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The Fall of the Stars: Capítulo 2 - A Máscara de Ferro e Seda

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 6 de fev.
  • 61 min de leitura

Volume 10 : Laços de Sangue


Parte 1

O topo do arranha-céu no Distrito da Inveja era uma ilha de concreto cercada por um oceano de fumaça e ozônio.

Lá embaixo, Tyre agonizava. O som das sirenes de emergência escalava as paredes do prédio como um lamento contínuo e fúnebre, pontuado pelo chiado agônico de um rádio de pilha velho, equilibrado precariamente sobre uma caixa de munição vazia.

— ...o ranking oficial permanece instável após a queda súbita do sinal vital de Ivy Zelos... — cuspia a voz metálica do locutor, cortada por estalos de estática violenta. — ...boatos de que a 'Estrela de Gehenna' retornou circulam como praga pelos guetos. A chuva de óleo preto atingiu níveis críticos de toxicidade. O céu não é mais nosso, cidadãos. Protejam suas Coroas. O fim é...

Kiara esticou a perna e, com um movimento casual da bota, chutou o rádio para o lado. O aparelho girou no chão molhado e silenciou.

Ela voltou sua atenção absoluta para o tabuleiro de xadrez improvisado sobre um carretel de cabos elétricos.

Do outro lado da mesa, Schrödinger estava empoleirado no parapeito de forma precária, os calcanhares balançando sobre o abismo. Ele coçava a base de uma de suas orelhas de gato brancas, o cenho franzido, a cauda chicoteando o ar em irritação enquanto encarava a derrota iminente no tabuleiro.

— O que você fez com a Ivy, afinal? — perguntou o garoto, sem tirar os olhos das peças, a voz carregada de uma curiosidade mórbida. — Achei que, depois da traição... você ia decorar a fachada da Torre de Vidro com as tripas dela.

— Ela está em uma incubadora de Éter, se regenerando — respondeu Kiara. Sua mão pairou sobre o tabuleiro, movendo um Bispo negro com precisão cirúrgica. — Matá-la seria um desperdício de recursos. Eu não a perdoei, Schrödinger. Mas estamos em guerra. Ficar presa a rancores passados é um luxo que não posso pagar. Usarei a quem quer que seja neste tabuleiro. Até mesmo aquele por quem nutro o mais profundo desprezo.

Ela soltou a peça. O som da madeira batendo contra a mesa foi definitivo.

— Xeque-mate. De novo.

— Ah, qual é! — Schrödinger jogou as mãos para o alto, derrubando o próprio Rei em protesto. — Já são vinte vezes seguidas! Você está trapaceando?

Ele pulou do parapeito, aterrissando sem som, e começou a reorganizar as peças para a vigésima primeira humilhação. Enquanto alinhava os peões, Kiara o observava de soslaio.

— Sabei que... da derradeira vez que vos vi, não usáveis essa... "forma"? — Ela levantou o rosto, olhando-o diretamente.

— Sério? Tem certeza disso? Até onde eu me lembro, eu sempre fui assim. — Ele falava enquanto balançava sua cauda de forma brincalhona.

— Tanto faz... não importa se você é homem ou mulher. — Kiara então decidiu ignorar a súbita mudança de gênero pela qual seu companheiro havia passado.

— Hum... é, pelo visto. — Schrödinger inclinou a cabeça, as orelhas girando como radares. — Você está falando menos como uma enciclopédia e mais como uma... pessoa. Pelo visto, a absorção da personalidade da Anna está indo bem.

Kiara permaneceu em silêncio. Ela não confirmou nem negou, mas houve um leve tremor em seus dedos ao tocar a Rainha de ébano.

Schrödinger percebeu a mudança de clima e ficou sério, a cauda parando de balançar.

— Qual o próximo passo do plano?

— Eu preciso de duas coisas. — Kiara ergueu dois dedos. — Primeiro: reunir o máximo de Coroas possível. Segundo: trazer meus velhos companheiros de volta ao cercado.

Schrödinger soltou uma risada anasalada, seca.

— Boa sorte com isso. Eu duvido que os outros Lordes sejam alvos fáceis como a Ivy. A Inveja era fraca porque era paranoica; ela mantinha os guardas longe porque tinha medo que roubassem o brilho dela. Os outros... — Ele fez uma careta. — Até onde eu vi, eles são egomaníacos armados até os dentes. Eles não vão aceitar uma "Rainha Ressuscitada" só porque você pediu com educação.

— Eu sei disso muito bem — Kiara disse.

Ela levantou os olhos. As estrelas em suas íris brilharam com uma luz fria e antiga.

— Eles não precisam de um convite cordial, gatinho. Eles precisam ser humilhados. Eu preciso lembrá-los de quem é a Rainha.

— E quem é o primeiro alvo da "Turnê da Humilhação"?

— Mamon Sterling. A Avareza.

Kiara moveu o Rei branco de Schrödinger para o centro do tabuleiro, cercando-o impiedosamente com suas peças negras.

— Ele sempre foi um covarde que se escondia atrás de cofres e mercenários. Mas os fundos infinitos e a mão de obra dele são exatamente o combustível que eu preciso para financiar o que vem a seguir.

— E como você pretende chegar perto dele? — Schrödinger cruzou os braços, cético. — O cofre do Mamon é à prova de bombas de hidrogênio, magia de nível extremo e até de dívidas. Ninguém entra sem ser convidado.

Kiara deu um sorriso predatório. O tipo de sorriso que fez os pelos da nuca de Schrödinger se eriçarem instintivamente.

— Não se preocupe com a entrada. Eu já dei o xeque contra ele há algumas horas.

Ela derrubou o Rei branco com um peteleco.

— Ele só ainda não percebeu que o jogo acabou.

Parte 2

Horas depois, as engrenagens de The Iron Vault, o distrito industrial sob o punho de ferro de Mamon, rangiam com uma vibração diferente.

O ar estava saturado, pesado como chumbo derretido, impregnado com o cheiro acre de ferrugem, óleo queimado e o suor frio do medo. Os boatos sobre a queda da Torre de Vidro e o retorno de Kiara haviam se infiltrado nos corredores de metal como um vírus aerotransportado. Pelos cantos escuros, mercenários veteranos — homens com cicatrizes de guerras esquecidas e que já viram cidades inteiras serem devoradas — tremiam apenas ao ouvir a primeira sílaba do nome da "Revolucionária".

Eles se lembravam das lendas. Não da magia, mas da presença. Aquele ser mítico cujo carisma era uma arma de destruição em massa, capaz de converter o caos absoluto em uma ordem aterrorizante com um estalar de dedos.

O quartel-general de Mamon era um galpão colossal, camuflado entre chaminés que vomitavam fumaça negra dia e noite para esconder os gritos. Ali, o verdadeiro submundo de Gehenna pulsava. Contrabandistas de relíquias, sequestradores de elite e líderes de máfias locais formavam uma rede de sombras, todos operando sob o patrocínio ganancioso da Avareza.

Anos atrás, Mamon mantinha um "acordo de cavalheiros" com a Rainha Isobel. Ele era o mestre das coleiras, o carcereiro que impedia a escuridão de transbordar para as ruas de Isolde, garantindo a estabilidade dos lucros. Mas agora, com o Tempo cobrando sua dívida e o mundo se desfazendo em entropia, Mamon soltara as travas.

O caos tornara-se seu maior ativo financeiro. Enquanto o Jogo do Rei distraía os olhares para o céu, ele lucrava no vácuo da anarquia terrestre.

No centro do galpão, holofotes cirúrgicos de luz branca iluminavam a produção mais lucrativa do distrito: os snuff films.

Não era teatro; era tortura real, embalada e comercializada para os paladares mais doentios de Gehenna e, secretamente, para nobres do Éden que buscavam no sofrimento alheio o êxtase que a "pureza" da Cidade de Cristal lhes negava. Através desse mercado de carne e dor, Mamon comprava passagens seguras e influência.

Em um set improvisado, cercado por câmeras de alta definição, um homem estava amarrado a uma cadeira de aço. Ele era um Capitão da Segurança dos Sonhos — um homem que outrora tivera honra e postura, agora reduzido a uma massa de nervos expostos.

Ele era forçado a assistir.

Diante dele, sua irmã estava pendurada pelos pulsos, os pés balançando a centímetros do chão.

— A Floresta do Delírio morreu, Capitão — sibilou o torturador, um pesadelo sem rosto que ajustava o foco da lente enquanto limpava o sangue de uma barra de ferro. — A rota antiga acabou. Precisamos da passagem pela Cidade de Algodão.

A mulher estava amordaçada, mas seus olhos, arregalados e transbordando lágrimas, gritavam uma agonia que som nenhum poderia traduzir.

— Se você não abrir as portas eletrônicas para nossos caminhões — continuou o torturador, calmo como quem negocia o preço do pão —, a próxima dose que injetaremos nela não será de dor. Será de Liquefação Mental. O cérebro dela vai derreter e escorrer pelos ouvidos antes que ela consiga gritar o seu nome.

O Braço Direito de Mamon, um gigante de pele cinzenta, traços cruéis e cicatrizes profundas que cruzavam o crânio careca, observava a cena com tédio. Ele mastigava um palito de dente, consultando o relógio, até que um sussurro entre os guardas da periferia capturou sua atenção.

— ...dizem que ela matou a Inveja com as mãos nuas... esmagou o crânio... Kiara voltou...

O Braço Direito parou. O tédio desapareceu, substituído por uma fúria vulcânica.

— SILÊNCIO!

O rugido dele fez o galpão inteiro estremecer. As câmeras pararam de rodar.

Ele caminhou até os subordinados, seus passos pesados ecoando no concreto.

— Se eu ouvir esse nome maldito de novo, eu mesmo arranco suas línguas e as sirvo no jantar dos cães!

Mamon, o chefe, estava trancado em seu escritório blindado, apavorado. Após os primeiros boatos, o Lorde da Avareza tivera um surto psicótico de paranoia, executando guardas que riram de seu nervosismo e gastando fortunas líquidas em mercenários. Para o Braço Direito, aquilo era uma fraqueza inaceitável. O medo era ruim para os negócios.

— Vocês são patéticos — ele bufou, o desprezo gotejando de cada palavra. — Tremendo por causa de histórias de fantasma? Querem ver como os boatos são lixo?

Ele marchou até a área de triagem, onde o novo lote de "mercadoria" aguardava.

— Olhem para isso.

Ele parou diante de uma garota.

Ela estava nua, as mãos presas acima da cabeça por correntes pesadas que esticavam seus músculos. Ela tinha um corpo escultural, curvas desenhadas, longos cabelos de um amarelo dourado e orelhas pontudas e elegantes — a descrição física quase exata da forma lendária da "Estrela de Gehenna". Mas o rosto... o rosto parecia mais jovem e diferente.

— Viu? — O Braço Direito riu, alto e cruel.

BAM.

Ele desferiu um soco violento, covarde, no estômago da garota.

O impacto foi seco. A garota dobrou-se sobre as correntes, o ar expulso de seus pulmões em um engasgo doloroso. Ele a agarrou pelos cabelos dourados, puxando o rosto dela para cima, e cuspiu nela.

— É apenas uma mercadoria de luxo. Alguma vadia oportunista tentando subir na vida emulando a aparência de um fantasma morto. Ivy era uma paranoica fraca, por isso caiu. Mas nós? Nós somos o aço do Vault. Nós não quebramos.

A garota não gritou. Ela não implorou.

Lentamente, ela ergueu o rosto. O sangue escorria pelo canto da boca, manchando o queixo pálido. Ela olhou para ele. Seus olhos não demonstravam medo, nem raiva. Demonstravam uma calma absoluta, quase... entediada.

Por uma fração de segundo, o Braço Direito sentiu um calafrio subir pela espinha, um aviso instintivo de que ele acabara de chutar algo que não deveria. Mas a arrogância falou mais alto.

— Não a estraguem ainda — ele ordenou aos homens que se aproximavam com intenções lascivas.

Ele parou, uma ideia sádica iluminando seu rosto brutal.

— É verdade... Mamon adora "testar a qualidade" da carne antes das câmeras começarem a rodar. Vou levá-la até os aposentos dele.

Ele soltou as correntes do suporte, arrastando a garota pelo chão de concreto áspero como se fosse um saco de lixo.

— Aposto que quando ele se divertir com uma "Falsa Kiara", quando ele quebrar essa boneca ao meio, ele vai parar de tremer e vai se lembrar de quem realmente manda nesta cidade.

Ele começou a puxá-la em direção ao elevador privativo. A garota seguiu, tropeçando, mas sem resistir, seus olhos fixos nas costas do homem.

Os homens no galpão observaram a cena em silêncio, voltando ao trabalho apenas quando as portas do elevador se fecharam.

— Sinceramente... — murmurou um dos guardas, engolindo em seco e pegando a próxima prisioneira pelo braço. — Às vezes, ele me dá mais medo do que o chefe.

