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The Fall of the Stars: Capítulo 1 - Cidade Baixa

  • Foto do escritor: AngelDark
    AngelDark
  • 7 de abr.
  • 53 min de leitura

Volume 12 : Bem-vindos a Siracusa


Parte 1

O céu não existia na Cidade Baixa de Siracusa.

Olhar para cima era deparar-se com um teto asfixiante de fiações expostas, cabos de alta tensão e tubulações industriais trançadas como uma colossal teia de aranha metálica. A luz do sol jamais havia tocado o asfalto irregular. A iluminação ali nascia e morria no zumbido elétrico dos letreiros de neon, que sangravam vermelho, roxo e verde sobre as poças de óleo e lodo químico acumuladas no chão.

A arquitetura zombava da gravidade. Contêineres de carga enferrujados, moradias remendadas e barracos de sucata empilhavam-se uns sobre os outros, costurados por escadas de incêndio que rangiam a cada rajada do vento viciado.

Caminhando pelo núcleo desse caos, Luck mantinha os ombros tensos e as mãos afundadas nos bolsos. Os olhos dourados varriam as ruelas. Ele virou o rosto abruptamente quando um bueiro ao seu lado cuspiu uma nuvem espessa de fumaça preta, densa o suficiente para mascarar o cheiro crônico de lixo úmido e ferro oxidado que impregnava o ar.

— Vou ser bem sincero com você... — Luck tossiu, afastando a fuligem do rosto com as costas da mão. — Não era exatamente isso que eu esperava quando você me convidou para vir até Elysium.

Ao seu lado, Chuya caminhava com passadas mudas e seguras, as mãos também nos bolsos do casaco. Uma risada curta e anasalada escapou de seus lábios.

Ao redor da dupla, a vida na Cidade Baixa fervia com uma naturalidade enlouquecedora. Pessoas usando roupas de couro sintético e máscaras de gás baratas lotavam os becos. Mas o peso da miséria estrutural não esmagava o humor de ninguém. Entre o barulho de motores e o zumbido das luzes, ouviam-se gargalhadas soltas. Grupos faziam apostas aos berros na calçada, pichavam os muros de metal ou devoravam comida de rua com cheiro de gordura quente.

Na esquina mais próxima, um robô de limpeza capenga — com o chassi devorado pela ferrugem e um braço faiscante pendurado por um fio grosso — varria manchas de sangue seco com total indiferença mecânica.

— Quer dizer, eu imaginei um lugar barra-pesada, considerando o seu estilo... — Luck continuou. Ele observou um homem colossal, com um braço inteiramente cibernético, tragando um cigarro eletrônico encostado em um tambor de lixo em chamas. — Mas eu esperava mais. Sei lá. Carros voadores, internet absurdamente rápida, robôs reluzentes. O futuro utópico dos comerciais de TV. Não um terminal cinza.

Chuya olhou para as fachadas encardidas das lojas clandestinas. A nostalgia que o atingiu pesava como chumbo, mas repuxou o canto de sua boca em um sorriso discreto.

— Você não errou na sua imaginação, Luck — a voz de Chuya carregava uma ironia leve. — Existem várias cidades em Elysium que são exatamente isso: o paraíso tecnológico da ficção científica. Prédios de vidro, luz solar artificial calibrada, carros flutuantes e cidadãos com roupas brancas que nunca mancham.

Eles abriram espaço na rua para um transeunte passar. Era um indivíduo de terno surrado, mas o colarinho não sustentava uma cabeça humana; no lugar, um cefalópode avermelhado repousava sobre os ombros. Os tentáculos úmidos do homem-polvo contorciam-se lentamente no ar enquanto ele lia, como se fosse uma terça-feira qualquer, um jornal holográfico que piscava com mau contato.

Os olhos de Luck travaram na criatura, divididos entre o desconforto e o fascínio biológico.

— Mas o negócio é que Siracusa é diferente — Chuya apontou o queixo para o letreiro falho de um motel barato que estalava acima deles. — Siracusa não é a vitrine. Nós somos o depósito de tranqueiras de Elysium. Como não somos governados por um dos líderes científicos da Rosa-Cruz, não ganhamos as mesmas cotas de milagres e privilégios.

Luck absorveu o choque visual. A mais alta tecnologia cibernética estava afogada no esgoto social. O absurdo era o novo normal.

— Entendi... — sussurrou o garoto de terno branco. — Deve ser difícil viver aqui.

Os passos de Chuya hesitaram por uma fração de segundo. Ele virou o rosto para o colega, o maxilar endurecendo em um leve incômodo territorial.

— Não me entenda mal. É um porre viver nessa cidade. É uma batalha suja todos os dias — Chuya ajustou a gola do casaco contra o vento químico. — Mas, antes de cravar um julgamento, tente olhar com mais atenção. Pode anotar: por mais quebrado que seja este lugar, não existe buraco mais livre do que este para se viver.

Luck calou-se. A confusão inicial ainda ecoava em sua mente, mas ele não detectou mentira ou frases de efeito vazias no timbre de Chuya. Se o amigo, que conhecia as entranhas daquele asfalto, pedia uma segunda olhada, havia algo ali. O garoto de cabelos vermelhos estreitou os olhos para as luzes de neon e decidiu, pelo menos por enquanto, reservar sua sentença. 

Parte 2

Ao virar a esquina, o ritmo de Chuya mudou. A caminhada tornou-se fluida, automática. Ele desviava de poças de ácido e goteiras fumegantes de bueiros com a memória muscular de quem havia mapeado cada rachadura daquele asfalto. Luck percebeu e o seguiu, notando a vibração do ar pesar, mas, ao mesmo tempo, ganhar cadência.

O silêncio não existia ali. Um emaranhado de fios elétricos e gambiarras cruzava o teto do beco como trepadeiras, sangrando luzes de neon rosa e verde sobre a neblina rasteira. De uma janela enferrujada no segundo andar, um rádio velho cuspia música — um punk rock agressivo atropelado pelo som distorcido de um saxofone de jazz. Era a batida cardíaca, suja e frenética do distrito.

O alvo de Chuya era uma fachada de tijolos espremida entre dois blocos metálicos: a lanchonete de sua família. Mas o local passava por uma "reforma" não solicitada.

Três marginais, ostentando jaquetas de couro entupidas de rebites e implantes cromados de quinta categoria, espancavam as lixeiras e arremessavam as cadeiras de plástico da calçada contra a parede. O maior deles ergueu um taco de beisebol eriçado de pregos e berrou para a rua:

— Parou essa merda! Todo mundo pra dentro! A nossa gangue veio tomar a porra deste quarteirão pra valer!

Em vez de trancas girando e gritos de pânico, o beco respondeu com um bocejo coletivo. Janelas basculantes abriram-se lentamente. Moradores debruçaram-se nos parapeitos segurando xícaras de café e cigarros, acomodando-se como quem senta no sofá para assistir a um programa matinal.

— Lá vão eles... — resmungou um ciborgue velho da varanda de cima, coçando a mandíbula de metal exposta. — Nossa, os jovens hoje em dia tão com uma energia sobrando, hein?

O líder da gangue abriu a boca para xingar o velho.

BAM!

A pesada porta de aço dos fundos da lanchonete foi ejetada das dobradiças. A chapa metálica cortou o ar como um tiro de canhão, chocou-se contra o lacaio da direita e o prensou contra a parede do outro lado da rua. Ele escorregou para o chão, achatado e apagado.

Pisando sobre a própria porta destroçada, a anfitriã surgiu.

Francesca, a tia de Chuya, exalava a aura de um reator nuclear prestes a derreter. Ela vestia um avental grosso, encardido de graxa e óleo de fritura. Um cigarro aceso balançava preso no canto dos lábios. A mão direita empunhava uma enorme frigideira de ferro fundido, tão quente e imersa em gordura que sibilava, cuspindo fumaça branca no ar.

O líder da gangue arregalou os olhos. Francesca não discursou. Ela explodiu para a frente.

Não foi uma briga de rua; foi um massacre coreografado. Ela moveu-se com uma fluidez brutal. A frigideira afundou em costelas e crânios no exato contratempo do saxofone que berrava no rádio acima. Ela esquivou-se do taco de beisebol abaixando o tronco, girou sobre o calcanhar e cravou o joelho no queixo de um punk. Emendou com uma panelada na lateral do rosto do líder, que soou alto como o badalar de um sino de igreja rachado.

A arquibancada improvisada nas janelas assobiou.

— Dez pratas na dona Fran! — alguém gritou lá de cima.

— Vinte que ela nem deixa a cinza do cigarro cair! — apostou outro, rindo alto.

E a física pareceu curvar-se à regra. A longa coluna de cinza na ponta do cigarro oscilou, mas permaneceu intacta mesmo quando Francesca cravou a bota de bico de aço no meio do rosto do último marginal. O líder tombou de costas, cuspindo dentes no asfalto molhado. A mulher encerrou a apresentação pisando pesadamente sobre o peito dele. Tragou o cigarro e soltou a fumaça pelas narinas, abrindo um sorriso predatório de pura satisfação.

A quinze metros dali, Luck travou os músculos. O instinto forjado nas lixeiras de sua própria infância berrou alerta vermelho.

Mas uma mão enluvada pesou sobre o seu ombro.

Chuya estava parado ao seu lado, rindo baixo e balançando a cabeça.

— Calma aí. É só o comitê de boas-vindas. — Os olhos de Chuya brilhavam com um conforto inegável. — Realmente, não mudou nada.

Luck soltou o fôlego e relaxou os ombros devagar. Ele olhou para as janelas, onde as pessoas agora trocavam as notas das apostas. No mundo que Luck conhecia, vielas esquecidas como aquela cheiravam a medo, e o som da violência era o choro. Mas ali... a violência era comunitária. Catártica. O quarteirão tinha um pulso caótico, quente e absurdamente teimoso. Aquela pulsação impedia o asfalto cinzento de ser um cemitério de esperanças.

O espetáculo acabou, e a plateia voltou à rotina mecânica, como se o espancamento fosse apenas o intervalo comercial.

— Ô, Fran! Tamo descendo pra comer! — gritou um mecânico da calçada oposta. — Vai deixando o rango na chapa!

Francesca tirou a bota do peito do arruaceiro nocauteado e apontou a frigideira fumegante para o cliente.

— Quem você acha que eu sou?! — esbravejou ela. A voz autoritária cobriu o barulho da rua, mas carregava um humor ríspido. — Eu não preciso de aviso prévio! Sentou na minha mesa e pediu, a comida tá servida no mesmo instante! As únicas coisas que eu definitivamente não aceito dentro do meu estabelecimento... são barriga vazia e carteira vazia! Entenderam bem?!

O grupo de moradores comemorou a bravata, rindo alto enquanto se dispersava em direção à porta da frente da lanchonete.

Satisfeita, Francesca ignorou os corpos gemendo no asfalto. Limpou as mãos no avental, inclinou-se e agarrou a pesada chapa da porta de aço pela borda amassada. Começou a arrastá-la de volta para os fundos do restaurante com um rangido infernal.

Ao girar o corpo para olhar a rua, no entanto, ela travou.

