The Fall of the Stars: Capítulo 1 - Bem Vindos a Morpheus

Volume 11 : A Prisão Dourada
Parte 1
A luz da manhã não entrava pela janela; ela se exibia. Os raios de sol filtravam-se pelas cortinas de linho egípcio em uma angulação milimetricamente calculada, aquecendo o quarto sem jamais ofuscar os olhos. Lá fora, o canto dos pássaros não soava como a natureza selvagem, mas sim como uma sinfonia excessivamente ensaiada, tocando em um volume perfeitamente agradável. Não havia cheiro de fumaça urbana, nem o gosto metálico de ozônio na língua. Apenas o aroma suave, quase clínico, de lavanda exalando dos lençóis.
Eliza abriu os olhos e encarou o teto branco. Impecável. Sem uma única rachadura para quebrar a monotonia.
Ela piscou, puxando o ar devagar. Lentamente, levou a mão à própria testa no exato momento em que uma fisgada aguda, fantasma e inexplicável latejou no centro de seu crânio. Era o eco de um impacto violento que ela não conseguia lembrar de ter sofrido, reverberando contra o osso.
— Ugh... de novo não — resmungou, sentando-se na cama que afundava com uma maciez quase sufocante.
Seus dedos massagearam as têmporas até a dor recuar para o fundo da mente, encolhendo-se como um animal assustado. Com um suspiro longo e resignado, Eliza esticou o braço até a escrivaninha de mogno, puxando um caderno de couro escuro. A caneta deslizou pelo papel em movimentos agressivos, contrastando com sua caligrafia entediada:
"Dia 1 do semestre. O sol está brilhando. Os pássaros estão cantando. Tudo está perfeitamente, irritantemente no lugar. Mais um dia no paraíso de Morpheus."
Ela bateu a capa do diário com um estrondo seco, quebrando o silêncio do quarto, e jogou as pernas para fora da cama. Era hora de encarar o teatro da rotina.
Vinte minutos depois, a sola de seus sapatos estalava contra o piso de mármore italiano, o som ecoando pelo vasto hall enquanto ela descia a escadaria em espiral. A mansão respirava uma riqueza pacífica e coreografada. Duas empregadas, de uniformes impecavelmente engomados, cruzaram seu caminho carregando bandejas de prata; elas inclinaram a cabeça em um cumprimento tão perfeitamente sincronizado que pareciam peças de relógio. Logo atrás, um mordomo idoso ajeitava, com precisão cirúrgica, um vaso de flores frescas.
E então, dominando a sala de estar, acima da lareira de pedra que nunca conhecera fuligem, estava ela.
Eliza parou no último degrau. Seus olhos foram puxados, quase contra a vontade, para o imenso retrato a óleo de Anna Lighthart. A ancestral distante da família a encarava de volta. A mulher de cabelos loiros exibia um sorriso enigmático, gentil e, ao mesmo tempo, carregado de uma melancolia cortante. Eliza engoliu em seco. Os olhos pintados sempre pareciam segui-la pela sala, vigiando cada respiração com o zelo de uma carcereira disfarçada de mãe. Um arrepio frio subiu por sua nuca. Ela forçou o rosto para o lado, quebrando o contato visual, e apressou o passo em direção à sala de jantar.
O som de risadas leves cortou o ar antes mesmo que ela cruzasse o arco da porta.
— ...e eu deixei bem claro pro comitê que, se não aprovassem o orçamento do festival, eu mesma lideraria um boicote no campus! — A voz transbordava carisma, envolta em uma arrogância impossível de odiar.
Lá estava Kiara. A irmã gêmea de Eliza esparramava-se na cadeira com as pernas cruzadas de forma displicente, equilibrando uma xícara de porcelana fina na ponta dos dedos. Os cabelos dela, longos e negros como a noite, caíam em um bagunçado estudado — rebelde, porém estiloso. A jaqueta de couro pesada sobre as roupas de grife completava a imagem da delinquente que, desafiando a lógica, era também a brilhante presidente do conselho estudantil.
— Kiara, modos — repreendeu Isobel, cortando um pedaço de mamão, sem qualquer peso real na voz. A mãe delas, a prefeita de Morpheus, era a própria personificação do sucesso pacífico. Seu rosto não exibia rugas de estresse, apenas um frescor luminoso. — Você já causou problemas demais na sua cerimônia de posse. Tente pegar leve no seu segundo ano, por favor.
— Relaxa, mãe. A faculdade é um campo de batalha, e eu domino qualquer campo de batalha com perfeição. — Kiara piscou um olho, dando um gole no café. Quando abaixou a xícara, notou a figura estática na porta. Um sorriso torto e provocador esticou seus lábios. — Olha só, a Bela Adormecida decidiu se juntar aos vivos. Pronta para o seu primeiro dia de aula, caloura?
Eliza revirou os olhos, puxando uma cadeira e desabando de frente para a irmã prodígio, que havia pulado um ano inteiro do ensino médio apenas por ser um gênio insuportável.
— Não precisa se preocupar, maninha... Se eu me perder, peço pro seu fã-clube me dar um mapa — Eliza rebateu, mostrando a língua antes de puxar uma torrada da cesta com movimentos automáticos.
Ela mordeu. O pão estava perfeitamente crocante. A geleia tinha a textura exata, nem rala nem espessa. Tudo era enjoativamente bom.
Isobel riu, o som cristalino e polido, enquanto se levantava da cabeceira da mesa, alisando as dobras inexistentes de seu terninho de corte impecável.
— Meninas, sem brigas hoje. O motorista já está esperando vocês lá fora, e eu tenho uma reunião com o conselho da cidade em vinte minutos. Só preciso achar a maldita chave do meu...
A voz da prefeita vacilou. Suas mãos começaram a tatear os bolsos do terno, batendo nos quadris. Ela olhou ao redor da mesa, abrindo a bolsa e remexendo o interior com uma pressa súbita.
— Ué... estava na minha mão agora mesmo. Onde eu coloquei a chave do carro?
Kiara soltou um suspiro exagerado e teatral. — Ha. Fica difícil vender a imagem de prefeita mais organizada do estado assim, mãe.
Eliza tentou esconder a risada, os lábios se curvando em um sorriso genuíno enquanto observava a mãe revirar os guardanapos.
Foi então que aconteceu.
A dor fantasma no centro do crânio de Eliza atacou de novo. Não foi uma fisgada desta vez; foi um zumbido grave, como o estalo elétrico de estática em uma televisão antiga sendo ligada. Por um milésimo de segundo imperceptível para o resto do mundo, as cores da sala de jantar — o ouro das cortinas, a brancura estéril da porcelana — oscilaram e piscaram.
A respiração de Eliza travou na garganta. O ar ao seu redor de repente pesou, denso como chumbo. Ela piscou forte, apertando os olhos.
O zumbido cessou. O ar voltou a fluir. A luz do sol continuou brilhando no chão de mármore como se o tecido da realidade não tivesse acabado de soluçar.
Mas, quando Eliza olhou para baixo, sua mão esquerda estava fechada em punho sobre a mesa de vidro.
O coração dela acelerou. Ela abriu os dedos, um por um, tremendo levemente. O metal frio do chaveiro de Isobel repousava, pesado e real, em sua palma. Ela não se lembrava de ter esticado o braço. Não se lembrava de ter levantado da cadeira. Ela nem sequer sabia onde a chave estava há dois segundos. Ela apenas, no fundo de sua mente, desejou que a agitação da mãe parasse... e a chave materializou-se ali. Um passe de mágica sujo, instintivo e sem sentido.
— Ah, aí está! — Isobel exclamou, soltando um suspiro de alívio. Ela caminhou rapidamente até Eliza e pescou a chave da mão paralisada da filha. — Quando foi que você pegou?
— Sério, Liz? Praticando truques de mágica agora? — Kiara gargalhou, balançando a cabeça. — Escondeu na manga pra dar um susto na mãe? Que maduro. — Ela inclinou-se sobre a mesa, cobrindo a boca com a mão e sussurrando com um piscar de olhos: — Me ensina depois.
Eliza tentou formar palavras, mas os lábios pareciam dormentes. — Eu não... — ela engasgou, a voz fina e trêmula, os olhos cravados na própria mão agora vazia. Ela não tinha escondido nada. A chave não estava com ela.
— Foi um ótimo truque, querida — Isobel sorriu, completamente cega ao terror nu que tomava conta das feições da filha. Ela inclinou-se, deixando o perfume caro invadir o espaço de Eliza, e beijou-lhe a testa com carinho. — Tenham um bom primeiro dia. Eu sei que você acha a cidade um pouco monótona, Liz, mas vá com a mente aberta. Nunca se sabe... talvez algo novo aconteça hoje.
Isobel se afastou, os saltos batendo graciosamente em um ritmo perfeito em direção à porta da frente.
Eliza continuou encarando as palmas das mãos suadas. O coração batia esmurrando as costelas, totalmente descompassado com a paz do ambiente. Kiara jogou o guardanapo de pano sobre o prato de qualquer jeito e levantou-se, espreguiçando-se como um gato.
— Bora, caloura. O mundo normal tá esperando a gente lá fora.
Eliza ergueu a cabeça e olhou para a irmã sorridente. Olhou através do arco da porta, para a ponta da moldura do quadro de Anna na sala adjacente. E olhou de volta para a luz do sol, perfeitamente irritante, que banhava a mesa do café. Tudo gritava normalidade. Tudo ao seu redor implorava para que ela acreditasse que estava segura.
E, secretamente, Eliza sabia o porquê de nunca contar à família sobre aquelas dores de cabeça e os apagões. Era o seu segredo torto. No fundo, ela se agarrava àquelas pontadas de dor, rezando para que significassem algo especial, algo real, antes que acabasse afundando de vez no esquecimento daquela normalidade.
Parte 2
O campus da Universidade de Morpheus parecia ter sido impresso em papel fotográfico brilhante. A grama exibia um verde quase radioativo, lisa e uniforme demais para ter brotado da terra, enquanto as calçadas se estendiam sem uma única rachadura para contar história. Pelos pátios, os estudantes fluíam em grupos perfeitamente simétricos, trocando sorrisos polidos e conversas ensaiadas sobre um futuro garantido.
Kiara mal colocou os pés com suas botas de grife para fora do carro e já foi engolida por sua órbita natural. Uma maré de veteranos sorridentes e calouros admirados a cercou instantaneamente. Com acenos carismáticos e um sorriso de predadora, ela desapareceu no meio do fã-clube.
Eliza ficou para trás. Soltou um suspiro longo, o som morrendo rápido no ar estéril do campus, e puxou a alça da mochila que pinicava seu ombro. Encarou a calçada infinita, preparando-se mentalmente para a longa e monótona travessia até o prédio de Humanas.
Foi então que o mundo balançou. Literalmente.
Um peso súbito e brutal despencou sobre suas costas. Braços finos, porém fortes como cordas, enlaçaram seu pescoço em um estrangulamento eufórico, enquanto um grito agudo quase estilhaçava seu tímpano.
— ELIZAAAAA! Sobrevivemos às férias!
Eliza cambaleou para frente, as solas dos tênis derrapando no cimento impecável, mas o susto derreteu instantaneamente. Um sorriso genuíno quebrou a expressão dura que ela vinha carregando desde o café da manhã. Ela levou as mãos para trás, segurando as coxas da garota que agora estava pendurada nela como um coala hiperativo e movido a cafeína.
— Anna! Pelos deuses, você comeu chumbo no café da manhã ou o quê? Desce! — Eliza riu, girando o tronco até a garota soltar seu pescoço e pular para o chão.
Anna Zaleska aterrissou com um solavanco elástico. Ela era a própria definição de energia caótica engarrafada sob pressão. Com os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo propositalmente desgrenhado, que balançava a cada movimento brusco, e um sorriso que irradiava uma inocência perigosamente açucarada, Anna disparou a falar a cento e vinte quilômetros por hora.
— Você não tem noção do que aconteceu! — Ela gesticulava freneticamente, andando de costas na frente de Eliza. — Eu fiquei sabendo que a reitora quase infartou com a festa que a sua irmã deu, mas adivinha? O conselho encobriu tudo porque, né, é a Kiara! E falando em tragédias reais, você viu o novo cardápio do refeitório? Eles tiraram o pudim, Eliza! O pudim! Como vamos sobreviver ao primeiro semestre sem açúcar refinado?
Era impossível manter a guarda alta perto dela. Naquela gaiola dourada e sufocante que era Morpheus, Anna era a única lufada de ar não filtrado. Ela exalava uma imperfeição tão barulhenta e calorosa que o zumbido estático na cabeça de Eliza — o resquício sombrio daquela manhã — dissipou-se completamente sob a tagarelice da amiga.
As duas começaram a caminhar lado a lado pelo pátio arborizado.
— Anna, respira — Eliza pediu, rindo e balançando a cabeça. — É só o primeiro dia. Mas, sinceramente? Eu já estou exausta. Olha em volta... tudo é tão no lugar. Chega a dar náuseas. Sinto que estou presa num comercial de margarina e esqueceram de me mostrar onde fica a saída.
Anna freou os passos de forma abrupta. Ela cruzou os braços sobre o peito e estreitou os olhos azuis, analisando o rosto de Eliza com uma expressão de falsa terapeuta.
— Sabe qual é o seu problema, dona Eliza? — Ela projetou um dedo acusador bem no meio do nariz da amiga. — Falta de adrenalina romântica no sangue! Você passou o colégio inteiro no modo freira, trancada no quarto ou vivendo na sombra gigante da sua irmã. O que você precisa não é reclamar da normalidade... é de um amor quente, caótico, daqueles que pegam essa normalidade e chutam de pernas pro ar!
Eliza sentiu as bochechas esquentarem. Ela bateu na mão da amiga, afastando o dedo acusador com um revirar de olhos.
— Tá louca? É claro que não é isso. E, mesmo se fosse, eu duvido muito que alguém "incrível" e caótico assim vá cair de paraquedas no meio dessa cidade entediante.
— Ah, nunca se sabe! O destino é um cara muito engraçadinho! — Anna deu uma cotovelada pontuda e cúmplice nas costelas de Eliza, baixando o tom de voz para um sussurro conspiratório. — Aliás... os passarinhos me contaram que o Teth tá solteiro.
Eliza parou de andar na hora. Ela virou-se para Anna com uma expressão que misturava tédio profundo e horror puro.
— Uh... não. Esquece. Apaga a fita e queima o gravador.
— Ué, por quê?! — Anna jogou as mãos para o alto, genuinamente indignada. — Ele é um gato! É o cara mais popular do campus, super focado, capitão do time...