O outro guarda olhou para o elevador, onde o número dos andares subia, e balançou a cabeça.

Parte 3

No santuário privado de Mamon, o ar era uma sopa espessa, impregnada por uma mistura enjoativa de sândalo importado e o cheiro azedo de suor frio.

Um oficial de comunicações, pálido como um cadáver, tremia visivelmente enquanto lia o relatório em um tablet de vidro trincado.

— A unidade enviada à Floresta do Delírio... — o homem engoliu em seco, a voz falhando. — Senhor, ninguém retornou vivo. Encontramos os restos mortais há dez minutos. Foi... foi visceral. Não parecem ter sido mortos por soldados dos Sonhos. Parecia que algo... os eclodiu de dentro para fora.

Mamon Sterling mal registrou as palavras.

Ele estava debruçado sobre uma mesa de mogno, os olhos vidrados em uma transmissão ao vivo projetada na parede. A câmera focava no topo da Torre de Vidro, no Distrito da Inveja.

Lá, ardendo contra o céu oleoso, chamas negras formavam letras colossais. Uma pira fúnebre que soletrava um único nome para todo o reino de Gehenna ver: MAMON.

— Ela está vindo... — Mamon sussurrou, roendo a unha do polegar até sangrar. — Ela está vindo cobrar a dívida.

— Senhor, o que faremos sobre a floresta? — insistiu o oficial, imprudente em seu medo.

— SILÊNCIO!

Mamon girou com a velocidade de um animal encurralado. Em sua mão, uma pistola automática incrustada de diamantes brilhou sob a luz dos lustres.

BANG.

O tiro foi ensurdecedor no ambiente fechado. O oficial foi jogado para trás, um buraco fumegante no peito. Ele caiu pesadamente, o sangue escuro manchando o tapete de seda persa impagável. As concubinas que decoravam o salão gritaram, encolhendo-se nos cantos, cobrindo os rostos com almofadas de veludo.

A porta dupla se abriu com um estrondo.

O Braço Direito de Mamon invadiu a sala, a arma em punho, seguido por dois guardas de elite. Ao ver o corpo do oficial e a histeria do mestre, ele embainhou a arma e correu para segurar Mamon pelos ombros.

— Senhor, acalme-se! Pelo amor do Dinheiro, recomponha-se! — o homem rugiu, sacudindo o Lorde. — É apenas um truque psicológico! Ivy deve ter sobrevivido e está usando o nome de Kiara para nos desestabilizar. Kiara foi morta pelo próprio Rei, você disse que viu com seus próprios olhos!

Ele gesticulou amplamente para as paredes blindadas.

— Olhe ao redor, Mamon! Este lugar é o Iron Vault. Paredes de titânio reforçado, anulação mágica, trezentos mercenários de classe S e magos de armadilha que custaram o PIB de uma cidade real! Nem mesmo a verdadeira Kiara passaria por esse exército sem detonar o prédio inteiro!

Mamon empurrou o subordinado, os olhos injetados de sangue girando nas órbitas.

— Você não entende... vocês são jovens, vocês não estavam lá... — Mamon ofegava, o suor escorrendo pela maquiagem cara. — Eu fui o Tesoureiro dela. Eu vi o impossível se tornar uma nota de rodapé. Se for ela... as paredes não importam. A física não importa!

— Que bom saber que você valoriza tanto a nossa história, Mamon.

A voz veio do fundo da sala. Baixa. Melódica. E terrivelmente familiar.

O tempo no santuário congelou.

O Braço Direito girou, a arma levantada. Todas as miras laser da sala convergiram para um único ponto: a garota loira que, momentos antes, fora arrastada para ali como uma simples mercadoria de luxo para acalmar os nervos do chefe.

Ela estava de pé perto da entrada de serviço. Estava nua, a pele marcada pelo hematoma roxo no estômago onde levara o soco. Mas sua postura não era a de uma vítima. Era a postura relaxada de uma divindade entediada visitando um zoológico.

— Não atirem! — gritou Mamon, a voz aguda de pânico. Ele se levantou, as pernas tremendo tanto que derrubou a cadeira. — É... é você? Realmente é você?

Em resposta, a garota fechou os olhos e suspirou.

Quando ela os abriu, a sala escureceu.

A aura dela explodiu para fora, não como vento, mas como gravidade. O Éter negro transbordou de seus poros, condensando-se nas costas. Com um som de tecido rasgando a realidade, asas de morcego colossais se abriram, derrubando vasos e estátuas com sua envergadura.

No olho esquerdo, a pupila desapareceu, substituída por uma estrela dourada que brilhava com uma intensidade que fez os guardas protegerem a visão.

— Ainda preciso apresentar minhas credenciais? — Kiara perguntou. A voz dela carregava uma autoridade física, um peso que dobrava os joelhos dos homens armados.

O silêncio reinou por um segundo. E então, foi quebrado.

Mamon soltou uma gargalhada.

Começou como um soluço e virou uma risada histérica, maníaca, oscilando entre o pavor absoluto e um triunfo distorcido.

— Eu sabia! — Mamon gritou, apontando o dedo trêmulo para ela. — Eu sabia que você viria! Mas se acha que vou cair de joelhos como a vadia da Ivy, você está enganada! Eu me preparei por vários círculos!

Ele deu um passo à frente, a coragem retornando como uma droga.

— Eu estudei sua habilidade, Kiara! O Royal Board... o comando absoluto. Eu descobri a regra oculta!

Mamon sorriu, mostrando dentes amarelados.

— Você só pode dar uma ordem única a cada "peça" do tabuleiro. Uma regra autoimposta para garantir que seu comando seja infalível. Uma vez que a ordem é dada e cumprida, aquela peça se torna imune a novos comandos diretos, a menos que se submeta por vontade própria!

O Braço Direito olhou para o chefe, confuso, mas Mamon continuou, eufórico:

— E eu garanti que você gastasse a sua munição comigo!

A memória pairou entre eles. O dia, Ciclos atrás, em que um jovem Mamon, fingindo trauma após uma batalha, implorara aos pés da Rainha: "Por favor, Majestade, use seu poder... ordene que eu tenha coragem, ou eu morrerei de medo!"

Ele a enganara. Fizera com que ela gastasse o "Comando Único" em algo trivial, vacinando-se contra o controle mental dela para sempre.

— Você está aqui fazendo esse show de luzes e asas para nos assustar! — Mamon berrou, sentindo-se invencível. — Você quer que eu me renda pelo medo, porque sabe que não pode me controlar! Eu sou imune ao seu Tabuleiro, Kiara! Você não tem poder aqui!

Kiara inclinou a cabeça para o lado. A expressão dela mudou de tédio para uma leve decepção, como uma professora vendo um aluno falhar em uma prova fácil.

— Não era isso que eu esperava ouvir de você, Mamon. — Ela suspirou. — Eu achei que, com todo esse dinheiro, você tivesse comprado um pouco de inteligência.

— O quê? Você está blefando! — Mamon retrucou, mas sua mão voltou a tremer.

Kiara começou a caminhar em direção a ele. Os guardas, paralisados pela pressão da aura, não conseguiram puxar os gatilhos.

— Eu sempre soube que você mentiu naquele dia — disse ela, calmamente. — Eu te dei a ordem de "Coragem" conscientemente. Eu precisava que você se sentisse seguro, Mamon. Eu precisava que meu tesoureiro tivesse a audácia de roubar o mundo para mim sem tentar me apunhalar pelas costas cedo demais por medo.

Ela parou a centímetros dele. Mamon podia sentir o calor que emanava das asas negras. O cheiro de Éter antigo invadiu suas narinas.

— A verdadeira pergunta que eu esperava de um estrategista não era sobre a mecânica do meu poder. — Kiara inclinou o rosto, a estrela no olho brilhando. — A pergunta correta, a única que importa agora, é:

Ela abriu um sorriso predatório, apontando para a porta por onde entrara.

— Afinal, como eu apareci aqui dentro, Mamon?

Mamon piscou. O triunfo evaporou.

Seus olhos correram freneticamente para a porta blindada. Depois para os guardas de elite. E finalmente, para o seu Braço Direito — o homem que a trouxe pessoalmente pelo elevador privativo, ignorando todos os protocolos de segurança porque queria agradar o chefe com uma "carne nova".

— Eu estou te dando a chance de perceber a elegância da sua derrota — Kiara sussurrou no ouvido dele. — Prove sua inteligência, Avareza. Olhe para os seus homens. Olhe para o seu "escudo impenetrável".

Ela recuou um passo, abrindo os braços.

— O Xeque-Mate foi dado. Você só estava ocupado demais contando moedas para ver que o Rei já estava morto.

Parte 4

O silêncio na sala blindada de Mamon tornou-se sólido, denso o suficiente para sufocar. O único som audível era o gotejar rítmico do suor que escorria pelo queixo do Lorde da Avareza, manchando o colarinho de seda.

Um dos guardas, um mercenário veterano com cicatrizes de queimadura no pescoço e os nervos em frangalhos, quebrou o impasse.

Click.

O som do cão da arma sendo engatilhado ecoou como um trovão. O cano de um rifle de assalto Arimeth — projetado para perfurar barreiras de Éter — mirou diretamente entre os olhos estelares de Kiara.

— Ela está apenas ganhando tempo! — rosnou o homem, o dedo tremendo sobre o gatilho. — Não me importa se ela é uma lenda ou uma deusa. Se tem carne, sangra. Vai ser um desperdício estragar uma mercadoria tão valiosa antes de usar, mas eu vou adorar ver a luz sumir desses olhos estranhos.

— NÃO!

O grito de Mamon falhou, saindo num agudo desafinado de puro pavor.

— Se você disparar, seu imbecil, você nos condena a todos!

— Do que você tem medo, Mamon? — o mercenário debochou, sem desviar a mira. — Estas balas perfuram a aura de um Cavaleiro Real. Ela está nua, cercada e desarmada. Um segundo e ela vira uma poça no seu tapete caro.

— Abaixe a arma... agora! — Mamon ordenou, sacando sua própria pistola e apontando-a para a cabeça do seu funcionário. — Você não entende... você não vê o que ela fez?!

A mão de Mamon tremia. No fundo de sua mente estratégica, a falha lógica que Kiara apontara começava a brilhar como um sinal de alerta nuclear. As peças do quebra-cabeça se encaixavam em um desenho horrível.

Kiara riu.

Não foi uma risada maligna. Foi um som doce, leve e cruel, como o tinir de taças de cristal em um funeral. Ela observava Mamon desmoronar sob o peso da própria inteligência. Ela via as engrenagens girando: Como ela entrou? Por que ela se deixou capturar?

— Foi tudo um plano... — Mamon sussurrou, a força saindo de seus braços. A arma de ouro escorregou de seus dedos e caiu no chão com um baque surdo. — Desde o início.

— Isso é o que eu esperava do meu Tesoureiro — Kiara disse, inclinando a cabeça, os olhos brilhando com prazer sádico. — Mamon, seja gentil e mande todos saírem da sala. Temos negócios a tratar.

O Braço Direito de Mamon, confuso e furioso com a covardia do chefe, avançou um passo.

— Eu quero uma explicação! Como diabos ela pode ter vencido se nem sequer tocou em nós? Nós temos o controle aqui!

— É simples — Kiara explicou. Sua voz não se elevou, mas projetou-se para cada canto da sala, invadindo os ouvidos de todos. — Meu xeque-mate foi dado no minuto em que a Torre de Vidro caiu.

Ela começou a caminhar lentamente pelo salão, e os guardas recuaram instintivamente, abrindo caminho para a mulher nua como se ela fosse feita de urânio enriquecido.

— Eu sabia que, assim que meu nome se espalhasse, o "Grande Mamon" faria o que todo covarde inteligente faz: se esconderia no lugar que considera mais seguro. O seu erro, Avareza, foi transformar este galpão no seu quarto do pânico.

Ela parou diante do Braço Direito, sorrindo para ele.

— Você é ganancioso demais para deixar seus negócios pararem, mesmo estando apavorado. Então, você ordenou que toda a mercadoria fosse trazida para dentro dos seus muros para conferência pessoal. Tudo o que eu tive que fazer foi me tornar parte dessa mercadoria. Eu entrei pela porta da frente, escoltada pelo seu cão de guarda mais leal.

O Braço Direito empalideceu, as memórias do elevador voltando como um soco.

— Eu não... eu não recebi ordens! Eu só...

— Você não se lembra, não é? — Kiara o interrompeu, suavemente. — É assim que o meu Tabuleiro funciona quando quero ser sutil. Se Mamon não esvaziar esta sala agora, saiba que eu ordenei a você, durante o trajeto no elevador, que o matasse e depois tirasse a própria vida nos próximos cinco minutos.

O pânico instalou-se na sala como um incêndio em um depósito de pólvora.

O mercenário que antes mirava em Kiara girou a arma bruscamente, apontando para o Braço Direito.

