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The Fall of the Stars : Capítulo 1 - Chegada

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 27 de out. de 2025
  • 44 min de leitura

Volume 9: O Mais Fraco


Entrelinhas

Em uma sala de veludo cheia de livros, o ar carregado com o aroma antigo de pergaminho e poeira sutil, uma mulher se levantava devagar, seus movimentos graciosos ecoando suavemente contra as prateleiras abarrotadas. Ela subiu em uma poltrona com um gesto dramático, equilibrando-se na ponta dos pés enquanto estendia os braços como se invocasse um público invisível, e cantou uma música, sua voz ecoando pelas paredes forradas de tecido macio.

— Escutem, ó tolos e valentes, ergam os olhos para mim, A lenda de uma guerra sangrenta pelo trono e a coroa seguia sem fim.

Ela falava em uma pose teatral em cima de sua poltrona, inclinando o corpo ligeiramente para frente como se estivesse confidenciando um segredo ao ar, enquanto estendia a mão segurando um livro com a capa de couro com o símbolo de uma lua azul, os dedos traçando o relevo do emblema com reverência.

— Até que um garotinho frágil apareceu, Oh, como eu ri enquanto ele chorava no escuro.

Ela se sentou calmamente na poltrona, saindo de sua pose com um movimento fluido, cruzando as pernas e ajustando a saia com um toque casual. Com um sorriso no canto de seus lábios, parou a música e os gestos dramáticos, inclinando a cabeça ligeiramente como se estivesse ponderando as palavras que acabara de proferir.

— Mas escute, meu leitor, preste bastante atenção. Pois esse é o garoto que transformou sua fraqueza em força.

Ela fechou o livro lentamente, o som do couro grosso sendo abafado pelo veludo da sala, os dedos lingando nas páginas finais antes de pressionar a capa com firmeza. O sorriso em seus lábios se aprofundou, os olhos brilhando com uma mistura de mistério e satisfação enquanto imaginava o impacto em seu ouvinte invisível.

Parte 1

Em uma área desértica, varrida por um vento gelado, entre pedras e cavernas, um garoto de cabelos pretos e magro se encolhia. Seus cabelos, longos e bagunçados, denunciavam alguém que não os lavava ou cortava há algum tempo. Com um pedaço de carvão, ele escreveu mais uma linha na parede da caverna, somando-a a dezenas de outras. Ele se aproximou da fogueira, mas mesmo com o calor próximo, ele sentia frio. Um frio que vinha de dentro.

Ele parecia triste, mas depois de olhar para a saída escura, escutando o uivo do vento e vendo a estranha luz azul que banhava o céu noturno, sua expressão mudou. Uma gota se formou no canto de seus olhos, mas ele a limpou com as costas da mão suja. 

De repente, um lobo entrou pela boca da caverna. O garoto tremeu. O lobo, magro e cinzento, saltou sobre ele.

Mas era para lamber seu rosto.

O garoto riu, um som fraco e rouco, e começou a brincar com o lobo, que ele chamava de Kuro. 

Com a mão trêmula, o garoto cutucou levemente o focinho de Kuro.

Kuro respondeu, mas não com um rosnado ou um salto. Ele apenas soltou um longo suspiro, quente contra a pele fria do menino, e moveu a cabeça lentamente, tentando "capturar" os dedos do garoto com a boca. Suas mandíbulas, antes fortes, fecharam-se com a pressão de uma armadilha desarmada, mal beliscando a pele. Era mais um toque do que uma mordida.

O garoto riu de novo, aquele som oco, e usou o indicador para traçar o contorno da orelha de Kuro. A orelha se mexeu, tentando escapar do toque, mas o lobo estava muito cansado para mover a cabeça.

— Você também está magro, hein...

A barriga do garoto roncou alto, concordando.

— Amanhã... amanhã é melhor a gente tentar arrumar alguma comida. — Ele fechou os olhos, sua voz sumindo. — Eu também 'tô precisando.

O tempo passou. Eles dormiram lado a lado, buscando calor um no outro.

Acordaram no dia seguinte e saíram para caçar. A "manhã" era estranha; um sol azul pálido iluminava o céu, mantendo a coloração do mundo um pouco mais azulada e fria. Eles caminharam até a borda de uma floresta retorcida.

Depois de horas, ele achou. Uma árvore com frutas. Maçãs. Ele subiu rapidamente, a fome o impulsionando, e notou que as maçãs eram azuis-escuras. Quando tentou pegar uma, Kuro começou a latir desesperadamente do chão.

O garoto olhou em volta. Não havia nada. Ele tentou pegar a maçã de novo. O latido de Kuro ficou mais agudo.

O garoto parou. Ele percebeu. Devia ser a maçã.

Sua barriga continuava a roncar, um som doloroso, mas ele confiou em seu amigo. Desceu da árvore e começou a procurar em outro lugar.

Depois de procurarem muito, encontraram. O cheiro veio primeiro. Um fedor almiscarado, sujo e tão potente que quase o fez engasgar. Kuro, ao seu lado, congelou. Um rosnado baixo, quase inaudível.

O garoto se escondeu atrás de uma raiz caída, seus olhos se arregalando.

— Aquilo e...

Lá estava ele. Um javali.

Não, "javali" era um insulto para aquela coisa. Era um demônio da floresta, um barril de músculos e fúria coberto de pelos escuros e grossos. Presas nodosas, que curvavam-se de sua mandíbula enquanto ele rasgava a terra com uma força casual.

— “É... enorme. Grande demais.”

Seu estômago, vazio há dias, deu um nó doloroso. Ao seu lado, Kuro tremeu. Medo.

— “Mas não temos escolha.”

Ele puxou o pelo de Kuro, forçando o lobo a encontrar seus olhos. 

Ok, parceiro. vai demorar, mas confie em mim acho que podemos conseguir. — O garoto falava olhando nos olhos de Kuro com um sorriso confiante. 

『Plano de Caça: Fase 1』

O buraco.

Não era um buraco qualquer. Tinha custado a eles os últimos três dias de energia que mal possuíam. Eles não o cavaram; adaptaram uma profunda erosão natural numa trilha de caça. Passaram horas que pareceram décadas afiando galhos grossos com lascas de pedra, fincando-os no fundo como os dentes de um dragão.

— Vamos lá, o Kuro aguenta só mais um pouco e teremos churrasco de porco. — O garoto divagava, passando a mão pela boca como se tentasse limpar a baba, embora estivesse desidratado demais para isso.

— Wuf — O lobo latia alegre segundo o garoto apesar da própria fome. 

『Plano de Caça: Fase 2』

Ele bateu no próprio peito. — Eu. Eu sou a isca, pois sou bom irritando as pessoas. — Seu olhar se fixou no cachorro enquanto sorria. Depois de atraí-lo para cá, subirei nesta árvore para escapar. — Ele virou a cabeça para a árvore e, em seguida, voltou-a para Kuro. — Já você não pode ser a isca. Você não sobe em árvores. — Ele apontou para os arbustos densos do outro lado da clareira, opostos à sua rota de fuga. — Sua missão agente Kuro será espera. Espere até que eu esteja seguro. Então, você aparece. E o assusta com seus latidos.

O javali, pego de surpresa, seria forçado a virar à esquerda para avistar Kuro. A única rota de fuga "segura" levava diretamente ao buraco.

Kuro deu um leve aceno com o focinho. Seus olhos amarelos, normalmente opacos pela fome, queimavam com um foco desesperado.

O garoto pegou duas pedras. Suas mãos suavam, apesar do frio. — Vai dar certo. Tem que dar.

Kuro se dissolveu nas sombras, um fantasma magro rastejando para sua posição. O único som era o grunt irritado do javali fuçando a terra.

Agora.

O garoto saiu da cobertura. — EI!

Sua voz foi um grasnido patético. A primeira pedra bateu no flanco do javali e quicou inofensivamente. A besta apenas bufou, ignorando-o.

— “Não funcionou! Mais alto!”

— AQUI, SEU PORCO GIGANTE! — Ele gritou, usando a última grama de seus pulmões, e jogou a segunda pedra com toda a força.

Clack. Acertou a presa.

O mundo parou.

A cabeça maciça se ergueu. Olhos pequenos, vermelhos e injetados de pura raiva se fixaram nele.

— ...Merda!.

O javali soltou um guincho que fez as árvores tremerem e avançou. A terra vibrou sob seus pés.

O garoto se virou e correu.

Corra! Corra! Corra!

Suas pernas pareciam algodão. O carvalho parecia a quilômetros de distância. Atrás dele, o som de cascos batendo no chão era como um trovão se aproximando. Mais rápido! Ele podia sentir o hálito quente e fétido do animal em sua nuca.

Ele saltou.

Seus dedos se fecharam no galho baixo. Ele se içou com um gemido de dor, seus músculos gritando em protesto.

CRASH!

As presas do javali cortaram o ar exatamente onde suas pernas estavam um segundo antes. O impacto da fera contra o tronco quase o arrancou de seu poleiro. Ele subiu mais, desesperado, agarrando-se à casca, o coração batendo como um tambor de guerra em seus ouvidos.

O javali estava louco, atacando a árvore, tentando derrubá-la.

— “Kuro! Agora!”

Como se ouvisse seu pensamento, Kuro explodiu dos arbustos do outro lado.

GROOOOOOWL!

