The Fall of the Stars: Capítulo 2 - Maicon Dates

Atualizado: 15 de set.
Volume 1: A Queda
Parte 1
19 de julho de 19998, 19:00 da Noite - Torre Dates (Alexandria)
O som de carne rasgando e ossos estalando ecoava pela sala ampla e escura, um coral grotesco que reverberava contra as paredes de pedra úmida, manchadas de musgo e algo que parecia sangue seco. A luz trêmula de lamparinas espalhadas pelo ambiente lançava sombras dançantes, distorcendo as formas dos ghouls que se moviam como espectros famintos. Dante movia-se como um borrão, seus pés deslizando pelo chão poeirento com uma agilidade quase sobrenatural enquanto chutava e socava as criaturas que o cercavam. O estalo satisfatório de uma junta quebrando encheu o ar quando seu punho acertou o crânio de um ghoul, o impacto reverberando em seus próprios ossos. Ele tentou se afastar, o peito ofegante e o suor escorrendo pela testa, mas era inútil. Instantaneamente, as criaturas o alcançaram, suas garras afiadas rasgando sua pele, a força descomunal arremessando-o contra uma pilastra de pedra. A poeira caiu do teto, flutuando como uma névoa sob a luz fraca.
— Entendi, eles têm fator de cura… — murmurou Dante, limpando o sangue do canto da boca com o polegar. O líquido quente manchava sua mão enquanto ele se levantava, o corpo protestando com uma dor aguda. — Hahaha, então não preciso me preocupar com isso acabando rápido, né?
A batalha se desenrolava sob a luz incerta das lamparinas, que projetavam sombras grotescas nas paredes, transformando a sala em um cenário de filme de terror. O chão estava coberto de rachaduras e detritos, e o ar carregava um cheiro acre de mofo misturado ao fedor metálico de sangue.
— Eu sabia! Você não leu o bestiário e o que ele falava sobre os ghouls, não é? — A voz calma de Nero cortou o barulho da luta, ecoando com uma precisão fria enquanto ela permanecia encostada em uma pilastra, os braços cruzados e a espada embainhada reluzindo sob a luz fraca.
— Nah... — respondeu Dante, desviando de uma garra por um triz, o movimento rápido fazendo o ar sibilar ao seu redor. Ele girou o corpo, o casaco esvoaçante, e acertou um chute lateral que lançou um ghoul contra a parede, o impacto levantando uma nuvem de poeira. — Prefiro assim! As lutas nos animes só são emocionantes porque o protagonista não sabe o script completo! Onde está a graça de lutar sabendo todos os truques do inimigo? — Ele sorriu, o rosto suado brilhando sob a luz, enquanto se preparava para o próximo ataque.
— Isso é só desculpa para a sua preguiça! — retrucou Nero, em tom afiado, enquanto ajustava a postura. Seus olhos acompanhavam cada movimento de Dante com uma mistura de irritação e atenção. — Suas light novels têm mais páginas que aquele bestiário, sabia?
Dante virou-se para discutir, os olhos brilhando com uma réplica pronta, mas, no exato momento da distração, os ghouls o atingiram em cheio. Um par de garras acertou seu peito. Ele voou novamente contra a parede e o impacto sacudiu a estrutura, enquanto pedaços de pedra solta caíam ao seu redor. Ele deslizou até o chão, gemendo, o ar escapando dos pulmões em um suspiro rouco.
— Temos que ajudá-lo! — exclamou Kurokawa, aflita. Seus olhos estavam arregalados enquanto ela se levantava, as mãos tremendo e o coração disparado ecoando em seus ouvidos. O chão sob seus pés parecia instável, como se a própria torre estivesse viva, pulsando com malícia.
— Deixa ele apanhar. Assim ele aprende a lição — respondeu Nero friamente, o tom cortante, enquanto mantinha os olhos fixos na luta. Seus dedos tamborilavam no cabo da espada, o metal emitindo um leve clique a cada movimento.
Chocada, Kurokawa sentiu um aperto no peito, a incredulidade misturando-se ao medo. Ela deu um passo à frente, mas, antes que pudesse agir, Luck colocou a mão em seu ombro. O toque era firme, mas gentil, ancorando-a no lugar.
— Relaxa. Não deixe esse jeito dela te enganar. Ela se preocupa com ele... do jeito dela — disse ele, com a voz calma e um sorriso torto curvando os lábios, enquanto observava a cena com uma tranquilidade quase desconcertante.
— Mas ele está sendo atacado por tantos! E com aquela regeneração... não tem como ganhar! — insistiu Kurokawa, a voz trêmula, enquanto apontava para os ghouls que se reagrupavam, seus corpos disformes pulsando com uma energia doentia.
— Escuta, caloura — disse Nero, o tom agora um pouco mais irritado, enquanto se virava para encarar Kurokawa com olhos brilhando em uma intensidade feroz. — Só porque você e os outros novatos foram enganados por uma veterana que se dizia forte, não ache que somos fracos como ela. Precisa de bem mais do que regeneração rápida para ser uma ameaça real. — Ela cruzou os braços, e o ar ao seu redor parecia carregar uma energia tensa.
Como se para provar as palavras dela, Dante chutou a cabeça de um ghoul com força explosiva. O corpo decapitado caiu com um baque surdo no chão poeirento. Ele estalou o pescoço enquanto se levantava, e seu sorriso demoníaco voltava a se alargar.
— Certo, acho que já terminei de aquecer o meu corpo — declarou, a voz carregada de confiança, enquanto limpava as mãos sujas de sangue seco.
Kurokawa olhou para as feridas de Dante; os cortes profundos que antes marcavam seu corpo haviam desaparecido, a pele lisa como se nunca tivesse sido tocada. A cabeça do ghoul, por outro lado, permanecia arrancada, o corpo inerte no chão.
— M-mas como? — perguntou ela, a voz falhando, enquanto seus olhos arregalados tentavam processar a cena.
— Os ghouls não são os únicos aqui que podem se regenerar — explicou Luck, a voz calma enquanto se recostava contra uma pilastra, os braços cruzados e o sorriso ainda presente. — Ele estava usando o próprio corpo como isca para testar as habilidades dos inimigos.
— Então por que ele não fez isso antes?! — exclamou Kurokawa, a incredulidade fazendo sua voz subir enquanto gesticulava.
— Porque ele estava resolvendo o problema que a preguiça dele causou — interveio Nero, resignada, enquanto ajustava a espada na cintura. O metal reluzia sob a luz trêmula. — E também... por conta dessa mania irritante dele.