— Se ele vai matar o chefe, eu mato ele primeiro!

— Tem certeza de que isso resolve? — Kiara provocou. A voz dela era veludo puro envolvendo uma lâmina. — Quem garante que eu não dei ordens a mais alguém? Talvez ao homem atrás de você? Talvez a ordem seja: "Se o Braço Direito morrer, atire em Mamon e depois em si mesmo".

Ela abriu os braços, girando para encarar o círculo de homens armados.

— Nesta sala, ninguém é confiável. A pessoa ao seu lado pode ser minha peça e nem saber disso até que o gatilho seja puxado.

Era o caos perfeito. A paranoia corroeu a disciplina militar em segundos. Armas apontavam para todos os lados. Ninguém sabia quem era o traidor adormecido.

Mamon caiu de joelhos. Um grito abafado de derrota escapou de sua garganta.

Ele percebeu que nunca esteve jogando. No segundo em que sentiu medo e tentou se proteger trazendo as "mercadorias" para perto, ele já havia perdido. Ele construíra a própria armadilha.

— Você tem escolhas, Mamon — Kiara sentenciou, a voz fria cortando a histeria. — Pode testar a sorte, mandar um deles atirar em mim e morrer no fogo cruzado de ordens invisíveis que eu posso ou não ter dado. Ou... pode mandar todos embora e se submeter ao inevitável.

Ela deu um sorriso que não pertencia a um ser humano.

— E para os que acham que essas balas de Arimeth podem me parar antes que eu ordene o suicídio coletivo de vocês... Tentem. Descubram por que os deuses me temiam.

Os homens tremeram. A arma na mão do mercenário baixou. Para eles, Kiara não era mais uma mulher; era o tormento da noite personificado.

— SAIAM! — Mamon berrou, a voz rasgando a garganta, veias saltando no pescoço. — SAIAM TODOS AGORA!

Foi uma debandada.

Sob as ordens desesperadas do Lorde, o exército de elite evacuou a sala. Homens treinados para matar tropeçavam uns nos outros, aterrorizados não pela morte, mas pela possibilidade paranoica de serem marionetes sem fios prestes a explodir.

A porta blindada de titânio se fechou com um clique hermético e pesado, isolando o escritório do resto do mundo.

O silêncio voltou. E com ele, uma transformação perturbadora aconteceu.

No instante exato em que a última bota cruzou a soleira da porta, o pânico histérico que Mamon exibia evaporou. Sua postura curvada se endireitou. Ele passou as mãos pelos cabelos para arrumá-los, alisou as lapelas do terno de seda amassado e respirou fundo, recuperando o ritmo cardíaco com uma disciplina assustadora.

Ele não caiu de joelhos. Em vez disso, caminhou com passos firmes até o frigobar de mogno embutido na parede. O tilintar do gelo caindo no copo de cristal foi o único som na sala.

— Muito bem, Kiara.

Mamon serviu uma dose generosa de conhaque centenário. Ele girou o líquido âmbar no copo, observando o reflexo da luz, a mão tremendo apenas uma fração quase imperceptível.

— Você fez seu show. Assustou a mão de obra, limpou o tabuleiro, criou o vácuo. Teatral. — Ele tomou um gole, sentindo o álcool queimar a garganta. — Mas impressionante.

Ele se virou para ela. Um sorriso oleoso, corporativo e ensaiado tentava se firmar em seu rosto.

— Agora que estamos sozinhos, vamos pular a parte do roteiro onde você ameaça me matar e eu imploro. Nós dois sabemos que você não entrou aqui para isso.

Kiara parou no centro da sala. Ela inclinou a cabeça, genuinamente curiosa com a audácia daquela criatura.

— Não?

— Por favor, não insulte minha inteligência — Mamon bufou, caminhando até sua mesa e sentando-se na cadeira de couro, recuperando sua posição de autoridade espacial. — Você quer derrubar o Rei dos Sonhos. Você quer tomar Gehenna de volta. A vingança é um prato doce, mas a Guerra... a Guerra custa caro, garota.

Ele começou a contar nos dedos.

— Munição, Éter refinado, suborno de oficiais, logística de transporte, alimentação... tudo isso precisa de capital líquido. E eu? — Ele abriu os braços, abrangendo o escritório opulento. — Eu sou o Capital.

Mamon inclinou-se para a frente, o olhar intenso de um tubarão sentindo sangue.

— Eu controlo 80% das rotas de suprimentos subterrâneos. Eu tenho a dívida externa de todos os Lordes menores guardada na minha gaveta. Se você me matar, a economia de Gehenna entra em colapso em 24 horas. O mercado quebra. A moeda desvaloriza. Você reinaria sobre um cemitério de falidos.

Ele tomou outro gole, sentindo-se no controle novamente. Para Mamon, o universo era uma grande transação. Tudo podia ser comprado, inclusive a própria vida.

— Você não pode me matar, Kiara. Você precisa de um CEO. Então, aqui está a minha oferta: eu financio sua vingancinha contra o Céu. Em troca, quero isenção fiscal total no novo regime e o monopólio dos contratos de reconstrução.

Ele estendeu a mão sobre a mesa, confiante, esperando o aperto de mão.

— Somos sócios?

O silêncio estendeu-se por um segundo.

Kiara começou a rir.

Não foi a risada sádica ou sobrenatural de antes. Foi uma risada genuína, suave, humana. A risada de quem acabou de ouvir uma piada interna extremamente ingênua.

— Sócios... — Ela repetiu a palavra, testando o gosto dela na língua como se fosse uma fruta podre. — Você realmente acha que isso é uma fusão de empresas, Mamon?

— É como o mundo funciona! — ele retrucou, irritado com o riso, batendo o copo na mesa. — Dinheiro é sangue. Eu sou o coração que bombeia. Sem mim, você não tem fluxo.

— Você cometeu um erro de cálculo fundamental.

Kiara deu um passo à frente.

A pressão no ar aumentou instantaneamente. Não foi magia visível, foi uma densidade atmosférica. O copo de cristal na mão de Mamon trincou.

CRACK.

O conhaque derramou sobre os papéis e sobre os sapatos de couro italiano, mas Mamon não se moveu, paralisado pelo olhar dela.

— Você acha que eu preciso manter a economia deste mundo funcionando? — perguntou ela, a voz baixa, caminhando em direção à mesa.

Mamon empurrou a cadeira para trás, recuando até bater as costas na parede blindada.

— Eu não vim salvar Gehenna, Mamon. Eu não preciso comprar pão para meus soldados, nem pagar salário para mercenários.

Ela parou. A estrela em seu olho esquerdo girou, brilhando com uma luz fria que não pertencia ao espectro humano.

— O meu exército não come. O meu exército não dorme. E a minha moeda não é o ouro, nem o crédito. É o Medo.

Mamon empalideceu. A lógica mercantil dele estava sendo desmantelada.

— Mas... e a infraestrutura? As senhas? — ele gaguejou, a fachada de CEO desmoronando como um castelo de cartas. — Os cofres são biométricos! Criptografia de alma! Só eu posso abri-los! Se me matar, o dinheiro fica trancado para sempre! O sistema trava!

Kiara inclinou-se sobre a mesa, ficando a centímetros do rosto suado dele. Ela nem piscou.

— Então eu ordenarei que você os abra. E depois... ordenarei que você esqueça que eles existiram.

— O Royal Board tem limites! — Mamon gritou, espremendo-se contra a parede. — Você disse que precisa quebrar meu orgulho para eu me submeter! Eu não vou ceder! Eu sei o meu valor! Eu sou Mamon Sterling! Eu valho trilhões!

— Você vale...

Kiara estendeu a mão, segurou a lapela de seda do terno dele e o puxou para baixo com violência, forçando-o a ficar de joelhos.

— ...exatamente o que eu disser que você vale. E agora, Mamon, a cotação da sua dignidade acabou de cair para zero.

Ela o soltou com desprezo. Mamon caiu sentado no tapete, ofegante.

— Você não é um sócio. Você não é um CEO. Você é uma carteira. E carteiras não negociam com seus donos; elas apenas se abrem.

Foi nesse momento que a resistência de Mamon quebrou.

Não foi pela violência física. Foi pela percepção aterrorizante de que sua "utilidade" não lhe garantia segurança. Ele percebeu que Kiara estava disposta a queimar todo o dinheiro do mundo se isso significasse queimar o orgulho dele junto. O blefe dele falhou. O capitalismo não funcionava contra o apocalipse.

Tremendo, cercado pelos restos de sua arrogância corporativa inútil, Mamon olhou para o chão.

— O que... — a voz dele saiu como um ganido de cão chutado. — O que você quer que eu faça?

— Não brinque comigo, Mamon. — Kiara ergueu o queixo, a postura régia contrastando com sua nudez coberta de fuligem. — Eu não quero suas palavras vazias. Eu quero destruir seu ego. Eu quero que você saiba, em cada fibra do seu ser, que você me pertence.

Lentamente, ela estendeu a perna.

Ela colocou o pé descalço sobre o mármore frio, bem diante do rosto do Lorde. O pé estava sujo da poeira das ruínas, de fuligem e do chão imundo do galpão. Era a antítese de tudo o que Mamon valorizava: era sujo, bruto, real.

— Beije.

Mamon hesitou.

O tempo parou. O último vestígio de sua arrogância, milênios de acumulação de poder, status e luxo, lutou contra o instinto básico de sobrevivência. Beijar aquele pé sujo era aceitar que ele não era nada. Era a morte do Lorde da Avareza.

Ele olhou para cima. Viu o abismo nos olhos dela.

Tremendo, com lágrimas de humilhação enchendo os olhos, Mamon se inclinou.

Seus lábios tocaram a pele suja do pé da Rainha.

ZUMM.

No mesmo instante, o ar vibrou com uma frequência grave.

O contador de Coroas no braço de Kiara brilhou intensamente, o holograma girando tão rápido que se tornou um borrão de luz dourada. Os números de Mamon — sua fortuna espiritual — foram drenados, transferidos, zerados.

O Lorde da Avareza não era mais um aliado, um inimigo ou um conspirador. A corrente invisível do Royal Board fechou-se ao redor de sua alma com um clique definitivo e metálico.

Ele era, agora e para sempre, apenas uma peça de ouro no tabuleiro dela.

Parte 5

No terraço da fortaleza recém-conquistada de Mamon, o vento não trazia frescor. Trazia o cheiro metálico e cancerígeno da chuva de óleo que ainda castigava Tyre.

Kiara estava parada na amurada, o sobretudo negro chicoteando ao redor de suas pernas. Com uma indiferença gélida, ela observou pelo canto do olho enquanto Ivy, inconsciente e envolta em um casulo de Éter regenerativo, era carregada em uma maca pelos seus novos subordinados. Mais atrás, Schrödinger saltitava entre as sombras das chaminés, conferindo os espólios de guerra com a alegria de uma criança em uma loja de doces.

Ela ignorou a movimentação e ergueu o rosto para o céu, onde as nuvens negras pareciam vísceras abertas sangrando sobre a cidade.

"Todo esse desespero..." pensou ela, sentindo a vibração do medo que emanava dos distritos abaixo. "Esse pavor da mortalidade que agora corre nas veias de Sonhos e Pesadelos... foi esse caos que lubrificou as engrenagens do meu plano. Em tempos de paz, eu seria questionada. No apocalipse, sou venerada."

Ela apoiou as mãos enluvadas no parapeito molhado.

"Devo tudo isso a você, não é... Dante?"

No instante em que o nome dele se formou em seus pensamentos, a frieza calculista de Kiara trincou.

Um calor súbito, violento e indesejado floresceu no centro do seu peito. Não era apenas uma emoção; era uma intrusão física. Uma saudade profunda, uma agonia doce e lacerante que subiu pela garganta, tentando forçar um sorriso ou uma lágrima que não pertenciam a ela.

— Eu sabia que não voltaria a sentir algo assim enquanto estivesse viva... — murmurou ela para o nada, a voz falhando.

Ela levou a mão ao peito, as unhas cravando-se no tecido e na pele por baixo, como se tentasse arrancar um parasita.

— Sei que este sentimento não é meu... — Ela respirou fundo, lutando contra o tremor nas mãos. — Mas, por algum motivo maldito, ele já não parece mais tão estranho. Ele se encaixa.

A raiva substituiu a melancolia.

— Mas chega — Kiara rosnou, fechando os punhos. — Pare de me infectar com sua fraqueza, Anna.

Kiara fechou os olhos com força.

O som da chuva de óleo desapareceu. O cheiro de ferrugem sumiu. A gravidade mudou.

Quando ela abriu os olhos novamente, não estava mais no terraço de Mamon.

Estava no Palácio Mental.

Não era um lugar de ordem. Era um salão infinito, um abismo sem teto onde o chão era feito de água negra e as paredes eram fragmentos de espelhos flutuantes. Cada caco refletia uma versão distorcida: ora a Rainha Tirana, ora a Garota Assustada.

