.

— Ah, foi mal — Dante disse, coçando a nuca. — É que eu estou meio cansado agora.

— É verdade! — Philia concordou, parando ao lado dela. — Desde que chegaram, vocês ainda não tiveram uma pausa. Acho que é bom descansar um pouco.

— Sim, exato — Dante concordou rápido demais. — Mas vocês podem ficar e se divertir mais um pouco. Não queremos incomodar.

— Mas por que se incomodar? — Teth se intrometeu, sua voz calma e suave. Ele deu um passo à frente, posicionando-se casualmente entre Dante e Ludmilla, separando-os com sua presença. — Elas podem vir para o parque a qualquer momento. Mas pouco se pode dizer de experimentar a cidade ao lado de recém-chegados.

Dante e Ludmilla encaram ele, desconfiados. E, por um segundo, seus olhos se encontraram, por cima do ombro de Teth, e eles pensaram em uníssono: "Ele realmente está de olho em nós."

Teth riu, como se lesse a mente deles. — Olha só. Essa olhada que vocês deram já me diz tudo que eu preciso saber. Vocês são do tipo forte e que gosta de lutar, né?

— Não sei do que está falando — Dante tentou desconversar. Ele deu um passo para o lado, tentando se reposicionar ao lado de Ludmilla, mas Teth se moveu sutilmente, quase sem querer, bloqueando seu caminho. — É só... estranho pra gente falar com você, depois... daquela demonstração de antes.

— Sei — Teth disse. O sorriso não alcançou seus olhos azuis e frios. — Bom, vou fingir que acredito nisso. Por enquanto.

Ele passou andando entre eles e foi na direção de Silence e Philia. — As duas me contaram um pouco da situação de vocês. Náufragos do Mar das Nuvens... e uma Cria de Astreus. — Ele sorriu para Dante. — Eu realmente achei muito interessante e quis vir conhecer os dois. Que tal a gente aproveitar para se conhecer mais enquanto vocês relaxam? Eu sei exatamente onde podemos fazer os dois tranquilamente.

— Ah! — Philia olhou para ele. — O Senhor Teth está falando...?

— Claro! — Teth continuou. — Vamos para a casa de banho. Assim podemos relaxar enquanto conversamos.

— Boa ideia! Vamos! Vamos! — Silence comemorou.

E assim, eles começaram a andar, com Teth liderando o caminho. Ludmilla se aproximou de Dante. — O que devemos fazer? — ela sussurrou.

— Por enquanto, a melhor ação é seguir o ritmo — Dante respondeu, baixo. Ambos mantinham os olhos fixos nas costas largas de Teth. — Precisamos nos separar deles logo e ir em busca da Anna e da Yuki. Mas um passo errado poderia significar conseguir inimigos, e isso é a última coisa que eu quero.

Ludmilla concordou em silêncio.

A cidade era linda. Enquanto eles passavam, olhavam para algumas estradas que eram, na verdade, rios e córregos, e as pessoas passavam em barcos e gôndolas elegantes. O som da água correndo se misturava com o canto de pássaros mecânicos feitos de latão. Tinham árvores cheias de flores coloridas na frente de todas as casas, e algumas casas eram de tijolos brancos, enquanto outras eram feitas inteiramente de vidro. Através do vidro, eles podiam ver famílias rindo e jantando, mas não conseguiam ouvir suas vozes; era como assistir a um filme mudo.

Mas Dante ainda sentia um incômodo estranho. 

— Mas então — Teth falou, sem olhar para trás —, por que não falam mais de vocês enquanto caminhamos?

A pergunta casual cortou o ar como uma faca. Dante e Ludmilla enrijeceram.

Ludmilla e Dante se entreolharam, tensos. Mas foi Philia quem interveio. — Senhor Teth! Eles não conseguem! Eles perderam a memória.

Teth, andando despreocupadamente, riu. — Sim, é verdade. Onde eu estava pensando?

Ludmilla pensou: — "Ele estava nos testando."

Eles continuavam andando, agora vendo algumas pessoas diferentes. Eles notaram algumas pessoas com características de animais — orelhas de gato, caudas de raposa —, enquanto outros eram quase completamente antropomorfizados, como se fossem animais com pequenas características humanas, como um homem-lagarto de terno ou uma mulher-pássaro.

Dante acabou soltando, baixo: — Demi-Humanos...

Mas Teth, que prestava atenção, ouviu. Ele parou de andar instantaneamente. O grupo inteiro parou com ele. Teth se virou lentamente.

— "Demi-Humanos"? O que é isso?

Dante se encolheu. — Ah... eu também não sei. É uma palavra que surgiu na minha mente quando eu olhei para o pessoal com característica diferente.

— Hmm. Talvez seja algo envolvendo a sua memória — Silence sugeriu.

— Mas, ainda assim, é errado chamá-los de forma diferente só por causa que eles parecem diferente! — Philia disse, repreendendo-o gentilmente. — Muito cuidado para não falar isso de novo na frente deles.

— Pera, como assim? — Dante ficou confuso.

— Bom... é que eles também são Prims — ela disse, como se fosse óbvio.

Dante e Ludmilla se encararam, confusos.

— Bom, se eles não têm memória, devem ter esquecido disso também, provavelmente — Teth falou. 

— É verdade! — Philia percebeu. — Eles esqueceram de várias coisas óbvias! Como eu fui esquecer?

Ela explicou que, apesar de muitos Prims terem aparência totalmente diferente dos demais, com características de animais, asas, chifres ou escamas, no final, eles continuavam sendo Prims.

— Mas por que alguns são tão diferentes, então? — Dante perguntou.

— De acordo com uma profecia — Silence falou, ao lado dele —, isso acontece porque os Prims acabam sendo parecidos com "aqueles que os sonharam". Embora nós também não tenhamos certeza do que isso significa. Mas, por causa disso, eles acabam tendo personalidades e jeitos diferentes.

— O que você quer dizer? — Dante perguntou.

— Por algum motivo — Silence explicou —, Prims com certa aparência tendem a agir ou ser como aquilo que parecem. Por exemplo... Prims que parecem com lobos acabam sendo meio solitários e ranzinzas no primeiro encontro.

Dante e Ludmilla pensaram na mesma coisa: "O Espelho da Fé".

Ludmilla continuou andando, pensativa. — "Se isso for real... talvez parte do motivo desse cara, Teth, ser tão forte..."

Dante completou o pensamento: — "Realmente... aquele golpe até parecia uma punição divina."

De repente, algumas crianças apareceram e começaram a chamar a atenção de Teth, e o grupo parou. — Teth! Teth! Faz aquilo de novo! — as crianças falavam, puxando a roupa dele.

Ele fez biquinho. — Até parece. Não vou fazer. — Ele puxou um óculos preto circular da cabeça de um dos garotos e colocou no rosto. O gesto foi tão rápido que a criança nem percebeu, tateando a própria cabeça em confusão.

— Vaaai, Teth! Vai! A gente até segurou seu óculos! — elas imploraram.

— E mais — ele respondeu, se fazendo de importante —, não 'tá vendo que estamos tendo assuntos sérios de adultos aqui? Vão incomodar outra pessoa.

Elas começaram a dar língua para ele. — Mesquinho! Teth, seu idiota!

E começaram a se afastar, correndo por uma ponte alta que estava ao lado.

Philia riu. — De novo ele brincando com as crianças.

Dante escutou e prestou atenção nele, sem entender. O executor frio e o babá brincalhão... as duas imagens não batiam. Qual delas era a verdadeira? Teth, então, colocou a mão na frente do rosto. Ele emanou sua aura branca e, como se estivesse assoprando um pó da palma de sua mão, começou a espalhar sua aura em volta das crianças e da cidade. Ele soprou gentilmente.

A luz branca começou a cair como flocos de neve brilhantes, capturando a luz do sol azul e se multiplicando, deixando a paisagem ainda mais bonita e encantada. Dante observou a neve cair em sua própria mão..

Parte 3

Chegando na entrada da casa de banho, o cheiro de enxofre e minerais quentes saía da entrada opulenta, o vapor umedecendo o mármore branco, uma multidão se formou em volta deles, começando a fazer um círculo apertado em volta de Teth. Antes mesmo que pudessem reagir, a primeira pessoa, uma mulher-raposa com roupas finas, agarrou o braço de Teth.

— Opa, galera! Calma, que tem de mim pra todo mundo! — ele falava, rindo.

Até que, de repente, eles foram completamente cercados e esmagados pela multidão. Dante e Ludmilla foram instantaneamente separados de Teth, empurrados para a borda do círculo por uma onda de corpos adoradores. O ar ficou rarefeito, quente e barulhento.

As pessoas à volta falavam umas por cima das outras: — Senhor Teth! Mestre Teth! — Senhor, tome banho comigo! — Venha beber um pouco conosco de novo! — Senhor Teth, tome umas frutas como agradecimento pela última vez! — Senhor Teth! Minha carruagem quebrou de novo, pode me ajudar?!

Mais e mais pessoas iam aparecendo, empurrando e esmagando o grupo. Era um frenesi de adoração. Dante tentou manter o equilíbrio, seus olhos vermelhos varrendo o caos em busca de Ludmilla.

Ludmilla, vendo a oportunidade perfeita, aproveitou para puxar Dante pelo braço. Ela surgiu do meio de dois Prims corpulentos, seu rosto calmo e focado, e agarrou o pulso dele com força. — Agora. Vamos aproveitar a chance.

Dante rapidamente entendeu o que ela queria dizer. Ambos começaram a correr em volta da multidão, agachando-se e usando os corpos maiores como cobertura, ocultando suas auras completamente e saindo de perto do tumulto. Eles deslizaram pela periferia do caos, como água contornando uma pedra, e mergulharam na primeira rua lateral que viram.

Assim que saíram da vista, Dante colocou a mão no chão e ativou o Strain. Ludmilla fez o mesmo. Ambos tocaram o mármore branco quase em uníssono.

Eles aceleraram em alta velocidade, suas figuras borrando pelas ruas laterais. O mundo se tornou um túnel de branco, dourado e azul, passando por pontes de vidro e canais de água cristalina tão rápido que a água parecia congelada.

— Então — Ludmilla falou, enquanto corriam —, conseguiu mesmo aprender o Strain enquanto 'tava treinando?

Os pés de Dante batiam no chão de forma irregular, quase fazendo-o tropeçar em uma curva fechada. A velocidade era instável.

— Aprendi, mas não dominei bem! — Dante respondeu. — Então é melhor não dependermos tanto disso!

Eles pegaram bastante distância e, finalmente, se esconderam entre os becos estreitos da cidade, recuperando o fôlego. Ludmilla o puxou para uma fenda escura entre dois prédios de vidro, mergulhando-os da luz ofuscante para uma sombra profunda e fria. O som de seus passos acelerados parou, deixando apenas o eco de suas respirações ofegantes.

— Certo... — Ludmilla falou, pressionando as costas contra a parede fria e espiando pela esquina, olhando para trás para ter certeza de que não foram seguidos. — Você entendeu a habilidade de Teth, a partir do que ele fez antes? Com as crianças?

— Aquilo não foi habilidade — Dante corrigiu, surpreendendo-a. Ele estava encostado na parede oposta, massageando a testa coberta, onde os chifres pulsavam levemente com o esforço.

Eles voltavam a andar para dentro do beco, prestando atenção ao redor. — A aura dele. Tinha propriedades de neve.

— Nunca procurei muito sobre essa coisa de "aura com propriedade" — admitiu Ludmilla. — Sabia que você tinha isso, mas...

Dante, vendo a dúvida dela, explicou: — Você lembra de como funciona o Éter ativo e inativo, né?

— Sim — Ludmilla respondeu, seguindo o raciocínio. Eles se moviam com cautela sobre poças de água parada do beco. — Éter inativo se comporta como líquido. Quando ativado com vontade, ele aquece, e podemos ver essa ativação através da nossa aura, que é como um vapor que sai da água aquecida.

— Exato. — Dante continuou. — Mas como o Éter é a energia da alteração, ele, bem... pode se alterar sem que o usuário faça algo.

— A "alteração espontânea" — Ludmilla completou.

— Isso. Às vezes, quando uma pessoa ativa seu Éter pela primeira vez, existe uma chance da aura dela sofrer uma alteração espontânea. Isso faz com que a propriedade dessa aura mude.

— Apesar da aura clássica ser como vapor... — Ludmilla continuou, entendendo —, ...as alteradas podem ser como neve. Agora entendi.

— Sim. A minha também é parecida — Dante disse. — Mas ao invés de neve, ela acabou ficando na forma de plasma. Embora no início eu achasse que era eletricidade.

Ludmilla o encarou, confusa. — Como assim "achou"? Como você não sabia?

— Ninguém ganha um tutorial sobre a própria aura! — Dante se defendeu, dando de ombros. — Eu vi ela emitindo eletricidade e achei que era isso. É um erro aceitável.

— ...Se você diz — Ludmilla terminou, revirando os olhos.

Assim, eles foram andando até que saíram do beco em uma rua mais movimentada e luxuosa. A escuridão fria do beco deu lugar a uma luz dourada e quente de lanternas penduradas. A arquitetura aqui era diferente, menos grega e mais vitoriana, com mármore escuro e detalhes em latão.

Na frente deles, havia um estabelecimento com portas de madeira escura e vitrais coloridos, de onde saía o som de música baixa e risadas. Era um jazz lento e sensual, e as risadas eram graves, não a alegria infantil do parque.

Eles se encararam e falaram em uníssono: — Bom... esse deve ser o lugar perfeito pra ter informação.

E assim, começaram a entrar dentro dele. Dante ajeitou a franja sobre a testa. Ludmilla endireitou as roupas brancas emprestadas, que pareciam totalmente deslocadas naquela rua. Eles trocaram um último olhar de confirmação e empurraram as portas pesadas de madeira.

Parte 4

Em volta do grupo de Teth, a confusão continuava, com mais pessoas aparecendo a todo momento, esmagando-os. 

Até que, de repente, alguém, badalando sinos, passou correndo pela multidão. O 'CLING-CLING-CLING' agudo e desesperado do sino cortou a cacofonia das vozes.

