The Fall of the Stars: Capítulo 2 - Entre Páginas e Túmulos.
- AngelDark

- 6 de mar.
- 64 min de leitura
Volume 11 : A Prisão Dourada
Parte 1
O céu sobre a Cidade de Morpheus havia, enfim, desistido da farsa. A ilusão de dias ensolarados e perfeitos cedeu lugar a um teto de chumbo espesso, que esmagava o horizonte e despejava uma tempestade implacável. A chuva não apenas caía; ela açoitava o cemitério municipal, transformando o gramado outrora impecável em um lamaçal escuro e faminto que parecia querer engolir a todos.
O som da água batendo contra centenas de guarda-chuvas idênticos criava um chiado constante e ensurdecedor. Debaixo daquele mar de escudos negros, uma multidão vestida em luto rigoroso se espremia em um silêncio sepulcral. Afastada da massa escura, abrigada pelas sombras da marquise de um mausoléu de mármore, Eliza observava os dois caixões descerem à terra.
Seus joelhos estavam puxados contra o peito, numa tentativa inútil de reter o próprio calor. No colo, o diário de capa de couro repousava aberto. A névoa fria já enrugava as páginas, e a mão de Eliza tremia tanto que os nós de seus dedos estavam brancos ao redor da caneta. A tinta azul borrava no papel úmido enquanto ela forçava as palavras a existirem:
Duas mortes em vinte e quatro horas. O mundo perfeito rachou.
Ela soltou o ar em um suspiro trêmulo e ergueu os olhos, varrendo o mar de roupas pretas até encontrar o núcleo do desastre na primeira fileira, na beira da cova.
Philia estava lá. A garota de língua afiada, que sempre dominava os corredores com fofocas e risadas, parecia ter quebrado ao meio. Seus ombros estremeciam violentamente sob o casaco encharcado. Mesmo àquela distância, Eliza conseguia sentir o cheiro da culpa que devorava a amiga. Uma culpa ácida por ter ignorado aquela última chamada de vídeo. Por não ter corrido atrás de Yuki naquele corredor engolido pela escuridão.
Ao lado dos ombros trêmulos de Philia, erguia-se a figura inabalável da Professora Saga, sua mãe adotiva. A mulher cega mantinha a postura reta como uma estátua de sal. A venda negra cobrindo seus olhos estava ensopada, mas ela não se movia para enxugar o rosto. As linhas tensas ao redor de sua boca, porém, traíam uma dor profunda que ela lutava para conter. A mão de Saga segurava firmemente a da pequena Silence, que mantinha o rostinho pálido completamente afundado no peito, engolido pelo capuz do casaco.
Um nó cravou na garganta de Eliza. Seus músculos repuxaram, o instinto berrando para que ela largasse o diário, corresse pela lama e abraçasse Philia. Queria dizer que a culpa não era dela. Mas seus pés pareciam fundidos ao mármore do mausoléu. O gosto amargo da covardia inundou sua boca — a exata hesitação que Anna havia jogado na sua cara no dia anterior. Como Eliza ousaria olhar nos olhos de Philia e oferecer conforto? Na noite passada, ela também havia garantido que "ficaria tudo bem". Ela também havia escolhido o conforto de sua cama em vez de procurar a amiga.
O estômago de Eliza revirou com a própria hipocrisia. Incapaz de continuar encarando o sofrimento de Philia, ela desviou o olhar para o resto da multidão. Foi nesse momento que a fisgada atingiu o centro de sua testa. Um desconforto frio e familiar.
Havia algo doente naquela cena. Algo absurdamente errado. Eliza apertou os olhos contra a cortina de chuva, forçando-se a analisar os rostos dos alunos, dos vizinhos e dos professores que cercavam o túmulo. Sobrancelhas arqueadas em piedade. Lábios curvados para baixo. Cabeças inclinadas em um respeito milimetricamente coreografado. Era uma pintura renascentista do luto perfeito. Mas, à medida que a chuva lavava a palidez daqueles rostos... Eliza percebeu.
Ninguém estava chorando.
Não havia um único par de olhos vermelhos ou inchados na multidão. Não havia narizes escorrendo, nem os soluços feios e engasgados que a morte verdadeira arranca das pessoas. Apenas os tremores de Philia quebravam a quietude. O resto da cidade exibia olhos secos e vítreos sob a tempestade. Era um luto de plástico. Uma peça de teatro macabra e ensaiada, onde todos sabiam suas marcas no palco. A constatação fez a pele de Eliza arrepiar por baixo do casaco.
E então, no meio daquela simetria artificial, ela viu a falha.
Longe das coroas de flores superfaturadas, encostada no tronco retorcido de um carvalho antigo, havia uma garota que não pertencia a Morpheus. Ela não usava preto. Não segurava um guarda-chuva. A chuva castigava seus cabelos castanhos e colava a jaqueta casual ao seu corpo, mas ela não parecia registrar o frio.
O que roubou o fôlego de Eliza, no entanto, foi o rosto dela. Enquanto a cidade encenava tristeza, a forasteira não exibia nada. Seu olhar era cirúrgico. Ela dissecava a multidão com a frieza de um legista debruçado sobre uma mesa de metal, calculando o ambiente, mapeando as saídas e medindo cada reação falsa. Não era o olhar de quem perdeu alguém. Era o olhar de um predador avaliando o rebanho.
Eliza prendeu a respiração. Quem é você?
Como se o próprio pensamento tivesse feito barulho, o pescoço da estranha girou, milimétrico. Através de trinta metros de chuva e neblina, os olhos das duas colidiram. Um choque elétrico subiu pela espinha de Eliza, paralisando seus pulmões.
A garota de cabelos castanhos não piscou. Sem alterar uma única linha de sua expressão fria, ela desencostou do carvalho, afundou as mãos nos bolsos da jaqueta encharcada e deu as costas para os túmulos. Com passos silenciosos e calculados, começou a se afastar do mar de guarda-chuvas, diluindo-se em direção aos grandes portões de ferro forjado.
O estalo seco do diário sendo fechado ecoou sob a marquise.
O medo e a covardia de Eliza ainda estavam lá, mas foram sumariamente esmagados pelo instinto flamejante de investigação. Ela jogou o caderno de qualquer jeito na mochila, o zíper soando alto enquanto ela se levantava de supetão. Puxou o capuz sobre a cabeça e desceu os degraus do mausoléu. Seus tênis afundaram na lama enquanto ela começava a se mover apressada pelas laterais do cemitério, abraçando as sombras dos túmulos mais altos para se manter fora de vista, mantendo os olhos cravados nas costas da forasteira.
Enquanto caminhava, a mente de Eliza operava em velocidade máxima, conectando os retalhos manchados de sangue das últimas horas.
Ataques de animais. Corpos drenados. Alguém vagando pelas ruas à noite. Ontem, na boca de Yuki, aquilo soava como as lendas de vampiros baratas usadas para aterrorizar calouros ingênuos. Hoje, havia terra sendo jogada sobre o caixão dela.
A polícia e a prefeitura venderam a morte de Laeticia na rodovia rural como "ataque de animal selvagem". Mas Yuki? O corpo de Yuki foi encontrado no prédio da manutenção. Um corredor fechado. Uma porta trancada por dentro. A garganta rasgada e não havia sangue suficiente no chão. Nenhum lobo destranca portas ou limpa a cena do crime. Vampiro, aberração ou apenas um psicopata meticuloso — não importava a nomenclatura. Eliza tinha certeza absoluta de que havia um monstro respirando o mesmo ar purificado que eles, caminhando confortavelmente sob a ilusão da cidade perfeita de Morpheus.
E aquela garota de jaqueta molhada, escapulindo sorrateiramente do funeral, era o primeiro fio solto dessa teia. Eliza apertou o passo na lama pesada, determinada a puxar aquele fio até descobrir o que, de fato, estava apodrecendo por trás de tudo aquilo.
Parte 2
As botas de Eliza patinavam violentamente sobre a grama ensopada do cemitério. Ela apertou o passo, os braços balançando para manter o equilíbrio enquanto contornava lápides de mármore escorregadias e anjos de pedra que pareciam chorar água escura. Seus olhos estavam cravados, fixos na silhueta da forasteira de jaqueta molhada que começava a sumir na neblina. A chuva açoitava seu rosto sem piedade, grudando os cílios e embaçando sua visão.
Só mais um pouco..., pensou Eliza, o fôlego queimando os pulmões. Ela derrapou ao virar abruptamente a quina de um mausoléu imponente da família fundadora, pronta para interceptar a garota.
BAM!
O baque foi surdo e brutal, como se ela tivesse corrido de peito aberto contra uma estátua de concreto. O impacto expulsou o ar de seus pulmões. Eliza cambaleou para trás, os calcanhares escorregando na lama espessa. Ela teria caído de costas no chão sujo se uma mão grande, envolta em uma luva de couro negro, não tivesse disparado para frente, agarrando seu ombro como uma garra de ferro e estabilizando seu corpo no ar.
— Olha por onde anda, pirralha.
A voz era grave, arrastada e absurdamente monótona, cortando o chiado caótico da tempestade.
Eliza piscou, atordoada, esfregando a água do rosto. A forasteira de cabelos castanhos havia sumido, engolida pelo mar de lápides. Em seu lugar, segurando um guarda-chuva preto que projetava uma sombra pesada, erguia-se Uzumaki. O garoto do terceiro ano era alto, os cabelos escuros e úmidos grudados contra a testa. Seus olhos azuis desceram para encará-la, mas não havia irritação neles. Não havia nada. Era o olhar opaco de um manequim.
Ao lado dele, Katsuragi segurava o próprio guarda-chuva com uma inclinação desleixada. Ela mascava um chiclete lentamente, os olhos vagando pelo cemitério com o tédio de quem espera na fila de um banco, alheia à atmosfera fúnebre.
— Desculpa, eu... eu estava com pressa — Eliza gaguejou, o peito ainda subindo e descendo.
A frustração de perder sua única pista ferveu em seu sangue, mas, ao olhar para o rosto de Uzumaki, seu cérebro deu um tranco. Aquele era o namorado de Laeticia. O coração de Eliza apertou; a raiva evaporou, substituída por um pesar genuíno. Ela endireitou a postura e tentou suavizar a voz, soando o mais gentil que conseguia sob o temporal:
— Uzumaki... eu sinto muito pela Laeticia. De verdade. Eu nem consigo imaginar o inferno que você está passando agora.
Uzumaki soltou o ombro dela em um movimento lento. Ele enfiou a mão livre no bolso da calça social preta, os ombros relaxados demais para um enterro. Seu olhar azul passou por Eliza, flutuando não na direção da cova de sua namorada, mas para o vazio cinzento além dos muros do cemitério.
— Está tudo bem — ele respondeu. A voz saiu perfeitamente nivelada, uma linha reta sem qualquer tremulação. — Mesmo assim... eu não consigo chorar.
Eliza franziu a testa. A empatia que ela acabara de reunir secou instantaneamente, dando lugar a uma incredulidade ácida.
— Nossa — ela soltou, incapaz de segurar a língua. — Eu sabia que você tinha a fama de ser um babaca frio no campus, mas caramba... A garota que você dizia amar acabou de ser enterrada num caixão fechado! Não custava derramar pelo menos uma maldita lágrima no enterro da sua própria namorada!
O tom dela subiu, rasgando o barulho da chuva. Os olhos escuros de Uzumaki moveram-se milimetricamente, focando no rosto indignado de Eliza. Não havia postura de defesa. Nenhuma veia saltou em seu pecoço. Havia apenas uma constatação gélida.
— Você não entendeu — ele murmurou, a voz baixando um tom, soando quase metálica no ar úmido. — Não é que eu não queira chorar porque sou frio, Eliza. É que eu não consigo. Os sentimentos que deveriam vir... eles simplesmente não vêm. Eu sei, mentalmente, como se fosse um dado estatístico anotado num papel, que ela era minha namorada. Eu sei que passávamos tempo juntos. Mas eu não sinto isso. Não tem buraco no peito. Não tem dor. É só... oco.
Um frio agudo, que não tinha nada a ver com a água congelante da chuva, subiu pela espinha de Eliza, eriçando os pelos de sua nuca. A forma como ele descreveu aquilo não soava como o choque do luto. Soava como um defeito de fábrica. As palavras, a ausência total de microexpressões no rosto dele... era um desconforto profundo, um "vale da estranheza" que revirou o estômago de Eliza muito mais do que a forasteira na multidão.
Katsuragi estourou uma bola de chiclete e suspirou, ajeitando a alça da mochila no ombro com preguiça.
— Uzumaki, você está em choque. É biologia básica: a mente bloqueia a dor. Você já pensou em conversar com a psicóloga da escola sobre isso? A senhorita Asmodea é ótima para entender esses sentimentos confusos de adolescente.
— Eu não acho que eles iam ajudar com isso, Katsuragi. — Uzumaki virou o pescoço de forma mecânica, apontando o queixo para a imensidão de guarda-chuvas pretos. — Na verdade, eu acho que eles só fingem. Todos eles.
— Do que você está falando? — a voz de Eliza saiu pequena, trêmula.
— Olhem em volta — Uzumaki ditou, como se lesse um relatório. — Pensem na bizarrice estrutural da situação. Duas alunas morrem em menos de vinte e quatro horas. Uma delas, violentamente destroçada dentro do próprio campus. E cadê as sirenes? Cadê a polícia interrogando os alunos, isolando as áreas? O reitor simplesmente solta uma nota dizendo que amanhã a primeira aula toca às sete. E olhem para eles...