Não foi o latido forte de um lobo saudável, mas um som agudo, desesperado e cheio de ameaça. Uma sombra esquelética, de pelo eriçado, avançando e recuando.

A fera gigante parou. Confusão.

Virou-se para a nova ameaça, claramente perplexa. O javali bufou. Instinto. Pânico. A única saída era se afastar para trás, caindo em um buraco profundo que eles haviam cavado e enchido de estacas afiadas.

Eles pensaram ter conseguido.

Mas o javali, em um acesso de fúria, usou suas presas para se impulsionar e saltou para fora do buraco.

Ele avançou na direção de Kuro, assim que viu o lobo magro e fraco que tentara atacá-lo. O garoto, vendo que seu amigo estava em perigo, pulou em cima do javali.

O animal, assustado com o peso repentino em suas costas, começou a se debater e a correr descontroladamente, colidindo com força contra uma árvore. O choque prensou o garoto contra o tronco, fazendo-o cair lentamente no chão. Sem nem perceber que o havia derrubado, o javali correu floresta adentro.

O garoto começou a tossir e vomitar. Kuro, preocupado, se aproximou e lambeu o rosto do garoto, que rapidamente trocou uma expressão dolorida por um sorriso.

— 'Tá tudo bem… pelo menos você não se machucou. 

— Wuf… — O lobo continuava lambendo o garoto, que sorria.

“Está tudo bem… mesmo com fome… mesmo assim, pelo menos estamos juntos…” — pensou o garoto, enquanto se forçava a ficar de pé para poder voltar a seu esconderijo.

Depois de um tempo correndo, voltaram para a caverna. Com fome, machucados e derrotados.

Ao chegarem, resignados de que a comida teria que ficar para outro dia, notaram algo vasculhando o esconderijo que chamavam de casa.

Era uma espécie de hiena monstruosa. Tinha o pelo cinzento e ralo, uma intensa luz azul pálida emanava de dentro de seu corpo, e sua cauda era longa e segmentada, terminando em um ferrão de escorpião.

O garoto sentiu. Aquela coisa era poderosa.

— Droga, será que ele também veio caçar comida?

 A criatura os viu e saiu caçando, seus passos pesados batendo no como tambores de guerra.

O garoto e o lobo dispararam de volta para a floresta, tentando se esconder em meio às árvores, o pânico gelando subindo por seus estômagos. Os dois começaram a correr desesperados, galhos arranhando seus rostos, seus pés tropeçando em raízes ocultas.

O som da perseguição era ensurdecedor. O monstro era insaciável, veloz, e com um simples balançar de sua cauda de escorpião segmentada, destruía as pedras e os troncos de árvore em seu caminho, lançando farpas e poeira. 

O garoto olhou para o lado. Kuro estava ofegante, sua língua de fora. O monstro estava ganhando terreno. O garoto percebeu que não conseguiriam fugir. Pelo menos, não os dois.

Ele tomou a decisão em uma fração de segundo. Ele entrou na parte mais densa da floresta, correndo em ziguezague, usando as árvores como cobertura momentânea, tentando se afastar do monstro e dividir sua atenção.

— Kuro, fuja!

O lobo não saía de seu lado, rosnando para a ameaça que se aproximava.

— VAI! SAIA DAQUI! — Ele tentou afugentar o lobo, gesticulando e empurrando o ar, mas ele não ia.

O som da criatura esmagando um arbusto próximo selou seu destino. Desesperado, o garoto parou, suas mãos tremendo, e bateu em Kuro com força no flanco.

O som do golpe foi seco. O lobo choramingou, um som de pura confusão e dor, surpreso. Ele olhou para o garoto uma última vez antes de finalmente sair correndo, triste, desaparecendo entre as samambaias.

— É assim que deve ser... — o garoto sussurrou, o alívio e a culpa o atingindo ao mesmo tempo.

Ele então se virou para a criatura, que agora parava, confusa com os alvos divididos. O garoto bateu uma pedra contra uma árvore e gritou, um som agudo de puro desafio aterrorizado, chamando a atenção do monstro para uma outra área.

Ele correu, mancando, em direção à clareira onde encontrou o grande javali. 

— E uma aposta…. mais se ele ainda estiver ali. 

Ele tentou fazê-lo ir na direção do javali, para que eles lutassem. O plano era arriscado, mas era o único. Mas, quando chegou, o javali monstruoso, que antes parecia o dono da floresta, apenas cheirou o ar, viu a criatura-hiena e fugiu de medo, quebrando a vegetação em sua retirada patética.

O garoto não tinha mais para onde fugir. Ele estava preso na clareira. Ele teve que escolher lutar. Ele pegou um galho grosso do chão, seus nós dos dedos brancos, e se preparou para o impacto.

A criatura nem diminuiu a velocidade. O galho se partiu inutilmente contra seu exoesqueleto. Mas com uma simples chicotada da cauda de escorpião, o ferrão o atingiu no peito como um martelo. Ele foi jogado longe, o ar expulso de seus pulmões, seu corpo todo ferido.

Antes que ele pudesse se levantar, o monstro o acertou na perna, um golpe rápido e cruel que soou como um galho seco quebrando. A dor o cegou. A criatura o agarrou com as mandíbulas e o jogou para o outro lado da clareira como um brinquedo.

Ele não conseguia mais correr. Estava fraco, ferido, mas a única coisa que passava em sua mente era: “Me desculpa kuro… “

O monstro sibilou, um som de satisfação. A criatura, vendo o medo nos olhos do garoto, caminhou lentamente em sua direção, saboreando o momento, o ferrão balançando preguiçosamente.

Mas o garoto, em meio ao medo, ainda sorri, pois ele sabia que Kuro estava a salvo.

De repente, um latido. Um latido agudo, furioso, vindo da escuridão.

O lobo apareceu. Kuro. Ele saltou das sombras, não mais triste, mas cheio de uma fúria protetora.

Ele começou a latir, correndo em círculos rápidos e ágeis, mordiscando os calcanhares da criatura e saltando para trás antes que a cauda pudesse atingi-lo, fazendo o monstro hesitar, confuso com o novo alvo.

O monstro se virou e foi atacar o lobo. O garoto tentou ir, mas não conseguia se mexer. A dor na perna era insuportável.

Agora era Kuro que tirava o monstro de perto do garoto, levando-o para longe, para a escuridão da floresta. Os sons da perseguição—latidos, rosnados, o estalar da cauda—desapareceram na noite.

O tempo passou. O garoto se arrastou. A dor era uma névoa vermelha, mas o silêncio era pior. Por um tempo que pareceu uma eternidade, ele se puxou pelo chão, seus dedos sangrando. Ele usou os cotovelos e a perna boa, deixando um rastro de sangue e terra revirada.

Ele tentava ir na direção dos latidos, que agora haviam parado.

Quando já havia passado muito tempo, ele chegou perto de onde ficava a armadilha que os dois fizeram para o javali. O buraco de estacas que eles cavaram.

Caída na armadilha, a hiena-escorpião jazia morta, a garganta rasgada pelas estacas que resistiram à queda do javali. Kuro a havia conduzido diretamente para a morte.

Infelizmente ao lado do buraco, estava o corpo de Kuro. Imóvel, deitado na terra, seu pelo manchado de sangue escuro.

O garoto ficou em silêncio. 

Um vento cortante uivava, mas ele parecia não senti-lo. Seus olhos estavam vazios, fixos no corpo de seu amigo. A dor em sua perna não era nada comparada ao vazio que se abriu em seu peito.

Ele permaneceu ali, imóvel como uma estátua, enquanto o céu escurecia e a noite caía, engolindo a paisagem. A dor era um buraco negro, sugando toda luz, todo som, todo sentimento, exceto o frio.

O tempo passou.

O garoto estava perto da fogueira, na mesma caverna de antes.

As brasas eram fracas, quase mortas. Ele não se deu ao trabalho de alimentá-las. O frio da pedra penetrava em suas roupas rasgadas, mas ele não se moveu para mais perto do calor.

Do lado de fora, havia um pequeno túmulo, uma pilha de pedras.

Seu olhar estava fixo ali, na silhueta irregular das chamas.

Sem perceber o garoto chorava, abraçando os joelhos.

Lentamente ele ia se encolhendo no canto mais escuro, o mais longe possível da fogueira. Seu corpo tremia incontrolavelmente, não de frio, mas de pura agonia. 

— Quanto tempo mais... — ele soluçou.

A voz saiu quebrada, um sussurro rouco que mal era audível acima do vento.

— Eu não...

Ele apertou os braços ao redor das pernas com tanta força que as unhas cravaram em sua própria pele, mas a dor externa não registrou.

Ele olhou para a parede, para as linhas que marcavam os dias, focando nos arranhões na pedra. Dezenas deles. Cada um representando um sol que nasceu e se pôs.

— Me desculpa... Nero... Me desculpa...

Ele virou o rosto, pressionando a testa contra os joelhos, como se tentasse se esconder do mundo, da luz, da própria memória.

— Mas eu não quero continuar... se isso significa... continuar a sentir isso...essa...

A última palavra – "Solidão" – foi engolida por um soluço que pareceu rasgá-lo por dentro. Ele se curvou ainda mais. O som de seu choro era a única coisa viva na caverna, ecoando fracamente nas paredes frias.

E enquanto ele chorava no canto escuro da caverna, encolhido em sua própria miséria, ele não percebeu.

