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The Fall of the Stars: Capítulo 1 - O Tribunal do Tempo

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 4 de fev.
  • 55 min de leitura

Volume 10 : Laços de Sangue


Parte 1

A ruptura não chegou com o medo. Ela se anunciou através da dor.

Não era uma agonia poética, comum às tragédias encenadas em Morpheus. Era algo oco, corrosivo e vulgar. Começou nas entranhas de um aristocrata da primeira fila, um homem acostumado a consumir apenas a essência etérea de memórias felizes. Seu estômago contraiu-se violentamente, um nó cego apertando suas vísceras. Um som escapou de dentro dele — um ronco baixo, gutural, úmido.

Ele levou as mãos ao ventre, os dedos crispando sobre o tecido de seda, os olhos arregalados de confusão. Aquela sensação primitiva, esquecida há eras, rasgava sua compostura. Fome. Uma fome animal.

E ele não estava sozinho. Como uma onda invisível quebrando sobre a plateia, a biologia invadiu a utopia. Posturas elegantes desmoronaram. Mãos trêmulas buscavam gargantas subitamente áridas, a língua colando no céu da boca. Onde antes havia apenas o perfume de lavanda eterna, agora subia o cheiro acre e salgado do suor frio — uma mácula impensável manchando os colarinhos imaculados.

Então, um grito sufocado fez com que todos olhassem para cima.

A abóbada celeste, aquele domo de safira inabalável que protegia a Cidade de Diamante, estava sangrando.

A metáfora tornara-se literal. A consistência do firmamento cedeu. As cores pastéis, que por milênios decoraram o horizonte estático, perderam a coesão. O azul-celeste liquefez-se em um índigo espesso e oleoso, escorrendo pelas laterais da visão, pingando sobre as torres de cristal imaculadas lá fora. As nuvens, antes esculturas perfeitas de algodão imóvel, foram rasgadas ao meio, sugadas por redemoinhos furiosos que uivavam no alto.

E então, o som.

Tique... Taque... Tique... Taque...

Não vinha de um ponto específico; emanava da própria estrutura da realidade. Um ruído mecânico, opressor, de metal roçando contra metal enferrujado, raspando os ossos de cada presente.

Ao redor da praça, os relógios ornamentais das fachadas — meras joias decorativas paralisadas no "agora eterno" — despertaram em um espasmo violento. Os ponteiros, travados por milênios, dispararam. Giravam em borrões, rápidos demais para o olho humano acompanhar, emitindo um zumbido agudo, como o guincho de uma máquina prestes a explodir.

— Minhas mãos! — O grito agudo perfurou o barulho das engrenagens.

A multidão recuou, abrindo um círculo ao redor de uma Dama dos Sonhos, célebre por sua pele translúcida como porcelana. Diante do horror coletivo, a eternidade a abandonou. A pele lisa do dorso de suas mãos começou a ressecar instantaneamente. Manchas escuras brotaram como mofo acelerado; a carne murchou, sugada para dentro, revelando o contorno dos ossos e tendões.

O Tempo, banido daquele reino, voltava para cobrar sua dívida com juros acumulados. O conceito de "fim" desabou sobre a cabeça deles com o peso de uma bigorna.

A civilidade da Cidade de Diamante ruiu em um segundo.

O pânico foi bestial. A massa de corpos vestidos de pedrarias e veludo colidiu, empurrando, unhando e pisoteando na tentativa fútil de fugir de um céu que derretia. Mas a velhice não estava fora; estava no ar que respiravam, correndo em suas veias.

— SILÊNCIO!

O estrondo de metal contra mármore reverberou como um trovão, fazendo o chão tremer.

A Guarda Real avançou. Suas armaduras, antes trajes de gala leves como plumas, agora pareciam carregar toneladas de peso real. Eles formaram uma barreira de escudos, empurrando os civis de volta aos assentos com violência atípica, cabos de alabardas chocando-se contra costelas frágeis.

— A ordem será mantida! — berrou o Capitão. Sua voz tentava impor autoridade, mas, pela fenda do elmo, seus olhos giravam em órbitas arregaladas, refletindo o mesmo terror da multidão.

Encurralados entre as lanças e o tempo que avançava, os murmúrios começaram a se espalhar como um contágio:

— Foram eles... — sibilou um homem, agarrando o próprio pulso onde um relógio de bolso vibrava febrilmente. — Os invasores. Aqueles que quebraram o céu.

— Estão acorrentados... nas masmorras inferiores — respondeu outro, a voz embargada pelo choro. — Dizem que o Tribunal vai trazê-los.

— Eles têm que consertar isso! — uma mulher soluçou, cobrindo o rosto envelhecido com as mãos. — Pelo amor do Rei, façam o tempo parar!

Enquanto a elite de Morpheus descobria o horror da mortalidade, nas profundezas, o caos tinha uma textura diferente.

Longe da luz refratada, nos becos úmidos da Cidade Meia-Noite e nos territórios dos Pesadelos, a confusão era absoluta. Monstros feitos de sombras e pavor, predadores naturais daquele ecossistema, corriam desorientados, ganindo como cães chutados. As sombras, antes vivas e maliciosas, agora se alongavam e encolhiam erraticamente sob a luz estroboscópica do céu quebrado.

Para eles, não havia tribunal. A estrutura fundamental de sua existência — o medo estático que inspiravam — foi substituída por algo pior: a incerteza. O mundo dos sonhos deixara de ser uma pintura eterna para se tornar um filme de terror rodando em velocidade acelerada.

E no centro do Grande Tribunal, sob um céu que chorava o fim da eternidade, o palco estava montado.

Parte 2

O Grande Tribunal da Cidade de Diamante não foi erguido para a justiça; foi esculpido para a humilhação.

A arena era um vasto coliseu de mármore branco, tão polido e impiedoso que o chão atuava como um espelho negro, refletindo o céu tempestuoso que se desfazia acima. As arquibancadas, espirais vertiginosas de pedra e luz, estavam abarrotadas. Mas a nobreza havia desaparecido. O medo recém-adquirido da morte transmutara a elite onírica em uma turba bestial. Rostos que, minutos antes, eram máscaras de serenidade eterna, agora se contorciam, culpando os prisioneiros por cada nova ruga, por cada espasmo de fome em seus estômagos virgens.

Quando os portões de ferro negro na base da arena se abriram, o som não foi de vaia. Foi um rugido sísmico.

— Malditos Pesadelos! — A gritaria ecoava, distorcida pela acústica perfeita do domo. — Monstros! O quanto mais querem sangrar nosso reino?!

O primeiro a emergir da penumbra do corredor foi Uzumaki.

Quem conhecera o garoto antes — aquele poço de cinismo frio e arrogância calculada — jamais reconheceria o espectro que agora arrastava as correntes. Ele caminhava, mas não parecia estar ali. A cabeça pendia baixa, o cabelo desgrenhado formando uma cortina sobre os olhos que haviam se tornado poços sem fundo. Não havia raiva em sua postura, apenas um vácuo aterrorizante.

Thud.

Uma pedra, arremessada com precisão cruel da primeira fila, atingiu seu ombro. O som foi seco, osso contra rocha.

Uzumaki não recuou. Não estremeceu. Nem sequer piscou. Ele continuou a marchar no ritmo metálico de seus grilhões, assombrado por fantasmas que a plateia não podia ver. Em sua mente, o mármore branco era o campo de batalha; o rugido da multidão era o som da morte de Dumpt; a luz do tribunal era a sombra de Alone. Para ele, os insultos eram apenas ruído branco. O verdadeiro julgamento acontecia dentro de seu crânio, e o veredito já fora dado: culpado por respirar enquanto outros morreram.

Logo atrás, mancando, vinha Rum.

A líder da Tromluí era um monumento à ruína. Ela arrastava a perna esquerda, cada passo uma negociação dolorosa entre a vontade de cair e a teimosia de permanecer de pé. Ataduras imundas, frouxas e enegrecidas, envolviam seu pescoço e tórax. Mas era o braço mecânico que contava a verdadeira história: manchado de óleo velho e sangue seco, suas engrenagens rangiam audivelmente, gritando por manutenção.

Ela mantinha o queixo erguido, desafiadora, mas seus lábios tremiam em um espasmo incontrolável. Não era medo daquelas pessoas. Era a exaustão terminal de quem segurou o céu nas costas e sentiu seus braços quebrarem. A cada três passos, seus olhos desviavam para o lado, procurando instintivamente a massa sólida de Dumpt ou o sorriso leve de Snow, apenas para encontrar o ar vazio e frio. O estresse pós-traumático era uma mão física apertando sua traqueia, sufocando o ar antes que chegasse aos pulmões. Ela não chorava; lágrimas exigiam hidratação e energia que seu corpo já não possuía.

E então, puxada por correntes grossas como âncoras, veio Eliza.

A reação da plateia mudou instantaneamente. O ódio quente esfriou em um nojo visceral.

— Animal! — guinchavam as damas da corte, recolhendo as saias de seda como se a mera presença dela fosse um miasma contagioso.

Eliza foi despojada de qualquer humanidade. Uma venda de couro grosso lhe roubava a visão, e um dispositivo complexo de metal travava sua mandíbula, uma focinheira cruel desenhada para impedir a fala ou qualquer conjuração mágica. Seus braços estavam torcidos para trás em um ângulo antinatural. Ela não era tratada como prisioneira de guerra, mas como uma besta raivosa contida por milagre.

Sem a visão, ela tropeçou. O puxão brutal da corrente do guarda a reequilibrou à força. A ironia era palpável, quase sólida no ar: a "monstra" que salvara a vida de Dan era exibida como a encarnação do mal, enquanto os cidadãos "puros" e belos babavam de ódio nas arquibancadas, revelando a verdadeira feiura de suas almas.

Os três foram forçados a se ajoelhar no centro da arena. O reflexo no chão polido mostrava três borrões quebrados sob um céu que derretia em cores de hematoma.

O rugido da multidão cessou. Um silêncio súbito, pesado e desconfortável, desceu sobre o tribunal quando um mecanismo no centro do piso foi ativado.

Hiss.

O chão se abriu com um silvo hidráulico, e um pedestal solitário se elevou diante dos réus.

Não havia juiz no pedestal. Não havia livro de leis. Havia apenas um objeto.

Uma gaiola.

Era pequena, forjada em barras douradas delicadas e ornamentadas. O tamanho perfeito para conter um pássaro exótico... ou uma criança pequena. A gaiola estava vazia, a portinhola aberta balançando suavemente com a brisa gélida que varria a arena.

Nenhuma palavra precisou ser proferida. A mensagem era clara, brutal e silenciosa, ecoando mais alto do que qualquer sentença de morte:

"Yukina não está aqui. Mas esta é a casa dela, se vocês falharem."

O efeito foi imediato e devastador.

A máscara de apatia de Uzumaki rachou como vidro. Seus olhos se estreitaram, focados na gaiola, e ele apertou os punhos com tanta força que as articulações estalaram, brancas, o sangue sumindo de suas mãos.

Ao lado dele, Rum soltou um som estrangulado, um gemido que morreu antes de nascer. Suas mãos algemadas se ergueram num reflexo puramente materno, tentando alcançar o vazio entre as barras douradas, apenas para serem detidas pelo tinir seco das correntes. A visão daquele objeto — a promessa de que a inocência seria enjaulada e descartada — foi o golpe final. A postura de líder desmoronou. Os ombros caíram. E, pela primeira vez, o terror genuíno, cru e humano, brilhou nos olhos da mulher que já havia perdido tudo, exceto aquilo.

Eles estavam quebrados, sim. Mas o tribunal acabara de encontrar a única peça que ainda podia ser torturada.

Parte 3

Um trovão seco marcou o início do espetáculo.