Ele varreu a multidão enlutada com um olhar sombrio e vazio.
— Todos estão aqui no enterro. Mas ninguém sussurra nada. Ninguém conta uma história triste sobre o que a Laeticia ou a Yuki significavam. Ninguém se abraça. É como se elas nunca tivessem existido até ontem.
Katsuragi revirou os olhos com tanta força que quase jogou a cabeça para trás.
— Ah, pronto. Você já está enlouquecendo com essas teorias da conspiração de fórum de internet. É só uma cidade pequena e contida, Uzumaki. A galera está de luto do jeito deles, de forma discreta.
Mas o dano já estava feito. A semente do pânico havia sido plantada na mente de Eliza, e agora germinava rápido, rasgando seu bom senso. Ela engoliu em seco. Virou o rosto lentamente, com o pescoço rígido, e começou a olhar — olhar de verdade — para a multidão enlutada.
As palavras de Uzumaki ecoavam em seu crânio como o badalar de um sino de emergência. Ela olhou para o rosto grisalho do professor de matemática. Olhou para as feições joviais do capitão do clube de natação. Olhou para as rugas da tia da cantina.
As expressões eram... idênticas.
Não parecidas. Não inspiradas umas nas outras. Idênticas. A mesma inclinação exata de 15 graus do pescoço. O mesmo semicerrar milimétrico de pálpebras. O mesmo curvar engessado e plastificado dos cantos da boca para baixo. Era um "copiar e colar" grotesco de tristeza estampado em trezentos rostos completamente diferentes. Uma multidão de manequins programados com o mesmo script.
O coração de Eliza deu um solavanco violento nas costelas. Tum-tum. Tum-tum. O suor frio brotou em sua nuca, misturando-se à água gelada da chuva. Ela começou a olhar freneticamente de um rosto para o outro, a respiração se tornando curta e ofegante. O som da chuva torrencial, que antes era ensurdecedor, começou a ficar estranhamente abafado, como se a cidade estivesse sendo sugada para debaixo d'água. A única coisa que preenchia seus ouvidos agora era a batida descompassada e ensurdecedora do próprio sangue pulsando nas têmporas.
Ele tem razão, a própria voz de Eliza gritava dentro de sua cabeça, espiralando para a histeria. Alguém deveria estar gritando! Alguém deveria subir no caixão, fazer um escândalo, rasgar as roupas! A família da Yuki deveria estar desmaiando na lama!
Os olhos de Eliza se arregalaram. As pupilas dilataram. A família da Yuki. Onde eles estavam? Ela apertou as laterais da própria cabeça com as mãos trêmulas, forçando as engrenagens da memória a girarem. Ela conhecia Yuki. Elas estudavam juntas, sentavam perto, trocavam mensagens no celular o dia inteiro. Mas... como era o rosto da mãe dela? Onde ficava a casa de Yuki? Ela tinha um irmão mais novo? Um cachorro?
Nada. A mente de Eliza encontrou apenas um vácuo negro e absoluto. Um buraco em branco arrancado à força do roteiro de suas memórias. Não havia nada lá.
De repente, um murmúrio furtivo rasgou o véu do transe.
— É sério, está muito estranho... — Era a voz de Ivy. A garota falava baixinho com as amigas debaixo de um guarda-chuva a poucos metros dali. — Até eu receber a notícia da morte hoje de manhã... eu podia jurar pela minha vida que vi a Yuki andando na frente do colégio.
— Tenham um pouco de decência, pelo amor de Deus, estamos no enterro da garota — Luka, o garoto do segundo ano que costumava andar com Kiara, cortou o murmúrio com um sibilo irritado.
Eliza deu um passo trôpego na direção de Ivy. O movimento foi automático, um instinto de sobrevivência da sua mente tentando focar em qualquer outra coisa — em uma fofoca, num fantasma, em qualquer detalhe para fugir do abismo negro daquele esquecimento.
Mas suas pernas falharam. O ar simplesmente parou de entrar em seus pulmões. O peito apertou como se estivesse sendo esmagado por um torno de ferro. O pânico foi avassalador, afundando suas garras em sua garganta. A visão de Eliza escureceu nas bordas, rodopiando junto com as lápides. Ela estava sufocando no meio do ar livre.
— LIZ!!!
Um aperto de alicate fechou-se ao redor de seu antebraço. O tranco físico puxou Eliza para trás, ancorando seu corpo à gravidade com violência. Ela abriu a boca, puxando uma lufada desesperada de oxigênio gelado, tossindo enquanto a visão clareava.
Anna estava ali.
O rosto da garota loira estava a poucos centímetros do seu, iluminado por um sorriso tão largo e radiante que doía os olhos. Era uma expressão grotescamente deslocada para a morbidez de um cemitério, um contraste gritante contra a atmosfera fúnebre. Mas, naquele exato segundo, aquele sorriso era a única âncora real que impedia Eliza de cair no poço frio da loucura.
— Anna, eu... — Eliza tentou falar, a voz engasgando num soluço.
— Espera, calma, shhh! Eu sei o que você vai falar, eu sei que não deveria fazer isso num lugar assim, mas é sério e super urgente! Você não vai acreditar no que eu acabei de ver! Vem logo! — Anna tagarelou a mil por hora.
Sua voz aguda e vibrante quebrou a tensão estática do ar, ignorando sumariamente as presenças de Uzumaki e Katsuragi, que apenas a encararam com olhos mortos por um segundo antes de voltarem ao seu silêncio de estátua. Antes que Eliza pudesse processar o respiro, ou sequer articular uma única sílaba em resposta, Anna a puxou. E puxou com força.
Apesar da confusão nublando sua mente, Eliza não resistiu. Uma parte profunda e instintiva dela agradecia silenciosamente por ser arrastada dali. Se ficasse mais um minuto olhando para aqueles trezentos rostos idênticos, sentia que sua mente iria estilhaçar.
Ela cambaleou, as botas arrastando na lama, sendo levada por Anna como uma boneca de pano em direção à trilha de asfalto que levava aos grandes portões de ferro. O peito de Eliza ainda subia e descia freneticamente. Ela fechou os olhos, a chuva batendo em suas pálpebras, e respirou fundo pelo nariz, contando as batidas do próprio coração na tentativa desesperada de calar o terror que agora morava dentro dela.
Parte 3
As botas de Eliza arrastavam-se pesadamente sobre o asfalto encharcado; cada passo exigia um esforço que seus músculos exaustos mal podiam realizar. A vertigem fazia o mundo girar em espirais cinzentas. A chuva continuava a lavar seu rosto, gelada e implacável, mas aquele frio externo era ínfimo comparado à geleira que havia se instalado em seu estômago após conversar com Uzumaki. O mundo ao seu redor parecia ter se transformado em uma pintura a óleo barata, onde a tinta começava a rachar e descascar, revelando um vazio podre por trás da tela.
— Anna, para... — Eliza ofegou, tentando debilmente livrar o braço da garra firme da amiga. — A Yuki... O Uzumaki falou que...
— Esquece a depressão do garoto emo por um segundo, Liz! Olha para lá! — Anna a cortou, a voz aguda vibrando com aquela mesma efervescência fofoqueira de sempre. Ela freou de solavanco e apontou para a lateral dos imensos portões de ferro forjado do cemitério.
O cérebro de Eliza lutou para focar através da cortina d'água. Ali, abrigados sob a cúpula de folhas densas e úmidas de um antigo chorão, estavam Kiara e Dante.
De longe, para os olhos destreinados de qualquer aluno de Morpheus, a cena parecia o clímax perfeitamente coreografado de um romance proibido. O forasteiro, com sua jaqueta de couro escura absorvendo a umidade, estava escorado de forma relaxada contra o tronco largo da árvore. A Presidente do Conselho estava parada a menos de um passo de distância, invadindo o espaço pessoal dele. Eles se encaravam sob os pingos ralos que venciam as folhas, trocando sorrisos afiados e magnéticos, envoltos em uma eletricidade tão densa que fazia o próprio ar crepitar.
Mas, de perto, a melodia daquela interação era outra. Não havia flerte ali; era um interrogatório cirúrgico disfarçado de sedução. Um jogo letal de gato e rato, onde ambos mostravam os dentes e qualquer deslize custaria a jugular.
— Confesso que estou surpresa, turista — Kiara murmurou. A voz dela era um veludo escuro, quase um ronronar perigoso. Ela cruzou os braços lentamente, inclinando o tronco na direção dele. — Uma moto barulhenta, um histórico de quebra de regras logo no primeiro dia... e, no segundo, você me aparece no funeral de duas garotas das quais aposto que você não sabia nem os nomes. O que te traz ao cemitério? Um coração mole escondido embaixo dessa jaqueta de couro?
Dante soltou uma risada nasalada, cínica e baixa, sem recuar um milímetro. Seus olhos bicolores varreram o rosto esculpido da Presidente, descendo demoradamente para os lábios dela antes de voltarem a cravar em suas íris.
— Digamos que eu tenho um faro muito afiado para problemas, Kiara. E, desde que botei os pés em Morpheus, a única coisa que tenho sentido é cheiro de sangue fresco e de segredos mal enterrados.
O sorriso de Kiara se alargou, perdendo a polidez e tornando-se puramente predatório. Ela descruzou os braços com fluidez e espalmou uma das mãos delicadas na casca áspera da árvore, bem ao lado da cabeça de Dante. O movimento encurralou o forasteiro contra o tronco, fechando a armadilha.
— Segredos? Que romântico. E você veio procurar pistas na lama? Cuidado. As pessoas nesta cidade não gostam de forasteiros que cavam fundo demais no quintal dos outros.
Dante não piscou. A atração gravitacional entre os dois polos opostos era visceral, mas ele não se deixou intimidar. Em vez de empurrar o braço que o prendia, ele retribuiu a invasão de espaço, inclinando a cabeça para o lado até quase roçar no rosto dela.
— Eu não estou cavando nada, Presidente. Eu só estou lendo as manchetes. Duas garotas mortas no mesmo dia. Um ataque de lobos na rodovia e um "acidente" bizarro num corredor trancado. Você não acha que a coordenação foi rápida demais em lavar o chão com cândida e limpar as mesas da sala? Ou... talvez o Comitê Estudantil tenha apenas esquecido de soltar um memorando sobre o tal "incidente".
A palavra pairou no ar úmido, pesada como chumbo. Incidente. Kiara piscou lentamente. A máscara de confiança inabalável não rachou, mas os olhos dela endureceram, brilhando com puro cálculo aritmético. Ele estava testando-a. Sondando suas defesas.
— Memória curta ou imaginação longa demais, Dante? — ela rebateu, a voz baixando para um sussurro provocante que roçou o queixo dele. — O que aconteceu foi uma tragédia. Nada além disso. Morpheus é um lugar perfeitamente seguro. A não ser, é claro, que você esteja procurando motivos para se envolver em coisas que não lhe dizem respeito.
Dante abriu um sorriso de canto. Com um movimento deliberadamente lento, deslizou a mão para o bolso da calça e puxou um pesado relógio de bolso de prata antiga. A corrente metálica tilintou contra a fivela do cinto, um som solitário sob a chuva. Ele brincou com o objeto entre os dedos ágeis, girando-o diante dos olhos atentos de Kiara. O fecho cedeu com um clique seco. A tampa do relógio saltou, revelando o mostrador opaco e, colada na tampa interna, uma fotografia em preto e branco com as bordas desgastadas.
Era o rosto de uma garota de feições nobres, com um sorriso gentil e tragicamente triste. Nero. A prima que o criou como mãe e irmã, a única pessoa que o amou incondicionalmente. A garota que havia sangrado até a morte para salvá-lo. Dante fingiu verificar as horas, mas toda a sua atenção estava cravada nas pupilas de Kiara. Ele buscava o menor tremor, a mais fina contração muscular ao ver aquele rosto.
Nada. A expressão da Presidente não oscilou um grau sequer. Não houve reconhecimento, nem o recuo instintivo da culpa ou a mais vaga faísca de memória. Havia apenas a curiosidade educada e o desdém de uma garota rica olhando para a foto de uma plebeia qualquer.
O cérebro de Dante processou o dado: Ela realmente não sabe quem ela é... Será que ela não está envolvida nisso?
— É um belo relógio — Kiara comentou, quebrando o silêncio com um tédio luxuoso. — Herança de família? Ou você o roubou na última cidade pacata que destruiu antes de vir para cá?
Dante engoliu a frustração amarga e fechou a tampa com um estalo alto. — Mais ou menos isso. Lembrança de alguém que não teve a sorte de viver no seu paraíso blindado, Presidente.
A quinze metros de distância, parcialmente escondida pelo tronco de outro chorão, a respiração de Eliza simplesmente falhou. Ela não conseguia ouvir as palavras, mas via a proximidade, o sorriso da irmã e o olhar intenso de Dante. O que a esmagou, porém, foi a granada que detonou dentro de sua própria cabeça.
Uma pontada aguda e brutal perfurou o centro de seu crânio, arrancando um gemido rouco. Eram vozes. Altas, estridentes e desesperadas, gritando em estéreo contra as paredes de sua mente:
«Não! Não faz isso comigo! O Dante é meu! Ele prometeu que voltaria para mim! Ele disse que ficaria ao meu lado! Tira a mão dele!»
A voz soava idêntica à de Eliza, mas transbordava uma possessividade desesperada. Logo em seguida, uma segunda voz colidiu com a primeira:
«Não... Por favor, não... Deixa eles em paz... Eu só quero que a Kiara seja feliz. Eu não quero que ela sofra nunca mais... Ela já perdeu tanto. Se ele pode fazê-la sorrir... deixa eles.»