No centro desse caos onírico, a projeção de Anna estava de joelhos.

As mãos dela estavam mergulhadas na poça de memórias líquidas do chão, revirando o lodo do passado de Kiara com a ferocidade de quem procura uma arma em um lixão. Imagens borradas de guerras antigas e rostos esquecidos flutuavam ao redor dela, perturbados pela busca.

— Pare de bagunçar a casa.

A voz de Kiara surgiu das sombras, ecoando de todos os espelhos ao mesmo tempo.

A projeção da Rainha materializou-se atrás de Anna. Ela não parecia furiosa; parecia exausta, como uma mãe cansada de lidar com uma criança rebelde.

— Quanto mais você cava, Anna, mais o lodo sobe. Mais nossas cores se misturam. — Kiara caminhou sobre a água sem afundar. — Você quer acabar desaparecendo? Quer que não reste nada de "Anna" além de um eco fantasma na minha voz quando eu grito?

Anna levantou o rosto. Seus olhos transbordavam uma teimosia febril, e seus braços estavam manchados pela tinta negra das memórias de Kiara.

— Eu não quero viver a vida de alguém como você, Kiara — Anna cuspiu as palavras. — Você finge esse controle absoluto, essa frieza de estátua de mármore... mas eu estou aqui dentro. Eu sinto o que você sente. Eu sinto o vazio que te consome. Eu sinto o seu medo através do meu.

Kiara soltou uma risada seca. O som ricocheteou nos espelhos partidos, multiplicando-se em mil zombarias.

— Engraçado. Eu não achei que viver a minha vida fosse muito diferente de viver a sua.

Kiara agachou-se, ficando na altura dos olhos de Anna. Sua imagem tremeluziu violentamente, alternando entre a mulher adulta e a criança que foi milênios atrás.

— Quanto mais você vasculha minhas tragédias, mais eu vejo as suas máscaras, Anna. A "garota engraçada", a "Astreus", a "mártir". Somos iguais. Ambas nos escondemos atrás de papéis que um mundo cruel nos obrigou a encenar para não quebrarmos.

Ela estendeu a mão, quase tocando o rosto de Anna, mas recuou.

— Deixe-me vencer esta guerra. Pare de lutar contra o volante. Deixe-me usar este corpo para colocar as peças no lugar. E eu prometo: quando o tabuleiro estiver limpo, eu te solto. Você terá sua vida medíocre e feliz de volta.

Sem esperar por uma resposta, a imagem de Kiara começou a desvanecer, transformando-se em fumaça. Sua consciência estava sendo puxada de volta para o mundo físico, para a guerra real.

Anna ficou sozinha no silêncio dos espelhos.

— Eu não confio em você — sibilou ela para o vazio onde Kiara estivera.

Anna não parou. Pelo contrário, com Kiara distraída no mundo exterior, ela mergulhou os braços ainda mais fundo no subconsciente.

Ela sentia. O tempo em Morpheus estava se dobrando de forma errada. A conexão com Dante — aquele fio dourado e invisível que unia suas almas através das Luvas e do destino — vibrava violentamente, como um alarme de incêndio em sua alma.

— Eu preciso voltar para ele... — Anna sussurrou, o desespero dando força aos seus dedos. — Ele está em perigo. Algo está se aproximando dele.

Ela forçou o caminho através de uma barreira de espinhos mentais que Kiara erguera para proteger seus segredos mais profundos. A dor era aguda, mas Anna a ignorou.

No fundo do corredor mais escuro da memória, onde a luz dos espelhos não alcançava, Anna encontrou o que procurava.

Uma porta.

Era maciça, feita de um material que parecia osso polido, trancada com correntes de Éter negro que emanavam um frio absoluto. Não havia fechadura. Aquela era a memória que Kiara não apenas esquecera; era a memória que ela temia.

Anna olhou para a porta. Ela sabia que abrir aquilo poderia destruir a mente das duas.

Sem hesitar, ela envolveu as correntes com sua vontade.

— Se você não vai facilitar a minha saída daqui... — Anna segurou o primeiro elo da corrente. — ... então eu vou tomá-la à força.

Parte 6

Anna forçou a porta.

Ela não empurrou madeira ou metal; empurrou uma barreira de puro trauma. O Éter negro das correntes cedeu com um som nauseante — um estalo úmido, como um osso sendo fraturado — e a mente de Kiara foi inundada por um perfume.

Não era cheiro de sangue ou medo. Era o cheiro doce, enjoativo e sufocante de rosas.

O salão de espelhos desapareceu, dissolvendo-se em pétalas de luz. Anna piscou, e quando abriu os olhos, estava na Cidade das Rosas. O território sagrado dos Sonhos, onde a primavera era uma lei decretada e a decadência era um crime punível com a morte.

Mas a visão de Anna não foi guiada para as mansões de marfim ou para as praças de cristal. A memória a puxou para os fundos de um palacete, para um beco estreito e úmido onde o sol dourado da cidade jamais tocava o chão.

Lá, aninhada entre sacos de lixo de seda e restos de banquetes apodrecidos, estava uma criança.

Kiara era minúscula. Pouco mais que um amontoado de ossos frágeis cobertos por trapos imundos que mal cobriam sua pele cinzenta. Seus olhos, naquele momento, eram apenas poços de uma tristeza opaca, sem fundo e sem brilho.

Ela estava sentada na lama fria, catando com dedos trêmulos e roxos as sobras de um bolo que os cães do palácio haviam rejeitado.

— Olhem para isso.

A voz veio de cima, arrogante e metálica. Um guarda da Cidade, sua armadura de prata polida brilhando de forma insultante contra a sujeira do beco, olhava para baixo com nojo genuíno.

— Por que o Rei insiste em manter essa aberração viva? — ele rosnou, torcendo o nariz para o cheiro da menina. — Ela polui o ar da cidade só por respirar.

Sem aviso, a bota prateada disparou.

Foi um chute seco, calculado, direto nas costelas da pequena Kiara.

Thud.

O corpo frágil foi jogado contra a parede de tijolos. Ela não gritou. Ela não chorou. Ela sequer soltou o pedaço de pão mofado que protegia contra o peito. Apenas encolheu-se, transformando-se em uma bola apertada.

Para a pequena Kiara, aquela dor física aguda era a única forma de toque que ela conhecia.

Sua mente infantil, distorcida pelo abandono, criara uma lógica terrível para sobreviver: Se eles me batem, é porque eles me veem. Se eles me tocam, mesmo com dor, é porque eu existo. Aquele chute era a única prova de realidade que ela tinha. Era o mais próximo de "amor" que os Sonhos lhe ofereciam.

— Você é um erro, coisa imunda — cuspiu o segundo guarda. Ele limpou a bota no trapo que servia de vestido para a menina, como se tivesse pisado em excremento. — Nem deveria ter nascido. Se eu ouvir um gemido, eu te bato até você esquecer como se respira.

Kiara engoliu o soluço antes que ele chegasse à garganta. Ela aprendera cedo a arte de ser invisível na dor. Ela vivia em uma depressão tão profunda e catatônica que a cor do céu não importava. Ela era a única mancha de miséria em um paraíso de perfeição artificial.

Anna olhou ao redor. A crueldade não vinha apenas de cima.

Do outro lado da cerca que separava o beco das áreas de serviço, Anna viu outros Pesadelos. Eram escravos, curvados sob o peso de cargas, suando sob o sol eterno. Eles olhavam para Kiara através das grades de suas senzalas. Mas não havia piedade nos olhos deles. Havia ódio. Um ódio fervente e invejoso.

Para eles, Kiara não era uma vítima; era uma privilegiada. A "mascote do Rei" que podia viver solta entre as mansões e comer as sobras dos nobres, enquanto eles morriam de exaustão nas minas e campos.

Kiara era uma pária universal. Odiada pelos Sonhos por ser um monstro. Odiada pelos Pesadelos por ser uma protegida.

Ela vivia no vácuo absoluto de afeto.

A psicologia daquela criança era um campo minado. Anna podia ouvir os pensamentos desconexos da menina ecoando nas paredes do beco: Por que as flores cheiram tão bem se a minha vida cheira a morte? Por que eles sorriem uns para os outros, mas eu só sinto o gosto de ferro do meu próprio sangue na boca?

Anna, assistindo à memória como uma espectadora invisível, sentiu a alma de Kiara vibrar. Era uma frequência de dor tão antiga e tão profunda que séculos de poder e conquistas não conseguiram silenciar.

— Então é daqui que vem todo esse gelo... — murmurou Anna, vendo a pequena Kiara abraçar os próprios joelhos no escuro, esperando passivamente pelo próximo chute que confirmaria sua existência.

Anna franziu a testa, a analista dentro dela despertando.

— Não... isso não faz sentido. — Anna caminhou até a menina, ajoelhando-se diante da imagem trêmula. — Ela não parece alguém que, por conta dessa dor, se tornaria uma revolucionária fria e implacável. Essa garota... ela aceitou o destino. Alguém que nasceu no fundo do poço não reclama por tirarem o sol que nunca viu.

Anna olhou nos olhos vazios da criança.

— Ela parece só estar esperando pela morte. Não há fogo aqui, apenas cinzas. Então... — Anna virou-se para o cenário estático. — Como diabos você saiu dessa lama, Kiara? O que te fez levantar?

Como se o próprio subconsciente de Kiara respondesse à provocação, o cenário tremeu.

Parte 7

O perfume enjoativo de rosas foi subitamente degolado.

Em seu lugar, o ar foi preenchido pelo odor acre de madeira envernizada queimando e o cheiro inconfundível de carne chamuscada.

Anna sentiu a memória oscilar violentamente, como uma fita de filme derretendo no projetor. A Cidade das Rosas estava sob ataque. O céu, antes de um azul eterno e irritante, agora estava manchado por colunas de fumaça negra que subiam como serpentes oleosas, asfixiando as nuvens. Gritos de desespero — tanto de Sonhos quanto de Pesadelos — misturavam-se ao estalar ensurdecedor das labaredas que devoravam séculos de história.

Dentro da mansão velha e abandonada, a pequena Kiara acordou em pânico.

O calor era uma mão física, pesada e invisível, apertando sua traqueia. Ela tossiu, os olhos ardendo, e correu pelos corredores escuros, tropeçando em tapetes caros e móveis revirados. Ela tentava fugir, seus instintos gritando por saída, procurando por...

Ela parou no meio do corredor.

Seus pés descalços queimavam no assoalho quente, mas um pensamento frio a paralisou mais rápido que o fogo.

"Por quem eu estou procurando?"

A verdade caiu sobre ela como uma viga. Ela nunca teve ninguém. Ninguém viria buscá-la. Não havia pai, não havia mãe. Não havia sequer um guarda sádico para chutá-la para fora do caminho. Ela estava sozinha. Ela era um vácuo no meio de um incêndio.

O choro subiu pela garganta, mas era um choro seco, niilista.

Se as chamas a consumissem ali... talvez fosse melhor. Talvez o "erro" de sua existência finalmente fosse apagado, e a mancha de sujeira no paraíso fosse limpa pelo fogo.

Com uma resignação assustadora para uma criança de sua idade, Kiara sentou-se no chão. Ela abraçou os joelhos, observando as labaredas lamberem as cortinas de veludo, e esperou o fim.

BOOM.

A porta da frente não foi aberta; ela foi arrancada das dobradiças. A madeira explodiu em estilhaços incandescentes.

Através da cortina de fumaça e brasas, uma silhueta surgiu. Alta. Imponente.

Não era um guarda de armadura prateada. Era uma mulher vestida em trajes escuros, couro e sombras, com uma aura que parecia beber a luz do fogo ao seu redor.

Isobel.

A Rainha dos Pesadelos não hesitou. Seus olhos varreram o caos até encontrarem a pequena figura encolhida no canto. Ela avançou entre as brasas como se o fogo tivesse medo de tocá-la, e com um movimento brusco, agarrou Kiara pelo colarinho do vestido imundo, içando-a do chão como se fosse uma boneca de pano.

No instante em que Kiara sentiu o toque e viu os traços de Pesadelo — a pele pálida, os olhos escuros — no rosto da mulher, sua mente quebrou.

O terror foi absoluto. Na lógica distorcida de Kiara, se os "belos" Sonhos a espancavam, um "monstro" Pesadelo faria algo mil vezes pior. Ela seria devorada.

As lágrimas finalmente transbordaram, quentes e violentas. Mas não eram de alívio.

— Desculpa! Desculpa! Eu vou parar! — Kiara começou a gritar, um som agudo e desesperado.

Ela tentou cobrir a própria cabeça com os braços, o corpo tremendo em espasmos.

— Por favor, não bate! Eu juro que não faço barulho! Eu não choro mais! — ela gaguejava compulsivamente, um mantra de trauma puro. — Desculpa por existir! Desculpa por ocupar espaço!

Isobel parou no meio do pátio incendiado. As vigas do teto estalavam acima delas, prestes a ceder, mas a Rainha estava imóvel.