Ao seu redor, duas borboletas de éter vermelho começaram a voar.

Parte 2

Em certa época do ano em Hortus Parvus, um certo fenômeno acontecia, enchendo o ar com um perfume doce e efêmero de flores desabrochando. "A Maré de Pétalas", como era conhecido, era um evento sem igual que encantava as pessoas do mundo todo, evocando suspiros coletivos e olhares maravilhados. O fenômeno não era causado pelo clima local; ele se originava nas florestas rosas do reino de Sakura. Desse ponto, uma "onda" de Éter puro do planeta surgia e se propagava pelo mundo, como um pulso vital que ecoava através da terra.

À medida que essa onda de energia passava, ela forçava instantaneamente todas as cerejeiras em seu caminho a florescer de uma vez, as flores explodindo em um espetáculo rosa vibrante que preenchia o céu. Imediatamente após o florescimento máximo, as pétalas caíam e eram carregadas pela própria frente de energia, dançando no ar como neve suave. O resultado era uma "parede" literal de pétalas sendo soprada pelo vento, uma tempestade rosa que viajava pelo mundo, deixando um rastro de fragrância e serenidade em seu caminho.

Atualmente em Apocalypse, a ilha flutuante que cruzava os oceanos com som constante das ondas batendo abaixo, já era possível ver a Maré de Pétalas no horizonte através dos telescópios de Babylon, o brilho rosa distante como uma aurora invertida. Todos faziam os preparativos para a chegada do fenômeno, ajustando telescópios e decorando varandas com lanternas suaves. Era quase como se tivessem esquecido os últimos incidentes. Uma trégua silenciosa se formou; os alunos fizeram um acordo interno de não confronto, trocando acenos discretos nos corredores e decidindo que não haveria "Jogos das Coroas" por alguns dias para poderem aproveitar ao máximo a beleza daquela experiência, reunindo-se em grupos para compartilhar histórias antigas sobre o evento.

Muitos turistas de fora de Babylon aproveitaram e compraram ingressos caros para apreciar o fenômeno na ilha flutuante, desembarcando com malas cheias de câmeras e olhares ansiosos. Como ela estava sempre em movimento, a Maré, quando vista em babylon, era uma experiência única e inesquecível, e dessa vez a ilha cortaria a onda de pétalas como um navio em um mar de flores.

O foco ia para um dos quartos do hospital de Babylon, o ar esterilizado misturado ao salgado do mar que entrava pela janela aberta. Ludmilla, ainda se recuperando do buraco em seu abdômen, estava sentada na cama, inclinando-se ligeiramente para frente enquanto observava o horizonte agora tingido de rosa e sentindo o cheiro do mar, o vento leve bagunçando seus cabelos. Charlotte estava ao seu lado, analisando um tablet com os dedos deslizando pela tela, franzindo a testa concentrada.

— Fiquei sabendo que estão esperando três vezes mais turistas esse ano — disse Ludmilla, sem tirar os olhos da janela, inclinando a cabeça ligeiramente para melhor captar o brilho distante. — A vista no mar é dita como única.

— Pois é. — Charlotte suspirou, abaixando o tablet por um instante e virando o corpo para encarar Ludmilla. — Quem diria que poderíamos ver uma das vistas mais raras logo no nosso primeiro ano. Quer dizer... foca aqui, Ludmilla! O assunto é importante.

Ludmilla se virou devagar, parecendo entediada, cruzando os braços sobre o peito com cuidado para não puxar os curativos. — E eu sei, não estou brincando. É só que eu já te falei: a Kirino não parecia especialmente interessada em matar a Elizabeth. Apenas aconteceu dela matar. E, sinceramente, não acho que ela ou os membros dos Phantons estejam por trás disso. Ficou mais parecendo uma fuga do que uma tentativa de assassinato.

Charlotte foi para uma janela ao lado e suspirou, passando a mão pelo rosto com um gesto cansado, os dedos pressionando as têmporas enquanto olhava para o horizonte rosa. — E sério... logo quando eu achei que tínhamos nos livrado do problema da Verbrechen, isso acontece. Noitora, Maria, Akira e Naroke... conseguiram escapar.

— Bom, — Ludmilla deu de ombros, erguendo os ombros levemente e relaxando-os com um suspiro — agora eles têm cartazes de procurado, e não fomos culpados por isso, já que foi o Comitê de Disciplina que os levou.

— Mas agora fico pensando... — Charlotte murmurou, virando-se de costas para a janela e encostando-se no parapeito, os olhos perdidos no chão — ...se devíamos ter ido também.

Ludmilla começou a rir, o som baixo e rouco ecoando no quarto, mas parou abruptamente, segurando o ferimento com uma mão pressionada no abdômen, fazendo uma careta de dor. — Ai... Nunca diga isso pro Chuya, pelo amor de Deus. Eu quase chorei de rir quando vocês apareceram lá nos andares de baixo. O Chuya estava com aquela cara de "eu não acredito que ela me fez trabalhar ainda mais".

Charlotte sorriu, lembrando, inclinando a cabeça para o lado enquanto um brilho nostálgico aparecia em seus olhos. — Bom, eu falei que ele podia ir embora, mas ele quis vir também.

— Ele é aquele tipo — disse Ludmilla, imitando um professor. — Os idiotas que falam coisas como: "Se puder evitar um trabalho, eu evito. Se tiver que fazer, faço direito."

Ela começou a rir de novo, o corpo tremendo levemente com o esforço contido. Charlotte quase soltou uma gargalhada, cobrindo a boca com a mão, quando...

BANG!

A porta do quarto se abriu com toda a força, batendo contra a parede com um estrondo que fez as janelas tremerem. Todo enfaixado, parecendo uma múmia furiosa com bandagens enroladas desordenadamente, estava Dante, irrompendo no quarto com passos pesados e irregulares. — EI! CHARLOTTE! LUDMILLA! — ele gritou, gesticulando selvagemente com os braços. — VOCÊS SABEM QUEM É A YUKI?!

As duas olharam para ele, confusas, trocando um olhar rápido antes de virarem para Dante. — Yuki? — Ludmilla perguntou, erguendo uma sobrancelha e inclinando a cabeça. — Quem diabos é essa?

— Não... — Charlotte tentou se lembrar, franzindo a testa e batendo levemente no tablet com os dedos. — Não me lembro de ninguém com esse nome.

A expressão de Dante se tornou ainda mais irritada, os olhos se estreitando enquanto cerrava os punhos ao lado do corpo. — Droga! Obrigado! — ele gritou, virando-se abruptamente e saindo correndo pelo corredor, os passos ecoando no piso frio.

Ludmilla olhou para Charlotte, como se procurasse uma explicação, erguendo as mãos em um gesto de confusão. Charlotte também não fazia ideia, balançando a cabeça devagar. — Bom... — disse Ludmilla, reclinando-se na cama com um suspiro. — Ao menos ele 'tá bem, assim, correndo...

Logo atrás, correndo com passos apressados, estava Mirai. Ela parou na porta, ofegante, apoiando as mãos nos joelhos enquanto recuperava o fôlego. — O Dante passou por aqui?

— Passou — respondeu Ludmilla, acenando casualmente com a mão. — Perguntou sobre uma tal "Yuki" e continuou em frente.

— Droga! — Mirai bateu o pé no chão, o som ecoando no quarto, endireitando a postura com frustração. — Ele já fez isso umas três vezes! No quarto do Kintoki, do Luck e da Leona! Ele parece realmente desesperado com isso.

— Você sabe quem é essa pessoa? — perguntou Charlotte, inclinando-se para frente com curiosidade, cruzando os braços.

— Se eu soubesse, já tinha dito! — Mirai respondeu, claramente frustrada, passando as mãos pelos cabelos bagunçados. — Ele precisa continuar em tratamento, não ficar correndo atrás de alguém que não existe!

Ela suspirou, os ombros caindo enquanto olhava para o corredor. — É melhor eu ir atrás dele. Ela saiu correndo na direção que Dante.

Charlotte ficou parada, inquieta, andando de um lado para o outro no quarto, os pés batendo levemente no piso enquanto mordia o lábio. Ludmilla reparou, inclinando a cabeça para observá-la melhor. — Que foi? — Ludmilla perguntou, um sorrisinho surgindo em seus lábios enquanto se ajeitava na cama. — 'Tá preocupada com o Dante?

— O-O quê?! — Charlotte ficou vermelha, parando abruptamente e virando-se para ela com as mãos erguidas em defesa. — Não é isso! É que...

— Sei. — Ludmilla se ajeitou na cama e fechou a janela com um movimento suave, o som do trinco clicando no silêncio. — Você 'tá certa. Ele 'tá todo quebrado. É melhor a gente ir ver se consegue ajudar ele. Ou, ao menos, impedir dele abrir as feridas e morrer.

Charlotte, ainda envergonhada, assentiu devagar, desviando o olhar para o chão enquanto ajustava o tablet nas mãos. — S-Se você acha que é melhor...

— Vamos. A gente se divide e encontra ele. — Ludmilla disse, já tentando se levantar da cama, apoiando-se na beirada com uma careta de esforço, estendendo a mão para Charlotte em busca de suporte.

Parte 3:

Já no quarto de Sophi, iluminado pela luz suave da manhã que filtrava pelas cortinas semiabertas, estavam Beatrice e Vivian. Ambas olhavam para a garota, que finalmente havia acordado e agora segurava uma carta com as mãos trêmulas, os dedos pálidos contrastando com o papel amassado.