— URGENTE! URGENTE! O REI HOLLOW ACABA DE FAZER UM PRONUNCIAMENTO URGENTE!

Assim que ele começou a falar isso, todos pararam, observando. O mar de corpos congelou. Mãos que estavam estendidas para Teth pararam no ar. O silêncio que se instalou foi abrupto e pesado. Parecia até que haviam esquecido de que Teth estava ali. Uma menção de anúncio do Rei causava um impacto inconfundível em qualquer Prim.

Eles escutavam, esperando o anunciamento. O garoto que trazia as notícias, vestido com um colete feito de jornais, dobrou-se, ofegante, no pequeno espaço vazio que se formou.

— O Rei — o garoto das notícias falou, recuperando o fôlego — acaba de dizer que pretende abdicar de seu trono!

Na hora que ele falou aquilo, vários cochichos começaram entre as pessoas. Foi como o som de folhas secas sendo pisadas, um 'shhh' coletivo de pânico e incredulidade. Todos confusos, sem entender. Atravessando a multidão, Silence flutuou rapidamente até o garoto. Ela se moveu como um fantasma, passando por cima das cabeças, sua expressão infantil agora tomada por uma ansiedade nítida.

— Você tem certeza disso?

— Sim! — ele falou. — Nenhum engano! Foi exatamente isso que nosso Rei decidiu!

A multidão, vendo Silence, perguntou: — Mas, Senhorita Sacerdotisa, não houve nenhuma profecia mencionando uma abdicação! O que está acontecendo?

Silence falou, parecendo perdida: — Eu... eu também não tinha ideia. Ela olhou para as próprias mãos, como se fossem ferramentas quebradas. Eu nunca ouvi falar que algo assim poderia acontecer.

Mas Teth, tomando a frente, falou com autoridade: — Prossiga.

A voz dele não era mais o barítono amigável; era um comando frio, que silenciou os novos cochichos. 

O garoto das notícias prosseguiu. Aquela foi a primeira vez que a cara sorridente e sem preocupações de Teth mudou para uma séria. Seus olhos azuis se estreitaram, e o sorriso cordial desapareceu como se nunca tivesse existido.

— O Rei disse que não poderá continuar seu mandato como Rei dos Prims. Mas não devem temer! Uma solução já foi encontrada para decidir quem se tornará o novo Rei, agora que, infelizmente, sua herdeira de sangue não está mais entre eles.

O anunciante respirou fundo, olhando para a multidão em pânico. 

— Um torneio. Um jogo irá começar. E será nomeado de "Jogo das Coroas dos Sonhos". Ele será usado para que o novo Rei possa ser escolhido. A partir de agora, todos aqueles com fortes ambições receberão uma Marca da Coroa em seus braços. Esta marca vale um voto. Aquele que coletar a Coroa de todos os demais se tornará, por direito, meu sucessor. — O garoto engoliu em seco, como se tivesse medo de dizer as próximas palavras. — Não importa o que será necessário fazer para que consiga tal Coroa. Por diálogo, em negociações, ou através da espada no campo de batalha. Não importa o que ou quem seja. Aquele que vencer esse desafio, por direito, será o novo Rei.

Aquilo deixou todos abalados, sem acreditar. Todos começaram a cochichar, agora com um medo genuíno, olhando de soslaio para os vizinhos, se perguntando se o Rei havia enlouquecido. Se ele estava falando a verdade... isso significava que... até um Pesadelo poderia ser Rei?

Philia observava em silêncio, com a cara preocupada. Silence parecia aflita, tentando entender.

Teth, por outro lado, ria. Foi baixo no começo, um 'hmpf' de diversão. Ele baixou a cabeça, escondendo o rosto por um segundo. Um sorriso de canto de boca, divertido, havia retornado. Ele ergueu o rosto, e o olhar sério havia sido substituído por uma ambição ardente.

Ele caminhou, tomando o centro de todos, e começando a falar alto: — Calma, meus caros Sonhos!

Sua voz ressoou, cheia de confiança, cortando o pânico. A multidão se virou para ele, desesperada por um líder, por uma resposta.

Assim, ele liberou suas grandes e angélicas seis asas brancas. Elas se abriram, majestosas. O som foi como o de uma bandeira gigante se abrindo ao vento. As asas enormes, com penas brancas como a neve, lançaram uma sombra sobre a multidão antes de se erguerem. Ele voou no céu, subindo verticalmente em uma coluna de luz, iluminando tudo com sua aura branca e brilhante, pairando acima da multidão. Ele parecia um sol substituto, um ícone de esperança.

— Eu, Teth, declaro que irei me tornar o novo Rei! Então não temam! Pois um futuro brilhante aguarda a todos nós!

A multidão, ao ver seu protetor, seu herói pairando acima deles, começou a gritar, eufórica e animada, dizendo que essa era a única maneira, que agora não havia nada a temer. O pânico se transformou instantaneamente em adoração fanática.

Enquanto Teth recebia os aplausos, Philia caminhou entre o grupo — agora esquecido pela multidão, que só tinha olhos para Teth — até chegar em Silence, que ainda parecia preocupada.

— Senhorita Silence? Você está bem?

Silence piscou, saindo de seus pensamentos. Ela não estava olhando para Teth; estava olhando para o chão, para o local exato onde o grupo estava. — Eu... eu acho que sim. — Ela, de repente, começou a olhar em volta, para o local onde o grupo estava antes de ser esmagado pela multidão. — Espere... Onde Dante e Ludmilla estavam?

E assim, Philia também percebeu. Seu rosto se contraiu em súbita preocupação.

Parte 5

A pesada porta de carvalho se fecha atrás deles, e o som alegre da cidade de Wonder é instantaneamente abafado por uma cortina de veludo espessa. Dante a afasta, revelando a sala.

Ao entrar no bar, ele tinha uma aparência elegante e nobre, no entanto, estava quase vazio. Um violoncelo melancólico tocava de algum lugar invisível. O ar cheirava a mogno polido e ozônio. Poucas pessoas estavam lá. Um homem-lagarto lia um jornal em um canto escuro; uma mulher com feições de raposa bebia sozinha, sua cauda enrolada no banco. As bebidas coloridas atrás do bartender brilhavam, com uma luz própria, sobrenatural, lançando sombras oleosas, e o local inteiro era iluminado por lustres de cristais. Era como se fosse um local especial, menos um bar e mais a sala de estar de um lorde.

Dante caminhou até a frente do bartender e sentou. Ele girou no banco de couro com uma facilidade relaxada, seus novos olhos vermelhos varrendo o ambiente. Ludmilla sentou ao lado dele. Ela sentou-se de forma rígida, de costas para a parede, observando a entrada. Uma predadora em território desconhecido. Ambos ficaram encarando o homem, que se aproximou, polindo um copo com um pano branco.

— O que os senhores desejam beber?

— Dois copos da recomendação do elegante bartender — Dante pediu, sorrindo. O sorriso não alcançava seus olhos.

O homem sorriu de canto de boca e foi até a estante pegar algumas bebidas.

— Estranho esse bar também — Ludmilla murmurou.

— Pois é — Dante terminou. — Ele não tem a aparência de um bar. É mais nobre. Parece outra coisa.

— Você acha que vamos conseguir o que queremos aqui?

— Só tem um jeito de saber — Dante disse, relaxando no banco. Ele tamborilou os dedos no balcão, seus olhos fixos não no bartender, mas no reflexo de um homem em um canto escuro, visto no espelho atrás do bar. — Esperar. É como jogar o jogo da toupeira. Para pegar ela, você não pode ir martelando em todos os buracos. Você tem que ter calma, esperar, e deixar ela aparecer pra você... antes de martelá-la.

Ludmilla o encarou. — Eu não entendi nada...

Quando, de repente, um homem se aproximou por trás dela, o cheiro de álcool vindo antes dele. Dante viu no reflexo do espelho o homem se levantar do canto escuro e começar a cambalear em direção a eles.

— E aí, gracinha. Nunca te vi antes por aqui.

Ludmilla se virou, seu olhar frio, sua mão instintivamente se movendo para as costas, onde uma arma deveria estar. Dante sorriu.

— Entendi — ela disse para Dante, vendo a "toupeira" aparecer.

No mesmo instante, o bartender trouxe dois copos com um líquido azul brilhante. Dante pegou um e o empurrou pelo balcão para o homem. O movimento foi fluido e casual, interceptando o copo que era para Ludmilla e deslizando-o com precisão até parar na frente do estranho.

— Sente-se com calma, amigo. Temos bastante coisa para conversar.

O homem encarou Dante com um olhar estranho, mas Dante sorriu em resposta. Ele ergueu o próprio copo em um brinde silencioso. O homem se sentou.

O violoncelo ficou mais rápido e na frente de Ludmilla crescia uma pilha de copos azuis vazios acumulando-se.

Alguns copos depois, o cara estava todo sorridente, com o braço nos ombros de Dante, conversando e rindo das coisas como se fossem antigos amigos.

— ...e você não sabe como ela é! — o homem dizia, claramente bêbado. — Sempre que eu chego em casa, ela me encara e fala: "Já sei onde você tava!". E eu fico pensando: "É por causa desse seu olhar que eu penso em nunca sair de lá!"

Dante ria alto. O riso era performático; seus olhos estavam perfeitamente focados, analisando. — Hahaha! Aí é complicado! Mas sabe o que dizem: mulher feliz, homem feliz!

— E eu não sei! — o homem respondeu, batendo o copo no balcão. — Quando ela 'tá animada, eu consigo comida boa, massagem... e uma noitada inesquecível! Mas é só ela se irritar com uma coisinha... que meu dia vira um inferno!

Dante ria.

— Mas e aí? — o cara falou, se inclinando. Ele baixou a voz, criando um ar de confidência. — O que vocês estão fazendo por aqui? Nunca vi vocês na cidade antes.

— Ah, sabe... — Dante disse, seu sorriso desaparecendo, seu tom ficando um pouco mais sério. A isca estava sendo colocada. — É que estamos procurando por uma amiga que desapareceu. E que tamo meio preocupados sabe. Chegamos nessa cidade no meio da busca.

— Ah, entendi... — o cara bêbado falou. — Mas bem... se vocês quiserem encontrar alguém... deveriam...

Ele parou. Ele olhou por cima do ombro, em direção ao bartender, que polia outro copo, fingindo não ouvir. E bebeu o resto do copo. — ...Quer saber? Esquece. Melhor deixar pra lá. Acho que bebi demais.

— Que isso, cara! — Dante disse, sinalizando para o bartender trazer outra rodada. O bartender já estava a caminho com outro copo azul. — A noite 'tá só começando! Mas antes de continuarmos... o que era que 'cê 'tava falando? Deixa assim pela metade não, que eu fico curioso.

Ele deu outro copo para o homem, que bebeu de uma vez.

— Ah... sabe como é... — ele sussurrou. Dante se inclinou para mais perto, criando um casulo de segredo. — A Senhorita Oráculo.

Dante prestou atenção.

— Senhorita Oráculo? Quem é essa?

— Ah, você não sabe? — o homem riu. — É a tal bruxa que vive na Floresta do Delírio. Mas... sabe... é melhor esquecer essa ideia. Aquele território... atualmente 'tá controlado pelos Pesadelos.

— Ah, 'tá tudo bem. Eu posso lidar com eles.

— Ainda assim... é melhor não subestimar. Nunca dá pra saber o que aqueles... abandonados por deus... estão planejando fazer. É melhor... chamar o Senhor Teth...

De repente, seus olhos reviraram. Ele caiu completamente apagado, a cabeça batendo com força no balcão de madeira. Um 'BAQUE' surdo que fez os copos vibrarem. O violoncelo não parou.

Dante colocou algumas notas no balcão. — Acho que nosso próximo paradeiro 'tá definido.

Ele se levantou e começou a sair. Ludmilla encarou o homem apagado e depois começou a sair também. Perto da saída, enquanto passavam pela cortina de veludo, ela perguntou:

— De onde você tirou aquele dinheiro?

Enquanto Dante se levantava, sua mão havia deslizado para dentro do bolso do casaco do homem bêbado, um movimento rápido e invisível que Ludmilla, com seus instintos de caçadora, foi a única a notar.

— Do bolso dele — Dante respondeu, sem parar de andar.

Ludmilla parou.

— Você... roubou ele?! Mesmo?! Achei que tinham ficados amigos!

— Isso vai ensinar ele a não dar cantada em garotas de bares tendo uma mulher em casa — Dante disse, rindo.

Ludmilla o encarou, séria. A luz branca da cidade o fazia parecer um estranho. — Spero solo che un giorno queste parole non ti ritornino in mente e non ti colpiscono. (Só espero que, um dia, essas palavras não voltem e atinjam você.)

Dante continuava rindo, até que atravessou a porta. Ele parou e olhou para ela, confuso. 

— O que você estava querendo dizer com isso?

Parte 6

Enquanto isso, na praça principal da cidade, onde Teth acabara de fazer sua proclamação e a multidão celebrava, a confusão estava prestes a mudar de natureza. O ar estava cheio de pétalas de flores jogadas para o ar e os gritos de alegria ecoavam pelas estruturas brancas.

BOOOOOM!

O som não foi apenas uma explosão; foi um trovão baixo e sísmico que vibrou nos ossos de todos. O chão da praça tremeu, e os gritos de celebração engasgaram e morreram, substituídos por um silêncio chocado.

Uma explosão soou do portão da frente de Wonder. Uma rajada de vento forte e gelado passou pela cidade, um vento que não pertencia àquele mundo. Ele varreu a praça, carregado de cristais de gelo e o cheiro de ozônio, arrebentando o portão principal. O vento sobrenatural congelou e quebrou as casas de vidro, rasgou faixas de celebração e fez a multidão se encolher, o calor do dia instantaneamente roubado.

No lugar onde o portão de mármore costumava estar, agora uma pilha de escombros fumegantes, um homem de cabelos azul-escuro liderando um grupo de encapuzados começou a entrar. Eles não correram; eles marcharam, e o homem na frente, caminhava com uma calma glacial, seus pés congelando levemente o mármore a cada passo. A multidão antes calma gritava de pânico, uma onda de terror se espalhando para trás.

— Lorde Snow! Vamos, antes que ele chegue! — uma mulher encapuzada disse ao lado dele.