— Anna, eu quero quilômetros de distância do super popular capitão do time de basquete. — Eliza voltou a caminhar, enfiando as mãos fundo nos bolsos da jaqueta. — Eu achei que saindo do colégio iam parar com essa babação de ovo, mas agora que o time virou semiprofissional? O fã-clube só piorou. O ego daquele garoto deve ter a própria gravidade a essa altura. Se eu chegar perto, corro o risco de entrar em órbita.
— Ah, é só o efeito da testosterona no auge! Garotos no primeiro ano de faculdade são assim, é pura biologia, a gente releva! — Anna deu de ombros, rindo, enquanto dava pulinhos para acompanhar os passos largos e irritados de Eliza.
— E é exatamente por isso que eu não me vejo com nenhum garoto daqui — Eliza rebateu. O olhar dela desviou-se das calçadas perfeitas, perdendo-se nas nuvens que flutuavam, simétricas até demais, no céu azul. — Eu não quero o capitão do time. Não quero o cara popular de Morpheus. Quero algo... novo. Algo diferente de verdade.
— Diferente como? Diferente dos populares? — Anna inclinou a cabeça, os olhos curiosos brilhando.
— Diferente dos garotos dessa cidade — Eliza suspirou. A confissão escorregou de seus lábios antes que pudesse filtrá-la. — Por favor, chega de Morpheus. Eu quero alguém de fora. Alguém que me faça sentir que o mundo é maior do que essa bolha de plástico.
Anna piscou.
Por um milésimo de segundo, o maquinário por trás de seus olhos azuis pareceu travar. O sorriso doce e vibrante estagnou em seus lábios, transformando-se de repente em uma máscara fria e inexpressiva. Foi tão rápido e antinatural que Eliza quase perdeu o passo.
Mas, tão rápido quanto o silêncio caiu, ele desapareceu. A Anna radiante estava de volta, como se o disco tivesse apenas pulado uma faixa.
— Bom, se um príncipe de fora da cidade atravessar as fronteiras no cavalo branco, eu exijo ser a madrinha do casamento! — Anna declarou, agarrando o braço de Eliza e puxando-a com força para a frente. — Agora anda, senão vamos chegar atrasadas na aula de História, e eu já ouvi dizer que o professor tem cara de quem morde se for interrompido!
Sendo arrastada e rindo das loucuras da amiga, Eliza tentou ignorar o leve arrepio que subira por sua nuca. A manhã continuava brilhante, tranquila, sem emanar qualquer preocupação.
Parte 3
Aquele mundo parecia projetado para não ter arestas, mas o som que rasgou a manhã não pediu licença; ele atropelou.
Um ronco gutural, grave e agressivamente mecânico estilhaçou a acústica perfeitamente afinada e o murmúrio civilizado do campus. Era o som de um motor de altíssima cilindrada queimando combustível com fúria real. As conversas polidas sobre fraternidades e testes de nivelamento morreram na garganta dos estudantes. Centenas de cabeças viraram em uníssono, quebrando a simetria do pátio.
A moto surgiu como uma anomalia. Era uma besta de metal negro fosco, pesada e crua, contrastando violentamente com os carros esportivos impecáveis e ecologicamente silenciosos estacionados ao redor. O cheiro áspero de gasolina e asfalto quente invadiu o ar com aroma de lavanda.
O motor morreu com um estalo seco que ecoou pelos prédios. O piloto desceu com movimentos lentos, chutando o descanso lateral de metal com o calcanhar de uma bota gasta — um calçado que claramente já havia pisado em chãos muito piores do que a grama milimetricamente aparada daquela universidade. Ele vestia uma jaqueta de couro escuro, perfeitamente surrada nas bordas, moldada aos ombros largos.
Quando puxou o capacete, ele balançou a cabeça, bagunçando os fios bicolores. Seu rosto era marcado por um tédio crônico e um cinismo quase palpável. Mas o que prendia a respiração de quem olhava eram os olhos: de cores diferentes, eles varreram o pátio com uma frieza cortante, como se estivessem avaliando o preço de um abatedouro.
Ele era o puro suco do clichê. O forasteiro. A peça de chumbo que ameaçava trincar o quebra-cabeça de porcelana. E o campus inteiro, em seu silêncio atônito, parou para devorá-lo com os olhos.
A poucos metros dali, escorada na sombra densa de um carvalho centenário, Philia ajustou o aro dos óculos com o dedo indicador. Tinha os olhos afiados de quem não deixa uma única vírgula escapar. Ao seu lado, Katsuragi estava largada de mau jeito no banco de madeira, uma perna balançando no ar, a atenção inteiramente sugada pela tela iluminada de seu console portátil. O som dos botões sendo esmagados era o único ruído sob a árvore.
Então, o som de saltos altos batendo no concreto como martelos de juiz anunciou a chegada da tempestade.
Ivy caminhava com a postura altiva de quem é dona do chão em que pisa. Seguida de perto por duas garotas que funcionavam como sua sombra e claque particular, ela parou abruptamente ao lado do banco. Seus olhos verdes, afiados como navalhas, fixaram-se na figura de couro ao longe.
— Opa. Quem é o garoto misterioso? — Ivy perguntou, a voz aveludada transbordando um interesse predatório disfarçado de pura casualidade.
Katsuragi nem sequer piscou para fora da tela. Seus dedos continuaram metralhando os controles em um combo furioso. — E como é que eu vou saber?
Ivy revirou os olhos com tanta força que quase deu para ouvir o som. A irritação vincou sua testa perfeitamente maquiada por uma fração de segundo. — Não estou perguntando para você, sua viciada inútil. — Ela virou o rosto para Philia, o sorriso falso retornando. — Estou querendo saber se a aspirante a repórter investigativa do campus não estava sabendo de algum babado novo.
Philia sorriu de canto, fechando seu pequeno bloco de anotações com um estalo seco. — Se você quer fofoca barata, Ivy, o departamento da Anna fica para o outro lado. Mas... — Philia inclinou a cabeça, apontando o queixo na direção da moto preta. — Se você reparar bem, a placa daquela coisa ali não segue o padrão de Morpheus.
Os olhos de Ivy brilharam, felinos. Ela umedeceu os lábios lentamente, um sorriso convencido esticando-se em seu rosto. — Então temos um garoto misterioso, bad boy, e de fora da cidade? Perfeito. — Ela ajeitou a gola da blusa cara, estufando o peito e projetando a postura. — Ele já é meu.
Philia soltou uma risada nasalada, incapaz de segurar o deboche. — Ah, é? E quando exatamente ele vai receber o memorando dessa sua decisão executiva?
O sangue subiu perigosamente para o rosto de Ivy. Com um rosnado frustrado e contido, ela deu um empurrão duro no ombro de Philia, que apenas continuou balançando a cabeça, rindo baixinho.
Ignorando as duas plebeias, Ivy endireitou a coluna. Ativou o modo "passarela". Ela caminhou em direção ao garoto com um balançar de quadris perfeitamente calculado para ser irresistível. Ela preparou o olhar oblíquo por baixo dos cílios. Ensaiou a frase de efeito na ponta da língua. Engatilhou o sorriso desarmante. Ela parou exatamente na rota de colisão dele, o corpo posicionado para o esbarrão romântico clichê que iniciaria seu domínio absoluto sobre o forasteiro.
Dante caminhou. O olhar dele estava focado em algum ponto vazio acima do prédio principal.
Ivy abriu a boca. O sorriso no ápice da perfeição.
E Dante passou direto por ela.
Não houve esbarrão. Não houve desvio brusco. Não houve sequer uma milimétrica troca de olhares. Ele simplesmente continuou andando, contornando-a como se ela fosse um poste de luz irritante no meio da calçada. O leve deslocamento de ar de sua jaqueta balançou os cabelos meticulosamente arrumados de Ivy.
Ela ficou lá. Congelada. A boca meio aberta e a mão estendida no vácuo, parecendo uma estátua que esqueceram de terminar.
Do banco sob o carvalho, uma risada escandalosa e sem filtros explodiu. Até Katsuragi havia pausado o jogo. A gamer estava apoiada no ombro de Philia, as duas rachando de rir da cena humilhante que acabara de se desenrolar.
Dante, ignorando completamente o ego gigantesco que acabara de pulverizar, parou a poucos passos de Philia e Katsuragi. Ele enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta, o peso do corpo apoiado em uma perna, e inclinou a cabeça. A voz saiu grave, arrastada e carregada de uma preguiça infinita.
— Ei. Sabe onde eu posso achar a sala da coordenação nesse labirinto?
Philia, enxugando uma lágrima de riso no canto do olho e tentando recuperar o fôlego, apontou a caneta na direção do prédio principal. — Terceiro andar, bloco B. É só seguir o corredor principal até a porta dupla de carvalho.
— Valeu — Dante murmurou. Deu um aceno curto de cabeça e voltou a caminhar, as botas ecoando pesadas e irregulares enquanto ele entrava no prédio.
Assim que as portas de vidro se fecharam atrás dele com um zumbido suave, Philia e Katsuragi levantaram-se e caminharam vagarosamente até Ivy, que ainda estava parada, o cérebro tentando reiniciar e processar o lapso na própria realidade.
— Puxa vida, Ivy... — Katsuragi provocou, os olhos voltando preguiçosamente para a tela do console. — Parece que o correio de Morpheus está atrasado. O memorando de que ele é seu não chegou lá muito bem.
— Deve ter ido pra caixa de spam — completou Philia, o sarcasmo escorrendo pesado de cada sílaba.
Ivy virou-se bruscamente. O rosto estava vermelho, uma mistura vulcânica de humilhação e fúria, os punhos cerrados tremendo ao lado do corpo. — Calem a boca, as duas! — ela rosnou, cuspindo as palavras enquanto apontava o dedo trêmulo na direção da porta por onde Dante havia desaparecido. — Esperem só. Vocês vão ver. Esse idiota vai vir correndo, rastejando atrás de mim logo, logo!
Philia apenas deu de ombros com um sorrisinho vitorioso, enquanto Katsuragi dava play no jogo novamente. O forasteiro mal havia pisado na cidade, e o relógio da "normalidade" perfeita de Morpheus já estava, irremediavelmente, começando a rachar.
Parte 4
Os corredores do prédio principal cheiravam a cera de chão industrial, lavanda e àquele frescor sintético de um ar-condicionado perfeitamente regulado. Dante caminhava com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta de couro, as solas de suas botas pesadas estalando e rasgando a acústica polida do lugar a cada passo. O tédio já começava a tecer teias em sua mente. Tudo ali era brilhante demais, limpo demais, seguro demais.
Até que o corredor pareceu encolher.
Uma figura não apenas bloqueou o centro da passagem; ela tomou posse do espaço. Não foi um esbarrão descuidado, foi uma interceptação cirúrgica.
Dante freou os passos, os calcanhares derrapando levemente no piso encerado. Ele ergueu uma sobrancelha, avaliando o obstáculo.
Diante dele estava uma garota. Os cabelos negros, longos e propositalmente desgrenhados caíam sobre os ombros com uma rebeldia milimetricamente calculada. Os olhos escuros cravaram nele, analisando-o de cima a baixo com a precisão fria de um atirador de elite medindo a velocidade do vento antes do disparo.
— Jaqueta de couro gasta, coturnos militares, ausência total da gravata da instituição e... — Ela inspirou fundo, o nariz empinando de leve. — Cheiro crônico de gasolina. — Ela cruzou os braços sobre o peito. A voz saiu aveludada, mas carregada de uma autoridade natural que contrastava violentamente com a idade. — Você está violando praticamente todas as linhas do código de vestimenta do campus em tempo recorde. Além disso, eu adoraria dar uma olhada na documentação daquela aberração de duas rodas lá fora, e na sua habilitação. Meu faro diz que vou encontrar uma dúzia de problemas burocráticos nelas.
Dante soltou um suspiro longo e arrastado. Tirou uma das mãos do bolso para coçar a nuca, abrindo aquele sorriso de canto, preguiçoso e carregado de cinismo.
— Engraçado... eu só vim procurar a sala da coordenação. Não lembrava de ter comprado ingresso pra um interrogatório policial no meio do corredor.
A garota não recuou um único milímetro. Pelo contrário, ela descruzou os braços e apoiou as mãos na cintura, desafiando-o com a postura.
— Eu sou Kiara. A presidente do conselho estudantil. E manter a ordem neste campus é o meu trabalho.
Dante soltou uma risada curta e seca, o som raspando na garganta. Ele desceu os olhos bicolores pela figura dela, sem pressa, antes de apontar o dedo indicador em um gesto de pura audácia.
— "Manter a ordem"? Falou a presidente que está com os três primeiros botões da camisa social abertos, exibindo decote no meio do expediente. — Ele girou o dedo no ar, listando. — A saia dobrada três palmos acima do joelho, e a jaqueta do uniforme amarrada na cintura como se estivesse indo pra um show de punk rock. — Ele inclinou a cabeça para o lado, o sorriso alargando até os olhos. — Quer mesmo me dar sermão sobre código de vestimenta, chefe?
A tensão no ar condicionado do corredor estalou, densa e elétrica. Qualquer outro estudante teria gaguejado, arrumado a saia ou recuado sob o peso daquela audácia. Mas os lábios de Kiara se curvaram em um sorriso afiado, perigoso e absolutamente inabalável. A química entre os dois colidiu no espaço vazio entre eles, como um fósforo aceso atirado em uma sala cheia de pólvora.
— Não importa como eu uso o uniforme, turista — Kiara rebateu. O salto de seu sapato estalou no chão enquanto ela dava um passo lento e predatório na direção dele. — Contanto que o brasão da universidade esteja visível, ele me diferencia de um simples vândalo de rua. Ou de alguém... muito mais perigoso.
Dante riu, erguendo as duas mãos na altura dos ombros em um sinal de rendição simulada.
— Tá legal, tá legal. Já entendi o recado. Amanhã eu dou o meu jeito e arrumo a droga do uniforme. Agora, sobre a documentação da moto... — Ele abaixou os braços, piscando o olho esquerdo com lentidão. — É melhor a gente deixar isso para lá. Afinal, não tem como você encontrar problemas se você não olhar, não é?
O sorriso de Kiara se transformou. Perdeu a fachada de presidente rigorosa e derreteu em algo muito mais selvagem. Ela não respondeu com palavras. Em vez disso, continuou caminhando na direção dele, encurtando a distância até que o ar entre eles quase desaparecesse.
Os instintos de Dante, moldados pelas ruas, gritaram um alerta vermelho. Uma memória muscular fantasma, profunda e irracional, fez os ombros dele tensionarem sob o couro. O cérebro dele berrou: "Esquiva, ela vai bater pra matar".