— Existe alguma chance deles terem forçado ele a fazer isso? — perguntou Beatrice, em voz baixa, os olhos fixos em Sophi com preocupação genuína.

Vivian balançou a cabeça devagar, cruzando os braços sobre o peito enquanto se encostava na parede oposta. — Impossível. Ninguém consegue forçar Kai a fazer algo que ele mesmo não queira.

Sophi releu a carta mais uma vez, os olhos percorrendo as linhas com uma lentidão deliberada, como se pudesse mudar as palavras. A caligrafia era rápida, quase agressiva.

Estou saindo dos Corvos e indo pra Black Dragon. Nos vemos por aí. - Kai

Quando Sophi acordou naquela manhã, aquela carta estava ao lado de sua cama, dobrada cuidadosamente sobre a mesinha de cabeceira. Depois de procurarem muito, não tiveram sinal de Kai por lugar nenhum. Beatrice descobriu que os Black Dragons haviam saído em missão na madrugada de hoje, e presumiu que Kai poderia ter ido com eles, trocando olhares especulativos com as outras. Mas ninguém fazia ideia de onde seria o local para onde eles iriam.

Sophi estava com uma cara vazia, os olhos distantes fixos na carta. 

— Eu não vou deixar acabar assim! — Vivian disse, irritada, dando um passo à frente e gesticulando com as mãos abertas. — Ele sair sem nem se explicar... Essa ideia de deixar uma carta e ir embora. Que idiotice!

— Está tudo bem.

Vivian e Beatrice olharam para ela, surpresas, virando os corpos simultaneamente para encarar Sophi, que ergueu o olhar devagar. — Nós podemos confiar no Kai — disse Sophi, tentando sorrir, os lábios se curvando em um arco forçado enquanto apertava a carta contra o peito. — Ele não é idiota. Ele sabe o que é certo e errado. Se ele decidiu fazer isso, ele deve ter seus motivos.

Ela olhou para a janela, para o céu vasto tingido de tons suaves de azul, inclinando ligeiramente a cabeça como se buscasse consolo nas nuvens distantes. — E mesmo que ele tenha saído dos Corvos, nós ainda o veremos no colégio e na sala. Ele ainda é da Classe -13. Então... não tem com o que se preocupar.

Ela falava aquilo sorrindo, mas tanto Beatrice quanto Vivian conseguiam ver que o sorriso era falso, os cantos dos olhos tremendo levemente. Beatrice, vendo-a, teve uma pequena e dolorosa visão de si mesma quando era criança, logo após sua irmã ter desaparecido, piscando devagar.

Ela ia falar algo, abrindo a boca com hesitação, quando...

BANG! Dante arrombou a porta, ofegante e enfaixado, o impacto fazendo a maçaneta chacoalhar enquanto ele entrava tropeçando ligeiramente, o peito subindo e descendo em respirações irregulares. — EI! VOCÊS SABEM QUEM É A YUKI?!

Todos reagiram da mesma forma que os outros: confusão, trocando olhares rápidos entre si antes de fixarem em Dante. 

— Yuki? — Vivian perguntou, erguendo uma sobrancelha e inclinando a cabeça para o lado. — De quem você está falando?

Dante ficou ainda mais frustrado, seu rosto se contorcendo enquanto batia o pé no chão impacientemente. — Droga! Elas também não...

Ele se virou, prestes a sair, girando o corpo abruptamente com os punhos cerrados. — Espera! Vocês sabem onde a Kurokawa e a Anna estão? Eu não encontrei elas em nenhum dos quartos!

Beatrice pensou, franzindo a testa e cruzando os braços enquanto olhava para o teto por um instante. — A Kurokawa não se feriu, então deve estar nos dormitórios. Mas a Anna... — Ela hesitou, mordendo o lábio inferior. — ...ela está agindo de forma meio estranha desde que saiu do laboratório da Verbrechen. Ela está acompanhando aquela cientista que encontramos, lá na área química do colégio.

— Estranha? — Dante perguntou, virando-se de volta para ela com os olhos semicerrados, inclinando-se para frente como se para captar cada detalhe. — O que você quer dizer com "estranha"?

Beatrice ia falar, abrindo a boca para explicar, mas uma voz gritou do corredor, ecoando pelas paredes. — DANTE! VOLTE AQUI AGORA! Mirai apareceu no fundo do corredor, correndo com passos apressados. Dante, vendo-a, correu para o outro lado, desaparecendo em um borrão de movimento.

Vivian, vendo os dois correndo pela janela do quarto, deu um pequeno sorriso, inclinando a cabeça ligeiramente enquanto observava a cena distante. — Bom, pelo menos algumas coisas não mudaram.

— Você acha mesmo? — perguntou Beatrice, virando-se para ela com uma expressão pensativa.

Vivian se virou devagar, erguendo uma sobrancelha em curiosidade. Beatrice parecia concentrada na porta por onde Dante havia saído, sua expressão séria, os dedos tamborilando no braço cruzado. — Ele... parecia meio diferente. — ela disse, de forma meio hesitante, semicerrando os olhos como se revisasse a memória.

— Não reparei. — Vivian deu de ombros, erguendo os ombros casualmente e relaxando-os. — Ele parecia meio desesperado, mas tirando isso...

— Não era isso — interrompeu Beatrice, gesticulando vagamente com a mão livre. — Eu tenho certeza. Alguma coisa estava diferente.

— Os olhos dele.

As duas olharam para Sophi, que agora encarava a porta com os olhos fixos, inclinando ligeiramente o corpo para frente na cama. — Eu reparei. Os dois olhos do Dante... haviam ficado azuis. O olho vermelho... mudou de cor.

Vivian parou, congelando no lugar com uma expressão de surpresa, piscando devagar enquanto processava. — Agora que você mencionou... eu também reparei.

Mas Beatrice balançou a cabeça devagar, negando com um gesto sutil. — Não acho que era somente isso.

Vivian e Sophi ficaram se encarando, a confusão crescendo em seus olhares.

Enquanto isso, do lado de fora, Dante corria desesperado pelos corredores do hospital. — "O que está acontecendo?!" — ele pensava, apertando a cabeça com as mãos enquanto desviava de enfermeiros surpresos. — "Eu durmo alguns dias e o mundo fica uma bagunça!"

Primeiro, ele descobriu que, durante o transporte dos membros da Verbrechen, um grupo misterioso atacou o comboio e os sequestrou. Depois, tinha isso: todos, sem exceção, não lembravam de Yuki. Como se ela tivesse sido apagada da existência. E agora, Anna estava agindo estranho.

"E ainda para piorar..." — ele pensou, cerrando os dentes enquanto virava uma esquina,— "...tem essas memórias entrando na minha cabeça. Mas elas não são minhas. São do 'outro eu'." — Ele parecia ainda mais desesperado, sem entender nada, o suor perlando em sua testa apesar das bandagens. Ele chegou a uma grande janela, não parou, e simplesmente saltou, caindo vários metros e aterrissando no gramado macio, rolando para absorver o impacto e já se levantando para correr, ignorando a dor que latejava em seu corpo.

Mirai, olhando da janela, gritou: — DANTE! VOLTE AQUI! — estendendo o braço como se pudesse alcançá-lo.

Ele continuou correndo em direção à ala de química, passando por estudantes que montavam barracas e penduravam lanternas com risadas animadas, todos nos preparativos para a chegada da Maré de Pétalas, o ar carregado de expectativa floral.

"Preciso perguntar para a Anna" — ele pensou, ofegante, os pulmões ardendo com o esforço. — "Ela deve saber alguma coisa, se isso estiver conectado com a Autoridade da Possibilidade. E depois... tenho que perguntar para algum professor sobre essa tal 'Cidade Meia-Noite'. Preciso descobrir por que eu esquecia dela sempre que acordava dos pesadelos, mas agora lembro de tudo vividamente."

Ele cerrou os punhos, a dor de suas feridas protestando com pontadas agudas, mas ele ignorou, acelerando o passo. — "Mas antes de qualquer coisa, preciso resolver o mais importante."

Ele não sabia se alguém havia alterado o tempo, ou se fizeram lavagem cerebral em todos. Mas, seja lá quem for o responsável, e seja lá qual for o motivo...

 "Eu vou dar um jeito de salvar a Yuki."

Parte 4: 

Enquanto isso, no dormitório dos Corvos, o ar fresco da manhã carregado com o perfume sutil de folhas úmidas e o sal distante do oceano, Kurokawa varria a área externa com movimentos ritmados, a vassoura raspando contra o chão de pedra irregular. O ar estava mais leve com a expectativa da Maré de Pétalas, mas seu coração estava pesado, uma sensação opressiva que fazia seus ombros caírem ligeiramente. Ela parou por um momento, apoiando-se no cabo da vassoura e olhando para o horizonte, triste, os olhos semicerrados contra o brilho do sol nascente.

 "Será que as coisas... vão voltar a ser como eram antes?" — Ela deu uma risada baixa, sem graça, balançando a cabeça devagar. — "Não que 'antes' elas também fossem normais... Afinal, olha pra mim. Uma viajante do tempo de vinte anos atrás."

— Você parece meio cabisbaixa, jovem!

Kurokawa congelou, o corpo inteiro tensionando como uma corda esticada. A vassoura caiu de suas mãos com um baque surdo no chão, rolando levemente para o lado.