Snow, parou, observando a cidade e seus cidadãos aterrorizados com um desprezo palpável. — Não, Laeticia. É aqui que nos separamos. — Ele falou, sua voz fria como o vento que o cercava. — Faça o que deve fazer. Deixe que do meu trabalho eu cuido. E não ouse vir até mim de novo.

— Mas... isso significa... — a mulher encapuzada hesitou.

— Não me ouviu? — ele falou, como uma ordem final, sem sequer olhar para ela.

Laeticia o encarou por um segundo, olhou para a multidão assustada, e então seu corpo se dissolveu em sombras, correndo para um beco e desaparecendo.

Snow se virou para a cidade. Ele observava todos em volta, que pareciam assustados, tropeçando uns nos outros para fugir. Ele abriu um sorriso cruel, e seu Éter azul-gelo começou a crescer, o vapor de sua respiração se misturando com a aura azulada que subia de seus ombros como uma névoa congelante. — Sim... Esse é o rosto que quero ver vocês fazendo. Medo! Mostrem o seu medo!

Ele ergueu a mão. Várias estacas de gelo, longas e irregulares como lanças, se materializaram no ar acima dele e começaram a atacar a todos. Elas assobiaram pelo ar, perfurando os Prims que não conseguiram fugir, pregando-os nas paredes das lojas e transformando fontes ornamentadas em esculturas de gelo estilhaçadas.

Os outros homens encapuzados, que pareciam mal acabados e totalmente desnutridos, seus olhos brilhando com uma fome desesperada sob os capuzes, começaram a avançar para dentro da cidade. — Não deixem que o Lorde Snow seja o único a se divertir! — um deles gritou, sua voz rouca. — Comecem logo com o espetáculo!

E assim, eles se espalharam como uma praga. Eles começaram a destruir prédios e casas, derrubando as estruturas brancas com uma força bruta e quebrando os vidros coloridos. Um deles agarrou um cidadão e o jogou através de uma vitrine. Outros viravam barracas de comida, rindo enquanto atacavam e matavam vários dos sonhos pelas ruas, que só podiam correr desesperados de um lado para o outro.

Alguns caíram no chão, implorando: — Teth! Senhor Teth, nos ajude! 

Outros, chorando, apontavam para Snow: — Traga a punição divina para ele!

Ao ver aquilo, Snow mordeu o lábio, irritado. A menção de Teth pareceu enfurecê-lo. — Punição divina? — ele riu, um som seco e sem humor. — Idiotas! São vocês quem receberão a punição divina!

Ele ergueu a palma da mão. A luz da praça pareceu ser sugada para aquele ponto. Um gelo negro, crepitando com Éter concentrado, começou a se formar. — Obscureça Flecha da Ave Invernal!

Ele disparou o fragmento de gelo negro para o céu. O disparo foi um assobio agudo. O fragmento aumentou de tamanho, suas bordas se moldando, transformando-se em uma enorme ave negra de gelo, que voou alto, suas asas batendo em silêncio mortal e cobrindo a praça com sua sombra. Ao atingir o ponto mais alto do céu de Wonder, ela explodiu.

A explosão não foi alta; foi um estalido sônico, uma onda de choque de puro frio que se espalhou pelo céu.

Uma forte nevasca começou instantaneamente. Flocos de neve pesados e cinzentos começaram a cair, manchando o mármore branco. A luz do sol azul foi bloqueada. As nuvens quentes do Mar das Nuvens, que sempre protegeram a cidade, começaram a congelar e a escurecer. O céu começou a trovejar, não com chuva, mas com o som de gelo se quebrando nas alturas. E Assim começou a nevar, mas não simples flocos de neve, e sim meteoros feitos de puro gelo.

A cara de paraíso que Wonder tinha... havia acabado de vez.

Snow sorriu, satisfeito com a mudança de cenário, e continuou a avançar, junto com seus homens, para dentro da cidade agora congelada, desaparecendo na tempestade que ele mesmo criou.

Parte 7

Do outro lado da cidade, perto da casa de banho, a multidão eufórica que celebrava Teth estava no auge de sua alegria, com música e risos enchendo o ar. De repente, os sons distantes de gritos e explosões começaram a cortar a celebração, e o pânico silenciou a música.

De repente, todo o céu brilhante começou a escurecer, como se uma mortalha negra estivesse sendo puxada sobre a cidade. A neve branca de Teth, suave e quente, foi violentamente substituída por uma nevasca suja, escura e pesada, que caía com velocidade. Então, o céu se partiu. Enormes meteoros de gelo, envoltos em uma aura azul e negra, começaram a cair do céu agora negro, assobiando como artilharia.

Silence, ainda mais confusa do que antes, olhou para o céu, perplexa, o vento gelado chicoteando seus cabelos.

— O que... o que está acontecendo? — ela murmurou. — Eu não fui informada de nada disso...

Um enorme meteoro de gelo, maior que os outros, rasgou as nuvens, deixando um rastro de vapor congelado. Ele começou a cair diretamente sobre eles, na praça, crescendo em tamanho a cada segundo. O som de sua aproximação era um rugido agudo que abafava os gritos. Todos entraram em pânico, tropeçando uns nos outros para fugir.

Mas, nesse momento, Teth voou contra o céu em alta velocidade. Suas seis asas de anjo se abriram em sua plenitude, explodindo em luz. Ele disparou para cima, não como um homem, mas como um cometa vivo, uma bala de luz branca que perfurou o ar tempestuoso. Ele não desviou; ele atravessou o meteoro de gelo com um impacto sônico que estilhaçou o gelo em sua trajetória. E, ao chegar do outro lado, acima da ameaça, ele estendeu a mão e tocou a massa congelada.

Sua voz ressoou, calma e absoluta, acima do caos: — Diminua e desapareça. División Eternal.

O enorme bloco de gelo que caía, grande como um quarteirão, parou no ar. Instantaneamente, ele começou a encolher. De novo e de novo. A massa de gelo se dobrou sobre si mesma, diminuindo do tamanho de um prédio para o de uma carruagem, depois para o de uma pedra, até que simplesmente saiu do campo de visão de todos que estavam abaixo, desaparecendo no ar, reduzido a nada.

Teth então olhou para a bagunça no portão da entrada, seus olhos frios e cheios de fúria. Ele quase começou a ir para lá, quando Philia o parou, gritando e apontando para o resto da cidade.

— Senhor Teth! O senhor tem que ajudar os demais também!

Teth notou. Vários outros meteoros gigantes estavam caindo sobre pontos diferentes de Wonder, mirando os distritos residenciais. Ele cerrou os punhos.

— Merda. Isso é tudo para me atrasar.

Assim, ele teve que começar a voar em alta velocidade pela cidade. Ele se tornou um relâmpago dourado cruzando o céu escuro, uma coreografia desesperada contra o apocalipse de gelo. Ele ia de um meteoro a outro, diminuindo os grandes, destruindo os médios com socos de energia pura, e diminuindo os fragmentos antes que atingissem o solo.

Já no chão, enquanto explosões de luz e impactos de gelo soavam ao fundo, Philia correu até Silence. A Sacerdotisa estava paralisada, tremendo, olhando para o caos com olhos vazios.

— Silence! — Philia gritou, desesperada, agarrando-a pelos ombros. — Temos que sair daqui agora! Você não vai ficar segura em um lugar assim!

Mas Silence estava com um olhar desesperado, sem entender, as lágrimas começando a brotar.

— Não... não faz sentido... Meu pai... ele não disse que nada disso estava para acontecer. Como pode ser possível?

Philia a abraçou com força.

— Eu sei! Eu sei que você está com muita coisa na cabeça! Eu sei que pode ser difícil, mas você vai ter que deixar isso de lado agora! Se não, não vai conseguir fazer o que precisa!

Ao ouvir as palavras firmes de Philia, Silence finalmente pareceu começar a voltar a si. Ela respirou fundo, enxugando as lágrimas.

— Você tem razão. Precisamos correr. — Ela disse, sua voz agora firme, embora ainda assustada. — Mas... não podemos ir. Não até garantirmos que Dante e Ludmilla também estão bem.

Philia a olhava nos olhos. Silence apertou suas mãos.

— Philia, por favor. Deixa que eu ajudo a evacuar todo mundo. Pode confiar, eu vou ficar bem. — Ela olhou na direção da catástrofe. — Mas, por favor... por favor, ajuda eles.

Philia, vendo a pequena mão da Sacerdotisa segurando as suas e tremendo, apertou-as de volta, sua decisão tomada.

— Tudo bem. Pode deixar comigo.

Parte 8

Um homem encapuzado foi até Snow, que tossia e cuspia um pouco de sangue. A pele de Snow parecia congelar levemente nas bordas, cristais de gelo se formando em seus cílios.

— Senhor. Pelo visto, a invasão na usina de energia foi um sucesso. A equipe especial já está saindo. Como prevíamos, o ataque aos meteoros impediu que Teth detectasse nosso verdadeiro plano.

— É verdade, é? — Snow murmurou.

Ele olhou para algumas pessoas escondidas nos destroços, tremendo de medo. Com um gesto casual, ele ergueu um dedo, nem mesmo olhando diretamente. O ar ao redor dos civis se solidificou instantaneamente. Seus rostos aterrorizados se tornaram estátuas de gelo opaco. Com um estalar de dedos, as estátuas explodiram, e ele quebrou os estilhaços de gelo, transformando-os em uma poeira fina que o vento da nevasca carregou.

Ele começou a ir mais para frente, enquanto seus companheiros continuavam destruindo a cidade em volta.

— Senhor, tem certeza disso? — o homem que acompanhava Snow falou, nervoso. — Se formos embora agora...

Naquele momento, Snow olhou com ódio para seu companheiro, uma onda de frio fazendo o homem recuar fisicamente. — Não diga bobagem. Acha mesmo que eu iria embora agora? Eu ainda não fiz metade da destruição que desejo. Até transformar essa cidade em ruínas, eu não irei sair.

De repente, uma figura explodiu de trás de um carro virado. Um homem saltou dos destroços com um chute em alta velocidade na direção de Snow. — Toma, seu maldito!

O mesmo era um Sonho. Sua perna estava coberta de chamas azuis crepitantes. — O que acha, seu Pesadelo maldito? Seu poder é inferior ao meu! Agora se curve e implore por perdão!... Mas, mesmo que implore, eu não vou te perdoar!

Snow, com o pé do inimigo a centímetros de sua cara, sorriu. O tempo pareceu parar. O pé em chamas azuis estava tão perto que o calor evapora a névoa fria do rosto de Snow, que nem sequer piscou.

— Sabia que eu planejava falar a mesma coisa?

Um ar gelado se espalhou, uma onda de energia azul pálida. De repente, a perna do homem, as chamas azuis, e assim como o campo em volta dele, congelaram por completo. Ele se tornou uma estátua dinâmica, congelado no meio do chute. Com um balançar de mão, Snow tocou a estátua de gelo à sua frente com um dedo. Uma rachadura se formou e, em um segundo, o homem congelado explodiu em milhões de fragmentos minúsculos, que se desfizeram em pó antes de tocar o chão.

Ele continuou seguindo em frente, criando uma passarela de gelo por onde passava, seus pés nunca tocando os escombros. Mais à frente, tinha uma criança caída ao chão, chorando frente ao corpo de um adulto morto pelos destroços de um prédio que caiu. Ela continuava chorando e chorando.

Snow parou. — Então, vocês também choram? Então vocês também sentem a dor de perder alguém? — Ele riu, um som seco. — Que coisa interessante. Agora eu sei por que algumas pessoas gostam de observar insetos. Sempre descobrimos algo novo.

Assim, ele criou uma lança de gelo irregular em sua mão e começou a ir na direção da garganta da garota, pronto para perfurá-la.

Mas antes disso, um borrão carmesim rasgou a rua. O som de um boom sônico estalou no ar frio, um segundo atrasado. Passando em alta velocidade e pegando a criança, estava Dante. A lança de gelo de Snow atingiu apenas o ar, quebrando-se inofensivamente em uma parede.

Snow o viu, surpreso pela velocidade. — Quem é você?

Dante deixou a garotinha em segurança atrás de uma parede. — Corre! — ele gritou para ela. Ele se virou e falou: — Eu sou Dante. O intrometido.

— Sei — respondeu Snow. — Então morra.

Ele jogou um estilhaço de gelo, que voou como uma lança em alta velocidade na direção de Dante, deixando um rastro de condensação no ar. Dante tentou desviar com o Strain, sua aura vermelha piscando, tentando acelerar, mas de repente, sentiu seu corpo lento, como se estivesse em melaço. "Droga! Sabia que não tinha dominado!" Ao invés de desviar, ele ficou quase parado, a aura gaguejando. O golpe o atingiu em cheio no peito, quebrando suas costelas com um estalo audível e o jogando com toda a força para dentro da casa ao fundo, que desabou sobre ele.

Snow se virou, pronto para continuar sua saída. Mas, saindo de lá novamente, em uma explosão de detritos e madeira estilhaçada, coberto por um Éter vermelho crepitante, Dante saltou na direção dele com um chute.

Antes de o atingir, Snow ergueu a mão e criou uma barreira de gelo espessa. O impacto do chute de Dante contra o gelo soou como um trovão. A barreira bloqueou o ataque, mas o chute de Dante, ainda assim, conseguiu quebrar a barreira, estilhaçando-a em mil pedaços.

Eles se afastaram, aterrissando em meio à neve suja, e ficaram se encarando. — Entendo... — Snow disse, limpando a poeira de gelo do ombro. — Bem que ouvi falar que, além de Teth, essa cidade escondia outro achado raro. Então, você é a Cria de Astreus.

Dante percebeu que ele devia o ter confundido com Silence. Ele ficou quieto, deixando-o acreditar.

— Tudo bem — Snow continuou. — Se não quiser contar, não faz diferença. Não importa quem você seja, envolvido com Astreus ou não... eu farei todos os pecadores desse reino congelarem.

Ele colocou as duas mãos juntas, como em um gesto de reza. O ar parou. A neve que caía parou no ar. Todo o Éter na área começou a fluir para Snow, criando um vácuo de poder. — Recaia sobre todos... Era do Gelo.