Mas não houve soco. Não houve joelhada.
Kiara invadiu o espaço pessoal dele, ergueu os braços e... o abraçou.
Dante congelou. Cada engrenagem do seu cérebro deu um curto-circuito catastrófico. O rosto da garota enterrou-se com força na curva de seu pescoço. O cheiro do perfume dela — algo intensamente doce, mas cortado por um cítrico metálico e agressivo — invadiu suas narinas, bagunçando seus sentidos. O corpo dela era quente, real, e absurdamente próximo.
O bad boy impassível sentiu o próprio rosto ferver como asfalto ao meio-dia. Uma onda vermelha, ardida de vergonha e pura pane mental, subiu pelo seu pescoço, manchando suas orelhas. Ele ficou ali, paralisado, com os braços erguidos no ar feito um espantalho, sem ter a menor ideia de onde colocar as mãos. Seu coração martelava rápido demais contra as costelas, uma mistura bizarra de choque elétrico e uma familiaridade esmagadora que ele não conseguia decifrar.
— E-ei... — Dante gaguejou. A voz falhou miseravelmente antes de ele pigarrear com força, tentando puxar o tom cínico de volta do fundo do poço para disfarçar o pânico constrangido. — Eu não sabia que as garotas dessa cidade eram tão... atiradinhas. Muito menos a rigorosa presidente do conselho.
Kiara desfez o contato e recuou dois passos em um movimento fluido. A expressão dela estava perfeitamente polida de novo, mas os olhos vermelhos brilhavam com pura e destilada malícia.
— Tem muita coisa que você não sabe sobre esta cidade, forasteiro — ela disse, a voz num sussurro aveludado que ecoou pelo corredor. — Mas relaxa. Eu tenho muito a ensinar pra você. Por exemplo...
Ela ergueu a mão direita na altura dos olhos dele. Pendurado no dedo indicador pelo anel de metal, balançando de um lado para o outro, estava o chaveiro pesado da moto de Dante. Na mão esquerda, ela girava o celular dele com uma destreza rítmica e irritante.
Os olhos bicolores de Dante se arregalaram. As mãos dele desceram como raios, batendo freneticamente contra os próprios bolsos da jaqueta e da calça. Vazios.
— Quando foi que você...? — Ele cortou a própria frase no meio. O ar fugiu de seus pulmões ao perceber a obviedade da armadilha. O abraço. Foi um bote cego e perfeito. A presidente do conselho havia acabado de depená-lo no meio do prédio principal com a habilidade fluida de um batedor de carteiras profissional.
Kiara soltou uma risada solta, gostosa e absurdamente charmosa, saboreando a vitória.
— Quando eu vir você vestindo um uniforme amanhã — e só amanhã —, pode ficar tranquilo que eu devolvo o seu celular.
Dante cerrou os dentes. O maxilar travou, mas um sorriso irritado, de quem acabou de ser superado no próprio jogo, rasgou seu rosto.
— Tá. E a chave da minha moto?
Kiara deu as costas para ele, voltando a caminhar pelo corredor com aquele balançar de quadris simétrico e letal. Sem parar de andar, ela olhou por cima do ombro, os olhos faiscando, e deu uma piscadela demorada.
— Bom, como você mesmo disse sobre os documentos: não tem como você ter problemas dirigindo irregularmente... se você não conseguir dirigir. Não é?
Dante ficou sem palavras. O resto de sua irritação evaporou, derretendo-se em uma atração imediata, perigosa e inegável.
— Bem-vindo a Morpheus, turista. — Kiara jogou as chaves para o alto, agarrou-as no ar com um estalo metálico, e desapareceu virando a esquina do corredor.
Dante ficou sozinho. Ele ouviu o eco dos passos dela sumir lentamente. Passou a mão pelo rosto quente, jogando os cabelos para trás, e soltou o ar em uma risada seca e sem fôlego que reverberou pelas paredes limpas.
De repente, o mundo entediante ao seu redor havia se tornado incrivelmente interessante.
Parte 5
A rodovia estadual 104, serpenteando para fora dos limites urbanos de Morpheus, parecia cenário de um comercial caro de seguro automotivo. A pista dupla cortava uma floresta exuberante de carvalhos e pinheiros perfeitamente simétricos. O asfalto negro brilhava, úmido pela chuva milimetricamente cronometrada da madrugada, enquanto o sol despontava no horizonte, injetando feixes de luz dourada através da copa das árvores em ângulos estudados.
Laeticia mantinha os olhos na estrada e uma das mãos no volante de seu sedã compacto. As unhas recém-feitas batucavam o aro de couro no ritmo de um jazz suave que tocava baixo no rádio. Na outra mão, ela equilibrava o celular no suporte do painel. A imagem granulada da chamada de vídeo exibia a carranca inconfundível de Vav.
A garota de cabelos bicolores curtos estava escorada em uma parede de tijolos grafitados. Ela tragou fundo um cigarro amassado e soprou uma nuvem espessa e cinzenta direto contra a lente da câmera.
— ...sério, Let, eu não aguento mais. Aquela estátua ambulante respira, e os professores já mandam fundir prêmios de ouro pra ele! — Vav exalou a fumaça, a voz arranhando de raiva contida. — Meu irmão perfeito e insuportável... "Ah, o Teth tirou dez. Ah, o Teth jogou bem. O Teth salvou um gatinho da árvore". E sabe o que sobra pra mim? Ser cobrada em dobro. Por que eu não consigo ser igual ao queridinho de ouro?
Laeticia sorriu, o olhar dividindo-se entre a estrada vazia e o espelho retrovisor. O tom dramático da amiga era sua rotina matinal. — Você precisa parar de dar chilique de graça, Vav. A Rum nunca comparou vocês. Ela é um amor de pessoa. Aliás, você nem deveria estar fumando antes do sinal tocar. E se ela sentir o cheiro nas suas roupas de novo?
— E esse é o maldito problema! — Vav jogou a guimba do cigarro no concreto, esmagando-a com a ponta do coturno. A agressividade vazou de sua voz, substituída por uma culpa crua e incômoda. — Ela não briga. A tia Rum é bondosa demais pra gritar. Sabe como é horrível dar trabalho pra uma mulher que perdeu o irmão mais velho, virou mãe solteira na marra e tá tentando criar três sobrinhos órfãos sem pedir um centavo de ajuda? E pra coroar a vida da coitada, a sobrinha mais velha virou a delinquente que mata aula no beco, e o irmão gêmeo é o santo padroeiro da família. O contraste me enlouquece, Let.
A honestidade bruta rasgou a superficialidade da conversa. Laeticia suspirou, as sobrancelhas franzindo em uma empatia sincera. O sorriso fácil sumiu, dando lugar ao tom maternal que ela inevitavelmente acabava usando.
— Fica tranquila, amiga. Tudo vai se ajeitar com o tempo. — A curandeira gesticulou com a mão livre, a voz macia tentando atravessar a tela. — Sabe, se você quer parar de se sentir a ovelha negra, podia começar evitando queimar um maço por dia e, sei lá, entrando na aula de química de vez em quando. Quem sabe a tia Rum não ganha um segundo troféu pra botar na lareira?
Vav revirou os olhos em um ato clássico e automático de rebeldia, mas os cantos dos lábios puxaram um sorriso mínimo, quase imperceptível por trás da fumaça remanescente. — Cala a boca. Vou pensar no seu caso, santinha... Vê se dirige com cuidado aí nessa rodovia fantasma, tá? Não tô a fim de ir pro necrotério reconhecer corpo logo no primeiro dia de aula.
— Isso seria muito mais fácil se eu não estivesse fazendo hora extra como sua terapeuta pelo viva-voz! — Laeticia riu alto, o som cristalino preenchendo o carro enquanto ela apertava o botão vermelho para encerrar a chamada.
O interior do sedã voltou a ser inundado apenas pelo contrabaixo calmo do rádio. Laeticia recostou a cabeça no banco de couro, deixando o sorriso persistir enquanto apreciava a monotonia da viagem.
Então, a tela do celular acendeu sozinha.
A vibração aguda quebrou a paz do veículo. O painel exibiu uma notificação de mensagem de texto. Um contato novo. Desconhecido.
"Uzumaki".
A curiosidade venceu a prudência instintiva. Laeticia desviou os olhos da pista. As pupilas desceram em direção ao painel para ler o texto incompleto na tela brilhante. Foram apenas três milissegundos de distração. O tempo exato que a física precisa para engolir uma vida.
BAM! SSSSSSSS!
O impacto não foi apenas sonoro; foi um soco físico e brutal contra as leis do movimento. O volante girou com uma violência selvagem nas mãos de Laeticia, os pulsos estalando de dor aguda. O carro deu um solavanco aterrador, a suspensão gemendo enquanto os pneus perdiam toda a tração na pista úmida. Uma série de baques e arranhões metálicos ensurdecedores anunciou o desastre. Um cheiro denso e nauseante de borracha queimada invadiu as narinas dela, asfixiando o ar limpo da floresta.
O sedã invadiu o acostamento verdejante, derrapando e rasgando quase trinta metros de mato alto antes de finalmente parar, embicado perigosamente em direção a um barranco.
Laeticia estava prensada contra o banco, os nós dos dedos brancos ao redor do volante. O cinto de segurança travava sua respiração na garganta. O silêncio que se seguiu foi espesso, sufocante. A poeira de terra úmida e grama esmagada assentou lentamente sobre o para-brisa.
Com as mãos tremendo incontrolavelmente, a garota bateu no botão do cinto até soltá-lo. Seu peito subia e descia em espasmos rápidos. Ela empurrou a porta amassada com o ombro e praticamente caiu de quatro na terra fofa do acostamento. Tossiu o pó da estrada, puxando o ar com desespero para estabilizar o ritmo cardíaco desenfreado.
Ela ergueu a cabeça e olhou ao redor, os olhos arregalados. Nenhum outro carro à vista. As árvores ao redor pareciam subitamente mais altas, criando sombras longas e claustrofóbicas sobre a estrada morta.
Apoiando-se na lataria, ela levantou-se com as pernas bambas como varas de bambu. Quando caminhou até a roda dianteira do lado do motorista, a vontade de chorar bateu com força total. O pneu estava aniquilado. Cortado de fora a fora, exibindo a malha de aço arrebentada como tripas de metal saltando da borracha derretida.
O pânico subiu quente como bile na garganta.
— Pelos céus... não, não, não! — Ela agarrou os próprios fios loiros, puxando-os com força. — Como isso aconteceu do nada? Eu pisei em quê?! O pneu desintegrou! Era só o que faltava no meu primeiro dia de aula, de todos os malditos dias... Como eu chego lá a tempo agora? Um táxi ia demorar uma eternidade pra me achar no meio do nada!
A resposta veio. Mas não em forma de sirene ou motor de reboque.
— Nossa, mas que azar terrível, moça. Você está legal?
A voz soou de trás do porta-malas. Era clara, melódica, carregando uma alegria polida e excessiva que não se encaixava em nada com o metal retorcido e a fumaça do freio.
Laeticia engasgou, girando o corpo como um gato encurralado e batendo as costas com força contra a porta do carro. O coração dela errou uma batida inteira. De onde aquela pessoa havia surgido? Ela não tinha ouvido um único motor. Nem o som de cascalho esmagado por passos. Absolutamente nada.
Era uma garota de cabelos castanhos longos, com os quais o vento brincava suavemente. O sol da manhã iluminava um sorriso simpático e aberto, exibindo dentes assustadoramente brancos. Ela usava roupas casuais — uma blusa clara e calça escura — e mantinha as mãos cruzadas de forma displicente atrás das costas, como se estivesse em um passeio de domingo no parque. O olhar dela era amigável, acolhedor e de uma tranquilidade profunda. A imagem perfeita da empatia humana.
Laeticia piscou repetidas vezes, o cérebro processando a surpresa enquanto a adrenalina recuava. — A-Ah... sim, eu acho que sim. Foi só o susto. E... o pneu. Explodiu num pedaço de nada. — Ela apontou para a roda rasgada com um suspiro miserável. — Eu devia estar indo pra aula, mas se eu ligar pedindo resgate agora, o semestre acaba antes do guincho chegar aqui.
A garota misteriosa caminhou lentamente até a lateral do carro. As botas de couro dela pareciam flutuar; não quebravam um único galho seco no acostamento. Ela agachou-se graciosamente ao lado da roda furada, a expressão tornando-se quase analítica enquanto examinava o aço retorcido com a ponta dos dedos pálidos.
— Pois é, a coisa foi feia mesmo — murmurou, balançando a cabeça em solidariedade. Então, ergueu o rosto. Os olhos brilhavam de pura diversão quando piscou de forma charmosa para Laeticia. — Eu me chamo Ludmilla, a propósito. O prazer é todo meu. E, já que a sorte não está do seu lado hoje, que bom que nos esbarramos. Eu tenho profundo conhecimento de um equipamento mágico e misterioso que os humanos antigos usavam nessas horas... capaz de consertar isso e salvar vidas.
Laeticia soltou o ar, enxugando uma lágrima frustrada que ameaçava cair. Ela retribuiu o sorriso, absurdamente aliviada pela leveza da estranha que parecia ter descido do céu no ápice da crise. — Magia? Sério? E qual é o nome do artefato mítico?
Ludmilla inclinou a cabeça, o sorriso alargando-se como se guardasse um segredo milenar. — Chama-se... chave de roda. Se você tiver uma dessas no porta-malas e um estepe sob o carpete traseiro, minha intuição diz que podemos fazer uma mandinga básica e resolver o seu problema em vinte minutos.
Laeticia cobriu a boca, a primeira risada de alívio puro escapando de seus lábios desde a explosão do pneu. O pânico evapora rápido diante de um bom senso de humor na pior hora possível.
— Ai, meu Deus, desculpa. Eu tô com o cérebro frito. Sério que você se propõe a sujar as mãos pra me ajudar com isso? — Ela destravou o carro e caminhou em direção ao porta-malas, a gratidão afogando o estresse. — Eu te agradeceria mais do que posso expressar, Ludmilla! Como você sabe mexer nisso, de qualquer forma? Quer dizer, sem ofensa, mas... você parece ter a mesma idade que eu. Ou até menos.
O sorriso de Ludmilla não se alterou um milímetro. Ele permaneceu fixo, inabalável, esculpido no rosto como uma máscara de mármore quente. — A ausência das rugas de preocupação engana os olhos menos atentos, moça. Mas é experiência de vida. Pode-se dizer que vem com a idade... uma idade muito longa e sangrenta lidando com problemas que parecem impossíveis de arrumar.