— Parem... Parem com isso... — Eliza ofegou, cravando as unhas nas próprias têmporas, arranhando a pele enquanto a visão escurecia.
A cacofonia emocional era um liquidificador psíquico a triturando de dentro para fora. Ambas as vozes eram dela. Ambos os sentimentos eram reais. A dor obliterou seu equilíbrio. Os joelhos de Eliza cederam, dobrando-se violentamente contra o asfalto encharcado. Ela despencou para frente, as palmas das mãos arranhando as pedras molhadas.
— LIZ!
As mãos de Anna dispararam, agarrando-a. O som do baque e o grito abafado não passaram despercebidos pelos dois sob a árvore. Kiara e Dante viraram os rostos simultaneamente. A dança de flerte mortífero evaporou.
Kiara desvencilhou-se do tronco, os olhos arregalados. A máscara da Presidente implacável sumiu; em seu lugar, emergiu a preocupação genuína de uma irmã mais velha. Ela correu pelo asfalto, os saltos batendo forte, esquecendo a própria elegância. Dante a seguiu em silêncio absoluto.
— Eliza! O que foi?! — Kiara despencou de joelhos na poça de água suja, sujando o casaco caro. Suas mãos frias seguraram o rosto pálido da irmã. — Você está branca como papel. O que aconteceu?
— O enterro... o Uzumaki... as caras... deles... — Eliza balbuciou, flutuando na beira do delírio. — Dói... a minha cabeça dói tanto, Kia...
O rosto de Kiara endureceu, transformando-se em uma muralha. — Está bem, está bem, shh. Não fala mais nada. Anna, me ajuda a levantá-la. Isso tudo foi demais para ela. Eu vou levá-la para casa. Agora.
Dante permanecia de pé, observando a garota de cabelos magenta. Ele sabia identificar um trauma psicossomático; aquilo não era apenas uma queda de pressão. Aquela garota esconde alguma coisa. Ou sabe de algo.
— O nosso papo acaba aqui, Dante — Kiara disparou, retomando as rédeas do poder com um tom frio. — Não me procure hoje.
Ela deu as costas a ele, conduzindo Eliza em direção à saída. O mundo ao redor de Eliza começou a se dissolver em um zumbido distante. A última imagem que seu cérebro capturou, antes da escuridão misericordiosa do desmaio, foi a figura solitária de Dante sob a chuva pesada, observando-as com um olhar completamente ilegível.
Parte 4
CRASH!
O som agudo de vidro grosso explodindo contra os tijolos descascados rasgou o ruído denso da tempestade, que fuzilava o telhado de zinco da velha garagem.
Longe do gramado impecável do cemitério, longe da multidão silenciosa e ensaiada, nos fundos da modesta casa da Tia Rum, o luto não era uma peça de teatro encenada por bonecos de cera. O luto ali era feio. Era barulhento, quente, sujo e sangrento.
Vav arfava violentamente, os pulmões queimando enquanto o peito subia e descia em solavancos. As mechas de seus cabelos bicolores estavam coladas à testa pelo suor frio. Lágrimas grossas, reais e carregadas de um desespero primitivo, rasgavam caminhos limpos através da camada de fuligem, graxa e maquiagem preta borrada em seu rosto.
Com as mãos trêmulas, ela agarrou o gargalo de uma pesada garrafa de licor vazia sobre a bancada de ferramentas. Um grito gutural, que mais parecia o urro de um animal ferido, arranhou suas cordas vocais enquanto ela girava o tronco e arremessava a garrafa com força cega contra a parede.
O vidro estilhaçou em uma chuva de fragmentos cintilantes, juntando-se ao verdadeiro cemitério de destroços que ela havia criado nos últimos vinte minutos. Caixas de madeira rachadas, faróis de carros velhos estilhaçados, prateleiras de lata amassadas — tudo jazia destruído no chão de cimento.
O ar acabou. Os joelhos de Vav cederam. Ela despencou no centro daquele caos, cravando as unhas sujas no tecido rasgado da própria calça. A dor em seu peito era tão massiva, tão física, que a impedia de respirar. O vazio que Uzumaki alegara sentir não era um conceito abstrato para Vav; era um buraco negro pulsante, sugando seus órgãos e estilhaçando sua sanidade de dentro para fora.
Laeticia. A única pessoa na maldita e perfeita cidade de Morpheus que nunca a olhou com repulsa. A garota certinha, de sorriso gentil, que ria de suas piadas sujas, que nunca a julgou por cheirar a cigarro barato e que enxergava muito além da fachada de delinquente raivosa que Vav usava como escudo para sobreviver.
E agora ela estava morta. Enfiada em uma caixa de madeira sob a lama. Esfaqueada? Atropelada? Devorada? A polícia inútil sequer conseguia alinhar uma mentira coerente.
— Droga... Droga! Por que você, Let?! — Vav soluçou, batendo o punho fechado contra o chão áspero de cimento, esfolando a pele dos próprios nós dos dedos até o sangue vivo brotar.
O lamento dela foi interrompido pelo rangido agudo das dobradiças enferrujadas. A porta de metal da garagem abriu-se lentamente, arrastando no chão. Mas Vav não parou de chorar. A silhueta que parou no batente era a personificação absoluta do contraste.
Teth vestia um terno preto de alfaiataria impecável. O guarda-chuva fechado pingava água ritmicamente ao seu lado, sem molhar o tecido escuro. O irmão gêmeo de Vav exibia uma postura ereta, inabalável. Sua expressão era tão plácida, polida e estoica que seu rosto parecia ter sido esculpido em mármore de gelo. Ele era a simetria e a ordem; ela era a ruína e o caos.
Teth não arregalou os olhos diante da destruição. Ele não recuou um milímetro. Seus olhos bicolores — o espelho perfeito e assustador dos olhos da irmã — varreram a sala em uma análise puramente clínica, calculando os danos antes de finalmente pousarem na garota encoligda entre os cacos de vidro.
— A desordem neste cômodo já excedeu qualquer parâmetro aceitável, Vav — a voz de Teth soou no ar úmido, nivelada e monocórdica. Não havia a menor oscilação de pânico. Nenhuma gota de tristeza. — Destruir o patrimônio da Tia Rum não vai reverter o evento que ocorreu com a Laeticia.
A racionalidade cirúrgica do irmão foi como um galão de gasolina atirado contra uma fogueira.
Vav ergueu a cabeça de supetão. Os olhos dela ardiam, vermelhos de choro e injetados de puro ódio. Ela se levantou cambaleando, ignorando os cacos de vidro que grudaram e cortaram a pele de seus joelhos, e marchou na direção de Teth. Suas mãos sujas e ensanguentadas espalmaram contra o peito dele em um empurrão violento.
— Vai para o inferno com a sua lógica de merda, Teth! — ela rosnou, a voz rouca falhando, cuspindo as palavras na cara dele. Empurrou-o de novo, com mais força, mas o garoto mal oscilou. Ele absorveu o impacto como uma estátua fincada no chão. — Fatos?! A minha melhor amiga morreu! A única pessoa que não me tratava como a ovelha negra, a escória dessa família! E você vem aqui falar de bagunça?!
Teth não levantou as mãos para se defender. Ele aceitou os empurrões repetidos, com a expressão completamente inalterada, observando o colapso da irmã com a frieza de um cientista anotando dados.
— Entendo. Então você está apenas usando a morte dela como um pretexto para justificar sua raiva acumulada e o seu desgosto por como as pessoas a tratam. Que patético — Teth rebateu. A voz era didática, mas cada palavra era um corte de bisturi. — A polícia assumiu o caso. O sistema de Morpheus vai lidar com isso. Diferente de você, que finge se importar com a morte dela, mas, no fundo, só estava procurando uma desculpa inflamável para o seu vandalismo crônico.
Aquelas palavras trituraram o último fio de sanidade que mantinha Vav de pé.
Com um grito estrangulado, ela agarrou as lapelas do terno imaculado do irmão. Cravou os dedos ensanguentados no tecido caro, puxando Teth para baixo com brutalidade até que os rostos dos dois ficassem a centímetros de distância, respiração contra respiração.
— Você não sente absolutamente nada, não é?! — Vav gritou, as lágrimas quentes transbordando e pingando de seu queixo. — Você é a porra de um robô! O filho perfeitinho, o aluno de ouro, a máquina que nunca sai da porra do roteiro! Eu olhei para você naquele cemitério! Todo mundo lá parecendo um bando de manequins de vitrine baratos! Ninguém chorou! Ninguém gritou! Que tipo de aberração doente você é para não derramar uma única lágrima no enterro de alguém que sentava na nossa mesa todo santo dia?!
Ela o empurrou para longe com nojo, soltando o terno como se ele queimasse. Vav tropeçou para trás, abraçando o próprio estômago enquanto a exaustão da tristeza crua finalmente substituía a raiva, dobrando seu corpo ao meio.
— Você não entende... — Vav choramingou, o olhar caindo para o chão sujo, a voz reduzida a um fio quebrado. — Você não faz ideia de como isso dói.
Teth permaneceu em silêncio absoluto. Apenas o barulho da chuva preenchia o abismo entre eles.
O peito de seu terno estava arruinado. As marcas das mãos de Vav haviam deixado grossas manchas de sangue fresco no tecido escuro, um detalhe grotesco e vívido cravado em sua aparência de porcelana. Teth abaixou o olhar de forma mecânica. Analisou a mancha vermelha por longos segundos. Quando voltou a erguer o rosto para fitar os olhos marejados da irmã, algo havia mudado.
Lentamente, a postura rígida de Teth pareceu ceder uma microscópica fração de milímetro. A máscara de mármore não se quebrou, mas uma sombra pesada — um brilho perigoso, letal e calculista — cruzou a imensidão bicolor de suas íris.
— Você tem razão, Vav — Teth respondeu. A voz havia perdido o tom professoral, baixando para um sussurro grave e cortante que ecoou por cima do temporal lá fora. — Eu não entendo. Minha mente não consegue processar o que você está sentindo agora.
Ele deu um passo à frente. O solado de seu sapato social lustrado esmagou um caco de vidro grosso contra o cimento. O som do crunch ecoou afiado pelo ar.
— Mas se você tem tanta energia para desperdiçar fazendo bagunça em uma garagem... — Teth estreitou os olhos, a frieza dando lugar a uma letalidade silenciosa. — ...deveria usar isso para encontrar o verdadeiro responsável. E fazer alguma coisa de verdade a respeito.
Vav paralisou. O soluço morreu em sua garganta, preso no meio do caminho. Teth não acreditava no laudo policial. A estátua perfeita de Morpheus não apenas enxergava as rachaduras do sistema... ele queria quebrá-lo.
Naquela garagem fria e úmida, cercada por destroços e silêncio, Vav permaneceu de pé, ofegante, encarando o irmão com olhos recém-abertos. O luto havia acabado de se transformar em um alvo.
Parte 5
O som da chuva torrencial fuzilava as gigantescas janelas de vidro do escritório da Diretoria; a água escorria em rios frenéticos que distorciam as luzes da cidade de Morpheus lá fora. Lá dentro, a penumbra não era falta de energia; era intencional. O único foco de luz nascia de um abajur de mogno polido sobre a mesa principal, banhando a Diretora Irene — com seus característicos suspensórios escuros sobre a camisa clara — em um brilho frio, recortado e teatral.
Ela segurava o bocal do telefone contra a orelha com uma elegância letal, recostada na cadeira de couro maciço. Do outro lado da linha, a voz da Prefeita Isobel vazava pelo alto-falante, aguda, tensa e beirando o colapso nervoso.
— Irene, isso não é certo. Um único dia de luto não é o bastante. O clima está horrível, as pessoas estão apavoradas! Nós deveríamos adiar o retorno das aulas por pelo menos uma semana, até a polícia limpar essa sujeira.
Irene não franziu a testa. O rosto dela permaneceu uma tela em branco, mas seus lábios, pintados de um carmesim profundo, se curvaram em um sorriso indulgente e aveludado. Quando ela falou, a voz deslizou pela linha telefônica como mel escorrendo sobre vidro quebrado.
— Eu compreendo perfeitamente o seu coração, Isobel. Como mãe, seu instinto mais primitivo é trancar as portas, abaixar as persianas e abraçar as suas meninas. E isso é louvável. — Irene modulou o tom. A voz tornou-se um sussurro suave, quase hipnótico, plantando a semente da dúvida com a destreza de uma neurocirurgiã: — Mas olhe para o tabuleiro político. Fechar a universidade por uma semana não traz paz; traz histeria coletiva. É uma admissão oficial de fraqueza. Se você abaixar as portas do campus, a mídia cai matando. O pânico se instala nas ruas. As pessoas vão começar a questionar se a Prefeita ainda tem o controle da própria cidade... Claro, no final a decisão é sua, mas... você realmente quer isso no seu colo, Isobel?
Houve um longo e pesado silêncio do outro lado da linha. Pelo chiado da estática, Irene quase podia ouvir as engrenagens da manipulação girando perfeitamente na mente da Prefeita, triturando seus instintos maternos exatamente como havia arquitetado.
— Você... você tem razão — Isobel finalmente cedeu, o tom de voz murchando, derrotado pelo peso do xadrez político. — A histeria seria pior. Manter a rotina é manter a ordem. As aulas voltam amanhã.
— A escolha de uma verdadeira líder, querida. Tenha uma boa noite.
Irene colocou o telefone no gancho. O clique seco cortou o ar. No exato segundo em que o plástico tocou a base, o sorriso doce e compreensivo desapareceu de seu rosto, derretendo como cera e sendo instantaneamente substituído pela máscara de indiferença glacial que lhe era característica.