Dante, sentindo a gigantesca quantidade de Éter que ele reuniu, percebeu que agora vinha um golpe sério. Com força total, ele puxou seu Éter, aumentando sua aura para se proteger com força máxima, criando uma cúpula de energia carmesim pura, tão quente que o chão ao seu redor começou a derreter o gelo.

No exato minuto que a técnica de Snow foi liberada, a catástrofe aconteceu.

Um som ensurdecedor, como uma onda de choque de incontáveis janelas quebrando ao mesmo tempo, foi ouvido.

As casas de vidro de Wonder se desintegraram. A área foi varrida por uma tempestade de cacos de vidro microscópicos, impulsionada pelos ventos que a própria mudança de temperatura criou, como uma lixa em escala de cidade.

As construções de mármore branco pela cidade se contraíram mais rápido que o seu núcleo, o que criou diversas fissuras e rachaduras profundas, instantaneamente, como veias se abrindo na arquitetura.

Os tijolos das outras casas e do próprio chão se arrebentaram de dentro para fora. As ruas se tornaram uma confusão de fragmentos de cerâmica.

O solo abaixo delas também se congelou, expandindo e levantando seções inteiras da rua, criando um terreno caótico e irregular em questão de segundos.

Todo o vapor de água no ar congelou no mesmo instante, criando uma névoa de gelo opaca e brilhante. A visibilidade caiu para zero, e essa névoa de cristais de gelo era como respirar poeira de vidro.

O ar frio ficou denso. O ar na cidade se tornou uma "poça" de ar pesado, criando uma zona de baixa pressão. O ar "quente" e mais leve de fora da cidade foi sugado para dentro em velocidades catastróficas, criando ventos com força de furacão que uivavam pelos prédios destruídos.

E tudo se tornou completamente branco.

Ainda assim, parado ali, intocado, o epicentro calmo da tempestade, coberto por sua própria aura de gelo, estava Snow. O gelo formava uma armadura natural sobre seu casaco. Ele se colocou mais uma vez em posição, olhando para a névoa. — Realmente... tenho que elogiar suas habilidades. Não imaginei que haveria alguém tão forte em uma cidade que era protegida por sua babá celestial.

De frente a ele, jogado para trás pela onda de choque, mas ainda de pé, estava Dante. Ele estava coberto em sua aura carmesim, crepitante e flamejante, semelhante a plasma. Era a única fonte de cor e calor em um mundo agora monocromático. Ele, que estava com as duas mãos cruzadas frente ao rosto, as desceu, revelando uma cara de pura fúria.

— As pessoas da cidade... — Dante falou devagar.

— Sim. Estão mortas — Snow respondeu, sua voz calma.

— Até mesmo seus companheiros.

— Eles vieram sabendo de seu destino. Isso foi inevitável.

Dante abriu os braços. Chamas saíram de seus punhos, e sua aura de plasma explodiu para fora, derretendo o gelo em um raio de cinco metros ao seu redor, criando uma névoa de vapor instantânea. Seus chifres vermelhos, que antes estavam escondidos pela franja, ficaram maiores, agora visíveis, curvando-se para trás em sua fúria. — ...Eu vou quebrar todos os ossos do seu corpo, seu maldito.

Snow deu um sorriso de canto. — Pois está perdendo muito seu tempo. Se é isso que deseja, venha de uma vez tentar.

Os dois ficaram parados, Dante um inferno de fúria vermelha, Snow um deus glacial de calma azul. 

Parte 9 

Finalmente, Teth havia conseguido destruir todos os meteoros. Suas seis asas batiam com esforço, e sua respiração saía em nuvens de vapor. As pessoas do lado de baixo, nas áreas seguras, agradeciam e choravam. Ele, no entanto, estava suando, pairando no céu escuro.

"Droga... eu estou nessa forma tempo demais" — ele pensou, seu rosto calmo agora tenso. — "Não é possível. Será que eles descobriram? Não... se tivessem descoberto, teriam agido um pouco depois e refeito a queda de meteoros. Significa que é apenas coincidência. Merda. Tenho que ir logo acabar com isso."

Assim, ele voou em alta velocidade para o campo de batalha no portão. Ele se tornou um risco dourado contra o céu tempestuoso. Quando estava na metade do caminho, o vendaval branco da técnica "Era do Gelo" de Snow começou a se espalhar. Ele viu a onda de choque de gelo branco-azulado irromper do portão, avançando como uma praga, engolindo quarteirões inteiros em segundos, congelando tudo e consumindo toda a cidade.

Ao ver aquilo, Teth ficou incrédulo.— "Mas que merda... O que esse maldito está fazendo afinal?!"

Ele parou no ar e estendeu as duas mãos, concentrando seu poder. O ar à sua frente se dobrou, e uma luz branca se formou entre suas palmas.

— Distância Máxima... Multiplicação Perpétua!

O ar gelado que avançava como uma muralha descontrolada desacelerou. O som foi o de um milhão de sinos de vidro se quebrando de uma vez. A frente da onda de gelo colidiu com a barreira de Teth, achatando-se e subindo, criando um tsunami de gelo que se ergueu centenas de metros no ar antes de ser contido. Ele parou, batendo em uma barreira invisível, e ficou contido em uma única área, sem conseguir ir adiante. Teth olhou para dentro da zona congelada e viu que várias pessoas acabaram sendo pegas pelo ataque, agora estátuas de gelo.

Ele mordeu a língua, furioso.

Assim que o golpe se dissipou, ele acelerou com toda a velocidade, avançando para o centro da destruição.

— Maldito seja... Não importa quem foi. Eu vou acabar com esse maldito.

Ele continuava em alta velocidade, vendo abaixo dele a cidade parecendo um pesadelo de cristal quebrado, quando, de repente, ele escutou um som alto e estridente, como um raio e um trovão misturados.

Voando acima do caos, ele viu a cena. A batalha de Snow e Dante estava em seu auge. 

O ar se partiu. Dante não era apenas um homem voando; era um cometa carmesim, uma mancha de fúria plasmática.

Ele não voava em linha reta; ele quebrava a física. Ao estender as mãos para trás, propulsores gêmeos de pura energia carmesim o lançavam para frente em velocidades absurdas. O som era um rugido agudo, como um jato de combate rasgando o silêncio.

"Fogo contra gelo."

Do outro lado, Snow respondia com uma arquitetura gélida e instantânea. Plataformas de gelo cintilante surgiam sob seus pés, permitindo-lhe deslizar pelo campo de batalha como um patinador sobrenatural, enquanto uma tempestade de lanças de gelo negro, tão escuras que pareciam absorver a luz, era disparada contra o rastro de Dante.

Dante era uma bala de canhão humana, mergulhando e girando. Ele usava seus propulsores de plasma em rajadas curtas e violentas, não apenas para avançar, mas para desviar. Um disparo de sua mão esquerda o jogava para a direita, por cima de uma plataforma que explodiu em fragmentos. Um disparo de sua bota direita o fazia girar em parafuso, passando ileso por uma barragem de lanças que pareciam mísseis teleguiados. O ar ao seu redor sibilava, uma névoa densa de vapor subindo onde o calor extremo encontrava o frio absoluto.

Dante avançava, transformando sua trajetória em uma dança letal. Ele socava o ar, e ondas de plasma derretiam espigões que brotavam do nada. Ele chutava, e suas pernas envolvidas em chamas pulverizavam escudos que se formavam tarde demais.

Snow, sentindo a pressão implacável, cometeu seu primeiro erro: ele parou. Por um instante, ele se plantou em uma fortaleza de gelo para preparar um ataque maior.

Foi a abertura que Dante esperava.

Ele acelerou, cruzando a distância em um piscar de olhos. Snow ergueu um escudo maciço, uma parede de gelo espessa e reforçada, no último segundo.

Dante não freou. Ele colidiu.

O impacto foi um estrondo de gelo se partindo. Em vez de ser ricocheteado, a mão esquerda de Dante, envolta em plasma, agarrou a borda translúcida do escudo quebrado, os dedos derretendo o gelo para criar um ponto de apoio.

Por um microssegundo, ele ficou ancorado.

Então, ele acionou o propulsor em sua bota direita. Usando o escudo como pivô, Dante girou o corpo inteiro. Foi um chute giratório balético e brutal, que usou todo o ímpeto de sua propulsão aérea. A perna de Dante, brilhando como um sol, estraçalhou o restante da parede de gelo em um milhão de pedaços.

O giro não terminou. Foi uma finta. O movimento de rotação foi convertido diretamente em torque para seu outro braço.

Enquanto os fragmentos de gelo ainda flutuavam no ar, Dante se projetou para frente, contorcendo seu corpo. O punho direito, agora o epicentro de sua aura carmesim, avançou.

E todo som parou.

O punho de Dante colidiu com o peito de Snow. Não foi um soco; foi uma detonação.

Um FWOOM sibilante engoliu todo o som, o vapor explodindo da placa peitoral de Snow como um gêiser. No instante do impacto, Dante liberou tudo: o plasma carmesim para queimar e a descarga elétrica de curto alcance que ele guardava como trunfo.

O corpo de Snow travou em um espasmo violento. O "stun" era absoluto. Seus olhos se arregalaram de choque, não apenas pela dor, mas pela sensação impossível: uma queimadura cáustica se espalhava para dentro, enquanto uma camada de gelo negro e quebradiço se formava ao redor da ferida. Ele estava queimando e congelando ao mesmo tempo, paralisado por uma agonia paradoxal.

Dante pousou no chão, o plasma estalando ao seu redor.

A batalha não estava se intensificando. Ela havia acabado de começar de verdade. Snow estava paralisado, mas Dante estava apenas começando. Ele não lhe deu trégua. Sua fúria se traduziu em uma coreografia de destruição, uma saraivada de golpes que quebravam cada defesa desesperada e lenta que Snow tentava erguer. O ar se encheu com o som rítmico de plasma rugindo e gelo sendo pulverizado.

Snow, agora todo machucado, sangrando e desesperado, viu que não podia vencer no mano a mano. Ele usou todo o seu poder restante, criando um gigantesco meteorito de gelo negro no céu e o lançando contra Dante.

Dante, vendo o ataque massivo, parou. Ele concentrou toda sua aura todo plasma carmesim que o envolvia o enviando para seu punho direito, que ele apoiou atrás das costas enquanto flexionava os joelhos. O plasma flamejante se concentrou, tornando-se de um vermelho tão intenso que era quase negro, o ar ao seu redor se dobrando com o calor. E ele disparou para cima, não voando, mas explodindo para cima como um foguete, seu braço armado pronto.

— CHRONOS BREAKER!

O soco, extremamente massivo e destrutivo, agora carregado com o calor ardente do plasma, encontrou o gelo.

No instante em que o plasma tocou o meteoro, o calor foi tão intenso que o gelo não derreteu; ele nem teve tempo de passar pela fase líquida. Ele passou instantaneamente de sólido para gás.

Esse gás se expandiu violentamente, criando uma explosão de vapor superaquecido que engoliu o céu. Uma onda de choque branca e ofuscante expandiu-se, obliterando a visão. O som foi um rugido ensurdecedor de vapor sob pressão extrema.

O soco destruiu o meteoro, mas a explosão de vapor resultante foi tão grande que ambos, Dante e Snow, foram arremessados para longe. Como folhas em um furacão, eles foram engolidos pela nuvem de vapor e jogados em direções opostas, caindo em meio aos destroços congelados. Dante abriu uma cratera no gelo da rua. Snow colidiu com o que restava de um prédio. O campo de batalha ficou coberto por uma névoa densa e quente.

Silêncio.

De repente, um tornado de gelo começou a se formar dentro da névoa, o ar quente sibilando ao encontrar o frio extremo. Snow se levantou. Ele estava todo machucado, a roupa rasgada, o corpo com várias partes roxas e sangrando, e destroços de metal da cidade cravados em seus braços e peito.

Ele aumentou o Éter em sua mão, seus olhos brilhando com ódio.

— Não... ainda não acabou... Até eu destruir cada átomo dessa cidade...

Mas aparecendo na frente dele, saindo da névoa, estava Dante. Como um fantasma de fogo emergindo do vapor, Dante estava parado. A névoa sibilava e se evaporava ao seu redor, criando um círculo claro. Ele estava carregando seu Éter na ponta de seu dedo.

Ele apontou.

— Queime, Estrela Rubra: Tenka!

A pequena esfera de Éter explodiu para frente com um estrondo ensurdecedor. O projétil carmesim disparou. Ela não era só rápida; ela acelerava, deixando um rastro de calor escaldante que derretia o ar ao seu redor.

O golpe de calor extremo não simplesmente empurrou a névoa para o lado; ele vaporizou instantaneamente as gotículas de água. Em seu rastro, isso criou um túnel perfeitamente claro e cilíndrico através da névoa, como se um buraco tivesse sido perfurado nela. O ar dentro deste túnel estava superaquecido e brilhante, o projétil transformando o ar em plasma.

Snow, vendo aquele ataque vindo em sua direção, só teve tempo de arregalar os olhos.

O coice do ataque jogou Dante novamente com toda força para trás, rolando pelo chão de gelo.

O boom sônico do projétil foi tão alto, um som de ebulição ensurdecedor, que teve que ser contido por Teth, que acabara de chegar e criou uma barreira de vácuo em volta do ataque, para não deixar que as pessoas restantes da cidade se machucassem pelo barulho. 


Parte 10

De repente, Teth voltava a si. O mundo girou por um segundo, o som da explosão de Dante ainda ecoando em seus ouvidos. O esforço de conter o som e a onda de choque do ataque de Dante foi extremo. Uma marca negra começou a crescer em seu braço, visível sob a pele pálida, e vapor começou a sair de sua pele. A corrupção subia por seu antebraço como tinta derramada.

"Droga... o tempo acabou..." —  ele pensou, sentindo sua força se esvair. — "Não... mas antes eu preciso... eu preciso confirmar que isso de fato acabou."

Ele tentou voar para mais perto, impulsionando suas costas, esperando a explosão de poder dourado. Mas suas seis asas angélicas desapareceram assim que foram manifestadas. Elas se desfizeram em partículas de luz, fracas demais para se sustentarem. Ele praguejou e foi correndo pelo terreno caótico e congelado. Seus pés, agora escorregavam no gelo e tropeçavam nos escombros e nos corpos congelados dos cidadãos de Wonder.