Não veio do céu, mas do malhete de cristal puro que desceu contra o braço do trono. O som foi tão agudo que trincou a pedra, enviando uma teia de rachaduras pelo mármore imaculado. O silêncio que se seguiu não foi de respeito; foi de terror.

No topo da arena, sentada no trono central, estava Saga. Não a boneca de porcelana que Dante conhecera, mas a Verdadeira Saga. Ela era descomunal, uma entidade de beleza angelical e fria. Seus cabelos loiros flutuavam como se estivessem submersos em água, brilhando com a luz da manhã, e seus olhos, fechados em uma serenidade perturbadora, irradiavam uma "pureza" que queimava a pele de quem ousasse olhar por muito tempo.

À sua direita, Irene. A mulher vestia um hábito que lembrava o de uma freira, mas cada corte do tecido era uma blasfêmia calculada. Justo nos lugares errados, o traje exalava uma sensualidade proibida, como se ela convidasse os fiéis a pecar. Ela ajeitava os papéis sobre a bancada com a tranquilidade doméstica de quem organiza uma lista de compras, e não um massacre judicial.

Do lado oposto, isolado em um palanque baixo e exposto, estava Teth. O homem de aparência angelical e cabelos brancos parecia estar em guerra com seus próprios demônios. Ele não era amigo da Tromluí; ele também era um Sonho, e a ideia de invasores em seu mundo lhe causava repulsa. No entanto, ali estava ele, sentado na cadeira da defesa, traindo suas crenças por um motivo maior que queimava em seu peito, um segredo que não podia partilhar.

— Aah... isso vai ser um inferno — murmurou ele, passando a mão pelo rosto cansado.

Um pouco mais afastada, ereta como uma estátua entre os guardas, estava Ludmilla. A "Testemunha". Sua postura era rígida, elegante como a de um príncipe deposto. Seus olhos varriam a arena, notando a ausência de Dante. Ao ver o estado deplorável da garota próxima ao "herói", uma irritação fria subiu por sua espinha. Ela sabia que estava de mãos atadas; enquanto Saga e Teth estivessem no comando daquele palco, suas opções táticas eram nulas.

— A sessão de emergência para a preservação da Ordem está aberta — a voz de Saga ecoou, não como um som, mas como uma lei absoluta gravada no ar. — A Promotoria tem a palavra.

Irene sorriu. Foi um sorriso triste, maternal e perfeitamente ensaiado.

— Senhoras e senhores de Eden... — começou ela, a voz aveludada caminhando lentamente ao redor dos réus ajoelhados. — Não estamos aqui apenas para julgar crimes. Estamos aqui para entender uma tragédia.

Ela parou diante de Uzumaki e Rum, balançando a cabeça com uma pena teatral, antes de girar sobre os calcanhares para encarar a plateia. Sua voz ganhou o peso do aço.

— Os crimes são claros. Conspiração para invasão armada. Tentativa de regicídio contra o Lorde Alone. Atentado terrorista na Capital. O roubo da Arma do Apocalipse...

A multidão arfou em uníssono, o pânico vibrando nas arquibancadas.

— Mas... — Irene ergueu um dedo longo diante dos lábios, pedindo silêncio com um gesto provocante. Ela caminhou até Eliza, que rosnava por baixo da mordaça de ferro, o corpo todo retesado em fúria. Irene parou atrás dela, pousando as mãos delicadas nos ombros da Pesadelo, como se apresentasse um animal exótico e perigoso. — Devemos nos perguntar: Será que eles realmente não tiveram motivos?

No momento em que ela disse aquilo, Teth viu a armadilha se fechar. Irene estava manipulando a dúvida, não para salvá-los, mas para preparar o terreno. Ela queria que a plateia prestasse atenção, queria que o ódio fosse justificado pela própria boca dos réus.

Irene fez um sinal sutil para o guarda.

— Tirem a mordaça. O tribunal merece ouvir a "voz" da julgada.

— Protesto! — Teth gritou, levantando-se bruscamente. — Ela não está em condições...

— Deferido — cortou Saga, sem abrir os olhos. — Removam.

O guarda soltou a trava. A mordaça de metal caiu no chão com um clangor metálico.

Ao abrir os olhos, Eliza não pediu clemência. Ela não chorou. Ela cuspiu uma mistura de sangue e saliva no chão imaculado de mármore e ergueu o rosto vendado, farejando o medo e o perfume caro da multidão.

— Porcos dourados! — A voz de Eliza foi um rasgo de ódio puro, amplificada pela acústica perfeita da arena. — Estão com medo só porque não sabem o que está acontecendo? Só porque o relógio começou a andar?

A plateia congelou. O silêncio era absoluto, observando aquela centelha de raiva animal.

— Parem de chorar por algo tão pequeno! — Ela gritava, a garganta arranhada, expondo anos de tormento. — Vocês sabem o que é viver na incerteza? Sem saber se vão ter o que comer? Se vão ser atacados e estuprados só por andarem nas ruas da Cidade Meia-Noite? Se serão vendidos ou escravizados simplesmente por existirem?!

O ódio fluía dela como uma represa rompida. Eliza não estava se defendendo; ela estava atacando a alma daquele lugar.

— Vocês deviam agradecer! Pela primeira vez, talvez consigam enxergar o que nós sentimos o tempo todo! Eu espero que a fome doa! Eu espero que o medo corroa seus ossos de vidro! E que a possibilidade da morte faça vocês enxergarem a merda que fizeram durante séculos!

Ela gritou até a voz falhar, o peito subindo e descendo em espasmos violentos para recuperar o fôlego.

A reação foi vulcânica.

A plateia explodiu. Gritos de "Morte à bruxa!", "Monstra!" e "Queimem-na!" sacudiram as fundações do tribunal.

Irene recuou um passo e, em seu rosto protegido da visão da plateia, floresceu um sorriso de pura satisfação.

"Droga..." Teth pensou, afundando na cadeira e coçando a cabeça freneticamente. "Não podia ter começado pior."

Eliza continuava a gritar insultos, validando cada preconceito, cada pesadelo infantil que os Sonhos tinham sobre o "povo de baixo". Ela era a vilã perfeita que Irene encomendara.

A promotora esperou a histeria atingir o ponto de ebulição antes de lançar a isca final. Ela se virou lentamente para Teth, ignorando o caos, e falou com uma suavidade que cortou o barulho como uma navalha.

— Vê, Defensor? É disso que estamos falando. Essa é a natureza das pessoas de Gehenna. Ódio. Caos. Destruição.

Irene estalou os dedos. Um mapa holográfico surgiu no centro da arena, flutuando sobre as cabeças dos réus. Pontos vermelhos dominavam o tabuleiro estratégico.

— Por causa das ações deste grupo, os Cavaleiros Reais foram distraídos. Gehenna está vencendo o Jogo do Rei. Os Pesadelos têm mais Coroas. Estamos à beira da derrota total.

Ela caminhou até o palanque da defesa, ficando frente a frente com Teth. O garoto mordia o lábio, os olhos correndo de Eliza para o mapa, buscando desesperadamente uma saída lógica.

— É uma tragédia, Teth — sussurrou Irene. Baixo o suficiente para parecer íntimo, mas calculado para que os microfones captassem cada sílaba. — Um herói promissor como Dante... corrompido. Coagido por monstros. Forçado a sabotar seu próprio povo para dar vantagem a bestas como ela.

Ela inclinou a cabeça, os olhos fixos nos de Teth, brilhando com malícia inteligente.

— Não é mesmo, Defensor? Dante não faria isso por vontade própria. Ele foi... uma vítima, certo?

O tempo parou para Teth.

Irene estava lhe entregando a chave da cela. A única chave. Ele poderia concordar com a narrativa. Ele poderia salvar Dante pintando-o como um mártir manipulado. Mas o preço seria condenar Eliza, Rum e Uzumaki à morte imediata e confirmar que os Pesadelos eram o mal absoluto.

Teth olhou para Rum, quebrada. Para Uzumaki, vazio. Para Eliza, que ainda rosnava para o céu. O auto-ódio que ele carregava desde a infância borbulhou. Seria tão fácil ceder.

— Não... — Teth sussurrou, a voz trêmula. — Eu não acredito que esse tenha sido o caso.

Ele rejeitou a chave.

"Dante é amigo deles," pensou Teth, o suor frio escorrendo pela nuca. "Sejam eles Pesadelos ou não. Se eu os condenar agora, jamais conseguiremos construir uma ponte depois. Se eu quiser salvar Dante, preciso achar uma forma de salvar a todos. Nem que isso signifique afundar junto com eles."

Ele se levantou, ajeitando o colarinho com mãos trêmulas, mas voz firme.

— É verdade que temos problemas entre nós. É verdade que as palavras da ré podem confirmar seus preconceitos. No entanto, acredito que estamos sendo precipitados. Se houvesse um complô de Gehenna, onde estão os exércitos para resgatá-los? Além disso... a Arma do Apocalipse não é um brinquedo que se rouba de um bolso. Se alguém a levou, talvez fosse porque tinha o direito de portá-la. E, principalmente... de onde vem esse direito de julgar as intenções de alguém que nem sequer está presente?

Irene sorriu. O sorriso do gato que encurralou o rato.

— Então esse será o seu veredito, Defensor? — Ela lambeu o lábio inferior, os olhos brilhando de excitação.

No trono, a figura divina se moveu.

— Tragam o Réu Principal — ordenou Saga. Sua voz não admitia réplicas. — Vamos ouvir a verdade da boca da "vítima ou culpado". Tragam Dante.

Do outro lado da arena, os portões principais — colossais, feitos de ferro e ossos — começaram a se abrir com um gemido longo e agoniante de metal enferrujado.

Parte 4

O gemido agonizante dos portões de ferro e ossos cessou, deixando para trás um vácuo de silêncio absoluto na arena.

Nas arquibancadas, a multidão inclinou-se para a frente como uma onda única. Unhas manicuradas cravavam-se nos parapeitos de mármore, pupilas dilatadas esperando a visão de um monstro, um senhor da guerra blindado ou um carniceiro banhado em sangue.

O que emergiu da escuridão foi o silêncio da própria pele.

Dante caminhou para o centro do mármore polido sem uma única fibra de tecido sobre o corpo. Sua nudez era brutal, não por indecência, mas por honestidade. Sua pele era um mapa geográfico de violência: cicatrizes recentes, vergões de batalha e queimaduras de éter contrastavam violentamente com a "perfeição" de porcelana intocada dos cidadãos do Éden.

As únicas coisas que ele vestia eram as Luvas. Negras, pesadas, destoando do resto de sua figura exposta.

Ele não caminhava como um prisioneiro marchando para a forca. Seus passos eram leves, o calcanhar tocando o chão frio com uma indiferença tão profunda, tão absoluta, que o Grande Tribunal parecia ter sido reduzido ao seu quarto de vestir.

O choque atingiu a plateia como uma barreira física. Por um segundo, o ódio coletivo engasgou. Então, a repulsa social — a última defesa daquela elite decadente — explodiu em murmúrios escandalizados.

— Que ultraje! — guinchou um aristocrata, cobrindo os olhos da filha com uma mão trêmula.

— Ele enlouqueceu... a heresia não tem limites! — vociferou outro, desviando o olhar como se a visão queimasse.

No palanque da defesa, Teth sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Ele enterrou o rosto nas mãos, os dedos puxando os cabelos brancos com força, num gesto de puro desespero silencioso.

"Eu tentei..." pensou o advogado, sentindo uma gota de suor frio escorrer pela espinha. "Eu tentei vender a imagem de um herói trágico, de uma vítima das circunstâncias... e você entra assim?! Como eu defendo isso?!"

Abaixo, no nível da arena, a confusão era de outra ordem. Rum e Uzumaki, ainda de joelhos, olharam para cima com o cenho franzido. Suas mentes traumatizadas tentavam processar se aquilo era uma nova forma sofisticada de tortura psicológica ou um delírio coletivo induzido. Uzumaki, em seu vácuo apático, apenas piscou lentamente, os olhos vazios seguindo a linha das cicatrizes de Dante sem compreender.