O braço relaxou. A frigideira desceu. A cinza do cigarro, que havia sobrevivido a toda a coreografia violenta, finalmente se desprendeu e esfarelou-se no chão. Os olhos afiados da mulher cruzaram a luz de neon e focaram na calçada, parando diretamente sobre a figura de cabelos brancos que sorria com as mãos nos bolsos.

— Parece que o boca-livre voltou.

Chuya abriu os braços. — Ei, isso é jeito de receber o seu sobrinho?!

Observando a interação em silêncio, um sorriso contido surgiu no rosto de Luck. Aos poucos, ele finalmente começava a entender como Chuya havia se tornado exatamente daquele jeito.

Parte 3

A entrada da lanchonete era um portal para outro mundo. Longe do asfalto frio da rua, o interior do estabelecimento exalava um calor familiar e caótico.

Os azulejos brancos das paredes estavam encardidos pelo tempo, mas quase não se podia notar a sujeira por baixo das centenas de fotografias Polaroid espalhadas por toda parte, mostrando clientes rindo, gangues locais comendo e moradores brindando. Fios de luzes coloridas de Natal, algumas piscando fora de ritmo, cruzavam o teto baixo. O cheiro era uma agressão maravilhosa aos sentidos: uma mistura indescritível de fritura incrivelmente boa com o odor acre de óleo de motor. Era um lugar feio e apertado, mas pulsava com uma vida e um acolhimento que a Cidade Baixa não deveria ter.

Assim que pisaram no piso de linóleo, uma sombra imensa bloqueou a luz do balcão.

— Ai, que saudade eu já tava, garoto!

Antes que Chuya pudesse reagir, foi engolido por um abraço de urso que lhe tirou os pés do chão. O tio Giorno era uma montanha de homem, mas com os olhos mais gentis que Luck já tinha visto. Ele apertava o sobrinho contra o peito largo com a alegria de um pai.

— Tá bom! Tá bom! — Chuya engasgou, batendo nas costas largas do homem. — Maldito urso, vai me quebrar antes de eu conseguir pedir a comida!

Giorno soltou uma risada grossa e afável, colocando o garoto no chão. O contraste era cômico. Enquanto a tia Francesca era uma tempestade de violência e boca suja lá fora, o tio Giorno era a calmaria em pessoa, com um sorriso pacífico que irradiava hospitalidade.

Chuya ajeitou a gola do casaco, respirando fundo o ar pesado da lanchonete. — Impressionante. Esse cheiro de banha e óleo queimado nunca muda...

TOC!

Uma concha de metal voou lá do fundo da cozinha e acertou a parte de trás da cabeça de Chuya com a precisão de um atirador de elite.

— Senta logo essa bunda numa cadeira e fica quieto! — a voz arranhada de Francesca berrou de trás do balcão, enquanto as panelas chiavam. — Tem comida saindo pra você e pro seu amigo! E se reclamar do cheiro de novo, eu te frito no óleo da batata!

Luck, ainda deslocado no meio daquela brutalidade afetuosa, encolheu os ombros. — Ah, senhora... não precisava se incomodar com a minha refeição...

A mulher de avental sujo espiou pela janela da cozinha, erguendo uma sobrancelha. — Ora, ora. Quem diria que eu veria um amigo tão educado acompanhando esse moleque boca-suja. — Francesca apontou a espátula para uma mesa no canto. — Pode ir se sentando, garoto. Como eu já disse lá fora, não aceito barriga vazia no meu restaurante.

Chuya massageou a nuca dolorida e soltou uma risada nasalada. — Chamar este cubículo de "restaurante" é ter muita autoestima... — murmurou, puxando uma cadeira de plástico para Luck. — Mas senta aí. A comida é, surpreendentemente, uma das poucas coisas que se salvam neste lugar.

Acomodado na cadeira, Chuya puxou um maço do bolso e levou um cigarro aos lábios. Antes que pudesse acender o isqueiro, Francesca materializou-se ao lado da mesa como um fantasma furioso. Ela arrancou o cigarro da boca dele e desferiu um cascudo tão violento no topo de sua cabeça que o estalo ecoou pelo salão.

Um galo instantâneo começou a crescer na cabeça do garoto.

— Olha a boca, pirralho maldito! — Francesca esbravejou, colocando as mãos na cintura. — Quantas vezes eu já te disse para não fumar aqui dentro?! Sabe o inferno que é para eu conseguir deixar o ar aqui puro?!

Chuya grunhiu, esfregando a cabeça. — Bruxa velha hipócrita! Como tem coragem de falar do ar quando você mesma passa o dia inteiro fumando em cima das panelas?!

— É diferente e você sabe disso! — ela retrucou, orgulhosa. — Eu posso fumar. A minha habilidade mágica me permite queimar e controlar a composição dos gases que eu exalo. A minha fumaça é completamente neutra e sem cheiro. A sua, não.

Chuya estalou a língua no céu da boca, irritado. — E é exatamente por causa desse seu ar "puro" aqui dentro que me deu vontade de fumar.

Luck, que observava a dinâmica maluca, olhou para a janela e viu as pessoas de máscara passando pela calçada. A palavra "gás" acendeu uma lâmpada em sua mente. — Peraí... é por isso que o pessoal lá fora usa máscara de gás o tempo todo? Por causa da poluição e do tabaco no ar da rua?

Chuya negou com a cabeça, ajeitando-se na cadeira. — Não é por causa de fumaça de cigarro ou de escapamento de carro, Luck. É Éter.

Diante da confusão do garoto de cabelos claros, Chuya explicou com a naturalidade de quem fala sobre a previsão do tempo: — Em Elysium, a concentração do uso de Éter é altíssima. Todo maquinário, toda engenhoca e boa parte da população usam essa energia ativamente. Isso acaba impregnando o ar com partículas de Éter bruto residual. Na maioria dos lugares dominados por Shapers — usuários como nós, que já manipulam a energia —, ninguém liga. Éter bruto é completamente inofensivo para os nossos pulmões. A gente respira isso como se fosse oxigênio.

Chuya apontou para a rua pela janela encardida. — Mas, para humanos normais, que não têm o corpo adaptado... esse gás residual é altamente tóxico. Eles precisam das máscaras pra não envenenarem o próprio sangue. Nos distritos ricos e nas cidades mais bonitas que você imaginou, o governo instala purificadores de ar atmosféricos gigantescos pra limpar as ruas. Mas aqui embaixo, na Cidade Baixa? Eles não estão nem aí. Deixam a neblina tóxica acumular.

O senso de justiça de Luck inflamou. O garoto apertou os punhos sobre a mesa de fórmica, revoltado com o abismo social. — Isso é um absurdo! Como o governo de Siracusa simplesmente abandona as pessoas assim? Eles estão matando os próprios moradores normais sufocados!

Francesca escutou o desabafo enquanto colocava duas travessas enormes de comida fumegante sobre a mesa. Ela soltou uma risada rouca. — Faz tempo que eu não vejo alguém de fora genuinamente preocupado com isso.

— Dá um desconto pra ele, tia — Chuya interveio, pegando os hashis. — De onde ele veio, regras ignoradas assim geralmente são feitas de propósito, puramente para fazer mal e matar as pessoas comuns.

Francesca limpou as mãos no avental sujo, com um sorriso de puro orgulho punk curvando os lábios, enquanto olhava para Luck com um afeto bruto.

— Entenda uma coisa sobre a Cidade Baixa, garoto — Francesca explicou, de forma pragmática e quase bem-humorada. — De fato, não seria nada mau ter o ar branquinho, puro e cheiroso lá da Cidade de Cima. Mas você acha que o governo ia nos dar isso de graça? O preço daqueles purificadores com certeza seria tirado diretamente dos nossos bolsos suados, na forma de impostos que não podemos pagar.

Ela se inclinou sobre a mesa, os olhos brilhando com uma resistência teimosa. — Além disso... se o ar daqui fosse bom de respirar, teríamos que ficar nos preocupando com aquele bando de gente engravatada, rica e chata andando pelas nossas ruas, enfiando o nariz onde não é chamada e ditando as regras dela na nossa casa.

Francesca bateu no peito com orgulho. — Esse gás tóxico aqui embaixo é o que mantém os idiotas ricos e as forças da Cidade de Cima longe da nossa porta. Pra nós, não é veneno. É escudo. É o preço estipulado pela nossa liberdade. Agora... comam antes que esfrie.

Parte 4

O som molhado do caldo sendo sorvido preenchia a mesa. Chuya mastigava com pressa, mas seus olhos varriam o salão, conectando os pontos do que vira na rua lá fora.

— Sabe, Bruxa... — Ele engoliu a comida de forma audível, apontando o hashi no ar. — Eu notei que algumas ruas mudaram desde a última vez. Mais postos médicos, mais hospitais improvisados. E o nível de baderna caiu bastante. Achei estranho só brotarem três gatos pingados daquela gangue que você amassou.

Francesca secou as mãos no avental. O sorriso agressivo suavizou-se, cedendo espaço a um respeito contido.

— As coisas estão acalmando por aqui, moleque. Desde que o Yoh assumiu a liderança da Rosa Azul, ele começou a fazer umas melhorias reais. Pouco a pouco, tá aplicando o que a rua pedia. O cara até aumentou a verba de segurança e a infraestrutura do comércio local aqui da Cidade Baixa.

As sobrancelhas de Chuya subiram.

— Yoh, é? Lá na Cidade de Metal eu ouvi uns boatos sobre esse cara, mas nunca cruzei com ele. Que bom. Pelo menos não se sentou na cadeira só pra repetir a cartilha dos antigos engravatados.

À frente dele, Luck mastigava o seu lámen em silêncio. A engrenagem política daquele lugar era uma anomalia. Então a Rosa Azul é, na prática, uma máfia controlando a infraestrutura pública..., o garoto pensou, engolindo o caldo quente. Isso é conhecimento aberto nas ruas, mas eu não faço a menor ideia de quem seja o prefeito oficial de Siracusa.

Limpando o balcão ao lado da mesa, o sempre pacífico tio Giorno soltou um suspiro pesado. A flanela parou sobre a madeira.

— É... a situação seria quase perfeita se não fosse o tráfico de Areia Escarlate voltando a engolir os becos.

Luck paralisou. O hashi parou a meio caminho da boca. O instinto tático de caçador estalou em sua espinha.

— Areia Escarlate? O que é isso?

O punho de Francesca desceu sobre o balcão. O baque seco da madeira cortou a explicação antes que Giorno abrisse a boca.

— Chega de política de calçada. — A mulher cravou os olhos no sobrinho. — Você não pisou aqui só pra comer e ter nostalgia de esgoto, Chuya. Teria sumido na primeira chance. Eu aposto o meu avental encardido que você tá doido pra meter o pé e voltar pra sua vidinha de caçador.

Chuya soltou uma risada ríspida, mas culpada.

— Não vou negar. Mas, antes do assunto principal, tem um negócio muito bizarro que eu preciso entender.

Ele esticou o braço, apontando a ponta de madeira do hashi para o canto mais sombrio do restaurante.

Perto da porta do banheiro, repousava uma estátua grotesca talhada em obsidiana negra. Era uma abominação demoníaca de chifres grossos, fileiras de dentes afiados e asas retorcidas. O horror cósmico da peça, no entanto, havia sido brutalmente profanado pelo espírito de boteco: o demônio vestia um chapeuzinho de festa prateado amarrado no chifre e, aos seus pés, clientes haviam enfileirado copos de cerveja pela metade, como oferendas boêmias.