Mas quando chegou lá, Teth não pôde acreditar no que viu. A cena à sua frente era um quadro de fúria e execução.

Parado na frente de Snow, que estava caído, Dante esmagava o peito do inimigo contra o chão com sua perna. O pé de Dante, envolto na aura de plasma, sibilava, derretendo o gelo e a carne de Snow. Seus olhos carmesim brilhavam ainda mais intensamente na névoa gelada. Na ponta de seu dedo, outra pequena e terrível esfera de Éter se formava. O ar ao redor do dedo de Dante se dobrava com o calor, a pequena "Tenka" pulsando como uma estrela maligna.

Snow já parecia sem vida. Seu corpo começava a se desmaterializar, soltando fumaça e partículas de gelo. Ele via o que acontecia, mas seus olhos não focavam. Reunindo o restante de suas forças antes de perder a consciência completamente, foi com uma expressão de medo e incredulidade que ele conseguiu colocar suas últimas palavras para fora: — Grimm…

De repente, um som foi ouvido. Tum-tum. TUM-TUM. TUM-TUM. O som abafou o uivo do vento gelado. Um batimento cardíaco, ficando mais alto e acelerado. 

De quem era? Teth olhou para Dante, para Snow. De Snow, que ainda podia estar vivo? De Dante, que parecia pronto para destruir seu inimigo?

Mas Teth logo percebeu. A fonte daquele batimento era ninguém mais, ninguém menos que ele mesmo. — “esse sentimento….” — Ele colocou a mão contra o peito.

— DANTE, NÃO!

Saltando sobre os destroços, Ludmilla se jogou contra Dante. Ela irrompeu da névoa de vapor como um foguete, seu corpo baixo e seus ombros alinhados. Ela o atingiu como um trem. um impacto de pura força física que arrancou Dante de cima de Snow, jogando os dois para longe. Eles caíram rolando sobre os destroços no chão. Ela aterrissou por cima, ágil como uma pantera, prendendo as mãos dele contra o chão. Ela usou todo o seu peso e sua força para imobilizá-lo.

— O QUE VOCÊ 'TÁ FAZENDO, SEU IDIOTA?! — ela gritou. — POR ACASO FICOU MALUCO?!

Dante olhou para ela, seus olhos vermelhos ainda selvagens, demorando a focar. Ele rosnou, o som não humano. As mãos de Ludmilla, que seguravam os punhos de Dante, começaram a queimar e soltar fumaça, em contato direto com as chamas de plasma que ele ainda emitia. Um SSSSSHHH alto de carne queimando encheu o ar.

Ela ignorou a dor, seu rosto a centímetros do dele. Ela não recuou, nem mesmo quando a fumaça de suas próprias mãos queimadas subiu para seu rosto. — Se é isso que você quer fazer... eu não vou impedir! — ela gritou. — Mas alguém que ficou tão incomodado antes... tem certeza que alguém assim quer fazer o que você estava prestes a fazer?!

Dante olhou para o rosto dela, depois para suas mãos, e então para as mãos dela, que agora estavam vermelhas e queimadas. Ele viu a pele carbonizada e fumegante dela, e a expressão de dor que ela se recusava a demonstrar. A imagem finalmente perfurou a névoa de sua raiva.

Lentamente, a aura carmesim de Dante desapareceu. As chamas se apagaram. O som do plasma sibilante morreu, substituído pelo silêncio e pelo uivo do vento. Seus chifres vermelhos encolheram, recuando. Os olhos selvagens perderam o brilho, voltando a ser os seus, confusos e horrorizados.

Ele se levantou, cambaleando, percebindo o que fez. Ele olhou para as mãos de Ludmilla. — Ludmilla... eu...

Ela não o deixou terminar. Ela o abraçou com força, puxando-o para si, um gesto que era tanto para confortá-lo quanto para se apoiar, seus braços tremendo pela dor das queimaduras. Ela enterrou o rosto dele em seu ombro. — 'Tá tudo bem...

Ela o abraçava forte, seu próprio corpo tremendo. — Agora... só se concentra e se acalma. Tem muita, muita coisa sobre o que a gente tem que conversar.

Ela, ainda o abraçando, olhou para onde Teth deveria estar. Ela procurou pelo anjo, pelo líder que deveria estar lá. Mas agora... não tinha ninguém. O local onde ele estava, nos escombros, estava vazio. Não havia pegadas. Nenhuma luz. Até seu Éter havia desaparecido.

Parte 11

Em outro lugar, um lugar escuro e sombrio escondido sob um céu noturno eterno, residia outra cidade.

O ar era tão denso que podia ser mastigado. Era uma mistura sufocante de incenso de sândalo, o cheiro metálico de ozônio e algo doce e podre vindo das barracas de comida, onde líquidos estranhos borbulhavam em caldeirões.

O silêncio inicial foi quebrado não por vozes, mas pelo gemido constante da madeira sobrecarregada, como um navio em uma tempestade sem fim. Um gongo distante soou, uma única nota grave que vibrou no peito.

Uma a uma, centenas de lanternas de papel inflaram com uma luz âmbar, acendendo-se sozinhas.

A luz âmbar não era quente; era fria. Ela cintilava, fazendo as sombras nas vielas estreitas parecerem se alongar e recuar rapidamente, como se a própria escuridão respirasse.

Elas revelaram uma cidade construída sobre si mesma: uma pilha impossível de pagodes, pontes estreitas e telhados curvos que se apoiavam uns nos outros. O vapor sibilava de grelhas de ferro no chão de pedra, carregando um cheiro denso de enxofre, sais e especiarias.

Mais uma vez, era um reino parecido ter saído de um sonho. Mas enquanto Wonder, sua paz e tranquilidade, parecia ter saído de um sonho bom, o labirinto sombrio de madeira e vapor que aquela cidade era parecia ter saído de um pesadelo.

Suas passarelas estavam lotadas. A multidão empurrava uns aos outros.

Não era apenas um empurrão; era uma luta desesperada por espaço. Mãos com garras arranhavam capas, e rostos distorcidos sibilavam uns para os outros por caminhos que mal tinham a largura de um ombro. O garoto sentiu algo viscoso agarrar sua bota, mas quando olhou para baixo, não havia nada além da pedra úmida.

Seres com formas estranhas e distorcidas pareciam competir para conseguir comer nas pequenas barracas de comida espalhadas pela cidade, como em uma feira de rua. Seres com rostos de raposa avaliavam todos que passavam com olhos astutos. Seres com corpos de lama deixavam rastros pegajosos. Sapos antropomorfizados, que pareciam humanos de terno, passavam de um lado para o outro com placas, convidando as pessoas para suas casas de banho. Becos cheios de lixeiras e pessoas jogadas em pobreza emanavam um odor forte.

E, no meio de tudo aquilo, o garoto de olhos azuis e sua espada de madeira acompanhava Eliza, que parecia levá-lo para algum lugar.

Ele tentava acompanhar os passos rápidos e firmes dela, mas a multidão parecia tentar ativamente separá-los. sua visão balançava a cada trombo com pessoas na rua, sua única âncora naquele mar caótico era Eliza que caminhava à sua frente. Ele tropeçou em um cano de metal quente, quase caindo em uma poça de líquido iridescente, mas a mão de Eliza já estava em seu braço, puxando-o para cima antes que ele pudesse gritar.

Ela então se virou. — É melhor não se separar de mim. E também, não converse com qualquer um que ver pela rua. Vai ser melhor assim. 

Ela havia dado seu antigo capuz preto para o garoto e agora o puxava um pouco mais para cobrir o rosto dele. Ele virava os olhos para o lado e via um enorme tigre branco listrado andando pela rua, no meio das pessoas. O tigre era enorme, possuía facilmente quatro metros de altura, mas ninguém parecia se importar.

O tigre não rugia. Ele emitia um ronronar baixo e profundo, uma vibração que o garoto sentiu mais em seus ossos do que ouviu com os ouvidos. Seus olhos, duas safiras leitosas, passaram direto por ele, indiferentes, como se ele e o resto da multidão fossem meros fantasmas em seu caminho.

Perto de um córrego escuro, um navio atracava.

O "córrego" não era água; era uma substância negra e espessa como piche, que borbulhava lentamente. O navio não flutuava sobre ele; ele o arava, deixando um rastro que demorava a se fechar. 

De dentro, pessoas cobertas de mantos vermelhos e com máscaras brancas no rosto saíam enfileiradas. Na frente, um ser que parecia um amontoado de tentáculos dentro de uma capa amarela caminhava. Antes de passar pelo garoto, ele virou seu "rosto" encapuzado, como se quisesse encará-lo.

O garoto congelou. Onde deveria haver um rosto sob o capuz amarelo, havia apenas um vazio que parecia sugar a luz das lanternas. Ele sentiu uma pontada fria no estômago.

Seres parecendo sombras, usando máscaras brancas e sem expressão, vagavam por cima das barracas e dos prédios, como se procurassem por algo.

Elas se moviam com uma velocidade sobrenatural, saltando de telhado em telhado com o farfalhar de seda rasgada. Uma delas parou, agachada na borda de um pagode, e sua máscara branca inexpressiva girou lentamente, varrendo a ponte abaixo. O garoto prendeu a respiração. Eliza o empurrou para a sombra de uma viga suspensa, o coração dele batendo contra as costelas.

Ela o puxou assim que ele saiu, mas ainda parecia atenta a eles, tensa, mantendo-se perto do garoto para que ele não se perdesse.

Eles subiam uma ponte de madeira estreita, enquanto o pequeno garoto continuava observando tudo. Animais com aparência humana estavam por todos os lugares, assim como humanos com aparências de animais. Criaturas vermelhas com asas, narizes enormes e caras irritadas brigavam umas com as outras em uma linguagem estranha que ele não conseguia entender.

De repente, sentindo um cheiro forte de comida, óleo e sal, ele percebeu que não estava mais somente andando por uma estrada. A ponte os levou para cima, e ele agora andava sobre a mesa de uma barraquinha gigante. O dono era um ser gigante e vermelho, parecendo um homem-polvo, que cortava a carne de criaturas estranhas com vários braços, fritava-as com óleo e macarrão, e, do outro lado, servia para seres que pareciam humanos inchados e gordos, prestes a explodir, mas que, ainda assim, não paravam de comer.

O som da comida era ensurdecedor ali: o chiado agudo do óleo, o crack úmido de conchas ou ossos sendo partidos pelos cutelos do chef-polvo, colidiram com o barulho de sucção dos clientes, que comiam com as mãos, o rosto mergulhado em tigelas fumegantes.

Ele notou que, perto do prato deles, havia seres menores, humanoides magrelos e famintos, que corriam para tentar pegar algo do prato antes que os gigantes começassem a comer. Mas, sem se importar, quase como se fossem apenas insetos tentando chegar em sua comida, alguns gigantes os esmagavam com as mãos e os matavam sem misericórdia, enquanto outros os comiam junto com a comida, sem nem perceber.

O garoto tremeu. Aquilo era extremamente assustador.

Ao ver aquilo, Eliza parou.

Ela o pegou pela mão e o puxou para que eles continuassem a andar, descendo do balcão gigante. 

— Se acostume — ela falou, sua voz dura, sem olhar para ele. — Essa é a vida normal, e até a boa, de qualquer Pesadelo.

Passando da barraquinha para uma ponte de estacas fincadas contra a parede Eles mergulharam na abertura estreita  que tinha em uma das paredes, deixando o caos da feira de rua para trás, e e indo em direção a uma escuridão ainda mais profunda, onde apenas o som de seus passos e o gotejar distante da água ecoavam.

Aquela era a cidade de Akumatsu.

Parte 12

Após atravessarem o corredor de escadas fincadas na parede, eles foram até uma parte abafada da construção. O lugar era quente, úmido pelo vapor da cozinha, e estava cheio de tatames e mesas baixas. Várias pessoas e criaturas comiam ruidosamente, suas vozes ecoando pelo salão.

As paredes, feitas de um material que parecia tecido e papel, dividiam os corredores, criando um labirinto apertado.

O garoto via as silhuetas distorcidas dos comensais gesticulando descontroladamente do outro lado do papel fino, parecendo monstros fantasmagóricos prestes a rasgar o caminho. O som da mastigação e dos goles era angustiante, um coro úmido e gutural.

Eliza continuava andando com confiança, puxando o garoto.

Ela não hesitava nas bifurcações, seus passos rápidos e silenciosos sobre os tatames gastos, forçando o garoto a quase correr para acompanhá-la. Ele podia sentir o calor pressionando seu rosto, e o vapor úmido grudava o capuz em sua pele suada.

Uma mulher que parecia ser uma atendente, vestida em um quimono simples, passou quase colidindo com eles. Ela se equilibrou com uma graça praticada, a bandeja cheia de tigelas fumegantes e algo que cheirava a peixe fermentado e sangue.

— Senhorita Eliza! Você voltou! 

Eliza parou por um instante. — Xia. Aonde estão os outros? Acabei me atrasando, então quero dizer os resultados da minha missão antes de voltar para casa. Eles devem estar reunidos aqui, né? 

Xia fez uma pequena reverência. — Eles estão sim. Mas estão reunidos lá no segundo andar dessa vez. Porque a Senhorita Rum está de volta. 

Eliza agradeceu com um aceno e começou a puxar o garoto novamente, indo para outra parte nos fundos. 

— E... — Xia se virou — ...quem é o seu convidado?

A pergunta pairou no ar quente. Os olhos de Xia se desviaram da nuca de Eliza para o capuz preto que ela puxava.

Sem se virar e continuando a andar, Eliza falou por cima do ombro: — Conto outra hora.

Subindo as escadas, eles chegaram em uma parte um pouco mais nobre. O chão era feito de madeira escura e polida, e as mesas eram altas, ao invés das baixas.

O som mudou instantaneamente. O caos abafado do andar de baixo foi substituído pelo silêncio pesado e pelo rangido agudo de seus passos na madeira polida. O cheiro de cera cara, tabaco e poeira antiga substituiu o da comida.