Apenas Ludmilla quebrou a tensão de forma inesperada. Um som cristalino, curto e contido escapou de seus lábios: uma risada.

— Tinha que ser ele — murmurou ela para si mesma, cruzando os braços e ajustando a postura com um prazer renovado, os olhos brilhando de diversão. — Sempre escolhendo o caminho do absurdo.

Eliza, no entanto, foi quem recebeu o impacto direto. O rosto da Pesadelo, antes distorcido em uma máscara de ódio puro contra a plateia, agora mudava de cor violentamente. O sangue subiu às suas bochechas num tom de vermelho que competia com o céu sangrento acima.

Ela gaguejou, a mandíbula recém-liberta da mordaça tremendo, os olhos saltando do rosto de Dante para o chão, para o teto, para qualquer lugar que não fosse o centro dele.

— O-o que... o que diabos você está fazendo, seu idiota?! — ela sibilou, a voz oscilando entre a fúria e o constrangimento mortal. — Você perdeu o resto de juízo que tinha nessa cabeça oca?

Dante parou. Ele olhou para ela com uma calma desconcertante, ignorando os milhares de olhos sobre si.

— Minhas roupas anteriores eram feitas de Éter puro, Eliza — explicou ele, num tom didático, como se estivesse dando uma aula de física básica e não sendo julgado por traição. — Quando o reservatório de energia secou na floresta, a projeção falhou. Elas simplesmente... deixaram de existir.

— E por que não pediu algo aos guardas?! — ela gritou, a raiva agora superando a vergonha, os punhos cerrados nas correntes. — Eles não tiveram a decência de te dar nem um trapo de linho sujo?

— Ah, eles tentaram. — Dante deu de ombros, um gesto casual que enfatizou absurdamente sua nudez. — Mas as opções eram limitadas. Trouxeram um uniforme de prisioneiro com listras verticais pretas e brancas. Horrível. Aquilo acabaria completamente com o meu estilo. Preferi vir assim. É mais autêntico.

O silêncio que se seguiu foi quase cômico. A futilidade estética de Dante diante da iminência da execução era o golpe final na lógica rígida de Morpheus. O tribunal estava preparado para a guerra, não para a vaidade.

No topo do tribunal, Saga não piscou. A nudez de Dante não provocava nela nem desejo, nem repulsa; para uma entidade como ela, a carne era apenas um invólucro temporário. Ela cortou o clima de comédia com a precisão de um machado, sua voz de trovão abafando o burburinho.

— O Defensor questiona a sua intenção, Dante — disse Saga. Seus olhos fechados irradiavam uma luz fria que parecia ver através da pele exposta. — Ele sugere que talvez houvesse um "direito" ou uma coação por trás de seus atos. Responda diante do Reino de Cristal: Você foi manipulado por estas bestas? Ou você declarou guerra a este trono por vontade própria?

A brincadeira acabou.

Dante girou sobre os calcanhares, plantando os pés no chão. Seus olhos percorreram a arena lentamente. Ele viu Eliza, ainda ofegante de vergonha e raiva; viu Rum e Uzumaki, sombras quebradas de quem um dia foram; e viu Teth, o homem que se contorcia para salvá-lo de si mesmo. Por fim, seu olhar subiu para as arquibancadas, encontrando brevemente os rostos de Philia e Silence na multidão.

Dante sorriu. Não era o sorriso de um louco, mas o de alguém que acabara de encontrar a peça que faltava no tabuleiro e decidiu derrubar o Rei.

Vero... se quer a resposta verdadeira, então aqui está.

Sua voz mudou. O tom casual desapareceu, substituído por uma firmeza que ecoou em cada centímetro do coliseu, ricocheteando no mármore.

— Não. Ninguém me controla. Ninguém me coagiu. Eu roubei a Arma do Apocalipse por decisão minha. Eu ataquei Alone por vontade própria.

A plateia prendeu a respiração em um suspiro coletivo. No palanque, Irene inclinou-se para a frente, um sorriso predatório curvando seus lábios. Ele estava se condenando.

— Mas meu motivo não foi uma declaração de guerra — continuou Dante, a voz ganhando um peso de autoridade, uma gravidade que parecia emanar das luvas negras e de sua postura ereta. — Ele machucou meus amigos.

Ele deu um passo à frente, desafiando o trono.

— Sim, eles são Pesadelos. Mas eu não fiz o que fiz porque eles são de Gehenna. Eu tenho amigos entre os Sonhos também. E eu socaria qualquer um de vocês, qualquer nobre, qualquer deus ou qualquer Rei, se ousassem tocar neles. Eu não ligo para a raça, para a origem ou para a cor da alma. Sonho ou Pesadelo... para mim, não faz a menor diferença.

Ele ergueu o queixo, encarando a divindade cega no trono.

— Eu não estou aqui para derrubar seu reino, Saga. Estou aqui para proteger o que é meu.

O impacto foi devastador.

A narrativa cuidadosamente tecida por Irene — a de um herói corrompido ou de um invasor político — foi reduzida a cinzas por uma lógica tão simples que beirava a insolência.

Os cidadãos estavam confusos; o ódio deles, antes focado, agora não tinha onde se agarrar. Ele não era um traidor clássico, nem um mártir choroso. Ele era algo novo, algo que Morpheus não conseguia catalogar em seus livros de história.

Eliza olhava para ele, o peito subindo e descendo, a vergonha esquecida. Ela não reconhecia aquele Dante. O garoto irritante que ela conhecera estava sendo substituído, ali mesmo, por alguém resoluto. Alguém sem um pingo de hesitação, confortável em sua própria pele — literalmente.

Dante permaneceu ali. Nu, marcado e soberano no centro do caos. O jogo de xadrez mental de Irene e Teth não havia terminado; Dante apenas havia chutado a mesa e convidado a todos para jogarem pelas regras dele.

Parte 5

Irene não era uma mulher que aceitava perder o controle do seu palco.

Enquanto a plateia ainda murmurava, digerindo a lógica insolente e a nudez de Dante, a promotora começou a se mover. Ela deslizou pela arena com a elegância predatória de uma serpente, ignorando o réu como se ele fosse apenas um detalhe irrelevante na decoração, e focou seus olhos de fechadura em Ludmilla.

A cadeira da Testemunha pulsava. Runas antigas brilhavam em um tom azul-gélido no encosto e nos braços — a Veritas Absoluta, uma magia antiga que transformava qualquer mentira, qualquer omissão, em agonia física pura.

Irene inclinou-se sobre Ludmilla, invadindo seu espaço pessoal, o cheiro de incenso e perigo emanando de suas vestes de "freira".

— Diga ao tribunal, minha cara testemunha... — começou Irene, a voz aveludada pingando veneno doce. — Até onde os registros dos Cavaleiros Reais alcançam, você e o réu chegaram a esta cidade como folhas em branco. Sem memórias, sem passado, sem conexões.

Ela girou bruscamente para a plateia, abrindo os braços como se abraçasse a multidão.

— Como é possível que, em tão pouco tempo, ele tenha desenvolvido laços de "amizade" tão profundos com monstros de Gehenna? Não lhe parece... conveniente? Que uma mente vazia tenha sido preenchida por corrupção?

Irene voltou-se para Ludmilla, o sorriso desaparecendo.

— Me diga, com toda a dor e sinceridade que esta cadeira exige: O homem nu que está diante de nós é o mesmo garoto que você encontrou na floresta? Você pode afirmar, sob pena de perjúrio mágico, que ele não começou a agir de forma estranha? Quase... fabricada?

Ludmilla engasgou. A pressão mágica da cadeira apertou seus pulmões como um torno invisível. Ela olhou para Dante. Via aquele homem resoluto, despido de vergonha, exalando uma certeza inabalável e uma violência contida. Não... aquele não era o garoto bobo de Babylon.

Com um frio na espinha, Ludmilla percebeu a armadilha: Irene não estava atacando a moral de Dante; estava atacando sua sanidade.

— Ele... — A voz de Ludmilla falhou, as runas da cadeira queimando contra suas costas. — Ele mudou. Ele está... diferente.

A admissão caiu no tribunal como uma pedra em um poço fundo.

A plateia reagiu instantaneamente. O murmúrio cresceu, virando um rugido de validação. Se ele estava diferente, a amizade era lavagem cerebral. Se ele mudou, os Pesadelos o haviam "quebrado". O castelo de honestidade que Dante construíra começou a ruir sob o peso da suspeita de que ele era apenas um fantoche oco, preenchido pelas trevas de Gehenna.

Irene lambeu os lábios, os olhos brilhando. Ela podia sentir o gosto metálico da vitória.

Mas ela não contava com o desespero de um homem que já estava no fundo do poço.

— PAREM COM ESSA FARSA!

O grito de Teth rasgou o ar, tão cru e violento que até Saga abriu ligeiramente as pálpebras no trono.

O Defensor levantou-se com um solavanco, derrubando sua própria cadeira com um estrondo. Ele tremia, o suor encharcando a camisa, mas seus olhos brilhavam com uma determinação suicida. Ele sabia que as próximas palavras seriam sua salvação ou sua sentença de morte.

— Vocês o acusam de Traição ao Reino dos Sonhos! — Teth apontou um dedo trêmulo para Dante. — Mas traição é um crime político! Um crime cometido por súditos e cidadãos sob juramento! Dante não pode trair Morpheus... porque ele nunca pertenceu a Morpheus!

— Do que está falando, Defensor? — A voz de Saga ressoou, fria e absoluta como o vácuo estelar.

Teth engoliu em seco. Não havia volta.

— Ele é um Humano! — revelou Teth.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Mas ele não parou.

— E mais do que isso... os registros proibidos da Biblioteca Celeste o classificariam como um Grimm.

A palavra atingiu a arena como um impacto físico.

O ar ficou gélido. Para os habitantes da Cidade de Diamante, humanos eram mitos distantes. Mas "Grimm"? Aquilo era uma lenda sombria sussurrada para assustar crianças imortais. O predador natural. Aquele capaz de ver a verdade dentro da alma de sonhos e pesadelos. O caçador de sombras. O Bicho-Papão dos monstros.

Eliza, no chão da arena, arregalou os olhos, a respiração presa na garganta. Ela olhou para as costas de Dante com um misto de horror e compreensão. Por isso... por isso ele é tão diferente.

— Você pode provar tal afirmação absurda? — Saga perguntou. Sua aura de pureza tremeluziu com uma intensidade perigosa, o ar ao redor do trono vibrando.

— Eu coloco minha posição, meu título de Cavaleiro Real e minha própria vida como garantia — Teth respondeu. Sua voz parou de tremer. Agora, era aço. — Se eu mentir, que meu Éter seja disperso ao vento e minha existência apagada.

Saga silenciou-se. A arena inteira parecia ter parado de respirar. A aposta de Teth era alta demais — uma Alma por uma Verdade.

A palavra "Grimm" não apenas ecoou; ela pareceu sugar o calor da arena. Nas arquibancadas, os nobres que antes gritavam insultos agora se encolhiam, tomados por um instinto ancestral de presa diante de um predador. Era uma pausa tectônica. Teth permanecia com o braço estendido, o suor frio escorrendo por sua têmpora, sentindo o peso da própria existência pendurada por um fio jurídico.

— Se ele for de fato um Humano e um Grimm... — A voz de Saga decretou, selando a nova realidade. — As leis de traição de Morpheus não se aplicam a ele. Ele é uma Entidade Estrangeira Soberana. As acusações de traição estão revogadas até a comprovação biológica.

Dante franziu o cenho, a confusão genuína estampada em seu rosto pela primeira vez. "Grimm? O que diabos é isso?", pensou ele, coçando a nuca, alheio ao peso mitológico que acabara de cair sobre seus ombros nus.