Laeticia achou a escolha de palavras poética e sombria demais para uma troca de pneu, mas creditou tudo ao jeito excêntrico e adorável da garota. Ela ergueu o carpete do porta-malas e puxou a pesada cruz de metal escuro.
— Tá na mão, minha heroína de rodovia! — Laeticia estendeu a haste grossa de ferro. O sorriso dela finalmente secava as lágrimas de tensão. — Mas, afinal, como a gente vai fazer isso? Você afrouxa os parafusos ou levanta o macaco primeiro...
Ludmilla tirou as mãos das costas. Dedos pálidos e firmes fecharam-se ao redor da ferramenta de ferro pesado. O sorriso doce não vacilou um único grau.
— Bem, o manual diz que é muito fácil resolver problemas na vida usando isso aqui. A regra número um... — Ludmilla ergueu o rosto. Seus olhos encontraram os de Laeticia. Toda a diversão e empatia haviam evaporado. O que restava era uma calmaria aterradora, gélida e absolutamente vazia. — ...é bater onde a estrutura é mais fraca.
Laeticia não teve tempo de processar a piada. As sinapses de seu cérebro não conseguiram conectar o olhar vazio à intenção assassina antes que o mundo inteiro desabasse em dor e velocidade.
CRAAAAAACK!
O som estrondoso, úmido e oco de osso craniano cedendo contra metal maciço rasgou o silêncio da estrada rural.
Para a curandeira, o tempo simplesmente apagou. O movimento de Ludmilla foi imperceptível a olho nu, limpo e brutalmente profissional. Ela não puxou o braço para trás para pegar impulso. Usando uma rotação de quadril silenciosa e a física perfeita de uma assassina treinada, Ludmilla transferiu todo o peso de seu corpo e o torque cinético em um único, letal e devastador balanço.
A ponta hexagonal da chave de roda atingiu exatamente a lateral direita do crânio de Laeticia, logo acima da orelha, esmagando o osso temporal. O impacto monumental ejetou a garota do chão. Sua cabeça chicoteou e bateu com a violência de um tiro de canhão contra a janela lateral do próprio carro. O vidro não aguentou; estilhaçou-se instantaneamente, criando um padrão fosco de teia de aranha, manchado de escarlate no ponto de impacto.
Laeticia despencou. O corpo escorregou em câmera lenta pela lataria lisa da porta do sedã, transformado em um saco de carne e ossos inutilizado pelo trauma massivo. Ela desabou esparramada no acostamento sujo, entre a grama cortada e a terra.
Ela não suspirou. Não houve engasgo ou tremor muscular. Seus olhos reviraram no exato milissegundo da pancada, a consciência desligada para sempre.
Uma poça espessa de sangue escuro e pegajoso começou a se expandir pelas folhas secas, nascendo do buraco no crânio partido. O gotejar constante do ferimento letal, caindo da orelha mutilada direto na terra, soava asquerosamente úmido contra o silêncio e o vermelho vibrante da pintura do veículo.
Ludmilla não arfou. Não houve pico de adrenalina em seu sangue, nem o olhar paranoico de quem verifica as redondezas após um crime. Ela manteve a mesma postura ereta, o mesmo controle de respiração, inalterada.
Lentamente, ignorando a poça escarlate que avançava em direção aos próprios sapatos de couro caros, ela enfiou as mãos nos bolsos da calça. A chave de roda ensanguentada foi atirada de volta no porta-malas aberto com um som metálico surdo. Ela balançou a cabeça de forma analítica, e um sorriso gentil rasgou novamente sua face, manchado apenas por uma solitária e minúscula gota de sangue vermelho em sua bochecha alva.
Ela piscou para o cadáver estirado a seus pés, com a leveza de quem encerra um tutorial prático.
— Viu só como é fácil? — Ludmilla falou em voz alta, a frase pairando no ar frio da rodovia. O sorriso permaneceu, mas a ironia destilava como veneno puro em cada sílaba. — Problema perfeitamente resolvido.
Parte 6
No anfiteatro 3 do prédio de Humanas, o ar parecia pesado, carregado pela tensão do primeiro dia. O único som audível era o arranhar agudo e metódico do giz branco contra o imenso quadro-negro.
A professora Saga caminhava de um lado para o outro no estrado de madeira, os saltos batendo em um ritmo militar. Ela vestia um terninho de corte escuro e elegante, mas o detalhe que sempre roubava o fôlego dos calouros estava em seu rosto: uma fina venda de seda negra cobria completamente seus olhos. Contudo, quem cometesse a burrice de achar que a cegueira a tornava alheia à sala estava com os dias contados. Saga não precisava de olhos para enxergar a insolência de uma turma; a percepção espacial dela era quase sobrenatural, mapeando cada respiração no ambiente.
Nas fileiras do meio, teoricamente a salvo do radar da professora, uma reunião tática acontecia em absoluto silêncio. Embaixo das carteiras de madeira maciça, o brilho das telas iluminava queixos e os celulares vibravam de forma frenética e sincronizada.
[Grupo: Sobreviventes do Semestre]
Anna: Olha pra trás, disfarça. O novato tem a vibe exata de quem vai arruinar a sua vida. Do jeitinho que você pediu hoje de manhã, Liz. 👀
Philia: A placa da moto não é do estado. A jaqueta de couro no primeiro dia de aula, ignorando o código de vestimenta? É o puro suco do clichê de bad boy, mas eu admito que ele é bem bonitinho.
Eliza sentiu o sangue subir pelo pescoço, incendiando suas bochechas. Ela abaixou a tela do celular até o colo e, fingindo ajeitar o cabelo, arriscou uma espiada sutil por cima do ombro.
Lá estava ele. Sentado na última fileira, isolado como uma ilha de rebeldia. Dante estava esparramado na cadeira, as botas gastas de bico de ferro apoiadas na base da mesa da frente com um desleixo irritante. Ele girava uma caneta de plástico entre os dedos com a destreza letal de quem brinca com uma faca borboleta. O olhar heterocromático e cronicamente entediado estava focado no teto. Ele parecia estar fisicamente presente, mas mentalmente a anos-luz de Morpheus.
O coração de Eliza deu um solavanco irracional contra as costelas. Merda. Ele era exatamente o tipo de "problema diferente" que ela havia implorado aos céus naquela manhã. Ela voltou o rosto para a frente em um solavanco, as orelhas queimando em escarlate, e os polegares metralharam a tela.
Eliza: Parem com isso! Ele nem sabe que a gente existe. E eu não pedi pra ter minha vida arruinada!
Yuki: Dá pra vocês focarem? Tem coisas mais importantes acontecendo do que a crise hormonal da Eliza.
O som sutil, porém duro, das unhas de Yuki estalando contra o vidro do celular ao lado de Eliza mudou a pressão atmosférica do chat. A garota de rabo de cavalo não era de perder tempo com fofocas de corredor; se Yuki estava digitando textos longos durante a aula letal da Saga, o assunto era sério.
Yuki: Vocês viram os fóruns da cidade hoje cedo? Mais dois "ataques de animais". Os cães de guarda do galpão sul foram encontrados mortos.
Philia: O jornal da manhã disse que foram lobos selvagens que desceram da montanha. Nada de novo.
Yuki: Lobos selvagens não drenam o sangue das presas até a última gota sem rasgar a carne, Philia. Meu tio trabalha na perícia. Ele disse que os corpos pareciam cascas secas. E não são só animais.
Eliza franziu a testa, a respiração presa na garganta. O calor romântico das bochechas evaporou instantaneamente, substituído por um frio de rasgar a espinha.
Yuki: Tem boatos rolando sobre o turno da noite da universidade. Pessoas sumindo e acordando no hospital dois dias depois com anemia severa e confusão mental. Tem alguém — ou alguma coisa — vagando por Morpheus à noite. Caçando silenciosamente. Com essas histórias de corpos sem sangue...
Anna: Credo, Yuki! Vai dizer que a gente tem um vampiro no campus agora?
O cérebro de Eliza travou. O maquinário parou de rodar. A palavra piscou em sua mente: vampiro. A normalidade daquela cidade perfeita, pacata e enjoativa de repente pareceu uma fina camada de gelo prestes a rachar sob o peso de algo monstruoso. Aquilo era, de longe, a coisa mais bizarra que já havia rompido a bolha de Morpheus.
— Vampiros?! Aqui?! — Eliza ofegou em voz alta.
As palavras escaparam de seus lábios antes que o filtro do bom senso pudesse agir. No estrado, o arranhar do giz parou no meio de uma letra. O silêncio que se abateu sobre o anfiteatro foi absoluto, denso e esmagador. O ar pareceu despencar dez graus em um segundo.
Saga, de costas para a turma, ergueu a mão direita. Em um movimento assustadoramente fluido, sem sequer virar o rosto ou os ombros, a professora cega girou o pulso. O arremesso foi um chicote. O marcador de quadro branco cortou o ar com a velocidade, a curva e a precisão de uma flecha balística.
PÁ!
O tubo de plástico duro atingiu o centro exato da testa de Eliza, ricocheteando com um estalo seco que ecoou por toda a sala, antes de quicar e rolar para fora da mesa.
— Ai! — Eliza soltou um ganido agudo, levando as duas mãos à testa e encolhendo-se na cadeira como uma tartaruga voltando para o casco.
A professora Saga virou-se milimetricamente, cruzando os braços sobre o peito. Mesmo com a grossa fita de seda nos olhos, a pressão esmagadora de sua atenção parecia perfurar a alma da garota.
— Senhorita Lighthart. — A voz de Saga era gélida, cortada a bisturi e perfeitamente polida. — A não ser que o seu telefone celular contenha a resposta definitiva sobre o declínio econômico da Era de Ouro... sugiro que se concentre na aula. Ou prefere vir à frente e partilhar a sua conversa fascinante sobre ficção folclórica com o resto da sala?
A represa quebrou. Alguns calouros nas primeiras fileiras não conseguiram segurar: risadinhas abafadas e tosses disfarçadas ecoaram pelo anfiteatro. Ao lado de Eliza, Anna escondia o rosto atrás do estojo escolar, os ombros tremendo violentamente enquanto tentava não gargalhar. Do outro lado, Yuki e Philia subitamente se transformaram nas alunas mais dedicadas do país, com as costas retas, fingindo anotar fervorosamente no caderno.
Eliza só queria que o piso de mármore italiano se abrisse e a engolisse direto para o núcleo da Terra. O rosto dela latejava, não só pela pancada, mas pelo tom escarlate de pura e genuína vergonha.
— N-Não, professora Saga. Me desculpe... — ela gaguejou com a voz fina, afundando na cadeira e tentando se compactar no menor espaço físico possível.
Ainda massageando o calombo invisível na testa, Eliza não aguentou. Precisava saber o tamanho do seu vexame. Ela arriscou um olhar desesperado por cima do ombro, rezando para que a última fileira estivesse dormindo. Seu olhar cruzou a fileira de cabeças rindo e travou.
Dante não estava sorrindo. Ele não parecia minimamente entretido pelo infortúnio dela. A caneta havia parado de girar. Ele agora estava com o cotovelo apoiado na mesa, o queixo descansando pesadamente sobre os nós dos dedos. E seus olhos bicolores estavam cravados nela. Havia um interesse predatório, cínico e inexplicavelmente intenso naquele olhar. Ele não a encarava como se ela fosse uma aluna que pagou mico; ele a analisava como quem estuda uma engrenagem fora do lugar, tentando enxergar o que havia por trás daquela camada estéril de normalidade.
O choque daquele contato visual rasgou a distância entre os dois. O coração de Eliza voltou a disparar, mas dessa vez em puro e absoluto pânico. Com um movimento brusco e desajeitado, ela agarrou o pesado livro de História de Morpheus e o ergueu na altura do nariz, escondendo o rosto vermelho atrás da capa dura. Atrás das páginas, ela apertou os olhos, torcendo para que as próximas duas horas de aula evaporassem em três segundos.
O mistério estava oficialmente entranhado na falsa paz da cidade, e o forasteiro estava bem ali, no fundo da sala, assistindo às engrenagens começarem a quebrar.
Parte 7
O sinal estridente rasgou o ar, quebrando o silêncio denso do anfiteatro 3 e decretando o alívio do intervalo. O barulho de zíperes, cadernos batendo e cadeiras arrastando engoliu a pressão sufocante da sala em questão de segundos.
Eliza socou o grosso livro de História para dentro da mochila com a pressa frenética de quem tenta fugir da cena de um crime.
— Nos vemos na lanchonete, Liz! Pega uma mesa pra gente se conseguir! — Philia gritou por cima do ombro, já sendo arrastada por Yuki em direção ao corredor lotado, onde o cheiro doce de fritura e açúcar começava a poluir o ar perfeitamente climatizado de Morpheus.
Eliza acenou de volta, jogando a mochila pesada sobre um dos ombros. Mas, antes que a sola do seu sapato tocasse o corredor, Anna materializou-se ao seu lado. Ela debruçou-se sobre o ombro da amiga, os olhos azuis brilhando com uma malícia felina.
— Vai, confessa... — Anna cantarolou em um sussurro, espremendo as bochechas da amiga. — Você tava babando, não tava?
— Do que você tá falando, Anna? — Eliza disparou, desviando o olhar para o teto.
As bochechas esquentaram instantaneamente, o rubor escarlate entregando a mentira antes mesmo de ela terminar a frase.
— Ah, por favor! As encaradas sedentas que você tava dando pro garoto misterioso da última fileira? Eu vi o filme inteiro! — Anna deu uma cotovelada pontuda e amigável nas costelas de Eliza. — Fala sério, ele é exatamente o seu tipo. Misterioso, marrento, de fora dessa nossa bolha perfeitinha... O pacote completo de encrenca.
— V-Você tá inventando coisas! Não tem nada a ver! — Eliza apertou o passo, ziguezagueando entre os alunos para fugir do interrogatório e da própria vergonha. Ela precisava mudar de assunto. Para ontem. — A gente devia focar no que importa! Você não ouviu o que a Yuki falou? Corpos sem sangue? Pessoas sumindo de noite? Isso é, de longe, a coisa mais sinistra que já aconteceu nessa cidade de plástico.
Anna revirou os olhos com força. Ela deu um pulinho para a frente, passando a caminhar de costas para não perder a expressão de Eliza. — Ah, Liz, isso deve ser só delírio de fórum de internet. Historinha de terror pra assustar calouro. O que realmente vale a pena investigar é o número de telefone do novato. Você devia dar o bote antes que a Ivy ou o resto das hienas ataquem. O cara tem um rosto esculpido, não vai faltar voluntária.