— O que que foi? Aconteceu algo de bom?

A voz estava literalmente atrás de sua orelha, alegre e cheia de energia, enviando um arrepio pela espinha dela. Kurokawa se virou lentamente, seu sangue gelando enquanto girava o corpo com cautela, os pés plantados firmemente no chão.

Era ela. A garota do rabo de cavalo alto e mechas brancas. A mesma que havia aparecido durante a invasão, parada ali com as mãos nos quadris e um sorriso radiante.

A mente de Kurokawa travou por alguns segundos, e então começou a processar em pânico, os olhos se arregalando enquanto piscava rapidamente. — "Espera, espera! Essa daí é aquela garota! Mas como...? Não é possível!" — Ela se lembrou daquela noite, inclinando ligeiramente a cabeça como se para reviver a memória. — "Daquela vez ela tinha uma aura de Éter tão poderosa que, quando sentimos, todo mundo congelou! Como é possível que ela tenha chegado por trás de mim e eu não tenha sentido ela?!"

Kurokawa deu um passo para trás, os punhos se cerrando instintivamente. — "Não... é mais do que isso. Mesmo agora, de frente para ela... eu não sinto nada. A energia gigantesca dela... sumiu." — Ela olhou para Misaki, que sorria, esperando uma resposta, inclinando a cabeça para o lado com curiosidade inocente. — "Não vai me dizer... que ela consegue suprimir aquela quantidade ridícula de Éter... e ficar com praticamente zero? Se for verdade..."

Kurokawa parou de respirar, o ar preso na garganta. Misaki, vendo que a garota estava imersa em pensamentos, começou a balançar a mão na frente de seu rosto. — "Se isso for verdade..." Kurokawa pensou, seu terror atingindo o auge, os olhos se dilatando enquanto recuava mais um passo. — "...aquela energia de ontem... talvez não tenha sido o seu máximo. Talvez estivéssemos vendo apenas uma pequena parte que ela deixou aparecer."

— Ei! O de casa! Jovem? Você está aí? A voz de Misaki a trouxe de volta, ecoando com um tom brincalhão enquanto estalava os dedos perto do ouvido dela.

— SIM! — Kurokawa se assustou e deu vários passos para trás, quase tropeçando na vassoura caída, recuperando o equilíbrio com um braço estendido.

— Calma, calma, jovem. — Misaki a acalmou, inclinando-se ligeiramente para frente. — Você está tão nervosa que seu fluxo de ki ficou todo agitado.

Kurokawa ficou confusa, piscando rapidamente enquanto processava. — "Ki? Ela está falando sobre o Éter?"

Misaki colocou as mãos na cintura, olhando para o prédio atrás de Kurokawa com os olhos semicerrados, como se avaliando a estrutura. — Então é verdade que esse aqui é o tal dormitório dos Corvos?

— S-sim... — Kurokawa confirmou, ainda em guarda, ajustando os pés para uma postura mais estável.

Misaki olhou de volta para ela, virando o corpo com um movimento fluido. — E você é amiga de Dante, né? 

Kurokawa suou frio, mas sua postura ficou mais defensiva, erguendo o queixo ligeiramente enquanto cruzava os braços. — O que você quer com ele?

Misaki riu, jogando a cabeça para trás com genuína diversão. — Hahaha! Com certeza você é! Mesmo morrendo de medo, se pôs em guarda como se estivesse pronta até para lutar comigo. Que fofa! — Ela balançou a mão, como se espantando uma mosca. — Não é nada perigoso, por isso pode relaxar.

Ela se aproximou um passo, para olhar diretamente nos olhos de Kurokawa. — Já que você é amiga dele, devia saber... Dante, por acaso, perdeu alguém muito importante pra ele?

Kurokawa ficou confusa com a pergunta, franzindo a testa e piscando devagar, e então, uma imagem veio à sua mente. Nero. — Sim... ele perdeu. Como... como você sabia?

— Eu não tinha certeza, mas as chances eram muito grandes. — Misaki disse, como se falasse do tempo, dando de ombros casualmente e olhando para o horizonte por um instante. — Afinal, ele tinha uma Borboleta do Caos consigo. O que significa que alguém, com uma vontade muito grande, desejava isso.

Novamente, Kurokawa ficou totalmente confusa, inclinando a cabeça para o lado sem entender nada do que ela estava falando.

Misaki olhou para dentro do dormitório, por cima do ombro de Kurokawa, esticando o pescoço ligeiramente como se procurasse por algo. — Ele não parece estar aqui. Bem, então vou deixar recado.

Ela se virou. — Diga isso para o Dante: Agora ele tem uma Borboleta do Caos. Isso é bom. Mas somente se ele acabar controlando ela. Caso ele não faça isso, a "vontade" da borboleta pode esmagá-lo. E aí... vai ser fim de jogo.

Ela estalou os dedos, o som ecoando nitidamente, enquanto piscava para Kurokawa. — Eu atualmente estou com tempo livre até achar a Alvorada, e já fazia tempo que não arrumava uns discípulos. Como eu estou interessada nos jovens dessa geração, caso ele queira, eu posso dar umas aulas pra ele. De como controlar melhor o ki.

Ela se virou e, com um salto casual, impulsionando-se com um movimento ágil das pernas, pousou no telhado do dormitório, equilibrando-se na borda com facilidade. — Dê esse recado a ele!

— ESPERE! — Kurokawa gritou, estendendo o braço como se pudesse alcançá-la. — Qual é o seu nome?!

Misaki, já correndo pelo telhado com passos leves e ágeis, olhou para trás, percebendo que esqueceu desse detalhe, parando na borda e virando o corpo ligeiramente, sorrindo. — Meu nome é Misaki. Misaki Albran!

Ela então começou a saltar pelos telhados, desaparecendo de vista em saltos graciosos, acenando com dois dedos erguidos em um gesto casual. — E aproveite a juventude!

Kurokawa ficou sozinha no pátio, segurando a vassoura com força, os nós dos dedos brancos de tensão. Ela respirou fundo, o peito subindo e descendo em respirações irregulares, olhou para o céu vasto e, inclinando a cabeça para trás com os olhos fechados por um instante, gritou: — ALGUÉM PODE ME EXPLICAR O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO?!

Parte 5:

Já na ala das salas de química de Babylon. Cat, movia-se com uma energia frenética, conectando vários tubos e cabos em uma máquina complexa no centro da sala, que continha um estranho minério azul brilhante, seus dedos ágeis girando conectores com cliques audíveis enquanto inclinava o corpo para verificar as ligações.

— Bom, deu muito trabalho, mas conseguimos! — ela disse, animada, limpando o suor da testa com as costas da mão, piscando para afastar uma gota que escorria pelo rosto. — Encontramos uma Joia Lunar de Morpheus! Se o que você me disse está certo, qualquer coisa ligada ao "outro lado", quando exposta a Éter, pode criar a abertura. Correto?

Ela olhava para a "coisa" dentro do corpo de Anna, inclinando a cabeça ligeiramente para o lado com os olhos semicerrados em curiosidade, gesticulando vagamente com uma chave de fenda na mão.

A entidade, com os olhos vermelhos brilhando intensamente e a postura régia ereta como uma estátua viva, respondeu: — Vós estais correta. — Sua voz ecoava com um tom grave, cruzando os braços sobre o peito enquanto observava Cat com uma inclinação sutil da cabeça.

Cat pensou: — "Ela ainda não perdeu esse jeito de falar. Que complicado." 

— Sabeis, por ventura, a quem pertencia este receptáculo carnal que hoje me abriga? — perguntou "Pseudo-Anna", estendendo as mãos para frente como se examinasse uma relíquia, virando as palmas para cima e para baixo com movimentos deliberados.

— Hã? Quer saber de quem era esse corpo? — Cat respondeu, distraída, enquanto ajustava um mostrador na máquina com um giro rápido do pulso. — Tudo que sei é que era de uma garota chamada Anna. Mas eu também não a conhecia. Por quê? Sentindo algo errado?

— Em verdade, sucede o extremo oposto. — A entidade disse, analisando as próprias mãos com os dedos flexionando lentamente, como se testasse a sensação da pele. — Este receptáculo carnal, por um desígnio que me escapa, demonstra uma afinidade sublime com minha essência. Ademais, alberga um manancial de Éter que beira o infinito. Causa-me estranheza, admito, todavia encontro-me em absoluto alvedrio.

Cat parou de mexer na máquina e se virou para ela, cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha com um sorriso irônico. — Certo, "Vossa Alteza". Se você está tão compatível assim, que tal tentar absorver um pouco do estilo de fala atual? Não sei de que era você é, mas esse seu estilo de linguagem é difícil demais de entender.

A entidade parou por alguns segundos, os olhos vermelhos fechados em concentração profunda, o corpo imóvel como se estivesse em transe, as mãos caindo ao lado do corpo. — Compreendido! — ela disse de repente, sua voz agora chocantemente normal, embora ainda fria, abrindo os olhos com um piscar rápido. — Esforçar-me-ei, então, para mudar meu modo de expressão! Embora... — ela hesitou, seu rosto mostrando uma rara ponta de desconforto, inclinando ligeiramente o corpo para frente e tocando o peito com a mão aberta — ...eu realmente prefira não absorver demasiado conhecimento desta "casca", entende? Pois posso acabar me contaminando um pouco com os sentimentos que a habitavam!