— Caso seja provado o contrário — continuou Saga —, você, Teth, e o réu enfrentarão a Execução da Alma imediatamente.

O silêncio voltou a reinar. Teth desabou, apoiando-se na mesa, ofegante. Ele havia conseguido. Havia ganhado tempo.

Mas então, uma risada baixa, rouca e provocante cortou a tensão.

Irene.

Ela não parecia abalada pela reviravolta jurídica. Pelo contrário... ela parecia excitada. Seus olhos brilhavam com uma luxúria intelectual perturbadora.

— Muito bem, Defensor. Uma jogada brilhante. — Ela bateu palmas, o som lento e sarcástico. Ajustou o hábito de freira com um gesto lúbrico, realçando as curvas. — As acusações de traição caíram. Tecnicamente, ele não traiu um rei que não é dele.

Ela caminhou até o centro da arena, parando a poucos metros de Dante. A malícia em seu olhar desafiava a própria divindade de Saga.

— Mas... — Irene sorriu, e o sorriso não chegou aos olhos.

Ela girou, apontando para o mapa holográfico e depois para os prisioneiros.

— Ele ainda admitiu ter roubado a Arma do Apocalipse. Ele admitiu ter atacado o Lorde Alone. Ele admitiu ser cúmplice de monstros. O crime de traição pode ter evaporado, mas o crime de Guerra e Destruição permanece.

Ela se aproximou de Teth, sussurrando alto o suficiente para que todos ouvissem:

— E quanto aos outros? O que faremos com as "bestas" de estimação agora que seu "dono" se revelou um mito intocável?

Irene sorriu para Dante. Não era um sorriso de derrota. Era um sorriso que prometia uma tortura muito mais refinada do que meras correntes. Ela havia permitido que Teth sentisse o gosto da esperança, que sentisse que estava virando o jogo... apenas para mostrar que, naquele tabuleiro, ela movia as peças brancas e as pretas.

Xeque — sussurrou ela.

Parte 6

Irene não recuou diante da revelação. Pelo contrário, ela se empertigou, a coluna ereta como a de uma cobra pronta para o bote. Seus olhos brilharam, não com medo, mas com a astúcia predatória de quem acaba de receber um presente inesperado.

Ela caminhou lentamente. O som de seus saltos estalando no mármore era o único ruído na vasta arena, marcando o tempo como um metrônomo fatal. Parou no centro, banhada pela luz fraturada do céu que se desfazia acima.

— Um Grimm... — ela sussurrou. A acústica do tribunal carregou sua voz, transformando o sussurro em um decreto que alcançou cada ouvido nas arquibancadas. — Se ele é um Grimm, então nossa perspectiva deve mudar drasticamente. Eu não estaria sendo justa, e meu único senhor é a Justiça, se não reavaliasse os fatos.

Ela abriu os braços para a multidão, oferecendo um sorriso que transbordava uma benevolência tóxica.

— Se ele não é um de nós, então suas ações passadas não foram somente atitudes comuns... foram atos de heroísmo puro em defesa dos Sonhos! Lembrem-se, cidadãos! Foi este homem que salvou a cidade de Wonder. Lembram-se do incidente do Massacre de Gelo?

O golpe foi cirúrgico. No palanque da defesa, Teth sentiu o sangue drenar de seu rosto. Ele guardava o incidente de Wonder como uma carta de redenção, mas Irene a roubara. Ela não estava elogiando Dante; ela estava jogando sal grosso em uma ferida aberta.

— Foi este "herói" — continuou Irene, girando para encarar os réus ajoelhados — que massacrou o terrorista sem piedade para salvar nossas mulheres e crianças.

Atrás de Dante, o impacto foi físico.

Rum soltou um som agudo, um ganido estrangulado de dor. O nome não precisava ser dito. Snow. Seu irmão. A morte dele era o buraco negro em seu peito que nunca parava de sugar sua energia. Eliza começou a tremer violentamente, as correntes tinindo enquanto ela levava as mãos algemadas ao coração, como se tentasse impedir que ele se partisse. Elas conheciam Dan, a criança inocente. Mas ouvir, daquela forma crua e celebrada, que o homem à frente delas era o carrasco da família... foi como ser esfaqueada pelas costas em pleno tribunal.

Eliza ergueu a cabeça, os olhos marejados fixos nas costas nuas e marcadas de Dante. Ela não queria a versão de Irene. Ela precisava da verdade, mesmo que a verdade a destruísse.

Irene percebeu o olhar. Ela fechou o cerco, parando a centímetros do rosto de Dante.

— Snow era um membro deste grupo que você agora diz proteger, não era? — A voz dela era um sussurro íntimo, cruel. — Diga-me, "Herói"... agora que está diante deles, agora que não é mais o garoto confuso, mas este homem "diferente"... você se arrepende? Se arrepende de ter lutado contra o irmão dela e o matado?

Dante não desviou o olhar. Ele não buscou refúgio na amnésia ou na confusão do calor da batalha. Ali, exposto em carne e alma, ele assumiu o peso de todas as suas versões.

Vero... — A palavra saiu pesada, sólida. — Eu não vou fugir. E não vou negar.

A arena prendeu a respiração.

— Realmente, fui eu quem o matou. — A voz de Dante era estável, desprovida de autocomiseração, mas carregada de uma tristeza antiga. — O sangue dele está nas minhas mãos. Não posso fingir que não fiz.

O choque na Tromluí foi devastador. Rum fechou os olhos com força, os dentes rangendo tão alto que podiam ser ouvidos, uma raiva negra borbulhando, ameaçando transbordar em Éter. Uzumaki permaneceu estático, morto por dentro; ele já suspeitava desde a captura, mas a confirmação era um prego no caixão. E Eliza... Eliza parecia estar desmoronando, as lágrimas traçando caminhos claros através da fuligem em seu rosto.

— Não distorça a verdade!

O grito cortou a tensão como vidro quebrando.

Ludmilla levantou-se da Cadeira da Verdade, lutando contra a magia que tentava mantê-la sentada. Seu rosto estava inflamado, veias saltando no pescoço.

— Ele lutou contra Snow, sim! Mas ele fez isso porque Snow estava massacrando inocentes! — Ela apontou para a plateia, acusatória. — Crianças e cidadãos estavam sendo congelados e despedaçados na nossa frente! Dante nem sequer queria matá-lo! Ele apenas tentou fazer com que ele parasse! Ele não controlava o próprio poder, ele...

— SILÊNCIO.

Não foi um grito. Foi uma ordem da realidade.

O Éter de Saga desceu sobre a arena como uma mão gravitacional invisível. Ludmilla foi violentamente empurrada de volta contra o assento, o ar expulso de seus pulmões com um baque surdo. A autoridade da santa era absoluta; até a luz parecia se curvar diante de sua voz.

— Não se intrometa sem ordem, Testemunha — declarou Saga, imóvel no trono. — Mais um arroubo emocional e sua posição passará de espectadora para condenada.

Ludmilla bufou, lutando para respirar, os ombros tremendo de impotência e fúria. Mas antes que ela pudesse arriscar a vida novamente, Dante ergueu a mão enluvada.

— Está tudo bem, Ludmilla — disse ele, suavemente. — Obrigado.

Ele se virou para ela, um sorriso triste nos lábios.

— Mas isso não muda o fato. Eu tive meus motivos. Eu queria salvar as pessoas. Mas fui eu quem deu o golpe final. Eu carrego essa responsabilidade. Eu não vou virar as costas para o que fiz, nem vou me arrepender de ter protegido quem não podia se defender.

Então, ele girou sobre os calcanhares para encarar os Pesadelos. Ele não se ajoelhou. Ele permaneceu de pé, nu e resoluto, oferecendo a eles a única coisa que tinha: sua honestidade.

— Não peço que me perdoem. E não peço que esqueçam. Isso cabe a vocês. Mas... — Dante fez uma pausa, e pela primeira vez, a armadura de sua indiferença rachou. Sua voz amoleceu. — Eu desejava que as coisas tivessem sido diferentes. Queria ter podido terminar aquela luta conversando com ele. Tentei entendê-lo... mas falhei. Sinto muito por como tudo acabou.

O efeito na Tromluí foi complexo.

A raiva de Rum não desapareceu, mas perdeu o fio cortante assassino. Uzumaki olhou para o chão, os punhos relaxando milimetricamente; ele conhecia Snow melhor do que ninguém. Sabia que, no fim, Snow era apenas uma casca oca consumida pelo ódio, um monstro disposto a chacinar crianças para alimentar sua vingança. No fundo, eles sabiam que Ludmilla dizia a verdade. Snow pedira pela morte.

— Eu não vou... — A voz de Eliza saiu quebrada, um soluço molhado.

Ela limpou o rosto agressivamente com o ombro, tentando parar as lágrimas. Ela olhou para Dante, e depois para a plateia de Sonhos que assistia à dor deles como se fosse teatro.

— Eu não vou te odiar, Dante. Não vou ficar presa nesse ciclo de merda.

Ela estava repetindo, quase como um mantra desesperado, as palavras que Uzumaki lhe dissera certa vez. A dor ainda estava lá, profunda, latejante e viva. Mas a decisão consciente de não transformar Dante em um monstro, de não se tornar igual aos seres nas arquibancadas, era o que a mantinha humana.

Dante assentiu, solene.

O silêncio que se seguiu não era o de um tribunal, mas o de um cemitério. Naquele instante, a poeira que dançava sob a luz sangrenta do céu parecia pesar toneladas sobre os ombros de Dante. Ele não olhou para a plateia em busca de validação; ele manteve os olhos em Eliza, testemunhando o exato momento em que o coração da garota se estilhaçava e se reconstruía em uma forma nova, mais endurecida, mais real.

— Obrigado.

A plateia e os jurados entraram em um impasse mental. O ar estava pesado com a complexidade moral.

A honestidade brutal de Dante — o fato de ele ter matado um aliado dos Pesadelos para salvar Sonhos — destruía completamente a tese de Irene de que ele era um fantoche de Gehenna. Mas ele também se recusava a ser o "cidadão modelo" que Teth queria vender. Ele estava em solo neutro. Um Grimm. Um juiz que caminhava entre os dois mundos.

Teth e Irene perceberam ao mesmo tempo, trocando um olhar rápido: o tabuleiro estava zerado. As peças de "Traição" e "Manipulação" haviam sido varridas da mesa. Agora, restava o jogo final: o que a Lei de Morpheus faria com uma entidade que não podiam rotular?

Parte 7

Saga ergueu a mão direita. O gesto foi sutil, mas a resposta do ambiente foi violenta.

O ar na arena tornou-se subitamente denso, irrespirável, como se a gravidade tivesse dobrado de intensidade. As partículas de luz que flutuavam no tribunal paralisaram. A revelação de que Dante era um Grimm mudara o peso da balança jurídica, mas não a inclinação da lâmina do carrasco.

— Sua natureza é incompatível com a Ordem, Dante — a voz de Saga não ressoou apenas nos ouvidos, mas nos ossos de todos os presentes. Fria. Absoluta. — As probabilidades estatísticas para sua sobrevivência estão se esgotando.

Saga inclinou o corpo levemente para frente no trono. Seus olhos fechados pareciam ver cada pecado cometido.

— Mesmo que sua neutralidade tenha sido provada, seus crimes permanecem. Como Grimm, você é uma entidade instável; como portador de uma Arma do Apocalipse alinhado a Pesadelos, você é um risco sistêmico inaceitável.

Ela fez uma pausa, deixando o silêncio pesar.

— No entanto, para ser justa com seu desejo ilógico de proteger este grupo, ofereço um veredito de troca: posso transferir a totalidade das penas dos Pesadelos aqui presentes para a sua alma. Eles seriam inocentados, limpos e libertados sob custódia do Reino.