Ela ergueu o queixo, os olhos vermelhos brilhando perigosamente na meia-luz enquanto varriam as sombras de seu escritório, onde duas figuras aguardavam em silêncio absoluto.
A Policial Satan, com sua musculatura massiva esticando as costuras do uniforme tático escuro, estava de braços cruzados perto da estante de livros. Cada respiração sua parecia ocupar espaço na sala. Ao lado dela, a Detetive Rum apoiava-se contra a parede de carvalho, a prancheta de metal apertada contra o peito. O único olho bom da detetive estava cravado na diretora, faiscando impaciência.
— A política foi devidamente contornada — Irene declarou, entrelaçando os dedos finos e enluvados sobre a mesa de mogno. — Agora, aos fatos. Já conseguiram descobrir algo substancial sobre o abate da aluna Yuki?
Rum desencostou da parede com um solavanco, a expressão cínica e profissional não conseguindo esconder uma frustração amarga. — Absolutamente nada. O motivo é um buraco negro. É bizarro, Diretora. Por que diabos eles escolheriam matá-la daquela forma? Não faz o menor sentido tático ou passional.
Satan soltou um grunhido grave que retumbou no peito, a voz preenchendo o escritório silencioso como o rosnado de um motor pesado. — Poderia ser um erro de cálculo. Uma confusão de identidade na escuridão. O alvo era outro e a garota simplesmente estava no lugar errado, na hora errada.
Irene levantou-se da cadeira de couro de forma fluida. Caminhou a passos mudos, como um felino, até a imensa janela banhada pela tempestade. Ela olhou para a cidade escura, as gotas de chuva refletindo em seu rosto pálido.
— Eu duvido severamente disso. A precisão do golpe e a limpeza do cenário não cheiram a amadorismo. Mas... — Irene estreitou os olhos escarlates. Os estranhos desenhos de fechaduras cravados em suas pupilas pareceram girar sutilmente contra a luz da cidade. — Se eles estão começando a matar de forma aleatória, sem um padrão lógico que possamos rastrear, a situação se torna infinitamente mais perigosa.
Rum deu um passo ríspido à frente, o couro do sapato rangendo, e puxou um documento da prancheta. — E nós temos a confirmação de que eles não são nem um pouco amadores. O laudo pericial do carro da Laeticia acabou de chegar. Aquele pneu não estourou porque ela passou por cima de um prego ou de uma pedra na rodovia. A borracha e a malha de aço interna foram rasgadas cirurgicamente, em movimento, por um equipamento de corte de alta precisão. E o golpe na cabeça dela? Trajeto cinético perfeito. O ângulo exato para desligar o cérebro antes que ela pudesse sequer piscar. Não deixaram uma única digital na lataria. Nem um fio de cabelo no asfalto. Foi uma execução fantasma.
A detetive calejada bateu a ponta da caneta contra a prancheta e cravou o olho bom na diretora, a tensão transbordando de sua postura. — Diante desses fatos, Diretora, eu volto a questionar sua ligação com a Prefeita: é mesmo a escolha mais brilhante manter essa escola aberta e socar milhares de alvos em potencial dentro das salas de aula amanhã de manhã?
Irene virou o rosto lentamente, afastando-se da janela. O sorriso predatório voltou a desenhar seus lábios escuros, cortante e absoluto.
— É precisamente por isso que as portas continuarão abertas, Detetive Rum. Fechar o campus é admitir para os assassinos que nós estamos com medo. É dar a eles a chance de recuar e se dispersar nas sombras. — Ela caminhou de volta para a mesa, os saltos clicando suavemente no tapete, a voz fria ditando as regras de seu próprio tabuleiro. — Ao forçar a rotina, nós obrigamos os alunos a virem. Se o assassino for um deles, ou se estiver usando a escola como seu campo de caça particular, ele terá que continuar atuando sob os nossos holofotes. O melhor jeito de achar o rato que está envenenando a casa não é desligando a luz e saindo; é jogar o queijo no meio da sala e observar, pacientemente, quem morde primeiro.
Rum absorveu a lógica implacável e fria. A detetive engoliu em seco, os ombros cedendo um pouco, e assentiu devagar. — Entendido. Mas temos um problema novo e indigesto para adicionar a essa equação de xadrez. Sobre a Yuki.
Irene parou de costas para a mesa. Ergueu uma sobrancelha, esperando.
— A aluna Ivy esteve soltando a língua pelo cemitério — Rum explicou, o tom de voz beirando a descrença perante o absurdo da situação. — Estão rolando boatos pesados de que ela jurou, de pés juntos, ter visto a Yuki andando pelos corredores da escola hoje de manhã.
O silêncio engoliu o ar do escritório. O som da chuva pareceu bater com muito mais violência contra o vidro panorâmico, como se a própria tempestade quisesse invadir a sala. Uma garota com a carótida brutalmente perfurada, esvaziada de seu sangue no chão de cimento... sendo vista caminhando, inteira, pelo campus na manhã seguinte.
Irene virou a cabeça e olhou novamente para as gotas de chuva que distorciam o vidro. Seu rosto tornou-se uma máscara inescrutável de pura estática.
— Investigue essa garota, Rum. Pressione a Ivy até que ela chore, se for preciso — Irene ordenou, a voz caindo uma oitava. — Eu quero a confirmação imediata se isso é apenas uma fofoca patética de uma adolescente desesperada por atenção, ou se ela realmente viu a defunta caminhando sob o sol.
Rum apertou a prancheta, os ombros subindo em uma tensão contida. — E se for o caso, Diretora? E se ela não estiver mentindo e realmente tiver visto algo que não devia estar lá?
Irene caminhou graciosamente até a parede próxima à porta e pegou seu longo guarda-chuva de tecido vermelho-sangue que repousava no suporte. Ela o apoiou sobre o ombro nu com uma indiferença capaz de congelar a água da chuva. Antes de girar a maçaneta para sair, ela parou no batente da porta e olhou por cima do ombro para a detetive veterana.
— Faça-me o favor, Detetive — Irene murmurou. O tom era macio, mas seus olhos vermelhos estavam assustadoramente vazios de qualquer resquício de humanidade. — Você já deveria saber exatamente o que fazer com vazamentos.
A pesada porta de carvalho bateu com um clique final, trancando Satan e Rum sozinhas na penumbra fria do escritório, cercadas apenas pelo som da tempestade e pelo peso esmagador do que precisaria ser feito.
Parte 6
O som rítmico e insistente contra a vidraça arrancou Eliza de um sono raso, afogando os últimos fragmentos de um pesadelo que ela não conseguia lembrar, mas que ainda fazia suas mãos tremerem.
Ela abriu os olhos de supetão, o peito subindo e descendo no quarto mergulhado em sombras. O peso da véspera — a bizarrice do funeral, a apatia plástica moldada nos rostos da multidão, a dor lancinante que havia partido seu crânio ao meio — desabou sobre seus ombros no exato segundo em que a consciência voltou.
Mas, diferente de todas as outras manhãs de sua vida, Eliza não se encolheu sob os lençóis. A letargia confortável que costumava anestesiar sua mente naquela cidade de porcelana havia evaporado. Havia algo terrivelmente doente em Morpheus. Algo apodrecendo sob o asfalto limpo, e ela se recusava veementemente a continuar sendo apenas mais um manequim cego na vitrine, esperando a própria vez de sangrar.
Tac. Tac.
O barulho seco na janela soou de novo, cortando o silêncio do quarto. O coração de Eliza deu um salto violento contra as costelas. Ela jogou o edredom pesado para o lado e correu descalça pelo assoalho frio, os dedos agarrando o tecido da cortina. Puxou o pano de supetão, o corpo tenso, esperando dar de cara com os olhos amarelos e brilhantes do gato fantasma ou com mais um bilhete enigmático de "Schrödinger" colado no vidro.
Não havia gato. Não havia papel. Eram apenas gotas grossas e pesadas de água esmurrando a vidraça.
Eliza franziu a testa, espalmando a mão contra o vidro gelado. Chovia lá fora. Uma chuva cinzenta, densa e melancólica que engolia a silhueta dos prédios. O arrepio que subiu pelos braços dela não foi causado pela temperatura, mas por uma constatação bizarra que fez seu estômago afundar: em toda a sua vida, o clima de Morpheus sempre fora milimetricamente domado. Uma tempestade passageira era normal, mas chover sem parar por dois dias seguidos? O céu daquela cidade perfeita nunca havia sustentado um teto de nuvens escuras por tanto tempo. Era como se a própria redoma do mundo estivesse rachando.
Quarenta minutos depois, Eliza estava sentada no banco de couro macio e escuro da limusine da família. Observava distraidamente as gotas escorrerem pelo vidro fumê, enquanto o veículo maciço deslizava de forma fantasmagórica e silenciosa em direção à universidade.
Sentada de frente para ela, o cheiro forte de grãos torrados preenchia o ambiente fechado. Kiara bebericava um expresso curto em uma xícara de porcelana, as pernas longas perfeitamente cruzadas e a postura de realeza inabalável. Mas o olhar da Presidente do Conselho por cima da borda da xícara estava cravado na irmã. Afiado, calculista e implacável.
— Você ainda não me explicou o que foi aquele showzinho patético ontem no cemitério — Kiara disparou. A voz aveludada cortou o silêncio do carro com a sutileza de um tiro com silenciador. — Você simplesmente desabou na lama, branca como cera, segurando a própria cabeça como se estivesse tendo um aneurisma no meio de um funeral. O que aconteceu, Eliza?
Eliza engoliu em seco, desviando o olhar para as próprias mãos unidas no colo. Ela não podia falar sobre as vozes. Não podia explicar a cacofonia mental ou o ciúme irracional, doentio e contraditório que pareceu rasgar sua alma em duas metades.
— Eu não sei, Kiara. Foi só... a tensão. O enterro duplo, o clima horrível. Minha pressão deve ter caído.
Kiara estreitou os olhos escuros, abaixando a xícara lentamente até o pires pousado no apoio de braço.
— Certo. Pressão baixa. E eu suponho que essa sua "tensão" perfeitamente cronometrada não tenha absolutamente nada a ver com o fato de você ter tido um surto histérico no exato segundo depois de me ver conversando com aquele forasteiro?
O sangue subiu pelo pescoço de Eliza, fazendo seu rosto ferver instantaneamente.
— O-O quê?! Claro que não! Por que teria?!
— Eu não sei, Liz. Me diga você. — Kiara inclinou o tronco para frente, invadindo o espaço da irmã, um sorriso provocador e venenoso desenhando os lábios. — Qual é exatamente a sua relação com o Dante, hein? Porque, para alguém que diz mal conhecer o garoto, você pareceu ter uma crise de ciúmes bem possessiva e violenta quando me viu encurralando ele numa árvore.
— Eu não tive crise de ciúmes nenhuma! — Eliza rebateu, a voz subindo uma oitava, quebrando o silêncio isolado do carro. Ela cruzou os braços defensivamente, afundando no couro do banco para se afastar da irmã. — Eu só chamei ele para sair no primeiro dia para provar um ponto. E adivinha? O mundo não gira ao redor do seu umbigo!
Kiara soltou uma risada baixa e anasalada, mas o som durou pouco. A expressão presunçosa de manipuladora amoleceu, derretendo-se em algo muito mais raro. O olhar da irmã mais velha tornou-se surpreendentemente sério, pesado e carregado de uma proteção crua e instintiva.
— Liz... escuta. — Kiara suspirou, o tom perdendo toda a acidez venenosa de costume. — Você sabe que eu adoro te provocar, mas eu não sou cega. Aquele garoto... ele não é como os idiotas engomados e previsíveis do nosso campus. Ele tem cheiro de pólvora. Ele é um problema ambulante. Eu só... — Kiara hesitou por um milésimo de segundo, endireitando a postura. — Eu não quero que nada de ruim aconteça com você, ok? Se ele te machucar, ou se tentar dar uma de espertinho, eu mesma quebro as duas pernas dele.
Eliza piscou, pega totalmente de surpresa pela franqueza. Sob toda aquela casca de garota rebelde e Presidente tirânica, Kiara era, em seu núcleo mais profundo, a irmã mais velha que mataria e morreria para mantê-la segura. O constrangimento cedeu espaço a um calor afetuoso. Eliza relaxou os ombros e recostou a cabeça no vidro frio da janela, um sorriso tímido e verdadeiro despontando no rosto.
— Eu sei disso, Kia. Não precisa se preocupar. Eu sei me cuidar.
A limusine parou suavemente em frente aos imponentes portões da universidade. No momento em que o motorista desligou a ignição, duas empregadas da mansão Lighthart desceram dos bancos da frente. Sob a chuva castigante, elas abriram as portas traseiras em perfeita sincronia militar, erguendo dois enormes guarda-chuvas pretos para formar um corredor seco.
Mas antes mesmo que os sapatos de Eliza tocassem o asfalto úmido, um furacão loiro invadiu o espaço.
— Liiiiiz! Pelo amor de Deus, me perdoa! — Anna grudou nela como um carrapato. As mãos da garota apertaram os ombros de Eliza com força, o rosto torcido em uma expressão de puro arrependimento.
Kiara pisou fora do carro, o guarda-chuva da empregada acompanhando seus movimentos. Ela revirou os olhos e ajeitou a alça da mochila de grife no ombro.
— Bom, já vi que a creche está armada e em pleno funcionamento. Vou indo para a sala do Comitê. Cuidado por aí, Liz.