Cat voltou a mexer na máquina, pensando que só esperava que ela não começasse a falar de forma ainda mais confusa, inclinando-se para ajustar um dial com um suspiro resignado. A máquina ligou com um zumbido alto, o som reverberando pelas paredes empoeiradas. O cristal azul começou a carregar, pulsando com uma luz suave que iluminava o rosto delas com tons etéreos.

Cat olhou para o monitor, semicerrando os olhos para ler os dados piscantes, e depois para a janela, onde o horizonte rosa da Maré de Pétalas se aproximava como uma onda viva, inclinando a cabeça para apreciar a vista distante. — Olha só... O portal vai se abrir junto com a chegada da Maré. Vai ser como se as cerejeiras tivessem vindo se despedir de nós.

Parte 6:

O som era o primeiro a atingi-lo: uma cacofonia de risadas, marteladas e música abafada. O cheiro de madeira recém-cortada e comida de festival pairava no ar. Dante via tudo enquanto corria desesperado pelos campos de Babylon, passando por estudantes com risadas animadas e lanternas penduradas, sua mente focada apenas em um objetivo: a ala química, o peito arfando com cada passo enquanto desviava de barracas sendo montadas.

Ele saltou sobre uma caixa de suprimentos, derrapou levemente na grama cortada e continuou, seu fôlego criando uma nuvem rítmica no ar fresco da tarde. O sol estava começando a baixar, lançando longas sombras que se esticavam pelo campus como dedos.

De repente, seu corpo agiu sozinho, os músculos tensionando instintivamente.

Não foi um som. Não foi uma visão. Foi uma queda de pressão no mundo. Um vácuo momentâneo onde o som do festival morreu por uma fração de segundo. O ar à sua frente pareceu engrossar, ficar estático.

Uma sirene primal gritou em sua cabeça: PERIGO À FRENTE.

O mundo entrou em câmera lenta. Ele podia ver um estudante à sua esquerda, no meio de uma risada, o rosto congelado.

Antes que ele pudesse sequer processar o pensamento, seu Éter explodiu, ativando o "Deus da Velocidade" por puro instinto, eletricidade vermelha crepitando ao seu redor.

O som do mundo voltou com força total, mas distorcido, como se estivesse submerso. 

Ele deu um salto com toda a força para trás, a eletricidade vermelha o puxando como uma âncora invisível, e aterrissou a dez metros de onde estava, já em postura de combate, os joelhos flexionados e os punhos cerrados, varrendo o ambiente com os olhos alertas.

Ele olhou para o local onde estaria, semicerrando os olhos contra o sol do horizonte.

Por um momento, nada. Apenas o caminho vazio e o balançar suave das lanternas do festival. Ele estava prestes a pensar que foi um alarme falso, um espasmo de seu poder.

Até que de repente, de trás de uma das cerejeiras que margeavam o caminho, uma garota saiu lentamente, os galhos farfalhando levemente com seu movimento, emergindo das sombras como uma ilusão se materializando.

Ela tinha cabelos curtos, com mechas pretas e brancas bagunçadas que caíam desordenadamente sobre a testa. Suas roupas eram cheias de listras verticais pretas e brancas, ondulando ligeiramente com a brisa.

As listras pareciam se mover por conta própria, criando uma ilusão de ótica nauseante, como se suas roupas não estivessem paradas.

Mas eram seus olhos que prenderam a atenção de Dante: duas espirais perfeitas, pretas e brancas, como uma roda de hipnose, girando sutilmente e hipnotizando.

Dante sentiu sua cabeça latejar levemente, forçando-se a focar não nos olhos, mas no espaço entre eles.

Um sorriso cheio de malícia se abriu em seu rosto, os lábios se curvando em um arco torto.

— Oiiiiiiii! — ela cantou, a voz animada, enquanto se envergava um pouco para trás, de um jeito que parecia desconfortar a coluna, inclinando o corpo de forma exagerada como se estivesse posando para uma plateia invisível.

Dante olhava, completamente confuso, mas ainda focado nela, inclinando ligeiramente a cabeça enquanto mantinha a guarda alta. Seus olhos nem piscavam, tentando rastrear o perigo, os músculos dos braços tensionados.

Onde estava a ameaça? A sirene em sua cabeça tinha sido um grito, mas a garota parecia... uma palhaça.

De repente, ela desapareceu.

Não foi um borrão. Não foi velocidade. Foi como se ela fosse uma imagem em uma tela que foi desligada. 

Dante girou, o Éter vermelho explodindo em seu calcanhar—

Ela já estava ao seu lado, materializando-se em um piscar.

O som do festival desapareceu, abafado pela proximidade dela. A única coisa que ele ouvia era a respiração dela, um sussurro seco.

— Ah! Eu esqueci, por isso direi os três! — ela sussurrou ao lado de seu ouvido, o hálito quente em sua pele, inclinando-se para perto o suficiente para que seus cabelos roçassem o ombro dele. — Bom dia, boa tarde, boa noite! E um prazer finalmente conhecer você... jovem Astreus do Tempo.

A intimidade do ato foi mais chocante que um soco. A invasão de seu espaço pessoal fez sua pele se arrepiar.

Dante recuou com toda a velocidade novamente, abrindo distância em um borrão vermelho, girando o corpo no ar para aterrissar de frente para ela, o coração acelerado.

"Astreus."

Aquele nome.

"Droga, não vai me dizer que ela..."

Ele mal completou o pensamento. O espaço que ele acabou de criar foi violado instantaneamente. Ela não se moveu até ele; ela simplesmente estava lá.

Ela apareceu de novo, do outro lado, o rosto agora quase tocando o dele, inclinando-se para frente com os olhos espirais girando mais rápido, como se o desafiassem.

— ...O Futuro é pika, moleque.

Dante congelou, piscando devagar enquanto processava, o corpo inteiro enrijecendo.

Sua mente de combate gritava para ele atacar, criar distância, fazer alguma coisa. Mas a frase... a frase e o jeito que ela disse... era tão…. tão fora de lugar, que quebrou seu foco.

Ele se afastou de novo, mas desta vez, mais devagar, recuando um passo deliberado enquanto inclinava a cabeça, avaliando. Aquele sentimento... não havia dúvidas.

— Tá certo... — Dante disse, relaxando um pouco a postura de combate, endireitando os ombros ligeiramente, o "Deus da Velocidade" ainda ativo com faíscas vermelhas dançando em sua pele. — Já tava achando estranho nenhum de vocês ter aparecido. E aí? Qual deles você é? Quem eu tirei no gacha?

A garota-espiral caiu no chão de grama, rindo histericamente, rolando de lado enquanto batia as mãos no solo macio, o corpo tremendo de diversão.

A risada dela era aguda e dissonante, cortando o som alegre do festival ao longe. Os estudantes próximos se viraram para olhar, mas pareceram desviar o olhar rapidamente, como se não conseguissem focar nela.

— Engraçado! O Astreus do Tempo não consegue saber do futuro! — ela gargalhou, virando-se de barriga para cima e apontando para ele com o dedo. — Que Astreus fulero você é! Até eu consigo ver! — Ela parou, colocou o dedo no queixo em um gesto pensativo, inclinando a cabeça para o lado. — Espera... eu 'tô vendo o futuro ou é o passado? Ah, eu já esqueci. Tudo se repete tanto. Talvez seja o passado...

Ela o encarou de cabeça para baixo, seu sorriso torto parecendo ainda mais maníaco daquela perspectiva.

Ela olhou para ele, seus olhos espirais girando como rodas vivas, endireitando o corpo para sentar-se na grama. — Ei! Onde esta aquela pirralha que fica te seguindo? Eu amo brincar com ela!

Dante franziu o cenho, semicerrando os olhos enquanto cruzava os braços, mantendo a distância. 

— Tá procurando a Anna? Então você sabe quem ela é? E que papo é esse de "Astreus do Tempo"? Eu e a Anna somos o Avatar da Possibilidade.

A garota voltou a rir no chão, jogando a cabeça para trás e batendo os pés na grama, o som ecoando pelo campo aberto. — Hahahaha! Ele tem poderes de tempo, mas se chama de Possibilidade! Que Astreus bizarro!

Dante balançou a cabeça devagar, passando a mão pelo cabelo em frustração. O sol estava mais baixo. Cada segundo aqui era um segundo perdido.

Ela devia ter enlouquecido com a fusão ou algo assim. Ele não tinha tempo para isso. Quanto mais tempo ele perdesse ali, mais difícil seria achar Anna caso ela saísse de lá.

Ele tomou uma decisão. A garota era uma distração caótica, não uma ameaça imediata.

Ele tentou ignorá-la e dar a volta nela, pisando com cuidado na grama para contorná-la, pensando que teria que resolver isso depois, os olhos fixos no horizonte.

Ele deu três passos. O som da risada dela parou abruptamente.

Quando ele passou por ela, a garota se sentou abruptamente, cruzando as pernas e inclinando o corpo para frente como se confidenciasse um segredo.

Sua voz baixou, tornando-se clara e séria, cortando o ar.

— Mas é verdade. Seja bonzinho com o Uzumaki, 'tá certo?

Dante parou, congelando no lugar, mas não se virou, os ombros tensionados enquanto escutava. O nome bateu nele como uma parede física. A urgência de encontrar Anna lutou contra a necessidade de entender essa nova peça do quebra-cabeça.