Um murmúrio de choque varreu a plateia, mas Saga o cortou com a conclusão da sentença:

— Em troca, sua sentença será a Execução Preventiva Imediata.

Dante baixou a cabeça. Ele olhou para as próprias mãos, envoltas nas Luvas do Apocalipse. O couro negro parecia absorver a luz ao redor.

Vero… De fato... — murmurou ele, a voz baixa, contemplativa. — Não parece uma proposta ruim.

O choque percorreu o tribunal como um curto-circuito elétrico.

O público, que começava a ver naquele homem estranho um baluarte contra o caos do céu, engasgou. Na cadeira de testemunha, os músculos de Ludmilla retesaram com a tensão de uma corda de violino prestes a arrebentar; sua mão buscou instintivamente o cabo de uma espada que não estava lá. Se ele dissesse "sim", ela pularia naquela arena e enfrentaria a Guarda Real sozinha para arrastá-lo para fora.

— Não!

O grito de Eliza rasgou o silêncio denso.

Ela se jogou contra as correntes, o metal cortando seus pulsos, o rosto banhado em lágrimas e pânico puro.

— Eu não aceito isso! — ela berrou, a voz falhando. — Se você fizer isso... se você morrer para comprar nosso perdão... eu nunca vou te perdoar, Dante! Eu não quero mais ninguém morrendo por causa desse ódio maldito!

Dante levantou o rosto. Ele olhou para ela e sorriu.

Não era o sorriso arrogante de antes, nem o sorriso triste de um mártir. Era um sorriso calmo, quase paternal, o tipo de expressão que se usa para dizer a uma criança que os monstros debaixo da cama não existem.

— Calma, Eliza — disse ele suavemente. — Eu disse que a proposta não era ruim... mas eu não terminei de falar.

Ele girou o corpo, encarando o trono de Saga. Sua postura mudou. Os ombros relaxaram, o queixo se ergueu. A aura de um condenado desapareceu, substituída pela presença de um igual.

— Eu me recuso.

A resposta ecoou, desafiando a gravidade da Santa.

Dante não gritou a recusa; ele a proferiu com a naturalidade de quem declara que o sol nascerá amanhã. Naquele momento, a nudez de Dante deixou de ser uma marca de humilhação para se tornar o manto de um imperador que não precisa de seda para provar seu valor.

— Há um tempo, talvez... talvez o Dante antigo aceitasse esse caminho. Seria poético. Seria fácil. — Ele fechou os punhos. — Mas o "eu" de agora decidiu carregar tudo. As responsabilidades, os pecados, os deveres e as promessas que todas as minhas versões fizeram. E para cumprir isso, eu não posso morrer aqui.

Ele deu um passo à frente, nu e desarmado, mas parecendo maior do que qualquer guarda blindado.

— Escolher o sacrifício seria a fuga definitiva. Mas eu decidi que vou viver. Eu, e todos que estão aqui atrás de mim. Afinal...

Ele virou o rosto por cima do ombro, travando os olhos nos de Eliza.

— Eu ainda tenho uma promessa para cumprir com você. Lembra?

O tempo parou para Eliza. A imagem do pequeno Dan, com seu sorriso inocente, sobrepôs-se à figura do homem cicatrizado à sua frente. O choro de desespero travou em sua garganta, transformando-se em um soluço molhado de alívio e uma alegria dolorosa.

No palanque da defesa, Teth afundou na cadeira, sentindo o coração martelar contra as costelas. Para o tribunal, aquilo não era heroísmo; era insolência. Dante acabara de cuspir na misericórdia da Santa. Ele se colocou na mira da aniquilação.

Irene, no entanto, viu a oportunidade.

Seus olhos de serpente brilharam. Ela sabia que Ludmilla estava próxima, sabia que os sentidos da "Testemunha" eram aguçados. Irene virou-se ligeiramente, sussurrando para o ar como se lamentasse consigo mesma:

— Uma pena... — A voz dela foi projetada com precisão cirúrgica. — Gehenna vai adorar isso. Com o único capaz de usar a XV-Caliber morto, nossos cavaleiros reais ocupados protegendo as fronteiras e os Pesadelos vencendo o Jogo das Coroas... Se ao menos tivéssemos alguém desconhecido para invadir o reino deles e equilibrar o jogo, talvez os crimes de Dante pudessem ser irrelevantes.

O instinto de Ludmilla disparou como um gatilho.

Ela viu a fresta na armadura impenetrável do tribunal. A lógica.

— Por favor, Juíza!

Ludmilla levantou-se bruscamente. A cadeira da verdade rangeu. O movimento foi tão abrupto que os guardas ao redor levaram as mãos às lanças. Ela sabia que estava desafiando a ordem direta de silêncio de Saga, sabia que podia ser esmagada pela gravidade num piscar de olhos.

Saga hesitou. A mão divina parou no ar.

Por trás de sua máscara de ordem absoluta, a Santa sentia uma curiosidade intelectual avassaladora pelos humanos. A raridade de um Grimm já era fascinante; a ousadia de outro humano a intrigava. Se havia uma alternativa lógica que preservasse seus recursos, ela ouviria.

— Fale, Testemunha. Mas escolha suas palavras com sabedoria.

Ludmilla respirou fundo, projetando a voz para toda a plateia, assumindo a postura de uma general em campo.

— Dante é um humano e um problema para vocês. Mas eu também sou humana! — declarou ela, firme. — E ao contrário dele, eu não tenho conexões emocionais com Gehenna. Eu sou tão forte quanto ele, e entendo que as ações dele desequilibraram a guerra.

Ela caminhou até a beira do parapeito, olhando diretamente para Saga, oferecendo a si mesma como a peça que faltava no tabuleiro quebrado.

— Vocês precisam de equilíbrio. Se me deixarem ir até lá, eu resolvo o problema do Jogo das Coroas. Eu caçarei os Pesadelos. Eu coletarei o suficiente para equilibrar a balança. Se eu fizer isso, as ações passadas de Dante deixam de ser um desastre estratégico e se tornam apenas um detalhe.

Ela apontou para Dante e depois para si mesma.

— Não o matem. Usem-me para consertar o que ele quebrou.

Parte 8

O silêncio que sucedeu à proposta de Ludmilla não foi de dúvida. Foi o silêncio de uma engrenagem cósmica calculando trilhões de variáveis em um nanossegundo.

Do alto de seu trono, Saga processava a realidade com a frieza de um diamante. Executar um Grimm traria a segurança do silêncio, sim. Mas perderia a chance única de estudar a maior anomalia biológica que Morpheus já registrara. E, estrategicamente, ter a vida de um Grimm na palma da mão era ter uma coleira curta no pescoço de Ludmilla — uma peça de combate que a Santa agora cobiçava.

Saga levantou-se.

O movimento foi simples, mas sua aura expandiu-se violentamente, preenchendo o coliseu como gás sob pressão, até que cada cidadão sentisse o peso físico de sua Vontade Soberana.

— O cálculo foi concluído — a voz dela ecoou, não como som, mas como lei. — E o veredito de Éden é este.

Saga fixou seus olhos cegos em Dante, que permanecia nu, imóvel e desafiador.

— Dante. Você será selado na Biblioteca Celestial. Você deixa de ser um prisioneiro comum para se tornar um Objeto de Estudo e uma Garantia de Estado.

Ela desceu um degrau do estrado, a curiosidade científica transbordando em seu tom monocórdico.

— Você será o peso que manterá a lealdade desta "Testemunha". Além disso... precisamos dissecar sua existência. Precisamos entender por que a Santa Silence o reconheceu como uma cria de Astreus quando sua carne é humana. E, acima de tudo, precisamos compreender como este "Tempo" que você trouxe infectou nossa realidade estática. Eu mesma serei sua carcereira. Eu pessoalmente conduzirei as pesquisas em sua alma para proteger Morpheus das consequências de sua respiração.

Ela girou o dedo, apontando para Ludmilla e Eliza.

— Ludmilla, você deseja salvar este homem? Então você será nossa lâmina. Mas como é estrangeira em terras hostis, não irá sozinha. Eliza, o cão raivoso da Tromluí, será sua guia e parceira.

Eliza rosnou, o som vibrando na garganta, o ódio de ser usada colidindo com o medo de perder Dante.

Ludmilla, porém, lançou-lhe um olhar — firme, imperativo — que a manteve no lugar. Resista, diziam os olhos dela.

— Vocês são agora nossos Cães de Caça — decretou Saga. — Sua missão é invadir Gehenna e recuperar as Coroas. Os antigos Lordes Pecados despertaram e estão acumulando poder; vocês devem tomá-lo. Se falharem, ou se o pensamento de traição cruzar suas mentes... o coração do Grimm parará de bater nas estantes da Biblioteca.

Saga virou-se então para o palanque da defesa.

— Rum. Você escoltará o diplomata até a fronteira. Precisamos da visão da Bruxa Isobel sobre este céu quebrado e sobre os boatos de uma "antiga ameaça" que retorna das sombras. Como não podemos mover exércitos sem declarar Guerra Total, enviaremos apenas uma embaixada de dois.

Seus olhos "pousaram" em Teth. O advogado estremeceu, sentindo o frio subir pelos pés.

— Teth. Você será esse diplomata. Suas ações hoje foram motivadas por crenças, mas a desordem que causou ao desafiar o tribunal exige retificação. Agora que Lorde Alone desapareceu, você é o único com autoridade e conhecimento para essa viagem. Volte para o lugar que você tanto despreza e faça seu trabalho.

— E Uzumaki — Saga disse o nome como se fosse sujeira na língua. — Você é irrelevante. Não é líder, não é o acusado principal, não é o ladrão do mapa. Sua ficha é um borrão sem importância. Como prova de "boa fé" à cooperação de seus amigos, você tem liberdade total. Suma para onde quiser.

Finalmente, ela olhou para a pequena jaula dourada que fora trazida, vazia, no início do julgamento.

— A criança, Yukina, será mantida sob custódia na Cidade de Diamante. Ela não sofrerá maltrato, mas será o selo final da lealdade de Rum e Eliza. Quando as Coroas voltarem, a criança será devolvida.

A atmosfera no tribunal mudou. O ódio quente da multidão esfriou em uma resignação tensa e obediente.

Teth desabou em sua cadeira, as pernas cedendo. A ironia era um gosto amargo na boca: ele lutara a vida toda para fugir de seu passado em Gehenna, e agora estava sendo enviado de volta para o olho do furacão.

Seus olhos correram para Irene. A promotora não parecia frustrada. Pelo contrário, ela ajeitava seus papéis, lambendo os lábios com uma satisfação contida. Um alarme disparou na mente de Teth. Isso está errado. Irene poderia ter destruído Dante ali mesmo, mas permitiu esse acordo. Por que ela queria Ludmilla longe? E, pior... por que ela queria Dante trancado sozinho com Saga?

A pergunta o assombrava, mas o martelo já havia batido.

A atmosfera no tribunal mudou, mas não se estabilizou imediatamente. O silêncio da sentença foi quebrado por um zumbido de inquietação, uma colmeia perturbada.

— Um Grimm... mantido vivo dentro dos muros sagrados? — sussurrou uma dama da primeira fila. Seus dedos, envoltos em luvas de renda, apertavam o leque com tanta força que as hastes de madrepérola estalaram, partindo-se ao meio. — E vamos depender daquelas... coisas imundas de Gehenna para nos salvar?

— É perigoso demais — retrucou o nobre ao seu lado. — A Santa está arriscando a pureza da Cidade de Diamante. E se ele se soltar? E se os Pesadelos nos traírem pelas costas? Eles não têm honra!

A dúvida pairava no ar, densa, tóxica e contagiosa. O medo instintivo daquelas criaturas de "luz" lutava violentamente contra a ordem recém-imposta. O tecido social estava prestes a rasgar.