— Mas só por isso ele deixou que o imaginassem um alvo fácil?! — gritou Kurokawa, a voz ecoando pela sala, enquanto apontava para Dante com os olhos arregalados de choque.
Naquele instante, uma risada alta e maníaca reverberou nas paredes da sala. A fonte? O próprio Dante, que se erguia com o corpo envolto em sombras que pareciam dançar ao seu redor, amplificadas pela luz das lamparinas.
— Hahahahaha! Vamos lá, a caçada está só começando! — Sua voz soou teatral e profunda; no entanto, algo estava diferente de antes. Dessa vez não parecia apenas pose; algo naquele sorriso era estranhamente real. — Depois de terem me animado tanto, é bom não me decepcionar. Vocês acabaram de comprar briga com o próprio Rei Demônio!
Kurokawa sussurrou, chocada, o coração disparado enquanto recuava um passo sobre o chão frio.
— Ele... ele é um Rei Demônio?!
— Só se for o rei demônio da idiotice — murmurou Nero, massageando as têmporas com os dedos, o gesto carregado de exasperação enquanto revirava os olhos.
Um brilho carmesim emanou do olho direito de Dante, a luz pulsando como um farol na escuridão, iluminando seu rosto com uma intensidade quase sobrenatural.
— It's show time! — exclamou, o tom vibrante, enquanto se movia em uma explosão de velocidade, surgindo atrás de dois ghouls e segurando a cabeça de cada um com uma força brutal.
Assim que ele tocava em um ghoul, pequenos anéis de éter apareciam no corpo do inimigo, mas apenas aqueles que mantinham a percepção de éter ativa durante a batalha, como Luck e Nero, conseguiam ver. Ele arremessou uma das cabeças na direção de outro ghoul. Ela viajou como uma bala de canhão, destruindo o alvo com um impacto que fez a sala tremer e a poeira cair do teto como uma chuva fina.
— Por quê? Por que eles não estão se regenerando? — perguntou Kurokawa, a voz trêmula, enquanto observava com os punhos cerrados e o coração ainda acelerado.
— Essa é uma das habilidades dele — disse Luck, a voz calma, fazendo um aceno de cabeça na direção de Dante.
— Heh, acredito que este seja o momento em que o vilão ou herói explica seus poderes! — anunciou Dante, fazendo uma pose estilosa, com uma perna dobrada e o braço apontando para o céu, enquanto o éter vermelho brilhava ao seu redor. — Minha habilidade—
— Ignora a palhaçada — interrompeu Nero, cortante, enquanto avançava um passo. — Ele manipula o tempo de tudo que seu éter toca. Como você é uma caloura, vou te dar um aviso: em uma luta, sempre fique de olho no éter no campo de batalha. Além de mostrar que é uma amadora, não fazer isso também pode significar a sua morte, garota.
— Ei, Nero, não estraga a minha performance! — protestou Dante após destruir o último ghoul com um soco brutal, o corpo da criatura colapsando em uma pilha disforme. Ele girou nos calcanhares, apontando para ela com um dedo acusador e o sorriso ainda presente.
— E você, dá para levar as coisas a sério? — retrucou Nero, saltando em sua direção. As auras dos dois colidiram com uma energia quase palpável, como se fossem começar a lutar ali mesmo. O ar ao redor deles parecia crepitar, carregado com a tensão de seus egos. — Eu sempre digo para você deixar essa mania de viciado em adrenalina de lado e se concentrar, ou vai acabar morrendo!
— Bom, eu não morri, morri? — Ele levantou o rosto, olhando-a com deboche, o que só irritou ainda mais Nero e fez sua raiva aumentar.
— Calma, calma, casal! — Luck tentou intervir, levantando as mãos.
Enquanto os dois discutiam, Kurokawa observava a garota fantasma, Caroline, que permanecia imóvel perto da grande porta de aço, a lamparina em sua mão lançando uma luz fraca que tremeluzia contra as paredes.
Luck, lembrando-se dela, deixou Dante e Nero discutindo enquanto se aproximava da garota com passos lentos. Ele se abaixou, dobrando os joelhos, enquanto acariciava a cabeça de Caroline com uma ternura inesperada.
— Deve ter sido solitário todo esse tempo — disse ele, a voz baixa, carregada de uma empatia que parecia genuína, enquanto seus dedos repousavam levemente sobre ela. — Fantasmas não controlam ghouls — explicou Luck para Kurokawa, a voz calma. — Ela estava tentando te levar para fora. Este lugar é um labirinto; a passagem para o próximo andar é pelo segundo. Então também temos que voltar.
— Era inevitável — disse Nero, o tom seco, enquanto olhava para os corpos no corredor, os restos dos amigos de Kurokawa espalhados como um aviso. — Vocês vieram atrás de uma presa maior do que podiam lidar. Isso também faz parte da vida de um caçador.
— Droga, Nero! Empatia, cadê?! — explodiu Dante.
— E você tem direito de julgar? Estava sorrindo e falando de vitória agora mesmo! — Nero rebateu, avançando um passo com os olhos brilhando de irritação enquanto cruzava os braços.
— Vocês dois, eu já disse! Deixem para discutir o relacionamento em outra hora! — Luck interveio novamente, a voz firme, mas com um toque de diversão, enquanto se colocava entre os dois com as mãos levantadas como um árbitro.
— Calado, Luck! — disseram Dante e Nero em uníssono, suas vozes ecoando pela sala enquanto se encaravam com intensidade.
Kurokawa respirou fundo, o ar frio da torre queimando seus pulmões, e então deixou o pedido escapar com a voz firme, apesar do tremor:
— Vocês três... se importariam se eu continuasse a acompanhar vocês?
— Claro que não! — respondeu Dante instantaneamente, o tom cheio de convicção, enquanto cruzava os braços.
Nero encarou Kurokawa com uma expressão dura, mas com um brilho de concordância relutante nos olhos.
— Não podemos levar alguém que não sabe se proteger... — começou ela, em tom sério.
— Não podemos levar mais alguém para dividir os seis milhões!!! — completou Dante, revelando o verdadeiro motivo. O sorriso travesso voltou ao seu rosto enquanto ele apontava para o teto, como se declarasse uma verdade universal.
Nero parou, olhando para Dante com incredulidade. A boca ficou entreaberta por um instante antes de se fechar em uma linha fina.
— SEU IDIOTA!!! — gritou, avançando na direção dele com os punhos cerrados, enquanto o ar ao seu redor vibrava de fúria.