— Que porra é aquela? — Chuya indagou.

Francesca olhou para o demônio festivo. Começou a rir, polindo um copo de vidro com força.

— Aquilo? Ah, dizem que ter uns demônios por perto atrai proteção pro comércio e "dá uma bela agitada nas noites de sexta". Pelo menos foi o que o Yoh disse quando mandou espalhar essas coisas pelos distritos. Demorei a engolir a utilidade dessa feiura, mas deu certo. A clientela adora.

Chuya e Luck trocaram um olhar denso. O grotesco não apenas invadira a cidade; ele fora convidado para o happy hour.

— Tá bom... — Chuya ergueu as palmas em rendição. — Não quero nem saber o que isso significa. Não vou caçar confusão de graça, até porque eu odeio trabalhar.

— Ainda não largou esse roteiro de preguiçoso, né? — Francesca balançou a cabeça. — Eu devia ter batido mais na sua cabeça quando você era menor. Teria consertado essa postura.

O garoto ignorou a provocação. O som da madeira bateu na mesa quando ele soltou os hashis. Chuya cruzou os braços e o corpo tensionou. A fachada irônica evaporou, puxando a temperatura da mesa para baixo.

— Bruxa. Onde está o Naruya?

O pano na mão de Francesca parou de esfregar o vidro. Giorno desviou os olhos diretamente para o chão de linóleo.

A mulher deu de ombros, mas o gesto foi rígido.

— Ele sumiu de casa já faz um tempo, Chuya — o timbre da tia oscilou, dividindo-se entre um orgulho bruto e uma preocupação maternal que a sufocava. — Foi atrás daquele bando de rebeldes. Os Lua Nova. Sabe como é. Fogo na juventude.

Luck franziu a testa. O cálculo não fechava.

— Lua Nova? Mas, se o Yoh está melhorando a vida de vocês e a rua parece apoiar as mudanças, por que o seu irmão iria se juntar a um grupo antissistema?

Francesca puxou um cigarro do bolso e o acendeu. A fumaça escondeu a exaustão em seus olhos.

— Porque o mundo não gira em torno de um pensamento só, garoto. A maioria lá é jovem. No começo não era sério, parecia só um bando de moleques furiosos querendo quebrar umas vidraças e reclamar. Mas a coisa escalou. Eles cresceram mais do que podiam e começaram a agir como uma facção de verdade... comprando brigas que não têm como vencer pra tentar arrancar direitos na marra.

Chuya soltou um suspiro pesado, longo e arrastado. Ele escorregou o corpo pela cadeira de plástico, as mãos esfregando o rosto como se o cansaço do mundo inteiro repousasse em seus ombros. A tentativa de soar desinteressado falhou miseravelmente diante do brilho frio em seus olhos.

— Que saco... — resmungou ele para o teto pisca-pisca. Virou o rosto para o parceiro. — Infelizmente, Luck, não podemos vazar daqui até eu descobrir se aquele idiota ainda respira. Ia ser um porre ter que explicar pros meus pais, no outro mundo, que deixei o caçula morrer segurando placa de protesto.

Chuya deu dois tapinhas na mesa. O olhar cravou no rosto de Luck.

— Não deve ser nada demais. Mas vou precisar da sua ajuda por mais um tempo.

O garoto de terno branco não hesitou por uma fração de segundo. O som áspero da cadeira de plástico raspando no linóleo ecoou quando Luck se colocou de pé, alinhando a postura.

— Não precisa dizer o óbvio. Foi pra isso que eu vim, não foi?

Parte 5

Do lado de fora da lanchonete, a anarquia da Cidade Baixa fervia sob as luzes de neon. Se a alta sociedade de Elysium olhasse para baixo, declararia estado de sítio; para os moradores daquele nível, era só uma terça-feira qualquer.

O som áspero de rodinhas de uretano raspando contra metal retorcido cortou a névoa. Uma gangue de jovens com jaquetas grafitadas e implantes fluorescentes usava a carcaça de dois carros incendiados como rampa de skate. A pista de obstáculos suicida terminava na beirada de um precipício urbano, onde uma colossal corrente de âncora afundava em um lago de esgoto químico borbulhante.

Um dos garotos pegou impulso. O skate voou sobre as chamas e cravou-se nos elos de aço da corrente, gerando uma chuva de faíscas enquanto ele despencava em direção ao lodo.

Quando a prancha roçou a neblina tóxica, as águas verdes explodiram. Uma mandíbula desproporcional e grotesca — uma mutação cega parida pelo lixo radioativo — saltou, os dentes estalando no vazio a centímetros da perna do garoto.

Em vez de gritar em pânico, o skatista soltou uma gargalhada histérica. Ele ejetou a prancha direto na garganta da besta, agarrou-se à corrente e começou a escalar de volta, escapando por um fio de cabelo. Na borda, a multidão delirou. Assobios e aplausos misturavam-se ao flash estourado de câmeras Polaroid velhas e celulares de tela trincada, celebrando o quase-óbito como o esporte definitivo.

Encostado em um poste que piscava em curto-circuito, Trouble riu alto.

Ele segurava um saco de papel pardo, já translúcido de gordura, e deu uma mordida generosa em uma coxinha. O som crocante da massa frita destacou-se por um segundo em meio à poluição sonora.

— Caralho, olha o nível de demência dessa galera — Trouble mastigou com a boca meio aberta. — Você acha que essa loucura toda, essa vontade de morrer brincando, é alguma influência passiva dos Abissais mexendo com o cérebro deles?

Ao lado dele, Homura não esboçou um músculo de sorriso. A postura era letal, os olhos gélidos varrendo o perímetro como um radar militar focado no abate.

— Não seja estúpido, Trouble — a voz dela soou cirúrgica e sem emoção. — Esta cidade sempre foi um hospício a céu aberto muito antes de a invasão começar. A mente dessa gente não está sendo corrompida agora. Na verdade, aposto que os Abissais não precisaram fazer esforço algum. Eles devem ter chegado, olhado para esse caos e amado o lugar. Sentiram-se em casa.

Trouble engoliu a última ponta do salgado, amassou o saco encharcado de óleo e o arremessou dentro de um tambor de lixo em chamas. Ele alisou a barriga e soltou um suspiro, o rosto assumindo uma expressão de luto repentino.

— É... faz sentido. Falando nisso, que fome, hein? Podíamos parar pra comer alguma coisa de verdade.

A máscara de frieza tática de Homura estilhaçou na mesma hora.

O pescoço dela girou tão rápido que as vértebras quase estalaram. A irritação vazou, acendendo o pavio curtíssimo que apenas o parceiro sabia encontrar.

— Nós acabamos de parar! — A voz dela perdeu a polidez tática, subindo o tom. — Eu te comprei um saco com dez coxinhas na barraca da esquina há exatos cinco minutos, e você já tá com fome de novo?! Por acaso você é um maldito buraco negro disfarçado de gente?!

Trouble encolheu os ombros. O cinismo transbordava na expressão de pura inocência.

— Pô, eu tenho um metabolismo muito rápido! Vou fazer o quê?

— Dane-se o seu metabolismo! — ela retrucou, beliscando a ponte do nariz para conter a enxaqueca incipiente. — Eu não vou mais atrasar a porra da missão de rastreio porque você quer fazer degustação gastronômica da sarjeta!

Trouble inclinou a cabeça. Preparou a cartada final, destilando uma lógica tão absurda quanto manipuladora.

— Tudo bem. A líder é você. Mas pensa comigo... desse jeito, quando a gente for espionar o alvo em silêncio, espremidos dentro de um duto de ventilação, a minha barriga vazia vai roncar tão alto que vai parecer um trovão. Nós vamos entregar a posição. Seremos descobertos, e os inimigos vão fuzilar a gente.

A riqueza de detalhes na descrição dele era tão específica que Homura percebeu que aquilo não era um cenário hipotético.

— Seu maldito, há quanto tempo tá planejando essa desculpa? — ela murmurou baixinho, sem quebrar o raciocínio dele.

— E tudo isso por quê? — Trouble ergueu as mãos em um gesto dramático. — Porque você economizou no lanche. É isso mesmo que você quer pro nosso futuro, Homura?!

Ela abriu a boca para rebater a audácia, mas o oxigênio lhe faltou. As palavras morreram na garganta. Homura fechou os olhos e soltou um suspiro arrastado e doloroso, admitindo a derrota total diante da imbecilidade blindada dele. Toda a raiva reprimida converteu-se em revolta contra o próprio carma.

— Que pecado eu cometi na vida passada pra você ser meu parceiro... — murmurou, derrotada. — Eu te odeio profundamente.

— Também te amo, parceira! — Trouble abriu um sorriso radiante. Ele apontou o dedo para uma fachada amassada a poucos metros dali. O cheiro inconfundível de fritura excelente misturado ao resíduo de óleo de motor escorria pelas frestas. — Olha lá! Tem uma lanchonete bem ali!

Sem aguardar permissão, Trouble empurrou a pesada porta de aço. Homura marchou logo atrás, pronta para assassinar alguém se a comida demorasse mais de um minuto.

Parte 6

O sino enferrujado, preso à moldura da porta de aço, tossiu um tilintar frouxo que foi engolido pelo chiado da rua.

A cena foi um ensaio de ironia cósmica. O batente estreito funcionou como um portal onde mundos colidem e se afastam em um milissegundo, invisíveis uns aos outros. Homura e Trouble, envoltos em sobretudos escuros, empurraram a chapa de metal para entrar. Chuya e Luck empurraram-na para sair, com a barriga cheia e a busca por Naruya latejando na mente.

Eles se cruzaram na soleira. O ombro de Trouble raspou contra o casaco de Chuya. O atrito foi rápido, mecânico.

— Foi mal — Chuya murmurou no automático, sem tirar as mãos dos bolsos.

Luck passou logo atrás, ajustando a gola da jaqueta contra a garoa. O radar de Homura disparou. Os olhos gélidos da predadora varreram os dois garotos em um reflexo condicionado. Nenhuma ameaça detectada. O cérebro tático dela os arquivou como dois moleques locais e os descartou. Eles seguiram em direções opostas.

Longe da chuva, Trouble não perdeu tempo. Com passadas largas, cruzou o linóleo sujo e largou o peso do corpo sobre um dos bancos rasgados do balcão, agindo com a intimidade folgada de quem batia ponto ali há décadas.

— E aí, tia! — Ele escancarou um sorriso para Francesca, que ainda raspava a chapa de ferro quente. — Manda o melhor que tiver pra matar a fome de um batalhão! O cheiro disso aqui tá bom demais!

Francesca parou a espátula. Não fazia ideia de quem era o sujeito, mas a palavra "fome" destrancava qualquer porta naquele lugar. O sorriso feroz rasgou o rosto da dona.

— É assim que se fala, moleque! Deixa comigo, vou fritar uma porção dupla que vai entupir suas veias!

Homura sentou-se no banco ao lado. A espinha perfeitamente alinhada, o rosto travado em um misto de vergonha alheia e irritação crônica. Ela operava no silêncio; o parceiro era um holofote de neon.