Ele não podia perder mais tempo, mas também queria ao menos escutar, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado.

— Ah, apesar dele ser daquele jeito, o Uzumaki é um garoto legal, sabe? — ela disse, agora deitada de costas na grama, olhando para as nuvens com as mãos cruzadas atrás da cabeça, os dedos entrelaçados. Sua postura era de total relaxamento, como se estivesse em um piquenique, mas suas palavras eram carregadas de um significado oculto. — Ele não tem culpa do pai dele ser tão confuso. Você tem que entender... Assim como eu, você sabe que às vezes os pais não conseguem impedir que os filhos façam bagunça, né?

Essa última frase o atingiu. Ela não estava apenas falando do Uzumaki.

Dante se virou devagar, semicerrando os olhos com confusão e urgência. — O que você queria dizer com isso? Como eu deveria entender?

Só que ela já não estava mais lá.

O lugar na grama onde ela estava deitada estava vazio. A grama nem estava amassada.

Ela estava indo embora, pulando de um pé só, de costas para ele, balançando os braços para manter o equilíbrio, o corpo oscilando de forma exagerada. Ela estava a quase cinquenta metros de distância, perto da linha das árvores, movendo-se de uma forma humanamente impossível, quase como um desenho animado.

— De qualquer jeito, já disse o que queria! Aproveite a viagem até Morpheus, Astreus do Tempo! Já nos vimos em breve por aí!

Sua voz chegou até ele com clareza perfeita, sem gritar, antes que ela desse um último pulo e desaparecesse de vista entre os alunos.

Dante ficou parado, olhando para onde ela desapareceu no horizonte, piscando devagar enquanto processava, o vento agitando sua roupa.

O som do festival voltou com força total, preenchendo o silêncio que ela deixou. Risadas. Música. Era surreal.

— O que diabos acabou de acontecer...?

Ele respirou fundo, forçando-se a focar, fechando os olhos por um instante e endireitando a postura. Uzumaki. Morpheus. Astreus do Tempo. Informação demais. Ele guardaria para depois. Agora, a prioridade.

Não podia desperdiçar mais tempo. Ele pegou seu terminal do bolso, abrindo o chat do grupo dos Corvos com toques rápidos nos botões, e digitou uma mensagem rápida, os dedos voando pela tela:

[Cuidado. Tem uma garota estranha no campus. Cabelos e roupas listradas de preto e branco. Olhos em espiral. É um Avatar. Não enfrentem.]

Ele enviou com um toque final e continuou correndo para a ala química, guardando o terminal enquanto acelerava o passo, o gramado macio sob seus pés. 

Parte 7

Dante ia correndo pelos corredores da ala química, suas passadas ecoando no metal. Ele parou. Seu corpo inteiro se arrepiou. Ele imediatamente sentiu algo estranho. Duas coisas, para ser mais exato.

A primeira era a conexão que ele tinha com Anna. Estava passando sentimentos estranhos, um turbilhão caótico de medo, felicidade, raiva e ansiedade, tudo misturado. As memórias de Anna começavam a fluir para ele. Ele via flashes rápidos: Cat, encolhida dentro da jaula de vidro. E logo em seguida, Cat, rindo, enquanto Anna caía no chão.

A segunda coisa era o Éter. Um cheiro, uma sensação. Aquele Éter, sem dúvidas nenhuma, era igual ao Éter que ele sentia vindo daqueles pesadelos.

Anna estava em perigo. Ele acelerou o passo, seu corpo se tornando um borrão vermelho, os corredores se distorcendo em sua visão periférica.

Dentro do laboratório, "Pseudo-Anna" parou de repente. Através da conexão, era ela quem agora sentia Dante se aproximando, assim como alguns de seus sentimentos confusos. Ela deu uma risada baixa, quase incrédula. — Céus... Por esta reviravolta eu jamais aguardava.

Cat, que estava comendo um macarrão instantâneo enquanto esperava o portal abrir, olhou para ela. — O que foi que aconteceu?

"Pseudo-Anna" se levantou, seus olhos vermelhos fixos na porta. — Complicações... Ao que parece, a antiga mestra deste corpo... ela possuía um vínculo de alma com um certo jovem! E, por uma tremenda ironia do destino, esse mesmo garoto parece ter feito uma jornada mental direto para Morpheus... durante seus sonhos!

Cat se levantou, derrubando o macarrão, assustada. — Como isso é possível?!

— Não tenho a mínima ideia! — A entidade rosnou. — Senhorita Cat, apresse os preparativos e, assim que for possível, descerre o portal! Se não o atravessarmos no exato instante em que ele se abrir, nossos desígnios... ruirão.

Ela caminhou em direção à porta. — Mesmo sentindo apenas uma fagulha do éter daquele garoto — talvez pela conexão dele com este corpo — eu posso afiançar: se ele tentar nos obstar... não seremos capazes de sobrepujá-lo.

Ela abriu a porta e começou a sair. — Onde você vai? — Cat gritou. 

A mulher se virou. — Conseguir tempo.

Assim que ela saiu para o corredor, Dante virou a esquina. Eles se encontraram cara a cara. O ar no corredor estalou com a tensão.

Sem uma palavra, Dante ativou o "Deus da Velocidade". A aura carmesim explodiu ao seu redor com um zumbido baixo, e ele foi a todo vapor na direção dela, o chão de linóleo rachando sob seu impulso inicial. Assim que ele veio com um chute lateral, visando parti-la ao meio com força total, a garota, em um movimento fluido e sobrenaturalmente calmo, mordeu o próprio polegar e usou o sangue que jorrou para criar uma espada carmesim instantaneamente, o líquido se solidificando no ar.

CLANG!

Ela bloqueou o golpe com a lâmina endurecida.

Os dois se encararam. O impacto criou uma pequena onda de choque que fez as luzes do corredor piscarem. Dante saltou para trás, aterrissando levemente.—  "Essa... é quem tomou o corpo de Anna. Essa habilidade... esses olhos e ouvidos... Será que ela é uma vampira?"

A mulher moveu os olhos, olhando de soslaio para dentro do laboratório. — "Eu jamais vou conseguir defrontá-lo! É melhor... sim, é melhor... tentar retardá-lo usando outro ardil! Argh... mas se eu usar de falsidade, ele saberá! Ele vai perceber! Então... a única senda... a única forma... deve ser..."

Ela baixou a espada de sangue. — Porventura deseja saber? Pois eu sei... eu sei exatamente onde sua amiga Yuki se encontra!

Dante travou. Seu "Deus da Velocidade" vacilou. Ele esqueceu de Anna, do portal, de tudo. — O que... O que você disse? Fale!

A garota riu, um som frio. — Eu ignoro os meios! Mas você... você acabou vinculado ao Reino de Morpheus! Embora... talvez lhe soe mais familiar se eu o chamar de... 'Cidade Meia-Noite'! O ponto é: quando algo estabelece um elo com aquele plano... converte-se num portal! E sua amiga... — ela fez uma pausa, saboreando — ...por mero acaso, findou por tocá-lo... justo no instante em que sua mente vagueava além da fenda! E com isso... ela também se conectou àquele mundo!

Dante sentiu o sangue gelar. Ele lembrou. Yuki, no hospital, sacudindo-o para acordar do pesadelo.

— E os Guardas Reais... que estavam à minha procura... acabaram confundindo-a comigo! Eu suspeito que deva existir algo nela também vinculado a Morpheus! Se for realmente isso... ah, eu acho que você está em sérios apuros! Pois, assim que me capturassem, o desígnio dos Guardas era me executar! Para que eu... jamais fugisse outra vez!"

Aquela chuva de informações fez a mente de Dante travar. Ele começou a ficar completamente desesperado. Morpheus. Aquele Avatar havia falado esse nome. Yuki. Executada. E por culpa dele. Sua mente era um turbilhão, ele não conseguia colocar as coisas no lugar.

A garota riu, vendo que havia conseguido. Agora ele não teria reação. "Cat... se agilize!"

Mas a situação ficou ainda mais problemática. Do fundo do corredor, Ludmilla, que havia ido em busca de Dante, apareceu. Ela viu a situação e não entendeu bem, se aproximando devagar. Mas quando notou Dante com o "Deus da Velocidade" ativado, em modo de combate, e "Anna" parada em sua frente, com uma espada de sangue e características de vampira, ela entendeu.

— Perigo!

Ludmilla correu na direção deles, sua velocidade impressionante. Ela usou sua habilidade, puxou um cano de metal do teto (que começou a disparar água do sistema de incêndio) e o imbuiu com Éter, atacando "Anna" com um golpe devastador por cima.

Dante, confuso, desviou para o lado, a água espirrando nele. "Anna" girou, sua espada de sangue encontrando o cano de metal em um grito de aço. As duas começaram uma troca de golpes. Era a força bruta e a manipulação de metal de Ludmilla contra uma esgrima precisa e mortal. 

 A água do cano quebrado choveu sobre elas, encharcando o corredor, e espirrava a cada parada e bloqueio, a luz vermelha de "Anna" e o brilho metálico de Ludmilla piscando sob o spray. Ludmilla notou imediatamente: as habilidades de "Anna" estavam diferentes. Ela lutava como uma esgrimista com anos de experiência. 

Ela saltou para trás, se afastando. — DANTE! O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!

Ele demorou para responder. 

— DANTE! — Ludmilla gritou, o nome ecoando. 