— O quê?! Por acaso eu estou errado? Já é uma divisão perfeita: dois milhões para cada. Se entrar mais um, só vai complicar as contas! — retrucou Dante, recuando um passo com as mãos levantadas em defesa enquanto ria.
— A culpa é minha, tenho certeza. É minha por esperar que algo remotamente inteligente fosse sair da sua boca... Esquece, Dante. Está na hora de calar essa sua boca para sempre! — Nero disparou, correndo na direção dele e apertando sua garganta com ambas as mãos. O movimento foi rápido e preciso, mas ele continuou a gargalhar mesmo sob o aperto.
— L-Luck... soco... socorro... ela vai me matar... — Dante engasgou, os olhos brilhando com uma mistura de diversão e pânico enquanto tentava se soltar, o corpo debatendo-se dramaticamente.
Luck ignorou os dois, virando-se para Kurokawa com um suspiro que contrastava com o caos ao redor.
— Eu não queria concordar com eles, mas eles têm pontos válidos. E, além do mais, se não me engano, você é do primeiro ano, certo? Existem maneiras mais fáceis e seguras de conseguir dinheiro. Não vale a pena continuar arriscando sua vida assim — disse ele, com um tom calmo, mas carregado de uma seriedade que pesava no ar.
— Não é pelo dinheiro!!! — Kurokawa gritou, surpreendendo os três com a intensidade repentina vinda de uma garota que até então parecia tão tímida. Sua voz ecoou pela sala, reverberando nas paredes de pedra enquanto ela cerrava os punhos, o corpo tremendo de determinação. — Eu... eu quero entender o porquê! — continuou, com a voz embargada, mas firme, dando um passo à frente. — No início, de fato, posso até ter vindo por capricho... porque precisava de dinheiro e não conseguia dizer não... mas agora eu preciso entender. Por que tudo isso aconteceu? O que diabos é essa torre? O que aconteceu com aquela garota? Sinto que minha curiosidade não vai me deixar descansar até eu descobrir! E se eu recuar agora, mesmo sentindo isso, sinto que nunca conseguirei ser uma caçadora de verdade!
Os três a encararam em silêncio por um momento, o ar pesado com a intensidade de suas palavras. As lamparinas tremeluziam, lançando sombras que pareciam se contorcer, como se a própria torre respondesse ao desafio dela.
— Você pode até realmente descobrir mais — disse Luck calmamente, ajustando a postura. — Mas a verdade pode ser pior do que você imagina. E, às vezes, pode ser simplesmente... nada. Talvez você se arrependa de continuar aqui. Mesmo assim, quer prosseguir?
— Sim! — respondeu Kurokawa sem hesitar, os olhos brilhando com uma determinação feroz e o peito subindo e descendo em respirações rápidas.
Dante, conseguindo se soltar de Nero com um movimento ágil, sorriu com um brilho travesso no rosto. Ele se aproximou de Kurokawa e bagunçou o cabelo dela com um gesto brincalhão, um toque leve, mas firme.
— Tudo bem, então. Vamos te levar — disse ele, cheio de entusiasmo, enquanto apontava para a porta de aço que reluzia sob a luz fraca.
— O QUÊ?! — exclamou Nero, virando-se para ele com os olhos arregalados de indignação e os braços cruzados.
— Qual é? Qual o problema? — retrucou Dante, o sorriso alargando-se enquanto dava de ombros. — De qualquer jeito, não vamos ter que dividir a recompensa, já que ela disse que não é pelo dinheiro. E, no final, o tempo é seu, então você decide como usá-lo.
Parte 2
Enquanto procuravam a escada de volta para o segundo andar, o ar nos corredores da Torre Date era sufocante, carregado com o cheiro úmido de pedra mofada e um leve toque metálico que parecia grudar na garganta. As paredes de pedra, rachadas e cobertas por veias de musgo, pareciam pulsar com uma energia opressiva, absorvendo a luz fraca das lamparinas que tremeluziam em suportes enferrujados. Luck tropeçou em algo e, em um reflexo, apoiou-se em uma estante velha que se quebrou, transformando-se em uma pilha de destroços.
— É sério isso, Luck? Virou uma final girl de filme de terror agora? — Dante perguntou, abaixando-se para ajudá-lo a se levantar.
— Cala a boca e me puxa logo — respondeu Luck, notando um caderno de anotações em uma espécie de gaveta oculta na estante quebrada enquanto era erguido.
Ele se abaixou e retirou o caderno velho, de capa de couro, manchado e desgastado. — O que é isso? — perguntou, com a voz baixa, enquanto segurava o objeto com cuidado, como se temesse que ele pudesse desmoronar em suas mãos.
Dante, observando, pegou o livro com um movimento rápido, o couro áspero roçando contra seus dedos enquanto o segurava sob a luz trêmula. — Meus instintos dizem que é um elemento-chave da trama — disse, a curiosidade brilhando em seus olhos enquanto começava a folhear as páginas, o papel amarelado rangendo sob seus dedos.
— Espera, você está falando daquele tal instinto de caçador? — Kurokawa, inocente, continuava sendo influenciada pelas falas dele, enquanto Luck e Nero, com expressões de vergonha, evitavam até olhar para ele.
— Instinto de caçador? Claro que não! Estou falando de algo muito mais útil em uma dungeon: o Instinto Gamer, é claro! — Ele falou, fazendo um sinal de positivo, acreditando que parecia incrível naquele momento.
Mas tudo o que conseguiu foi arrancar uma expressão de confusão de Kurokawa e dois olhares desolados de Nero e Luck.
Ignorando aquilo, eles se reuniram ao redor de uma lamparina, a chama lançando sombras dançantes que se contorciam nas paredes como espectros observando em silêncio.
20 de julho de.
Hoje inauguro a Torre Date, meu novo hotel e, secretamente, minha sala de experimentos. Seu estilo singular atrairá diversos tipos de pessoas. O lugar perfeito para... causar terror e estresse mental para meus experimentos de distorção do éter. Vou até deixar o preço mais barato para atrair mais cobaias... digo, clientes.
30 de julho de.
Recebi um casal em lua de mel. O homem foi o primeiro. Esfaqueei-o repetidamente enquanto a mulher assistia a tudo. Depois, deixei que ela tentasse fugir. A caçada... era isso que faltava. O medo primordial realmente influencia o éter pós-morte. Ela se jogou escada abaixo. O cadáver apodreceu bem mais rápido. Progresso.
1 de dezembro de.