Ela olhou para a garota pendurada em seu braço. Isobel era uma líder de Gehenna, uma general acostumada com monstros, assassinos e guerras brutais. Mas ela nunca vira aquilo. Nunca vira uma criança cujo instinto de sobrevivência fora substituído pela culpa de respirar.

— Escute, garota... — Isobel tentou falar, a voz firme.

Mas Kiara não ouvia. Ela continuava a se debulhar em desculpas rítmicas, encolhendo o pescoço, esperando o impacto, o soco, o chute que sempre vinha após o barulho.

Isobel suspirou. Um som de impaciência e, talvez, de uma dor desconhecida.

Ela não era uma mulher de carinho. Ela não sabia ser mãe. Mas ali, cercada pelas cinzas do paraíso hipócrita dos Sonhos, ela fez algo que mudaria o destino de Morpheus para sempre.

Ela soltou o colarinho de Kiara. Ajeitou as luvas de couro com um estalo seco. E então, com uma rigidez que mal escondia sua inexperiência em confortar alguém, ela puxou Kiara contra o peito.

Foi um abraço desajeitado. Apertado demais. Rígido. Mas foi firme como uma rocha.

— Pare de pedir desculpas.

A voz de Isobel ressoou no peito da menina, vibrando através dos ossos. Era como trovão e mel.

— Você tem o direito de chorar. A dor é sua. Ninguém neste mundo, nem Sonho nem Pesadelo, tem o direito de tirá-la de você. Sinta-a. Deixe-a queimar.

Pela primeira vez em toda a sua curta vida, Kiara não recebeu um golpe.

Ela recebeu um peso. O peso de outra pessoa segurando-a. O peso de não ser invisível.

O choro, que antes era sufocado pelo medo, explodiu. Foi um uivo gutural de séculos de solidão comprimida. Kiara chorou até seus pulmões arderem, as mãos pequenas agarrando as vestes de couro de Isobel com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, enquanto a Cidade das Rosas ruía atrás delas.

Isobel não disse mais nada. Ela não precisava.

A Rainha virou as costas para o fogo e caminhou para fora das fronteiras do Éden, carregando a pequena ruína humana em seus braços, em direção ao horizonte escuro e tempestuoso de Gehenna.

Anna, assistindo à cena desaparecer na névoa da memória, entendeu.

Naquele dia, Kiara não foi apenas resgatada das chamas. Ela foi resgatada do silêncio. Isobel a levaria para o castelo das sombras, e ali, no ventre da escuridão, a pequena Kiara aprenderia a lição mais importante de todas:

Se o mundo não a queria, ela não pediria permissão para existir. Ela simplesmente daria Ordens ao mundo até que ele não tivesse escolha a não ser obedecer.

Parte 8

Ciclos se passaram dentro da memória, e Anna viu a pequena ruína humana ser esculpida pelo tempo em uma jovem de elegância gélida.

O cenário agora era o Castelo de Isolde, um monumento gótico de pedra negra e vitrais imensos que filtravam a luz púrpura de Gehenna. Os corredores eram labirintos de sombras ametista, belos, mas silenciosos.

Após o resgate nas chamas, Isobel nunca explicou seus motivos. Ela simplesmente adotou a garota. A Rainha dos Pesadelos, temida por exércitos, passava seus dias tentando oferecer tudo o que o mundo sempre negara àquela criança. Não era apenas abrigo; era uma supercompensação desesperada de afeto.

Isobel fugia de reuniões de guerra para ensinar Kiara a ler. Ignorava decretos reais para brincar de esconder nos jardins de espinhos. Ela vestia a garota com as sedas mais finas, enchendo-a de laços e babados, chamando-a carinhosamente de "meu Cupcake", como se tentasse adoçar uma vida que começara com gosto de cinzas.

Mas fora dos muros do castelo, o preço foi alto.

Por causa do ataque à Cidade das Rosas, o Rei dos Sonhos retaliou. Os Pesadelos perderam direitos básicos, territórios foram embargados, e a fome cresceu. Muitos em Gehenna viraram as costas para Isobel, culpando sua decisão "egoísta" de salvar uma única criança inimiga em troca da paz do reino.

Isobel nunca olhou para trás. Ela carregava o ódio de seu povo em silêncio, garantindo que nenhuma gota desse veneno respingasse dentro do castelo. Diante de Kiara, ela sempre exibia um sorriso largo e inabalável, um escudo feito de dentes e amor.

Anna, observando tudo como um fantasma, sentia que algo não encaixava.

"Onde está a frieza?", pensou Anna, confusa. "Eu entendo como a dor cria monstros, mas essa garota... ela está sendo inundada de amor. Por que ela se tornou a Rainha Tirana que eu conheço? E por que Isobel nunca diz seu próprio nome? Kiara a chama apenas de 'Senhora' ou 'Mestra'. Há um segredo nesse silêncio."

A resposta veio na forma de uma percepção infantil.

A jovem Kiara, com sua mente afiada pelo trauma, notou um padrão: Isobel sorria com mais verdade, com mais orgulho, sempre que Kiara se comportava com elegância. Sempre que ela agia como uma pequena dama, falava em tom formal ou recitava uma lição perfeita, os olhos cansados de Isobel brilhavam.

Para Kiara, aquilo se tornou uma missão sagrada. "Eu preciso fazê-la sorrir. Se eu for perfeita, ela nunca vai se arrepender de ter me salvado."

E assim, Kiara começou a se dedicar de corpo e alma à construção de uma máscara.

Anna viu a garota sentada por horas a fio, a coluna perfeitamente ereta, enquanto criadas apertavam seus espartilhos como se fossem armaduras de guerra, restringindo sua respiração até o limite do desmaio. Ela aprendeu a segurar xícaras de porcelana fina — tão leves que pareciam quebrar sob suas mãos calejadas —, estudou tratados de política internacional em línguas mortas e decorou cada movimento de xadrez já registrado na história.

— Vossa Graça — dizia a jovem Kiara, fazendo uma reverência milimétrica —, a análise dos fluxos de Éter sugere uma instabilidade deveras preocupante nas fronteiras do Norte.

A voz era aveludada, polida, artificial.

Isobel riu, aplaudindo o desempenho. Mas, assim que Kiara virou as costas, o sorriso da Rainha morreu. Anna viu a dor crua no rosto de Isobel.

"O que eu fiz?", pensava a Rainha, a culpa corroendo-a. "Eu queria salvá-la, mas acabei criando uma boneca. Eu roubei a infância dela com minhas expectativas silenciosas? Ela está se sufocando para me agradar."

Isobel sabia que precisava quebrar aquele ciclo antes que a perfeição quebrasse a garota.

— Kiara, este é Luka — anunciou Isobel certo dia, no pátio de treinamento.

Ela empurrou para a frente um garoto de rua. Ele tinha cabelos emaranhados, olhos selvagens que brilhavam como brasas e roupas que cheiravam a fuligem e liberdade.

— Ele conhece os becos que a sombra do meu castelo não alcança — disse Isobel, usando seu tom de professora para disfarçar a intenção. — Vá com ele. Aprenda o que não está nos livros. A teoria constrói o intelecto, Kiara, mas a rua constrói o caráter. Considere isso... uma lição de campo obrigatória.

Era uma mentira piedosa. Isobel não queria que ela estudasse; queria que ela vivesse. Queria que ela tivesse cicatrizes, histórias e erros. Mesmo que isso significasse que, um dia, Kiara escolhesse partir.

Naquela noite, Isobel chorou em seus aposentos, rezando para que a garota voltasse, mas sabendo que libertá-la era a única forma real de amá-la.

O que se seguiu foi o nascimento da vida dupla de Kiara.

Anna assistia às transições rápidas como flashes de luz estroboscópica, um borrão vertiginoso entre a luz dourada das velas e a escuridão oleosa das ruas.

Pela manhã: A Dama de Ferro. Vestidos de seda pesada, chás da tarde e debates filosóficos sob a luz de candelabros de cristal. Kiara era a "Princesa Cupcake", o orgulho de Isobel, a prova viva de que um monstro podia ser mais sofisticado que qualquer Sonho.

Pela noite: A Besta. Kiara escapava pelas janelas góticas, deslizando pelas gárgulas de pedra. Ela trocava a seda sufocante por couro gasto; as luvas de renda por bandagens sujas, enroladas com força bruta sobre os nós dos dedos.

Ao lado de Luka, ela mergulhava nos distritos inferiores.

Anna viu a futura Rainha no centro de círculos de luta clandestinos, buracos onde o ar era denso com o cheiro de suor azedo, fumaça de tabaco barato e o gosto metálico de sangue fresco.

Naquelas arenas de terra batida, a máscara de porcelana caía. Kiara não usava a fala arcaica ou a etiqueta da corte; ela usava os punhos, os joelhos e os dentes.

CRACK.

Ela quebrava mandíbulas e recebia cortes profundos nas sobrancelhas, rindo com um prazer quase maníaco enquanto o sangue quente escorria por seu rosto, misturando-se à sujeira.

Ali, na violência bruta e sem filtros, ela encontrava uma paz que o chá e o xadrez nunca lhe deram. Na arena, ninguém se importava se ela era a "queridinha da Rainha" ou o "erro do Rei". No impacto do punho contra a carne, importava apenas quem permanecia de pé para cuspir no chão. Era honesto. Era real.

— Luka... — Kiara sussurrou certa vez.

Eles estavam sentados em um telhado, observando o nascer do sol tóxico de Gehenna. Luka limpava uma ferida aberta no lábio dela após uma vitória brutal que quase lhe custara uma costela. Kiara sibilou de dor, mas seus olhos brilhavam.

— Tudo bem mesmo? — perguntou ela, a voz pequena, despida da realeza. — Tudo bem... alguém como eu ser tão feliz assim?

E assim, entre a perfeição forçada e a violência libertadora, mais ciclos voltaram a passar, forjando a mulher que um dia colocaria o mundo de joelhos.

Parte 9

Anna sentiu a textura da memória mudar sob seus dedos.

O vermelho vibrante das arenas de luta e o dourado falso dos bailes desbotaram, dando lugar a uma luz suave, doméstica e enganosamente pacífica.

Era um dia "perfeito" no Castelo de Isolde. O sol roxo de Gehenna, filtrado pelos vitrais góticos, desenhava padrões geométricos de ametista sobre o tapete persa da biblioteca particular. O cheiro era de livros antigos e chá de jasmim.

Kiara, ainda uma menina, mas já exalando a confiança magnética de uma prodígio, estava de pé diante de um tabuleiro de xadrez tridimensional.

— Xeque-mate em quatro movimentos, Senhora — declarou ela, movendo uma peça de cristal com precisão cirúrgica. — A defesa da Torre Norte caiu.

Isobel, sentada na poltrona oposta, arregalou os olhos levemente. O problema tático que ela montara era considerado impossível para generais veteranos, mas a garota o desmontara em minutos. Um sorriso genuíno, raro e orgulhoso, iluminou o rosto cansado da Rainha.

— Brilhante... — Isobel sussurrou, baixando o livro que lia. — Você é realmente extraordinária, Kiara.

O elogio foi a faísca.

Por um breve instante, a máscara da "Dama de Ferro" e a máscara da "Besta da Arena" caíram. Sobrou apenas a filha, faminta por validação. Impulsionada por uma alegria pura que raramente visitava seu peito, Kiara esqueceu a etiqueta. Esqueceu as lições.

Ela correu.

Ela saltou em direção a Isobel para um abraço espontâneo, os braços pequenos abertos para envolver a única pessoa no universo que a chamara de humana.

O tempo desacelerou. Anna, assistindo à cena, quis gritar para a menina parar, mas era tarde demais.

No milésimo de segundo em que o corpo de Kiara tocou o de Isobel, o mundo da Rainha desmoronou.

Anna viu, através do rastro emocional da memória, o flash violento que cruzou a mente de Isobel. A biblioteca sumiu. O rosto de Kiara sumiu. Em seu lugar, a mente quebrada de Isobel projetou a sombra do homem que a destruíra séculos atrás. O peso, o cheiro, a violação. O trauma, trancado em um porão escuro da alma, arrombou a porta com a força de um espasmo físico.

Isobel não pensou. Ela reagiu.

— NÃO!

Foi puro instinto de sobrevivência animal. Isobel empurrou Kiara com uma força devastadora — um tapa involuntário, que ressoou como um tiro de canhão no silêncio da sala.

CRACK.

Kiara foi lançada para trás. Seu corpo pequeno deslizou pelo tapete, derrubando o tabuleiro de xadrez em uma chuva de peças de cristal.

Isobel não olhou para trás.

A Rainha levantou-se, derrubando a cadeira, e correu para um vaso ornamental no canto da sala. Seu corpo dobrou-se em uma ânsia violenta. Ela vomitou, o som engasgado ecoando nas paredes de pedra, enquanto suas mãos esfregavam freneticamente a pele dos braços onde Kiara a tocara.