Ele despertou. Vendo que o tempo estava corrido, decidiu pensar nisso depois. — A pessoa na frente deles está possuindo a Anna! E dentro do laboratório tem uma cientista! Precisamos pará-las sem matá-las! Conseguir mais informações!

— Entendido! — Ludmilla disse.

Os dois avançaram juntos. "Anna" foi pressionada pela força combinada dos dois e jogada para dentro da sala do laboratório com um chute de Ludmilla. Quando invadiram, Cat gritou, assustada, e ao olhar para Dante, seus olhos se arregalaram. — É ele! O garoto com a Borboleta do Caos! 

Dante ficou confuso.

— CAT! DESCERRE O PORTAL! IMEDIATAMENTE! — "Anna" gritou, desesperada.

No exato momento em que o lado de fora ficou rosa, com a Maré de Cerejeiras finalmente atingindo Babylon, a Joia Lunar brilhou. Um portal azul e instável se abriu no meio da sala, começando a sugar o ar e os papéis com uma força violenta.

Cat começou a se abaixar, em pânico, enquanto tudo era puxado para dentro do portal. "Anna" revelou as asas de morcego de suas costas, e as usou para jogar Ludmilla que estava em cima dela, imobilizando-a para longe com uma poderosa lufada de vento. Ela começou a voar na direção do portal, seu corpo sendo puxado pela sucção.

Mas Dante, usando o "Deus da Velocidade", explodiu do chão, seus pés rachando o piso do laboratório, e a pegou pelas pernas no ar. Os dois começaram um cabo de guerra frenético, suspensos entre o laboratório e o vácuo azul do portal. Ele a puxava de volta com toda a sua força física. "Anna" se debatia, suas asas batendo furiosamente contra a sucção, mas percebeu que não tinha como ganhar dele, não agora, com seu poder incompleto.

— Rápido, o portal é instável. Não sei dizer quanto tempo ele ficará aberto! — Assim ela correu, pronta para entrar... Quando, de repente, o portal fechou diante dela com um estalo sônico. 

O cristal azul na máquina rachou e quebou.

"Anna" caiu no chão. Dante foi até ela. — Não se mova.

Ludmilla voltou. — O que aconteceu? 

Cat mexia nos cristais quebrados, histérica. — Impossível! Gastamos toda a energia do fragmento! Mesmo tendo passado anos para encontrar um desse tamanho!

— Agora — Dante disse, sua voz fria, olhando para "Anna" —, você vai desistir. E contar tudo que sabe. Inclusive sobre o estado da Yuki.

A entidade no corpo de Anna estava com uma cara de descrença e total frustração. Ela começou a chorar. E, de repente, ela olhou para Dante. Seus olhos vermelhos estavam cheios de ódio. Puro e genuíno.

No mesmo instante, os cristais quebrados na máquina brilharam intensamente, pulsando com uma luz sobrenatural. Um flash azul preencheu a sala, não apenas cegando a todos, mas emitindo um som agudo e ensurdecedor. 

Dante sentiu uma força irresistível agarrá-lo, como se o próprio espaço estivesse se dobrando e o puxando para dentro.

Quando Dante abriu os olhos de novo, a luz rosa de Babylon havia sumido. Ele estava sozinho. Caído em uma terra cheia de pedras, perto de uma floresta retorcida. O ambiente inteiro tinha um tom azulado. Ele olhou em volta, confuso.

E, de repente, olhou para o céu. Para ver uma lua azul.

Parte 8:

O som de um 'pop' suave, quase musical, ecoou como o estourar de uma bolha delicada.

  A visão agora é de uma cidade azul como diamante, o ar carregado com um perfume sutil de ozônio e flores imaginárias. Ruas de safira polida refletem um céu de um azul profundo e sobrenatural, onde nuvens preguiçosas flutuam como véus translúcidos.

Pessoas andavam, outras dançavam, seus passos leves ecoando como sussurros no cristal. Um casal valsa no meio da rua, girando em círculos perfeitos, as mãos entrelaçadas com gentileza, os olhares fixos um no outro enquanto o vento os envolve como um parceiro invisível. Bolhas de sabão, grandes como balões, voavam pelos lados, flutuando preguiçosamente contra o céu. Elas sobem das grades de ventilação nas calçadas, emergindo com um gorgolejo suave, brilhando com cores prismáticas antes de flutuarem para cima, intocadas, como sonhos ascendendo.

A câmera desliza ao nível da rua, passando por mais surrealismo, o som distante de risadas melódicas misturando-se ao clique suave de passos.

Brinquedos do tamanho de pessoas desfilavam pela rua como se fossem cidadãos: um urso de pelúcia gigante de terno discutia calmamente com um humano em uma cafeteria, ajustando seus óculos de aro redondo com uma pata de feltro macia, enquanto soldadinhos de chumbo patrulhavam as calçadas, seus movimentos perfeitamente sincronizados e rígidos, produzindo um 'clique-claque' rítmico no cristal, marchando em formação precisa como um relógio vivo.

Uma conversa calma e agradável fluía das mesas, os murmúrios são melódicos, ecoando suavemente, como se a própria cidade estivesse cantando em harmonia baixa. Uma cena digna de um sonho, onde o ar vibra com uma serenidade palpável.

Aquela era a cidade Oníria. Seu sol azulado iluminava brilhante, lançando raios que dançavam nas superfícies, enquanto as pessoas riam e se divertiam, trocando acenos casuais e toques leves nos ombros.

A harmonia se estilhaça. Não com uma explosão, mas com um som agudo, fora do tom, como uma nota errada em uma sinfonia.

De repente, uma comoção irrompeu. Gritos ecoaram das portas de um grande museu de mármore branco, cortando o ar como facas afiadas.

Alguém, coberto por um pano grosso e escuro, começou a correr em disparada, atropelando a multidão com ombros empurrando e pés pisando em poças de luz refletida. A figura é um borrão de sombra, um rasgo no tecido perfeito daquele mundo, movendo-se com urgência que contrasta com a lentidão ao redor. 

Logo atrás, alguns guardas com armaduras ornamentadas saíram, gritando, tropeçando ligeiramente uns nos outros na pressa: Suas armaduras de latão polido refletem o azul, fazendo-os parecer brinquedos caros e desajeitados, os elmos balançando enquanto gesticulam freneticamente. 

— LADRA! LADRA! ALGUÉM AGARRE ESSA LADRA! ELA ROUBOU OS MAPAS DA CIDADE DE CRISTAL DO MUSEU! — um deles berrou, estendendo o braço como se pudesse alcançá-la.

Mas ela corria em zigue-zague pela multidão com uma agilidade e acrobacia dignas de um felino, desviando de pedestres com giros rápidos do corpo. Ela usa o ombro de um dos soldadinhos de chumbo como apoio para um salto, pressionando com a mão e impulsionando-se para cima, fazendo-o girar no lugar como um pião, os braços rígidos rodopiando descontroladamente. Ela desliza por baixo de uma bolha gigante que flutuava baixo, sem estourá-la, o pano roçando a superfície iridescente que treme levemente com o toque, mas permanece intacta.

Ela saltava por cima de uma carrocinha de doces, usando a beirada como trampolim para um mortal lateral ágil, girando no ar com os braços recolhidos antes de aterrissar com um rolamento suave, fazendo as pessoas e os brinquedos olharem curiosos, inclinando as cabeças em uníssono. As cabeças se viram em uníssono, mais intrigadas do que alarmadas, murmurando entre si com gestos suaves. Ninguém tenta detê-la; eles apenas observam o espetáculo, alguns até aplaudindo timidamente como se fosse uma performance.

A câmera segue a ladra enquanto ela passa correndo por um pátio de restaurante, o cheiro de doces açucarados e bebidas efervescentes preenchendo o ar.

Sentados em um restaurante aberto na calçada, dois homens que observavam a cena se entreolharam, inclinando ligeiramente os corpos um para o outro sobre a mesa de cristal.

— Escutou isso, irmão? — disse o primeiro, virando a cabeça devagar para o companheiro, os olhos fixos na figura fugindo. — Parece que temos uma ladra na cidade Onírica.

O outro, maior, deu um gole em sua bebida, o líquido azul-cobalto fumegando levemente ao tocar seus lábios. — Que coincidência, irmão. Pois agora também tem Guardas Reais aqui. 

O primeiro sorriu. — Acho que se capturarmos ela e fizermos um favor para o dono do museu, seria totalmente justo pedir uma recompensa, não acha?

— Justamente, maninho. — O maior assentiu.

E assim, eles se levantaram, o homem maior com um movimento lento e poderoso que rangeu a cadeira de cristal, fazendo-a tremer ligeiramente; o menor com a rapidez de uma mola, jogando as moedas na mesa com um gesto casual..

Aquele era o mundo de sonhos, brinquedos e bolhas. Um mundo onde os vivos às vezes vinham durante seus sonhos, e onde os Prims viviam, misturando-se em harmonia efêmera. Aquele era Morpheus.

E aquela garota, que agora corria para além dos muros da cidade, escalando a parede de cristal, se chamava Eliza. Ela para no topo, virando ligeiramente a cabeça para trás, o pano ondulando como uma capa, e olha para trás uma última vez antes de desaparecer do outro lado com um salto gracioso.

E assim, sem mais nem menos, sem que ninguém soubesse o que estava para acontecer, uma nova jornada começava.


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