Hoje chegaram uma mãe e uma filha, fugitivas de Gaia. A filha tem poderes. Sem dinheiro, sem ninguém para procurá-las... o tipo de pessoa cujo desaparecimento seria um alívio para o mundo. O mês mal começou e já estou recebendo meu presente de Natal antecipado?
O diário terminava ali; várias páginas estavam rasgadas ou manchadas além da legibilidade. Um silêncio pesado caiu sobre o grupo e o ar parecia se condensar ao redor deles, enquanto o peso das palavras de Maicon Dates — o autor cujo nome estava rabiscado na primeira página — ecoava em suas mentes.
— Maicon Dates... — sussurrou Nero, o nome trazendo um reconhecimento horrível, como uma memória esquecida que voltava à tona. — Eu li sobre ele nos arquivos de Babylon. Foi um dos casos mais famosos de vinte anos atrás.
Enquanto caminhavam pelos corredores escuros e opressores de volta ao segundo andar, o som de seus passos ecoava contra as paredes, misturando-se ao gotejar distante de água em algum lugar nas profundezas da torre. A conversa continuou, o peso do diário ainda pairando sobre eles como uma sombra.
— Famoso? Nunca ouvi falar — disse Dante, chutando uma pedra solta que rolou pelo chão com um som abafado. — Deve ser um vilão de filler, então — acrescentou em tom leve, mas com um toque de curiosidade, enquanto ajustava o casaco rasgado, sentindo o tecido farfalhar contra a pele.
— Ele não foi um "vilão de filler" — retrucou Nero, a voz cortante como uma lâmina, enquanto caminhava ao lado dele com os olhos fixos no corredor à frente. — Ele foi um serial killer que aterrorizou esta região por anos. Ele usava esta torre como seu matadouro pessoal. — O tom dela era frio, carregado de uma raiva contida, enquanto apertava o cabo da espada, fazendo o metal emitir um leve clique.
Luck passou a mão por uma parede de pedra fria e úmida, os dedos roçando a superfície áspera, sentindo a textura irregular sob a pele.
— Entendi. Bem que eu estava me perguntando por que essa torre foi projetada dessa forma. Agora a arquitetura faz mais sentido — comentou, a voz calma, mas com um peso analítico. — Corredores que não levam a lugar nenhum, escadas em espiral que te deixam tonto... Não é um hotel, é uma ratoeira.
Ele parou, olhando para as marcas na parede como se pudesse ver os ecos das vítimas que ali estiveram.
— E o caso nunca foi "solucionado" — murmurou Kurokawa, abraçando a si mesma, o tecido da roupa roçando contra a pele enquanto ela tentava conter um arrepio.
— Peraí, como assim? Não acabaram de dizer que a investigação foi feita, que ele era um serial killer, e agora temos até esse diário? — Dante o balançou na frente deles.
— Tsk, devia saber muito bem que o mundo não é simples assim. De nada adiantava saber se não podia ser provado. O mundo funciona assim mesmo.
Dante balançou a cabeça enquanto segurava o diário.
— Bom, é verdade. Principalmente dependendo de onde ele foi julgado. Se tivesse sido em Gaia e as vítimas dele fossem Shapers, não iriam pegar tão pesado no julgamento.
— Exato. No fim, nenhum corpo foi realmente encontrado e, por mais que todos soubessem a verdade, nada foi feito. Esse maldito teve sorte que esta torre fica bem na divisa de Alexandria e Gaia — Nero comentou, fechando a mão com raiva, incapaz de aceitar aquele resultado. — E assim nasceu a torre assombrada. Dizem que as mortes e o Éter distorcido que ele gerou acabaram atraindo monstros para cá. Ghouls, como os que enfrentamos.
— Mas então, o que aconteceu com ele? — Luck questionou.
— A versão oficial é que Maicon foi morto pelas próprias criaturas que suas ações invocaram. — A voz de Nero agora era baixa enquanto ela olhava para o chão, as manchas escuras parecendo pulsar sob a luz fraca. — Se bem que, se tiver sido só isso, ainda vou achar bem pouco.
Eles chegaram a uma bifurcação; o corredor à frente terminava em uma parede sólida, enquanto o outro virava abruptamente à direita, desaparecendo na escuridão.
— Que design de mapa mais porco — reclamou Dante, encostando-se na parede do beco sem saída, o casaco roçando contra a pedra. Ele bateu nela com as costas da mão e o som oco ecoou no silêncio. — Hum?
Ele bateu novamente, mais forte, e o som reverberou como um tambor abafado.
— O que foi? — perguntou Luck, aproximando-se, estreitando os olhos enquanto observava Dante.
— Sabe, eu sinto que todos os corredores, sem exceção, têm uma passagem secreta — Dante começou, olhando ao redor com um interesse renovado, os olhos brilhando com uma mistura de curiosidade e desconfiança. — Como esta parede... mas, se for esse o caso, como ele morreu dentro do próprio hotel? — Ele empurrou a estrutura com mais força e uma seção da parede rangeu, o som de pedra contra pedra ecoando enquanto uma passagem estreita se revelava, com a escuridão além engolindo a luz da lamparina.
Nero e Luck se entreolharam, o peso da observação de Dante pairando no ar como uma revelação.
— Você tem razão — disse Nero, examinando a entrada e percorrendo as bordas da pedra com atenção afiada. — Se ele foi encurralado e morto por monstros, por que não usou suas passagens secretas para fugir? — Sua voz carregava uma ponta de dúvida enquanto ela passava a mão pela borda da passagem, o toque leve levantando uma fina camada de poeira.
— A menos que... — continuou Dante, um sorriso lento se formando em seu rosto, como se tivesse acabado de descobrir uma reviravolta no roteiro de um anime. — ...ele não tenha sido morto por monstros coisa nenhuma! — Ele apontou para a abertura, o gesto cheio de entusiasmo, enquanto o casaco farfalhava com o movimento.
— O caso foi encerrado, Dante — disse Nero, embora seu tom agora carregasse hesitação enquanto cruzava os braços, o tecido da jaqueta roçando contra a pele. — Encontraram restos mortais, e a torre ficou quieta por vinte anos.
— Mas ela voltou à ativa agora, não é? — Dante perguntou, em tom provocador, virando-se para o grupo com o sorriso alargando-se. — Simbora! A side quest para desvendar o mistério do vilão supostamente morto começou! — Ele deu um passo à frente, entrando na passagem, o som de suas botas ecoando contra o chão estreito.