— Esquece o novato, Anna. Eu vou investigar os sumiços.
Com um movimento brusco, Eliza mudou a rota. Em vez de seguir o rebanho de alunos que descia a grande escadaria rumo ao refeitório, ela girou os calcanhares à direita, invadindo o corredor silencioso que levava à ala administrativa.
Anna freou os passos, os ombros despencando em um suspiro de pura frustração. — Ah, não... O meu sanduíche de presunto e queijo tá me chamando, Liz! Pra onde a gente tá indo?!
— Pro prédio da coordenação — Eliza respondeu, o tom determinado, sem olhar para trás. — A sala dos diretores tem os arquivos. Se algum aluno desapareceu de verdade, o registro de transferência ou de faltas médicas tem que estar lá.
Anna correu de má vontade para alcançá-la. A voz baixou para um sussurro paranoico assim que cruzaram as portas de vidro da área restrita. O piso de linóleo barulhento deu lugar a uma madeira polida que engolia o som dos passos. — E lá vamos nós de novo... Olha, só não me meta em outra enrascada de suspensão, tá bom?
Eliza soltou uma risadinha cínica. — E desde quando eu te meto em enrascadas?
Anna congelou no meio do corredor. Ela virou o rosto lentamente para Eliza, abaixando a ponta do nariz e lançando um olhar tão profundamente acusador, carregado de um histórico criminal escolar tão vasto, que o silêncio berrou por si só.
Eliza engoliu em seco, encolhendo os ombros. — Quer saber? Esquece a pergunta. Só vem logo. O plano é o seguinte: se algum inspetor pegar a gente fuçando aqui, dizemos que eu estava indo pra sala do comitê estudantil procurar a minha irmã. A Kiara é o nosso passe livre diplomático.
Elas voltaram a caminhar na ponta dos pés. O silêncio estéril da administração era quebrado apenas pelo zumbido elétrico e letárgico das lâmpadas fluorescentes no teto.
Logo à frente, as imponentes portas duplas de carvalho surgiram, ostentando a placa dourada: Comitê Estudantil. Anna passou direto por elas, apressada para chegar à sala dos arquivos no fim do corredor, mas os pés de Eliza travaram no chão.
A porta do comitê não estava totalmente fechada.
Uma fresta fina, de apenas dois dedos, rasgava a penumbra do corredor, permitindo que uma voz vazasse para fora. Uma voz masculina, arrastada, grave e carregada de cinismo.
Eliza paralisou. O coração dela deu um salto triplo e irracional contra o esterno. Ela recuou um passo, a respiração presa na garganta, e aproximou o rosto da fresta na madeira encerada.
Lá dentro, a luz do sol da manhã banhava a imensa mesa de mogno. Encostado na beirada da mesa, com as pernas cruzadas na altura dos tornozelos e uma postura de relaxamento quase ofensivo, estava o forasteiro. Dante. E, perigosamente perto dele, de braços cruzados e exibindo um sorriso inabalável, estava Kiara.
— ...já consegui descobrir bastante coisa sobre você em meia hora, garoto misterioso — a voz de Kiara era puro veludo envenado. Era o tom de flerte agressivo que ela usava quando queria dissecar uma presa. — Então o seu nome é Dante. Os registros dizem que você vive viajando de um estado pro outro com as suas irmãs. Um verdadeiro nômade.
Dante deu de ombros. O rosto permaneceu impassível sob a franja bicolor enquanto ele cruzava os braços sobre a jaqueta de couro, espelhando a postura dela. — Bom, é que eu não sou muito fã de ficar plantado, deixando criar raízes no mesmo asfalto.
— E por que não? — Kiara deu um passo à frente. O salto dela estalou no chão enquanto ela invadia a zona de conforto dele com precisão cirúrgica. A distância entre os dois encolheu para quase nada. — Medo de se apegar?
— Digamos que eu gosto da emoção. Da adrenalina de rodar e não saber o que tem no próximo posto de gasolina. — Dante riu pelo nariz. Os olhos de cores diferentes sustentaram o olhar predatório de Kiara sem recuar um único milímetro. — Eu simplesmente não me vejo dando certo em um lugar pacato e paradinho por muito tempo. Acabo quebrando as coisas ao meu redor.
Kiara sorriu. Foi um sorriso afiado, desenhado para cortar vidro. Ela descruzou os braços e espalmou as duas mãos na beirada da mesa de mogno, aprisionando o quadril de Dante entre os braços dela. Ela o encurralou de propósito. — É mesmo? Isso é verdade ou é só uma desculpa bem ensaiada?
Eles continuaram conversando, a troca de farpas e sorrisos rápida, ácida e carregada de uma eletricidade quase visível no ar. Era um duelo de egos, um xadrez onde o troféu era o domínio sobre o outro.
Do lado de fora, Eliza assistia a tudo pela fresta. A respiração estava travada. Seus dedos apertavam tanto a borda da porta que os nós estavam brancos, as unhas cravando na madeira sem que ela percebesse.
— Ou será... — Kiara murmurou. A voz dela caiu duas oitavas, tornando-se rouca, perigosa e aveludada. Ela inclinou o tronco para a frente, o perfume doce e cítrico preenchendo o espaço minúsculo entre eles. — Que você só não achou alguém que te desse um motivo forte o suficiente pra ficar.
Dante não desviou o rosto. O sorriso marrento dele permaneceu colado nos lábios, mas uma faísca densa e curiosa brilhou em seu olhar. — É? E você acha que você seria essa pessoa, presidente?
Kiara inclinou a cabeça lentamente. Os lábios com gloss escuro roçaram, quase imperceptivelmente, a ponta da orelha de Dante. — Quem sabe.
O som daquele sussurro bateu em Eliza como uma marreta de aço direto no esterno.
A dor não veio como um aperto de ciúme adolescente. Foi uma pontada aguda, brutal e gélida que rasgou seu peito de cima a baixo. Era uma dor fantasma, antiga e profunda, como se uma engrenagem vital da sua alma estivesse sendo violentamente esmagada. Ela não entendeu. O pânico a dominou. Ela o conhecia há apenas uma hora, não sabia nada sobre ele, mas a sensação de perda — a náusea avassaladora de ver a perfeição de Kiara roubando-o — foi fisicamente insuportável.
A visão de Eliza turvou. Em um ato de reflexo cego, ela recuou de forma brusca. O calcanhar escorregou e o solavanco fez seu ombro bater violentamente contra o batente de madeira maciça.
TUM!
O barulho oco e pesado ecoou pelo corredor vazio como um tiro.
Lá dentro, Kiara e Dante interromperam a gravidade da cena instantaneamente, os dois rostos virando em alerta na direção da fresta.
Eliza não esperou para ser pega. O pânico cru e aquela dor esmagadora no peito engoliram seu raciocínio. Ela girou nos calcanhares e correu. Ela não chamou por Anna. Não olhou para trás. Ela simplesmente fugiu.
As solas de seus tênis derrapavam nas curvas do corredor encerado, guinchando contra o piso. A respiração saía em arfadas curtas, rasgadas e desesperadas. Ela balançava a cabeça violentamente de um lado para o outro enquanto corria, os cabelos magenta chicoteando o próprio rosto, como se o movimento pudesse ejetar a imagem de Kiara sussurrando no ouvido dele de dentro da sua cabeça.
“Por que isso tá doendo tanto? Por quê?!”, a mente dela gritava, cega pelas lágrimas quentes que finalmente transbordaram e embaçaram sua visão.
Ela virou à esquerda em um borrão. Subiu um lance de escadas tropeçando nos próprios degraus. Desceu outro corredor desconhecido, atirou o peso do corpo contra uma pesada porta corta-fogo de metal e continuou correndo, correndo até os pulmões queimarem implorando por oxigênio e os músculos das pernas falharem de exaustão.
Eliza freou bruscamente. Suas mãos agarraram os próprios joelhos, o peito subindo e descendo em espasmos enquanto ela tentava recuperar o fôlego. Lentamente, limpando as lágrimas com as costas da mão, ela ergueu o rosto e tentou focar a visão.
A atmosfera havia mudado completamente. As paredes ali não exibiam os murais de avisos alegres e coloridos do conselho estudantil. A iluminação era doentia; lâmpadas antigas piscavam de forma letárgica, jogando sombras trêmulas no chão sujo. O cheiro asséptico de cera de chão e lavanda da universidade havia sido engolido por um odor denso de mofo, ferrugem e poeira acumulada de décadas.
Ela olhou para o fim do corredor mal iluminado, e o sangue em suas veias gelou.
Em seu desespero cego para arrancar a dor do peito, Eliza havia cavado fundo demais nas entranhas do prédio. As portas de madeira ao longo do corredor estavam apodrecidas e trancadas com correntes grossas de ferro. O silêncio ali não era o silêncio da paz; era pesado, denso e terrivelmente hostil, como se as próprias paredes a estivessem observando.
Ela estava completamente perdida. Sem Anna, sem celular na mão, e muito, muito longe da normalidade ensolarada de Morpheus.
Parte 8
O ar ali não era apenas velho; era denso, gelado e cheirava a um mofo espesso misturado com cera vencida. A respiração de Eliza ecoava de forma irregular pelas paredes descascadas do corredor sem saída, soando assustadoramente alta. Longe das imensas janelas de vidro e do sol irritantemente perfeito de Morpheus, as lâmpadas fluorescentes presas ao teto piscavam em um ritmo doentio, zumbindo como insetos elétricos enquanto lutavam para não apagar de vez.
Eliza recuou até suas costas baterem contra uma porta dupla de madeira apodrecida, trancada com correntes grossas de ferro. Ela deslizou pela superfície áspera até sentar no chão sujo. Com as mãos ainda tremendo de adrenalina, puxou o celular do bolso da jaqueta. Seu coração martelava forte no peito — uma mistura caótica da corrida desesperada com a imagem abrasadora de Kiara e Dante que se recusava a desgrudar de suas retinas.
Ela desbloqueou a tela, o brilho azul machucando os olhos acostumados à penumbra, e abriu o aplicativo de mensagens.
[Grupo: Sobreviventes do Semestre]
Eliza: Deu ruim. Acho que me perdi feio no prédio da administração.
Anna: BEM FEITO! 😤 Você simplesmente surtou, saiu correndo igual uma louca e me deixou lá pra trás! O inspetor me pegou rondando a porta do comitê e eu tive que passar vinte minutos suando frio pra inventar uma história ridícula de que estava procurando o banheiro!
Philia: Hahahahaha! Eu pagaria ouro pra ver a cara da Anna tentando enganar a coordenação.
Yuki: Ri não, Philia. Mas falando sério, Eliza, onde você se meteu? O sinal pro próximo período já vai bater.
Eliza soltou um suspiro cansado, ajeitando a mochila no colo. Ela ergueu o celular na altura do rosto e ativou o flash da câmera. A luz branca rasgou a escuridão do corredor sombrio, revelando tubulações grossas expostas no teto e uma fileira de armários de metal enferrujados engolidos por sombras densas. Ela tirou uma foto e enviou.
Eliza: [Foto da Mídia] Eliza: Alguma de vocês faz ideia de que bloco abandonado é esse?
Os três ícones de digitação apareceram e sumiram algumas vezes na tela, como se elas estivessem hesitando.
Philia: Que lugar bizarro. Nunca vi isso na planta do campus.
Anna: Credo, Liz. Você entrou no set de filmagem de um filme de terror? Sai daí logo, pelo amor.
A bolha de digitação de Yuki continuou pulsando na tela por mais longos segundos, antes de enviar uma mensagem que fez a espinha de Eliza congelar.
Yuki: Espera. O que é aquela coisa ali na foto?
Eliza franziu a testa, ajeitando a postura no chão frio. Ela abriu a própria imagem, beliscou a tela para dar zoom nas áreas mais escuras e varreu a foto.
Eliza: Aquilo o quê? Não tô vendo nada, Yuki. É só um corredor velho.
Yuki: Lá no fundo. No canto superior esquerdo, em cima daquele último armário de metal e espremido nas tubulações. Parecem... olhos.
Anna: Ai, cala a boca, Yuki! Para de tentar assustar a menina, eu já tô arrepiada aqui na lanchonete!
Philia: Realmente, deve ser só o reflexo do flash em algum cano de cobre ou pedaço de vidro quebrado. A qualidade da foto tá um lixo por causa da escuridão.
Yuki: Eu tô falando sério. O formato não é de um reflexo. Eliza, abre uma chamada de vídeo. Agora.
O tom imperativo, quase mecânico, da mensagem de Yuki fez Eliza engolir em seco. A temperatura no corredor, que já era desconfortável, pareceu despencar subitamente até o ponto de congelamento. Quando Eliza exalou, o vapor de sua respiração tornou-se uma nuvem branca e visível no ar escuro. Ela apertou o botão de chamada de vídeo.
Yuki atendeu no primeiro toque. A tela dividiu-se, iluminando o rosto tenso da garota de cabelos prateados. Anna e Philia estavam espremidas atrás dela, os rostos divididos entre a curiosidade mórbida e o medo.
— Mostra o corredor, Eliza. Acende a lanterna e vai virando a câmera devagar — a voz de Yuki soou baixa, crepitando com urgência pelo alto-falante do aparelho.
Eliza obedeceu. Com as mãos suadas esmagando as bordas do celular, ela se levantou lentamente. A luz da lanterna voltou a cortar as sombras como uma faca. Partículas grossas de poeira dançavam no feixe de luz. Ela foi girando o pulso, milímetro por milímetro, focando no fundo do corredor onde a escuridão parecia sólida. O silêncio ao redor dela era tão absoluto, tão antinatural, que o único som no ambiente era o zumbido elétrico do próprio celular captando o vazio.
O frio continuava a morder sua pele, arrepiando os pelos de seus braços sob a jaqueta.
— Mais pra esquerda... ali! Sobe um pouco a câmera! — Yuki orientou, o rosto quase colado na lente do próprio celular, os olhos apertados para forçar o foco.
Eliza ergueu o aparelho, apontando a luz em direção ao topo do último armário de metal enferrujado. No meio do breu absoluto, duas pequenas esferas brilhantes, afiadas e alienígenas refletiram a luz do flash.
— Achei! — Yuki exclamou, a surpresa aguda quebrando a tensão. — Espera... aquilo é um gato?
No exato milissegundo em que a palavra "gato" estalou pelo alto-falante, o corredor distorceu.