A espera durou segundos antes de Trouble começar a batucar no balcão de fórmica. Tum-ta-ta-tum-tum-ta. Um ritmo rápido, ansioso e perfeitamente ríspido contra o silêncio dela.

Homura fechou os olhos e beliscou a ponte do nariz.

— Você não consegue ficar quieto por um único instante? — sibilou. O olhar dela prometia amputar os dedos batucantes.

— Tô preparando meu estômago pro combate, Homura. — Ele continuou o batuque, focado. — É um ritual digestivo.

Antes que ela pudesse despachar o parceiro para o inferno, a pesada porta de aço gemeu de novo.

O ar úmido e tóxico da rua invadiu o salão junto com três novas figuras. As jaquetas que vestiam traziam o emblema estilizado da Rosa Azul — discreto, mas carregando o peso da nova autoridade local.

Na frente, Robin arrastava os pés. A postura era a de uma âncora afundando, o rosto retalhado por cicatrizes e dezenas de noites em claro. Tinha o sorriso de quem diz "aguento mais um turno", mas o corpo gritava por socorro.

Miura entrou logo atrás, puxando o ar com força.

— Nossa, o cheiro da comida da dona Fran é sacanagem... Só de entrar, a boca enche d'água. — Ele deu dois tapinhas descontraídos nas costas da terceira integrante.

Vani. A novata de cabelos loiros curtos e roupas engomadas estava rígida. Uma fina camada de suor frio grudava em sua testa.

— Relaxa, Vani! — Miura riu alto, arrastando uma cadeira de plástico para o centro do salão com um rangido estridente. — Na primeira vez que vi um Abissal de perto, quase mijei nas calças também! É super normal!

Os ombros de Vani subiram até as orelhas. Ela fuzilou o colega, o rosto esquentando de pura indignação.

— Eu não "quase mijei" nas calças, Miura! Foi só o choque inicial...

Robin desabou em uma cadeira. Esfregou as pálpebras, o corpo cedendo de vez à gravidade.

— Calma, calma, vocês dois... — o veterano murmurou, com a voz arrastada e pastosa. Ergueu a mão pesada na direção do balcão. — Fran, traz três cafés puros e o prato de sempre. Tamo comemorando e...

A mão caiu sobre a mesa. A cabeça acompanhou o movimento com um baque surdo no plástico. Robin apagou no mesmo instante.

Miura piscou, cutucando o ombro inerte do veterano.

— Ei, Robin... cê morreu?

— Ei! — Vani protestou, o nervosismo estourando contra a piada infeliz.

— Que foi? — Miura rebateu, avaliando a respiração do colega desmaiado. — Se ele bater as botas, a conta sobra pra mim. Eu preciso calcular a janela de tempo pra fugir, não é óbvio?

Parte 7

A poucos passos da mesa, Homura e Trouble destoavam do ambiente como lâminas de bisturi esquecidas no meio da sucata. No balcão, Trouble devorava a porção dupla de fritas em um silêncio cirúrgico e voraz. Ao seu lado, Homura mantinha o corpo perfeitamente estático, o copo de água pairando a milímetros dos lábios. Os ouvidos treinados dela filtravam o chiado do óleo quente para fisgar cada sílaba murmurada às suas costas.

O baque molhado de vidro contra o plástico quebrou a conversa da gangue. Francesca descarregou os pedidos da Rosa Azul: duas cervejas suadas para Miura, um suco para a novata Vani e uma caneca de café tão escuro e denso que mais parecia piche fervente para Robin.

O vapor amargo do café chicoteou o nariz de Robin, ressuscitando-o da letargia. O veterano desgrudou a bochecha da mesa com um gemido gutural. As mãos trêmulas circularam a cerâmica quente. A barba grisalha por fazer e os ombros encurvados denunciavam décadas de patrulhas ingratas. Sem a bênção do talento bruto ou da sorte, ele sobrevivia na base da pirâmide, sustentado apenas por uma ética de trabalho quase suicida.

Miura esvaziou um terço da garrafa em um gole só. O arroto rasgou a garganta, celebrando o fim do turno. Ele apontou o gargalo para a novata, que torturava o canudo do suco com um olhar afundado em estresse pós-traumático.

— Qual é, Vani, tira essa nuvem da cabeça — Miura riu, largando os cotovelos na mesa. — Você devia soltar fogos de artifício. Entrou na organização bem na hora do rush da sorte!

Vani ergueu o rosto, cética. — Sorte? Passamos as últimas seis horas caçando uma aberração no esgoto.

— Detalhes! — Miura abanou a mão livre no ar, enxotando o argumento como se fosse um inseto. — O que manda é a movimentação do mercado. Você não leu o memorando interno? Rolou uma "queda" bizarra e generalizada no número de Gifteds de alto escalão. Pessoas perdendo Habilidades, gente sumindo. Sabe o que isso significa no ecossistema corporativo da máfia? Cadeiras vazias. Vagas implorando pra serem ocupadas.

A insegurança encolheu os ombros de Vani. — Isso não muda nada pra mim, Miura. Meu poder é ridículo. A capacidade de tirar fotos quando coloco os dedos na frente do olho... Como é que eu vou subir de rank com isso?

— É aí que eu queria chegar! — A cerveja na mão de Miura apontou para a garota como a caneta de um vendedor. — Esquece essa mentalidade defasada. O Chefe Yoh é um visionário. Ele não deixou a Rosa Azul estagnar. Ele fechou uma parceria com ninguém menos que o Lorde Abadon.

No balcão, o dedo indicador de Homura contraiu-se imperceptivelmente contra o vidro do copo d'água.

Na mesa, Vani estremeceu. Ela abraçou os próprios braços, espantando um frio invisível. — Aquela coisa de hoje de manhã... quer dizer, o Senhor desta manhã?

— Exatamente! — O sorriso de Miura tornou-se predatório. — O ritual de iniciação com o sangue abissal! Fazer um pacto corporativo com os Abissais não é o fim do mundo, é um buff no currículo! Tomar o sangue deles joga o poder latente lá no teto. Eu não tinha nenhum poder que prestasse e agora tenho chances reais de promoção!

Robin sorveu o café de forma barulhenta e suspirou, o rosto rachando em um sorriso exausto. — É... no fim das contas, a era de ouro do coroa aqui tá chegando também. Vou ter minha própria sala com ar-condicionado.

Miura riu alto e espalmou a mão nas costas do mais velho. — Então vê se não morre do coração no meio da ronda logo agora, velhote!

Enquanto Robin resmungava um xingamento abafado pela caneca, Miura voltou sua atenção para a novata, deslizando para um tom de mentor de recursos humanos de caráter duvidoso.

— Escuta a voz da experiência. Se não quiser acabar como eu e o Robin, travando as costas na chuva, tem que saber jogar o jogo. O próximo Festival de Cortejo já tá batendo na porta. Você é jovem, bonita, e o seu poder amplificado pelo sangue de Abadon tem um potencial de suporte absurdo. Acha um cara promissor no festival, faz o Vínculo de Parceria e sobe de patente de elevador.

Robin estalou a língua no céu da boca. O som foi ríspido. — A juventude me enoja — resmungou o veterano. — Vocês só querem atalho e pacto demoníaco. Na minha época, a gente treinava até o osso trincar pra conseguir respeito.

— Ah, cala a boca, Robin! — Miura rebateu, com o dedo em riste e rindo na cara do mais velho. — Você só tem essa moral toda porque é casado e tem um contrato vinculativo de sangue com a sua esposa! A dona Maria te castra se você tentar fazer Vínculo de Parceria com outra pessoa pra subir de rank!

Robin abriu a boca, fechou-a e deu outro gole no café, silenciado pelo peso da inegável verdade matrimonial.

Miura escorregou na cadeira, erguendo a garrafa em um brinde torto para o parceiro idoso. — Mas quer saber? Talvez eu tenha que agradecer à dona Maria. Porque foi graças a esse "casamento" prendendo você na base da cadeia alimentar que sobrou pra você ser o meu parceiro de ronda.

O bufido de Robin abriu caminho para um sorriso afetuoso que afrouxou as rugas de seu rosto. Ele bateu a cerâmica da caneca contra o vidro da garrafa. — Moleque abusado.

Vani cedeu. Um sorriso tímido quebrou a tensão de seus ombros, a adrenalina do dia se dissolvendo no meio da fofoca corporativa bizarra dos colegas. O horror profano e o sangue demoníaco haviam sido mastigados e convertidos em apenas mais um degrau no plano de carreira da máfia.

— A comida chegou, bando de mortos de fome! — Francesca anunciou.

Ela saiu da cozinha equilibrando três pratos que transbordavam carne, massa e óleo quente. Marchou até a mesa da Rosa Azul e descarregou a comida com baques pesados no plástico. Satisfeita, limpou as mãos no avental e olhou por cima do ombro, na direção do balcão.

A testa dela enrugou.

Miura seguiu o olhar da dona.

O balcão estava deserto. Não houve rangido no vinil das banquetas nem o tilintar do sino enferrujado na porta. Nenhuma corrente de ar. No lugar onde os dois engravatados estavam sentados, restavam apenas os pratos de Trouble — tão limpos que pareciam ter sido polidos com a língua — e um maço de notas amassadas sob o copo de água intocado de Homura.

Eles haviam evaporado na névoa tóxica de Siracusa, fantasmas absolutos retornando ao submundo.

Parte 8

Longe do calor e do cheiro de fritura da lanchonete, as veias da Cidade Baixa bombeavam uma mistura de óleo, neon e desespero.

Kai Scarlune caminhava em silêncio. Sob o peso de suas botas, o asfalto era uma lama espessa de detritos industriais e chuva ácida. Projetores holográficos piratas zumbiam nas paredes de metal corrugado, disparando luzes epilépticas diretamente em suas pupilas: anúncios de implantes cibernéticos enferrujados, pornografia sintética em loop e promessas baratas de salvação digital.

A metrópole berrava. Era uma cacofonia agressiva que misturava os graves distorcidos das boates clandestinas, o chiado de drones de vigilância defeituosos e os gritos distantes de gangues em disputa.

Todo aquele ruído apenas alimentava a enxaqueca latejante de Kai. Havia uma irritação crônica, uma queimação sem nome que se instalara em seu peito há semanas. Qualquer faísca o deixava a ponto de explodir, e Siracusa era um barril de pólvora ambulante.

Ele estancou o passo sob o zumbido de um letreiro roxo. Com a mão livre, puxou uma fotografia amassada do bolso interno do casaco. Os olhos azuis varreram o rosto impresso no papel com um foco gélido, o cenho franzido em repulsa.

— Achar um rato numa cidade deste tamanho, baseando-se numa foto amassada de cinco anos atrás... — A mandíbula dele travou. — Hakurei, você tá zoando com a minha cara? Se esse merda não valer a pena, é você quem eu vou explodir.

Guardou a foto com um movimento ríspido, reajustou a alça do estojo pesado nas costas e voltou a marchar.

O som agudo de metal esmagado cortou o barulho da rua, logo engolido por gargalhadas ásperas. Kai diminuiu o passo na esquina do beco.