Lá, mais seres estranhos pareciam sair de salas privadas para outras, seus rostos obscuros. Até que, nos fundos, um homem completamente enfaixado, como uma múmia, da calça jeans para cima, passou e parou.

— Eliza? É você? 

— Mume! Que bom. — Eliza parou. — Preciso achar os outros. 

— Ah, está todo mundo comendo antes de começar a reunião — Mume disse, sua voz abafada pelos panos. — Você chegou em boa hora. A Rum estava mesmo querendo falar sobre a sua ideia de roubar o mapa da Cidade de Cristal.

Enquanto Mume e Eliza falavam em tons baixos, um som agudo e curto cortou a conversa. Um grito de animal, interrompido abruptamente por um CRAC úmido. O garoto se virou, atraído por ele.

Ele viu, em algumas salas adjacentes com as portas abertas, mulheres levando patos e alguns animais pequenos ainda vivos para dentro. Ele viu garras rasgando carne macia, bicos bicando olhos... mas o pior era o som. Um estalo úmido e contínuo de ossos sendo quebrados e a mastigação gutural e satisfeita das criaturas lá dentro. Ninguém gritava; era apenas o som de uma refeição.

O garoto ficou preso na cena, vendo as criaturas comendo os animais de forma visceral, com sangue ainda escorrendo por suas bocas. Ele tremeu, mas Eliza o puxou pela mão e eles foram para a próxima sala.

E finalmente, ela abriu uma porta shoji.

O som da porta deslizando no trilho de madeira foi surpreendentemente alto no corredor. Um shhhk que parecia um suspiro. Fumaça de cachimbo e o cheiro forte de álcool derramado saíram da sala, atingindo-os antes mesmo que pudessem ver o interior.

Eles chegaram em uma sala com um grupo de três pessoas sentadas em volta de uma mesa baixa, cheia de pratos e garrafas.

Por um breve segundo, ninguém na sala se moveu, congelados pela interrupção. A fumaça pairava espessa sob a única lâmpada pendurada.

Um era um homem que parecia um cowboy, mas metade de seu corpo, incluindo o braço direito e parte do rosto, era visivelmente mecânico e metálico.

O outro era um jovem com pele clara. Seu cabelo era curto, bagunçado e de cor preta, e seus olhos azuis pareciam entediados. Ele usava um moletom aberto sobre uma camiseta branca, calças jeans e sandálias escuras simples. A perna esquerda da calça estava ligeiramente levantada, expondo seu tornozelo. Havia várias espirais em suas roupas, como se fossem logotipos espalhados de forma exagerada, e uma tatuagem de espiral em seu pescoço.

E por último, sentada no centro da mesa como se fosse a líder, estava uma mulher de cabelo branco amarrado em um rabo de cavalo curto. Ela não tinha um dos braços, usava um tapa-olho preto e uma grande tatuagem de dragão era visível subindo por seu pescoço.

Eles estavam lá, comendo. Eliza e Mume entraram na frente, enquanto o garoto continuava atrás, prestando atenção em tudo. Eliza olhou para a mulher no centro. — Vejo que ainda 'tá viva.

Rum ergueu o olhar, mastigando, e respondeu com a voz rouca: — É, eu 'tô. E pelo visto, você teve sorte, já que também está. 

O clima parecia sério por um segundo. Mas, de repente, as duas facilmente interromperam a tensão, rindo alto. Rum pegou uma lata de cerveja da mesa e a jogou para Eliza.

Eliza a pegou no ar com um movimento rápido e praticado. A tensão na sala se desfez como uma corda cortada.

— Entrem. 

Assim, eles foram entrando e se acomodando, enquanto a porta atrás deles se fechava, mergulhando o garoto ainda mais fundo naquele mundo de pesadelos.

Parte 13

A fumaça do charuto de Rum pairava densa na sala, um espaço apertado com paredes de madeira escura. O ar estava pesado com o cheiro de fumaça, bebida derramada e a comida gordurosa.

Algum tempo depois, o garoto estava sentado em uma das cadeiras, uma cadeira dura e reta, afastada da mesa principal, vendo o grupo conversando animadamente, ficando quieto no canto. Ele era um fantasma na reunião, seus olhos vazios registrando o caos sem participar dele. O grupo conversava sem se importar de imediato com ele.

Eliza era a primeira a falar: Ela andava de um lado para o outro na frente da mesa, agitando, seus cabelos. — Então, como foi?

Rum, soltando a fumaça do charuto, respondeu com a voz rouca: Ela não olhou para Eliza. Seu único olho visível estava fixo na brasa brilhante do charuto, preso entre os dedos de sua mão mecânica. 

— Esquece. A Rainha Selene ainda não deu o braço a torcer. Ela realmente ainda acha que podemos resolver tudo de alguma forma que não seja a batalha direta. Ela é uma tola idealista.

Eliza se sentou, batendo na cadeira com um baque surdo, a cara mais fechada. — Eu te disse exatamente isso, não disse? — Eliza falava, inclinando-se mais para a frente e se aproximando dela, mas parou subitamente e retornou ao seu lugar. —  Mas eu sei que ela não é uma idealista. O fato dela contratar e aprovar a criação de grupos mercenários como nós é porque ela sabe que as coisas vão ficar ainda pior. Ela é pior do que uma idealista. Ela só não deve achar que existe a possibilidade de vitória, então quer estender o máximo a nossa suposta calmaria... até a derrota.

Rum bateu a lata de cerveja na mesa. O som metálico e úmido fez o garoto dar um leve salto. — Bom, mas com ela sendo a nossa Rainha, não há nada que possamos fazer.

— 'Tá falando sério? — Eliza rebateu. — Claro que temos que fazer algo! Não podemos deixar as coisas continuarem assim! Não foi para mudar isso que a Tromluí foi criada?

O garoto de moletom que estava até então reclinado na cadeira puxou o capuz para trás, revelando um cabelo preto bagunçado. — Eu tenho que dizer que concordo. Apesar de não achar que a ideia de Eliza de simplesmente atacar de frente faça algum sentido, nada vai mudar até que comecemos a agir.

Rum mudou seu olhar de Eliza para Uzumaki. O olhar dela era pesado e cansado. — Até você vai começar com essa, Uzumaki?

— Qual é? Você sabe que os jovens são assim. Temos que dar um crédito para eles ainda terem tanta garra, mesmo vivendo nesse mundo de merda, Rum. — O cowboy Dumpt falava, rindo. 

Ele estava polindo uma pistola prateada com um pano sujo, e parou para apreciar a discussão. Mumei apenas comia, sentado em um banquinho separado, o som abafado pelos enfaixamentos.

Rum, então, bebeu sua cerveja, fumou seu charuto e depois soltou a fumaça, uma longa pluma cinza que subiu e se dissolveu na luz fraca da lâmpada, olhando para o teto como se estivesse decidindo. A sala ficou em silêncio. A agitação parou. Todos se sentaram em seus lugares, esperando.

Ela então se virou. Seu olho fixou em Eliza com uma intensidade severa. — Primeiro. Eu já disse, Eliza. Não foi para comprar briga que a Tromluí foi criada. Eu apenas queria mudar um pouco a situação do mundo atual, resolver essa merda que está rolando. — Ela fez uma pausa. — Mas eu também, assim como vocês, acho que nada vai mudar sem fazermos algo. Mas não podemos só sair lutando contra tudo e todos achando que isso vai fazer a diferença. Precisamos de um plano mais claro.

Eliza sorriu. Um sorriso predatório, cheio de segredos. — Eu sei disso. Minha briga com o Uzumaki da última vez deixou isso claro. Por isso... eu roubei isso.

Ela colocou o mapa enrolado na mesa, na frente de todos. Ela o jogou com um baque surdo que fez as latas de cerveja saltarem. Era um pergaminho grosso, selado com um cristal azul brilhante.

Rum foi a primeira a se assustar, seu olho se arregalando. Ela tirou o charuto da boca. — Pera. Não me diga que você fez isso mesmo...

Todos ficaram olhando. 

— Mas que merda! 'Cê 'tá louca? — Dumpt exclamou, parando de polir a arma. — Você realmente invadiu o território dos Sonhos?

— Isso não importa! — Eliza falou, animada. Ela quebrou o selo de cristal com a unha, e a luz azul se apagou. — A questão é que com isso, agora finalmente podemos pegar a tal Relíquia Sagrada deixada pela Senhora Guerra! Com essa arma, podemos ameaçar os Sonhos e finalmente conseguir fazer com que o Rei não tenha escolha a não ser levar a sério a nossa situação!

— Então saiu do "vamos mudar o mundo através de uma guerra" para "vamos mudar o mundo usando a ameaça de uma possível guerra" — Uzumaki falou, com um riso seco e zombeteiro, olhando para Eliza com deboche. — Você é realmente uma criança.

— Se você tem um plano melhor, que tal parar de ficar apenas fazendo pose, Uzumaki, e falar alguma merda!

— Hahaha! — Dumpt ria alto, sem acreditar que ela realmente havia feito aquilo.

Mumei, surpreso com a gritaria, engasgou com a comida. Foi um som úmido e desesperado, abafado pelas bandagens e perdido no meio da discussão. Ninguém, exceto o garoto, pareceu notar. O garoto, sem entender nada do que estava acontecendo, instintivamente pegou um copo de bebida da mesa — a cerveja meio bebida de Dumpt — e levou até ele, colocando-o na mão enfaixada de Mumei, que bebeu para se desentalar. Mumei deu um tapa no ombro do garoto, um gesto seco de agradecimento, antes de voltar a respirar.

Rum ainda estava com sua mão frente ao rosto, processando. Mas seu olho não estava fechado; observava o garoto pela fresta dos dedos mecânicos, vendo a interação. Assim que ela viu o garoto recuar de volta para sua cadeira escura, ela ficou curiosa. Ela baixou a mão. — Esquecendo essa situação por enquanto... — e disse, sua voz rouca voltando ao normal. — Afinal de contas, quem é esse garoto, Eliza?

Todos os olhos na sala se viraram para o canto, focando no garoto pela primeira vez. A discussão parou.

Eliza se virou para ele, que ainda estava quieto no canto. — Ele? — Ela sorriu. — É o meu novo bichinho de estimação.

A reação foi imediata. 

— É o quê?! — Dumpt disse. 

— Mas que bobagem — Uzumaki murmurou. 

— Você sequestrou ele de algum lugar? — Mumei perguntou, sua voz abafada. 

Rum soltou um ar exasperado, apontando o dedo para Eliza, pronta para gritar com ela.

CRASH!

De repente, a porta de shoji não se abriu, foi arrancada dos trilhos, se abrindo com força. A moldura de madeira bateu no chão. A atendente Xia apareceu, pálida e desesperada.

— Senhorita Rum! É urgente! O Bairro 66 foi incendiado! Precisamos da sua ajuda!

De repente, o clima na sala mudou. Como um interruptor sendo desligado. As risadas, as brigas, a confusão... tudo desapareceu. Em um único segundo coreografado, eles se levantaram, seus olhares agora sérios e frios. Dumpt guardou a flanela e girou o cilindro de sua pistola com um 'clique' metálico. Uzumaki saltou da cadeira, seu capuz subindo para cobrir o rosto. Mumei largou sua tigela de comida. Eliza enrolou o mapa rapidamente.

— Vamos. Agora.

Parte 14

Enquanto corriam pelas pontes e estradas labirínticas de Akumatsu, saltando entre telhados manchados de fuligem e indo o mais rápido possível para o Bairro 66, com o cheiro de fumaça e pânico se tornando mais forte a cada segundo, Eliza acabava sendo a mais atrasada. Ela não tinha a velocidade pura dos outros, já que tinha que ir cuidando para que o garoto, desorientado e fraco, não se perdesse no caos da cidade ou caísse em alguma fenda.

Rum, que estava vários telhados à frente, um borrão ágil contra o céu enfumaçado, olhou para trás e gritou: — Bom! Pelo menos parece que você amadureceu um pouco, já que está realmente focada em cuidar dele!

Eliza, pulando uma fenda larga entre dois prédios, o garoto logo atrás dela, gritou de volta: — Achou que eu iria abandonar ele?!

— Na verdade, era exatamente isso! — Rum respondeu, sua voz clara acima do barulho. — Bom, mas se você conseguir cuidar dele, e ele te ajudar a ter um pouco de responsabilidade, acho que está tudo bem você ficar com ele…

Assim, ela saltou, seu movimento finalizando a corrida, indo para o telhado bem na frente, onde Uzumaki estava parado, observando as chamas. O calor era visível, distorcendo o ar. Já era possível ver o fogo gigantesco queimando o bairro.

— Uzumaki! — Rum ordenou, sua voz agora séria e no comando. — Use a água do Rio Sanzo para apagar o fogo!

Uzumaki saltou, seu corpo mergulhando em um arco perfeito, indo até um rio de água escura que corria abaixo da cidade. Andando sobre a água, ele começou a mover seu corpo com uma série de chutes e movimentos fluidos. Cada postura era precisa, cada giro de calcanhar e golpe de palma parecia arrastar a própria correnteza, parecia tanto uma luta como também uma espécie de dança. 

Com seus movimentos, ele fez com que um córrego de água escura começasse a se levantar do rio, a água rugindo e subindo contra a gravidade, tomando a forma de um dragão serpentino. Ele o fez ir em direção ao céu, acima do bairro em chamas. Com um chute final, e ainda com a mão estendida na direção do dragão, ele apertou o punho. — Queda das Cachoeiras Celestes!

O dragão de água explodiu no céu, começando a derramar uma chuva forte e pesada que sibilou ao atingir as chamas, e, aos poucos, ia apagando o incêndio.

— Mumei! — Rum gritou. — As estruturas das casas vão ficar fracas por conta do fogo e da água! Ajeite isso!

Mumei saltou da borda do telhado. As faixas de seu corpo começaram a se separar no ar, desenrolando-se em alta velocidade. Ele, inclusive, desapareceu, como se ele fosse completamente composto por bandagens. Elas foram mais rápidas que a chuva, entrando pelas casas danificadas como milhares de teias de aranha. Elas se enrolaram em vigas prestes a ceder e paredes rachadas, amarrando as estruturas, o som de madeira estalando sendo substituído pelo som tenso das faixas se apertando, impedindo que mais casas caíssem e desabassem.