Não foi um problema de conexão. Não foi uma falha na câmera. A própria realidade ao redor de Eliza pareceu soluçar e sofrer um glitch. A imagem do rosto das amigas na tela do celular foi subitamente engolida por uma estática violenta — um ruído visual cinza e vermelho que machucava fisicamente a retina. Um chiado agudo, ensurdecedor e rasgado explodiu do alto-falante, soando como um rádio fora de sintonia sendo amplificado no máximo.
— Yuki?! Anna?! — Eliza gritou, o pânico travando sua voz enquanto ela afastava o celular do ouvido.
A tela piscou uma última vez em um flash branco e cegante. Em seguida, apagou. O aparelho morreu completamente, transformando-se em um peso inútil de vidro e metal em suas mãos. O breu e o silêncio esmagador voltaram a engolir o corredor com força total. O pânico atingiu Eliza com a força de um soco no estômago. Sozinha. No escuro. No frio absoluto.
— Liga, liga, liga, por favor! — Eliza murmurou, a voz falhando em desespero.
Ela apertou o botão de energia repetidas vezes, o polegar ficando branco de tanta força aplicada. Longos e torturantes dez segundos se arrastaram na escuridão. Então, a tela acendeu com o logotipo brilhante da universidade. O sistema reiniciou de forma bizarramente rápida, como se nunca tivesse desligado. Assim que o ícone de rede conectou no topo da tela, uma avalanche de notificações fez o aparelho vibrar loucamente em sua mão, parecendo um inseto enjaulado.
Anna: LIZ??? O que foi isso?!
Philia: A chamada caiu do nada! A sua internet aí deve ser horrível.
Anna: Responde, pelo amor de Deus, eu já tô levantando pra ir chamar a segurança!
Eliza encostou a nuca na parede fria de concreto e soltou um longo e trêmulo suspiro de alívio.
Eliza: Tô bem, meninas. O meu celular desligou sozinho do mais puro nada. Deu um tilt bizarro e a tela apagou na minha cara.
Ela digitou rápido, os polegares ainda trêmulos e errando algumas letras, sentindo uma necessidade desesperada de focar em um mistério para não surtar com o escuro.
Eliza: Mas e aí, Yuki? O que você viu no zoom? Que gato era aquele escondido nas tubulações?
A resposta de Yuki demorou alguns segundos. E quando a bolha de mensagem finalmente apareceu, o texto parecia... errado.
Yuki: Gato? Que gato, Eliza?
Yuki: Eu não vi nada. Deve ter sido só um monte de sombras acumuladas. O flash enganou meus olhos, não tinha nada lá.
Eliza franziu a testa, um desconforto frio e ácido apertando seu estômago. Aquela não era a Yuki. A Yuki que ela conhecia era teimosa, analítica e não voltava atrás em uma afirmação em questão de segundos. As frases digitadas eram secas, pontuadas perfeitamente, quase robóticas — como se tivessem sido formatadas por um sistema apenas para encerrar o assunto rapidamente.
Eliza: Yuki, não brinca comigo. Você gritou "é um gato".
Yuki: Você deve ter ouvido errado por causa da estática. Esquece isso.
Antes que Eliza pudesse argumentar com aquela mudança bizarra e arrepiante de comportamento, outra mensagem pulou na tela, quebrando o suspense sobrenatural com uma lógica irritantemente banal.
Anna: Olha só, dona Eliza... se você tá com sinal de internet pra fazer chamada de vídeo e ficar mandando foto no grupo... por que carambas você não usou o aplicativo de GPS do campus pra se achar e voltar pra cá?!
Eliza encarou a tela iluminada. Ela piscou uma, duas vezes. A tensão mística, o medo e o frio sumiram instantaneamente, sendo substituídos por uma sensação monumental, esmagadora e absoluta de pura estupidez.
Eliza: ...
Eliza: Puts. Eu esqueci completamente.
Eliza: Eu nunca uso esse aplicativo.
O grupo foi inundado por uma avalanche de emojis de caveiras e risadas histéricas de Anna e Philia. Até mesmo Yuki mandou um bonequinho de palito batendo a mão na própria testa. A atmosfera pesada se dissipou. O terror inexplicável havia sido neutralizado pela banalidade tragicômica da falta de senso de direção humano.
— Ai, como eu sou idiota... — Eliza resmungou para si mesma, balançando a cabeça em negação.
Ela fechou o chat e abriu o aplicativo de navegação da universidade. A tela iluminou seu rosto com o brilho azul amigável do mapa tridimensional. A setinha vermelha piscava na tela, traçando uma rota de linha pontilhada clara e fácil de volta para a segurança das áreas comuns.
Ela guardou o celular de volta no bolso, ajeitou as alças da mochila nos ombros e se virou para começar a caminhada de volta à civilização. E então, o som ecoou no vazio.
Tink.
Claro, agudo e metálico. O badalar perfeito de um pequeno sino de coleira batendo contra o metal. Eliza travou os calcanhares no chão. O sangue sumiu de seu rosto. Ela lentamente, dolorosamente, virou o pescoço, olhando por cima do ombro de volta para o fundo do corredor sombrio.
Miau.
Um miado suave, arrastado e quase espectral deslizou pela escuridão, vibrando contra o concreto como se viesse de todas as direções ao mesmo tempo. Ela puxou o celular do bolso em um instinto de sobrevivência puro, acendendo a lanterna como uma arma e varrendo os armários, o teto exposto e o chão sujo. A luz branca revelou apenas a poeira rodopiando e as portas enferrujadas. Não havia gatos. Não havia coleiras brilhantes. Não havia absolutamente nada lá.
Mas a sensação de estar sendo observada era pesada, tátil e sufocante, como uma manta de chumbo jogada sobre seus ombros. Eliza não esperou pelo terceiro aviso. Ignorando a dor romântica que persistia no peito e os resquícios da dor fantasma em sua cabeça, ela girou para frente e correu na direção guiada pelo mapa iluminado, deixando a escuridão absoluta — e o observador de Morpheus — para trás.
Parte 9
O contraste entre a penumbra daquele corredor esquecido e a claridade agressiva do pátio principal foi como um tapa físico no rosto. Eliza empurrou as pesadas portas duplas de vidro com o ombro e quase tropeçou nos próprios cadarços ao pisar no concreto externo. Seu peito subia e descia em arfadas curtas e rasgadas. A luz do sol a cegou por um momento, branca e impiedosa, enquanto o som de dezenas de universitários rindo e conversando despencava sobre ela como uma avalanche ensurdecedora.
— Eliza Lighthart!
A voz estridente de Anna cortou o burburinho do pátio como uma faca. A garota loira vinha marchando a passos duros e furiosos pelo gramado impecável, os braços cruzados sobre o peito e uma carranca armada no rosto que faria qualquer calouro tremer.
— Qual é o seu maldito problema?! — Anna disparou, parando a centímetros do nariz da amiga. — Você me deixa lá, sozinha e com cara de tacho, sai correndo como se tivesse visto um fantasma ensanguentado e depois some?! Eu juro por Deus que, se eu levasse uma suspensão no primeiro dia por sua causa, eu ia...
Anna parou de falar no meio da sílaba. A carranca derreteu, evaporando instantaneamente. Eliza estava pálida como papel. Os ombros dela tremiam em microespasmos, e os olhos magenta estavam arregalados, desfocados, como se as pupilas ainda estivessem presas na escuridão do corredor. Sem dizer mais uma única palavra, Anna descruzou os braços, deu um passo à frente e a puxou para um abraço apertado, repentino e ferozmente protetor.
— Ei, ei... passou. Tô aqui — Anna sussurrou, a voz perdendo todo o tom de bronca, a mão acariciando a nuca da amiga com força. — O que aconteceu lá dentro, Liz? Você tá tremendo igual vara verde.
Eliza retribuiu o abraço, cravando os dedos na jaqueta de Anna e escondendo o rosto no ombro dela por um longo segundo antes de se afastar. Ela soltou o ar que parecia preso em seus pulmões desde o glitch.
— Eu me perdi no final do bloco administrativo. E... a chamada de vídeo com a Yuki — Eliza gesticulou freneticamente, a voz saindo rápida, atropelando as palavras. — Tinha alguma coisa lá, Anna. Eu escutei um sino, um miado de gato vibrando no concreto. E a Yuki... o jeito que ela mandou mensagem depois do apagão! Parecia que a mente dela tinha sido formatada! Ela apagou o que disse como se nada tivesse acontecido! Não era brincadeira!
Anna ouviu tudo em silêncio absoluto. Ela olhou para o rosto aterrorizado de Eliza, depois espiou por cima do ombro dela para as portas de vidro do prédio. Um suspiro longo escapou de seus lábios, acompanhado de um sorriso compreensivo, porém cético e cansado.
— Liz... respira. Fundo. Você se deixou levar. — Anna segurou os dois ombros da amiga com firmeza, ancorando-a no presente. — A Yuki tem um humor meio torto, fez uma brincadeira de mau gosto, você ficou com medo do escuro e a sua cabeça completou o resto do roteiro. Você tá procurando sarna pra se coçar porque tá entediada com a perfeição dessa cidade.
— Mas eu juro por tudo que não foi...
— Eliza, escuta. — A expressão de Anna mudou. Perdeu a energia caótica e assumiu uma seriedade profunda, velha demais para uma universitária no primeiro semestre. — Esse é o seu único defeito. Você é ótima em bater de frente com as coisas na teoria, dentro da sua cabeça. Mas, na hora que o perigo real aparece e cobra atitude... o medo te faz hesitar.
Eliza paralisou, as palavras cortando o ar como vidro afiado.
— E é essa hesitação que custa tudo no final — continuou Anna, a voz baixando de tom, soando quase como o eco doloroso de outra vida, carregada de um peso sombrio que não combinava com ela. — Se você não se arriscar, se não der um passo de olhos vendados no escuro, o seu mundo nunca vai mudar. Você vai ficar presa nessa mesmice para sempre, sentada, esperando que algo aconteça por um passe de mágica.
Eliza abaixou o olhar para a ponta de seus tênis no gramado perfeito. A fisgada no centro de sua testa voltou, aguda e rápida, mas dessa vez não trouxe dor física. Trouxe uma epifania dura, fria e humilhante. Anna tinha total razão. Ela vivia reclamando que Morpheus era uma gaiola dourada, pacata e enjoativa. Mas talvez o mundo não fosse o problema. Talvez a inércia estivesse enraizada dentro dela. O medo de agir era o verdadeiro cadeado daquela gaiola. Se ela não girasse a chave, morreria ali dentro.
— Vem. Vamos para casa. O dia já deu o que tinha que dar — Anna sorriu suavemente, o peso sumindo de seu rosto enquanto ela puxava Eliza pelo pulso.
Elas caminharam em silêncio pelo estacionamento arborizado do campus. Mas o destino, ou o que quer que governasse Morpheus, tinha um senso de humor peculiar e sádico. A poucos metros da saída principal, escorados contra o metal negro e fosco de uma moto pesada, estavam duas figuras familiares. Dante estava sentado de lado no banco do piloto, os braços cruzados sobre o peito. Kiara estava de pé bem na frente dele, rindo abertamente de algo que ele acabara de dizer. O clima entre os dois fervia, emanando uma química inegável que distorcia o ar ao redor deles.
O estômago de Eliza revirou violentamente. Aquela mesma pontada de ciúme irracional, possessivo e doloroso que ela sentiu na porta do comitê voltou, afiada e cruel, rouba-lhe o fôlego.
Kiara virou o rosto no momento exato em que elas se aproximaram. Os olhos escuros da presidente capturaram a irmã mais nova. O sorriso presunçoso e brilhante se alargou. Ela deu as costas para Dante com um giro elegante de calcanhar e caminhou na direção de Eliza.
— Eliza! Onde você estava com a cabeça? — Kiara parou na frente dela, cruzando os braços e assumindo imediatamente a postura teatral de irmã mais velha, superprotetora e superior. — Eu ouvi um estrondo na porta da minha sala mais cedo e já suspeitei que fosse você tropeçando por aí.
Kiara riu, um som alto e cristalino que fez alguns alunos ao redor virarem o rosto. Ela inclinou a cabeça, olhando para Eliza de cima a baixo com uma condescendência quase carinhosa.
— Desde criança você é assim. Fazia alguma besteira, vinha correndo me procurar e, quando a coragem sumia e a vergonha batia, fugia como uma criancinha assustada. Sério, Liz? Você está na faculdade agora. Cresce.
As bochechas de Eliza queimaram como fogo. Ela sentiu o peso do olhar de Dante sobre ela. O forasteiro observava a interação com uma sobrancelha erguida, os lábios curvados em um sorriso preguiçoso, claramente divertido com o drama familiar. O constrangimento era absoluto. Kiara a estava reduzindo a uma garotinha patética e insegura bem na frente do garoto que havia bagunçado a sua mente.
O medo e a vontade de fugir gritaram no cérebro de Eliza em alerta vermelho. O instinto covarde implorava para que ela abaixasse a cabeça, pedisse desculpas e saísse andando rápido. Hesite. Fuja. Ela sabia que podia escapar daquela situação agora, e sabia que passaria a noite inteira rolando na cama, se odiando, desejando ter feito diferente, afundada na própria covardia.
Mas as palavras de Anna ecoaram por cima do pânico: A hesitação custa tudo.
Eliza apertou os punhos ao lado do corpo até as unhas marcarem as palmas das mãos. Ela ergueu o queixo de uma vez. Quando abriu os olhos, o magenta de suas íris parecia faiscar com uma luz própria.
— Relaxa, Kiara. — A voz de Eliza não tremeu. Ela saiu fria, cortante e estranhamente madura, rasgando o ar e silenciando o sorriso condescendente da irmã na mesma hora. — Está tudo perfeitamente bem. Não aconteceu absolutamente nada no corredor com que você precise se preocupar ou me dar sermão.
Kiara piscou, as sobrancelhas se juntando, pega de surpresa pela resposta seca. A mudança na pressão do ar foi tão repentina que a presidente recuou meio passo instintivamente, abrindo o caminho. Aproveitando a brecha, Eliza não apenas contornou a irmã. Ela a deletou da equação. Ignorando completamente a presença esmagadora de Kiara, Eliza caminhou com passos firmes e medidos até a moto, parando exatamente na frente de Dante, invadindo o espaço pessoal dele.
Dante se endireitou no banco. Ele descruzou os braços devagar, o sorriso debochado vacilando enquanto seus olhos bicolores se estreitavam em pura curiosidade diante da garota que parecia ter acabado de virar uma chave no cérebro.
— Ouvi dizer que você é novo na cidade — Eliza começou. A voz saiu inabalável, sustentando o contato visual sem piscar.
— Pois é. E até agora, o turismo está meio parado — Dante respondeu, a voz grave, o sorriso cínico voltando a repuxar o canto dos lábios.