Mas então, como um mecanismo de defesa coletivo, a racionalização começou a surgir. O instinto de rebanho falou mais alto.

— Não seja tolo.

A voz firme veio de um sacerdote menor, cortando os murmúrios histéricos. Ele se ergueu, ajeitando a túnica com uma calma que parecia forçada, mas necessária.

— Se a Ordem decidiu, então o Rei sancionou. Vocês acham que a Grande Saga ou a Promotora Irene agiriam um milímetro sequer sem a Vontade Dele?

A frase agiu como um sedativo potente injetado diretamente na veia da multidão.

— Tem razão... — concordou outro, a tensão nos ombros relaxando visivelmente, como se um peso físico tivesse sido removido. — Se os Cavaleiros Reais estão no comando, o Rei está ciente. O Trono nunca erra. O Pastor sabe o que faz com seu rebanho.

— Louvado seja o Rei — murmurou um terceiro, de olhos fechados.

— Louvado seja o Rei — repetiu a dama do leque quebrado.

E logo o mantra se espalhou, baixo e constante, abafando o medo sob uma camada de fanatismo reconfortante.

Ludmilla observou a cena do centro da arena, e um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura percorreu sua espinha. Ela viu a transição acontecer em tempo real: o pânico individual sendo engolido e digerido pela fé cega no sistema.

"Sério? Tão rápido assim?", pensou ela, incrédula, os olhos semicerrados de desprezo e fascínio. "Não... eles não mudaram de opinião. O medo ainda está lá, eu consigo ver pulsando na jugular deles. Mas a confiança que eles têm nesse 'Rei' é tão absoluta que supera até o instinto básico de sobrevivência."

Ela desviou o olhar da multidão hipnotizada e varreu o tribunal, procurando uma presença que não estava lá.

"Quem é esse Rei, afinal? O mundo dele está desmoronando, o céu sangra uma cor que não deveria existir, um Grimm lendário aparece no seu quintal, e ele nem sequer se digna a mostrar o rosto?"

Seu olhar tático recaiu sobre a postura divina e imóvel de Saga no trono, uma estátua de poder inalcançável, e depois deslizou para o sorriso venenoso e confiante de Irene, que recolhia seus papéis como quem acaba de vencer uma partida de pôquer.

"Será apenas arrogância dele?" Ludmilla questionou-se, sentindo o peso da missão que acabara de aceitar. "Ou será que ele confia tanto nessas duas peças para manter o controle do tabuleiro que sua presença se tornou obsoleta?"

A submissão da multidão finalmente se solidificou.

Começou com uma palma. Depois outra. E então, o Grande Tribunal foi preenchido por aplausos polidos. Um som rítmico, civilizado, oco e aterrorizante.

Eles não aplaudiam a justiça. Aplaudiam a ilusão de segurança que selava o destino de todos.

A Tromluí estava em frangalhos. Rum encarava o chão, quebrada, ensaiando mentalmente como contaria à esposa e filha de Dumpt que o pai delas não voltaria, tudo isso enquanto se preparava para uma missão diplomática suicida ao lado de um Sonho em quem ela não confiava.

Os guardas de cristal avançaram. Lanças de luz formaram um corredor estreito e cintilante.

Dante estendeu os pulsos. Grilhões de Éter puro, brilhando com a mesma luminescência azulada da Biblioteca Celeste, fecharam-se ao redor dele.

Escoltado, nu e marcado, ele começou sua marcha para o confinamento. Mas, no meio do caminho, ele parou.

Ele estava diante de Ludmilla.

Por um segundo, o rugido da plateia, o choro de Eliza e o tique-taque dos relógios pareceram desaparecer. Dante olhou nos olhos do "Príncipe" com uma suavidade que Ludmilla jamais vira naquele rosto cínico. Não havia medo. Havia apenas uma confiança pesada, depositada sobre os ombros dela como um manto real.

— Vou estar esperando por você, então... Príncipe — sussurrou ele. A voz baixa, rouca, um segredo partilhado no meio da tempestade. — Por favor... proteja-a.

Dante voltou a caminhar. Sua figura pálida atravessou o arco de mármore, sendo engolida pelas sombras que levavam às profundezas da Biblioteca.

BOOM.

Os portões colossais, gravados com as leis fundamentais da realidade, fecharam-se com um estrondo que fez o chão de toda Morpheus tremer.

Ludmilla permaneceu parada no centro da arena vazia. O céu acima dela continuava a sangrar índigo, e o som do tique-taque... tique-taque... agora batia no ritmo de seu próprio coração.

Ela era uma humana. Em um mundo de sonhos hostis. Com a vida de um Grimm em suas mãos e o inferno de Gehenna em seu horizonte.

O julgamento acabou. A guerra, no entanto, acabou de mudar de face.

Parte 9

Se a Cidade de Diamante era uma pintura de lavanda que começava a derreter, Tyre era uma ferida exposta que gangrenou antes de receber o primeiro ponto.

O contraste da travessia foi um soco no estômago.

No segundo em que a fronteira invisível foi cruzada, o ar rarefeito e imaculado de Morpheus desapareceu, substituído por um miasma denso, quase sólido, que impregnava a língua com o gosto metálico de ozônio queimado e carne em decomposição. Em Tyre, a infame "Cidade dos Espelhos", a luz não vinha de um domo divino de safira. Ela emanava de baixo para cima: uma bioluminescência tóxica, verde e roxa, que borbulhava dos bueiros fumegantes e de letreiros de neon falhos, piscando em espasmos de um moribundo.

O céu de Gehenna não sangrava índigo melancólico. Ele vomitava.

Uma substância negra e viscosa, espessa como óleo de motor velho, despencava das nuvens de fuligem. A chuva não lavava as ruas; ela as manchava, tamborilando sobre os telhados infinitos de zinco e sucata em um ritmo metálico, incessante e enlouquecedor.

Historicamente, Tyre sempre fora a Capital da Inveja. Era uma metrópole construída sobre o rancor: se as Cidades dos Sonhos erguiam um monumento à paz, Tyre levantava dois monumentos à guerra, mais altos e mais pontiagudos, apenas pelo prazer de projetar uma sombra sobre o vizinho. Era o labirinto das vitrines infinitas e da espionagem mútua, onde cada habitante era o carcereiro da vida alheia.

Mas agora, os espelhos estavam quebrados.

A fina camada de civilidade de Gehenna — que sempre foi apenas um fio de seda esticado sobre um abismo de dentes — rompeu-se com o estalo do Tempo.

Enquanto a elite de Éden se ajoelhava em preces covardes e aplausos polidos, os Pesadelos reagiram com a única linguagem que sua biologia compreendia: a violência absoluta. O retorno da mortalidade não trouxe reflexão filosófica; trouxe urgência. A "lei do mais forte" ganhou um cronômetro frenético, e ninguém em Tyre planejava ser o último a ser devorado.

As ruas tornaram-se um mosaico de anarquia viva.

No nível do asfalto rachado, gangues de monstros menores — criaturas de pele cinzenta, mandíbulas alongadas e costelas aparentes — não lutavam mais por honra, território ou pelo Jogo do Rei. Eles se atracavam na lama oleosa por um naco de carne fresca ou por um "latão de fogo" que oferecesse o mínimo de calor contra a chuva negra.

Os arranha-céus de luxo, antes símbolos de status e moda gótica, agora eram carcaças esqueléticas, saqueadas e pichadas com glifos de proteção que não funcionavam. O som era uma tortura auditiva: sirenes de defesa civil, que nunca desligavam, misturavam-se aos uivos guturais e lamentos dos Pesadelos, criando uma sinfonia dissonante — a música fúnebre e industrial da Cidade Meia-Noite.

Mais ao centro, o colapso deixava de ser social para ser institucional.

Isolde, a fortaleza que servia de cidade-abrigo, estava sendo asfixiada. Milhares de refugiados — Pesadelos de castas baixas, crianças feitas de sombras trêmulas e idosos compostos de fumaça densa — esmurravam os portões de ferro. Eles fugiam de seus próprios lares, fugiam de seus vizinhos. Buscavam a proteção da Rainha, imploravam por ordem, mas encontravam apenas portões trancados.

A traição real, no entanto, vinha de cima. Dos cumes das torres.

Os Lordes Pesadelos, os pilares que deveriam sustentar a abóbada de Gehenna, haviam abandonado qualquer pretensão de aliança ou governança. Em seus distritos fortificados, protegidos por campos de força que zumbiam, eles agiam como senhores da guerra feudais.

Em vez de protegerem o povo da chuva de óleo e do tempo que corria em suas veias, eles usavam seus exércitos particulares para caçar as Coroas uns dos outros. Era uma guerra civil de ferocidade canibal.

A Rainha estava sozinha em seu trono de espinhos, isolada no topo do mundo, enquanto, abaixo dela, seus generais transformavam o Reino das Sombras em um matadouro particular. O sagrado "Jogo do Rei" deixara de ser uma competição estratégica para se tornar uma corrida desenfreada rumo ao abismo.

Tyre não estava apenas morrendo. Como um animal preso em uma armadilha, ela estava se devorando viva antes que o Tempo pudesse terminar o serviço.

Parte 10

Se a Cidade de Diamante era regida pela estática da perfeição, o Palácio de Isolde era movido pela cinética do colapso.

Dentro da Cidade Forte, o silêncio tornara-se um luxo extinto. O gabinete da Rainha Isobel não apenas "estava ocupado"; ele rugia. O ar vibrava com o trinado histérico de telefones de campo analógicos, o chiado de hologramas táticos falhando e o som físico, pesado, de pilhas de relatórios sendo jogadas sobre a mesa de carvalho negro.

Isobel não parecia uma monarca em um trono. Parecia uma general entrincheirada no último bunker. Seus olhos, antes conhecidos pela astúcia afiada, agora eram fendas escuras cercadas por olheiras que nem a magia de ocultação de Gehenna conseguia mascarar.

— Mais trezentos refugiados de Tyre forçando o Portão Sul, Majestade — anunciou a secretária. Ela era uma sombra esguia, movendo-se com uma eficiência mecânica que contrastava com o caos humano ao redor. — Eles trazem relatos de que o Distrito Industrial caiu. Foi tomado por carniceiros.

Ao lado da mesa de estratégias, um garoto moreno de cabelos pretos desalinhados estava encostado na parede, limpando as unhas com uma adaga. Seus olhos brilhavam com a malícia de quem aprendeu a andar fugindo de predadores. Aquele era Luka, o líder não oficial da periferia de Isolde, um rato de esgoto que comandava os becos com a mesma autoridade com que Isobel comandava o reino.

Ele descruzou os braços, a adaga parando no ar.

— Você está cometendo um erro tático, Majestade — ele sibilou. Sua voz carregava o pragmatismo cruel das ruas. — Deixar essa gente entrar é importar o caos. Isolde tem muros altos, mas não tem estômago para alimentar o mundo inteiro. Minha gente já está começando a rosnar. Se o espaço acabar, eles vão parar de pedir e começar a morder.

— Se eu fechar os portões, estarei assinando o atestado de óbito da nossa espécie — rebateu Isobel, a voz rouca, sem desviar os olhos dos mapas manchados de tinta e café. — Não vou governar um cemitério. E os Lordes? Alguma resposta ao meu Código Vermelho de mobilização?

A secretária hesitou por um milissegundo, seus dedos dançando sobre um tablet de vidro negro.

— Silêncio absoluto no espectro, senhora. Eles não são burocratas obedientes como os Cavaleiros de Éden. Estão agindo como os senhores da guerra feudais que sempre foram.

Em Gehenna, o poder nunca fora delegado; ele era tomado. Enquanto Isobel tentava desesperadamente manter os pedaços do mundo unidos com cuspe e magia, os Lordes do Pecado viam o apocalipse como uma oportunidade de mercado agressiva.