Kiara não esperou resposta; começou a caminhar em direção ao prédio principal, abrindo caminho pelo mar de alunos que se afastavam com olhares reverentes. Eliza voltou a atenção para Anna.
— Eu não achei que você ficaria tão mal ontem no enterro! — Anna disparou, a voz esganiçada atropelando as palavras. — Se eu soubesse que você estava surtando de verdade, eu não teria te puxado daquele jeito! Fui muito insensível, me desculpa! Eu sou a pior amiga do mundo!
Eliza suspirou. Um sorriso gentil quebrou a tensão de seu rosto.
— Ei, Anna. Respira. Para com isso, não foi culpa sua. Eu conheço você melhor do que ninguém. — Eliza a olhou com ternura, mas com um novo brilho de clareza analítica. — Eu sei exatamente o que você tentou fazer lá. Toda vez que as coisas ficam ruins, você aparece do nada com uma fofoca boba. Você me puxou daquele túmulo ontem porque queria me distrair da tristeza da Yuki. Você sempre esteve lá para ser o meu respiro cômico quando eu precisava de ar... eu nunca conseguiria ficar com raiva de você por tentar me salvar.
Os olhos azuis de Anna arregalaram-se. Uma emoção complexa e vulnerável brilhou neles, passando rápido demais para ser totalmente decifrada. A loira fungou ruidosamente e jogou os braços ao redor do pescoço de Eliza em um abraço esmagador.
— Ai, Liz... Eu te amo, sua boba! — Anna murmurou.
— Eu também te amo, Anna. Está tudo bem. — Eliza se afastou devagar. Sua expressão afetuosa endureceu para uma obstinação fria. — Mas... já que você é a minha melhor amiga e fiel escudeira... eu vou precisar da sua ajuda agora.
— Para quê? — Anna piscou, a desconfiança já colorindo seu tom. — Qual é o plano?
— O plano é matar a primeira aula. — Eliza respondeu secamente, varrendo a fachada gótica dos prédios sob a chuva. — Eu não vou entrar naquela sala e fingir que está tudo bem enquanto limpam o sangue da Yuki. Vamos para a biblioteca central. Quero investigar o histórico de "ataques de animais" e acidentes letais em Morpheus na última década. Tem alguma coisa errada nessa cidade, e as respostas devem estar enterradas lá.
Anna soltou um gemido longo de pura agonia juvenil.
— Ahhh, não! Liz, sério?! Biblioteca logo de manhã? Isso tem cheiro de mofo! Por que a gente não vai para a lanchonete comer muffin de mirtilo?
Eliza ergueu uma sobrancelha, um sorriso perigosamente irônico surgindo.
— Ué... cadê a Anna que há exatos três segundos estava quase chorando no meu ombro e dizendo que faria qualquer coisa para se redimir?
Anna travou. Fez um beicinho emburrado e inflou as bochechas.
— Golpe baixo, Eliza Lighthart. Muito baixo.
— Vem logo, escudeira — Eliza riu, segurando o pulso de Anna e puxando-a para a chuva em direção à silhueta escura da biblioteca.
Parte 7
O cheiro denso de papel em decomposição, poeira suspensa e encadernações de couro apodrecido engolia os imensos corredores da Biblioteca Central de Morpheus. O silêncio ali era opressivo, quase sólido, quebrado apenas pelo tamborilar abafado e constante da chuva que açoitava os altos vitrais góticos.
Com um baque surdo que levantou uma nuvem invisível de pó, Eliza depositou uma montanha de pastas pesadas e rolos de microfilme sobre uma mesa maciça de carvalho. Anna parou ao lado dela, cruzando os braços sobre a jaqueta molhada, os lábios projetados em um bico de puro descontentamento.
— Certo. O plano é dividir e conquistar — Eliza sussurrou, ajeitando a própria gola, os olhos já varrendo a escuridão das estantes. — Anna, eu preciso que você afunde nos arquivos da ala leste. Varra todos os registros antigos de "ataques de animais" na região. Precisamos de uma data, de um padrão, de um maldito ponto de partida. Eu vou caçar os casos mais recentes nos jornais locais desta década por aqui.
Anna soltou um suspiro longo, jogando a cabeça para trás em uma agonia teatral.
— De melhor amiga e confidente para estagiária de detetive não remunerada em um porão mofado. A minha vida universitária está um fracasso absoluto. — Ela piscou, a expressão amolecendo para algo mais cúmplice e genuinamente preocupado. — Vê se não surta de novo e some entre as prateleiras, tá? Se o bicho-papão aparecer, você grita que eu venho correndo.
Eliza assentiu com um sorriso fraco. As duas se separaram, engolidas pelo labirinto de estantes de madeira escura que pareciam arranhar o teto. Enquanto caminhava entre as fileiras G e H, seus dedos roçando as lombadas frias dos livros na seção de jornais locais, Eliza diminuiu o passo até parar completamente.
Na penumbra do corredor adjacente, a Professora Saga caminhava. A mulher cega, com sua invariável venda negra cobrindo os olhos, parecia flutuar a centímetros do carpete. Seus movimentos não eram humanos; eram poéticos, dotados de uma graciosidade quase fantasmagórica. Ela deslizava as pontas dos dedos pelas espinhas dos livros, o queixo levemente erguido, como se estivesse escutando atentamente o sussurro contido dentro de cada página fechada.
Eliza prendeu a respiração, hipnotizada pela coreografia da cena.
— Não é muito cortês ficar à espreita, encarando uma jovem dama nas sombras, Senhorita Lighthart.
A voz de Saga soou cristalina e perfeitamente modulada, cortando a penumbra sem que a professora movesse um músculo. Eliza sobressaltou-se, o coração dando um pulo nas costelas. O sangue subiu para suas bochechas em um calor súbito e ela deu um passo hesitante, saindo de seu esconderijo.
— P-Professora Saga! Me desculpe, eu não queria ser indelicada ou assustar a senhora... Espera, como a senhora sabia que era eu? A senhora me viu? Quer dizer, me percebeu?
Saga finalmente virou o rosto na direção de Eliza. Um sorriso calmo, quase etéreo, curvou seus lábios pálidos.
— Quando as portas dos olhos se trancam para o mundo, Eliza, os outros sentidos se escancaram para compensar a escuridão. O som descompassado da sua respiração, a cadência leve e incerta das suas botas, o traço cítrico e tenso do seu perfume... tudo isso pinta um retrato muito nítido e em alta resolução de quem está diante de mim.
A professora abaixou a mão da prateleira, unindo os dedos na altura do ventre com elegância.
— E, falando em cadência, os seus passos soam exatamente como os de alguém que carrega o peso de uma investigação urgente, e não os de uma aluna que está apenas matando aula para fugir para o refeitório. Portanto, respire. Não vou relatar a sua pequena rebelião matinal para a coordenação.
Eliza soltou o ar que prendia, os ombros cedendo em alívio. — Obrigada, professora.
— Não me agradeça. A leitura é uma arte em extinção nesta cidade. A apatia está devorando a curiosidade das pessoas como um parasita. — A venda negra de Saga pareceu focar como uma lente diretamente na alma de Eliza. — Eu aprecio imensamente os jovens que ainda ousam dar uma chance à busca pela verdade.
Eliza sorriu, sentindo o desconforto inicial evaporar. — Bem o esperado de uma professora de História, eu acho. Mas... se me permite a ousadia da pergunta, como a senhora é capaz de ler os arquivos de pesquisa? A biblioteca tem edições em braille de todo o acervo?
O sorriso de Saga aprofundou-se, ganhando um contorno enigmático. Ela deu dois passos silenciosos na direção de Eliza. De repente, a presença esguia da mulher pareceu preencher todo o oxigênio do corredor apertado.
— Você quer descobrir o meu segredo, Eliza?
O coração da garota voltou a acelerar. A proximidade da professora, combinada ao tom aveludado e perigoso de sua voz, criou uma tensão estática no ar. Saga estendeu as duas mãos graciosas e, com precisão cirúrgica, segurou a mão trêmula de Eliza.
O toque de Saga era irreal. Sua pele era feita de gelo puro.
Ela guiou a mão da garota até um livro de capa grossa que repousava aberto sobre um púlpito de leitura. — Feche os olhos — a professora sussurrou.
Eliza obedeceu. Guiada pelos dedos gelados de Saga, ela deslizou as próprias digitais sobre o papel amarelado. Não era braille. Era algo visceralmente diferente. As fibras da folha pareciam ter texturas microscópicas e vivas; era como se a própria tinta negra carregasse um relevo magnético, transmitindo a forma, a emoção e o peso das palavras diretamente para a corrente sanguínea.
— Ah... — Eliza abriu os olhos, maravilhada e sentindo-se genuinamente tola por ter deixado o instinto de sobrevivência gritar achando que era algo sombrio. — Isso é... isso é incrível.
Mas, no momento em que as duas desfizeram o toque, as costas da mão de Saga roçaram acidentalmente na borda dos arquivos e pastas que Eliza mantinha esmagados contra o peito. A professora congelou no lugar.
— Registros de obituários... recortes velhos de perícias policiais... — Saga murmurou. A expressão etérea sumiu, substituída por uma seriedade inescrutável. — Ataques de animais. Um assunto um tanto mórbido para uma aluna em uma manhã de quarta-feira, não acha? Mas suponho que seja o padrão aceitável. Os jovens de hoje estão com as cabeças tão saturadas de ficção que ela acaba vazando para o chão da realidade.
Eliza franziu a testa. O desconforto gelado voltou a se enraizar em seu estômago. — O que a senhora quer dizer com isso?
Saga inclinou a cabeça lentamente. A luz trêmula da lâmpada lançou uma sombra bizarra e distorcida sobre sua venda negra.
— Pense logicamente sobre isso, Eliza. Nos grandes clichês dessas histórias de terror... o que as autoridades sempre dizem quando um monstro drena o sangue de uma vítima na calada da noite? Eles culpam os lobos. Culpam os ursos que desceram as montanhas. Um mero ataque de animal selvagem.
Saga deu um passo lento, circulando Eliza. Sua voz ganhou um eco teatral que pareceu fazer a temperatura do ar despencar.
— O autor da história joga a pista ensanguentada bem na cara dos personagens. É o recurso narrativo perfeito. Os personagens aceitam cegamente a mentira da fera selvagem porque a verdade absoluta sobre o roteiro macabro em que vivem simplesmente os enlouqueceria. Eles não percebem que estão presos nas páginas de um livro, seguindo ordens cegas enquanto o verdadeiro monstro respira o exato mesmo oxigênio que eles.
Eliza travou. A respiração congelou como vidro quebrado em sua garganta. Saga parou atrás dela. Uma mão gentil, fria como a morte, pousou no ombro tenso da garota.
— Mas tenho certeza absoluta de que você é uma leitora muito mais atenta do que a maioria dos seus colegas, não é? Boa sorte na sua pesquisa, querida.
A professora soltou o ombro da garota e afastou-se sem fazer um único ruído, dissolvendo-se nas sombras densas do corredor como se nunca tivesse estado ali. Eliza precisou de longos segundos para forçar o oxigênio de volta aos pulmões. Isso é um pesadelo, ela pensou. Eu estou enlouquecendo junto com esta cidade.
Ela apertou o passo, buscando as mesas de leitura na ala central. Foi lá que a viu.
Sentada sozinha em uma mesa circular imensa, as perninhas balançando no ar, estava Silence. A pequena filha adotiva de Saga não estava lendo; estava debruçada sobre uma enorme folha de papel pardo, com uma caixa de giz de cera espalhada ao seu redor. Ela riscava o papel com uma agressividade e concentração febris.
Tentando ignorar a paranoia da conversa anterior, Eliza caminhou até a mesa.
— Oi, Silence. Desenhando muito hoje?
A garotinha ergueu os olhos escuros, assentiu de forma mecânica e voltou a esmagar o giz contra o papel. Eliza deu a volta na mesa para espiar a arte de cabeça para cima. E, no momento em que suas retinas absorveram a imagem completa... a dor fantasma no centro de seu crânio detonou.
— Argh! — Eliza soltou um arquejo estrangulado e cambaleou para trás.
O desenho não era infantil. No centro da folha, Silence havia desenhado uma Árvore Dourada — colossal e monumental —, cujos galhos retorcidos pareciam rasgar fisicamente as nuvens escuras. Aos pés das raízes, centenas de bonecos de palito. Metade deles pintada de um azul elétrico e radiante; a outra metade, de um vermelho sombrio e coagulado. Era o retrato de uma carnificina. Uma guerra apocalíptica.
Mas o detalhe que sugou o ar de Eliza estava no canto inferior direito: desenhadas com um cuidado discrepante do resto do caos, estavam duas garotinhas de palito, ilhadas no meio do campo de batalha. Uma era azul. A outra era vermelha.
Elas estavam de mãos dadas.
As vozes em estéreo rasgaram sua mente, sobrepondo memórias enevoadas:
«Sonhos... Pesadelos... Morte... A Rainha... A Princesa...»
— O que... o que é isso, Silence? — Eliza perguntou, a voz esganiçada pelo pavor.
Silence não parou.
— É a grande batalha. Dos Sonhos contra os Pesadelos. Todo mundo estava morrendo. O céu quebrou no meio e a Árvore nasceu para engolir as estrelas do mundo.
O estômago de Eliza deu uma cambalhota ácida. — E... quem são estas duas aqui? Estão de mãos dadas?
Silence parou o giz de cera vermelho no ar. Cravou seus olhos imensos na alma de Eliza.
— Não. Romeu e Julieta morrem no final porque são muito bobos e fracos. Elas são duas irmãs. Elas nasceram juntas, na mesma raiz, mas o mundo queria que elas ficassem separadas a qualquer custo.