— Bom, eu tenho que concordar com você que esse lugar é bem chato e previsível na maior parte do tempo. — Eliza deu mais um meio passo à frente, as pontas de seus tênis quase tocando as botas dele. Ela invadiu a zona de conforto do bad boy sem pedir licença. — Mas, dito isso, eu não vou aceitar reclamações de alguém que acabou de chegar e não conhece nada. Tenho certeza absoluta de que tem um ou dois lugares em Morpheus que são muito melhores e mais interessantes do que qualquer buraco de onde você tenha vindo.
Dante arqueou as sobrancelhas, genuinamente surpreso com a audácia repentina. O sorriso dele virou um riso nasalado, desafiador e interessado. — É mesmo? Será que tem?
— Se você duvida... que tal confirmar? — Eliza rebateu no mesmo milissegundo. O coração dela martelava contra as costelas com força suficiente para quebrar ossos, mas a máscara de confiança no rosto era perfeita, esculpida em mármore. — Se você estiver com o sábado livre, é só sair comigo. Eu te mostro.
Dante travou.
O garoto marrento que ignorou a rainha do campus, o forasteiro intocável que rebateu a presidente do conselho sem suar uma gota, de repente ficou completamente mudo. O maquinário no cérebro dele sofreu um curto-circuito espetacular diante do bote rápido, letal e sem aviso da garota de cabelos magenta. Ele abriu a boca, mas o sarcasmo falhou. A palavra não se formou rápido o suficiente.
— Bom. Então sábado. Às catorze horas. — Eliza não deu um único segundo de espaço para ele processar a informação ou formular uma resposta. Ela deu as costas para a moto, jogando o cabelo por cima do ombro com uma atitude afiada que definitivamente não pertencia ao seu repertório normal. — É melhor não me deixar esperando.
E com isso, ela voltou a caminhar em direção à saída do campus, passando por Kiara como se a irmã fosse invisível, sem nem olhar para o lado. Dante ficou paralisado no banco da moto. O vento bagunçou seus cabelos bicolores enquanto ele olhava atônito para o espaço vazio onde Eliza estava há um segundo. Ele piscou lentamente, a expressão marrenta substituída por um choque absoluto e quase cômico.
A poucos passos dali, Kiara continuava estática. Ela acompanhou a figura da irmã se afastando pelo estacionamento com o olhar. O baque inicial de ter sido brutalmente "atropelada" pela atitude de Eliza desvaneceu. Lentamente, os lábios pintados de carmesim da presidente do conselho se curvaram. Ela abriu um sorriso predador, misturado com um orgulho doentio e uma faísca de rivalidade pura acendendo no olhar.
— Finalmente decidiu entrar no jogo, não é, maninha...? — Kiara murmurou para si mesma, a voz aveludada vibrando com pura excitação.
Anna correu atrás de Eliza, alcançando-a na calçada do lado de fora dos imensos portões do campus. Ela estava ofegante, os olhos do tamanho de pires.
— Liz! O que... o que diabos foi aquilo?! — Anna gritou em um sussurro completamente histérico, agarrando o braço da amiga com as duas mãos. — Você chamou o forasteiro para sair! Na frente da Kiara! Ele ficou com cara de paisagem! O cara parou de funcionar!
Longe dos olhos deles, Eliza sentiu a máscara cair. Os próprios joelhos viraram gelatina pura agora que a adrenalina estava abandonando seu sangue. O rosto dela finalmente pegou fogo, assumindo o tom de um tomate maduro, e o coração parecia querer pular pela garganta e sair correndo pela rua. Ela escondeu o rosto avermelhado com as duas mãos, dobrando levemente o corpo, mas um sorriso trêmulo, assustado e genuinamente feliz rasgava seu rosto por trás dos dedos.
— Nada demais, Anna... — Eliza murmurou, a voz abafada e tremendo de alívio. — Eu só... parei de hesitar. Como você disse.
Parte 10
A noite em Morpheus caiu com a mesma perfeição calculada e artificial do dia. O céu noturno exibia uma lua cheia de contornos tão nítidos que pareciam cortados a laser, e estrelas que não cintilavam ou piscavam; pareciam pequenos furos estáticos pintados em um imenso teto de veludo escuro.
No quarto confortável, espaçoso e excessivamente arrumado da mansão Lighthart, Eliza estava deitada de bruços na cama de casal. As pernas balançavam no ar enquanto o rosto estava afundado no travesseiro macio, abafando um longo e sofrido grito de pura vergonha. O celular, apoiado contra a cabeceira, exibia uma chamada de vídeo dividida em três telas.
— ...e a cara do forasteiro?! Eliza, pelo amor de tudo que é sagrado, você foi simplesmente lendária! — A voz de Anna explodiu pelo alto-falante, aguda e vibrante de empolgação pura. Na tela superior, a garota loira andava de um lado para o outro de forma inquieta. O eco de seus passos e o fundo de azulejos brancos indicavam que ela estava em algum banheiro público. — Bater de frente com a presidente do conselho e dar o bote no novato no mesmo minuto? Você roubou a cena! É o nascimento de uma nova era!
Na tela de baixo, Philia soltou uma gargalhada antes de dar uma mordida generosa em um hambúrguer duplo que transbordava queijo derretido. O ruído de fundo indicava uma lanchonete barulhenta e lotada no centro da cidade. — Tenho que admitir, Liz. Desse jeito até eu quero apoiar a causa. Quem diria que a florzinha tímida iria desabrochar e mostrar que tem uma guerreira escondida embaixo dessa franja? Foi um movimento de mestre. Ousado e letal.
— Parem com isso, pelo amor de Deus... — Eliza resmungou, virando o rosto de lado no travesseiro. As bochechas queimavam como brasas vivas de constrangimento. — Eu achei que ia desmaiar e cair dura no asfalto logo depois. Passei o resto do dia inteiro me escondendo pelos corredores periféricos do prédio pra evitar dar de cara com a minha irmã de novo. Eu não sei onde eu estava com a cabeça!
Philia engoliu o lanche e limpou o canto da boca com um guardanapo de papel. A expressão dela, antes puramente divertida, tornou-se levemente pensativa, as sobrancelhas se juntando. — Sabe, falando em evitar as pessoas e sumir... vocês tiveram notícias da Yuki o resto da tarde? Desde aquela chamada de vídeo esquisita no corredor escuro, eu não vi mais nem a sombra dela no campus.
Eliza sentou-se na cama de supetão, ajeitando o cabelo magenta despenteado. A fisgada de preocupação, que havia sido anestesiada pela adrenalina do pátio, voltou a cutucar seu estômago. — Eu também não. Mandei três mensagens e nenhuma sequer marcou como entregue. Fica só naquele tique cinza.
— Ah, relaxem. É a Yuki. — Anna balançou a mão de forma displicente na frente da lente, a imagem balançando junto com ela. — Ela deve ter esbarrado em outro "mistério" de fórum da internet pelo campus e agora está hiperfocada naquilo. Aposto que já até esqueceu da historinha de gato fantasma de hoje cedo.
Philia concordou com a cabeça, pegando uma batata frita do saquinho de papel. — Faz sentido. Conhecendo a Yuki, ela deve estar trancada na última prateleira da biblioteca municipal procurando registros antigos da cidade.
Eliza soltou um suspiro longo, sentindo a tensão nos ombros ceder um pouco com a lógica inabalável das amigas. — É, deve ser isso mesmo. Bom, meninas, vou ter que desligar agora. Meu estômago está roncando, e eu preciso bolar um plano de infiltração tática na minha própria cozinha pra pegar comida sem dar de cara com a Kiara na sala.
Philia riu e ergueu a metade final do hambúrguer para a câmera em um brinde silencioso. — Você devia fazer como eu e comer fora, caloura. Zero risco de encontrar a família.
— Talvez um dia, quando eu herdar o seu metabolismo mágico, Philia — Eliza retrucou com um sorriso torto, fazendo as três rirem juntas.
— Vai lá, Liz! Boa sorte na missão furtiva. E eu tô torcendo muito por você no sábado! Nada de recuar e deixar a Kiara passar na frente dessa vez! — Anna deu uma piscadela exagerada para a tela antes de apertar o botão vermelho.
Bip.
A tela apagou. O quarto mergulhou no silêncio perfeitamente estéril da mansão. Eliza se espreguiçou, estalando as costas e preparando-se para levantar, quando um som seco e rítmico a congelou no lugar.
Toc. Toc.
Alguém — ou algo — estava batendo no vidro da janela. Eliza virou a cabeça lentamente para os painéis de vidro encortinados. Ela estava no segundo andar da mansão. Não havia sacada ali. Não havia escada de incêndio. O coração dela acelerou de zero a cem. Com passos curtos e hesitantes, ela cruzou o quarto e espiou pela fresta mínima da cortina de linho.
Um par de olhos amarelos, brilhantes e predatórios a encarou de volta do lado de fora do vidro escuro. Era um gato preto. Ele estava sentado no parapeito externo, um espaço estreito e impossível para um animal daquele tamanho se equilibrar com tanta calma. Eliza engasgou e recuou com um sobressalto, o peito subindo e descendo. Ela fechou os olhos com força, balançou a cabeça e olhou novamente através da fresta.
O gato não estava mais lá. Havia sumido no ar, sem fazer um único ruído. Tentando provar a si mesma que o estresse do dia a estava deixando oficialmente paranoica, ela destrancou a janela e deslizou o vidro pesado para cima. O vento frio da noite invadiu o quarto, bagunçando as cortinas. Não havia sinal do animal. Mas, preso sob o trilho da esquadria de metal, havia um pequeno pedaço de papel dobrado.
Eliza franziu a testa. Ela pescou o papel com as pontas dos dedos trêmulos e o desdobrou sob a luz do abajur. A caligrafia não era a fonte redonda e perfeita padrão de Morpheus; era irregular, apressada, escrita à mão com tinta preta fina:
"Você precisa ser rápida. O tempo está correndo." — Schrödinger
— Schrödinger? — ela murmurou em voz alta, a mente tentando inutilmente conectar o nome estranho ao gato preto e à sensação sufocante e pegajosa de que o mundo inteiro estava fora do eixo.
— Vai descer pra comer ou vai ficar namorando a lua no frio, aventureira?
O susto repentino fez Eliza dar um pulo no lugar, quase derrubando o bilhete no tapete. Kiara estava encostada no batente da porta aberta do quarto. Ela vestia um pijama de seda escuro e mantinha os braços cruzados, exibindo aquele sorriso provocador, arrogante e perfeitamente desenhado nos lábios.
— K-Kiara! Eu não te ouvi subir a escada! — Eliza gaguejou, escondendo a mão com o bilhete atrás das costas. — E-Eu já estou descendo! Juro!
Kiara riu baixinho. O som era condescendente. Ela descruzou os braços e girou graciosamente nos calcanhares. — É bom mesmo. A mãe pediu pra avisar que o jantar está esfriando. Não demora.
Enquanto o som dos passos descalços de Kiara sumia pelo corredor de mármore, Eliza soltou um suspiro rasgado de alívio. Ela trouxe a mão de volta para a frente do corpo, abrindo os dedos para ler a mensagem de novo. O sangue em suas veias congelou instantaneamente.
O bilhete não estava mais lá. Não havia caído no chão. Não havia voado com o vento da janela aberta. As mãos dela estavam perfeitamente vazias. O papel assinado por "Schrödinger" simplesmente havia deixado de existir, dissolvido no ar como um erro de software que o sistema do mundo acabara de localizar e deletar silenciosamente.
Do outro lado da chamada de vídeo recém-encerrada, o ambiente era infinitamente menos acolhedor do que um quarto de mansão rica.
Anna colocou o celular sobre a bancada fria de mármore branco de um banheiro público do campus. O som da água caindo com força da torneira de metal ecoava de forma aguda contra os azulejos encardidos. Ela cantarolava uma melodia infantil, leve e despreocupada, um sorriso doce brincando no canto dos lábios enquanto lavava as mãos.
Sob a luz fluorescente falha do teto, a água que escorria por suas mãos pálidas não era transparente. Era de um escarlate espesso, brilhante e quente. O sangue grosso descia pelo ralo de metal em redemoinhos, manchando a louça branca, enquanto Anna esfregava metodicamente a pele fina entre os dedos com sabonete líquido industrial. Seus olhos azuis no espelho refletiam apenas uma inocência vazia e açucarada.
A pesada porta principal do banheiro rangeu. Duas garotas entraram, conversando animadamente. — ...e eu te juro, a casquinha de baunilha daquela lanchonete é a melhor que tem! Tô morrendo de vontade de tomar um sorvete agora.
Anna fechou a torneira com um movimento rápido e fluido, as mãos agora perfeitamente limpas e cheirando a sabão químico. Ela pegou o celular da bancada e virou-se para as garotas, exibindo o sorriso radiante e magnético que todos no campus conheciam e adoravam.
— É verdade! — Anna comentou, intrometendo-se na conversa com sua simpatia avassaladora, sem um pingo de constrangimento. — Agora que você falou, eu ainda não comi nada doce e gelado hoje. Me deu uma vontade absurda! Vou lá buscar um agora mesmo. Boa noite, meninas!
As garotas sorriram de volta, instantaneamente desarmadas e encantadas com a energia de Anna. A loira saiu do banheiro com passos leves, a mochila pendurada em um ombro, retomando a mesma musiquinha infantil enquanto a porta se fechava atrás dela. Assim que o som dos passos de Anna sumiu no corredor, uma das garotas caminhou até a cabine que a loira havia acabado de deixar com a porta encostada. Ela empurrou a chapa de alumínio com a ponta dos dedos.
Um grito agudo, visceral e carregado de puro terror rasgou a acústica do banheiro, ricocheteando nos azulejos.
— MEU DEUS! JULIA, VEM AQUI! AGORA! — A garota recuou de forma violenta, tropeçando nos próprios pés e caindo sentada no chão úmido. — Tem... tem sangue! A água do vaso está toda vermelha! E tem alguma coisa de metal, afiada, boiando ali dentro! Eu juro!
A amiga correu para a cabine, o coração saltando na garganta, e olhou para dentro do vaso sanitário, preparando-se para o pior. Ela piscou, confusa. Olhou de novo, semicerrando os olhos, e depois olhou para baixo, para a garota que soluçava de terror no chão. — Você está louca, garota? — Julia perguntou, cruzando os braços, a irritação substituindo o medo.