Longe dali, em um cofre fortificado que cheirava a ferrugem, óleo e sangue seco...

Mamon Sterling, o Lorde da Avareza, observava montanhas de Coroas cintilantes. Ele não celebrava; ele auditava.

Quando um de seus melhores coletores entrou, arrastando um saco pesado e esperando o pagamento, Mamon nem levantou os olhos da contabilidade. Houve apenas um estalo de dedos.

Bang.

Um tiro seco ecoou nas paredes de metal. O coletor caiu, um buraco fumegante na testa.

— "Comissão" é um conceito para tempos de paz — murmurou Mamon, passando por cima do cadáver ainda quente para adicionar o saque à sua pilha. — Em tempos de crise, a mão de obra é... descartável.

Na fronteira norte, a neve branca tornava-se lama vermelha.

Satan Bellum, a personificação da Ira, caminhava entre os destroços de uma vila fronteiriça dos Sonhos. Ela era uma figura de terror gelado: cabelos brancos como o inverno, um sobretudo militar impecável e óculos de grau que refletiam as chamas das casas que ela reduzia a cinzas.

Ela não gritava. Ela não corria. Ela avançava com a inevitabilidade de uma geleira.

Satan não buscava território. Ela buscava o extermínio. Suas tropas não faziam prisioneiros; elas avançavam para sentir o gosto do medo daqueles que, por milênios, se acharam eternos. A guerra era sua arte, e o quadro estava finalmente completo.

E no palácio de néon pulsante de Asmodea Lilith, a Luxúria dava uma festa para o fim do mundo.

Enquanto o céu de óleo vomitava escuridão lá fora, lá dentro o tempo era medido em batidas de música eletrônica ensurdecedora. Coroas eram usadas como fichas de aposta em roletas russas; corpos de todas as formas e raças se entrelaçavam em uma orgia decadente e febril.

Para Asmodea, que ria com uma taça de vinho misturado com éter, a lógica era simples: se o tempo estava acabando, a única resposta era queimar cada segundo restante em excesso absoluto.

De volta ao gabinete sufocante, a realidade caiu sobre a mesa de Isobel.

— O status da guerra é um desastre, Majestade — continuou a secretária, projetando o ranking holográfico do Jogo do Rei no ar. — Preguiça e Gula desapareceram do radar; seus distritos estão em anarquia total. E no topo, inalcançável, permanece ele...

O holograma girou, mostrando o nome que brilhava em dourado arrogante: Aslan Morningstar.

O garoto da periferia retesou os ombros, parando de brincar com a faca. Orgulho. O pecado original. O mais perigoso de todos.

— E logo atrás dele... — a secretária apontou para uma barra verde que subia como uma trepadeira venenosa. — Ivy. A Inveja está obcecada em superar a contagem de todos os outros, custe o que custar.

Isobel olhou para os nomes flutuando na luz trêmula.

— Eles eram uma unidade uma vez — murmurou a Rainha, e uma ponta de nostalgia amarga vazou em sua voz de general. — Faziam parte da mesma Mão, obedecendo a uma única Vontade. Mas desde que Ele foi dado como morto... desde que o Mestre se foi... eles se tornaram predadores solitários. Sem uma coleira, eles só conhecem a própria fome.

Isobel levantou-se abruptamente. A cadeira de couro rangeu com o movimento. Ela caminhou até a janela blindada, olhando para a massa de corpos desesperados que se espremiam contra os portões lá embaixo sob a chuva negra.

— Chega de esperar.

Ela se virou, e o garoto da periferia viu nos olhos dela o aço que Dante reconheceria — o olhar de quem parou de tentar sobreviver e decidiu começar a matar.

— Se os Lordes não vêm até a Rainha... então a Rainha levará a guerra até eles.

Ela bateu a mão na mesa, espalhando os papéis.

— Onde está o enviado de Éden? O tal "Teth"? Preciso saber se o diplomata que me prometeram tem estômago para o que está por vir, ou se é apenas mais um Sonho que vai quebrar na primeira vez que vir sangue de verdade.

Parte 11

O Distrito da Inveja não era uma cidade; era um plágio arquitetônico.

Cada arco de mármore falso, cada estátua dourada e cada vitrine de Tyre eram cópias distorcidas e exageradas da Cidade de Cristal. Era uma opulência roubada, um cenário de papelão e tinta dourada que tentava desesperadamente gritar para o mundo que Gehenna era superior ao Éden, enquanto falhava em esconder seu próprio vazio.

No topo da Torre de Vidro, o ar era rarefeito e cheirava a perfume barato em excesso.

Ivy Zelos, a Lorde da Inveja, observava o caos lá embaixo através de vidraças blindadas. Ela girava uma Coroa entre os dedos longos e manicurados — um troféu arrancado de um pesadelo menor horas antes. Ivy era uma criatura feita de paranoia e mesquinhez, mas vestia-se com mantos de seda púrpura tão pesados e repletos de joias que mal conseguia se mover. Para ela, o desconforto era um preço pequeno para manter a pose da realeza que tanto cobiçava.

— Como está o ranking? — Ivy perguntou ao vazio do salão, sua voz carregada de uma arrogância trêmula.

— Mudando.

A resposta não veio do comunicador. Veio de trás dela. Calma. Gélida. Física.

Ivy saltou. Seu Éter explodiu em um reflexo de pânico, criando uma aura de espinhos de esmeralda que trincou o chão de cristal. Ela girou, o coração batendo na garganta. Como? Como alguém passara pelos seus guardas de elite? Como alguém violara seu santuário sem um único alarme soar?

Encostada na moldura da varanda, descontraída como se estivesse em sua própria sala de estar, estava uma figura que exalava uma pressão silenciosa, mas esmagadora. O ar ao redor dela parecia mais pesado, dobrando-se em reverência.

— Quem é você?! — Ivy gritou, o suor frio estragando a maquiagem perfeita. — Meus guardas deveriam ter te reduzido a pó!

— Eu apenas disse para eles saírem da minha frente — a estranha respondeu, desencostando-se da parede e caminhando para a luz. — E eles obedeceram.

— Impossível! Meus soldados são leais, eles...

— Sério, Ivy? — A mulher a interrompeu. Um sorriso de canto, nostálgico e perigoso, surgiu em seus lábios. — Você conhecia o meu carisma tão bem. Por que seria difícil acreditar agora?

Ivy Zelos congelou.

O rosto da mulher diante dela estava mudado. Mas a aura... aquela gravidade que sugava o oxigênio da sala e, principalmente, aqueles olhos onde estrelas pareciam brilhar na escuridão da íris... eram inconfundíveis.

O medo de Ivy não a fez lutar. Transmutou-se, instantaneamente, em uma adoração patética.

— Minha... Rainha!

Ivy caiu de joelhos. O baque foi audível. Ela juntou as mãos trêmulas, escondendo o segredo que corroía suas entranhas como ácido.

— Então a senhora está viva! — Ivy exclamou, a voz subindo em um falsete choroso de devoção. — Eu sempre soube... Eu esperei cada dia, cada segundo pelo seu amado retorno!

Ivy mentia como respirava: com naturalidade biológica.

Anos atrás, consumida pela inveja, ela cometeu uma traição a Kiara, uma traição imperdoável que não apenas causou a prisão de Kiara pelo Rei dos Sonhos como também destruiu seu coração. No entanto, ela acreditava que o segredo estava enterrado sob sete palmos de terra e tempo.

Kiara aproximou-se. Ela pousou a mão no ombro de Ivy. O toque era quente, firme, quase amigável.

— Está na hora de reunir o Circo da Meia-Noite, Ivy. Reunir todos os Lordes. Vamos acabar com essa bagunça.

A ganância brilhou nos olhos de Ivy como uma moeda de ouro. O alívio a inundou. Ela não sabe, pensou. Se Kiara voltar ao poder, eu serei sua mão direita. Eu serei intocável.

— Sim... sim! — Ivy começou a falar compulsivamente, ansiosa para agradar. — Eu tenho informações... Preguiça e Gula sumiram, sei onde os outros se escondem! E eu reuni tantas coroas, senhora... Vou entregá-las a você. Se todos fizermos o mesmo, você será a Rainha de todos novamente!

Ivy inclinou-se na direção dela para mostrar sua marca e o número de coroas que possuía, baixando a guarda completamente, cega pela própria ambição.

Foi o seu erro final.

— Ajoelhe-se.

A voz de Kiara não foi um pedido. Não foi um grito. Foi um Comando Real.

A Ordem vibrou na própria estrutura da alma de Ivy. O corpo da Lorde da Inveja travou, seus músculos obedecendo a uma autoridade primitiva que ignorava seu cérebro. A habilidade Royal Board — o Tabuleiro Real — esmagou a vontade fraca de Ivy.

Ela ficou paralisada, uma estátua de seda e medo, os olhos arregalados de terror enquanto via Kiara se aproximar.

Kiara não conjurou magia. Ela fechou a mão em um punho.

— Eu sei o que você fez, Ivy. — O sussurro de Kiara foi a coisa mais aterrorizante que Ivy já ouvira. — A Inveja sempre fala demais quando morre de medo.

O que se seguiu não foi uma luta. Foi uma execução.

Kiara usou brutalidade física pura.

CRACK.

O primeiro soco quebrou a mandíbula de Ivy, deslocando o osso com um estalo úmido. Ivy tentou gritar, mas o Royal Board a mantinha presa no lugar, forçando-a a receber a punição.

THUD.

O segundo golpe desfez o nariz de porcelana, espalhando sangue sobre a seda púrpura. Kiara a espancava no próprio trono, golpe após golpe, mantendo um ritmo frio e metódico. Não havia prazer no rosto da Rainha, apenas o trabalho pesado da retribuição.

— Você sempre foi boa em aguentar meus socos, não era mesmo... Ivy? — disse Kiara, enterrando o punho no estômago de Ivy.

Ivy engasgou, cuspindo sangue e dentes.

— Pois bem, essa é sua chance… saiba que sua rainha é misericordiosa e pode até, te perdoar por sua traição.

Outro golpe, dessa vez na têmpora, fazendo a cabeça de Ivy ricochetear.

— Se sobreviver a todos esses socos, saiba que sou totalmente capaz de te perdoar... — Kiara puxou o braço para trás e desferiu o golpe final, com todo o peso do corpo. — ... dê o seu melhor, Ivy…

Ivy Zelos desabou. Não era mais uma Lorde; era uma massa de seda rasgada e carne moída no chão de cristal.

— Agora, se submeta… — Ela falou, seu olho vermelho brilhando intensamente.

No mesmo instante, a marca da Coroa no braço de Ivy brilhou e se apagou. Os números zeraram. No braço de Kiara, o contador holográfico disparou, os dígitos subindo aos milhares em uma fração de segundo.

Kiara caminhou até a varanda. Com uma calma absoluta, ela limpou o sangue dos nós dos dedos em uma cortina de veludo caríssima.

— Parabéns… tá perdoada.

Ela olhou para o distrito mergulhado em chamas, neons e escuridão. O vento da chuva negra despenteou seus cabelos.

Então, ela projetou sua voz. Não precisou de microfones. Sua vontade usou o Éter ambiente para carregar suas palavras para cada beco, cada bueiro e cada torre de Tyre.

Um mar de borboletas carmesim feitas de Éter começou a voar pelo céu escuro, como se em respeito ao chamado da Rainha da Noite.

— O recreio acabou.

A cidade inteira parou. Monstros pararam de comer, saqueadores pararam de correr.

— Eu, Kiara, estou de volta. E eu vou vencer essa guerra… podem espalhar a notícia.

Nas ruas, o pânico mudou de tom. Onde antes havia o barulho caótico de saques, agora nascia um sussurro crescente, que se transformou em um grito uníssono de terror reverente e esperança violenta.