Rum continuou, olhando para os outros que haviam ficado. — A nossa responsabilidade é ajudar os sobreviventes e evacuar os feridos!

E assim eles o fizeram, se espalhando e começando a ajudar todo mundo. Eliza e o garoto foram os últimos a chegar na borda do bairro destruído. A cena era de devastação: fumaça, vapor, casas destruídas e o cheiro de cinzas molhadas.

— Não saia daqui! — Eliza disse para ele, sua voz firme. — Você ainda não conhece o bairro muito bem.

O garoto parecia que queria falar algo, mas antes de ter uma chance, Eliza correu para dentro dos destroços também.

Eles foram evacuando várias pessoas. Quando Uzumaki chegou, trazendo um idoso nos ombros com uma facilidade impressionante, ele olhou para o garoto, que estava agora parado vendo tudo, e zombou: — Unh. Vejo que você também é só mais um inútil, que não consegue fazer nada sem que te peçam. Só tente não atrapalhar. — E assim, se lançou para dentro dos destroços novamente.

O garoto apertou o punho, a humilhação misturada com a frustração, mas tudo que podia fazer era esperar.

Uma das garotas evacuadas, uma jovem com traços de um guaxinim, o rosto coberto de fuligem, estava caída no chão, com queimaduras, e não parava de tossir.

Dumpt, que a salvou, voltou para dentro antes que ela finalmente conseguisse falar: — Espera... a mamãe... a mamãe ainda está na casa... ela estava no porão... 

Mas ela falou tão baixo que Dumpt não escutou.

O garoto ficou vendo a garotinha, tossindo com força. Os outros seres que foram salvos, agora reunidos na zona segura, nem pareciam olhar para ela; só se importavam com suas coisas, roupas e dinheiro que conseguiram salvar, enquanto a garota ficava sozinha, chorando e tossindo.

Ele olhou para o caos. Apertou o cabo da espada de madeira. E entrou.

Indo para dentro, uma faixa de Mumei começou a acompanhá-lo, deslizando pela parede como uma serpente branca. Uma boca se formou nela. 

— O que você está fazendo? Eliza disse para você ficar do lado de fora. 

O garoto não parecia ligar, apenas ficando surpreso com a capacidade de Mumei de falar mesmo sendo só uma faixa. Ele reuniu forças para falar, sua voz rouca: — Preciso…. ajudar a garotinha — Ele começou a tossir com a fumaça.

Mumei ficou em silêncio por um segundo

. — ...Espera. 'Tá fazendo isso por ela? — ele murmurou. — ...Ai. Vou te ajudar dessa vez. Só por causa da água, mas não espere que eu fique fazendo isso de graça, entendeu? — A faixa se dobrou em uma esquina. — Por aqui. Ela fica desse lado.

Ele foi guiando o garoto até a casa. — É nessa casa. Mas eu não consigo te ajudar por dentro delas.

O garoto balançou a cabeça e foi para dentro.

Lá, estava tudo em ruínas. Tudo destruído, meio queimado e cheio de fumaça escura que ardia os olhos. O garoto foi andando. Apesar do fogo ter sido apagado, algumas partes ainda estavam muito quentes, e ele queimava as mãos ao tocar nas coisas. Ele ia se agachando, tateando em meio aos escombros, tentando achar a mãe da garota, tossindo e com os olhos ardendo.

Até que ele ouviu um pequeno som. Um grito desesperado, abafado, vindo de uma porta que parecia levar ao porão. Ele tentou ir até ela, mas tinha uma coluna caída, um bloco maciço de alvenaria e madeira, cobrindo a porta.

Ele tentou tirar. Empurrou com toda a sua força, os pés deslizando nas cinzas, os músculos fracos de seu corpo gritando em protesto, mas a coluna nem se moveu. Ele tentou de novo, grunhindo, o rosto vermelho pelo esforço. E de novo. Nada. Ele era fraco demais.

O tempo passava. Suas mãos ficavam cheias de queimaduras e farpas. Ele começava a ficar tonto, o ar viciado roubando seu oxigênio, sem ar, mas não saía, continuando a tentar ajudar. Ele parecia que ia perder todas as forças, elas quase sumindo. Ele estava quase desmaiando quando, de repente, alguém o balançou.

— Ei! Você ainda está acordado?! — Ele viu Eliza, chacoalhando-o, seu rosto furioso e preocupado. — O Mumei me disse o que você fez! Eu não disse para você não entrar?!

O garoto, fraco, apontou para a porta. — ...Dentro... a mãe... da garotinha... — ele tossiu muito.

Eliza olhou para ele, e depois para a viga. — “Ele veio para cá para ajudar alguém que nem conhece?” — Ela ficou olhando ele, que ainda fazia força, tentando levantar a coluna. — Esquece. Desse jeito você não vai conseguir.

Ela o afastou. Usando sua habilidade, um líquido parecido com esmalte rosa começou a sair de suas mãos, enquanto sua aura de Éter crescia. O líquido, com propriedades estranhas, grudou na coluna. Depois, ela o jogou em outra parte do teto, acima deles, e fez com que as propriedades do líquido mudassem para algo mais borrachudo, com um estalo pegajoso. A "corda" de esmalte encolheu, puxando a coluna para cima com um gemido de madeira se partindo.

A porta ficou livre. O garoto, usando suas últimas forças, conseguiu abrir. Dentro, a mulher guaxinim havia desmaiado. Ele a puxou para fora e tentou levá-la, mas, assim que a colocou nos ombros, ele também apagou. 

— Sério...? — Eliza suspirou, cansada. — Você só me dá trabalho.

Ela tirou seu chakram de seu dedo, Lyra, que começou a crescer, sua borda dourada zumbindo com poder. Ela o usou como um anel flutuante. Ela colocou os dois no centro, os fazendo flutuar, e os levou para o lado de fora.

Parte 15

O cheiro de poeira, madeira velha e um leve toque de antisséptico foi a primeira coisa que ele notou. O som era um rangido distante, rítmico.

Algumas horas depois, o garoto acorda. Ele estava em um quarto com bastante bugigangas estranhas: engrenagens soltas, máscaras teatrais penduradas na parede, frascos com pequenos navios dentro, vasos empoeirados e pinturas tortas. A luz era fraca, vinda de uma lanterna de papel pendurada no teto, balançando suavemente. Ele olhava tudo aquilo confuso, sem entender como havia chegado ali.

Ele começou a olhar em volta. Estava em uma espécie de cama improvisada, feita de lençóis empilhados e um travesseiro. Ao lado da sua, tinha outra "cama", feita apenas de travesseiros. 

Ele olhou para um armário meio entreaberto e viu algumas roupas femininas lá dentro. Pelo espelho quebrado em cima de uma cômoda, notou que alguém o havia tratado: ele estava com várias ataduras, band-aids e outras coisas em seus machucados.

Ele estava agora com uma calça harem larga e velha, e sua antiga roupa havia desaparecido. Faixas cobriam seu abdômen e peito, mas ele estava sem camisa. A dor era uma pontada surda, não mais a agonia de antes. Ele cheirou a si mesmo e, pelo cheiro fraco de sabão, notou que tinha sido limpo.

Assim, ele foi em direção à porta. Era uma porta de correr de papel, frágil. Abriu-a lentamente e começou a andar pelo corredor escuro.

Enquanto andava, ele percebia que ainda devia estar naquele lugar aonde os outros haviam se reunido. Apesar de este quarto ser um pouco diferente, a arquitetura era igual, assim como o chão de madeira que rangia. O rangido parecia ecoar seus passos, como se o prédio respondesse à sua presença. Ele foi andando sem rumo, quase como se estivesse procurando por alguém. Ou algo.

Ele caminhou e caminhou no escuro e sentiu a mesma sensação que sentia na floresta: de que alguém, no escuro, o observava. Um arrepio subiu por sua espinha nua. Ele parou, mas o corredor estava vazio, apenas sombras longas e distorcidas. Mas, agora, não conseguia dizer a direção.

Ele caminhou e conseguia ver, pelas frestas de uma parede de papel, uma sala de onde fumaça saía. A fumaça cheirava a enxofre e vapor. Estava cheia de água quente e pessoas se banhando. Ele viu a silhueta de mumei, se banhando. Ele então se afastou e continuou andando, até chegar em uma escada circular que subia e descia, indo para o coração da estrutura. Era um poço de escuridão, um buraco no centro do prédio.

Ele saltou nela e começou a descer. Agarrando-se ao corrimão de madeira áspera. Enquanto descia, o calor aumentava, e ele escutava vozes e sons vindo dos diferentes andares. A escada era uma torre de babel de miséria e indústria. Em um deles, eram sons de gemidos de prazer. Em outro, eram choros de desespero. Em alguns, o som de metal sendo forjado. Um 'CLANG' rítmico, o cheiro de carvão e suor subindo pelo poço da escada.

Ele continuava descendo e descendo, passando pelos diferentes sons, até que chegou no andar de antes, com as salas de reuniões.

Ele começou a andar. Agora o ar estava pesado com o cheiro de sangue e fumaça. Passando por uma sala entreaberta, viu várias pessoas machucadas sendo tratadas, gemendo em esteiras no chão, enquanto uma mulher que parecia uma lagarta perguntava como cada um estava. A garotinha guaxinim que ele havia ajudado estava com a mãe, mas ainda estava chorando baixinho.

Ele se virava e continuava seguindo. Passando por outra sala, uns homens musculosos com chifres na cabeça passavam carregando vários corpos, queimados e rasgados. Os corpos estavam cobertos por lençóis brancos, mas o sangue manchava o tecido. O cheiro de carne queimada era forte.

— Rápido! Temos que fazer a contagem de mortos para o Senhor Apachai o quanto antes!

Ao escutar a pergunta, o garoto curioso tentou contar, mas desistiu assim que viu que a contagem facilmente passava dos 100. Ele recuou da porta e voltou a caminhar.

Seguindo em frente, estava a sala onde eles haviam se reunido antes. A fresta da porta quebrada brilhava com a luz de uma única lâmpada fumegante. Mas, antes de tentar abrir, ele escutou o barulho de vozes vindo de dentro, passando pela porta que não conseguia fechar completamente, pela forma como Xia a abriu desesperada.

Lá, estavam falando Rum e mais alguém. — Pode contar. O pagamento está todo aí — uma voz desconhecida falava.

— Agradeço — Rum respondeu. — Mas então. Já sabem o que aconteceu?

O homem hesitou para responder, como se não quisesse. Rum o olhava mais fixamente. O silêncio se esticou, preenchido apenas pelo som do charuto de Rum sendo aceso.

— ...Foram os Mercadores dos Sonhos. De novo. — o homem finalmente abriu a boca. — Vieram coletar mais "trabalhadores". Mas... parece que eles levaram algumas crianças e mulheres também. Por conta disso, houve uma briga, e eles acabaram queimando o distrito, sob a acusação de agressão.

— IDIOTAS! — Dumpt falou, sua voz claramente irritada. — Que autoridade eles acham que têm pra fazer uma bosta dessas?! 

— Está vendo? É por isso que não podemos deixar isso continuar, Rum! — Eliza falava se virando para ela.

— Eliza, quieta! — Rum bateu a mão na mesa, irritada. — Não é hora pra isso agora. — Ela acendeu seu charuto. — Pode continuar. Eu sei que tem mais.

O homem deu um passo para trás. 

— Qual é? — Rum disse. — Você não hesitaria se algo grande não tivesse acontecido.

— ...É que... — o homem engoliu em seco. — ...levaram a Yukina também.

Assim que ele disse o nome, todos, exceto Rum, se levantaram de suas cadeiras. Houve um som caótico de cadeiras sendo arrastadas e punhos batendo na madeira.

— POR QUE VOCÊ NÃO DISSE ESSA MERDA DE CARA, PORRA?! — Dumpt gritou, irritado.

— Espera... não me diga... — Eliza continuou, sua voz falhando. — Onde está o Snow?

Rum, fazendo um gesto com a mão, sua mão mecânica se fechando em um punho, fez eles se sentarem de novo.

— Ele... — o homem falou, com medo — ...vocês sabem bem o que ele sentia. Acho que isso foi a gota d'água. Ele saiu furioso, levando todos que estavam revoltados, mesmo os feridos do incêndio... e marchou para a cidade de Wonder.

— Mas que insanidade! se ele usar a habilidade dele de novo vai morrer. — Uzumaki falou de seu assento.

— Isso não vai dar nada bom... — Mumei falou também, o clima ficando mais tenso.

Eliza se levantava, tremendo de raiva. — E agora?! Ainda assim, planeja não fazer nada, Rum?! Hein?!

Rum bateu o punho fechado contra a mesa. O golpe foi tão forte que fez uma rachadura na madeira grossa. Ela olhou para Eliza, com raiva, mas com uma lágrima solitária escorrendo por baixo do tapa-olho. O garoto, espiando pela fresta, viu a lágrima brilhar à luz da lâmpada.

— Você sabe muito bem que não é isso que eu quero!

Assim, todos ficaram quietos. O garoto, do lado de fora, perdeu toda a coragem que tinha para entrar. Essa dor, essa raiva... era um mundo para o qual ele não pertencia. Ele era apenas um fantasma. Ele ficou ali, parado, sem saber o que fazer. Ele deu um passo para trás, recuando para a escuridão do corredor.

Quando, de repente, um brilho estranho chamou sua atenção no corredor escuro. Um único ponto de luz carmesim, pulsando suavemente no ar.

Uma borboleta vermelha, voando pelo corredor. De repente, ele se lembrou da floresta. Da aranha. Daquele calor em seu peito. Daquelas belas borboletas que o ajudaram. Assim, ele começou a seguir, ignorado por todos, como um sonâmbulo sendo puxado por um fio invisível, indo em direção a ela, mergulhando na escuridão desconhecida.

Parte 16

Ele caminhou, indo em direção à borboleta carmesim, que mergulhava no escuro.

O vôo da borboleta não era suave; era errático e proposital, quase como se estivesse puxando uma corda invisível amarrada em seu peito. Ela parava, vibrava no ar, e então disparava para a frente, forçando-o a segui-la.