Três brutamontes imensos encurralavam uma garotinha suja de fuligem. Eles vestiam couro cravejado de espinhos e exibiam cortes de cabelo fluorescentes. Aos pés da gangue, a carcaça de um pequeno robô doméstico de entregas gemia em curto-circuito, as juntas retorcidas. O líder — que ostentava uma prótese cibernética no maxilar, forçando um sorriso de cromo permanente — desceu a bota no chassi do robô. Mais peças rolaram para a lama.

— N-Não! Parem! — soluçou a menina. As lágrimas abriram caminhos claros na sujeira do rosto enquanto ela tentava se jogar sobre os destroços.

Um dos punks a interceptou. Agarrou o braço fino da garota e a içou do chão com um puxão violento.

— Qual é a sua, pirralha? — O brutamontes gargalhou, a voz arranhando a garganta cheia de fumaça. — Por que tá chorando por essa lata de lixo? Já tá fedendo a circuito queimado faz tempo. Deixa que a gente te ajuda... vamos jogar essa coisa direto no lago de ácido pra ver se boia!

Os outros dois riram alto. O líder abaixou-se para recolher os destroços. A garota debatia-se no ar, chutando o vazio e berrando em desespero.

Nas sombras do beco, Kai assistiu à cena.

Tsk. Ele virou o rosto e recomeçou a andar. O mundo era um esgoto a céu aberto; ele não era nenhum herói de quadrinhos. A lógica ditava ignorar o barulho e poupar energia.

Mas ele parou. A bota travou no asfalto.

Havia algo enraizado no fundo de sua alma clonada que o corroía muito mais do que a queimação no peito ou a burrice tática de Hakurei. Uma regra irrevogável e instintiva: ele abominava covardes que fingiam ser fortes.

— Aê, bora jogar. Vamos ver se quebra de vez! — O líder ergueu o robô despedaçado, balancando-o como um troféu.

— Me larga! Solta ele agora! — a menina implorava, com os pés escorregando na lama.

— É pra largar?! — O sorriso de cromo brilhou. — Beleza, então...

No milissegundo em que os dedos do líder se abriram para ejetar o robô, a física do beco colapsou.

Uma onda de frio absoluto, predatória e invisível, explodiu de Kai Scarlune.

A temperatura não despencou; ela foi extirpada. O calor do beco foi obliterado em um vácuo térmico violento.

CRAAAACK!

O estalo foi nítido, seco e aterrorizante.

Os três brutamontes paralisaram. Não foi um resfriamento gradual; foi um flash do Zero Absoluto. Uma crosta de gelo cristalino e azulado rasgou o chão e engoliu os punks em uma fração de segundo. Foram eternizados no gelo nas posições exatas em que estavam: um rindo, outro apertando o braço da garota, o líder com os dedos abertos. As expressões de escárnio congelaram, as pupilas cravadas em choque, o oxigênio transformado em geada nos pulmões.

O silêncio súbito e brutal impôs-se no beco, castrando o barulho da cidade lá fora.

Com um leve clack, a camada de gelo que prendia o pulso da garota esfarelou-se, inofensiva. Libertada, ela despencou de joelhos na lama preta. Tremeu violentamente, o terror transbordando enquanto encarava as esculturas de carne paralisada à sua frente.

Passos calmos e compassados esmagaram os cristais de gelo no chão.

Kai saiu das sombras. Parou diante do líder da gangue. A apatia mortal em seus olhos era mais gélida que o ar do ambiente.

Ele ergueu a perna e cravou a bota direto no estômago da estátua do líder.

O gelo rachou. O homem desabou de joelhos no asfalto, o ar escapando da garganta em um engasgo rouco e apavorado. Kai o observou de cima, indiferente.

— Peguem esses seus amigos de merda... — a voz dele saiu arrastada, baixa e transbordando desdém — e desapareçam da minha frente antes que eu decida quebrar vocês em pedacinhos.

O aviso bastou. O gelo ao redor dos comparsas derreteu em uma velocidade anormal, soltando-os no chão molhado. Eles caíram tossindo, com as veias azuis pelo frio extremo e os dentes batendo em um ritmo incontrolável. O pavor os impedia de ficar de pé. Rastejaram pela lama como ratos espantados, içaram uns aos outros e tropeçaram em direção à rua principal, fugindo do beco o mais rápido que a hipotermia permitia.

No fundo das sombras, entre lixeiras e caçambas, mendigos e viciados começaram a gargalhar. Apontavam para a debandada, zombando da humilhação da gangue. A banalidade do poder havia convertido os tiranos da esquina na piada do minuto.

Kai ignorou os risos. Ignorou o olhar chocado da garota que agora abraçava os destroços de lata e fios. Ele apenas estalou a língua no céu da boca, irritado consigo mesmo pelo desperdício inútil de energia.

Ajeitou o estojo negro nas costas e voltou a caminhar. Foi engolido pelo silêncio, cruzando a névoa tóxica de Siracusa. Ele ainda tinha um trabalho a fazer.

Parte 9

Kai deu as costas ao beco. A bota afundou na lama; ele estava pronto para ser engolido pela multidão e deletar aquele desvio de rota do próprio cérebro.

— E-Espera!

A voz fina e trêmula esbarrou em suas costas, acompanhada pelo som rápido de tênis furados estourando as poças de água ácida.

Kai travou o passo. Um suspiro longo e exasperado escapou de seus lábios, condensando-se em uma nuvem branca no ar anormalmente frio que ainda pairava ao seu redor. Ele girou o pescoço apenas o suficiente para enxergá-la pelo canto do olho.

— Se você veio correndo para me agradecer, pirralha, não precisa se preocupar. Só finja que nunca me viu e volta logo para a sua casa.

A garota freou a poucos passos de distância. As mãos encardidas apertavam o tecido remendado da própria roupa.

— Você é um Caçador, não é?

Kai girou o corpo por completo. A irritação em seus olhos azuis cristalizou-se em uma atenção afiada. A garota não recuou diante da temperatura que despencou entre eles. Havia um desespero cego e teimoso cravado no rosto sujo de fuligem.

— Se você for um Caçador de verdade... se for um Caçador forte... — Ela engoliu em seco. A urgência na voz rasgava as cordas vocais. — Tem uma coisa que eu preciso. Eu preciso que você mate o líder do Caixão de Seda!

As pupilas de Kai dilataram-se.

O ar sumiu de seus pulmões por um milésimo de segundo. Caixão de Seda. A exata organização que constava em seu contrato; o alvo daquela foto amassada no fundo do seu casaco, saindo da boca de uma mendiga qualquer na sarjeta de Siracusa.

— O que você sabe sobre o Caixão de...

Antes que a bota de Kai tocasse o chão para avançar, os olhos da garota reviraram-se. O corpo simplesmente desligou, como uma marionete com os fios cortados.

Ela despencou em direção ao asfalto.

Kai obliterou a distância em um piscar de olhos. O braço dele cortou o ar, agarrando a garota antes que o rosto dela se esmagasse na lama. Suas sobrancelhas se uniram em uma preocupação automática. Veneno? Ferimento interno no confronto?

Os dedos frios dele buscaram o pulso no pescoço. Estava fraco, mas regular. Não havia sangue oculto. Em vez disso, um ronco longo e oco reverberou do estômago dela.

O diagnóstico era patético: exaustão terminal. Assim que a adrenalina da quase morte evaporou, a biologia cobrou o preço da fome.

— Tsc.

Kai estalou a língua no céu da boca. Sem alternativas que não envolvessem deixá-la ali para morrer, ele içou o corpo leve da garota sobre o ombro esquerdo. Com a mão direita, recolheu a carcaça triturada do robô. Em silêncio, deu as costas para o caos da rua principal.

Horas depois.

A garota puxou o ar com violência, como quem emerge de um afogamento. Seus olhos se escancararam. Ela estava deitada sobre a madeira dura de um banco, sob o toldo rasgado de uma lanchonete de portas baixadas. O barulho da cidade ali era apenas um zumbido distante.

A desorientação durou o tempo de um piscar de olhos. Ao notar o teto desconhecido e a figura de Kai sentado na outra extremidade do banco, a medula espinhal assumiu o controle.

Ela encolheu as pernas contra o peito, espremendo as costas contra o encosto de madeira. Mostrou os dentes. O rosto encardido contorceu-se na postura arisca de um animal encurralado, pronto para morder a primeira mão que se aproximasse.

Kai estava com os braços cruzados. Os olhos semicerrados observavam o teatro com uma apatia pesada.

— Tá achando que é um filhote de urso, pirralha? — o sarcasmo dele pingou gelado no ar, dissecando a intimidação patética.

Ela piscou. A agressividade vacilou à medida que a memória do beco invadia sua mente. O olhar dela desceu para os próprios braços vazios, e o pânico real a desarmou.

— Onde ele tá?! O meu robô! Cadê ele?!

Kai descruzou os braços e apontou o queixo para o asfalto.

A carcaça amassada, os fios soltos e até a última engrenagem estilhaçada estavam cuidadosamente empilhados ao lado do banco.

O ar escapou dos pulmões da garota em um gemido estrangulado. Ela escorregou do banco e caiu de joelhos, abraçando o monte de metal frio e sujo como se fosse um corpo quente.

— Quem era esse monte de lata, afinal de contas? — Kai perguntou. A curiosidade era genuína e mecânica. Por que alguém arriscaria o próprio pescoço por uma sucata de entrega?

O corpo dela tensionou. Apertou uma placa amassada contra o peito e abaixou a cabeça, preparando-se para o golpe. Ela sabia como Elysium funcionava. Conhecia o roteiro. Agora viria a risada de deboche, o insulto ríspido ou a pena enojada do garoto de roupas caras.

— Ele era... um membro da minha família — murmurou ela, esperando o impacto.

A risada não veio.

O rosto de Kai não se moveu um milímetro. Nenhuma pena, nenhum escárnio.

— Entendi. — A resposta foi plana. Seca, absoluta e completamente desprovida de julgamento.

A garota ergueu o rosto, desarmada pela neutralidade daquela palavra.

— Agora deixa isso aí. Ele não vai a lugar nenhum. — Kai enfiou a mão no bolso interno do casaco.

O barulho do papel pardo sendo amassado quebrou o silêncio. Ele estendeu a mão na direção dela. O calor do pacote encontrou o ar frio do beco, erguendo uma fumaça densa que exalava um cheiro violento e irresistível de carne assada, gordura e queijo derretido.

— O mais importante agora é você comer, antes que desmaie na minha frente de novo e me dê mais trabalho.

Os olhos da garota de rua arregalaram-se. O estômago roncou em protesto agressivo ao sentir o cheiro. Ela deu um passo à frente, os dedos tremendo incontrolavelmente, mas recuou no último milímetro.

— Eu... eu não posso aceitar isso — o sussurro saiu fraco, os olhos cravados no papel pardo. — Eu não tenho como pagar.

Kai revirou os olhos. A paciência dele, que já era escassa, encontrou o fundo do poço.

— Não seja louca. Você falou que ia me contratar pra matar alguém, não falou? — Ele chacoalhou o saco, o cheiro da carne invadindo as narinas dela. — Eu só tô garantindo que a minha contratante não vá morrer antes de me passar todas as informações de que eu preciso. Pega logo.