Um calafrio glacial desceu pela espinha de Eliza. O desenho era um espelho de sua alma.
— Quem te contou isso, Silence?
— Ninguém me contou nada. Eu só lembrei. Foi de um sonho de verdade que eu tive um dia desses.
Tink.
O badalar afiado, metálico e cristalino de um pequeno sino cortou o silêncio. Eliza girou o pescoço de forma brusca.
Miau.
Um eco sombrio, arrastado e gutural, vinha das profundezas do corredor de arquivos restritos. A Seção D. O mesmo gato de "Schrödinger" que a havia levado até Dante. Desta vez, Eliza não hesitou. Disparou em um sprint cego, as botas batendo contra o carpete.
Ela derrapou ao dobrar a esquina do corredor D, ofegante. O ar ali cheirava a mofo velho. As lâmpadas piscavam com falhas elétricas. Ela adentrou as sombras, procurando pelo reflexo de olhos amarelos. Mas, quando virou a quina do último corredor de estantes... ela não encontrou um gato.
A figura em pé ali, banhada pela luz mortiça, não era um monstro de garras afiadas. Mas sua presença era infinitamente mais aterrorizante.
Uzumaki estava parado diante de uma mesa entalhada, coberta de fichas espalhadas. Ele segurava um documento encadernado e amarelado. O semblante gélido do garoto foi iluminado pela luz fraca quando ele lentamente ergueu a cabeça, e seus olhos azuis e mortos encontraram Eliza, paralisada a apenas três metros de distância dele.
Parte 8
O eco metálico do sino fantasma ainda vibrava contra o crânio de Eliza quando ela derrapou ao dobrar a última fileira de estantes da Seção D. Mas a figura que a aguardava no final do corredor não era uma assombração. Era puramente, densamente física.
Aquele era o corredor mais sufocante da biblioteca. Uzumaki estava de pé, banhado apenas pela luz doentia, amarelada e trêmula de uma única lâmpada fluorescente que zumbia no teto. Ele segurava uma pasta de arquivo antiquíssima, com as bordas desgastadas e esfarelando. Seus olhos escuros percorriam as linhas de texto com uma intensidade fria, faminta e cirúrgica.
Eliza parou a três metros de distância. O peito dela arfava violentamente pela corrida; os sapatos rangiam no carpete velho.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou. A voz saiu aguda e arranhou o silêncio proibido da biblioteca, mas ela não se importou. Engoliu em seco, a paranoia injetando uma pergunta absurda em sua língua: — Você... você sabe alguma coisa sobre os "vampiros"?
Uzumaki não sobressaltou. Ele sequer piscou. Sem tirar os olhos do documento envelhecido, ele respondeu:
— Vampiros? — A voz dele saiu arrastada, pesada, destituída da mais absoluta emoção. — De que bobagem infantil você está falando agora, novata?
A resposta seca bateu em Eliza como um soco no estômago. Ela apertou os punhos, sentindo-se instantaneamente estúpida, mas a indignação ferveu mais rápido que a vergonha. — Se é bobagem, então o que você está caçando na seção de arquivos mortos no meio do período de aulas?
Lentamente, Uzumaki abaixou o papel. Ele virou o pescoço na direção dela. A expressão do garoto era uma muralha inescrutável, mas seus olhos... seus olhos pareciam incrivelmente pesados, como se ele tivesse envelhecido um século desde que se viram no cemitério naquela manhã.
— Por que você está tão pálida? — ele devolveu, a voz um sussurro monótono.
Eliza cruzou os braços com força, apertando a própria jaqueta, usando a irritação para mascarar o pânico. — É rude responder a uma pergunta com outra pergunta, Uzumaki.
Ele soltou um suspiro longo, áspero e exausto, o som ecoando pelas madeiras escuras das estantes. Fechou a pasta e a prensou contra o peito.
— Para que eu possa te contar o que estou fazendo aqui no escuro, Eliza, primeiro eu preciso te perguntar uma coisa. — O tom de voz dele mudou. O tédio cínico desapareceu. Em seu lugar, sobrou apenas uma seriedade fúnebre. — Me diga... você costuma ler livros?
Eliza franziu a testa, os músculos do rosto repuxando, completamente desarmada pela curva acentuada do assunto. — O quê? Sim... não tanto quanto eu gostaria, ou quanto deveria. Mas eu tenho o costume. Eu até escrevo um diário de vez em quando. Mas o que diabos isso tem a ver com...
— Então é perfeito — Uzumaki a cortou, a voz soando grave como a batida de um martelo. — Você, mais do que ninguém nesta escola, deve ser capaz de entender o meu questionamento.
Ele deu um passo lento à frente. A luz falha piscou sobre o rosto dele, desenhando sombras duras sob seus olhos.
— E se nós formos apenas personagens dentro de um livro?
O silêncio que esmagou o corredor a seguir foi denso. Físico. Sufocante.
Eliza encarou o rosto de Uzumaki por longos cinco segundos. Ela prendeu a respiração, esperando a punchline da piada. Esperando que o garoto estoico soltasse um riso de deboche. Mas o rosto dele permaneceu estático, cravado na escuridão como uma lápide de mármore.
A indignação de Eliza entrou em combustão. Ela balançou a cabeça violentamente, soltando uma risada nervosa, seca e sem humor. — Quem é que está falando bobagem agora? Fala sério, Uzumaki. — Ela deu as costas para ele, o solado da bota girando no carpete, pronta para ir embora. — Eu achei que você estivesse aqui no escuro investigando seriamente o assassinato da Laeticia. E, em vez disso, você está tendo uma crise existencial filosófica patética. Passar bem.
— Por que você acha que é uma bobagem?
A pergunta não teve raiva, mas a atingiu nas costas com a força de um tiro, enraizando seus pés no chão. Eliza virou-se bruscamente, a respiração falhando.
— Porque é óbvio! É loucura clínica! — Ela gesticulou com as mãos abertas, a voz subindo de tom. — Como nós poderíamos ser personagens de uma história ridícula?! Nós estamos aqui! Nós estamos vivos! Nós respiramos esse ar mofado, nós sentimos dor de verdade! Questionar a nossa própria existência, por si só, já é a prova de que isso é um delírio!
Uzumaki não se alterou um milímetro. A lógica dele estava afiada como a lâmina de uma guilhotina.
— Você acha que, por algum motivo, os personagens dentro das histórias dramáticas que você lê não acham que estão vivos? — A voz dele era um sussurro letal rastejando pelo corredor. — Se eles soubessem que são apenas tinta preta impressa em um papel barato, ou marionetes penduradas em um roteiro trágico... eles não fariam nada. Eles nunca se esforçariam tanto para sobreviver. Nunca se sacrificariam pelo amor. Nunca sentiriam um desespero tão visceral. Para eles... eles vivem exatamente igual a nós. Ou melhor... igual a como nós achamos que vivemos.
Eliza travou. O oxigênio no corredor pareceu evaporar. O terror começou a se arrastar por sua espinha, subindo gélido, vértebra por vértebra.
— Não... — Eliza recuou um passo trôpego, engolindo o gosto de bile. — Não, você está errado. Tem uma diferença estrutural gigante. Os personagens de um livro não têm autoconsciência! Eles não podem olhar para o teto e questionar abertamente se são personagens fictícios. Eles não podem parar a trama para questionar a própria história. Mas nós podemos! Nós estamos discutindo exatamente isso agora!
Uzumaki inclinou a cabeça milimetricamente para a esquerda. O olhar azul escureceu.
— E se o autor apenas tiver escrito a cena para a gente se questionar sobre isso agora? Só para nos dar a falsa e patética ilusão de livre-arbítrio?
O coração de Eliza disparou. Tum-tum-tum. A parede de estantes de madeira escura pareceu encolher, fechando-se sobre ela. A sensação doentia de que cada passo dado e cada ciúme irracional sentido eram apenas linhas de código a esmagou com força gravitacional.
Ela agarrou os próprios cabelos, balançando a cabeça à beira da histeria. — Isso é loucura! Isso não leva a lugar nenhum, Uzumaki! Como faríamos para provar uma teoria doente dessas, para começo de conversa?!
— Tem um jeito — ele disse calmamente. Levantou a mão e bateu os nós dos dedos contra a capa do arquivo: Toc-toc. — Em histórias mal escritas, os roteiros têm furos. Falhas. Coisas que não fazem o menor sentido logístico, emocional ou temporal. Mas os personagens que estão programados dentro delas nunca notam essas bizarrices. Eles agem normalmente. Eles seguem a história e preenchem os buracos do enredo com sorrisos vazios, para que o leitor também não ache a cena estranha.
A mente de Eliza estalou. Uma faísca violenta de esperança e lógica brilhou no meio do breu. Ela apontou o dedo trêmulo para o peito dele, as pupilas dilatadas em um alívio desesperado.
— Aí! Aí está a prova! Você notou! Hoje de manhã, no cemitério! Você apontou que o funeral estava bizarro! Você notou que as pessoas não choravam, que o reitor ignorou o assassinato! Uzumaki, se nós fôssemos apenas parte de um roteiro invisível para tapar buraco, o sistema teria te cegado também! O fato de você ter quebrado a regra e visto as rachaduras... essa é a prova absoluta de que nós não somos só uma história... não é?
O silêncio que se abateu sobre o corredor foi ensurdecedor. A lâmpada piscou mais uma vez. Os olhos de Uzumaki perderam o foco por um segundo inteiro. A mão dele vacilou em um tremor físico, violento e rápido. Quase um espasmo muscular.
E então, o garoto de gelo sorriu.
Foi um sorriso torto. Frouxo, assustador e completamente vazio de qualquer humanidade. Era uma máscara plástica enxertada à força no rosto de alguém que havia acabado de olhar diretamente para as engrenagens podres do fundo do abismo.
— Sim — ele respondeu. A voz voltou a ficar perfeitamente neutra e inabalável. — Você deve ter razão.
Ele girou o corpo de forma mecânica. Deslizou o documento amarelado de volta para a fresta exata da prateleira. Sem olhar para trás, começou a caminhar em passos duros em direção à porta de emergência.
Eliza ficou paralisada. A sensação de vitória virou cinzas na boca. Ela sabia. Pelo tremor incontrolável naqueles dedos firmes... ela sabia que ele estava mentindo. Uzumaki não acreditava nela. O que quer que ele tivesse lido nas páginas daquele documento havia confirmado exatamente o oposto. Ele sabia a verdade, e o peso dela o havia obliterado.
— Uzumaki! Espera! — ela gritou, a voz rasgando, vazando um terror cru.
O baque metálico da pesada porta de incêndio fechando-se foi a única resposta.
— LIZ!
A voz aguda de Anna chicoteou as paredes. A loira dobrou a esquina derrapando, abraçada a um maço de papéis.
— Liz, você não vai acreditar no que eu achei! — Anna ofegou, os olhos brilhando de excitação. — Tem uma coisa super, mega interessante e sinistra sobre o passado da Diretora da escola, a Irene! A mulher tem uns buracos bizarros no currículo, uns apagões de datas, olha só isso aqui...
Mas Eliza não olhou para os papéis. O suor frio escorria livremente por sua testa.
Eu preciso saber...
— Eliza? O que foi? Você está tão branca... está me ouvindo? — Anna perguntou, o sorriso morrendo.
— Desculpa, Anna. Eu preciso ir.
Eliza esquivou-se do toque de Anna com um solavanco e disparou. Deixou a melhor amiga falando sozinha na escuridão opressiva das estantes e escancarou a porta de emergência. Correu para o frio da chuva, caçando freneticamente o rastro do garoto que havia acabado de estilhaçar a realidade de Morpheus.
Parte 9
O choque térmico da tempestade foi um soco no estômago assim que Eliza escancarou a porta de emergência. A chuva pesada e contínua açoitou seu rosto como agulhas de gelo, encharcando suas roupas até a pele em questão de segundos. Ela disparou pelo asfalto escuro, os sapatos derrapando perigosamente nas poças, tentando desesperadamente farejar o rastro de Uzumaki na escuridão.
Mas o combustível que queimava em seus músculos não era a coragem; era o pânico. Um pânico puro, frio e paralisante.
Isso é real? — a pergunta ecoava pelas paredes de seu crânio, repetindo-se como um disco arranhado beirando a insanidade. — Tem que ser real. Eu sinto o frio cortando a carne e penetrando nos meus ossos. Eu sinto a queimação da falta de ar nos meus pulmões. O cheiro de ozônio da chuva, o asfalto duro raspando sob as solas das minhas botas... Como diabos isso pode ser apenas tinta preta impressa num papel? E se for... o que significa a minha mãe? E a Kiara? O abraço da Anna hoje cedo... elas são falsas? Emoções programadas?
Lágrimas quentes transbordaram de seus olhos, grossas e desesperadas, misturando-se com as gotas gélidas da tempestade. Ela já não sabia o que sentia, nem o que era permitido sentir. Sua bússola moral e existencial havia sido obliterada na biblioteca. Apenas o instinto primitivo de sobrevivência segurava as rédeas de seu corpo agora.
Ela dobrou, derrapando, a esquina de um beco estreito entre os imponentes prédios da administração. A poucos metros de distância, sob o feixe fantasmagórico de um poste de luz que piscava, falhando, um contorno escuro se moveu. O coração de Eliza deu um salto violento, entalando na garganta. Ela freou o próprio ímpeto, jogando as costas com brutalidade contra a parede de tijolos ásperos e esgueirando-se silenciosamente para as sombras densas atrás de uma caçamba de lixo.