Sem temor, ele a seguia, sem perceber que não fazia mais ideia de onde estava, sem perceber que não conseguia mais avistar o lado de fora, nem que o barulho e o calor do vapor de antes haviam desaparecido.

A transição foi abrupta. Um passo, ele estava no labirinto quente e barulhento do restaurante; no seguinte, o som morreu como se uma porta de aço tivesse sido fechada. O ar ficou frio e parado. O único som era o farfalhar quase inaudível das asas da borboleta.

O mundo se tornou um silêncio. Apenas um caminho escuro e sombrio, e a borboleta brilhante que voava sem direção.

Assim, ele chegou em um lugar aberto. Dentro da estrutura labiríntica, havia um espaço vazio onde não deveria existir.

A geometria do corredor simplesmente terminava, abrindo-se para um vácuo que parecia sugar a luz. Era um espaço impossível, uma bolha de realidade dentro da arquitetura caótica.

No centro, uma grande lona de circo, branca e vermelha, estava montada. Em sua volta, várias borboletas carmesins voavam, reunindo-se.

Elas não voavam aleatoriamente; elas orbitavam a tenda em um padrão rítmico e hipnótico, criando um vórtice suave de cor vermelha contra a escuridão.

Ele começou a caminhar em direção a ela e abriu o pesado retalho de lona, entrando.

Ao tocar a lona, ela não parecia tecido, mas algo frio e orgânico, como pele. O cheiro de dentro o atingiu: poeira antiga, ozônio e o cheiro metálico fraco de sangue seco.

De repente, uma grande luz apareceu no meio do palco.

Não foi um acender suave. Foi um estalo súbito, um único holofote que cortou a escuridão com uma violência silenciosa, deixando o resto da tenda em um breu ainda mais profundo. Partículas de poeira dançavam freneticamente no feixe.

Lá no centro, algo envolto em escuridão, como um casulo pendurado de ponta-cabeça, estava cercado pelas borboletas vermelhas. Ele se aproximou, sentindo aquela mesma sensação de estar sendo observado aumentar.

O casulo pulsava levemente, como um coração negro. As borboletas não pousavam nele, mas se aproximavam e se afastavam, como se o estivessem alimentando ou adorando.

Quando ele chegou perto o suficiente, o casulo se abriu, não como pétalas, mas como se uma borboleta estivesse para emergir. Mas quando ele olhou, na realidade, o casulo eram as grandes e escuras asas de morcego de uma garota. Loira, com orelhas pontudas, ela estava pendurada de cabeça para baixo. Seus olhos vermelhos o encaravam.

O movimento de abertura foi lento e úmido, com um som de couro estalando. As asas se desdobraram com uma precisão anatômica perturbadora. Seus olhos vermelhos não piscaram; eles estavam fixos nele desde antes do casulo se abrir.

Seu "pouso" foi sobrenatural. Ela não caiu; ela flutuou para baixo, seus pés parando a um centímetro do chão antes de tocá-lo sem som. Seus movimentos eram fluidos e controlados, como os de um predador.

As borboletas começaram a voar, dando várias voltas em torno deles, enquanto o garoto olhava para ela, sem nem piscar.

Era estranho. Seu coração acelerava. Mas, mesmo que ele estivesse claramente assustado, ele não conseguia não sentir aquele calor estranho no peito. — An… — Uma palavra quase se formou em sua boca. Por algum motivo. Mas ele não sabia como completá-la.

Assim, a garota se aproximou dele. — Recordais-vos de quem sou eu, ó jovem andarilho? — O garoto balançou a cabeça em negação. — Ah. Compreendo. Que lástima. — Sorriu ela, com um brilho malicioso nos olhos. — Contudo, não temais. Não sou senão uma humilde arlequina.

Assim, ela se dissolveu. Seu corpo se desfez em uma nuvem de morcegos negros que instantaneamente se tornaram sombras no chão, rastejando para longe. O holofote principal morreu e, em seu lugar, luzes de palco fracas piscaram para a vida.

Elas revelaram seres feitos de sombras, como palhaços, indo de um lado para o outro, realizando vários espetáculos: malabarismo, acrobacia, levantamento de peso.

Mas seus movimentos estavam errados. O malabarista usava o que pareciam ser crânios pequenos. O acrobata se contorcia em ângulos impossíveis, seus membros estalando audivelmente. O levantador de peso erguia um bloco de escuridão sólida. Todos se moviam em um silêncio sepulcral, suas faces de sombra vazias.

— E este é o meu circo — a voz dela ecoou. A voz vinha de todos os lugares e de lugar nenhum, reverberando artificialmente. — O Circo Meia-Noite. Ela apareceu no centro do palco. —— Ó jovem andarilho... desde que arribastes a estas terras, presumo que haveis provado o gélido abraço do frio, as agruras da dor e as sombras do desespero.. — O garoto a olhava, sem entender. — Ah, mas através dos vossos olhos, discerno que o mais cruel tormento dentre todos, por certo, foi a solidão.— Ela continuou, sua voz suave. — Ah, percebo que haveis granjeado companheiros. E em sua presença, tal dor, tal frio... dissiparam-se. — O garoto, instintivamente, botou a mão no peito. — Ah, mas advirto-vos desde já: tal graça é mera efemeridade. — Pessoas de sombras apareceram na arquibancada e começaram a vaiar.

As vaias não tinham som, mas eram uma pressão física, uma vibração de ódio que fez o garoto recuar. As figuras na arquibancada eram apenas silhuetas bidimensionais, balançando em uníssono.

— Ah, tudo por culpa desses infaustos Sonhos! — ela gritou, sua voz subitamente cheia de ódio. — Ah, são eles os monstros! Os que arrebatam tudo quanto de precioso! Os que irrompem e ceifam sem um pingo de mercê! E ora... até mesmo estes vossos companheiros... hão de tombar na eterna quietude.

Enquanto ela gritava, os palhaços de sombra pararam seus atos e se viraram para ele. Um deles começou a pantomima de morrer, agarrando o peito e caindo de forma exagerada e grotesca, repetidas vezes.

Ela apontou para ele. — Ah, tal qual o genitor da tenra donzela que resgatastes. Em breve... sereis vós o que derrama lágrimas amargas.

O garoto relembrou da garota guaxinim na sala médica, mas agora sua mente visualizava ele mesmo, chorando na mesma posição, sozinho nos destroços. As luzes focaram nela. 

— Ah, mas não temais, ó tenro mancebo! A resolução revela-se de uma simplicidade assombrosa!— Ela fez uma reverência teatral. — Ah, rogo-vos, qual humilde arlequina. Clamo, ó jovem andarilho, vós que portais a chama áurea e a carmesim convosco! Salvai este mundo! Salvai o Reino dos Pesadelos! Somente vós podeis forjar tal senda!

As pessoas de sombras no palco começaram a aplaudir e comemorar. — Ah, fazei-o! Para que vossa amiga jamais prove a angústia de perder seus dilectos companheiros! Fazei-o... para que não retorneis à sombria solidão! Fazei-o, e eu vos juro que desvelarei quem sois vós. E qual o fado que vos traz a este reino. — Ela sorriu, um sorriso gentil. — Ah, parti agora, ó jovem sonhador. Eu deposito minha confiança em vós… meu amado Dante.

Assim, as luzes vermelhas se apagaram mais uma vez.

Foi um corte abrupto. Um segundo, o circo estava lá; no seguinte, apenas a escuridão absoluta e o som de seu próprio sangue pulsando nos ouvidos. O cheiro de ozônio e poeira desapareceu.

De repente, o garoto estava no escuro. Sozinho. Aquela última palavra. Aquele nome. Dante. Ele sentiu algo em seu peito. Sua cabeça doía.

A dor não era comum; era uma pontada aguda, como se uma memória estivesse tentando perfurar seu crânio por dentro, exatamente onde o nome havia sido pronunciado.

— Ei, garoto! Ele se virou.

O som da voz de Eliza foi um choque, rasgando o silêncio pós-circo. A luz fraca do corredor real pareceu ofuscante em comparação com o escuro que o envolvia.

Eliza apareceu no fundo do corredor, parecendo irritada. — O que você está fazendo aí? Só porque acordou não pode ficar andando sozinho! — Ela o pegou pelo braço e começou a puxá-lo. Ele olhou em volta, confuso. Ele estava perto da sala de reuniões, em um corredor escuro, mas era um lugar totalmente diferente de onde lembrava. Não havia sinal do circo.

— Logo seu trabalho também vai começar… — Eliza falou, arrastando-o. — Então, por enquanto, é melhor dormir e descansar. Enquanto ainda pode.

Parte 17

Ao voltar para o quarto de antes, Eliza o puxava pelo pulso, com uma urgência que o fez quase tropeçar para acompanhá-la. Ela fechava a porta atrás deles; o clique da fechadura pareceu selar o pequeno cômodo do resto do mundo. O garoto notava a face dela meio pra baixo, o olhar focado no chão, a boca apertada numa linha fina. Ele não sabia o que falar. Ele até pensou sobre o que havia visto no circo, mas nem sabia como começar a explicar o que tinha acontecido.

Quando ela bate a mão na cama de lençóis, o som estalado ecoou no silêncio, ela fala: — Já disse! Agora você tem que dormir e descansar!

O garoto ficou encarando ela sem entender. Ela deu um passo à frente, e antes que ele pudesse recuar, ela o puxou pela frente da camisa, sem força, mas com uma insistência que o desequilibrou, fazendo-o deitar. 

— Você esqueceu de novo! Eu já disse que é pra falar comigo!

Assim, ele começou a falar, sua voz rouca, como se a garganta estivesse cheia de areia: — ...Desculpa.

— Não é "desculpa" que eu quero ouvir! — ela disse, coçando a cabeça, frustrada. Um suspiro agudo escapou dela. — Tanto faz. Só vê se começa a falar mais. Entendeu?

Ele a encarava, confuso. Houve uma longa pausa. Ela o observou, e a irritação em seu rosto pareceu derreter, dando lugar a algo mais cansado. Ela se sentou ao lado dele na cama improvisada; o colchão de lençóis afundou com o peso, e o movimento fez o garoto se encolher instintivamente. Seu tom suavizando:

— Eu sei que é meio difícil. Eu também era quase igual a você quando era mais pequena.

O garoto olhou para ela, confuso.

— Bom, pelo menos a minha situação não era tão horrível, é claro — ela tentou brincar.

Ele continuava olhando, o rosto completamente inexpressivo. Ela percebia que ele não tinha ficado nem irritado, nem rido de sua piada. O silêncio ficou estranho por um segundo. Assim, ela deu um peteleco no nariz dele.

— A verdade — ela continuou, mais séria, o olhar perdido nas próprias mãos, que repousavam no colo — é que eu também não sabia quem eu era, nem de onde vim, até a Rum me achar e cuidar de mim. No começo, eu também não costumava falar. Era desconfiada de tudo. Mas... — ela levantou o olhar, e seus olhos encontraram os dele, firmes — é sério. Pode confiar em mim.

Ela o encarou. — Pensando bem... eu nem te dei um nome ainda.

O garoto hesitou. Ele engoliu em seco, a sensação da garganta seca o incomodando. — Meu nome... — ele disse, a voz baixa, tão baixa que foi quase um sopro. — Acho que meu nome é Dante.

Ela olhou para ele, surpresa. Os olhos se arregalaram levemente. — Espera. Você lembra do seu nome?

Mas ele ficou quieto, sem responder de novo, olhando para o nada. Ele tinha se fechado, virando o rosto para a parede, como se uma porta interna tivesse batido. Ela, irritada, puxou o nariz dele, dessa vez com um pouco mais de convicção.

— Já disse pra me responder! Quer saber? Esquece. Vai logo dormir. — Ela o soltou. — Mas, deixando claro: eu não gostei. Esse nome não é bom pra um cachorro. Então... acho que vou te chamar de Dan. Entendido?

O garoto olhava para ela. Ele processou o apelido. Não era seu nome, mas... era algo que vinha dela. 

Ela ficou esperando por uma resposta com a mão já perto do nariz dele.

Ele respondeu: — ...Tudo bem.

— Agora sim! 'Tô gostando! — ela sorriu. E o sorriso foi repentino, transformando a expressão frustrada de antes.

Ela então se levantou e, com um arrastar suave de tecido no assoalho, aproximou seu colchão de travesseiros improvisados para perto da cama dele. Ele se encolheu, observando, sem entender o que ela faria. Ela se deitou e, por um momento, apenas ficou ali. Então, ela se virou de lado, de frente para as costas dele, e o puxou para perto gentilmente pela cintura e se deitou, abraçando-o pelas costas.

Ele enrijeceu imediatamente, o corpo todo tenso.

— O que... você... — ele perguntou, confuso e rígido. Ele podia sentir o calor dela por toda a extensão de suas costas, e o hálito dela, sonolento, tocou sua nuca.

— Que foi? — ela murmurou, sonolenta. A voz dela estava abafada contra o tecido da camisa dele. — Eu agora não posso abraçar meu cachorrinho pra dormir?

O garoto ficou sem entender, mas, por algum motivo, ele não se incomodava. Não como ele achou que deveria. Seu instinto gritava para ele se afastar do toque, mas... Era quente. Não apenas quente de temperatura. Onde ela o tocava, sua pele parecia formigar, e o centro de seu peito doía menos. O frio constante que ele sentia há dias, parecia finalmente estar diminuindo. Ele finalmente parecia estar se aquecendo.

Assim, ele ia apagando, sentindo o peso reconfortante do braço dela sobre ele, finalmente parecendo que conseguiria dormir.

No limite entre a vigília e o sono, ela murmurou bem baixo, quase para si mesma: — Eu também não gostava de dormir... mas tá tudo bem. Você não está mais sozinho.

Ele escutou. As palavras se alojaram em algum lugar profundo dentro dele, mas rapidamente sua consciência apagava, com as duas vozes ecoando em sua mente: a dela, quente e próxima, dizendo para ele ir dormir, e a outra, de suas memórias, distante e fria, dizendo para ele salvar aquele reino.

Mas, finalmente aquecido em muito tempo, o jovem andarilho conseguiu dormir.



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