Seguindo pelo caminho oculto, eles emergiram em uma parte diferente do segundo andar, perto da escadaria que levava para cima. O ar ali era ainda mais frio, cortante contra a pele e carregado com um peso que parecia pressionar os ombros. As paredes eram mais lisas, quase polidas, como se alguém as tivesse mantido intencionalmente.
— Não é possível que todas as novas mortes tenham sido causadas por monstros... Então, quem está matando as pessoas nesta torre? — disse Kurokawa, abraçando a si mesma, o tecido da roupa roçando em sua pele enquanto ela tentava se aquecer.
Parte 3
Em algum lugar oculto entre os andares da Torre Date, envolto pela escuridão sufocante de um aposento secreto, o ar era frio e carregado com o peso de segredos antigos. As paredes, cobertas por tapeçarias rasgadas e manchadas pelo tempo, pareciam absorver a luz de uma única vela que tremeluzia. No centro da sala, uma figura envolta em sombras permanecia sentada, o contorno de seu corpo mal discernível, como se fosse parte da própria escuridão. Diante dela, um tabuleiro de xadrez repousava, com as peças de ébano e marfim dispostas em um padrão caótico, como se o jogo tivesse sido interrompido no meio de uma jogada crucial.
— Então, finalmente, hóspedes interessantes apareceram... — murmurou a figura para o vazio, com a voz masculina, grave e rouca, carregada de um prazer cruel que ecoava pelas paredes, como se a própria torre respondesse ao seu tom. Um sorriso lento e predatório curvou seus lábios, os olhos brilhando com um fulgor sobrenatural que cortava a escuridão. Ele estendeu uma mão pálida, os dedos longos pairando sobre o tabuleiro, como se escolhesse a próxima jogada em um jogo que apenas ele compreendia.
— Vão, explorem. Divirtam-se. Descubram até que andar serão capazes de chegar — continuou, a voz agora um sussurro venenoso, cada palavra destilada com uma mistura de divertimento e malícia. — Eu, como antigo proprietário desta... instalação... dou a vocês permissão para brincar no meu antigo parque de diversões. Então, me distraiam pelo máximo de tempo que puderem... — Ele fez uma pausa, o sorriso alargando-se. — ...antes que o tempo acabe... e o verdadeiro fim de tudo chegue.
A vela tremeluziu, a chama vacilando como se respondesse às palavras, lançando sombras que pareciam formar rostos distorcidos nas paredes, expressões de angústia e terror congeladas no tecido rasgado.
Parte 4
Vinte anos depois.
14 de julho de 20018, 17:30 da Tarde - Torre Dates (Alexandria)
Anos depois dos eventos na Torre Date, o local considerado assombrado havia se tornado pouco mais que uma nota de rodapé nos arquivos empoeirados da cidade flutuante; um ponto esquecido no mapa, marcado apenas para explorações de rotina. O que outrora fora um epicentro de mortes era agora um fantasma de concreto abandonado, com paredes altas e decrépitas engolidas por trepadeiras grossas e um musgo viscoso que se espalhava como veias pulsantes pela estrutura. O sol poeirento do entardecer pintava o céu em tons de laranja e vermelho-sangue, lançando sombras longas e distorcidas sobre o terreno árido e rachado, onde o calor tremeluzia. Para o grupo de cinco estudantes da Academia de Babylon, a torre representava nada além de uma tarefa tediosa, um dinheiro fácil que prometia pouco mais do que tédio e suor desperdiçado. A missão era simples, quase um insulto à sua formação rigorosa: mapear os níveis inferiores em busca de flutuações residuais de éter, uma rotina burocrática que parecia mais um exercício de paciência do que uma verdadeira aventura em uma dungeon.
O grupo avançava pelo terreno irregular, as botas chutando pedras soltas e a poeira que se erguia em nuvens finas, irritando os olhos e a garganta. Shiki, o líder designado, caminhava à frente, com sua silhueta alta e esguia destacando-se contra o horizonte tremulante. Ele era um jovem de vinte e poucos anos, de cabelos negros curtos e olhos afiados que pareciam sempre analisar o ambiente ao redor.
— Não baixem a guarda — disse ele, sua voz geralmente firme soando mais como um eco mecânico de seus instrutores da Academia do que como uma convicção profunda e pessoal.
Seu olhar varria a fachada decrépita da torre, notando as rachaduras que serpenteavam como cicatrizes antigas na superfície de concreto. O peso da responsabilidade tornava seus ombros tensos, e ele endireitou a postura instintivamente, tentando transmitir uma autoridade que ainda não sentia completamente enraizada em si mesmo.
— Ah, qual é, Shiki! — retrucou Ed, chutando uma pedra solta com força excessiva. O som do impacto ecoou baixo no ar parado e seco, como um tiro abafado. Ed era o oposto de Shiki: impulsivo, com cabelos castanhos desgrenhados e um sorriso perpétuo que mal disfarçava sua impaciência. — Você sabe tão bem quanto eu que não tem nenhum éter aqui. É perda de tempo total. Admita, você só aceitou essa missão pela recompensa fácil. Pagar aquele jantar caro pra Layla vale tanto assim, hein?
Ele falava alto, seu tom provocador ecoando pelo terreno vazio como se desafiasse o silêncio da torre a responder. Shiki fuzilou-o com o olhar, os olhos estreitando-se em fendas afiadas enquanto um leve rubor subia pelo seu pescoço, traindo sua compostura cuidadosamente construída. Ele sentiu o calor subir para as bochechas, um lembrete incômodo de como Ed sempre conseguia cutucar seus pontos fracos.
— Estou apenas dizendo para você seguir o procedimento padrão, Ed — respondeu, com a voz firme, mas com um toque de irritação que não conseguiu mascarar completamente. Shiki apertou os punhos, recordando brevemente as lições da academia: "A disciplina é a barreira entre a vida e a morte em uma dungeon." Mas ali, no calor opressivo, aquelas palavras pareciam vazias.
— "Procedimento padrão" — Ed imitou a voz de Shiki com exagero teatral, fazendo aspas no ar com os dedos. O gesto era cheio de drama enquanto ele caminhava ao lado do grupo. — Desde que você e a Layla ficaram sérios, você virou o "Senhor Procedimento". Cadê aquele cara que invadiu uma dungeon de nível S comigo só pra ver se conseguia? Lembra daquela vez? A adrenalina, o risco... era isso que nos fazia sentir vivos!