Ela unhava a própria carne. Ela limpava o tecido do vestido como se o toque inocente da menina fosse ácido corrosivo. Como se a pureza daquele afeto estivesse contaminada pela sujeira indelével do seu próprio passado.

No chão, cercada por reis e rainhas quebrados, Kiara permaneceu imóvel.

Sua bochecha ardia em um tom escarlate onde a mão de Isobel a atingira. Mas seus olhos estrelados não mostravam raiva. Não mostravam medo. Eles mostravam uma compreensão precoce e devastadora.

A menina olhou para a mulher que amava, tremendo e vomitando no canto, e entendeu a verdade brutal: Eu não posso tocá-la. O meu amor a machuca.

Isobel voltou minutos depois.

Ela estava pálida como um cadáver, o suor frio colando os cabelos na testa. Suas mãos tremiam tanto que ela as escondia nas dobras profundas da saia negra; ela estava completamente envergonhada.

Ela não pediu desculpas. Ela não explicou o estupro, o abuso ou o horror antigo que a tornara incapaz de suportar a proximidade física. Explicar seria reviver.

Ela apenas ergueu o queixo, reassumindo a postura de Rainha, e proferiu cinco palavras gélidas que selariam o destino das duas:

— Nunca mais... faça isso.

Kiara levantou-se. Ela ignorou a dor no rosto.

— Sim, Senhora — respondeu a menina.

Kiara sorriu. Foi um sorriso triste, fino e cortante como uma lâmina de vidro recém-quebrada.

Naquele momento, algo morreu e algo nasceu naquela sala.

Isobel sofria no silêncio, dilacerada pela consciência de que, embora pudesse salvar Kiara de um incêndio físico, ela jamais seria capaz de ser a mãe que a garota precisava. E Kiara sofria ao perceber que, por mais inteligente, forte e letal que se tornasse, ela era incapaz de resgatar Isobel do abismo interno em que vivia — o mesmo abismo que a Rainha enfrentara sozinha para salvá-la no passado.

A barreira entre elas tornou-se absoluta. O toque foi banido para sempre. O amor foi traduzido, daquele dia em diante.

O cenário da mansão começou a se dissolver em fumaça cinzenta e fria.

Anna foi puxada de volta para o corredor escuro da mente, sentindo o frio dos espelhos quebrados. Seu coração batia com uma urgência renovada e dolorosa.

— Então é por isso que você é assim... — murmurou Anna para a escuridão, a voz embargada. — Não…

Mas Anna não parou.

A analista dentro dela não estava satisfeita. Ela sentia que essa dor, embora imensa, explicava a frieza, mas não explicava o vazio total nos olhos de Kiara quando o assunto era o "Rei" ou o propósito final. Havia algo mais. Algo cirúrgico que transformou a gratidão por Isobel na determinação sociopata da Kiara atual.

Ignorando o cansaço mental e os avisos da própria Kiara que ecoavam como trovões distantes em sua mente, Anna continuou a caminhar.

Seus pés pararam diante de uma entrada diferente. No fim do corredor mais profundo.

Não era uma porta de madeira, metal ou osso.

Era um rasgo na própria realidade da mente. Uma ferida vertical no tecido da memória, selada não por correntes de Éter, mas por faixas de um material branco e estático que Anna reconheceu com um arrepio.

Silêncio Puro.

Aquele rasgo emanava uma sensação de "não-existência".

— Se eu entrar aqui, posso não voltar — Anna admitiu para si mesma, a mão estendida, os dedos roçando a estática fria do rasgo. — Mas se eu não entrar... eu nunca vou entender quem essa garota realmente é...

Com um suspiro de determinação suicida, Anna fechou os olhos e mergulhou na última camada das memórias proibidas de Kiara.

Parte 10

O Palácio de Isolde, que um dia fora o berço da cultura refinada das sombras, agora respirava com a dificuldade agonizante de um pulmão perfurado.

O mármore negro dos corredores, outrora polido para refletir o luar e o deslizar suave de sapatilhas de seda — memórias dos dias de "dama" da pequena Kiara —, agora desconhecia o silêncio. A acústica do castelo fora sequestrada pelo estridor rítmico e pesado de botas de combate. Mensageiros corriam com bandagens sujas de sangue seco; generais roucos gritavam coordenadas de defesa; e o cheiro de incenso antigo fora substituído pelo fedor acre de ozônio queimado e medo.

Através das frestas das janelas blindadas da Sala do Trono, o céu de Gehenna não oferecia mais o conforto da escuridão estrelada. Ele vomitava.

Uma bile negra e espessa — a chuva de óleo tóxico — despencava sobre a cidade, derretendo gárgulas e telhados, como se tentasse apagar a história de Gehenna para que o futuro não tivesse onde se alicerçar.

No centro desse apocalipse, sentada em seu trono de espinhos, a Rainha Isobel aguardava.

As portas duplas, pesadas como chumbo, gemeram ao se abrir.

Rum, a líder da Tromluí, entrou primeiro. A mulher forte parecia ter encolhido. Sua postura estava curvada, não pela idade, mas pelo peso insuportável de escoltar um "inimigo" para dentro do santuário de sua soberana.

"Dependendo do que acontecer… eu posso acabar sendo a culpada pelo fim da esperança dos Pesadelos…"

Logo atrás, veio Teth. O Defensor dos Sonhos ajeitava o colarinho alto com mãos trêmulas, tentando manter a dignidade de um diplomata enquanto sentia a hostilidade de cada guarda na sala pressionar sua nuca como uma lâmina fria.

— Majestade. — Teth fez uma reverência formal, seca e rápida.

Isobel não se levantou. Seus olhos, molduras escuras de exaustão, fixaram-se nele com uma fome desesperada.

— O Reino de Cristal finalmente decidiu falar. — A voz dela era rouca, arranhada pela fumaça, mas firme como aço. — Suponho que ver o céu derreter tenha feito o Rei dos Sonhos perceber que nossas fronteiras são irrelevantes diante da extinção.

Ela se inclinou para frente, os dedos enluvados entrelaçando-se com força, os nós dos dedos brancos. A esperança era visível, nua e crua.

— Se ele propõe uma trégua, eu aceito. Agora. Preciso de apoio logístico para conter os Lordes Pecados. Meus exércitos estão dispersos tentando salvar civis da chuva negra. Se unirmos as forças táticas de Éden com a guarda de Isolde, podemos forçar uma estabilidade e...

— Rainha Isobel.

Teth a interrompeu. Sua voz vacilou, quebrando no meio do nome. Ele não conseguiu sustentar o olhar dela; desviou os olhos para o reflexo distorcido no chão de mármore.

O silêncio que caiu sobre a sala foi mais pesado que a chuva lá fora. Rum olhou para Teth, surpresa. O "Defensor" não parecia um homem trazendo paz; parecia um homem segurando uma granada sem pino.

O sorriso tenso de Isobel desapareceu.

— Não é uma proposta de trégua? — A pergunta saiu baixa, perigosa. O tom desceu uma oitava, vibrando com a ameaça de uma tempestade.

— Eu sou apenas o mensageiro, Majestade — disse Teth, a voz sumindo.

Ele retirou de suas vestes um cilindro de cristal puro, selado com o brasão real de Éden. O objeto parecia brilhar com uma luz sanitária, ofensiva naquele ambiente de sombras.

— O Rei foi... específico.

Teth caminhou até o trono, os passos ecoando como sentenças, e entregou o objeto.

Isobel pegou o cilindro. O cristal era frio ao toque. Com um movimento brusco, ela quebrou o selo de luz.

Humm.

O holograma de um decreto desenrolou-se no ar, flutuando diante de seus olhos em letras douradas e perfeitas.

Isobel leu.

Seus olhos correram pelas linhas. Pararam. Voltaram ao início. E leram novamente.

A esperança em seu rosto não apenas morreu; ela foi executada. Uma palidez mortal drenou a cor de sua face. Suas mãos começaram a tremer. Não era o tremor fóbico do toque, nem o tremor de medo do passado. Era um tremor sísmico de fúria absoluta.

— Isso... — Isobel sussurrou, a voz falhando, engasgada com a bile. — Isso não é uma proposta. É um ultimato.

— O que diz aí? — Rum perguntou, dando um passo à frente, ignorando qualquer protocolo.

Isobel ergueu os olhos. Eles não queimavam; eles gelavam. Ela leu em voz alta, cada palavra saindo de sua boca como vidro moído:

— "Considerando a instabilidade sistêmica causada pelo retorno do Tempo e a anarquia em Gehenna, o Trono de Cristal exige cooperação imediata para a manutenção da Ordem. A Cidade Real de Isolde deve, imediatamente, classificar o indivíduo Kiara Ashworth como Terrorista de Tarja Preta."

Rum arfou, levando a mão à boca.

Tarja Preta. A classificação máxima. Significado: execução à vista. Sem julgamento. Sem prisão. Sem clemência. Matar no local.

Isobel continuou, a voz ganhando volume, tremendo de ódio:

— "Deve ser colocada uma recompensa oficial pela cabeça dela, sancionada pela própria Coroa de Gehenna. Autorize a caçada irrestrita. Caso contrário... consideraremos a Cidade de Isolde e sua regente como Cúmplices da Quebra do Céu e Inimigos do Estado, sujeitos à intervenção militar total e aniquilação pelos Cavaleiros Reais."

O pergaminho holográfico piscou e se desfez em partículas de luz, deixando apenas a escuridão pesada da sala.

Isobel apertou os punhos sobre os braços do trono com tanta violência que o couro antigo estalou e rasgou.

O dilema era uma lâmina pressionada contra sua carótida.

Para salvar seu povo — os refugiados que esmurravam seus portões, as famílias que derretiam sob a chuva de óleo — ela precisava que Éden não atacasse. Ela precisava ceder. Mas o preço... o preço era assinar, com o próprio punho, a sentença de morte da única pessoa que ela amou mais que a si própria. A criança que ela resgatara do fogo. A garota que ela empurrara para longe para proteger, mas que jurara amar à distância.

E havia algo mais. Algo terrível que Teth e Rum não podiam ver.

O ódio de Isobel pelo Rei dos Sonhos naquele momento transcendeu a política. Tornou-se pessoal. A crueldade cirúrgica daquela ordem... a especificidade de forçá-la a matar Kiara... tinha a assinatura sádica de alguém que sabia exatamente o que aquela garota significava para ela.

— Ele sabe... — Isobel sussurrou para si mesma, os dentes trincados, uma lágrima de raiva pura queimando no canto do olho. — Aquele maldito sabe o que está me pedindo. Ele está usando a vida dela... para testar a minha coleira.

Ela levantou o rosto para Teth.

O olhar da Bruxa Isobel não tinha nada de diplomático. Não havia realeza ali. Havia apenas o olhar de uma mãe encurralada e de uma fera ferida.

— O seu Rei... — ela sibilou, e a temperatura da sala despencou. — ...é um monstro pior do que qualquer coisa que rasteje nos meus esgotos.

Parte 11

A Sala do Trono mergulhou em um caos abafado, como se todo o oxigênio tivesse sido sugado pelas paredes de mármore negro.

— Isso é loucura!

A voz de Rum explodiu, quebrando o protocolo e o silêncio. A líder da Tromluí avançou um passo em direção a Teth, os punhos cerrados tremendo de indignação.

— Você não tem ideia do que está pedindo, garoto! — ela rugiu. — Kiara não é apenas uma cidadã... Você está exigindo que a Rainha corte o próprio braço e o sirva em uma bandeja!

— Não há escolha. — Teth manteve a postura rígida, travando o maxilar. Seus olhos, no entanto, traíam um desconforto profundo; ele evitava olhar para o trono. — O decreto do Rei é absoluto. Sem isso, a barreira política cai, e Isolde cai logo em seguida.

Nos fundos da sala, escondido nas sombras projetadas pelas colunas góticas, Luka começou a se mover.

O instinto das ruas gritou em sua mente. O garoto que cresceu roubando pão com Kiara, que sangrou ao lado dela nas arenas clandestinas, entendeu a linguagem corporal da Rainha antes que qualquer palavra fosse dita. A traição estava no ar.

Eu preciso correr. O pensamento foi elétrico. Preciso encontrar um transmissor. Preciso avisar aquela idiota, ou então...

Ele girou os calcanhares silenciosamente em direção à saída lateral de serviço.

— Peguem-no.

A ordem de Isobel foi um sussurro, mas cortou o ar como um estalo de chicote.

A reação foi instantânea. Dois guardas de elite de Isolde, sombras vivas que guardavam os cantos, interceptaram Luka antes que ele desse o terceiro passo. As alabardas cruzaram-se diante dele com um clangor metálico, bloqueando a porta.

O garoto olhou para trás, para o trono. Seus olhos selvagens estavam arregalados, brilhando com uma acusação muda e devastadora: Traição.