Tremendo dos pés à cabeça, ela espiou pela borda enferrujada, esperando ver a silhueta estoica de Uzumaki. Mas as duas figuras paradas na chuva não eram alunos do terceiro ano tendo crises existenciais. O arrepio que subiu por sua espinha foi fulminante. Eliza reconheceu a garota de cabelos castanhos na mesma hora: era a forasteira misteriosa. A mesma mulher de olhar letal e clínico que analisava as falsas lágrimas no enterro de Yuki.
E a pessoa parada diante dela... era Dante.
Mas toda a estética calculada do "garoto misterioso e rebelde do campus" havia evaporado. Ele não usava a jaqueta de couro surrada ou a camisa branca desleixada. Ambos, Dante e a forasteira, vestiam trajes inconfundíveis de execução: ternos de alfaiataria de um preto absoluto e fosco, camisas sociais escuras abotoadas até o pescoço e gravatas estreitas da mesma cor. A água da tempestade escorria pelos tecidos, que pareciam repelir a chuva. O visual deles não gritava "rebeldia de colegial"; exalava um profissionalismo militar, frio e puramente assassino.
Eliza esmagou as duas mãos com força sobre a própria boca para estrangular o som de sua respiração ofegante. Ela fechou os olhos por um segundo, focando toda a sua audição através do ruído caótico da água.
— Então... — a voz da forasteira, Ludmilla, cortou o chiado da chuva. Soava metálica, fria e cirúrgica. — Já confirmou se ela sabe?
Dante estava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça social, a água pingando de seus cabelos bicolores. Seu rosto estava inescrutável. — Ainda não sei dizer o quanto ela sabe exatamente. Mas com certeza não é uma pessoa normal. A ressonância dela é instável. Flutua demais.
— Devo presumir que ela é uma de nós, já que o grande Dante não se livrou dela na primeira oportunidade que teve? — Ludmilla questionou, a sobrancelha arqueada, o tom beirando uma cobrança tática e letal.
Dante balançou a cabeça de leve. — Ainda é muito cedo para dizer.
Ludmilla cruzou os braços escuros, a expressão endurecendo sob a luz intermitente do poste. — É bom que você esteja levando a missão a sério, Caçador. O nosso tempo é curto. Não viemos a Morpheus para você ficar flertando com a Presidente do Conselho e esquecendo onde está o alvo real.
O forasteiro soltou um suspiro rasgado e cínico, mas não havia a menor sombra de humor em seus olhos bicolores. — Eu sei muito bem qual é o meu papel, Ludmilla. Não tente me ensinar a fazer o meu próprio trabalho.
— E por que trocou o figurino? — ela apontou com o queixo para o terno imaculado dele.
— Não planejava ir para a escolinha fingir ser o aluno novo hoje, então pude largar aquela roupa chamativa e inútil no armário — Dante retrucou, ajustando o nó da gravata preta com frieza.
Antes que Ludmilla pudesse rebater, um zumbido seco e elétrico vibrou no bolso de seu paletó. Ela puxou um celular escuro, checou a mensagem e assentiu para ele. — É a hora. O alvo se moveu da posição.
Dante apenas confirmou com um aceno militar. Sem trocarem mais uma única palavra, os dois se separaram como sombras se desprendendo. O garoto girou nos calcanhares polidos e caminhou em direção à entrada dos fundos de um prédio residencial, sendo engolido pelo breu. Ludmilla, por sua vez, continuou a marchar pela calçada principal.
Escondida atrás da caçamba, Eliza sentia os dentes baterem. A mente dela girava em uma centrifugadora de pânico. Se livrar dela? Eles matam pessoas de verdade? O niilismo escuro da teoria de Uzumaki abriu suas garras, mas a curiosidade humana gritou muito mais alto. Fictícia ou não, ela precisava saber a verdade.
Eliza começou a seguir Ludmilla. Manteve-se a exatos vinte metros de distância, fundindo-se de sombra em sombra como um fantasma. Caminharam por dois quarteirões até chegarem aos fundos do estacionamento do ginásio esportivo. Ludmilla diminuiu o passo. Dez metros à frente dela, protegido por um guarda-chuva largo e vestindo uma capa de chuva amarela reflexiva, estava um homem adulto.
Eliza reconheceu-o: era Oliver, o corpulento guarda noturno do colégio.
De repente, as pesadas botas de borracha de Oliver pararam. — Eu já vi o seu reflexo nas poças, garota. Pode parar de me seguir.
Eliza congelou, colando as costas violentamente contra a lataria gelada de um sedan estacionado. Ludmilla parou. Em uma fração de milissegundo, sua postura fria e assassina derreteu. O rosto adotou uma expressão ruborizada e excessivamente tímida.
— Ai, desculpa... — a voz de Ludmilla saiu fina, doce e carregada de uma vergonha adolescente perfeita. — Eu admito que estava te seguindo de longe. É que... eu te achei tão bonito e imponente hoje cedo na guarita, e eu não sabia como te abordar para pedir o seu número.
Oliver virou-se devagar. Um sorriso malicioso e predatório rasgou seu rosto. — É mesmo? Uma garotinha tão bonita como você tendo dificuldade para falar com um homem de verdade?
Ludmilla abaixou a cabeça, mordendo o lábio inferior. — É verdade... A minha autoestima é muito baixa. É por causa da minha amiga, sabe? Eu me sinto muito feia e comum quando estou perto dela.
Oliver deu uma risadinha rasposa, erguendo o guarda-chuva. — Poxa, e essa sua amiga é tão maravilhosa assim para te deixar tão insegura, gatinha?
— Ah, você não tem ideia — Ludmilla ergueu o rosto molhado, abrindo um sorriso deslumbrante e inocente. — Por exemplo, a genética foi absurdamente gentil com ela. Ela tem uns seios gigantes. Muito macios. Acho que ela usa taça I ou J, para ser modesta.
Os olhos de Oliver brilharam com pura luxúria. Ele assobiou, um som umedecido e cafajeste. — Caramba. Desculpa a sinceridade, mas eu sinto que precisava muito conhecer uma mulher com essas proporções divinas.
O sorriso meigo de Ludmilla evaporou. Literalmente desapareceu. A expressão retornou ao vazio glacial de uma máquina de abate programada.
— Sério? Sem problemas. Eu posso te apresentar a ela agora mesmo, se você quiser.
— Adoraria — Oliver respondeu rouco, lambendo os lábios.
— Perfeito. — Ludmilla enfiou as mãos de volta nos bolsos do terno, os olhos cravados nos dele sem piscar. — Você só tem que se virar.
Oliver franziu a testa, confuso. Girou o corpo lentamente para trás, levantando o guarda-chuva para olhar por cima do ombro. Foi o último movimento voluntário que ele fez em vida.
Ele só teve tempo de arregalar os olhos ao ver a sombra colossal de uma mulher gigantesca surgir silenciosamente da escuridão, bloqueando a luz do poste. Não houve tempo para um grito. A mulher gigantesca ergueu uma monstruosa marreta de aço maciço e desceu a arma em um arco vertical perfeito.
SPLAT! CRAAAAACK!
O som de osso parietal sendo reduzido a pó e tecido mole explodindo sob pressão foi ensurdecedor. O impacto foi tão monstruoso que a cabeça de Oliver foi esmagada como um prego para dentro de sua própria caixa torácica. O corpo desabou verticalmente no asfalto, dobrando-se como uma lata de refrigerante prensada.
Sangue fervente, pedaços de massa encefálica e fragmentos de osso voaram para todos os lados. A poça espalhou-se instantaneamente sob as botas das duas assassinas. O guarda-chuva amarelo caiu lentamente no chão, girando, inútil.
Escondida atrás do pneu do sedan, Eliza sentia os olhos se arregalarem até doerem. Ela fechou as mãos sobre a própria boca com tanta força que seus dentes rasgaram a carne interna de seus lábios. O gosto de ferrugem inundou sua língua. Suas pernas viraram gelatina. Ela escorregou pela lataria do carro e caiu sentada no asfalto molhado.
Eliza tremia em espasmos, abraçando os próprios joelhos. As lágrimas caíam livres e mudas. O cheiro ferroso, quente e nauseante de morte e tripas invadiu suas narinas, provando que Uzumaki estava errado. Nenhuma tinta de livro tinha aquele cheiro. Nenhuma ficção sangrava tão quente.
A redoma de normalidade de Morpheus havia sido massacrada diante de seus olhos. E ela estava trancada do lado de dentro com os monstros.
Parte 10
O som espesso, úmido e repugnante do crânio de Oliver sendo esmagado obliterou qualquer resquício de racionalidade que ainda habitava a mente de Eliza.
Encolhida atrás do pneu do carro sedan, ela entrou em um estado de paralisia absoluta. O terror era tão puramente físico que seu coração martelava contra as costelas com uma violência capaz de irradiar dor até a base do pescoço. Seus pulmões simplesmente esqueceram como funcionar; o ar entrava em filetes curtos, rasos e trêmulos, insuficientes para afastar a vertigem que escurecia sua visão. Em um instinto primitivo de autopreservação, Eliza cravou os dentes com força na própria mão, sentindo o gosto de sangue, apenas para sufocar o grito histérico que arranhava sua garganta, implorando para sair.
Através do chiado caótico da chuva batendo na lataria de metal do carro, passos pesados, lentos e absurdamente confiantes ecoaram no asfalto molhado.
— Essa cidade inteira está infestada deles. Precisamos achar a fonte logo, Ludmilla. Antes que seja tarde demais.
A voz era feminina e grave. Carregava uma autoridade quase aristocrática, uma calma letal que gelou o sangue de Eliza. Tremendo violentamente, ela arriscou uma espiada milimétrica pela lateral do para-choque traseiro.
A mulher que agora segurava a marreta ensanguentada era uma visão aterradora, quase irreal. Tinha quase dois metros de altura, uma verdadeira gigante cuja pele, pálida como porcelana fria, era banhada pela luz mortiça do poste. O corpo dela era esbelto e perigosamente atlético, mas ostentava curvas femininas absurdamente pronunciadas. Os cabelos, lisos e negros como piche, desciam em cascata pesada pelas costas. Assim como a forasteira, ela vestia um terno preto de alfaiataria impecável — a jaqueta escura aberta sobre um top decotado que parecia ignorar o frio cortante da noite, calças de corte reto e luvas de couro negro que, agora, pingavam o sangue espesso do guarda noturno.
— O Dante já está rastreando o núcleo — Ludmilla respondeu.
A forasteira limpou uma gota de sangue alheio da própria bochecha com as costas da mão, a expressão mortalmente entediada. Ela baixou os olhos escuros para a arma da gigante.
— Mas, sinceramente, Maysa... uma marreta? Não tinha absolutamente nada mais limpo no seu arsenal tático? Isso acaba sujando o perímetro todo. É muito antiprofissional.
Maysa soltou um suspiro curto e apoiou o longo cabo da marreta colossal no ombro, ignorando completamente os pedaços de osso e tecido grudados no aço. O olhar que ela lançou para a massa de carne esmagada no chão foi de puro, destilado e absoluto desprezo.
— Está tudo bem. A chuva vai lavar a sujeira antes do amanhecer. Ela sempre limpa.
O terror de ouvir um abate brutal sendo discutido com a mesma casualidade fútil de uma faxina doméstica fez o estômago de Eliza revirar violentamente. Eu preciso sair daqui, sua mente gritou. Se elas derem a volta no carro... se olharem para cá, eu sou a próxima.
Lentamente, forçando seus músculos congelados a obedecerem, Eliza tentou recuar. Milímetro por milímetro, ela se arrastou de costas contra o asfalto encharcado, tentando se afastar da luz.
Screeeck.
O solado de borracha de sua bota raspou contra um minúsculo pedaço de cascalho solto no chão. O som foi microscopicamente baixo. Insignificante sob a orquestra da tempestade. Mas, para as duas predadoras de elite a poucos metros dali, soou como o estrondo de um tiro de canhão.
Ludmilla calou-se no meio de uma respiração. O olhar da Caçadora travou, girando mecanicamente e cravando na escuridão exata atrás do carro estacionado. Com um movimento seco, rápido e puramente militar, ela ergueu a mão enluvada, sinalizando para Maysa fazer silêncio absoluto.
A gigante de terno preto estreitou os olhos e os dedos apertaram o cabo da marreta; os nós ficaram brancos. Ludmilla começou a caminhar na direção do esconderijo de Eliza. Silenciosa como uma sombra predatória. Sem espirrar uma gota de água das poças. Um passo. Dois passos.
A tensão no peito de Eliza atingiu o pico crítico. A pressão do medo foi tão absoluta que os fusíveis de sua mente simplesmente derreteram. O sistema nervoso entrou em um colapso catatônico para protegê-la da realidade.
E a realidade se partiu ao meio.
O estacionamento chuvoso e escuro sumiu. O som contínuo da tempestade foi instantaneamente engolido por um vento cortante, seco e uivante que fedia a lixo podre e enxofre. Ela não estava mais abaixada atrás de um carro em Morpheus. Estava encolhida no canto úmido e escuro de um beco de pedra imunda. Suas roupas desapareceram; em seu lugar, trapos encardidos e finos grudavam em seu corpo. O frio violento queimava sua pele nua. Seus cabelos não eram mais curtos e magenta; mechas longas de um azul sujo e embaraçado caíam sobre seus olhos marejados.