Ele riu, o som ecoando contra a torre imponente, mas com um toque de nostalgia genuína que suavizava sua provocação. Layla, que andava de mãos dadas com Shiki, apertou os dedos dele com mais força. O toque era quente, porém trêmulo, como se sentisse os olhos de Ed direcionados a ela com uma mistura de irritação e diversão relutante. Seus cabelos eram brancos e seus olhos amarelos brilhavam com uma mistura de afeto e fadiga.
— Deixe eles em paz, Eduard. Alguém aqui tem que ser o responsável. Se dependesse de você, já teríamos explodido alguma coisa — disse Lucy, outra companheira. Sua voz era suave e melodiosa, mas com uma ponta de sarcasmo afiado que cortava o ar como uma lâmina sutil. Lucy era a rastreadora, possuía cabelos loiros curtos e uma postura sempre alerta, como se seus sentidos estivessem sintonizados com frequências invisíveis.
— E teria sido mais divertido! — retrucou Ed, piscando para Lucy com um sorriso malicioso enquanto chutava outra pedra, o som reverberando como um ponto final em sua declaração.
— Parem, os dois. — A voz de Maria era suave, mas carregava uma autoridade inata que sempre funcionava, como um farol cortando a névoa densa de uma tempestade. Maria, com seus cabelos castanhos ondulados e olhos gentis que pareciam sempre oferecer conforto, passou o braço pelos ombros de Ed, um gesto maternal que pareceu acalmá-lo instantaneamente. O tecido de sua jaqueta roçou contra ele com um som abafado. — Nós somos uma equipe. Vamos entrar, fazer o trabalho, receber e, depois, o Ed paga a primeira rodada para todo mundo como pedido de desculpas. Certo, Ed? — Ela sorriu, em um gesto caloroso e genuíno, enquanto seus olhos brilhavam com uma gentileza que contrastava vividamente com o ambiente árido e hostil ao redor.
Ed bufou, em um resmungo quase relutante, mas um pequeno sorriso brotou em seu rosto, traindo sua fachada de rebeldia. — Certo, mamãe — disse, em tom brincalhão e afetuoso, enquanto dava um tapinha leve no ombro dela, um contato breve, mas reconfortante. Por um momento, o grupo riu baixinho, o som dissipando um pouco a monotonia do ambiente, como uma brisa fresca em meio ao calor sufocante.
Enquanto se preparavam para entrar, ajustando equipamentos e verificando sensores de éter, Lucy permaneceu imóvel, com a cabeça inclinada ligeiramente para o lado como se escutasse algo que os outros não podiam captar.
— Lucy? Tudo bem? — perguntou Shiki, aproximando-se com passos cautelosos. O tom era carregado de preocupação genuína enquanto observava a expressão dela; o vento soprava levemente seu cabelo, trazendo o cheiro de poeira para mais perto.
Ela moveu os olhos devagar, indo da torre para o companheiro em um movimento lento e deliberado, como se o que sentira a perturbasse profundamente. — Sim... é só que... nada, deve ser só impressão — disse, com a voz baixa, quase um sussurro rouco, enquanto abraçava o próprio corpo. O tecido da blusa roçou contra a pele arrepiada. Afastada, Layla a observava com um olhar estranho.
— Relaxa, o Shiki não é do tipo que iria te trair. — Maria, sorrindo, aproximou-se de Layla ao vê-la encarando Lucy de forma suspeita.
— Não... eu não... — Layla murmurou, escondendo o rosto.
Eles entraram na torre em um silêncio que, agora, não era mais de tédio puro, mas de um desconforto sutil e crescente — uma coceira insistente na nuca que tentavam ignorar com força de vontade. O interior era um labirinto sombrio de corredores escuros, com o ar saturado pelo cheiro opressivo de mofo antigo, poeira acumulada e um leve odor metálico que lembrava sangue seco.
A luz do sol poente entrava por janelas quebradas e rachadas, iluminando partículas de poeira em uma dança macabra e lenta, como almas presas em um limbo eterno. O som de seus passos ecoava nas paredes de pedra fria, misturando-se ao ocasional farfalhar de detritos soltos no chão, que soava como sussurros indecifráveis de vozes longínquas. Cada corredor parecia se estender infinitamente, com sombras que se moviam nos cantos da visão periférica, fazendo os corações de todos acelerarem ligeiramente. As horas se arrastaram como feridas abertas e latejantes, o tempo dilatando-se no calor abafado e no silêncio opressivo; a torre estava exatamente como os relatórios descreviam: vazia, poeirenta e morta, mas agora com uma aura de expectativa que pesava no ar como uma névoa invisível.
Finalmente, após subirem escadas rangentes e instáveis, cujos degraus de metal oxidado gemiam sob seu peso, eles chegaram ao terceiro andar — o mesmo local da antiga batalha de Dante, agora transformado em um salão amplo e silencioso, com a quietude reverente de uma catedral esquecida pelo tempo. As paredes, marcadas por rachaduras profundas e manchas escuras de umidade que pareciam lágrimas secas, exibiam buracos enormes no teto, através dos quais feixes de luz poente penetravam como lâminas douradas. O chão de pedra estava coberto por uma fina camada de poeira cinzenta, acumulada em volta de outro grande buraco irregular no centro, como uma boca escancarada para o abismo abaixo.
— Eu falei! — disse Ed, com um sorriso triunfante e amplo, abrindo os braços como se abraçasse o vazio absoluto do salão, o movimento fazendo o ar ao seu redor vibrar. Ele girou nos calcanhares, sentindo a poeira se erguer sob seus pés, e riu alto, o som ecoando pelas paredes vazias. — Não tem absolutamente nada aqui! Nada! Shiki, você me deve uma cerveja por ter me arrastado até esse buraco poeirento... — Ele parou abruptamente, o sorriso congelando no rosto como uma máscara rachada, enquanto seus olhos se arregalavam ao captar um movimento sutil no canto da visão.
— Kyaaaaaa!!!!
O grito agudo e aterrorizado de Layla cortou o ar como uma lâmina afiada, fazendo todos se virarem em um instante; o tédio se estilhaçava como vidro frágil sob pressão. O coração de Shiki disparou, uma onda de adrenalina gelada correndo por suas veias. Maria estava suspensa no ar, a um metro do chão, com o corpo arqueado para trás em uma pose grotesca e antinatural, como uma marionete quebrada cujas cordas foram puxadas com violência excessiva. Uma estaca de metal negro e retorcido, surgida do chão sem aviso e sem som algum, a empalava pelo abdômen; o sangue vermelho-vivo escorria pela haste opaca e irregular, pingando no chão em um ritmo nauseante que ecoava no silêncio repentino, como gotas em uma caverna vazia. Seus olhos, antes gentis e acolhedores, estavam arregalados em um terror mudo e absoluto, a vida esvaindo-se deles em um brilho decrescente enquanto seu corpo tremia involuntariamente, com os músculos contraindo-se em espasmos finais.