Isobel não conseguiu sustentar o olhar dele.

Ela levou a mão enluvada à cabeça. Uma dor lancinante, como uma agulha de gelo, perfurou suas têmporas. O mundo girou. A visão periférica da sala escureceu, e o peso da coroa de espinhos pareceu subitamente feito de chumbo derretido, esmagando suas vértebras.

Ela oscilou no trono, o corpo pendendo para o lado.

— Majestade!

A assistente real correu para o estrado, estendendo os braços para ampará-la antes que caísse.

— A senhora precisa de um médico, agora!

— Estou... bem. — Isobel mentiu.

Ela empurrou a assistente. O gesto foi gentil, mas a firmeza nele era inegociável.

Isobel estava visivelmente à beira do colapso. Seu corpo, condicionado por séculos de responsabilidades e dever, rejeitava biologicamente a decisão que sua mente política estava prestes a tomar. Cada célula gritava, revoltada. Ela queria morrer ali mesmo. Desejou, por um segundo, que o teto desabasse sobre sua cabeça para não ter que segurar aquela caneta.

Teth observou a cena com um misto complexo de pena e pragmatismo frio.

Ele via a "Mulher Forte de Gehenna" se desfazer em tremores. Ele não gostava da ideia de ajudar Pesadelos, foi criado para odiá-los. Mas ver o sofrimento cru de uma mãe — mesmo que fosse uma mãe de monstros — tocou algo em sua bússola moral que ele achava que já tinha perdido.

— Majestade — disse Teth, suavizando a voz. Ele deu um passo à frente, jogando a cartada final. — A decisão é brutal, eu sei. Mas é a única via. Se fizer isso... se provar lealdade a Éden agora... nós não seremos apenas "não-inimigos". Seremos aliados. Eu juro.

Ele estendeu a mão aberta, oferecendo a salvação.

— Eu posso erguer uma barreira. Uma Cúpula de Éden, similar à que protege a Capital dos Sonhos. Ela impediria que a chuva negra tocasse o solo de Isolde. Seu povo pararia de derreter e morrer envenenado hoje mesmo.

Isobel levantou o olhar.

Seus olhos estavam desolados, crateras vazias de vida, mas cheios de uma responsabilidade terrível. A imagem invadiu sua mente: a chuva negra... o veneno... as crianças de seu reino gritando enquanto a pele se desfazia. A barreira era a salvação de milhares. O preço era a vida de uma.

— Você é louco ou apenas sádico? — Rum sibilou para Teth, incrédula com a frieza da troca. — Você é jovem demais para saber, garoto de cristal... mas aquela garota e a Rainha...

— Chega.

Isobel levantou a mão. O comando silenciou a líder da Tromluí instantaneamente.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. A Rainha de Isolde olhou para o pergaminho holográfico flutuando diante dela. A imagem projetada de Kiara, com aquele olhar desafiador e livre, parecia encará-la, julgando-a.

"Eu te salvei do fogo para que você vivesse..." pensou Isobel, o coração partindo-se em dois pedaços irregulares. "E agora, tenho que te jogar na fogueira para que os outros sobrevivam."

Ela fechou o punho sobre o braço do trono. Apertou com tanta força, com tanto desespero contido, que as unhas perfuraram a luva de couro e rasgaram a pele da palma. Uma gota pesada de sangue pingou no chão de mármore.

Ela mordeu o lábio inferior até sentir o gosto metálico, usando a dor física para ancorar a mente que ameaçava fragmentar.

Com um movimento trêmulo, mas definitivo, Isobel pressionou seu anel de sinete contra o decreto.

Zumm.

A luz do holograma mudou. O dourado da proposta morreu, substituído por um vermelho sangue pulsante. A ordem estava sancionada.

Isobel se levantou.

A fraqueza desapareceu como se nunca tivesse existido, substituída pela máscara fria e impenetrável da Monarca.

— Que todos saibam — a voz de Isobel preencheu o salão, destituída de qualquer emoção, morta por dentro. — A Coroa de Gehenna não reconhece mais Kiara Ashworth. Ela é uma traidora, uma terrorista de Tarja Preta e Inimiga do Estado.

Ela olhou para Luka, que chorava lágrimas de ódio puro, contido apenas pelas lâminas em seu pescoço. Depois, olhou para Rum, que desviava o olhar em vergonha.

— Tragam-me a cabeça dela.

Teth soltou o ar que prendia nos pulmões.

Ele viu a dor nos olhos de Isobel e, naquele momento, a imagem que ele tinha do Rei dos Sonhos trincou mais um pouco. O Rei não era apenas um governante distante. Ele era cruel de uma forma burocrática e sádica. Ele forçou uma mãe a executar a própria filha por um capricho de lealdade.

"Isso vai mudar", prometeu Teth a si mesmo, cerrando os dentes discretamente. "Quando eu ascender ao trono... eu vou mudar esse mundo podre de dentro para fora. Mas, por enquanto... eu tenho que jogar o jogo."

Ele fez uma reverência profunda, aceitando o sacrifício de Isobel.

— A barreira será erguida imediatamente, Majestade — disse Teth, solene. — E... vendo o estado em que os Lordes Pecados deixaram este reino, farei um favor extra antes de partir. Se eles são o problema que a impede de governar, eu ajudarei a limpar a bagunça.

Ele se virou para Rum, que ainda parecia atordoada.

— Espere mais um pouco, líder da Tromluí. Sei que há alguém na cidade de Isolde que você deseja visitar... — Teth disse em voz baixa. — Então ficaremos aqui mais um pouco. Eu também tenho contas a acertar antes de voltar para casa.

As portas duplas se fecharam com um estrondo final.

A sentença foi dada. Em algum lugar de Gehenna, o preço pela cabeça de Kiara acabara de ser estipulado, e a única mãe que ela conheceu acabara de se tornar sua caçadora oficial.

Isobel permaneceu de pé até que o último guarda saísse.

— Saiam — ela ordenou aos assistentes restantes. — Todos.

Quando o salão esvaziou, a postura de ferro derreteu. Isobel caminhou, tropeçando nos próprios pés, em direção aos seus aposentos privados. Os guardas no corredor viraram o rosto, sem coragem de olhar para ela, sentindo a aura de dor que emanava da Rainha como radiação.

Assim que a porta de seu quarto se fechou, isolando-a do mundo, Isobel não conseguiu dar mais nenhum passo.

Suas pernas cederam. Ela desabou no chão frio, as saias negras espalhando-se ao redor como uma poça de tinta.

As lágrimas, represadas por séculos de controle, romperam a barragem. Não foi um choro silencioso; foi o som de algo quebrando.

— Era isso... — ela soluçou, a voz falhando, as mãos agarrando o tapete como se tentasse se segurar na realidade. — Era isso que você queria, Kiara? Me diga...

Ela ergueu o rosto banhado em lágrimas para o teto vazio, imaginando o rosto da menina que ela ensinara a jogar xadrez.

— Não havia mesmo... outra forma de terminar isso?

Isobel curvou-se até a testa tocar o chão, o grito abafado pela própria dor que só uma mãe que condenou a filha poderia entender.

Parte 12

A carruagem imperial de Mamon não viajava; ela deslizava sobre o caos.

Era uma fortaleza móvel blindada, banhada a ouro e forrada de veludo carmesim, que cortava as estradas lamacentas de Gehenna como um navio quebra-gelo. Onde antes aquele veículo transportava escravos chorosos e contratos de sangue, agora transportava a mente que reescrevia o destino do reino.

No interior climatizado e luxuoso, o silêncio era quebrado apenas pelo clac suave das peças de xadrez magnéticas e pelo zumbido grave dos motores de Éter refinado.

— Nossa... — assobiou Schrödinger.

Ele estava sentado de pernas cruzadas no banco de couro, a cauda branca chicoteando o ar em um ritmo feliz. Com a ponta de uma garra afiada, ele empurrou um Cavalo negro para a frente.

— Parece que tudo está indo exatamente conforme a partitura, não é? O Distrito da Avareza caiu sem que um único tiro real fosse disparado, e a Inveja... bem, a Ivy agora é tão obediente quanto um cão de colo.

Kiara não olhou para ele. Seus olhos, com símbolos de estrela, estavam fixos no tabuleiro. Ela moveu sua Torre, comendo o Cavalo dele sem hesitação.

— Bom, graças a você também, meu caro — respondeu ela, a voz calma, sem tirar os olhos do jogo. — Se você não tivesse completado a restauração das Relíquias Tecnológicas a tempo, estaríamos derretendo agora.

Ela apontou brevemente para a janela. Lá fora, a chuva negra batia contra um campo de força invisível, chiando como ácido.

— As barreiras que você ergueu protegeram os distritos da Inveja e da Avareza da toxicidade. É a única razão pela qual conseguimos nos mover com essa velocidade sem perder as tropas.

Schrödinger sorriu, mostrando as presas. O orgulho inflou seu peito magro. Ele era um gênio da tecnomagia, sim, mas ouvir o reconhecimento da Rainha era um combustível mais potente que qualquer Éter.

— Eu sei, eu sou incrível. — Ele apoiou o queixo na mão, as orelhas girando. — Mas me diga... O que você planejava fazer se eu não conseguisse?

— Eu tinha mais três opções — Kiara disse, movendo sua Rainha para o centro do ataque. — Mas em todas elas, acabaríamos com 30% a mais de baixas civis e danos estruturais do que eu gostaria. A eficiência é a alma da conquista, Schrödinger. O desperdício é vulgar.

Xeque.

Schrödinger olhou para o tabuleiro. Seu Rei estava encurralado. De novo.

— Que droga! — Ele jogou as mãos para o alto, as orelhas baixando em frustração. — Vinte e duas vezes seguidas! Você calcula probabilidades ou vê o futuro?

Enquanto Kiara reorganizava as peças com uma elegância mecânica, o garoto-gato inclinou a cabeça, a curiosidade tática voltando.

— Mas tem certeza disso, Chefe? Deixar todas as Coroas físicas lá na base do Mamon, trancadas no cofre? Não é meio perigoso? Se alguém invadir e roubar...

Kiara riu. Foi um som baixo, seco.

— Você ainda pensa pequeno. — Ela pegou uma peça de Peão e a girou entre os dedos. — As Coroas físicas são apenas carcaças, recibos de metal para mana condensada. O valor delas no Jogo do Rei é atrelado à alma do portador, não ao objeto. Mesmo que alguém roube o metal, não levará a contagem.

— Tá, mas... — Schrödinger insistiu, os olhos semicerrados. — Você não é do tipo que deixa recursos para trás sem motivo.

— Eu vou precisar daqueles núcleos — admitiu ela, olhando pela janela blindada para a paisagem devastada. — A mana contida neles servirá de combustível para algo maior. Uma hora, vou precisar usar tudo de uma vez.

A carruagem começou a desacelerar. O zumbido do motor caiu para um ronco suave.

Do lado de fora, o som de cascos chapinhando na lama negra aproximou-se. Um dos mensageiros de Mamon, vestido com capa de chuva e máscara de gás, emparelhou seu cavalo mecânico com a janela da carruagem. Ele bateu no vidro blindado.

Kiara abriu a janela apenas o suficiente para passar uma mão. O cheiro de óleo queimado e enxofre invadiu a cabine perfumada, quebrando o clima de segurança.

O mensageiro entregou um jornal enrolado e recuou rapidamente.

Kiara desenrolou o papel. A manchete gritava em letras vermelhas garrafais, sancionada lado a lado pelos selos reais de Isolde e do Rei dos Sonhos.

PROCURADA: KIARA ASHWORTH. TERRORISTA DE TARJA PRETA. VIVA OU MORTA.

Schrödinger esticou o pescoço felino para ler e soltou um assobio longo e impressionado.

— Uau. Tarja Preta? Sua mãe não está para brincadeira. Ela acabou de colocar cada caçador de recompensas, cada mercenário e cada lunático do continente no seu encalço. O preço pela sua cabeça deve comprar um reino pequeno.

Kiara não rasgou o papel. Ela não franziu o cenho. O tremor que sentira no terraço, a influência de Anna, foi esmagado por uma vontade de ferro.

Pelo contrário, um sorriso lento, frio e terrivelmente lúcido curvou seus lábios.

— Claro que ela fez isso — disse Kiara. A voz era destituída de surpresa, como se comentasse a previsão do tempo. — Ela é a Rainha, afinal. Para Isobel, o dever sempre vem antes do amor. Ela sacrificaria o próprio coração, e o da filha, para manter seu povo seguro.

Schrödinger a encarou, procurando qualquer sinal de dor nos olhos estelares, qualquer rachadura na armadura. Encontrou apenas o abismo.

— Essa risada... — ele murmurou, as orelhas tremendo. — Me diga a verdade... até ser traída pela sua própria mãe fazia parte do seu plano?

Kiara dobrou o jornal meticulosamente, alinhando as bordas, e o colocou sobre o assento de veludo.