Ela engoliu em seco, mastigando a lógica transacional dele.

— Você... você vai mesmo me ajudar?

— Eu disse que vou escutar as informações. — O tom de Kai era o de um profissional lendo cláusulas. — Eu preciso de muito mais detalhes sobre o que diabos é esse Caixão de Seda antes de me envolver de verdade.

Uma faísca aguda de esperança acendeu o fundo dos olhos selvagens dela.

— Sim! Eu te conto tudo!

Ela saltou, agarrou o pacote e rasgou o papel com os dentes e as unhas. A carne não foi mastigada; foi devorada. O suco da comida misturava-se às lágrimas de fome e alívio que finalmente transbordavam pelo rosto sujo.

Kai observou a cena em silêncio.

Apoiou as costas no banco de madeira, cruzou os braços e ergueu o rosto. Em vez de céu, encontrou a abóbada claustrofóbica de tubos de chumbo, fios de alta tensão e letreiros de neon.

Soltou um suspiro longo. A névoa fria de sua respiração subiu, dissolvendo-se na poluição tóxica de Siracusa.

Talvez... — o pensamento cruzou sua mente — achar esse rato não vá demorar tanto quanto eu imaginava.

Parte 10: 

A chuva fina umedecia o asfalto irregular da viela, logo atrás da lanchonete de Francesca. A única fonte de luz era a placa de "Saída" acima da porta de aço, que piscava em um vermelho monótono e elétrico. O som ríspido do punk-jazz, o chiado do óleo fervente e os ecos de gargalhadas vazavam pelas frestas de metal.

Nas sombras da lixeira, Homura e Trouble estavam petrificados em um silêncio predatório, mimetizando-se com o beco, apenas ouvindo a conversa do trio da Rosa Azul que fumava sob o toldo rasgado.

Miura estava elétrico. O cigarro dançava em seus dedos enquanto ele gesticulava.

— Vida longa ao Chefe Yoh! A era da promoção e do dinheiro fácil chegou, parceiros! — Ele gargalhou, desferindo um tapa amistoso no ombro do exausto Robin. — Vida longa aos Abissais, velhote! Vida longa a Abadon!

Nas trevas, a temperatura ao redor de Homura despencou. O ar que entrava em seus pulmões travou na traqueia. Ouvir demônios sendo ovacionados como mascotes corporativos era uma abominação, mas escutar aquele nome específico — Abadon — foi o gatilho absoluto.

O ódio, cego e visceral, inundou o cérebro tático e gélido da mulher. Ela perdeu o controle; a disciplina desintegrou-se.

CRAAAACK!

A mão enluvada de Homura apertou a quina da parede com uma violência tão concentrada que a alvenaria estourou. Pedaços de tijolo, poeira e argamassa voaram pelo beco com um estalo alto, quicando na poça d'água sob o letreiro vermelho.

O pânico substituiu o bolo alimentar no estômago de Trouble. Puta que pariu, Homura!

O barulho congelou o trio da Rosa Azul. O cigarro despencou dos dedos de Miura. Movido por puro instinto de sobrevivência, Robin puxou a arma do coldre e mirou as sombras com a velocidade de quem passou a vida temendo o escuro.

— Quem tá aí?!

O disfarce evaporou. Não havia mais furtividade. Homura emergiu das sombras, a silhueta engolindo a luz vermelha. A lâmina em sua mão sibilou. O abate havia começado.

Os três mafiosos giraram nos calcanhares e dispararam viela adentro. A fuga tornou-se um zigue-zague desesperado pelos intestinos verticais da Cidade Baixa. Eles rasgaram varais de roupas molhadas, chutaram tambores de sucata e atropelaram barracas clandestinas que fritavam espetinhos duvidosos na brasa.

A fauna local não fugiu em pânico. Não se importava com perseguições. O povo apenas desviava com xingamentos e pragas.

— Olha por onde pisa, seu corno! — berrou um ciborgue sujo de graxa quando Miura pisou em cima da mesa dele para ganhar impulso.

Saltando entre aparelhos de ar-condicionado enferrujados e marquises de ferro, Trouble acompanhava o ritmo de Homura, ofegante, o vento úmido batendo no rosto.

— Fez merda, líder! Fez muita merda! — gritou por cima do ruído da cidade.

Homura trincou a mandíbula até os dentes doerem. A frustração ardia nas veias. Ela, a ferramenta perfeita, deixara a repulsa vazar. A falha era dela; o conserto também deveria ser. Se os alvos acionassem os superiores, a missão viraria cinzas.

— Cala a boca e corre, Trouble! Puxa pela direita pra cortar a rota deles!

Lá embaixo, os coturnos batiam no asfalto molhado. Vani soluçava, os sapatos escorregando na lama preta enquanto Miura a arrastava pelo braço.

Robin olhou por cima do ombro. Duas silhuetas desciam pelos telhados com a precisão letal de falcões. O veterano empalideceu, o cérebro processando a matemática do inferno.

— São eles... — ofegou Robin, o pânico engolindo suas cordas vocais. — Aqueles boatos que rondavam a sede... mortes e sumiços no baixo escalão! É a dupla de assassinos!

Ele voltou o rosto para a frente. O distrito era um labirinto, e ele o conhecia melhor do que a si mesmo. Mas o oxigênio estava acabando, e a morte ganhava terreno.

Viraram de forma brutal à esquerda, derrapando no lodo químico.

A parede suja, alta e cega bloqueou o caminho. Um beco sem saída.

Miura chocou as mãos contra a alvenaria sólida. — Droga! Droga!

Robin assumiu a frente. O rosto amarfanhado do velho cedeu à aceitação do próprio fim.

— Saiam da frente! — o veterano berrou.

Ele espalmou as duas mãos na parede. O corpo dele irradiou energia, drenando força vital em uma taxa absurda, ativando o trunfo de fuga que o levara aos sessenta anos de idade: Porta dos Fundos. A parede rígida ondulou. O tijolo perdeu a densidade molecular, tornando-se uma superfície cinzenta, espessa e fluida como mercúrio.

Ele agarrou Miura e Vani pelos casacos e os arremessou brutalmente contra o cimento líquido.

— Vão! VIVAM!

Os jovens atravessaram a densidade da parede. A fuga parecia concluída. O portal começava a engoli-los.

Trouble pousou suavemente na poça d'água logo atrás de Robin. O ar despreocupado havia sido desligado. Os olhos frios calcularam a janela de oportunidade. Ele ergueu as mãos. Três lâminas cortaram o silêncio.

THWACK! SHLICK!

A primeira faca mergulhou na base da coluna de Robin. A segunda cravou-se no pescoço do veterano, rasgando a traqueia e a laringe em um golpe balístico e perfeito.

A agonia obliterou a concentração de Robin. O poder cedeu no milissegundo em que Miura e Vani estavam exatamente no meio da transição dimensional.

A habilidade cessou.

A ondulação de mercúrio parou. O espaço-tempo recompôs a alvenaria. Em uma fração de segundo, a matéria readquiriu sua rigidez brutal.

A distorção não empurrou os garotos; a matéria solidificou-se através deles. O tijolo atuou como uma guilhotina atômica impossível.

Do outro lado, dentro da segurança do QG da Rosa Azul, Miura e Vani despencaram de bruços sobre o chão frio. Gritos dilacerantes rasgaram o ar do prédio. Eles não caíram inteiros: a parede os dividira ao meio. O portal fechado fundira-se perfeitamente sobre a carne, a pele e o osso.

Presos ao cimento do beco sem saída, como troféus macabros de um abatedouro, ficaram o braço e metade da coxa de Miura, além do pé esquerdo de Vani. A fusão era reta, sem bordas ou irregularidades.

Dos cotos amputados que brotavam no tijolo, o sangue jorrava violentamente, lavando a parede sob alta pressão e encharcando os joelhos de Robin, que caiu sobre a própria poça vermelha.

O veterano tossiu uma golfada escura de sangue. As palmas apoiaram-se no asfalto. O pescoço exibia o cabo de uma faca. Com os olhos enevoados pela morte iminente, ele ergueu a cabeça e encarou a dupla.

Homura caminhou até o homem, elegante e letal, com o terno imaculado diante do açougue.

Trouble abaixou-se lentamente. Girou a terceira faca que havia sobrado entre os nós dos dedos, sem o menor resquício da fachada folgada e infantil.

— Uma bela demonstração de coragem, tiozinho — Trouble elogiou. Não havia deboche; o timbre era puramente pragmático. — Sacrificar a própria vida pelas crias foi louvável.

Ele inclinou a cabeça para o lado, observando o sangue escorrer pela garganta de Robin.

— Olha, você tá morrendo de um jeito lento. A hemorragia vai demorar. Eu posso acelerar isso... uma morte cirúrgica, rápida e limpa. Em troca, só preciso de algumas respostas. O que acha do acordo?

Parte 11

Do outro lado da parede — Quartel-General da Rosa Azul.

O som de carne molhada batendo contra o piso de mármore ecoou pelo saguão mal-iluminado.

Miura e Vani desabaram no chão da base, o sangue esguichando em jatos rítmicos dos tocos perfeitamente lisos onde seus membros deveriam estar. A guilhotina dimensional havia feito um trabalho limpo, mas a dor era inimaginável. Os gritos dos dois jovens rasgaram o ar, um coro de puro pânico, agonia e desespero que manchava o tapete caro de vermelho-escuro.

Encostadas nas colunas do saguão, duas figuras observavam a cena de carnificina com a apatia de quem assiste à grama crescer.

Eram carrascos da máfia. A estética deles era um pesadelo profano: couro negro incrivelmente apertado, pele pálida cravada com pregos de ferro, correntes penduradas nos lábios e olhos sem expressão. Pareciam ter saído diretamente de um culto satanista ou de um poço de tortura.

Um dos carrascos suspirou, o som metálico vazando por um respirador em sua garganta. — Que barulheira insuportável... Será que a gente devia chamar os médicos da família? A Juri ou o Gabi?

O outro carrasco cruzou os braços, os ganchos em suas luvas tilintando. Ele olhou para as poças de sangue que se expandiam sob os corpos de Miura e Vani com puro tédio. — Esquece. Tá rolando a reunião principal da família agora. Se a gente interromper os chefes só por causa de dois patrulheiros de rank baixo que não sabem fazer uma ronda direito, quem vai acabar fatiado e sangrando no chão somos nós. Deixa eles gritarem aí até apagarem.

Um som de ossos estalando em ângulos impossíveis ecoou acima deles.

Das sombras densas do teto abobadado, uma silhueta se desenrolou. Um Abissal rastejava pela pedra de forma grotesca e antinatural, como uma aranha de membros quebrados. O corpo da criatura era esquelético, retorcido em proporções agonizantes. O rosto, banhado pela pouca luz, era a máscara de um palhaço macabro e apodrecido, com um sorriso rasgado que ia literalmente de orelha a orelha. Onde deveriam estar os olhos, havia apenas duas esferas de um negro absoluto e sem fundo.

O demônio-palhaço rolou pelo teto, descendo por uma coluna de cabeça para baixo até ficar pairando sobre os dois carrascos. Ele não se importava com os gritos de Vani. Estava sorrindo.