De repente, todo o ambiente escureceu, como se algo tivesse coberto a torre com um véu negro e opaco. As sombras se aprofundaram rapidamente, engolindo a luz remanescente e deixando apenas silhuetas vagas. O ar esfriou abruptamente, um calafrio percorrendo a espinha de todos, como se a própria torre tivesse acordado de um sono profundo e hostil.
Antes que o choque paralisante pudesse se transformar em ação coordenada, uma voz ecoou, fria e clínica, como um médico ditando notas impessoais após uma cirurgia malsucedida, sem um traço de emoção humana:
— Iniciando protocolo de observação. Sujeitos: cinco. Resposta inicial ao estímulo letal: pânico e confusão. Previsível. A amostra "Maria" demonstrou baixa resistência estrutural.
Pilares de ferro, idênticos à estaca que matara Maria — negros, retorcidos e pulsantes com uma energia sombria —, começaram a surgir do chão e do teto com um som grave e metálico. Eles emergiam com precisão assustadora, cercando o grupo, bloqueando as saídas e transformando o salão em uma jaula inescapável. Lucy fechou os olhos com força, as mãos pressionando as têmporas latejantes; desesperada, o corpo tremia violentamente enquanto ela tentava rastrear a fonte da energia distorcida, sua mente de éter estendendo tentáculos invisíveis pelo salão.
— Impossível... A energia residual... está vindo da...
Ela não terminou a frase. Outra estaca a perfurou pelas costas com uma velocidade brutal, saindo por seu esterno em uma explosão de sangue quente e viscoso; o som úmido e repulsivo ecoou na sala como um tapa molhado. Chamas negras, frias e vorazes lamberam seu corpo instantaneamente, consumindo-a em um piscar de olhos.
— Análise perspicaz. A amostra "Lucy" identificou a origem do éter como previsto. Removendo variável para não comprometer o experimento. Prossigamos — disse a voz, pausando como se consultasse uma prancheta invisível, o tom inalterado e distante. — Estou curioso. Uma nova hipótese: o que é um catalisador emocional mais forte, o vínculo de camaradagem ou o instinto de autopreservação acoplado ao apego romântico? Shiki, você será o agente desta fase. O procedimento é simples: termine a função vital do sujeito "Ed". Em troca, a variável "Layla" será poupada, junto a você, para observação futura.
— Mas que merda você está falando?! Quem é você? Apareça! — Ed gritava para as paredes, desesperado, sem conseguir identificar a origem do som. Sua voz rouca ecoava inutilmente no vazio escuro. Ele girava no lugar, os punhos cerrados e o suor frio escorrendo pelas costas, misturando-se ao pânico que apertava seu peito como uma garra.
Um silêncio sepulcral engoliu a sala, tão denso que parecia ter peso físico, pressionando os ombros dos sobreviventes e tornando cada respiração laboriosa. Ed olhou para Shiki com o rosto pálido de terror puro, mas ainda com uma centelha de confiança desesperada no amigo de longa data; o peito subia e descia rapidamente em respirações ofegantes.
— Qual é, cara...? Não vamos cair nessa... Deve ser algum truque mental. Lembra daquela vez em Neo-Kyoto, quando ficamos encurralados? A gente saiu rindo no final, com histórias pra contar! — Sua voz tremia, quebrando no final, enquanto ele dava um passo à frente, hesitante, estendendo a mão como se pudesse ancorar Shiki de volta à realidade.
Os olhos de Shiki perderam todo o brilho. O conflito interno, o terror palpável, a lealdade inabalável... tudo se apagou em um instante, substituído por um vazio absoluto e assustador, como se suas emoções tivessem sido drenadas por uma força invisível, deixando apenas uma casca vazia. Ele materializou sua espada de luz; a lâmina zumbia no ar pesado com um som agudo e vibrante, enquanto o brilho azul refletia nas paredes de pedra e iluminava as poças de sangue no chão.
— Shiki, não! — gritou Ed, dando um passo instintivo para trás. A confiança se quebrava em puro pavor primordial enquanto ele levantava as mãos em um gesto defensivo fútil, com o corpo tremendo incontrolavelmente.
Antes que Ed pudesse esboçar uma reação mais elaborada — ativar sua habilidade ou simplesmente fugir —, a lâmina perfurou seu peito com um som úmido e nauseante. O sangue espirrou no chão em um arco vermelho. Shiki não parou; seus movimentos eram mecânicos e precisos, como os de um autômato programado. Com um golpe brutal e eficiente, ele rasgou a lâmina para o lado, partindo o torso de seu amigo ao meio em um talho horrendo. O som de carne e osso se rompendo ecoou na sala como um trovão abafado. As duas metades do corpo de Ed caíram com um baque surdo e molhado. O sangue espalhou-se em uma poça escura e pegajosa que refletia a luz fraca das janelas quebradas, expandindo-se lentamente pelo chão irregular.
— Me... desculpa... — soluçou Shiki. A consciência retornava em uma onda avassaladora de horror e culpa, o rosto banhado em lágrimas e no sangue ainda quente de Ed enquanto ele caía de joelhos diante do corpo mutilado. A espada de luz piscava erraticamente até apagar-se em sua mão trêmula. Suas mãos tremiam violentamente ao tocar o chão ensanguentado; o cheiro de ferro e morte invadia suas narinas, fazendo seu estômago revirar.
E então, uma gargalhada quebrou o silêncio opressivo — aguda, histérica e completamente descontrolada —, reverberando pelas paredes como um reflexo distorcido da loucura. Era Layla.
— Hahahaha! Eu não acredito que você realmente pediu "desculpas"! — ela engasgou, dobrando-se de tanto rir, as lágrimas escorrendo por seu rosto enquanto batia a mão na coxa com força. O som ecoou pela sala vazia e sombria. — Ah, isso foi perfeito! Eu gravei aqueles áudios, mas não imaginei que você o mataria de forma tão... patética!
Ela caminhou calmamente até o fundo da sala e chutou um pequeno gravador escondido nas sombras; o dispositivo cintilou brevemente antes de apagar com um clique seco, como o ponto final de uma sentença.