— Se você não conseguir descobrir isso por si mesmo, meu caro... nunca vai conseguir me vencer no xadrez.

A carruagem parou com um solavanco suave.

A porta se abriu. O ar úmido e podre entrou.

Eles desceram. O cenário diante deles não era uma cidade de luzes ou uma fortaleza industrial. Era uma ruína gótica colossal, erguida sobre um pântano de águas estagnadas. Torres quebradas furavam o céu cinzento como costelas expostas, cobertas por vinhas espinhosas. O ar ali era pesado, carregado com um cheiro adocicado e enjoativo de fermentação e especiarias antigas.

— Então esse é o seu antigo castelo? — perguntou Schrödinger, tapando o nariz sensível. — O Distrito da Gula?

Diante dos portões enferrujados, duas figuras aguardavam na chuva fina.

Ivy Zelos, com o rosto ainda marcado pela surra, mas curado superficialmente pela magia, e Mamon Sterling, suando frio em suas vestes caras agora manchadas de lama. Ao verem Kiara descer, ambos, Lordes orgulhosos de Gehenna que um dia governaram o mundo, ajoelharam-se na lama sem hesitação. A submissão era total. Eles eram móveis no cenário dela.

Kiara passou por eles sem diminuir o passo, sem um olhar, apenas acenando com a cabeça como quem dispensa criados invisíveis.

Ela colocou a mão enluvada sobre a madeira podre. O castelo inteiro estremeceu, como um estômago roncando.

— Acorde, Balthazar Gulaen, o Lorde Pesadelo da Gula. — A voz dela ecoou nas fundações. — Seu longo sono terminou. O jantar está servido.

Ela parou diante das portas gigantescas do castelo. A madeira estava inchada, úmida e escura, parecendo uma boca aberta esperando para devorar o mundo.

— Pois bem — disse Kiara. Seus olhos brilharam com a antecipação de quem vai abrir a jaula de um animal faminto. — Chegou a hora de despertar nosso velho companheiro.

Ela retirou a luva de couro. Com a mão nua e pálida, tocou a madeira podre.

— Acorde, Balthazar Gulaen, o Lorde Pesadelo da Gula. — A voz dela não foi um grito, foi uma injeção de vontade nas fundações. — Seu longo sono terminou. O jantar está servido.

Como em resposta, o castelo não apenas estremeceu; ele inspirou.

O ar ao redor dos portões foi sugado violentamente para dentro das frestas da madeira, criando um vácuo súbito que fez as capas de Ivy e Mamon estalarem como chicotes. A pressão atmosférica caiu.

Do interior profundo da fortaleza, um som baixo começou a subir. Não era um rugido de guerra. Era o ronco tectônico, úmido e gutural de um estômago vazio que não era alimentado há séculos.

Schrödinger recuou um passo instintivamente, as orelhas coladas ao crânio, o pelo da cauda eriçado como uma escova de arame eletriza.

— Pelos Deuses... — murmurou o gato, sentindo a vibração subir pelas solas de suas botas. — Então as lendas eram reais? Esse é o som da fome de um Gevaudan?

Kiara permaneceu imóvel, sentindo a onda de choque passar por ela, balançando seus cabelos brancos. Mas, por uma fração de segundo, sua atenção se dividiu. Ela sentiu Anna se agitar violentamente no Palácio Mental, perturbada pela maldade pura e faminta que emanava daquele lugar.

"Apenas observe, Anna", pensou Kiara, fechando os olhos brevemente e forçando a inquilina de sua mente a se calar. "O mundo é feito de dentes. E nós seremos a mandíbula que morde por último."

Ela abriu os olhos. A chuva de óleo aumentou, transformando o horizonte em uma cortina negra impenetrável.

O tremor causado pelo despertar da Gula não ficou contido ali.

Ele viajou pela terra encharcada como uma onda sísmica. Correu pelas raízes mortas do subsolo, vibrou através das poças de lixo tóxico, sacudiu as estruturas dos distritos vizinhos e seguiu quilômetros a Oeste, atravessando a desolação de Gehenna.

A vibração ignorou fronteiras, ignorou a chuva e ignorou o medo, até alcançar uma região onde a lama era mais profunda e o céu, mais baixo.

Parte 13

A Cidade do Encosto, encravada na fronteira nebulosa entre o Reino dos Sonhos e o território selvagem dos Pesadelos, sempre fora um purgatório de transição. Mas sob o céu que agora chorava, ela parecia o próprio inferno.

A chuva não era água. Era uma bile negra, espessa e oleosa, que tamborilava nos telhados de zinco e transformava as ruas de paralelepípedos em rios de lama tóxica.

Olivier e Laeticia caminhavam atrás, mantendo uma distância respeitosa — e, francamente, apavorada — da mulher que ia à frente.

— Eu estou preocupada, Olivier... — sussurrou Laeticia, puxando o capuz para se proteger do cheiro químico que ardia nas narinas. Seus olhos corriam da figura à frente para o horizonte cinzento onde o resto do grupo desaparecera. — Será que eles realmente chegaram seguros? O Mumei estava mal...

— Não faço a menor ideia — respondeu Olivier, a voz um fiapo de som, quase engolida pelo ruído da chuva. — Mas, estatisticamente, eles devem estar mais seguros do que a gente neste momento.

Ele ajeitou a gola do casaco com um tique nervoso, limpando uma gota de óleo viscoso que caíra em seus óculos redondos.

— Sabe que não tivemos escolha, Lae. Tivemos que mandar a mensagem para que seguissem sem nós até o distrito da Tromluí. Lá, sob a proteção dos remanescentes da Rum, é o lugar mais fortificado. E, com certeza, é mais seguro do que viajar ao lado... daquilo.

Ele apontou discretamente com o queixo.

A mulher parou.

Ela havia dizimado um acampamento inteiro de sequestradores nas ruínas antigas minutos atrás. Fizera isso com a casualidade de quem espana poeira de uma prateleira. Agora, ela usava um conjunto de roupas de couro mal-ajustadas, pilhadas dos cadáveres dos bandidos. A jaqueta estava apertada nos ombros largos, e as calças tinham manchas de sangue que não eram dela, mas a brutalidade do traje contrastava bizarramente com sua postura atual.

Ela estava parada diante de uma vitrine suja de uma loja abandonada.

Maysa inclinou a cabeça, observando os manequins de plástico e as joias falsas expostas no vidro com uma seriedade acadêmica, quase científica. Seus olhos, fendas verticais de predador, analisavam o plástico brilhante como se fossem relíquias sagradas de uma civilização extinta.

Ela estendeu a mão e tocou o vidro. Seus dedos deixaram uma marca na superfície empoeirada. Ela franziu a testa, genuinamente confusa sobre a barreira invisível que a impedia de tocar o objeto.

— E agora? — Laeticia apertou o braço de Olivier, as unhas cravando no tecido. — O que devemos fazer?

— Não temos escolha. Prometemos a ela, lembra? Temos que levá-la até "alguém forte".

— Eu ainda não entendi bem por que essa daí está caçando alguém forte... — Laeticia engoliu em seco, o medo fazendo sua garganta estalar. — Mas tenho a sensação de que estamos guiando uma assassina para sua próxima vítima, sabia?

Olivier abriu a boca para responder, mas o ar mudou.

A mulher girou sobre os calcanhares. O movimento não foi humano; foi fluido, instantâneo, sem o peso da inércia. A transição de "criança confusa com a vitrine" para "entidade soberana" foi aterrorizante.

Ela caminhou até eles, suas botas chapinhando na lama negra, ignorando a sujeira que respingava.

Guia.

A voz dela não tinha impaciência humana. Tinha apenas a cobrança calma e absoluta da natureza.

— O tempo está escorrendo e meu útero permanece vazio. A que distância temporal estamos do "Espécime Alfa" que você prometeu?

Olivier e Laeticia se entreolharam, o pânico trocando faíscas elétricas entre eles. Olivier, recuperando sua máscara de malandro por puro instinto de sobrevivência, forçou um sorriso galante, embora o canto de sua boca tremesse.

— Acalme-se, minha cara! Devemos chegar logo. Estamos apenas... hã... calculando a rota logística para o melhor oponente disponível. Então, senhorita...

Ele parou, percebendo a falha óbvia.

— É verdade, que indelicadeza a minha. Esqueci de nos apresentar formalmente no calor da batalha. Meu nome é Olivier, e esta ao meu lado é a encantadora Laeticia. Se importaria de nos agraciar com a pronúncia do seu nome?

A mulher piscou lentamente. Foi como ver uma coruja processando o comportamento errático de um rato antes de decidir se valia a pena comer.

— Ah... vocês utilizam etiquetas sonoras... — murmurou ela, tocando o próprio lábio inferior, pensativa. — Suponho que a rotulagem seja necessária para vocês me servirem com eficiência.

Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Olivier. Seus olhos predadores focaram nele, mas a voz saiu suave, um sussurro íntimo e perigoso.

Maysa.

— Maysa! Lindo nome! Exótico, sonoro... — Olivier elogiou rápido demais, suando frio. — Bem, Senhorita Maysa... já que estamos nessa busca tão específica, a senhorita teria alguma preferência? Sabe... para facilitar a triagem do "alvo".

Ele tentou fazer um gesto casual com as mãos, como se fosse um casamenteiro.

— Um homem alto? Moreno? Talvez uma mulher guerreira? Como essa pessoa forte será seu consorte, imagino que a atração física, a química, seja algo importante, não?

Maysa inclinou a cabeça para o lado novamente. A expressão dela mudou para uma incompreensão fofa, porém aterrorizante.

— Atração? — Ela repetiu a palavra como se fosse um termo em língua morta.

Ela avançou mais um passo. Olivier recuou até bater as costas em um poste de luz. Maysa segurou o queixo dele, virando o rosto do rapaz para a esquerda e para a direita, inspecionando-o como quem avalia os dentes de um cavalo ou o peso de um gado para o abate.

— A estética da casca é irrelevante, humano. Gênero é irrelevante. Espécie é irrelevante.

Ela soltou o rosto dele e ergueu a própria mão, observando as garras retraídas com desinteresse clínico.

— Eu não busco o atrito de peles por prazer recreativo. Eu requeiro material genético superior. Um progenitor capaz de suportar a fusão com a minha essência para gerar a Arma Final. Alguém capaz de criar aquilo que eu, sozinha, não posso caçar.

Ela baixou a mão e sorriu. Foi um sorriso pequeno, lindo e absolutamente gelado.

— Se ele for feio, eu posso simplesmente cobrir o rosto dele com um pano durante o processo. A eficiência reprodutiva é a única métrica.

Olivier encarou Laeticia, que estava pálida como papel. A "mulher-demônio" não queria um namorado; ela queria um laboratório genético vivo.

— Ah... — Olivier soltou uma risada nervosa, histérica. — Entendo. Biologia pura e aplicada. Então acho que não preciso me preocupar com reservas para jantares românticos à luz de velas, né?

Maysa ignorou a piada, considerando-a ruído desnecessário.

De repente, as narinas dela dilataram sutilmente. A postura relaxada evaporou.

Seus olhos, antes focados na mediocridade de Olivier, chicotearam para o horizonte, na direção Leste.

Silêncio. — ordenou ela. A voz saiu baixa, mas pesada como chumbo derretido. — O que reside naquela direção?

Olivier seguiu o olhar dela. Através da névoa de óleo e da chuva, a silhueta distante de montanhas podia ser vista, brilhando fracamente.

— Pera... tem algo para aquele lado?

Laeticia semicerrou os olhos, limpando a chuva do rosto.

— Aquilo é a fronteira de novo. E mais à frente, se não me engano... fica a Cidade de Cristal. A Capital dos Sonhos.

Ela olhou para Maysa, curiosa.

— Por que a pergunta, Senhorita Maysa? Sentiu algo?

Maysa continuou encarando a direção da capital por um longo momento. Os olhos semicerrados, as pupilas vibrando.

Havia uma turbulência lá. Uma assinatura de energia massiva. Talvez a presença divina da Santa Saga... ou talvez a anomalia do Grimm preso na Biblioteca. Fosse o que fosse, fez os instintos biológicos de Maysa vibrarem como uma corda de violino prestes a arrebentar. Poder. Poder bruto.

Mas, tão rápido quanto o interesse surgiu, a expressão dela voltou ao tédio habitual.

— Verde demais... — murmurou ela para si mesma, balançando a cabeça.

Ela soltou um suspiro de decepção, como alguém que morde uma fruta bonita e descobre que ainda não está madura.

— Acho que não vale a pena colher agora. — decretou ela, voltando a andar e passando por Olivier e Laeticia sem olhar para trás. — Vamos. Tragam-me algo de qualidade, Guias. Ou minha paciência acabará antes da chuva.

Olivier e Laeticia trocaram um olhar apavorado e correram para segui-la, chapinhando na lama tóxica, rezando para que o próximo "alvo" que encontrassem não fosse eles mesmos.

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