A água do vaso sanitário estava perfeitamente, irritantemente cristalina. O fundo de cerâmica branca brilhava limpo. Não havia vermelho manchando a porcelana. Não havia nenhum metal pontudo. A realidade, como um código de computador diligente, silencioso e implacável, havia limpado o "erro" deixado por Anna antes que ele pudesse arranhar a estética imaculada de Morpheus.
As duas saíram do banheiro em silêncio logo depois, a garota que gritou questionando a própria sanidade, as unhas cravadas nas palmas das mãos até sangrarem, certa de que a própria mente estava quebrando.
Longe do centro iluminado da cidade, nos limites sombrios do campus da universidade, as luzes giratórias vermelhas e azuis das viaturas policiais batiam de forma frenética e ritmada contra as paredes de tijolos expostos do setor de manutenção. Fitas amarelas e grossas, com a inscrição preta "ISOLAMENTO - NÃO ULTRAPASSE", cercavam completamente a entrada do galpão dos zeladores.
A policial Satan caminhava com passos pesados que faziam o cascalho moer sob suas botas. O uniforme tático escuro esticava-se ameaadoramente sobre sua musculatura imponente. Ao lado dela, a detetive Rum, com uma expressão cínica e profissional, analisava uma prancheta sob a luz crua e impiedosa dos holofotes da polícia. O cinismo clássico de Rum, no entanto, não conseguia esconder a linha tensa e rígida que travava seus ombros.
O som de saltos finos, elegantes e absurdamente fora de lugar quebrou o murmúrio tenso dos policiais locais. A diretora da faculdade ergueu a fita de isolamento e cruzou a linha. Irene usava um sobretudo branco impecável por cima de suas roupas sociais pretas. O olhar de íris avermelhadas transbordava uma autoridade glacial que fez dois oficiais recuarem instintivamente.
— Qual é a situação, detetive? — A voz de Irene soou polida, destituída da mais remota fração de emoção humana. — Fui chamada às pressas no meio do meu jantar. O que aconteceu na minha universidade?
Rum olhou para cima. O único olho bom da detetive avaliou a diretora com a frieza cansada de quem lida com cadáveres há décadas. — O que aconteceu, diretora Irene, foi que o turno da noite da limpeza encontrou algo que não deveria estar jogado na sala do zelador. — Rum apontou com a ponta de metal da caneta para a porta dupla de ferro no fundo do corredor, onde flashes brancos de câmeras periciais iluminavam a penumbra. — Uma das suas estudantes está morta. E nós precisamos que a senhora faça a confirmação visual e formal da identidade.
Irene não piscou. O rosto de porcelana não demonstrou pena, choque ou nojo. Ela apenas assentiu uma vez, seguindo as duas policiais até a pequena e apertada sala de estoque. A visão lá dentro era grotesca e sufocante. O odor pesado, doce e acobreado de sangue fresco saturava as narinas, grudando na garganta a cada respiração.
Encostada de mau jeito contra os pesados sacos de lixo preto, como uma boneca de pano descartada que teve as cordas cortadas pelo mestre, estava a aluna. Yuki.
A pele da garota, normalmente de um tom marfim saudável, estava agora de um branco cadavérico, ceroso e translúcido. Os olhos estavam escancarados e leitosos, encarando o teto sujo com uma expressão de surpresa eternamente congelada. Mas o que contava a história real daquela carnificina não era o seu rosto vazio; era a mancha escarlate massiva e úmida que encharcava todo o colarinho e o peito de seu uniforme escolar.
— É a aluna Yuki. Do curso de Humanas. Matrícula confirmada — Irene decretou, a voz sem um único tremor, analisando o corpo perfurado com uma curiosidade quase clínica.
Satan cruzou os braços enormes sobre o peito, a carranca da policial endurecendo em ódio contido. — Algo muito afiado, com a espessura de um estilete industrial grosso, perfurou a carótida dela com precisão cirúrgica e força bruta — a policial relatou. — Foi um bote letal pelas costas. Pelo padrão dos respingos radiais na parede... ela sangrou até a morte em questão de dois minutos. Foi esvaziada como um odre.
Rum balançou a cabeça pesadamente, a caneta arranhando o papel do relatório. As sombras criadas pelos flashes da perícia dançavam de forma macabra sobre o cadáver da garota que, horas antes, ria no Anfiteatro 3.
— Estamos lidando com um homicídio brutal, diretora — Rum declarou, fechando a prancheta com um estalo seco. — E seja lá quem — ou o que — for que fez isso... ele está rondando livremente entre os seus alunos perfeitos.
Parte 11
A ilusão confortável de romances universitários, fofocas de corredor e problemas adolescentes foi degolada sem aviso prévio. O corte para a realidade foi tão seco, frio e violento que ecoou na mente como o estalo úmido de um pescoço se partindo.
Adeus, sol da manhã milimetricamente perfeito. Adeus, gramados verdes de plástico e risadas ensaiadas. Bem-vindos ao verdadeiro mundo de Morpheus.
O silêncio no Antigo Reino dos Sonhos era absoluto, mastigável e profundamente doentio. A majestosa Cidade de Cristal, que outrora brilhara como o ápice da civilização, da arte e da magia, agora não passava de um cemitério colossal de proporções dantescas. Eram quilômetros e quilômetros de vidro moído, mármore estilhaçado, aço retorcido e crateras escuras.
Não havia o som de um único pássaro. Não havia o zumbido elétrico do Éter alimentando a vida cotidiana. Ninguém caminhava pelas ruas rachadas. Milhões de pessoas — exércitos inteiros, civis, Sonhos e Pesadelos — haviam simplesmente evaporado da face do planeta, deixando para trás apenas o eco de sua aniquilação.
Mas a terra morta não era nada comparada ao céu. O céu era a verdadeira obra de arte do apocalipse.
A colossal torre de luz dourada que havia rasgado o firmamento no clímax da guerra sofrera uma metamorfose perturbadora. Ela não era mais apenas um feixe de energia bruta disparado para o infinito. O Éter havia se condensado, enraizado-se profundamente no núcleo destruído do mundo, e crescido.
Agora, perfurando as nuvens cinzentas e as fendas dimensionais do céu despedaçado, ergia-se uma gigantesca e incomensurável Árvore Dourada.
Seus galhos eram feitos de luz pura, sólida e pulsante, estendendo-se como as veias brilhantes de um deus parasita estrangulando o espaço. Ao redor de seu tronco quilométrico, a infame "Escadaria para o Céu" continuava a orbitar em um silêncio sepulcral — milhares de toneladas de destroços flutuantes, rodovias de asfalto partidas, torres de castelos e ilhas inteiras de terra, todos arrancados do chão e congelados em uma espiral magnética letárgica que subia em direção à copa da árvore, sumindo no abismo de uma fenda celestial.
Nos limites da cidade em ruínas, onde o oceano revolto batia contra os penhascos de cristal quebrado, a física sofreu um espasmo.
A água escura de repente começou a ferver e espumar. A gravidade falhou em um ponto específico, criando um funil invertido e violento. Com um estrondo ensurdecedor de madeira antiga rangendo e toneladas de água salgada sendo ejetadas para os céus, um navio pirata colossal, de velas negras rasgadas, rompeu através de um buraco interdimensional no meio do mar, caindo com um estrondo titânico sobre as ondas de Morpheus.
No convés encharcado e balançante do navio recém-cuspido pela fenda, a tripulação lutava para recuperar o equilíbrio.
O detetive Danael agarrou-se à amurada de madeira, os nós dos dedos brancos de tanta força, o sobretudo longo pesando com a água do mar interdimensional. Ele tossiu, cuspindo sal, e ergueu o rosto. Ao olhar para a costa devastada, para o céu rasgado e para a árvore massiva de luz, as pupilas dele dilataram-se em puro pânico e confusão irracional.
— Mas que inferno... Onde nós estamos?! — Danael gritou. A voz rouca arranhou a garganta, falhando ao tentar competir com o barulho da água batendo violentamente no casco do navio.
A poucos metros de distância, Drake Dampier, o capitão, passou a mão pelo rosto, jogando os cabelos molhados para trás. A água escorria por sua jaqueta de couro pesada. Diferente do detetive, ele não parecia em pânico, mas seus olhos experientes varriam a destruição absoluta da costa com uma cautela rara e afiada.
— Não faço a menor ideia, parceiro! — Drake respondeu alto, ajeitando o cinto de armas pesadas na cintura com um estalo metálico. — É a primeira vez que uma Moeda de Pan me cospe num lugar com essa cara de fim de mundo!
Danael largou a amurada. Ignorando o balanço do navio, ele marchou pesadamente até o capitão e agarrou-o pelo colarinho do casaco de couro com as duas mãos. O desespero cru de um pai transbordava em seus olhos.
— Drake! Você me jurou! — O detetive chacoalhou o pirata. — Você tinha certeza absoluta de que essa rota iria nos levar direto pra Hortus Parvus! Eu preciso me encontrar com a Sofia agora! Minha filha está lá!
Drake soltou um suspiro cansado. Com um movimento firme e treinado, mas desprovido de violência, ele segurou os pulsos de Danael e quebrou o aperto, empurrando o detetive um passo para trás.
— Dá um tempo, Danael. Não exagera no drama. — O capitão espanou a água do próprio peito. O tom de voz dele baixou duas oitavas, tornando-se perigosamente sério e perdendo o habitual sorriso irônico. — Por mais que eu também queira muito ver a Sofia de novo, na hora em que nós ativamos a moeda e o mar interdimensional começou a nos engolir, o meu único foco era conseguir escapar daquela emboscada na Terra do Nunca com todo mundo inteiro. A gente pode pensar em como chegar até ela depois. Primeiro a sobrevivência, depois a reunião de família.
Danael cruzou os braços com força, apertando os próprios bíceps. A frustração tremia na mandíbula cerrada do detetive. — E como a gente vai fazer isso, Drake?! Aquela era a nossa última Moeda de Pan! Sabe o sacrifício e o sangue que custou pra conseguir aquela droga?! Nós estamos ancorados no meio de um apocalipse desconhecido!
Sem dar muita trela para o princípio de infarto do detetive, Drake virou-se e subiu no guarda-mancebo do navio. Com a agilidade que só anos de pirataria proporcionam, ele saltou.
Suas pesadas botas com fivelas aterrissaram com um baque seco na terra firme e morta das ruínas de Morpheus, levantando uma pequena nuvem de poeira de vidro e cinzas cinzentas. Ele virou-se para trás, estufando o peito e acenando para os dois no convés com um sorriso largo.
— É muito simples, meu caro investigador! — A confiança inabalável de um capitão que já sobreviveu ao impossível dezenas de vezes irradiava dele como uma aura absurda. — Seja lá qual reino caído, dimensão ou mundo morto seja este, com absoluta certeza deve ter um meio de viajar para os outros mundos. Sempre tem. Um portal escondido, um artefato de deus esquecido, um fofoqueiro mágico, qualquer coisa. Só temos que entrar lá, encontrar essa passagem e sair andando. Depois disso, eu te levo até a sua filha. Promessa de capitão.
Danael massageou as têmporas com o polegar e o indicador, sentindo o latejar de uma enxaqueca colossal se formar atrás dos olhos. Buscando qualquer pingo de razão lógica, ele virou o rosto para a imediata do navio, que estava silenciosamente escorada no mastro principal.
— Nem adianta me olhar com essa cara de cachorro molhado e abandonado, detetive — Remi disse. A voz dela era fria, monótona e afiada como o fio de uma navalha, cortando o vento úmido.
A imediata ajeitou as luvas de combate escuras e caminhou com graça letal até a borda do navio. Ela saltou para a terra firme com a leveza silenciosa de um gato predador, caindo perfeitamente ajoelhada e levantando-se ao lado de Drake sem levantar poeira. — Eu só sigo as ordens do capitão.
Danael suspirou de alívio por um microssegundo, achando que ela manteria a ordem na tripulação. Mas Remi imediatamente virou o rosto apático para Drake e completou a frase: — Por mais que, na esmagadora maioria das vezes, pareça que eu estou apenas seguindo um idiota suicida.
Drake murchou visivelmente. O sorriso heroico e confiante desmoronou, substituído por uma careta de indignação infantil. Ele olhou feio para a imediata, colocando as mãos na cintura. — Sério, Remi? Custava me apoiar pelo menos uma vez na vida na frente das visitas?
— Eu não. Obviamente estamos completamente perdidos, Drake — ela rebateu, a expressão perfeitamente morta e sem um pingo de remorso.
— Nós não estamos perdidos! — Drake apontou o dedo indicador para o céu apocalíptico, gesticulando com fervor ofendido. — Nós estamos apenas... precisando de uma leve e momentânea orientação cartográfica para voltar para o caminho certo! É um conceito diferente!
Remi piscou devagar, inabalável. — Isso é literalmente a definição de estar perdido no dicionário.
O silêncio reinou entre o trio por alguns segundos, interrompido apenas pelo som melancólico do vento varrendo as dunas de cinzas e uivando por entre os destroços afiados da Cidade de Cristal.
Danael desceu do navio com um salto pesado, as botas afundando na poeira branca, parando ao lado deles. A pequena e habitual discussão cômica da tripulação morreu rápido demais diante da esmagadora opressão daquele lugar morto. A realidade da destruição era um balde de água gelada.
Eles começaram a caminhar lado a lado em direção às ruínas desertas. O chão estalava como ossos sob suas botas a cada passo. Não havia sinal de corpos caídos. Não havia manchas frescas de sangue ou escudos de batalha recentes no chão. Apenas o vazio. O eco de uma guerra que ninguém ali viu terminar.
Conforme se aproximavam do anel externo do que sobrou do centro da antiga cidade, a visão da colossal Árvore Dourada engoliu todo o horizonte. Ela não parecia uma estrutura estática; ela parecia respirar. O pulso de luz subia e descia pelo tronco.
A opressão gravitacional que a densidade de Éter daquela estrutura exalava era fisicamente sufocante. A cada passo para perto, a gravidade pesava mais, como se uma mão invisível, quente e divina estivesse pressionando os pulmões deles para baixo, dificultando a respiração. A escadaria de destroços flutuantes circulava o tronco de luz, majestosa e silenciosa, funcionando como um convite divino para o epicentro daquele pesadelo.
Drake parou de andar. A mão dele desceu lentamente, descansando de forma instintiva e protetora sobre o cabo desenhado da espada em sua cintura. O humor e o sorriso haviam finalmente sumido por completo de seu rosto, dando lugar à seriedade fria de um veterano habituado a farejar o perigo de morte.
— Bem... — O capitão pirata olhou para cima, o pescoço curvado, encarando a vastidão impossível da árvore que rasgava as dimensões. — Acho que o nosso mapa de fuga começa por ali.



Comentários