— Heeheehee... Relaxem, rapazes! Podem deixar esses pedaços de carne aí! — A voz do Abissal era aguda, vibrante e cheia de estática, arranhando os tímpanos de quem a ouvia. — Eu mesmo farei questão absoluta de avisar o Lorde Yoh pessoalmente! Oh, que maravilha! Que momento esplêndido!

A criatura contorceu o pescoço em cento e oitenta graus, olhando extasiada para Miura, que chorava enquanto abraçava o próprio coto do braço.

— Eu estou tão empolgado! Fazia semanas que estávamos encontrando apenas cadáveres! Alguém finalmente cruzou o caminho com os famosos "assassinos de terno" da Cidade Baixa... e sobreviveu para contar a história e dar os detalhes! Que espetáculo!

O palhaço macabro soltou uma gargalhada histérica que reverberou pelas paredes e, num piscar de olhos, derreteu de volta nas sombras do teto, sumindo em direção à sala de reuniões.



De volta ao beco.

O silêncio reinava sob a luz vermelha da placa de "Saída".

Robin estava morto. O veterano sequer teve a chance de aceitar ou recusar a oferta de Trouble. O choque do golpe cirúrgico e a exaustão acumulada cobraram o preço final instantaneamente; ele sangrou até a morte no asfalto molhado, com os olhos abertos e vidrados, preservando o seu silêncio para sempre.

Trouble levantou-se devagar. Ele olhou para a parede de tijolos sujos. Fundidos ao concreto, como bizarros enfeites de gesso hiper-realistas, estavam a perna e o braço de Miura, além da perna de Vani, ainda calçada com a bota. O sangue escorria lentamente dos pedaços amputados, pintando a parede de vermelho.

O assassino puxou um pano do bolso, limpou meticulosamente a lâmina da faca e a guardou no coldre interno da jaqueta de couro.

Trouble virou-se lentamente para Homura, que permanecia estática no meio do beco. Sua postura, sempre ereta, estava levemente curvada. Trouble coçou a nuca, olhou para os membros na parede, olhou para o cadáver de Robin e, então, voltou a olhar para a parceira. A expressão dele era a de quem constata que o leite derramou na cozinha.

— É... — Trouble murmurou, quebrando o silêncio fúnebre com uma sinceridade quase cômica. — Agora deu merda.

Homura não gritou. Ela não sacou as armas nem esbravejou. O ódio cego pelo nome "Abadon" já havia passado, deixando para trás apenas a fria e pesada realização das consequências de seu próprio erro. O sigilo da missão havia sido jogado pela janela. O alto escalão seria avisado em questão de minutos. Toda a Rosa Azul estaria caçando-os antes do amanhecer.

Lentamente, a assassina letal de Siracusa ergueu as duas mãos enluvadas e escondeu o próprio rosto entre as palmas.

Ela puxou o ar em um suspiro longo, profundo e trêmulo, absorvendo o peso colossal da própria estupidez.

— Puta merda... — Homura gemeu por trás das mãos, com a voz carregada de um desespero trágico e inegável.

Parte 12

Acima da neblina tóxica e da sucata da Cidade Baixa, a Cidade de Cima de Siracusa respirava um luxo asséptico e artificial.

O saguão de alta gastronomia italiana reluzia com lustres de cristal e piso de mármore polido. A elegância, no entanto, era violentamente asfixiada pela presença dos dois clientes na mesa central.

Um garçom perfeitamente uniformizado tremia. Ele segurava a bandeja contra o peito como um escudo de papel, paralisado de terror enquanto assistia ao extermínio de dois pratos colossais. Não era um jantar; era uma cena de abate ruidoso.

— Caramba, veterano... — a voz grossa soou abafada pela mastigação de uma das figuras maciças à mesa. — Já provou esse molho? Tá uma delícia absurda!

— Já. Excelente. Um corpo forte, bem temperado... — O parceiro de mesa, Yato, respondeu em um timbre brando. Ele limpou os lábios no guardanapo de linho e ergueu a taça para o garçom pálido. — Vocês têm um ótimo gosto para vinhos, aliás.

— A-Ah... m-muito obrigado, senhor... — O garçom engoliu em seco. O ar ao redor da mesa era rarefeito e perigoso.

A alguns metros dali, ocultos pelas sombras aveludadas da área VIP, um esquadrão fortemente armado sussurrava.

— São aqueles dois... — murmurou o tenente da gangue, espiando por trás de uma pilastra de mármore. — A luz lá fora tava contra a cara deles. Mas, com essa envergadura de puro músculo... não tem erro.

— Então é assim que são os oficiais da Rosa Azul — um dos capangas apertou o fuzil. — Será que descobriram nossa operação?

— Claro que não, idiota. Se soubessem, a gente não tava respirando. Vieram só pra encher a cara.

No salão principal, o som de talheres raspando a porcelana vazia anunciou o fim do massacre gastronômico.

— Ai, veterano... — A figura colossal, chamada Juri, soltou um gemido profundo e recostou-se na cadeira de carvalho, que rangeu sob o peso. — Comi demais.

Yato esvaziou a taça de vinho com precisão matemática e a pousou.

— Concordo. Satisfeito.

Os homens na área VIP prenderam a respiração. "Então não há dúvidas", pensou o líder. "São os dois carrascos, Yato e Juri. Aquele é o Juri. Dois metros de puro músculo... Achei que os boatos fossem exagero."

Yato ajeitou os punhos da camisa sob medida. Os olhos negros cruzaram o salão e fixaram-se no garçom.

— Bom, meu jovem. Antes do prato principal... como você fez uma excelente recomendação de vinho, tenho uma proposta amigável. Diga exatamente quantos homens armados estão escondidos na sala dos fundos e poderá usar a porta da frente para ir embora. Agora mesmo.

O garçom congelou, o cérebro entrando em colapso. — C-como? M-me desculpe?

— É simples — Yato sorriu, com o carisma gélido de um executivo anunciando demissões. — Nossa inteligência descobriu que a facção Touro Celeste transformou este restaurante em sua própria base de operações. Sabemos do ataque terrorista planejado contra o Chefe Yoh para a semana que vem. Viemos limpar o lixo. Mas, como eu disse: bom vinho, boa vida. Pode ir.

A montanha muscular de Juri estalou o pescoço. O som pareceu o de pedras sendo britadas.

— Pô, veterano... qual a graça de pedir a contagem? É mais divertido entrar chutando a porta e descobrir na hora.

Yato ergueu o indicador, professoral.

— Divisão igualitária, Juri. Se não calcularmos agora, um de nós vai se empolgar, exagerar na matança e roubar o exercício pós-refeição do outro.

O garçom olhou para a dupla. Eles debatiam o extermínio como quem escolhe a sobremesa. A bandeja caiu no chão com um estrépito metálico. O rapaz girou nos calcanhares e disparou em pânico rumo à porta de saída.

— Ah, lá foi ele. — Juri apontou o garfo sujo para a porta giratória.

— Não julgo. Na situação dele, faria o mesmo. — Yato levantou-se, alisando o terno. — Espero apenas que o líder deles tenha algum carisma esportivo.

Juri espalmou a mesa.

— Fechado. Eu te deixo o chefão de presente. Mas, em troca, a primeira onda de bucha de canhão que sair daquela porta é só minha.

Yato esfregou o queixo. Três segundos de silêncio diplomático e, então, sorriu.

— Feito.

No exato milissegundo do acordo, o ego humilhado da Touro Celeste falou mais alto. Trinta homens irromperam da área VIP, inundando o saguão com fuzis de assalto, lâminas termais e escopetas.

— Estão muito folgados pra quem tá em desvantagem! — O tenente da frente cuspiu no chão de mármore impecável. — Podem ser os oficiais queridinhos da Rosa Azul, mas um fuzilamento fura esse corpo do mesmo jeito!

Juri deu a última mordida pesada no osso de carne, mastigou ruidosamente, largou o garfo e levantou-se.

— Perfeito! — A voz grave fez a porcelana tremer nas mesas vizinhas. — A primeira leva é minha!

Quando a figura se ergueu completamente, cruzando a linha de luz do lustre principal, os trinta assassinos travaram.

O "gorila de puro músculo" não era um homem.

A monstruosidade anatômica exibia curvas letais e absurdas. Uma juba de cabelos brancos e indomáveis caía sobre costas imensas. A blusa colada revelava seios colossais que contrastavam com bíceps capazes de esmagar o crânio de um urso sem esforço.

Juri era uma mulher.

O choque biológico silenciou o pelotão de fuzilamento. Um dos terroristas não conteve o nervosismo bizarro. Apontou a escopeta e riu histericamente.

— Que porra é essa?! Um maldito gorila com peitos?! HAHAHAHA!

Yato, em pé e impecável, apenas soltou um suspiro exausto.

— Idiota.

BOOOOOOM!

A risada sequer ecoou. O ar estourou. O mármore sob a bota de Juri desintegrou-se. Num piscar assustadoramente rápido para o seu tamanho, ela obliterou o espaço, surgindo diante do atirador, e afundou o punho diretamente no rosto dele.

A física do impacto foi catastrófica. O soco não o derrubou; usou-o como um obus. O corpo do homem decolou, rasgando o ar e atravessando brutalmente duas paredes de concreto armado das salas VIP, engolido pela poeira cinza e por um silêncio terminal.

Os vinte e nove homens restantes paralisaram. Os rostos viraram para trás, lentamente, processando a destruição, e então voltaram-se para a mulher-gorila.

Juri estalou os dedos. O sorriso era uma promessa predatória e insana.

— Bora queimar as calorias do almoço, rapazes!

Enquanto a montanha branca descia a lenha na base da carnificina bruta, Yato deslizou a mão para dentro do terno. Puxou, com letargia absoluta, uma machadinha afiada de açougueiro. O oficial contornou o caos em direção ao corredor esquerdo.

— Vamos achar a toca desse líder... — Yato murmurou.

Atrás dele, o restaurante convertera-se em um abatedouro. Gritos rasgavam cordas vocais e o estalar de ossos triturados competia com rajadas cegas de fuzil, enquanto Juri massacrava o esquadrão na base dos punhos.

O pânico empurrou alguns capangas para a rota de Yato. Um homem irrompeu pela esquerda, estocando uma faca termal na altura do pescoço. Yato não piscou. Sem alterar a passada rítmica, sua mão livre disparou, agarrando o colarinho do atacante. Ele chocou o corpo do homem contra a parede texturizada e, com um golpe casual de machadinha, decapitou-o com a facilidade de quem fatia manteiga derretida.

Às suas costas, coturnos pesados correram em um ataque suicida. O clique metálico do pino de uma granada soou.

— É melhor esquecer — Yato não parou de andar nem olhou para trás. — Eu já cortei aí.

No instante em que o terrorista suicida deu o segundo passo, uma fissura invisível, fina como um fio de náilon afiado, acendeu-se no espaço à sua frente. O pescoço do homem roçou o ar vazio. A cabeça desprendeu-se do tronco, escorregando limpa para o tapete. O corpo decapitado seguiu a inércia, tombando em seguida com um baque surdo enquanto a granada rolava inútil.

Após pintar o corredor e despachar mais dez infelizes sem uma única mancha no paletó, Yato alcançou a porta dupla de carvalho da diretoria.