Shiki a encarava, o desespero cobrindo suas feições como uma máscara de agonia; ele ainda não parecia entender completamente, com a mente nublada pelo choque e pela dor lancinante. Vendo aquilo, Layla levou a mão à garganta delicada e começou a mudar o tom de voz enquanto deixava seu éter visível, uma aura dourada emanando dela.
— Será que consegue entender agora, sujeito de teste Shiki? — A voz dela saiu masculina, idêntica à que estava manipulando tudo das sombras: fria e calculista.
Juntando os fragmentos dispersos em sua mente quebrada, ele finalmente começou a entender; as peças se encaixavam como um quebra-cabeça macabro.
— Por quê?! — O grito de Shiki era pura agonia, uma ferida aberta em forma de um som rouco e rasgado. Ele se levantou devagar, o corpo tremendo com espasmos de raiva e tristeza, as mãos cerradas em punhos tão apertados que as unhas cravavam na palma. Encarava Layla enquanto o sangue de Ed ainda pingava de sua roupa encharcada, grudando na pele.
— Ah, seu idiota — disse Layla, com o rosto desprovido de qualquer calor humano. Os olhos, que antes o olhavam com amor fingido, agora o mediam com um frio desdém calculado, como se ele fosse um experimento fracassado em um laboratório abandonado. Ela cruzou os braços, inclinando a cabeça ligeiramente. — Eu precisava de sacrifícios. De emoções fortes. Medo. Desespero. Traição... O combustível mais puro para despertar esta torre. Você e os outros foram apenas... ferramentas perfeitas para isso.
— E por algo assim... você matou seus companheiros por algo assim! — A voz de Shiki explodiu, carregada de ódio cru e raiva fervente, enquanto ele encarava a garota que falava de suas ações com total desdém. Seus olhos ardiam com lágrimas não derramadas e ele sentiu o éter em seu corpo se agitar, instável e perigoso.
— Calma lá, amigão. Tecnicamente, eu só matei duas. A morte do Ed... — Ela sorriu, um sorriso largo e cruel que distorcia seus traços bonitos em algo monstruoso. As sombras do salão escurecido esconderam parte de seu rosto, mas o brilho de seus dentes parecia ir de orelha a orelha, como um predador satisfeito. Com um gesto casual, ela apontou para o corpo mutilado no chão, o dedo traçando um arco no ar. — É toda sua. Hahahaha!
A raiva, pura e primordial, superou o choque paralisante como uma onda tsunâmica. Com um urro animalesco que não parecia humano — gutural, rouco e cheio de fúria cega —, Shiki avançou, a espada de luz crepitando em sua mão com uma intensidade furiosa. O zumbido da lâmina enchia o ar com uma energia elétrica e instável, iluminando o salão em flashes azuis. Seus passos ecoavam pesados no chão ensanguentado, o corpo impulsionado por uma força além da razão. Mas o chão respondeu à vontade de Layla com obediência imediata: uma estaca de metal negro surgiu com precisão cirúrgica e impiedosa, empalando-o no meio do peito. O som úmido e definitivo ecoou enquanto o sangue escorria em cascata, banhando o corpo da traidora de cabelos brancos com um vermelho-vivo.
Ele olhou para baixo, para o metal frio e retorcido que o prendia no lugar, e depois para ela, com os olhos arregalados em descrença absoluta e a dor lancinante irradiando por todo o corpo como fogo líquido. Enquanto as chamas negras o consumiam vivo, lambendo sua pele com um frio abrasador, sua mente gritava uma única pergunta, ecoando na eternidade de seu último segundo: "Por quê...?"
Layla observou as cinzas de seu namorado se assentarem no chão, ao lado dos restos carbonizados e ensanguentados de seus amigos, com uma calma assustadora e sobrenatural. O rosto estava sereno, como se contemplasse uma obra de arte abstrata e perfeita. Ela limpou uma lágrima de riso do canto do olho, em um gesto lento e deliberado, enquanto o silêncio da torre parecia curvar-se a ela, reverente e submisso.
— Bom, agora já deve ter éter distorcido o suficiente. Chega de jogos — disse ela, erguendo a voz com uma autoridade recém-adquirida, não para as sombras vazias, mas para a própria torre, para o ar carregado. O tom era cheio de uma impaciência arrepiante e expectante. — Apareça! Eu não tenho todo o tempo do mundo! — gritou, o som reverberando pelas paredes rachadas como se desafiasse a própria estrutura a responder.
Parte 5
20 de julho de 20018, 04:30 da Manhã - Torre Dates (Alexandria)
Semanas depois do incidente que abalou os rumores entre os aventureiros, um novo grupo ousado chegou à imponente Torre Dates, erguendo-se como uma relíquia esquecida no horizonte enevoado. Os três membros — Sora, Nyan e Leon. — pisavam com cautela no solo seco e rachado que levava à entrada da torre. O ar ao redor carregava um cheiro metálico, misturado ao vento que sussurrava antigas maldições, como se a própria terra os observasse.
Enquanto isso, os membros do grupo anterior, aqueles infelizes exploradores que haviam se aventurado antes deles, foram brutalmente dizimados em meio às sombras traiçoeiras da torre. Seus gritos ecoavam apenas nas memórias dos sobreviventes — ou melhor, da única sobrevivente. Apenas Layla retornou, cambaleando para fora da escuridão como um fantasma vivo, seu rosto pálido e marcado por linhas de terror que envelheciam sua juventude. "Traumatizada demais" para explicar o ocorrido, ela se limitava a balbuciar fragmentos incoerentes sobre "sombras que devoram" e "olhos no vazio", seus olhos vidrados evitando qualquer contato, como se reviver a memória pudesse invocá-la de volta.
Assim que o grupo de Nyan se aproximou da velha Torre Dates, onde eles notaram uma mudança sutil, mas palpável no ambiente. O terreno, antes inerte e silencioso como um cemitério abandonado, agora pulsava com uma energia ritmada, como o batimento de um coração enterrado nas profundezas da terra. Sora franziu a testa, enquanto Nyan erguia as orelhas, farejando o ar carregado de um odor etéreo. Leon, por sua vez, apertou o cabo de sua espada.
O Ether dormente da torre havia, mais uma vez, despertado, infundindo o ar com uma aura iridescente que dançava no canto dos olhos, distorcendo a realidade em padrões sutis de luz e sombra. Aviso : Obrigado de verdade por ter lido até aqui. Mas, sério: se você realmente curtiu, considera comprar o restante na Amazon. Isso ajuda demais a financiar e continuar a obra.
By : AngelDark



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