O nome de Kiara corria pelas sombras como fogo em palha seca.

Gehenna tinha muitos Lordes, muitos generais e muitos monstros. Mas acabava de recuperar sua verdadeira e única Soberana.

Parte 12

Longe dos mármores polidos e da hipocrisia dourada da capital, a realidade tinha cheiro de ferrugem e musgo.

As ruínas da antiga Cidade Diamante, outrora uma zona neutra próspera protegida pela mística Floresta do Delírio, agora pareciam um esqueleto exposto sob o céu que sangrava. O vento uivava entre os prédios tombados, carregando a poeira de calcário de uma era esquecida.

Escondidos sob a carcaça de uma antiga torre de vigilância, um grupo peculiar montava guarda.

Laeticia estava sentada no chão sujo, os joelhos abraçados contra o peito, o rosto enterrado nos braços. Ao lado dela, deitado sobre uma capa grossa, estava Mumei. O homem enfaixado estava com ferimentos terríveis causados pelo ataque de Alone. Para qualquer um que tocasse seu pulso, ele estaria morto — o coração de Mumei parara, uma peculiaridade estranha de seu corpo feito de faixas que agora servia como a camuflagem perfeita contra predadores.

— Ei, garota chorona. — Uma voz jovial quebrou o luto silencioso.

Laeticia levantou o rosto inchado. Oliver estava de pé à entrada do esconderijo, girando distraidamente um bastão longo e dourado entre os dedos tatuados. Suas mangas largas balançavam com o vento, e os óculos redondos refletiam a luz instável e oleosa do céu.

— Você precisa comer — disse ele, jogando um pacote de ração seca no colo dela. — Se continuar se culpando, vai secar antes que a gente chegue à fronteira. E carregar corpos secos é chato.

— Eu fugi... — Laeticia sussurrou, a voz trêmula de vergonha. — Quando os Cavaleiros cercaram Rum e os outros... eu me escondi. Eu sou uma covarde. Sou só um membro de fachada na Tromluí. Eu não mereço estar viva enquanto eles estão presos ou mortos.

— Tecnicamente, você executou um recuo tático para preservar o ativo ferido — corrigiu uma voz monótona, vinda das sombras no fundo da sala.

Arquinos, nem sequer levantou os olhos do mapa holográfico que projetava da ponta de seu cajado.

— Se você tivesse ficado, teria sido capturada. E se tivesse sido capturada, essa montanha de carne morta-viva ao seu lado estaria sendo comida por corvos agora. Sua covardia garantiu a sobrevivência dele. Eficiência está acima de honra.

— O quatro-olhos tem razão — grunhiu Rugerd.

A montanha de músculos estava sentada perto da entrada, seus braços pulsando com veias de Éter verde tóxico enquanto ele afiava uma faca enorme numa pedra.

— A Tromluí sempre ajudou nossa gente. Nós, Pesadelos independentes, não esquecemos dívidas. É por isso que os Caçadores do Silêncio estão aqui.

Candy, a pequena assassina que limpava suas lâminas enferrujadas num canto escuro, estalou a língua, irritada.

— A gente veio pra saquear a dungeon e recrutar aquele tal de Dante, lembra? Mas o idiota foi preso. Perda de tempo total. Quase fui fatiada por ele na floresta pra nada.

Oliver riu, apoiando o bastão no ombro.

— É uma pena mesmo. Eu queria ver a cara dele. Mas com a declaração de guerra e o céu desse jeito, Gehenna vai virar um caldeirão. Temos que levar vocês dois de volta para a segurança. Laeticia, pare de chorar. Você salvou o Mumei. Isso é o suficiente por hoje.

Laeticia fungou, limpando as lágrimas na manga suja. O reconhecimento daquele grupo de mercenários, aquecia um pouco o gelo em seu peito.

— Obrigada... eu... eu vou tentar ser útil.

Mas a tentativa de normalidade durou pouco.

Um som agudo, como o de tecido sendo rasgado violentamente por mãos gigantes, veio de cima. Não era um trovão. Era algo entrando na atmosfera à força bruta.

— Cuidado! — berrou Rugerd.

Ele ativou seu Éter num reflexo, criando uma barreira verde com o próprio corpo na frente do grupo.

BOOOOM!

Um impacto sísmico sacudiu as ruínas. Poeira, pedras e ondas de choque varreram a praça central da Cidade Diamante, a poucos metros de onde eles estavam. O chão tremeu como gelatina sob os pés deles.

— O que foi isso?! — gritou Candy, já com as lâminas em mãos, os olhos varrendo a nuvem de poeira como um radar. — Ataque aéreo?

— Não... — Oliver ajustou os óculos, a expressão jovial desaparecendo, substituída por uma seriedade tática. — Foi um objeto único. Uma queda livre.

— Eu vou verificar — Oliver anunciou, movendo-se com a leveza de um gato.

— Eu vou junto! — Laeticia levantou-se num salto. Antes que Oliver pudesse negar, ela insistiu, os punhos cerrados: — Eu conheço essas ruínas melhor que vocês. E eu preciso... eu preciso fazer alguma coisa. Não posso só ficar olhando.

Oliver suspirou, mas assentiu. — Fique atrás de mim. E não faça barulho.

Os dois avançaram pelas sobras de concreto, esgueirando-se até a borda da cratera fumegante que se abrira na praça. Mas não estavam sozinhos.

Vozes ásperas e risadas cruéis ecoavam através da névoa de poeira.

— Olha só o que o céu mandou pra gente, rapazes! — gritou uma voz rouca.

Oliver fez um sinal de "pare". Escondidos atrás de uma pilastra caída, eles viram.

Eram Mercadores de Escravos. Pesadelos da pior estirpe, bandidos que usavam os túneis da floresta para sequestrar Sonhos desavisados e vendê-los. Eles pareciam furiosos e sujos; seus cavalos haviam fugido com o impacto, e as jaulas de carga estavam vazias ou quebradas.

— Perdemos a mercadoria toda com essa explosão maldita... — resmungou um deles, chutando uma pedra. — O Chefe vai arrancar nossa pele e vender como couro.

— Esqueça o Chefe — disse o líder, um homem com cara de rato e dentes de ouro, caminhando para o centro da cratera. — Olha isso aqui. Deus fechou uma porta, mas abriu as pernas de uma janela.

No centro da cratera, onde a terra havia vitrificado pelo calor da entrada, havia uma figura.

Era uma mulher. E ela estava nua.

Oliver sentiu o ar prender na garganta. Laeticia cobriu a boca com as mãos.

A mulher era uma escultura viva de perfeição física absoluta. Alta, com um corpo atlético e volumoso, curvas desenhadas com precisão divina — coxas grossas e torneadas, cintura fina e um busto farto que desafiava a gravidade. Seus cabelos eram longos, negros como o vácuo entre as estrelas, soltos e revoltos sobre os ombros pálidos como a lua.

Ela estava de joelhos, tateando o chão chamuscado como se estivesse acordando de um sono de mil anos.

Os mercadores de escravos pararam, hipnotizados. A luxúria substituiu a raiva instantaneamente.

— Porra... — sussurrou um deles, lambendo os lábios secos. — Olha o tamanho... olha a qualidade dessa carne.

— Ei, gracinha! — O líder do bando deu um passo à frente, abrindo os braços num gesto falsamente acolhedor. — Você caiu do céu? Deve ter doído, hein? Mas não se preocupe. Nós somos... amigos. Vamos cuidar muito bem de você. Você vale mais do que toda a carga que perdemos.

A mulher parou.

Lentamente, ela virou o rosto para eles. Sua expressão não era de medo. Não era de confusão. Era... ausência. Como se ela estivesse olhando para formigas, tentando entender por que faziam barulho.

— Amigos? — A voz dela saiu rouca, gutural, desacostumada com a língua comum, mas perfeitamente inteligível. — Não... eu não busco amigos.

Ela franziu a testa, como se acessasse um arquivo corrompido em sua memória biológica.

— Eu busco... um companheiro. Um... Consorte.

A risada dos mercadores foi uma explosão de vulgaridade.

— Marido?! — O líder gargalhou, batendo na própria coxa. — Garota, você é a mulher mais sortuda do mundo! Tá vendo todos esses homens aqui? Todos nós queremos ser seus maridos! Vamos fazer nossos "votos" com você agora mesmo, um por um!

Ele fez um sinal, e os homens começaram a cercá-la, desabotoando cintos, sorrisos maliciosos e dentes amarelos estampados nos rostos sujos.

A mulher inclinou a cabeça para o lado.

— Entendo — disse ela, impassível. — Vocês desejam a cópula. Vocês se oferecem como candidatos.

Ela se levantou. A nudez total, exposta sob a luz do dia, não carregava vulnerabilidade. Carregava poder. Ela ficou ereta, a postura de uma rainha guerreira que desconhece a vergonha.

— Sendo assim... vamos ver se suas carnes suportam o peso do meu afeto.

E então, o ar mudou.

Não foi uma pressão de Éter. Foi um instinto de morte primal que disparou no cérebro de Oliver, fazendo-o agarrar Laeticia e recuar violentamente para trás da pilastra.

— Não olhe nos olhos dela! — ele sibilou.

Os olhos da mulher não mudaram de cor. Eles não brilharam com magia. Eles apenas... focaram.

Era um olhar de uma intensidade insuportável. Não havia humanidade naquelas íris negras, apenas um abismo frio e antigo que parecia sugar a luz ao redor. O líder dos escravagistas travou. Não era uma paralisia mágica; era o terror puro de uma presa que percebe, tarde demais, que está encarando um predador do topo da cadeia alimentar. Aquele olhar não via as roupas ou a bravata dele; via através da pele, analisando a fragilidade dos ossos e o medo bombeando nas veias. Era o olhar de um carrasco entediado antes da sentença.

— O q-que... — O líder recuou um passo, o sorriso morrendo, as pernas tremendo sob o peso daquela atenção assassina.

A mulher sorriu. 

Então, o chão ao redor dela explodiu em silêncio.

Não houve som de ossos quebrando ou pele rasgando. Houve apenas a erupção de um fogo que não pertencia àquele mundo. Chamas de um azul profundo, quase negro no núcleo, brotaram do solo vitrificado. Elas não queimavam como fogo normal; elas rugiam como um vendaval gélido, subindo em espiral ao redor do corpo nu dela.

O vórtice de chamas azuis a consumiu completamente, uma coluna de energia escura que lambia os céus. Os escravagistas gritaram, tropeçando para trás, cegados pela intensidade da luz fria.

Quando as chamas baixaram, a mulher que estava lá havia desaparecido.

No lugar dela, a figura emergiu da fumaça azulada. Os longos cabelos negros haviam sido alvejados pelo fogo místico, tornando-se um branco puro e fantasmagórico que flutuava ao vento. Da cabeça, dois chifres negros, curvos e elegantes como uma coroa, haviam se materializado das chamas.

E nas costas, forjada do próprio fogo azul que se solidificou, uma única asa negra e membranosa se abriu, cobrindo metade da cratera com sua sombra. Uma cauda longa, terminada em uma ponta de seta afiada, chicoteou o ar, sibilando.

A beleza voluptuosa ainda estava lá, mas agora era a beleza aterrorizante de uma divindade pagã.

Oliver tremia atrás da pilastra, segurando Laeticia que espiava por entre seus dedos. Ele já viu monstros. Já viu Lordes Pesadelos. Mas aquilo... aquilo não pertencia à ecologia de Morpheus.

Enquanto o mundo prendia a respiração para o Jogo das Coroas, enquanto Sonhos e Pesadelos olhavam para o tabuleiro político... ninguém percebeu que uma peça de outro jogo acabou de cair na mesa.

Naquele dia, sem alardes e sem profecias, uma criatura estranha fez sua chegada. E a primeira coisa que ela faria seria pintar as ruínas de vermelho.

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