Empurrou a madeira maciça com a ponta do sapato.

No centro da sala luxuosa, sob a luz indireta de luminárias, aguardava um homem com os punhos enfaixados.

— Então o desgraçado do Yoh mandou os cães de guarda da Rosa Azul? — a voz do líder arranhou como lixa.

Yato apoiou o cabo curto da machadinha no ombro, analisando o alvo com olhos semicerrados.

— É o que parece, amigo. Me tira uma dúvida: o quão forte você é?

As veias do líder incharam de puro ego ferido.

— Pirralho arrogante! Sabe com quem tá falando?!

As ataduras nas mãos e nos braços dele começaram a exalar uma fumaça negra. Um gás espesso e corrosivo derramou-se sobre o tapete persa, sibilando enquanto derretia o tecido em ácido.

— Sinceramente? Nenhuma ideia. — Yato sacudiu a cabeça. — É que a minha parceira lá fora vai transformar o seu exército inteiro em patê em menos de três minutos. Eu só queria um motivo pra acreditar que o chefe do bando vale o meu tempo.

O líder travou as pernas em uma base marcial profunda.

— Pois saiba que você encara a Morte! Eu sou Sanzuki, o Punho Venenoso! E eu rezo pra que a sua arrogância sirva de escudo, porque eu vou jogar a sua carcaça direto no inferno!

Os olhos opacos de Yato piscaram. Uma faísca de interesse genuíno quebrou a monotonia do assassino.

— Oh. "Punho Venenoso"? Confesso que não matei muitos Shapers desse tipo. Talvez a caminhada até aqui valha a pena.

Yato girou a machadinha no ar com destreza e apontou a mão esquerda livre para a frente.

— Presta atenção antes de o sinal abrir, Sanzuki. Minha habilidade se chama Silent Ripper. — O tom professoral retornou. — A teoria é bem simples. Primeiro: minha mão direita corta absolutamente qualquer matéria em que eu concentre a lâmina. Segundo: se eu desenhar um arco no ar com a mão esquerda empunhando uma lâmina, deixo armadilhas espaciais. Fios de corte invisíveis que eu ativo por gatilho mental para fatiar quem passar pela área.

A fumaça preta vacilou. O cérebro de Sanzuki deu "tela azul". A base marcial vacilou pela confusão.

— Que tipo de demência é essa? Por que você tá explicando a porra do seu poder inteiro antes de a luta começar?!

Yato soltou um suspiro rítmico. O sorriso letal rasgou sua polidez milimétrica, revelando o carisma podre de um psicopata entediado.

— Porque eu tô no meio da digestão, Sanzuki. E a única esperança que tenho ao te explicar o meu truque... é dar um empurrão pra que você não morra em dez segundos e acabe com a minha queima calórica tão cedo.

O orgulho ofendido estourou. Sanzuki urrou, disparando pelo tapete como um trem desgovernado, exalando toxinas. Yato apenas esticou o sorriso letal, e o inferno da Rosa Azul voltou a operar.

Parte 13

Do lado de fora do restaurante, a garoa contínua lustrava o asfalto impecável da Cidade de Cima. Um sedã executivo, pintado em preto fosco para absorver qualquer reflexo de neon, flutuava trinta centímetros acima da calçada, operando em silêncio magnético.

Yato abriu a porta do motorista e escorregou para o banco de couro com sua habitual letargia elegante, ignorando as gotas vermelhas que salpicavam a barra de seu terno.

Do outro lado, a suspensão gravitacional do veículo chiou e a lataria inteira afundou no lado direito.

A mulher colossal de cabelos brancos desabou no banco do passageiro. O sedã luxuoso, construído para o conforto de executivos corpulentos, subitamente parecia um carro de brinquedo. Com um gemido profundo de satisfação muscular, Juri tentou se espreguiçar. O braço maciço bateu no teto de camurça, o joelho encostou no painel e o sorriso no rosto ensanguentado dela iluminou o interior escuro.

— Nossa, veterano... — Juri suspirou, reclinando o encosto o máximo que a engrenagem permitiu. — Isso foi muito, muito bom! Não tem nada melhor do que um excelente almoço batizado com aeróbico pesado pra assentar a digestão!

Yato deslizou os dedos pelo painel touchscreen e o veículo ascendeu para a via flutuante principal.

— Deve ser. Eu adoraria descobrir como é essa sensação — ele respondeu. O timbre era um poço fundo de mau humor polido e passivo-agressivo.

Juri parou de esticar os braços. No meio da vasta cabine, as orelhas brancas e felinas que brotavam do topo de sua cabeça ergueram-se em sinal de alerta.

— Ué. O que foi? — ela arregalou os olhos amendoados. — Não vai me dizer que o chefão lá na sala VIP era fraco demais?

Yato soltou um suspiro exausto. A mão esquerda não saiu do volante, mas a direita alcançou um saco de lona jogado atrás de seu banco. Ele o ergueu, pingando sangue grosso no carpete caro, e o apoiou sobre o console central.

Com dois dedos, Yato puxou a lona para trás. A cabeça decapitada de Sanzuki repousava ali, com a mandíbula frouxa e a expressão petrificada em terror absoluto.

— É... — Yato empurrou o saco de volta para o chão. — E o pior de tudo é que eu ainda perdi meu tempo sendo didático! Contei pra ele como a minha habilidade operava. Gastei saliva. Como é que um líder de facção cai numa armadilha espacial primária e perde a cabeça em menos de trinta segundos?! Aquele velho inútil faz ideia do quanto eu tava segurando o ritmo pra luta durar?!

Juri escondeu o rosto na mão, tentando segurar o riso, mas os ombros sacudiram em um tremor silencioso.

— E pra piorar a minha azia... — Yato girou o pescoço, fuzilando a parceira. — Quando saí do corredor, contei as baixas. Eu matei seis. Você... você matou trinta e duas! Trinta e duas pessoas, Juri! Sério?!

A represa de Juri cedeu. Ela caiu na gargalhada. Uma risada grossa, solta e absurdamente contagiante, que fez vibrar os vidros blindados.

— Hahahaha! Desculpa, veterano! Eu acabei perdendo a conta na hora que comecei a esmagar o pessoal! Exagerei um pouquinho!

Atrás dela, uma grossa cauda felina, branca com listras escuras, surgiu da base da coluna. O rabo balançava de um lado para o outro no estofado, batendo ritmicamente contra a porta do carro em pura dopamina. As orelhas felinas caíram macias sobre os cabelos. A imagem seria comovente, não fosse o cheiro fresco de carnificina que exalava de ambos.

Yato arqueou a sobrancelha, impiedoso.

— Mentirosa. Aposto meu bônus trimestral que, quando ouviu a minha luta acabar, você acelerou o passo lá fora só pra roubar as minhas buchas de canhão.

Juri congelou.

A cauda que abanava frenética travou, dura e ereta como uma viga de aço. As orelhas recuaram. Pega no flagra, ela desviou o olhar para o para-brisa, fingindo assobiar uma melodia inexistente.

— E-eu jamais faria algo tão baixo com você, veterano...

— Sabia. — Yato estalou a língua no palato.

O painel holográfico do carro cintilou em escarlate. O alerta prioritário da Rosa Azul estourou na tela do computador de bordo. Yato leu a mensagem e beliscou a ponte do nariz.

— Maravilha. Estamos atrasados pra reunião de oficiais. O Mestre Yoh mandou mensagem cobrando o nosso paradeiro. Excelente jeito de começar o dia.

— Podemos ir direto pro QG! — Juri sugeriu, o sangue borbulhando de hiperatividade.

— De forma alguma. — Yato deslizou o dedo no mapa virtual, recalibrando a rota. — Antes vamos passar no nosso apartamento para trocar de roupa. Se entrarmos na sala de reunião fedendo a gás tóxico e ensopados de sangue, o Dazai vai atormentar nosso juízo pelo resto do mês, e o Yoh vai acabar entrando na onda dele.

Juri olhou para a própria roupa. A camisa social estava quase irreconhecível debaixo das manchas vermelhas.

— É, você tem razão. E isso vai ser ótimo. Posso pegar uma blusa de numeração maior lá no meu guarda-roupa, porque essa aqui tá me estrangulando. A costura da Máfia tá vindo muito apertada ultimamente.

Para validar a queixa, a colossal Shaper levou as mãos aos ombros, estufou os pulmões e arqueou o torso gigante para trás, tentando afrouxar o tecido molhado de sangue que já lutava bravamente para conter a musculatura e o volume brutal de seus seios.

A pressão na física têxtil foi insustentável.

TINK!

O fio cedeu. Um dos botões da blusa estourou sob tensão balística. O disco de plástico cruzou o interior do carro flutuante como um disparo silenciado, raspou na frente do nariz de Yato e ricocheteou com força contra a janela do motorista.

O instinto de assassino e a visão periférica afiadíssima de Yato capturaram o exato décimo de segundo em que a camisa de Juri esgarçou-se.

O cérebro tático do carrasco sofreu uma pane catastrófica.

O carro flutuante guinou com violência. O motor magnético zumbiu. O veículo executivo invadiu a contramão, fatiou o ar entre dois táxis que buzinavam em desespero e passou a milímetros de lixar a própria pintura na vidraça de um arranha-céu. Yato agarrou o manche, com os nós dos dedos brancos, contendo o próprio ataque cardíaco antes de realinhar a rota.

Juri cravou a mão no estofado, esmagando o couro, genuinamente assustada.

— Que é isso, veterano?! Que manobra foi essa?! Quase estampamos aquele prédio!

O peito de Yato estava pressionado contra o volante. Ele pigarreou. O timbre letal da máfia falhou miseravelmente, subindo duas oitavas.

— N-não foi nada. Queda de pressão. E-estou sob o efeito retardado do gás daquele Shaper no escritório. É o veneno. Certeza absoluta. Só isso.

Juri ignorou o banco e inclinou o tronco inteiro na direção dele. A camisa estava perigosamente arrebentada. O rosto felino aproximou-se do seu, carregado da mais doce e adorável preocupação.

— Veneno?! Mas, veterano, você tá vermelho que nem um farol! Seu pescoço tá fervendo!

Yato cravou os olhos na janela ao seu lado, enrijecendo a nuca para não olhar um centímetro para a direita.

— E-eu já disse que não é nada demais!

— Quer que eu use a minha habilidade de cura em você?! — Ela avançou mais no espaço dele. A cauda balançava atrás do banco, ansiosa e protetora.

— Não será necessário, Juri! — O suor frio escorria sob a gola da camisa de Yato.

— Mas cê tá mal! Escuta como o seu coração tá socando as costelas! — Ela esticou a mão gigante para checar a testa dele.

— Fica no seu banco! — Ele encolheu-se contra a porta. — Eu já disse que tô ótimo! Põe o maldito cinto de segurança!

O assassino impiedoso, que acabara de decapitá-los em menos de trinta segundos e despachar um pelotão inteiro de executores sem suar o paletó, estava, naquele exato momento, sendo completamente humilhado por um botão de plástico. Com o pé cravado no acelerador magnético, o carro negro desapareceu rasgando o asfalto em direção ao apartamento, enquanto Yato rezava a qualquer divindade de Elysium para que chegassem logo.

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