Havia correntes. Pesadas, congelantes e grossas de ferrugem, prendendo seus braços e tornozelos, rasgando e machucando a pele a cada respiração trêmula. Ela não estava sozinha no escuro. Seus braços fracos apertavam um embrulho de panos contra o peito. Um bebê. O calor minúsculo e frágil daquela criança era a única coisa no universo que a mantinha viva naquele inferno de gelo.
Passos pesados de botas militares e o tilintar de espadas ressoaram na entrada do beco.
— Seus idiotas! Encontrem-na agora! — uma voz masculina e brutal rosnou perto dali. — Vocês sabem muito bem o que os nobres vão fazer com as nossas cabeças se a perdermos e ao bebê! Vasculhem cada buraco!
Ela tentou se arrastar mais para o fundo das sombras, desesperada para proteger a filha, mas, ao se mover, o elo grosso da corrente em sua perna bateu contra uma lixeira de metal. O tilintar metálico ecoou alto, fatiando o silêncio.
Os passos militares pararam. A sombra de um homem colossal bloqueou a saída do beco. Ele caminhou a passos duros na direção dela, puxando um pesado cassetete de ferro do cinto.
— Vamos lá, Stella. Pare de brincadeira de esconde-esconde. — O homem sorriu. Um sorriso podre, sádico e cruel. — O que você acha que vai conseguir fugindo de nós? Uma mãe inútil e um bebê de colo, marcadas a ferro como escravas e fugitivas pelas ruas de Gaia? Vocês vão morrer congeladas antes da meia-noite. É isso mesmo que você quer para a sua filha bastarda?
— Não... fique longe dela... — A voz de Stella saiu rouca, destruída. Ela tentou se levantar, mas os pés nus e acorrentados escorregaram na neve preta e suja.
Ele foi estupidamente mais rápido. A mão grossa do homem disparou, agarrando-a pelos cabelos azuis e puxando-a para cima com uma violência que quase arrancou seu couro cabeludo. O punho de ferro dele ergueu-se no ar e desceu como um meteoro contra o rosto dela.
CRACK!
Eliza engasgou violentamente, puxando o ar de volta aos pulmões com o desespero de uma afogada que acaba de romper a superfície da água.
O beco sujo de Gaia sumiu. O aguaceiro gelado de Morpheus retornou. Ela estava jogada de lado no asfalto do estacionamento, as pernas trêmulas e bambas. Suas forças haviam sido totalmente drenadas. A dor fantasma no osso da bochecha — do soco que não havia levado naquele corpo — latejava em seu crânio. A lembrança invasora — a sensação vívida de ser Stella, uma escrava acorrentada — estava cravada em seu cérebro, tão nítida quanto a poça de sangue que escorria de Oliver.
Ela estava paralisada. Deitada na poça de água suja, apenas esperando o golpe final da marreta de Maysa. Mas o golpe não veio.
Um zumbido eletrônico quebrou a tensão letal. O celular de Ludmilla vibrou alto. A Caçadora, que estava a apenas um passo de contornar o carro, freou o movimento e checou a tela. A expressão fria vacilou em reconhecimento estratégico.
— Parece que o Dante achou alguma coisa. Mudança de planos.
Maysa suspirou, guardando a marreta nas costas com um movimento displicente. — Tudo bem. Vamos embora.
As duas mulheres afastaram-se rapidamente, desaparecendo na sinfonia da tempestade. Eliza não se mexeu. Ela puxou os joelhos até o peito, abraçando as próprias pernas. A água a encharcava até os ossos, mas ela não tremia de frio; tremia sob o impacto de um choque catatônico profundo.
Dez minutos se arrastaram. O sangue de Oliver diluía-se na tempestade, escorrendo em rios rosados para o bueiro.
— Liz?! Eliza!
A voz desesperada rasgou a escuridão. O feixe de luz de uma lanterna focou na garota encolhida. Anna correu pelo asfalto molhado e deslizou, caindo de joelhos com força ao lado de Eliza.
— Eliza, meu Deus! O que você está fazendo aqui jogada no escuro e na chuva?! — Anna a puxou com força, abraçando-a contra o próprio corpo. — Ei, fala comigo! Olha para mim! Está tudo bem, eu estou aqui! O que aconteceu, Liz?!
Anna acariciava o rosto gelado dela com as mãos trêmulas, a voz embargada pelo medo. Mas Eliza não respondeu. Não piscou. Completamente catatônica, a princesa com memórias de escrava apenas continuou encarando o asfalto, incapaz de distinguir o luto plastificado daquela cidade do terror sangrento e verdadeiro que corria em suas próprias veias.
Parte 11
O trajeto daquele estacionamento manchado de sangue até a casa de Anna foi um borrão escuro, mudo e anestesiado. Uma transição fantasmagórica entre a carnificina real e a ilusão de segurança de quatro paredes.
No banheiro pequeno, o vapor espesso embaçava o espelho e tornava o ar pesado. O chiado violento da água fervente, chicoteando contra os azulejos brancos, era a única coisa que ousava quebrar o silêncio fúnebre. Eliza estava largada no chão do box, os joelhos magros abraçados contra o peito. A água escaldante descia em cascata por seus cabelos magenta, lavando a água fria da tempestade, mas falhando miseravelmente em derreter o gelo que havia necrosado em seus ossos. Ela parecia uma boneca de porcelana oca, de olhos vidrados e mortos, assistindo fixamente à água escorrer em espirais pelo ralo metálico.
Anna estava ajoelhada no piso duro ao lado dela. A garota loira estava completamente vestida, ignorando o peso das próprias roupas que encharcavam e grudavam em seu corpo sob o chuveiro. Com as mãos tremendo descontroladamente, Anna passava uma toalha macia pelos ombros e pelas costas curvadas de Eliza — os movimentos cuidadosos e desesperados de quem tenta limpar a sujeira de uma ferida aberta e letal.
O celular de Anna repousava na beirada da pia, com a tela já apagada; ela havia mandado uma mensagem rápida para Kiara, inventando uma desculpa qualquer para blindar a amiga do interrogatório implacável da Presidente do Conselho.
— ...me desculpa, Liz. Me desculpa, por favor... — A voz de Anna falhou, rasgada no meio por um soluço grosso e infantil. As lágrimas da garota loira transbordavam, quentes e contínuas, misturando-se à água do chuveiro. — Eu prometo... eu juro que te ajudo. Eu te ajudo a caçar esses malditos vampiros, a investigar os arquivos mofados da escola, a fazer o que você quiser! Eu não te deixo mais sozinha nem por um segundo. Só... só fala alguma coisa para mim. Me diz que você está aqui.
Eliza não piscou. As pálpebras não tremeram. O abismo negro continuava a engoli-la de dentro para fora. Incapaz de suportar aquele olhar vazio, Anna largou a toalha no chão inundado e puxou o corpo catatônico de Eliza para um abraço brutal debaixo d'água. A loira colou o rosto molhado na curva do pescoço de Eliza, escondendo o próprio pranto. A possessividade e o desespero daquele toque eram intensos, esmagadores. Quase sufocantes.
— Era exatamente por isso que eu não queria que você fosse atrás dessa loucura... — Anna choramingou, os dedos apertando a pele e as roupas molhadas de Eliza com uma força desproporcional. — Eu só queria que você vivesse uma vida normal. Que a gente fosse normal e feliz juntas.
O calor físico do corpo de Anna, fundido ao vapor da água quente, finalmente começou a penetrar a geleira que havia paralisado o sistema nervoso de Eliza.
— Está tudo bem, Liz... Eu estou aqui — sussurrou Anna. A voz dela baixou para um tom de promessa inquebrável, quase como um feitiço sussurrado diretamente contra a pele do ouvido de Eliza. — Eu sempre vou estar aqui.
A promessa atingiu o cérebro fraturado de Eliza como uma marreta. As palavras exatas. A certeza absoluta. A casca de choque catatônico finalmente estilhaçou. Um soluço engasgado, doloroso e agudo rasgou a garganta de Eliza, arranhando suas cordas vocais. O corpo dela sofreu um espasmo violento no chão do box, e seus braços, até então mortos, subiram para retribuir o abraço. Ela cravou as unhas nas costas da jaqueta encharcada de Anna, agarrando-se a ela como um náufrago a um pedaço de madeira.
O choro que irrompeu dela não foi bonito ou contido; foi um pranto feio, barulhento, sujo e dilacerante. O som de uma alma desmoronando sob o próprio peso.
— Me desculpa! — Eliza gritou aos prantos, a voz falhando histericamente, o corpo inteiro tremendo em convulsões contra os braços de Anna. — Desculpa, me desculpa por ter desejado aquilo! Desculpa por ter reclamado que a minha vida era chata... por não ter dado valor a viver uma vida normal e estúpida! Eu sinto muito!
— Shhh... está tudo bem, meu amor, está tudo bem... — Anna a embalou contra o peito, balançando as duas de um lado para o outro no chão duro. O rosto da loira estava banhado em lágrimas de puro alívio por finalmente ouvir a voz dela. — A culpa não é sua. Eu estou cuidando de você. Eu não vou deixar nada te machucar.
O tempo perdeu completamente a forma enquanto o choro a esvaziava, gota por gota. Mais tarde, com uma paciência quase maternal, Anna desligou o chuveiro. Ela a secou com cuidado, vestiu-a com roupas limpas e macias e a guiou até o quarto, que já estava mergulhado na penumbra reconfortante da madrugada.
As duas deitaram na cama de solteiro. Anna a puxou para perto, abraçando Eliza firmemente pelas costas, em formato de concha. O braço da loira envolvia a cintura dela de forma protetora, uma âncora pesada de carne e osso prendendo o corpo de Eliza à realidade. O calor do abraço de Anna, o cheiro doce e familiar de seu perfume no travesseiro, o som da respiração rítmica batendo contra sua nuca... tudo aquilo era um refúgio. Uma prisão perfeitamente estofada que embalava a mente esgotada de Eliza, anestesiando as imagens gráficas de cérebros esmagados e dos becos nevados de Gaia.
Lentamente, o calor exaustivo começou a vencer o frio traumático. Eliza sentiu os músculos dos próprios ombros cederem. Seus olhos incharam e pesaram. A segurança daquele abraço finalmente a estava puxando para a beira do precipício do sono.
Miau.
O som foi absurdamente sutil. Quase inaudível. Um arranhar fantasma, rastejando no limite mais fino de sua audição, como se tivesse vindo de dentro de sua própria cabeça. Os olhos de Eliza se arregalaram instantaneamente na escuridão. O sono evaporou como uma gota de álcool no fogo.
Suando frio sob as cobertas, ela moveu apenas as pupilas, virando os olhos lentamente para a beirada do travesseiro vazio, a pouquíssimos centímetros de seu rosto.
Havia um pedaço de papel dobrado ali.
A garganta de Eliza secou. Com a mão livre, tremendo de forma incontrolável, ela alcançou o bilhete e o puxou para perto do rosto, forçando as retinas a focarem na penumbra azulada. A mesma caligrafia rasgada de Schrödinger estava lá. A tinta preta parecia pulsar na escuridão, entregando uma advertência nua, crua e brutal:
Não confie em ninguém.
O sangue de Eliza congelou nas veias. Não havia metáforas ali. Era um comando direto, rasgando o santuário que ela achava ter acabado de encontrar.
A respiração de Anna bateu morna contra a nuca de Eliza. O braço da garota loira, que há dez segundos parecia um escudo impenetrável, de repente transmutou-se. Tornou-se pesado. Apertado demais. Sufocante como as correntes de ferro enferrujado que haviam prendido seus pulsos no beco de Gaia.
Em um reflexo violento, Eliza fechou os dedos e amassou o papel com força, transformando-o em uma pequena bola apertada. O som do papel sendo esmagado arranhou o silêncio.
Anna se mexeu atrás dela. O braço ao redor da cintura de Eliza apertou sutilmente.
— Liz...? — a voz de Anna soou arrastada pelo sono, doce e perfeitamente inocente. — Está tudo bem?
A espinha de Eliza travou. Ela fechou os olhos com força, trincando o maxilar. O terror psicológico a devorava viva: Não confie em ninguém. Não confie nela. Não confie na cidade. Não confie nas suas memórias.
— Sim... — Eliza sussurrou. O som saiu assustadoramente controlado, uma mentira perfeitamente embalada. Ela se ajeitou milimetricamente no colchão, recostando a cabeça contra o ombro de Anna em uma falsa rendição. — Está tudo bem. Eu só tive um espasmo muscular.
— Tenta dormir... eu estou aqui com você... — Anna murmurou, os lábios roçando no cabelo dela antes de mergulhar de volta nas profundezas do sono.
Eliza não se moveu. Manteve os olhos fechados, forçando a própria respiração a imitar o ritmo tranquilo de quem dorme, até ter a certeza absoluta de que Anna estava inconsciente. Então, lentamente, abriu os dedos da mão direita sob a coberta.
A palma de sua mão estava vazia. O bilhete de Schrödinger havia desaparecido no ar mais uma vez, apagado da existência como se nunca tivesse saído do reino de suas próprias alucinações. Mas a mensagem já estava cravada em sua alma.
Presa no abraço apertado de sua melhor amiga, sentindo que cada grama do afeto que a envolvia poderia ser uma ilusão mortal, uma nova dúvida corrosiva começou a comê-la por dentro. Se tudo era falso, se qualquer abraço era uma armadilha... aquele gato fantasma, seja lá quem ou o que ele fosse, merecia mesmo a sua confiança?
A incerteza a consumia, queimando seu cérebro de dentro para fora. Cega no escuro, Eliza só queria fechar os olhos e desaparecer — evaporar antes que o inevitável amanhecer a obrigasse a escolher de quem ela deveria fugir primeiro.



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